Quando ser diferente faz toda a diferença

Escola da Vila

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Por Marília Costa, direção da Unidade Granja Viana

O que é ser diferente? Uma vez, em uma palestra, após discursar certo tempo acerca dos conceitos de igualdade e diferença, perguntei ao público por que é tão frequente rejeitarmos o que é diferente. Uma professora, muito espontaneamente me respondeu: porque o diferente assusta. Outros complementaram: porque o diferente é desconhecido e dá medo! Diante dessas respostas, eu perguntei: então por que vocês não se assustam com quem está sentado ao seu lado? Afinal, nós somos essencialmente diferentes!

É interessante pensar o que faz rejeitarmos as religiões diferentes da nossa, rejeitarmos ideias diferentes do nosso modo de pensar ou, mesmo, rejeitarmos o aluno que aprende de um modo diferente, o amigo que fala diferente ou gosta de coisas diferentes. Não é qualquer diferença que nos assusta e não é qualquer diferença que gera sentimentos de rejeição.

David Rodrigues, educador português, ressalta que a igualdade é uma construção humana, ancorada em determinados valores e no conceito de justiça, e data do século XVIII, portanto, só existe, conceitualmente, do ponto de vista ético, e só muito recentemente passou a ser objeto de reflexão nas relações humanas. Concretamente, o que existe são diferenças, do ponto de vista biopsicossocial. Diferenças que são naturais e outras que são produzidas socialmente, diferenças que são visíveis, tangíveis e outras que são invisíveis, intangíveis. Contudo, muitas vezes o que reconhecemos como diferença é uma mistura de diferença e desigualdade (RODRIGUES, 2014), pois percebemos o que é diferente das características que atendem aos padrões hegemônicos como não desejável ou negativo (SILVA, 2000). Todas as características humanas e formas de ser humano, que não se encaixam nesses padrões, tendem a ser vistas como desvios, como é o caso dos alunos com deficiência ou com dificuldade de aprendizagem ou dos alunos pertencentes a minorias linguísticas, dos alunos obesos, entre tantos outros exemplos.

Não existe um ser humano igual ao outro, pois somos naturalmente diferentes em relação a vários aspectos relacionados à etnia, sexualidade, cultura, subjetividade, genética, entre outros. Apesar disso, com frequência atribuímos valores a essas diferenças que nos fazem rejeitá-las ou desejá-las.

Compreender a diferença como expressão da diversidade humana e valorizá-la como fonte de enriquecimento requer uma formação ética que dê sustentação a uma convivência pautada no respeito mútuo, na colaboração, na participação, no senso de justiça. Isso exige um equilíbrio entre o reconhecimento da igualdade e da diferença. Como diz Boaventura Souza Santos (2002, p.75): “Temos direito à igualdade sempre que a diferença nos inferioriza. Temos direito à diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza”. Na nossa escola, esse é um desafio cotidiano. São muitas as situações em que refletimos a respeito de quando tratar todos os alunos da mesma forma e quando utilizar estratégias diferenciadas, quando oferecer apoios específicos, quando dar mais tempo para realizar uma atividade, entre tantas outras decisões que tomamos almejando que todos aprendam os conteúdos curriculares no máximo do seu potencial. Não existe resposta certa para cada uma dessas situações, pois é necessário avaliar o contexto, tomar decisões e avaliá-las constantemente.

Crianças e adolescentes, que crescem entendendo que as diferenças fazem parte da diversidade humana e que uma sociedade justa é aquela em que todos têm e podem exercer os mesmos direitos, convivem valorizando a diversidade, pois reconhecem o quanto ela agrega, soma.

Na nossa escola, diferença e diversidade são alicerces da proposta pedagógica, pois entendemos que a aprendizagem, em todas as suas dimensões, é mais significativa quando existe pluralidade de ideias, opiniões, versões, jeitos de ser e tantas outras diferenças. A homogeneidade limita. A heterogeneidade amplia. Portanto, para nós, a diferença é mola propulsora, é fator de enriquecimento.


Referências

RODRIGUES, David. Os desafios da Equidade e da Inclusão na formação de professores. RODRIGUES, David; ARMSTRONG, Felicity. A inclusão nas escolas. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.

SANTOS, Boaventura de Souza (Org). Reconhecer para libertar – os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

SILVA, Tomás Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomás Tadeu (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis/RJ: Vozes, 2000.

Os sentidos de uma Escola de Educação Infantil

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Nossa turma de crianças mais novas completa seu segundo ano de vida agora em 2018. Nasceram num mundo digital e conectado, no qual a informação circula massivamente, onde há desafios gigantescos para a humanidade: ecologia e clima estão na agenda, é imperativo tanto a busca pela diminuição das desigualdades culturais e socioeconômicas quanto o aprendizado de viver na diferença e entendê-la como aquilo que nos constitui. Enfim, um mundo da agilidade, das transformações e, porque não, das incertezas.

De que espaço educacional precisam esses pequenos? Quais experiências devem compor seu ambiente para que vivam plenamente as múltiplas possibilidades e potências em seu desenvolvimento? Para que construam projetos de vida singulares e consistentes, quais situações são emblemáticas em sua formação?

Aprender não significa mais o acúmulo de informações e o domínio de ferramentas para seu manejo, mas sim o que fazemos com todo esse acesso, como pensamos, como nos relacionamos e atuamos criativamente frente aos desafios que nos são apresentados cotidianamente.

Em artigo recente, a filósofa da Educação Carla Boto[1] faz uma análise muito aguçada acerca da escola contemporânea e das muitas críticas e questionamentos que tem recebido por parte de inúmeros setores da vida social. Aponta como, tão facilmente, considera-se a instituição obsoleta, diz-se que ela não foi capaz de acompanhar os tempos, que a velocidade das informações na sociedade digital tornou a escola desatualizada. Há claramente uma crise nas imagens pelas quais a escola é representada e isso não acontece somente no Brasil.

Assim, não à toa, vivemos movimentos de repensar a escola, seus propósitos, alcances, sua organização, objetivos, tempos e espaços. Para todos os segmentos da educação básica, do Infantil ao Médio, são inúmeras as discussões ao redor do mundo sobre competências para este século, novos currículos, formação e valorização do professor, processos de avaliação, entre tantos outros.

Nesse cenário, compete aos profissionais que vivem a escola diariamente reafirmar as dimensões, os sentidos e o valor inegável da escola na formação das novas gerações. E, neste post, trataremos de seu início… Lá onde tudo começa: a etapa da educação infantil.

Segundo Ana Malajovich[2], a produção científica atual apresenta a nós, educadores, um estranho paradoxo. Por um lado, reconhecemos nas crianças, desde muito pequenas, maiores capacidades que não imaginávamos há algumas décadas e, como produto do avanço científico sobre essa etapa da vida humana, comprovou-se o peso decisivo que o ambiente sociocultural assume no início do desenvolvimento humano.

No entanto, por outro lado, vemos correntes que pretendem afastar das crianças os direitos básicos à aprendizagem como experiência social e socializadora, o que inclui o direito ao convívio com outros, mediado por profissionais formados, em condições e ambientes favoráveis ao seu pleno desenvolvimento afetivo, relacional, cultural, dentre outras dimensões.

Se a escola de educação infantil é vista como espaço diminuto, tempos gastos em atividades super dirigidas, preenchimento de folhas, protocolos pré-determinados a serem seguidos, vivência de relações nas quais há a imposição de condutas pelo adulto, temos óculos extremamente distorcidos, ultrapassados e que urgentemente precisam de NOVAS LENTES para olhar o que excelentes escolas e espaços de educação infantil estão promovendo em nosso país.

Se, na curvatura da vara, passamos a ter movimentos defendendo que o mais adequado e contemporâneo para a infância é a “não-escola”, precisamos repensar urgentemente quais oportunidades oferecemos às crianças pequenas para desenvolverem suas linguagens e suas potências e, claro, quais condições são inegociáveis para uma experiência plena na primeira infância.

Um projeto educativo responsável garante às crianças a oportunidade de conhecer, de confrontar e criar, de interagir com seus pares e com adultos especialmente formados para essa mediação, de experimentar e de brincar, de ter acesso ao mundo e à cultura acumulada pela humanidade, expressando-se por meio de diferentes linguagens.

Mas qual a razão de propiciar tudo isso às crianças quando pequenas? Não basta poderem brincar do que desejam, a qualquer tempo, como e quando queiram?

Há sentidos múltiplos em jogo, e selecionamos alguns pontos centrais, ao nosso ver, para responder às perguntas iniciais: para que efetivamente uma criança viva uma experiência inicial potente e criativa de relação com o aprender, entendemos ser essencial priorizar que cada criança possa:

Ser única e ser entre outras. O eixo da interação e da percepção do eu a partir do outro é essencial à constituição de qualquer indivíduo. É um aprendizado ter uma escuta atenta ao outro, entender que a ideia do outro pode ser muito legal e, deixar de fazer uma coisa de imediato para ouvir uma oferta que está sendo proposta por outrem é situação que requer a mediação de adultos profissionais. Por que é tão importante se entender como um entre outros? Para além da constituição da identidade, os sentimentos advindos de perceber-se como parte de um coletivo, de ter um grupo de pertencimento e, assim, ter o primeiro afastamento da família nuclear, são experiências humanas cruciais da primeira infância.

A construção de laços de confiança e amizade, a expressão de sentimentos, a vivência de situações desafiadoras e conflituosas, de alguma angústia, num espaço de acolhimento e de mediação adulta qualificada, trazem para a criança benefícios indeléveis.

Criar, assumindo riscos. Arriscar-se em brincadeiras, em construções, em narrar uma história a outros, cantar, contar, modelar, dançar, escrever… Falhar, tentar novamente e ser encorajado para isso. Reconhecer-se nos olhos de outros, especialmente de professores e pares, e sentir a confiança em suas capacidades de realização. Lidar com o erro de forma saudável e processual e, sobretudo, ver suas iniciativas na solução de situações problema valorizadas é o que alimenta o pensamento criativo e a coragem de se expressar. Para isso, é necessário intencionalidade nas provocações planejadas pela equipe de profissionais que entende cada criança e sabe como ajustar bons desafios à diversidade que o ambiente escolar representa.

Investigar e ampliar seus horizontes. A curiosidade não se alimenta por si só, ela pode e deve ser instigada. Entendemos que a ampliação dos olhares da criança para o mundo por meio de situações que trazem a cultura do conhecimento nos mais diversos meios é, sim, responsabilidade do ambiente escolar. A investigação é a força motriz das transformações e ter experiências desde a simples observação de fenômenos, de conversar sobre as coisas, os animais, as plantas, aquilo que vemos, que não vemos, enfim, é propiciado em ambientes ativos e exuberantes em possibilidades de exploração e conversação sobre ideias e descobertas.

São muitas as necessidades da infância e, certamente uma reflexão crucial é o quanto o espaço escolar e seus profissionais são essenciais ao sucesso desse imenso desafio de educar em parceria com as famílias.

No entanto, compreender o valor do profissional que atende a todas essas condições é premissa. A formação que esse educador precisa consolidar é especializada. Não basta gostar de crianças, não basta ter jeito, é necessário estudo contínuo, compreensão das etapas de desenvolvimento que compõem a jornada de aprendizado dos indivíduos nos seus primeiros anos de vida, além de muita reflexão sobre a prática.

Mas tratar da relevância central da formação profissional para os educadores de Educação Infantil é assunto para continuarmos num próximo post, aguardem!


[1] Carla Boto, “Homeschooling”: a prática de educar em casa. 16/3/2018

[2] Ana Malajovich, Jogar ou  Aprender: as duas caras da mesma moeda? 15/9/2012

Ensinar à distância ou aprender na convivência?

Escola da Vila - Aprender na convivência

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Por Fermín Damirdjian, orientação educacional do ensino médio

Eu e minha irmã temos um pacto de sangue. Se prometemos algo uma à outra, essa promessa tem peso absoluto e jamais pode ser quebrada. E eu a fiz esconder de mim o meu celular e me prometer não contar, durante um mês, o seu paradeiro.” “Ah, é? E por quê?” “Porque ele estava me fazendo mal. Desde pequena fico com aquilo na mão, vendo o que vão dizer sobre o que eu disse em muitos grupos, e eu respondo ao que disseram sobre mim, e não termina nunca esse diz-que-diz. E não converso com meus pais, e quero terminar logo o jantar porque estou pensando em tudo o que estão falando no WhatsApp enquanto fico com eles na mesa. Eu sinto que, quando estou com as pessoas, estou perdendo tempo, porque o que acontece de verdade acontece no WhatsApp. E me dei conta de que, se eu penso isso, eu devo estar completamente maluca. E quando me dou conta de que estou maluca, fico mais aflita ainda e mais ansiosa por estar me sentindo maluca. Então achei que o único jeito era tentar aprender a ficar com as pessoas. Estar com elas de verdade, e não esperando que o encontro termine logo.” “E como tem sido esses dias? “Tem sido ótimos. Aprendi a conversar e dar risada com os outros. Claro que acontecem coisas chatas também, mas é uma de cada vez e não tudo ao mesmo tempo. E a gente está vendo a outra pessoa, não está tentando entender se o que ela disse foi uma piada, uma ironia ou uma agressão. É mais… real.”

As linhas acima são a transcrição de um trecho de um depoimento dado na sala da orientação do Ensino Médio, por uma aluna do 1o ano. Trata-se de apenas um trecho. Foi um depoimento um tanto longo, feito em ritmo bastante acelerado. Cada palavra brotava sem filtro, de forma crua, seca e rápida, a fala entregue a um fluxo frenético de estímulos internos e externos de tudo o que se vive aos 14 anos de idade.

Ela relata, em meio ao caos, uma decisão: pedir o auxílio fraterno para livrá-la do cálice digital que ardia em seus dedos, dia e noite, para conseguir algo elementar à existência humana, desde tempos imemoriais: estar com os outros. Algo que, por momentos, parece estar em risco de extinção nos dias de hoje. A fascinante e meteórica evolução tecnológica nos oferece vagões de metrô lotados, em que todos estão com a cara enfiada no celular. Ou mesmo as rodas de amigos – adolescentes ou não -, na mesma posição, seja nos jardins de uma escola, seja em um restaurante. Ainda assim, pensar na extinção do encontro físico soa um tanto exagerado. Mas não é um equívoco pensar que os encontros entre as pessoas, seja de caráter amistoso, amoroso, esportivo, instrutivo ou profissional, podem estar perdendo certa qualidade.

Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar, como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois com as contribuições do outro uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca a as palavras e limita o desempenho em campo.

Saltando agora para um cenário diverso em tempo e espaço, mas ainda dentro dos muros da escola. Ao longo dos meses, a ânsia por extravasar o furor represado em sala de aula tem levado a uma prática um tanto perigosa: os jogos de futebol no recreio têm ocorrido sem limites de participantes. Em vez de se formarem vários times e quem toma gol sai, formam-se apenas dois, cada um com oito, dez, quinze, dezoito jogadores. Da extinção dessa regra elementar, foi apenas um passo para extinguir as faltas, elemento básico para o andamento razoável de qualquer esporte coletivo. Coisas do contato físico. Por fim, aconteceu o que seria previsto: deu briga. Jogos suspendidos por três dias, a quadra deixou de ser uma arena para se tornar uma ágora. Sentada no chão, a multidão de interessados em retomar os jogos debate sobre forma e modos de reativar as disputas. Quais regras retomar? Como se explica o crescimento da tensão? O que aconteceu exatamente? Precisaremos de um árbitro? Um contrato escrito?

Ambas as situações são típicas e frequentes em qualquer escola que compreenda a aprendizagem não como um processo meramente reprodutivo, no qual uma autoridade dite as explicações para que os alunos as reproduzam. A proposta que subjaz nessas cenas é que a regulação coletiva, se bem tem autoridades mediadoras, é essencial para a mobilização intelectual. Isso vale para erigir conceitos matemáticos, políticos, científicos, como se queira chamá-los. Um pesquisador bielo-russo chamado Vygotsky chamou essas habilidades humanas que se desenvolvem em uma complexa trama de elementos sociais e históricos de conceitos superiores. Dentre as diversas e complexas funções da escola, encontra-se a de promover espaços de elaborações coletivas, as quais favorecem o desenvolvimento dos conceitos superiores.

Olhando agora sob uma ótica mais abrangente, encontramo-nos diante de uma situação social – e, por que não, histórica – de transformações políticas de grandes dimensões, nos últimos anos. Dentre elas, destacamos que em 2017 aprovou-se uma reforma do Ensino Médio que é no mínimo controversa. Alguns aspectos podem ser interessantes, outros podem estar a serviço de motivações que ainda precisam ser mais esclarecidas. Olharemos para apenas uma delas, ainda mais recente: no dia 20 de março a imprensa noticiou que o Governo Federal propõe liberar 40% da carga horária do Ensino Médio a ser realizada a distância.

Não vamos realizar aqui análises sobre o uso didático da tecnologia. Ela tem as suas potencialidades, e não são poucas. Mas a permissão de suprimir quase a metade da convivência física dos alunos que se encontram em idade de constituir a sua subjetividade, por cursos a distância, é uma jogada que pode estar a serviço de muitas coisas, menos à de uma formação consistente de indivíduos, seja como estudantes ou como cidadãos. É uma proposta que abre uma flexibilidade de produtos supostamente educacionais que oferecem situações de interação extremamente limitadas. Se bem pode-se pensar em fóruns de discussões ou trabalhos colaborativos, eles serão uma peça de ficção se essas experiências não estiverem asseguradas em um dia a dia de encontros físicos, profícuos em tensões lexicais, conceituais, lógicas, esportivas – vivenciais, enfim.

Se a escola, em nossa Era Moderna, é uma instituição que nasceu com o intuito de formar cidadãos, não se pode encarar a transmissão de conhecimentos e de valores culturais como um manual de instruções online. A constituição da subjetividade não é um manual a ser baixado na rede. Nem mesmo em 40% – fração que pode se tornar muito mais do que isso, se considerarmos a agressiva evolução tecnológica que arde nas mãos de todos nós e tem potencial para moldar as instituições de todo tipo. Uma coisa seria pensar em um curso técnico ou uma especialização para adultos, outro é o de educar adolescentes que precisam, como dizia a depoente inicial deste relato, crescer e aprender algo tão elementar como “estar com os outros”. É a partir dessa convivência intensa que se dá o desenvolvimento pessoal, com toda a sua complexidade cognitiva e moral.

O retorno do Blog da Vila

Escola da Vila

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Por Sonia Barreira, direção geral

Este blog teve início em 2010, com a intenção de ampliar os canais de comunicação com as famílias da Escola da Vila.

Naquele momento, pretendíamos manter uma publicação diária, o que fizemos por quatro anos, progressivamente fomos reorganizando nossa produção com a finalidade de atendermos a todos os segmentos e passamos a produzir textos três vezes na semana.

Até o final de 2017 foram 965 textos: 271 sobre Educação Básica, 133 sobre Educação Infantil, 144 sobre F1, 134 sobre F2, 145 sobre Ensino Médio e 138 sobre o nosso Centro de Formação de Professores.

Neste ano, ainda que um pouco atrasados em relação ao início do ano letivo, retomaremos nossos posts a partir de abril, regularmente em três eixos principais:

a) Reflexões autorais sobre temas que impactam o cenário educacional e posicionamentos institucionais sobre políticas públicas, tendências educativas e questões que impactam nosso Projeto Pedagógico.

b) Análise sobre projetos, atividades e acontecimentos de nossa escola que contribuam para o conhecimento de toda a comunidade sobre como e por que concretizamos o currículo escolar da forma que o fazemos.

c) Curadoria e resenhas de textos, exposições, leituras e atividades de outras instituições que possam interessar às famílias das nossas escolas e aos educadores de modo geral.

Não haverá compromisso com dias para a publicação, muito embora nosso desejo é manter de duas a três publicações por semana.

Nas primeiras semanas de abril, o blog retoma com uma análise sensível e profunda do orientador do Ensino Médio, Fermín Damirdjian, sobre a ideia veiculada na mídia sobre a possibilidade do currículo do Ensino Médio poder acontecer 40% a distância.

Em seguida, Fernanda Flores, diretora da Educação Infantil e do F1, retomará nosso posicionamento sobre o sentido da Educação Infantil escolar, seguida de textos da equipe que destacam a importância do profissional educador para essa etapa do desenvolvimento humano.

Ainda nesse período, vamos divulgar um posicionamento claro e detalhado sobre a visão da Escola da Vila sobre a inclusão, logo após reunião com as famílias dedicada a essa temática.

No que se refere à rotina escolar, teremos como destaque o projeto do Fundamental 2 do Butantã do “Recreio com Jogos” – que visa estimular a ampliação das atividades de recreação dos alunos desse segmento.

A equipe do Fundamental 1 vai produzir posts destacando os projetos interséries que, em 2018, ganharam em regularidade e amplitude.

Como desejamos que o Blog da Vila siga cumprindo sua missão de contribuir com o debate de temas de interesse de nossa comunidade e com vistas a ampliar o campo de questões abordado, contamos com a sua colaboração, respondendo à seguinte breve enquete, neste formulário.

Quem nunca ouviu a frase: “Gostava de matemática até começar a estudar álgebra”?

Álgebra na Escola da Vila

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Por Gislaine Rasi, professora de Matemática do Fundamental 2

Relato muito comum entre alguns de nós, adultos. Não é por acaso que esse tema escolar tem sido alvo de inúmeras pesquisas em Educação Matemática. Se por um lado, a perda do sentido matemático e as dificuldades em operar com os símbolos podem provocar um distanciamento do aluno, por outro, um currículo com o foco prioritário no uso de técnicas reforça ainda mais esse quadro.

Si el alumno llega a una conclusión sobre la necesidad de escribir Essen o cualquier otro trabajo del alumno, nuestros amigos writemyfirstessay.com

Mas o que é álgebra?

Em síntese, álgebra é um campo da matemática que generaliza a aritmética, buscando a partir de regularidades numéricas produzir fórmulas gerais e manipulá-las, tem aplicações no campo da matemática pura e no estudo de outras ciências. Na álgebra são introduzidas as ideias de variáveis, incógnitas e o uso de símbolos.

E como dar sentido à álgebra que “vive” na escola?

Buscando romper com a ideia de que álgebra não tem sentido para além do uso de símbolos e da aplicação de técnicas de resoluções de equações, como é usual no ensino desse conteúdo, organizamos o nosso currículo em um projeto mais amplo de estudo tendo como via de entrada a generalização. Nosso objetivo é fazer com que nossos alunos compreendam a necessidade de se generalizar determinadas situações, criem o seu próprio modelo e pensem sobre os demais.

A ideia de generalização como o coração da atividade matemática no estudo da álgebra recupera em sua origem a compreensão do tratamento do geral e da busca de regularidades na história da civilização, resgatando práticas até então esquecidas.

Nas séries iniciais do Ensino Fundamental 2, o nosso trabalho algébrico se apoia no trabalho aritmético, criando relações entre o conhecimento novo e o antigo. A multiplicação e a divisão continuam sendo objetos de trabalho, agora não mais como ferramentas na resolução de problemas, mas como objetos matemáticos a serem analisados, favorecendo a ampliação dos sentidos dessas operações e do funcionamento das suas propriedades. A discussão de aspectos importantes da relação a x b = c que trata da variação do produto a partir da variação de seus fatores e da relação D= d x q + r, r<d, estabelecida entre os termos da divisão, permite o entendimento dessas fórmulas para a análise e o controle dos resultados. O aluno passa a antecipar um campo de resultados, pensando sobre as relações entre esses termos, sem fazer a operação. Por exemplo, ao resolver esse problema “proponha uma conta de dividir em que o divisor seja 5 e o quociente seja 12. Existe só uma conta? Quantas existem?”, nesse caso, ao estabelecer relações entre o dividendo e o divisor, o aluno encontrará apenas cinco contas, com dividendos 60, 61, 62, 63 e 64 uma vez que o resto não pode exceder o valor do divisor. Esse modo de entrar no trabalho algébrico traz para o universo dos alunos novos tipos de problemas que não estavam presentes nas etapas anteriores, ampliando as possibilidades do trabalho intelectual presente nas aulas.

A resolução de equações é o assunto que tem mais destaque nas séries finais do Ensino Fundamental 2 e privilegia relações entre a aritmética, a geometria e a álgebra, com o tratamento em diferentes representações. Neste estudo, procuramos dar sentido ao uso dessa ferramenta na resolução de problemas matemáticos aproximando o aluno do trabalho com as funções a partir da produção de fórmulas. São discutidas as diferentes formas de representar um mesmo número, as diversas formas de resolver uma equação, o sentido de equivalência representado pelo sinal de igual (=) e de grandezas maior (>) e menor (<), bem como as relações entre as diferentes representações, criando oportunidades para a exploração e aproximação de outras formas de pensar que levam ao mesmo resultado. Optando, assim, por introduzir o estudo das técnicas, vinculadas ao sentido das operações e suas relações. Dominar técnicas é extremamente relevante para seguir aprendendo, mas conhecer o seu sentido também é fundamental para saber quando vale a pena utilizá-las e para dispor de mecanismos para o controle das resoluções.

Dessa maneira, ao longo do Ensino Fundamental 2, oferecemos aos nossos alunos uma variedade de situações que buscam atribuir sentido ao estudo desses novos objetos matemáticos e ao uso das técnicas para suas resoluções, mais do que uma mera memorização de regras, evocando a pesquisadora em didática da matemática Carmen Sessa, entendemos que o trabalho algébrico é:

constituído por um conjunto de práticas que se inscrevem – e se escrevem – em uma determinada linguagem simbólica, com leis de tratamento específico que regem a configuração de um conjunto de técnicas. Todos esses elementos complexos – problemas, objetos, propriedades, linguagem simbólica, leis de transformação das escritas, técnicas de resolução – produzem um emaranhado que configura o trabalho algébrico”.

Por fim, acreditamos que a maior qualidade do nosso trabalho é fazer com que os alunos compreendam a importância do uso da álgebra, enfrentando as suas complexidades, e reconhecendo-a como um importante produto intelectual que expressa uma forma de pensar e de se comunicar, possibilitando as mais diversas aplicações na vida cotidiana e no avanço da ciência.

Enfoque metodológico construtivista: aspecto essencial da nossa cultura

Escola da Vila

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Por Susane Lancman, coordenadora do Ensino Médio

De forma gradual, sem muita explicação teórica, nossos alunos vão se apropriando da cultura da Escola da Vila. Assim, vocabulário, valores, ações, metodologias vão sendo aprendidos de forma natural. Alunos novos passam rapidamente a usar a palavra parque como sinônimo de recreio, SMA como recuperação. O pedido de um professor para avaliar a postura de estudante é compreendido como um rol de atitudes esperadas por parte do aluno dentro da sala de aula que necessitam de reflexão constante para possíveis ajustes. Levantamento de conhecimento prévio é percebido como parte do processo de aprendizagem.

Aqueles que participam há muitos anos da cultura da Vila nem sempre se dão conta de que suas características estão emaranhadas no nosso a dia a dia. Muitas vezes é o aluno “estrangeiro” que traz em seus relatos a estranheza com a nossa cultura.

“Como o professor de Ciências Naturais quer que eu explique como acontece o dia e a noite no primeiro dia de aula se ele ainda não explicou a matéria?!”, perguntava um aluno novo do 6º ano em meio às lágrimas ao se deparar com a questão norteadora de uma sequência didática.

“Se eu sentar em dupla vai ter cola nas atividades!”, exclamava outro aluno novo do 8º ano como se estivesse explicando o óbvio.

“Eu não entendo para que reescrever tantas vezes o mesmo texto, assim eu nunca fico livre da atividade”, dizia outro aluno.

Cada instituição cria, de forma consciente ou não, sua cultura, e seus participantes vão aprendendo e se identificando com o modo operante. Alguns se dão conta da cultura e se apropriam a cada dia, e para outros esse processo passa despercebido, principalmente para aqueles que estão na Vila há muito tempo e imaginam que aspetos da nossa cultura são inerentes a todas as instituições escolares.

A conscientização e a clareza dos aspectos que compõem a cultura institucional dependem da idade do aluno, da experiência e do conhecimento que tem do projeto pedagógico da escola para que se entenda que a troca da palavra recuperação para SMA não é um detalhe, sentar em dupla não é uma alegoria, criar questões norteadoras é de extrema relevância para a realização de sequências didáticas, ter sucessivas etapas de revisão textual é parte essencial do processo de construção da escrita. Mas, vale dizer que a identidade cultural não é um conjunto de valores fixos e imutáveis, sofre mudanças pelas novas pesquisas pedagógicas e educacionais, pelas novas experiências e conhecimento da equipe de trabalho e pelo grupo de alunos que traz inovações de comportamentos e pensamentos.

Na medida em que essa cultura institucional é incorporada é comum que alguns alunos passem a cobrar que todos, alunos e professores, sigam o modelo vigente. Assim, todos os anos ouvimos na coordenação e orientação dos diferentes segmentos alunos que se mostram indignados por atitudes e procedimento de alunos e professores que não seguem os “padrões”:

“Alguém precisa explicar urgente para fulano que aqui é importante compartilhar ideias!”

“O professor ciclano não socializa as hipóteses dos alunos. Você não acha que ele é de outra caixinha?”

Muitas vezes percebemos que estamos formando pequenos pedagogos que rezam em nossa cartilha. Eles entendem que em nosso enfoque metodológico é preciso que o professor construa situações didáticas em que o aluno chegue a reconstruir o saber socialmente constituído mediante aproximações sucessivas. Para tanto é necessário partir de uma situação-problema, criar formas dos alunos explicitarem seus conhecimentos prévios certos e errados, propor formas de socializarem as hipóteses dos alunos em dupla, em quartetos e no grupão, discutir as hipóteses comparando-as com o saber científico, reformular as hipóteses iniciais, enfim levar em conta oficialmente a construção do saber por parte dos alunos.

A construção de conhecimento pode parecer simples para os que não estão implicados diretamente no processo de ensino, mas há complexidade em todas as etapas. São muitos os desafios: criar a questão norteadora em que os alunos tenham conhecimentos prévios suficientes e ao mesmo tempo lacunas a investigar, organizar as duplas e quartetos com critérios consistentes que levem a avanços na aprendizagem, organizar a socialização das hipóteses, escolher o material e a forma de apresentar o saber socialmente construído, propor atividades que possibilitem aos alunos retomarem suas hipóteses iniciais. E é preciso considerar que a maioria dos professores estudou em escolas em que imperava o modelo de ensino normativo, portanto precisam se formar em outra concepção de ensino e aprendizagem. Esse modelo está centrado no conteúdo, em que a ação do professor é transmitir conceitos, apresentá-los, dar exemplos sobre o que está ensinando, enquanto a função do aluno é, basicamente, escutar as explicações do professor, estar atento e, em seguida, exercitar, aplicar àquilo que aprendeu. A concepção do saber vigente nesse modelo é a de um saber que está pronto e o professor faz a intermediação entre esse saber já elaborado e acabado para os alunos.

Se por um lado os alunos se apropriam da cultura da Escola de forma gradual e natural, por outro lado a modificação da concepção de ensino e aprendizagem de uma lógica centrada no conteúdo para a da construção de conhecimento exige um trabalho contínuo de formação da equipe pedagógica para que todos os profissionais sejam da mesma “caixinha”. Só assim é possível construir um projeto pedagógico consistente e sério em que há unidade em relação à cultura pedagógica.

Vila Literária: um evento, muitos autores!

Escola da Vila

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Por Vicente Domingues Régis

No sábado dia 21 de outubro tivemos a IV Vila Literária, evento que reuniu crianças, suas famílias, professores, funcionários e demais convidados, ao redor de livros, trocas, leituras, oficinas, exposições e apresentações.

Muito do que se viu é fruto dos valores da escola em ação. A autonomia, a cooperação e o conhecimento são o tecido que sustenta as aprendizagens e as experiências que têm parte de seu ápice no próprio evento, mas não somente, pois foram inúmeras as situações que o antecederam e que seguem permeando o cotidiano das salas de Educação Infantil e Fundamental 1 no fomento da formação leitora de nossos jovens.

Um dos aspectos centrais que queremos aqui destacar é o valor da autoria e do protagonismo. O evento é costurado a muitas mãos desde sua concepção, envolvendo equipes de professores que engajam alunos e alunas na criação e transformação daquilo que já fazem na escola em espaços expositivos, propositivos de experiências de fruição com a Literatura e a Arte.

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Esses valores são percebidos nas muitas ações e exposições que tomam os espaços das unidades e do evento, em especial, traduzindo a essência do que entendemos por ter o aluno ao centro dos processos de ensino e aprendizagem.

Essa autoria se transforma no protagonismo juvenil que movimenta os grupos de teatro dos alunos de Fundamental 2, Ensino Médio e o Núcleo de Produção Cultural, que deram ainda mais vida aos textos escritos pelos alunos de 2o, 3o, 4o e 5o ano, na cerimônia de premiação do concurso literário. Protagonismo este que também se pode notar quando os mesmos alunos se transformaram em personagens de Alice no País das Maravilhas e circularam pela escola anunciando para o público as atividades propostas.

É essa mesma autoria que enxergamos em nossos professores e professoras, preparando uma série de oficinas para receber nossa comunidade, incluindo contação de histórias, criação de personagens, teatro de sombras e tantas outras que tinham como foco a relação da literatura com as demais linguagens artísticas.

Esses valores também mobilizaram a formação de um grupo de música de câmara formado integralmente por pais da escola, que nos brindou com uma maravilhosa apresentação no auditório. Apresentação que contou com um belíssimo programa composto por obras de compositores como Heitor Villa-Lobos, Edmundo Villani-Côrtes, Chico Buarque e Alexandre Guerra, sendo este último pai de dois alunos da escola. Não poderíamos deixar de agradecer aEliane Tokeshi (violinista), Emerson De Biaggi (violista), Vana Bock, (violoncelista) e Alexandre Zamith (pianista) pela tarde que combinou sensibilidade e virtuosismo, aproximando a música erudita do imaginário infantil.

O valor de formação de propostas como essa é enorme, e aproveitamos para compartilhar o álbum de fotos do evento, com registros das diferentes atividades realizadas e, mais do que isso, da participação encantada de nossa comunidade!

Para finalizar, agradecemos a participação e o envolvimento de todos, em especial daqueles que contribuíram com seu trabalho e dedicação para que a IV Vila Literária ficasse, mais uma vez, marcada na memória das crianças e suas famílias.

O que é de todos e o que é de alguns

Escola da Vila

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Por Ricardo Buzzo, professor de Ciências Humanas do F2

No final do mês de setembro, o Supremo Tribunal Federal julgou uma ação que solicitava a explicitação de que as escolas públicas não poderiam oferecer disciplinas de ensino religioso de caráter confessional. O pedido, feito pela Procuradoria-Geral da República, precisa ser olhado com calma. O que o motivou, o fato de ter sido feito e, por fim, a decisão tomada pelo tribunal dizem muito a respeito da disputa por uma concepção de Estado, Democracia e República que não é recente na história do nosso país.

O que levou a procuradoria a iniciar a ação foi um acordo entre o Estado brasileiro e o Vaticano, que previa colaboração mútua para implementar o ensino católico, entre outras confissões, nas escolas públicas. A discussão proposta vai muito além do catolicismo. A decisão majoritária entendeu que, uma vez que a oferta dessa disciplina será facultativa, não fere o princípio do Estado laico, um dos ditames constitucionais.

A questão aí é até que ponto Estado e religião se misturam. A religião – no caso uma única religião – foi fundamental para a criação dos Estados, no início da Era Moderna. Boa parte do suporte ideológico fornecido aos primeiros reis vinha da igreja, e a teoria de que o poder real era de origem divina era bastante disseminada. Nesse contexto, aquele que não professava a religião dominante era um pária e seria perseguido tanto pela população intolerante quando pelo aparato estatal.

Com o advento do movimento filosófico que propunha a igualdade entre os indivíduos e um Estado voltado para os interesses comuns, essa ligação umbilical entre Estado e religião passou a ser questionada, radicalmente por alguns, suavemente por outros, mas entrou na ordem do dia, e as novas organizações estatais que surgiram no século XIX e XX tinham como princípio que sua legitimidade vinha da população que governava e não de qualquer outro lugar ou qualidade do governante.

No Brasil, o tema é particularmente sensível. Os reis ibéricos tinham tal ligação com a igreja católica que eram responsáveis pelo seu financiamento em seus territórios, e também eram considerados líderes religiosos: os clérigos de seus territórios deveriam responder a eles. No Brasil, durante o Império, essa instituição se manteve. Foi excluída apenas com a proclamação da República. Faz pouco mais de um século, portanto, que nosso Estado se separou efetivamente da religião, não sem deixar marcas. A constituição vigente, noventa e nove anos após a proclamação da República, foi promulgada diante de um crucifixo que permanece no Congresso Nacional e cita Deus em seu preâmbulo. Isso não quer dizer que, então, devemos nos curvar à presença da religião no aparelho estatal. Pelo contrário, essa é uma disputa ainda viva.

Ao Estado cabe gerir o bem público. Democrático, cabe a ele especialmente defender os direitos das minorias diante de uma maioria que busque lhe impor uma conduta que viole sua liberdade individual. No âmbito religioso, o máximo que o Estado interessado em garantir as liberdades individuais pode fazer é coibir a discriminação religiosa. Para além disso, a religião pertence ao foro íntimo. Se ocupa o espaço e principalmente o poder público, sua estrutura proselitista tende perigosamente à intolerância e violência, como já vimos durante a Idade Média e Moderna europeias, ou nos regimes religiosos do Oriente Médio, em comunidades coloniais norte-americanas, entre inúmeras outras.

Dito isto, se uma instituição religiosa decide, por exemplo, constituir uma escola e nessa escola decide oferecer aulas confessionais, tendo toda a sua comunidade de pais voluntariamente matriculado seus filhos nesta instituição, temos aí a ação de agentes privados, usando dos meios de que dispõem para reproduzir sua fé. Se uma instituição estuda e ensina a seus alunos a história das doutrinas religiosas, a organização dos diversos pensamentos teológicos de diferentes religiões atreladas a diferentes filosofias, certamente estará contribuindo para uma sociedade aberta e plural.

Outra situação, muito diferente, é uma instituição sustentada por recursos públicos ocupar o papel de quem propaga alguma fé, mesmo que a fé predominante na comunidade em que se insira. Ao Estado, na verdade a qualquer instituição de ensino republicana, cabe fomentar a tolerância, a compreensão de que o outro, mesmo minoritário ou distante, é um cidadão igual a todos, a despeito da crença, raça, classe social. Se, ao contrário, dedica espaço, tempo, recursos para que uma doutrina específica se dissemine, caminha mais para a direção de afirmar que aquilo que não está sendo ensinado não é válido. Mais do que isso, nesse caminho que visa tratar a confissão religiosa como pertencente ao âmbito privado, de forma distinta e separada do Estado, vivemos um pequeno retrocesso, uma pitada de padroado em pleno século XXI.

Num contexto em que discursos xenofóbicos ganham espaço, manifestações de ódio perdem a vergonha de existir, mais do que valorizar a sua própria religião, caberia ao estado garantir que o aluno valorize a religião do outro, apontando para a construção de uma comunidade política em que todos se reconheçam e se legitimem em seus pensamentos e crenças. Se, ao contrário, o bem comum serve a um grupo, perdem aqueles que defendem o Estado como comunidade política de iguais.

Sentidos e Sensações. Assim, como deve ser.

Escola da Vila
As fotos do evento estão no Flickr da Vila.

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Por Cecilia Galoro, mãe de alunos da unidade Granja Viana

Dar a mão para o outro na roda, misturar, deixar espontâneo. Partilhar o sabor das frutas, ter na seleção de músicas um chorinho para ouvir de manhã, posar com sorriso para a foto, criar e se expressar por meio da dança. Tão boa a educação assim, leve, solta, de verdade…

No último sábado, a Escola da Vila – unidade Granja Viana – partilhou com a comunidade um evento lindo. “Sentidos e Sensações”, uma manhã de experiências para vivenciar esses prazeres. Pais e filhos, famílias, amigos, trocando um bom-dia, dividindo emoções simples que despertam quando damos aquele empurrãozinho diferente na nossa vida cheia de atribulações e rotina.

Oficinas de culinária, fotografia, pintura e dança embalaram momentos e fizeram a gente se lembrar de que todos nós carregamos o entusiasmo, natural da criança que se deixa levar pelas sensações. E aí fica gostoso sentar no chão, experimentar o doce e o azedo da mandala de frutas, aprender a registrar e guardar imagens e fotos nos monóculos, requebrar no frevo e girar na ciranda.

Deixar tudo correr sozinho, só permitindo que as sensações se expressem.

Essa lembrança é mais um aprendizado que tiramos da espontaneidade dos pequenos. O entusiasmo salta da cama com eles e por ali vai ficando junto dos cinco sentidos que, sabiamente, permitem explorar durante todo o tempo. Tudo é visto mesmo, eles nunca passam apenas os olhos. Tudo tem sabor. Tudo se ouve e se registra. Tudo se mexe, se sente. Tudo faz sentido.

Promover essas oportunidades e esses momentos de troca entre adultos, jovens e crianças ajuda a gente a retomar o fôlego e construir dias melhores e pessoas mais felizes. Ajuda a não esquecer como é bom participar das escolhas dos nossos filhos e dar um tempo para fluir a simplicidade que a vida tem.

Juntos e livres.

Valeu, Escola da Vila. Foi uma manhã incrível.

A oralidade posta em prática: participação de alunos do 8º ano no 3º ICLOC Jovem

Por Juliana Giannini, professora de LPL do F2 

Aconteceu, no dia 7 de outubro, a terceira edição do ICLOC Jovem, congresso organizado pelo Instituto Singularidades que tem como objetivo a divulgação de trabalhos e projetos realizados por alunos do Ensino Fundamental 2, Ensino Médio e graduação. A proposta, segundo o instituto, é valorizar produções que tiveram impacto nos âmbitos da ética, da política e da educação, tanto dentro como fora de sala de aula. 

Escola da Vila
Os alunos Davi Manzini, Tiago Soriano, Maria Fernanda Almeida e Gabriela Fernandes apresentam o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias

Dentre os diversos grupos, das mais variadas instituições de ensino de São Paulo e de outras cidades do Brasil, dois grupos de alunos do 8º ano da Escola da Vila se apresentaram no ICLOC. O primeiro grupo, formado pelos alunos Davi Manzini, Gabriela Fernandes, Maria Fernanda Almeida e Tiago Soriano, apresentou o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias”, que foi produzido no primeiro trimestre deste ano, nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, como resultado do Projeto Publicidade. Em uma mesa cujo tema central era a reflexão sobre a publicidade e as suas consequências éticas e políticas na formação do sujeito, eles tiveram a oportunidade de dialogar com outros alunos, bem como com outros projetos didáticos e conhecer semelhanças e diferenças nos estudos realizados nas diferentes instituições de ensino. Além disso, a habilidade de conseguir falar em público e organizar um discurso propriamente oral, um dos objetivos de formação no âmbito das práticas de linguagem que faz parte do percurso escolar desde bastante cedo na Escola da Vila, foi colocada em prática, mas dessa vez para um público externo.

Escola da Vila
As alunas Yolanda Monaco, Rosa Hellmeister e Alice Vilas Boas apresentam o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”

Diferentemente do primeiro grupo, o segundo, composto pelas alunas Alice Vilas Boas, Lorena Schaeffer, Rosa Hellmeister e Yolanda Monaco, apresentou o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”, produzido especialmente para o congresso. Ao longo do primeiro e do segundo trimestres, a leitura e as discussões sobre o romance de Jorge Amado foram frequentes e resultaram na produção de um trabalho escrito, autoral, sobre um dos temas principais que se desenvolvem na obra. Para o congresso, as alunas se reuniram e elaboraram uma apresentação que expôs o percurso do trabalho com o livro, tanto em sala como em casa, tal como introduziu as suas próprias análises e interpretações. Em uma mesa sobre Literatura, a reflexão sobre um dos clássicos da literatura brasileira possibilitou conversas bastante interessantes a respeito das obras contemporâneas e, também, sobre os rumos ou as perspectivas para o ensino da Literatura nas escolas. Novamente, os desafios que envolvem a preparação de um discurso fundamentalmente oral e o intercâmbio com um público externo à escola se colocaram como situações de aprendizagem muito significativas. 

A experiência certamente foi engrandecedora, tanto para os alunos quanto para aqueles que estavam assistindo. Professores, coordenadores, pais e até mesmo colegas tiveram a oportunidade de ver os alunos e as alunas apresentando falas coerentes, bem fundamentadas e envolventes, que, sem dúvida, provocaram reflexões e debates aprofundados sobre esses temas, tão diversos, mas ao mesmo tempo tão importantes para o pensar sobre a escola e a sociedade brasileiras.