Ampliando as possibilidades étnicas nos contos de fadas

Por Paula Lisboa

Já falamos um pouco aqui sobre a importância dos contos de fadas na formação leitora das nossas crianças. Como parte do universo dos contos de tradição popular, os contos de fadas estão presentes em todas as culturas, com variações a depender de seu país e cultura de origem.

Façamos aqui outra reflexão: para além das narrativas em si, quais são as referências étnicas e culturais trazidas pelo mundo encantado das histórias mais difundidas entre nós, cujos autores e compiladores são de origem européia? Basta uma rápida pesquisa no google para constatar:

Cinderela: sempre loira de olhos azuis / Rapunzel: loira de olhos verdes, às vezes com cabelo castanho claro / Cachinhos Dourados: loira de olhos azuis / Joãozinho e Maria: cabelos castanhos por vezes loiros, mas sempre de pele branca

Não é difícil imaginar que a representação de um universo exclusivamente branco possa afetar diretamente a autoestima das crianças não brancas, assim como limitar a formação de referências étnicas de todas as crianças. Isso se torna ainda mais preocupante em um país como o nosso, onde mais da metade da população é de pretos ou pardos (54% em 2015, segundo dados do IBGE).

Foi com esta preocupação que Ronaldo Simões Coelho e Cristina Agostinho criaram magistralmente estes recontos incríveis, ambientados nas diversas regiões do Brasil. Para completar, Walter Lara ilustrou de maneira belíssima as princesas, príncipes, bruxas, monstros e animais, partindo do nosso imaginário cultural.

Vale a pena conhecer e ler para as crianças toda a coleção, já preparados para os questionamentos que é bem provável que possam aparecer. É importante estarmos abertos para a reflexão, e se ficar sem respostas podemos também expor nossas dúvidas. Afinal de contas, há quanto tempo vemos as princesas sempre brancas e loiras, não é mesmo?

AGOSTINHO, Cristina; COELHO, Ronaldo Simões. Afra e os três lobos-guarás. Belo Horizonte: Mazza, 2013.

AGOSTINHO, Cristina; COELHO, Ronaldo Simões. Joãozinho e Maria. Belo Horizonte: Mazza, 2013.

AGOSTINHO, Cristina; COELHO, Ronaldo Simões. Rapunzel e o Quibungo. Belo Horizonte: Mazza, 2012.

AGOSTINHO, Cristina; COELHO, Ronaldo Simões. Cinderela e Chico Rei. Belo Horizonte: Mazza, 2015.

Saci-Pererê, o bastião da cultura popular brasileira

Por Fernanda de Lima Passamai Perez

Sabe aquele leite que sua mãe diz azedou mesmo estando na validade e dentro da geladeira? O quarto que você deixou arrumado de e, de repente, tá todo revirado? E a lição de casa? Na hora de entregar à professora você percebe que o texto que você levou horas redigindo não existe mais. Sumiu! E o livro da biblioteca.  Você tem certeza, jura de pé junto, que o devolveu, pois não o encontra em casa, mas a bibliotecária insiste que não.

Pois é, mesmo que você não acredite. Mesmo que você more na cidade.  Cuidado, você pode ter sido mais uma vítima do Saci. Sim, do Saci-Pererê. Só pode ser! Preste atenção! Você já notou quando mal a noite cai, do nada um assobio forte, inumano, chega aos seus ouvidos. Pode ter certeza, é o dito cujo saindo do esconderijo e começando suas travessuras.

Ainda não está convencido? Então é melhor você ler O Saci-Pererê: o resultado de inquérito.

A ideia de tal investigação veio a Monteiro Lobato quando escrevia a coluna “Mitologia brasílica” para a edição matutina do jornal O Estado de São Paulo e “a angústia do gás asfixiante e a selvageria dos modos civilizados de matar em grande” advinda das notícias sobre a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) o incomodavam profundamente. As diabruras do maroto desviou sua atenção “para quadro mais ameno que trucidar povos”. (Anos mais tarde o autor retomaria o tema no imperdível e, ainda atual, A chave do tamanho (1942) quando através da boneca Emília tenta desligar a chave da guerra no auge da 2º Guerra Mundial).

A partir de 1917, Monteiro Lobato começou o levantamento de dados focado no mito tupi-guarani na região de fronteira do Brasil e Paraguai, chamado de Çaa cy perereg – olho mau saltitante. Nas relatos mais antigos, o maroto possuía características demoníacas como rabo, chifres e cheiro de enxofre, porém ao longo do tempo, ganhou pito, gorro vermelho e teve a tonalidade de sua pele alterada.

Os relatos vieram de vários lugares do Brasil, alguns anônimos, e contribuíram para que o criador de mundo mítico do Sítio do Pica-pau Amarelo reunisse em o que podemos chamar de Documento, histórias que resgatam a cultura popular e ainda são capazes de nos causar arrepios e divertir.

Hoje, 31 de outubro comemora-se o Dia do Saci-Pererê. Tenho que certeza de que você ou alguém que você conhece tem uma história na ponta da língua para contar.

LOBATO, Monteiro. O Saci-Pererê, resultado de um inquérito. São Paulo : Globo, 2008.

 

 

 

 

 

 

Diário de Blumka

por Lucas Meirelles

 

“Literalmente, acabou de chegar!” :)

 

“Diário de Blumka”, lançamento da autora Iwona Chmielewska, traz uma adaptação do diário da menina Blumka que, junto de outras 200 crianças viveu sob os cuidados de Janusz Korczak (1878-1942). As ilustrações são de uma delicadeza e uma sofisticação muito grandes. Tantos detalhes e tanta simplicidade. A poesia perpassa as palavras e as imagens.

Korczak, dentre outras tantas profissões/ vocações, foi pedagogo e teórico de educação e dirigiu um orfanato (descrito no livro). Lá as crianças tinham tamanha autonomia que um tribunal onde as decisões eram tomadas pelas próprias crianças foi criado. Pela leitura do texto a paixão pela educação e, principalmente, pelas crianças vai aumentando.

 

Diário de Blumka

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referência:

CHMIELEWSKA, Iwona. Diário de Blumka. São Paulo: Pulo do Gato, 2017. 70 p. ISBN 9788564974807

Drufs e o Livro da Família

Por Paula Lisboa

Os 3ºs anos do Ensino Fundamental realizam um elaborado projeto chamado “Livro da Família”.

O projeto tem uma série de etapas que envolvem tanto conteúdos de Ciências Sociais – Memória e História: quem somos nós? – quanto de Práticas de Linguagem – produção de história de infância e a produção final de um livro individual contando a sua própria história.

Falar em família é também pensar em diversidade. Afinal, o leque de opções para a formação familiar é amplo e envolve aceitar diferenças relativas a diversos aspectos: número de pessoas, pais separados ou juntos, casados de novo ou solteiros, crianças que perderam um dos pais, que moram com avós, que são adotivas, que são filhos de relações homoafetivas, pais ou mães que viajam muito ou moram fora, pais ou mães que criam seus filhos sozinhos…

Para contribuir com a reflexão, convidamos os alunos para vir à biblioteca ouvir a leitura de uma história da brilhante autora e ilustradora Eva Furnari. Em DRUFS, seu último livro lançado em 2016, Eva apresenta “certas coisinhas interessantes (ou desinteressantes) que os alunos da professora Rubi escreveram sobre suas próprias famílias” – mais ou menos o que nossas crianças estão fazendo.

Durante a leitura os alunos se mantiveram bastante envolvidos e levantaram questões importantes de serem ouvidas, acolhidas e esclarecidas.

- Ah, já sei, ela deve ser filha adotiva!

- Ah essa família é igual na minha casa: cada um tem um pai, mas todos têm a mesma mãe.

- Coitado, o pai dele morreu…

- Eles são muito engraçados!!

- Mas ela tem dois pais mesmo ou um deles é o padrasto?

- Eu também, sou a única diferente

da minha família, todo mundo é parecido, só eu que não!

- Eu percebi que cada família é diferente e também que cada um tem o seu jeito de apresentar a sua família…

E eu, mais uma vez, percebi que as histórias são um poderoso meio para provocar reflexão, se colocar no lugar do outro e trazer questões pessoais à tona. =)
FURNARI, Eva. Drufs. São Paulo: Moderna, 2016.

E não sobrou nenhum

por Fernanda de Lima Passamai Perez

Ao largo da costa de Devon, Inglaterra, fica a Ilha do Soldado. O lugar virou destaque na imprensa depois que um milionário norte-americano construiu uma moderna e luxuosa casa onde dava festas extravagantes e muito comentadas. Contudo, em pouco tempo, a ilha mudou de dono. A jovem esposa do proprietário sofria de enjoo do mar e ele teve que vender a casa e a ilha.  Segundo se dizia, a propriedade foi comprada por um tal sr. Owen e posteriormente pela Srta. Gabrielle Turnl, estrela de Hollywood. Só isso já bastava para despertar a curiosidade daquelas dez pessoas que receberam um inesperado convite para um final de semana na famosa Ilha do Soldado.

Nenhum dos hóspedes parecia se conhecer ou ter sido convidado pela mesma pessoa. O fato é que é todos pareciam ter algo em comum : o envolvimento na morte de alguém no passado. Pelo menos foi essa a alegação do anfitrião – que revelou-se mesmo ser o sr. Owen. Após o jantar da primeira noite, através de uma uma voz inesperada, inumana e penetrante, ele expôs a acusação que recaía sobre cada uma das pessoas presentes naquela casa.

A partir desse momento, uma espécie de julgamento sumário aconteceu e mesmo alegando inocência, negando as acusações, as sentenças foram executadas tal aquela canção infantil dos Dez Soldadinhos… até não sobrar nenhum!

E não sobrou nenhum, de Agatha Christie, conhecida como a Rainha do Crime,  é um thriller psicológico e um dos mais conhecido romances da autora. Publicado inicialmente como o Caso dos dez negrinhos (Ten little nigers) na Inglaterra em 1939, o título causou polêmica no mercado americano e foi alterado para Ten little Indians e mais tarde para And Then were none. No Brasil, o livro chegou a ser publicado nos anos 50 com o título de O Caso dos Dez Negrinhos, e desde 2008, com o título de E Não Sobrou Nenhum.

Apesar das polêmicas em torno do título, a história segue divertindo leitores ao redor do mundo que são fisgados pela elaborada narrativa na qual toda palavra pode ser uma pista para tentar descobrir o criminoso antes do final.

Um último aviso : o desfecho sempre é surpreendente!

CHRISTIE, Agatha. E não sobrou nenhum. São Paulo : Globo, 2015.

Mônica é daltônica?

por Lucas Meirelles 

A Turma da Mônica vem ganhando nova roupagem. Desde 2015 apareceram álbuns com histórias antigas da Turma com ilustradores que não os  habituais dos estúdios Maurício de Sousa.

“Mônica é daltônica?” (1970) é o primeiro da série e inaugura com o traço de Odilon Moraes. Os diálogos são em grande parte respeitados com o original,  mas as personagens estão um pouco diferentes do que estamos acostumados. No final da história aparecem esboços do novo ilustrador e imagens das  histórias que saíram no gibi da época. A história começa com os meninos, capitaneados por Zé Luís (irmão da Mônica), bolando um ~plano infalível~  para enganar a Mônica e fazer com que ela pare de bater nos outros.

É muito interessante pelo fato de fazer uma troca de formatos: sai de histórias em quadrinhos e chega transformado em literatura. O modo de leitura  muda, pois não há quadros, balões e um sistema para ler, assim como expande as ilustrações, trazendo novos significados para a obra.

É um bom modo de ler Turma da Mônica. Quem não conhece, passa a conhecer as personagens e quem já conhece, se deleita com a lembrança da  história.

 

 

Referência:

SOUSA, Maurício de. Mônica é daltônica?. São Paulo: Companhia das Letrinhas: Maurício de Sousa Editora, 2015. 47 p. (Turma da Mônica). ISBN 9788574066837.

“Pode pegar!”, de Janaína Tokitaka

Por Paula Lisboa

Sabemos que as histórias e os livros infantis têm grande potencial formativo, ajudando na construção da identidade da criança, criando suas primeiras referências de heróis e heroínas. Considerando isso, não podemos ignorar a necessidade de oferecer contos onde não só os meninos mas também as meninas cumpram papel principal, indo além do lugar associado à fragilidade e dependência.

Em seu novo livro “Pode Pegar”, Janaína Tokitaka – autora e ilustradora formada aqui na Escola da Vila – apresenta a história de dois coelhinhos que trocam livremente de roupas e acessórios, sem se importar se isso é “de menino” ou “de menina”. No começo da história eles estão claramente caracterizados como “menino” e “menina”, mas depois do troca-troca já não sabemos mais quem é quem. Afinal o que importa é a liberdade de brincar, experimentar e se divertir! E assim, de maneira sutil e delicada, a autora desconstrói os estereótipos de gênero e deixa no ar a pergunta: o que faz uma roupa ser de menino ou de menina?

Leia mais sobre a discussão proposta pelo livro aqui e aqui!

 Janaina: ‘Escrevi o livro com a esperança de que as crianças de hoje se tornem adultos livres, leves e felizes’

TOKITAKA, Janaina. Pode pegar!. São Paulo: Boitatá, 2017.

A HISTÓRIA DE IQBAL

por Fernanda de Lima Passamai Perez

Iqbal Masih tinha por volta de 5 anos quando ainda morava com sua família no interior do Paquistão. Depois que seu pai contraiu uma dívida – alguns creem que foi para comprar remédios, outros alegam que o dinheiro foi usado para o casamento do irmão mais velho – o pequeno menino foi entregue a agiotas para que trabalhasse em uma tecelagem até que quitasse o débito familiar. O que de fato nunca ocorreria e ele, mesmo ignorante, parecia saber disso. Após alguns anos trabalhando em condições de semi-escravidão, Iqbal subverteu as regras estabelecidas pelo mundo adulto, fugiu e revelou a todos sua condição, contribuindo para que outras crianças também fossem libertadas e pudessem voltar às suas famílias. No entanto, o garoto fez muitos inimigos e mesmo com toda projeção  internacional, Iqbal foi morto em 1995 com aproximadamente 12 ou 13 anos.

Apesar do desfecho triste, A história de Iqbal é um livro bonito. O leitor já inicia a leitura conhecendo seu final e tem a oportunidade de ir, ao longo da narrativa, elaborando e ressignificando fato tão bárbaro, através das lembranças de Fátima, menina que teria conhecido e trabalhado ao lado Iqbal. Dentro de um contexto ficcional, a pequena narradora reconstrói o período final de vida do menino, quando o conheceu e começou a crer que a vida podia ser diferente. O olhar de Fátima capta tudo, revelando, sem dúvida, fatos assustadores porém o filtro da infância abranda o peso dos acontecimentos, talvez por conta da ingenuidade, e dá esperança ao leitor.

Sem julgamentos sumários ou descrições apelativas, o livro de Francesco D’Adamo é conciso, realista, intenso e belo. Ele eterniza e divulga a luta de Iqbal Masih que, assim como Malala Yousafzai, sua conterrânea e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2014, buscaram justiça para garantir seus direitos de criança, ainda que isso pudesse custar suas vidas.

D’ADAMO, Francesco. A história de Iqbal. São Paulo : WMF Martins Fontes, 2016.

Eu quero um amigo…

Por Fernanda de Lima Passamai Perez

Eu Quero um Amigo...O que é um amigo? Bem, pode ser aquela pessoa que vai rir da sua piada, mesmo que não seja tão engraçada assim, ou vai te fazer rir da dela. Te avisar quando algo não estiver legal ou te elogiar quando você se superar. Ser parecido com ou muito diferente de você. Que ganha no jogo para te desafiar ou perde para te ensinar. Corrigir seus erros e, mesmo os perdoar…

O livro de Anette Bley Eu quero um amigo…é leve, divertido. A disposição das ilustrações pode parecer um pouco confusa a princípio, pois não há uma única narrativa, são vários cenários e micro narrativas que se acrescentam e concretizam o sentido de amizade, o tema comum a todas elas. Por isso vale a pena ser lido mais de uma vez e ir cruzando as imagens, criando novas situações, de novo e mais uma vez.

Deliciosa experiência de leitura para se compartilhar com os pequenos e para lembrarmos que, mesmo crescidos, é muito bom ter um amigo.

BLEY, Anette. Eu quero um amigo…. São Paulo: Brinque Book, 2013.

Contos tradicionais, contos populares, contos de fadas

Por Paula Lisboa

É impossível pensarmos na formação leitora e na experiência com as histórias sem falar dos contos tradicionais. Aqui na escola desde muito cedo nossas crianças ouvem narrativas dos irmãos Grimm, depois Perrault, caminham para os brasileiros, com recontos de Ana Maria Machado, Ricardo Azevedo, diversas versões do Pedro Malasartes… Depois estudam um pouco mais os contos de Andersen, autorais porém carregados de elementos da narrativa tradicional. Leem mitos gregos, contos africanos, russos, chineses… Nunca pára, mesmo que estejamos sempre ampliando o leque com a apresentação de diversos autores contemporâneos e contos modernos, os contos tradicionais se mantém sempre presente.

Este ano fui convidada a registrar em áudio a leitura do conto A inteligente filha do camponês, compilado pelos irmãos Grimm, que serviu de ponto de partida para as crianças dos 4ºs anos das três unidades (Morumbi, Butantã e Granja Viana) escreverem um novo episódio para a história. Cada nova história criada em duplas pelos alunos, foi ilustrada e lida em voz alta, para finalmente chegar à produção final do Projeto Curtas: pequenos vídeos contendo as narrativas contadas e ilustradas por eles!

E assim, vejam que lindo o caminho das histórias: um conto originalmente de tradição oral alemã, passou para o livro a partir da compilação dos Grimm; foi traduzido para o português pela Heloisa Jahn e serviu de base para a criação de novas histórias; essas histórias saíram do texto escrito e voltaram para a oralidade, resultando em uma produção áudio-visual!

Aqui vocês podem ouvir o conto lido por mim. A Inteligente Filha Do Camponês

GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Contos de Grimm. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004. 90, [1] p.