Ampliando a experiência escolar

Por Sonia Barreira, Direção Geral
e Celina Martins, Coordenação de Apoio do F2

O currículo escolar está em discussão nacional. Na Vila, ele está em discussão todos os dias! Nosso projeto pedagógico concretiza um currículo dinâmico, flexível e orientado para a aprendizagem significativa. Mas o que isso quer dizer?

Quer dizer que, durante todo o ano, a equipe tem metas de ensino claras, mas é também desafiada a discutir os temas trazidos pelos alunos, algumas das questões endereçadas por eles devem ser encaminhadas, debatidas, se possível respondidas. Da mesma forma, não podemos nos furtar a tratar dos temas que surgem das experiências cotidianas ou das páginas dos jornais! O currículo se constitui, portanto, de elementos estruturados e planejados de maneira mais demarcada, realizados num percurso de maior fôlego, mas também situações novas, frescas, de ritmo mais acelerado e temas do momento.

Escola da Vila
Vila Ativa

Para dar conta desse processo com o devido equilíbrio, é preciso haver, por parte dos professores, o senso de oportunidade, sem deixar de lado a responsabilidade pelo planejamento.

Nessa perspectiva, a Vila desenvolveu alguns mecanismos de trabalho, entre eles a SAD – Semana de atividades diversificadas –, que permite a realização de um conjunto expressivo de atividades distintas das habituais com novas dinâmicas e temas. Debates e palestras com convidados externos; visitas a museus de arte e ciência; oficinas de dança, fotografia, de construção de engenhocas, de programação; muitos são os exemplos de novas oportunidades de aprendizagem, com novos arranjos de tempo, espaço e pessoas, viabilizadas nessas semanas especiais.

Escola da Vila
Grupo de Investigações Científicas

Além disso, fomos implantando, ao longo dos anos, projetos de trabalhos complementares, opcionais, voltados a diferentes necessidades educacionais, com conteúdos que ora tangenciam o currículo regular, outras vezes o expandem, ou ainda permitem sua revisão ou aprofundamento.

É o caso de quatro atividades complementares: o Grupo de Investigações Científicas  (GIC), voltado para investigação de fenômenos e técnicas; o Vilalê (Clube de leitura), no qual o grupo elege, lê e comenta um livro comum a todos os participantes, a Oficina de Matemática, que oferece desafios que visam reaproximar o aluno da matemática e instigá-lo a enfrentar situações de resolução de problemas, e o VilaAtiva, voltado neste ano para a investigação sobre a complexidade da cidade.

Escola da Vila
Oficina de Matemática

Cada uma dessas atividades/cursos traz princípios importantes de sua área de origem, em consistência com o projeto pedagógico e os referenciais didáticos das áreas, mas também se constituem como espaços distintos dos cursos regulares, seja pela mistura de alunos de diferentes séries, pelas outras marcações temporais ou até pela ocupação de novos espaços dentro e fora da escola.

Escola da Vila
Vilalê

Nos próximos posts do nosso blog, você poderá conhecer um pouco melhor sobre o trabalho de cada um desses projetos por meio dos relatos dos professores envolvidos com cada um deles.

Minha experiência no comitê de famílias da Vila 

Escola da Vila

.

Por Renato Salgado, pai de dois alunos da Vila e profissional de comunicação e design, em que lida frequentemente com desafios sobre como comunicar valores institucionais para círculos de interlocutores e acredita que isso é o que a Vila vem precisando ultimamente.

Agora que a maré “mais ou menos” acalmou, queria compartilhar com vocês algumas reflexões.

Em 2017, quando veio a público a compra da Escola da Vila pelo Grupo Bahema, a “comunidade Vila” (alunos, pais, professores e colaboradores) se sentiu meio “traída”, pelo que considerou uma dupla falta: foi vendida para um grupo de investimento (que, neste meio, é facilmente lido como um agente que prioriza resultado financeiro, mesmo em detrimento/flexibilização de valores) e, veladamente, um sentimento de indignação por “não termos nem sequer sido consultados! Viemos a saber disso pelos jornais, como fato consumado”.

A legitimidade desses dois sentimentos me causou um desejo de entender mais a fundo esse processo, como um resultado de uma cultura instaurada. Sempre acredito que os processos coletivos são complexos por misturarem leituras racionais com componentes emotivos…

Eu, como pai de dois filhos na Vila, percebi, em meio àquele fuzuê, uma qualidade muito grande: se a comunidade se sentiu traída, é porque antes se sentira incluída. E isso era porque a Escola da Vila soube criar, ao longo de seus 38 anos, um sentimento de pertencimento que sua comunidade aprovava, praticava e valorizava.

Ora, esse sentido de apropriação pelos interlocutores ao redor de uma Marca é o que, hoje em dia, as empresas e instituições mais almejam e zelam. A Vila tinha isso de sobra e “estava jogando fora junto com a água da bacia”.

Com isso, senti que o maior problema que a Escola da Vila enfrentava não era um problema de perda de princípios (era cedo para dizer isso), mas, sim, um imenso problema de comunicação. A escola não soube reconhecer que criara, ao longo de décadas, um espaço no qual a comunidade se sentia “dona” da escola e, consequentemente, não podia ter tomado essa decisão tão profunda sem envolver essa comunidade. Ou seja, a escola não soube comunicar sua transformação.

Esse é um processo de posicionamento institucional no qual eu navego algumas vezes com meus clientes no meu exercício profissional e senti, à época, um desejo de ajudar a clarear essa nuvem (também para sentir se a continuidade da educação dos meus filhos na Vila estaria preservada. Eu, pessoalmente, não via – necessariamente – como ruim a venda, mas compartilhava com outras famílias a sensação de que “só o tempo diria”).

Sincrônico a isso vi em algumas famílias, por motivos parecidos, o mesmo desejo e disponibilidade. E, finalmente, somou-se a isso a abertura da Vila para acolher esse grupo que culminou com um chamado às famílias para a formação do que veio a ser o Comitê.

Fizemos, desde agosto de 2017, três reuniões. Pouco, mas já o suficiente para gerar profundas reflexões e semear mudanças, como a que conto a seguir.

Já no primeiro encontro eu coloquei essa minha abordagem do problema. Percebi uma escuta atenta e quase aliviada da diretoria da escola e da Bahema, pois de certa forma foi reconhecido um aspecto que até então era difuso e incompreensível. Minha leitura é que eles – por causa do tombo – estavam fazendo uma enormidade de medidas de recuperação da confiabilidade e não estavam priorizando comunicar essas ações. Eu considerava isso tão fundamental quanto fazê-las: só assim a comunidade se reconheceria novamente como tal.

Sugeri que eles procurassem alguma ajuda (uma consultoria) para recuperarem seus valores institucionais e encontrassem vias de comunicá-los de maneira compreensível para sua comunidade.

Surpreendi-me com a rápida adesão à minha ideia, bem como a outras de outros participantes do comitê. Com isso, está sendo realizado um trabalho que, em breve, resultará em um afinamento do modo da Vila se comunicar com seus interlocutores (alunos, professores, famílias, colaboradores, pares, concorrentes, governos, sociedade).

Na última reunião do comitê das famílias da Vila, dia 7/5/18, sentimos que seria muito enriquecedor para este espaço de reflexão e busca de estreitamento da relação da Vila com sua comunidade, que ele fosse mais representativo (hoje somos 12 participantes das três unidades).

Com isso, vimos convidar familiares interessados em participar desse exercício de reflexão (sobre os interesses e conflitos que sentimos, como pessoas desta comunidade) para integrar o comitê.

Os interessados podem nos contatar pelo e-mail: familiasvila@gmail.com A ideia é marcarmos um primeiro encontro de apresentação do que vimos vivendo desde o início e de estabelecimento de estratégias de continuidade contando com a visão ampliada que mais olhares certamente construirão.

Acho que isto é o que a Vila é: nós.

Um abraço a todos.

Vila indica: Hilma af Klint: Mundos Possíveis, na Pina Luz

Escola da Vila - Hilma af Klint

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Prezadas famílias, leitoras e leitores de nosso Blog

Inauguramos uma nova frente de publicações, na qual divulgaremos dicas culturais para famílias de nossa escola e interessados em conhecer mais opções que a cidade de São Paulo oferece a seus moradores e visitantes.

Começamos com a indicação de Karen Amar, professora de Arte de Fundamental 1: a exposição “Hilma af Klint: Mundos Possíveis”, na Pina Luz.

Escola da Vila - Hilma af Klint

A exposição de Hilma af Klint (1862-1944) é uma grande oportunidade para quem se interessa em conhecer mais de perto o trabalho da pintora sueca.

Pela primeira vez na América Latina, a mostra individual da artista apresenta 130 obras, dentre elas a série intitulada “As dez maiores”.  Realizado em 1907 e composto por pinturas em grandes dimensões, esse conjunto é considerado hoje uma das primeiras e maiores obras de arte abstrata no mundo ocidental.

Hilma af Klint chegou a frequentar a Real Academia de Belas Artes na Suécia, mas depois se distanciou do ensino acadêmico para mergulhar em seu próprio universo e pintar mundos invisíveis, influenciada por movimentos espirituais como o Rosa-Cruz, a Teosofia e, mais tarde, a Antroposofia.

Escola da Vila - Hilma af Klint

“Hilma af Klint: Mundos Possíveis” permanece em cartaz até 16 de julho de 2018, no primeiro andar da Pina Luz – Praça da Luz, 2. A visitação é aberta de quarta a segunda-feira, das 10h às 17h30 – com permanência até as 18h – os ingressos custam R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Crianças com menos de 10 anos e adultos com mais de 60 não pagam. Aos sábados, a entrada é gratuita para todos os visitantes. A Pina Luz fica aperto da Estação Luz da CPTM.

Para saber mais: Hilma af Klint: Mundos Possíveis

Precisamos falar sobre isso

Uma pequena reflexão sobre um difícil tema

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Como nos posicionar diante de tragédias públicas envolvendo jovens?

Esse foi o convite que recebemos das mais variadas formas e dos mais variados sujeitos: alunos do Ensino Médio adentrando a sala da coordenação pedagógica e da orientação educacional com interesse legítimo de conversar, pais preocupados ligando e enviando e-mail, professores em todos os espaços da Escola discutindo o contexto social e escolar, amigos e conhecidos em restaurante e supermercado querendo obter informações que explicassem a relação entre jovens e suicídio.

Por infeliz coincidência, já dada a seriedade e gravidade das notícias, eu estava lendo um livro cujo título antecipa o peso do enredo: “O pai da menina morta”. O autor, Tiago Ferro, inicia a escrita do livro logo após sua filha ter morrido, e com uma linguagem arrojada e uma forma textual pouco convencional nos faz conhecer a dor dilacerante de perder uma filha. Sua escrita é visceral. Quase podemos sentir a dor aguda em nossas vísceras. Quase vemos as lágrimas e o sangue escorrendo pelas páginas.

“Você deixou sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!” Assim, escreve Ferro em um dos questionamentos do protagonista da história. A culpa pela morte da filha está presente no decorrer do texto, mas mais do que isso há a tentativa inócua de compreender a logicidade do fato. A morte não tem lógica. Menos ainda a morte de uma filha. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada por um vírus. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada pelo vírus da gripe. Não há lógica.

O suicídio sofre do mesmo mal, sua ilogicidade. Há uma dificuldade extrema de ser compreendido, ainda mais quando se trata de jovens. Mais ainda quando se trata de jovens de classe social alta. Mais ainda quando se trata de jovens com boas famílias, boas viagens, boas escolas, bons amigos. Podemos inferir que eram jovens com boas vidas. Mas, uma boa vida não pressupõe uma vida sem agruras, tristezas, amargor, dissabor, angústia, vicissitudes, fragilidades, desequilíbrios. Se há algo democrático, como sinônimo de igualitário, nesta vida, é o sofrimento psíquico. Esse não diferencia os humanos em classe social, etnia ou credo, é universal, podendo atingir qualquer um, basta ser humano e estar vivo.

No livro, o protagonista faz listas infindáveis durante toda a narrativa tentando colocar ordem no caos. Lista de medos. Lista de títulos. Lista do que fazer. Lista do que não fazer. Lista de tratamentos. Lista de dúvidas bobas. Além disso, o protagonista busca o significado das palavras, também com a intenção de domar o caos. Significado da palavra céu. Significado da palavra cérebro. Significado da palavra miocardite. Significado da palavra clube. Mas não há lista e significado que deem conta da morte.

Como responder às demandas de posicionamento diante das tragédias?

Não há prescrição. Não há manual. Não há bula. Mas há sujeitos impactados, comovidos, sensíveis. Sujeitos capazes de analisar contextos complexos e não reduzir a dor à pressão escolar, nem à separação de pais, nem à decepção amorosa ou briga entre amigos. Sujeitos capazes de escutar. Sujeitos que sabem a importância da palavra.

Tiago Ferro buscou ajuda com Drummond, Gilberto Gil e Eric Clapton. Ele procurou seus pares que também perderam filhos. Na Escola nossa tentativa é que alunos, pais e professores sintam que têm pares, que as vozes apareçam em nossa comunidade.

Escola da Vila

No dia 5 de maio, na Folha de São Paulo, a personagem da cartunista Fabiane Langona ilustra a tentativa de fingir a felicidade, inclusive utilizando álcool. Fingir para quem? Quanto tempo de fingimento? É preciso sempre mostrar que está feliz, as redes sociais que o digam, o que é muito penoso. Sem dúvida esse pode ser um investimento muito perigoso. Talvez seja essa uma das grandes infelicidades: a necessidade de se mostrar feliz o tempo todo.

Tentar aplacar a dor com fingimentos e álcool pode ser muito danoso. A tristeza precisa aparecer na escola, no clube, nas casas, ainda mais entre os jovens que estão em processo de construção identitária. Mas não é de hoje que a tristeza e a depressão devem ser escondidas, já foi até considerado pecado grave, afinal isso demonstrava subestimação ao poder Divino que possibilitou a vida, inclusive em cemitérios judaicos era costume colocar os suicidas nas margens do cemitério por terem desprezado a vida, não mereciam a centralidade.

Escola da Vila

No mesmo dia, também no jornal Folha de São Paulo, o cartunista Caco Galhardo ilustrou o desabafo de Lili com a sua sensação de “afundamento”, e seu par parece não levá-la muito a sério, afirmando ser uma simples impressão, imaginação, um equívoco.

Tiago Ferro sabia que o que sentia não era “impressão”, talvez tenha escrito o livro como forma de ajustar a vida depois da ausência da filha, de conviver com a perda, de encontrar um novo sentido para vida. Ele precisou escrever. Nós precisamos falar sobre dor, precisamos falar sobre morte. Precisamos levar essas dores a sério. Uma gripe pode levar à miocardite. Uma tristeza à depressão. O álcool à impulsividade. A ideia não é alardear, apavorar, pelo contrário, é cuidar de nossa saúde psíquica em uma sociedade adoecida.

Saber quando não intervir: uma competência profissional

Escola da Vila

.

Por Sonia Barreira, direção geral

Não é tarefa fácil explicar como ensinamos aqui na Vila, mas, às vezes, um de nós tem uma inspiração e descreve uma cena emblemática que fala muito sobre as decisões que um professor tem de tomar no dia a dia para que os alunos aprendam.

“Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois, com as contribuições do outro, uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca as palavras e limita o desempenho em campo.” (Fermín Damirdjian, Ensinar à distância ou aprender na convivência? 3/4/2018) 

A ideia aqui era apenas mostrar como a troca entre os alunos é fecunda e possibilita a aprendizagem. No entanto, grifamos uma afirmação que pode ter passado despercebida: a atuação, ou melhor dizendo, a “não atuação” do professor. E por que isso merece destaque?

Porque no contexto dinâmico e imprevisível da sala de aula, o professor só pode “não se apressar em formalizar a resposta correta” se ele sabe da importância fundamental da interação entre pares. E para acreditar nisso a ponto de suspender temporariamente aquilo que usualmente parece ser a ação principal do docente – dar a explicação correta – é preciso compreender como se processa a aprendizagem.

É preciso instaurar o problema para as crianças. A suspensão temporária da explicação deve gerar boas perguntas para engajar aqueles que estão à margem da discussão. É necessário também ressaltar algumas hipóteses, retomar algumas certezas, construir outros desafios. Outro ingrediente é a construção da confiança e do respeito – é preciso coragem e incentivo para arriscar apresentar em voz alta uma solução que nasceu dentro de cada um.

Enquanto aprendem a enfrentar um problema matemático, são obrigados a ouvir o colega tentando convencê-lo a explicar por que concorda ou não. Para isso é necessário ser claro, falar num tom amistoso, trazer o outro para sua ideia. Também é preciso reconhecer quando o outro parece ter razão, e isso é reflexão. É isso o que chamamos de cooperação. No contexto da aprendizagem, cooperar não é ajudar e sim operar com o outro, pensar e agir considerando as ideias e a transformação em ideias novas, a partir desse embate o que cada um sabe e o que, juntos, podem aprender.

Assim, ao optarmos por ensinar matemática dessa maneira e não de outra, não estamos escolhendo apenas a melhor forma de adquirir conceitos matemáticos, que afinal são os conhecimentos em jogo, estamos também educando para o diálogo, para a vida coletiva. Estamos escolhendo a melhor forma de ensinar e de educar, em simultâneo.

Esta é a força do nosso projeto pedagógico.

Jogos no Parque – momento de interação e criação de novos vínculos no FII

Escola da Vila

.

Por Vera Barreira, orientação do Fundamental II

- Do que eu brinco agora?

- Não tenho nada para fazer!

- Ninguém me chama para brincar… 

Muitos de nós já ouvimos frase semelhante dita por alguma criança num dos tantos momentos de tédio e falta de opção que invadem a vida dos pequenos postulantes a adolescentes de 11 e 12 anos, não é?

Na escola, muito embora repleta de amigos e espaço, essa também pode ser uma questão: o que fazer no horário do recreio?

Os alunos do FII se espalham pela escola em atividades variadas: uns jogam bola nas quadras, outros vão para o ping-pong e pebolim, alguns andam ou sentam pelo parque para conversar com amigos, há ainda os que gostam de brincadeiras de correr, como pega-pega ou esconde-esconde.

Escola da Vila

Mas há também muitos alunos que ficam meio perdidos nesse horário, quando todos se dispersam em subgrupos interclasses. Muitos deles preferem ficar dentro da sala, onde sempre fica uma turminha e é garantido que você não ficará sozinho, mas não necessariamente interagindo com os outros. Alguns chegam a ficar isolados, se distraem com joguinhos no celular ou ouvindo música.

Pensando nesses alunos que ainda precisam de uma mãozinha na hora da interação, da brincadeira, do bate-papo, pensando em promover novas interações a partir de atividades diferentes das já ofertadas, pensando em uma forma de combater o isolamento de alguns, propusemos aos 7os anos um projeto diferente, em que eles possam ser os organizadores, tomar decisões, sugerir e resolver as questões que aparecerem. Um projeto coletivo.

Escola da Vila

Iniciamos na aula de OE uma conversa sobre a importância de sair da classe na hora do recreio, dar uma volta, mudar de ares, ver mais pessoas, ter um tempo de relaxamento fora do ambiente onde estudam a manhã toda. Em seguida, conversamos sobre as atividades da hora do recreio: o que fazem, o que gostariam de fazer, que outras opções gostariam de ter?

Entre o que já fazem e o que gostariam de fazer, os alunos fizeram um levantamento de novas ideias de atividades que poderiam propor nesse horário. Entre as mais citadas, e que eles próprios achavam que seria possível levar adiante como projeto comum, estava a ideia de organizar um espaço para jogar jogos de mesa, como os de baralho e tabuleiro, um lugar para ouvir música e um lugar confortável para sentar e conversar.

Escola da Vila

Conversas, ideias, discussões nos levaram a identificar um espaço amplo na escola, com mesas e cadeiras para mais de 30 crianças e com armários para guardar jogos! Um espaço que está livre nos 30 minutos de recreio do FII! Ocupamos com caixinha de som, vários jogos e um grande tapete com almofadas! Os alunos se revezam em trios ou quartetos que ajudam a colocar os jogos nas mesas e depois recolhê-los.

Escola da Vila

Estamos há cinco semanas colocando em prática a ideia do JOGOS NO PARQUE, projeto construído e gerenciado pelos próprios alunos do 7º ano. Rapidamente a ideia contaminou outros alunos e passou a fazer parte das opções de muitos estudantes. Há dias em que o espaço está cheio, outros, nem tanto. Num balanço que fizemos com os alunos, a aprovação do lugar foi muito alta, mesmo daqueles que só frequentam uma ou duas vezes por semana.

Escola da Vila

“É um lugar legal, você põe música, você fica lá com pessoas, até conheci umas pessoas.” 

“Dá pra conhecer novos amigos trocando figurinhas também, é muito divertido! Dá para trazer o jogo que quiser…” 

“Eu pensei que não tinha muita coisa lá para fazer, aí fui lá pra ver e achei legal!” 

“Eu gostei muito porque é um espaço diferente onde dá para descansar, ficar com os amigos. Eu joguei alguns jogos de lá, e tem outros que eu não joguei ainda, mas eu quero jogar outros dias.” 

“Eu gostei porque tem muitos jogos e todo mundo gosta de algum, então ninguém fica parado lá sem fazer nada.” 

“Eu achei bem legal ter umas almofadas ali no canto, e tem uns jogos que eu nunca tinha visto!” 

“Eu não gosto de ficar pelo parque, prefiro ficar na classe ou na biblioteca, mas achei essa sala de jogos melhor do que ficar na classe!”

Escola da Vila

Tudo tem corrido muito bem! O único contratempo que tivemos foi a chegada, ou melhor, a invasão do espaço por uma atividade adorada, mas extremamente barulhenta, já velha conhecida de todos: bater figurinhas! Depois de duas semanas em que tudo ia bem, o espaço virou do avesso com dezenas de crianças animadíssimas falando/gritando todos juntos enquanto batiam figurinhas nas mesas. E os que não estão colecionando, e são muitos, se viram perdidos… A música? Ninguém mais ouvia! Os jogos? Ninguém conseguia jogar! Seguiu-se um debate sobre o que seria daquele espaço se as figurinhas continuassem ali. Muitos alunos, apesar de gostar de figurinhas, estavam convencidos de que não seria possível manter essa atividade ali dentro. A solução foi encontrar outro lugar para as figurinhas, e o espaço voltou a ter a tranquilidade necessária para se ouvir música e ouvir as risadas daqueles que estão se divertindo com os jogos de mesa.

Escola da Vila Escola da Vila

Esta semana, entramos numa fase nova. Os alunos perceberam que, em dias que os 7os anos têm quadra, a frequência diminui. Diante disso, decidiram abrir o espaço para a participação de alunos dos 6os anos. Fizeram o convite nas salas, e aos poucos os alunos estão chegando para conhecer e participar desse novo espaço.

Escola da Vila

O espaço está ali e é uma nova opção para aqueles alunos que gostam de ficar na sala de aula na hora do recreio, para os que ficam meio perdidos no espaço do parque, para aqueles que gostam de ficar em grupo, que buscam novas atividades. O mais importante é que esse é um espaço que está facilitando o entrosamento, propiciando a interação entre os alunos, unindo as séries… Um espaço ao que todos são bem-vindos!

Quando ser diferente faz toda a diferença

Escola da Vila

-

Por Marília Costa, direção da Unidade Granja Viana

O que é ser diferente? Uma vez, em uma palestra, após discursar certo tempo acerca dos conceitos de igualdade e diferença, perguntei ao público por que é tão frequente rejeitarmos o que é diferente. Uma professora, muito espontaneamente me respondeu: porque o diferente assusta. Outros complementaram: porque o diferente é desconhecido e dá medo! Diante dessas respostas, eu perguntei: então por que vocês não se assustam com quem está sentado ao seu lado? Afinal, nós somos essencialmente diferentes!

É interessante pensar o que faz rejeitarmos as religiões diferentes da nossa, rejeitarmos ideias diferentes do nosso modo de pensar ou, mesmo, rejeitarmos o aluno que aprende de um modo diferente, o amigo que fala diferente ou gosta de coisas diferentes. Não é qualquer diferença que nos assusta e não é qualquer diferença que gera sentimentos de rejeição.

David Rodrigues, educador português, ressalta que a igualdade é uma construção humana, ancorada em determinados valores e no conceito de justiça, e data do século XVIII, portanto, só existe, conceitualmente, do ponto de vista ético, e só muito recentemente passou a ser objeto de reflexão nas relações humanas. Concretamente, o que existe são diferenças, do ponto de vista biopsicossocial. Diferenças que são naturais e outras que são produzidas socialmente, diferenças que são visíveis, tangíveis e outras que são invisíveis, intangíveis. Contudo, muitas vezes o que reconhecemos como diferença é uma mistura de diferença e desigualdade (RODRIGUES, 2014), pois percebemos o que é diferente das características que atendem aos padrões hegemônicos como não desejável ou negativo (SILVA, 2000). Todas as características humanas e formas de ser humano, que não se encaixam nesses padrões, tendem a ser vistas como desvios, como é o caso dos alunos com deficiência ou com dificuldade de aprendizagem ou dos alunos pertencentes a minorias linguísticas, dos alunos obesos, entre tantos outros exemplos.

Não existe um ser humano igual ao outro, pois somos naturalmente diferentes em relação a vários aspectos relacionados à etnia, sexualidade, cultura, subjetividade, genética, entre outros. Apesar disso, com frequência atribuímos valores a essas diferenças que nos fazem rejeitá-las ou desejá-las.

Compreender a diferença como expressão da diversidade humana e valorizá-la como fonte de enriquecimento requer uma formação ética que dê sustentação a uma convivência pautada no respeito mútuo, na colaboração, na participação, no senso de justiça. Isso exige um equilíbrio entre o reconhecimento da igualdade e da diferença. Como diz Boaventura Souza Santos (2002, p.75): “Temos direito à igualdade sempre que a diferença nos inferioriza. Temos direito à diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza”. Na nossa escola, esse é um desafio cotidiano. São muitas as situações em que refletimos a respeito de quando tratar todos os alunos da mesma forma e quando utilizar estratégias diferenciadas, quando oferecer apoios específicos, quando dar mais tempo para realizar uma atividade, entre tantas outras decisões que tomamos almejando que todos aprendam os conteúdos curriculares no máximo do seu potencial. Não existe resposta certa para cada uma dessas situações, pois é necessário avaliar o contexto, tomar decisões e avaliá-las constantemente.

Crianças e adolescentes, que crescem entendendo que as diferenças fazem parte da diversidade humana e que uma sociedade justa é aquela em que todos têm e podem exercer os mesmos direitos, convivem valorizando a diversidade, pois reconhecem o quanto ela agrega, soma.

Na nossa escola, diferença e diversidade são alicerces da proposta pedagógica, pois entendemos que a aprendizagem, em todas as suas dimensões, é mais significativa quando existe pluralidade de ideias, opiniões, versões, jeitos de ser e tantas outras diferenças. A homogeneidade limita. A heterogeneidade amplia. Portanto, para nós, a diferença é mola propulsora, é fator de enriquecimento.


Referências

RODRIGUES, David. Os desafios da Equidade e da Inclusão na formação de professores. RODRIGUES, David; ARMSTRONG, Felicity. A inclusão nas escolas. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014.

SANTOS, Boaventura de Souza (Org). Reconhecer para libertar – os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

SILVA, Tomás Tadeu. A produção social da identidade e da diferença. In: SILVA, Tomás Tadeu (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis/RJ: Vozes, 2000.

Os sentidos de uma Escola de Educação Infantil

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Nossa turma de crianças mais novas completa seu segundo ano de vida agora em 2018. Nasceram num mundo digital e conectado, no qual a informação circula massivamente, onde há desafios gigantescos para a humanidade: ecologia e clima estão na agenda, é imperativo tanto a busca pela diminuição das desigualdades culturais e socioeconômicas quanto o aprendizado de viver na diferença e entendê-la como aquilo que nos constitui. Enfim, um mundo da agilidade, das transformações e, porque não, das incertezas.

De que espaço educacional precisam esses pequenos? Quais experiências devem compor seu ambiente para que vivam plenamente as múltiplas possibilidades e potências em seu desenvolvimento? Para que construam projetos de vida singulares e consistentes, quais situações são emblemáticas em sua formação?

Aprender não significa mais o acúmulo de informações e o domínio de ferramentas para seu manejo, mas sim o que fazemos com todo esse acesso, como pensamos, como nos relacionamos e atuamos criativamente frente aos desafios que nos são apresentados cotidianamente.

Em artigo recente, a filósofa da Educação Carla Boto[1] faz uma análise muito aguçada acerca da escola contemporânea e das muitas críticas e questionamentos que tem recebido por parte de inúmeros setores da vida social. Aponta como, tão facilmente, considera-se a instituição obsoleta, diz-se que ela não foi capaz de acompanhar os tempos, que a velocidade das informações na sociedade digital tornou a escola desatualizada. Há claramente uma crise nas imagens pelas quais a escola é representada e isso não acontece somente no Brasil.

Assim, não à toa, vivemos movimentos de repensar a escola, seus propósitos, alcances, sua organização, objetivos, tempos e espaços. Para todos os segmentos da educação básica, do Infantil ao Médio, são inúmeras as discussões ao redor do mundo sobre competências para este século, novos currículos, formação e valorização do professor, processos de avaliação, entre tantos outros.

Nesse cenário, compete aos profissionais que vivem a escola diariamente reafirmar as dimensões, os sentidos e o valor inegável da escola na formação das novas gerações. E, neste post, trataremos de seu início… Lá onde tudo começa: a etapa da educação infantil.

Segundo Ana Malajovich[2], a produção científica atual apresenta a nós, educadores, um estranho paradoxo. Por um lado, reconhecemos nas crianças, desde muito pequenas, maiores capacidades que não imaginávamos há algumas décadas e, como produto do avanço científico sobre essa etapa da vida humana, comprovou-se o peso decisivo que o ambiente sociocultural assume no início do desenvolvimento humano.

No entanto, por outro lado, vemos correntes que pretendem afastar das crianças os direitos básicos à aprendizagem como experiência social e socializadora, o que inclui o direito ao convívio com outros, mediado por profissionais formados, em condições e ambientes favoráveis ao seu pleno desenvolvimento afetivo, relacional, cultural, dentre outras dimensões.

Se a escola de educação infantil é vista como espaço diminuto, tempos gastos em atividades super dirigidas, preenchimento de folhas, protocolos pré-determinados a serem seguidos, vivência de relações nas quais há a imposição de condutas pelo adulto, temos óculos extremamente distorcidos, ultrapassados e que urgentemente precisam de NOVAS LENTES para olhar o que excelentes escolas e espaços de educação infantil estão promovendo em nosso país.

Se, na curvatura da vara, passamos a ter movimentos defendendo que o mais adequado e contemporâneo para a infância é a “não-escola”, precisamos repensar urgentemente quais oportunidades oferecemos às crianças pequenas para desenvolverem suas linguagens e suas potências e, claro, quais condições são inegociáveis para uma experiência plena na primeira infância.

Um projeto educativo responsável garante às crianças a oportunidade de conhecer, de confrontar e criar, de interagir com seus pares e com adultos especialmente formados para essa mediação, de experimentar e de brincar, de ter acesso ao mundo e à cultura acumulada pela humanidade, expressando-se por meio de diferentes linguagens.

Mas qual a razão de propiciar tudo isso às crianças quando pequenas? Não basta poderem brincar do que desejam, a qualquer tempo, como e quando queiram?

Há sentidos múltiplos em jogo, e selecionamos alguns pontos centrais, ao nosso ver, para responder às perguntas iniciais: para que efetivamente uma criança viva uma experiência inicial potente e criativa de relação com o aprender, entendemos ser essencial priorizar que cada criança possa:

Ser única e ser entre outras. O eixo da interação e da percepção do eu a partir do outro é essencial à constituição de qualquer indivíduo. É um aprendizado ter uma escuta atenta ao outro, entender que a ideia do outro pode ser muito legal e, deixar de fazer uma coisa de imediato para ouvir uma oferta que está sendo proposta por outrem é situação que requer a mediação de adultos profissionais. Por que é tão importante se entender como um entre outros? Para além da constituição da identidade, os sentimentos advindos de perceber-se como parte de um coletivo, de ter um grupo de pertencimento e, assim, ter o primeiro afastamento da família nuclear, são experiências humanas cruciais da primeira infância.

A construção de laços de confiança e amizade, a expressão de sentimentos, a vivência de situações desafiadoras e conflituosas, de alguma angústia, num espaço de acolhimento e de mediação adulta qualificada, trazem para a criança benefícios indeléveis.

Criar, assumindo riscos. Arriscar-se em brincadeiras, em construções, em narrar uma história a outros, cantar, contar, modelar, dançar, escrever… Falhar, tentar novamente e ser encorajado para isso. Reconhecer-se nos olhos de outros, especialmente de professores e pares, e sentir a confiança em suas capacidades de realização. Lidar com o erro de forma saudável e processual e, sobretudo, ver suas iniciativas na solução de situações problema valorizadas é o que alimenta o pensamento criativo e a coragem de se expressar. Para isso, é necessário intencionalidade nas provocações planejadas pela equipe de profissionais que entende cada criança e sabe como ajustar bons desafios à diversidade que o ambiente escolar representa.

Investigar e ampliar seus horizontes. A curiosidade não se alimenta por si só, ela pode e deve ser instigada. Entendemos que a ampliação dos olhares da criança para o mundo por meio de situações que trazem a cultura do conhecimento nos mais diversos meios é, sim, responsabilidade do ambiente escolar. A investigação é a força motriz das transformações e ter experiências desde a simples observação de fenômenos, de conversar sobre as coisas, os animais, as plantas, aquilo que vemos, que não vemos, enfim, é propiciado em ambientes ativos e exuberantes em possibilidades de exploração e conversação sobre ideias e descobertas.

São muitas as necessidades da infância e, certamente uma reflexão crucial é o quanto o espaço escolar e seus profissionais são essenciais ao sucesso desse imenso desafio de educar em parceria com as famílias.

No entanto, compreender o valor do profissional que atende a todas essas condições é premissa. A formação que esse educador precisa consolidar é especializada. Não basta gostar de crianças, não basta ter jeito, é necessário estudo contínuo, compreensão das etapas de desenvolvimento que compõem a jornada de aprendizado dos indivíduos nos seus primeiros anos de vida, além de muita reflexão sobre a prática.

Mas tratar da relevância central da formação profissional para os educadores de Educação Infantil é assunto para continuarmos num próximo post, aguardem!


[1] Carla Boto, “Homeschooling”: a prática de educar em casa. 16/3/2018

[2] Ana Malajovich, Jogar ou  Aprender: as duas caras da mesma moeda? 15/9/2012

Ensinar à distância ou aprender na convivência?

Escola da Vila - Aprender na convivência

-

Por Fermín Damirdjian, orientação educacional do ensino médio

Eu e minha irmã temos um pacto de sangue. Se prometemos algo uma à outra, essa promessa tem peso absoluto e jamais pode ser quebrada. E eu a fiz esconder de mim o meu celular e me prometer não contar, durante um mês, o seu paradeiro.” “Ah, é? E por quê?” “Porque ele estava me fazendo mal. Desde pequena fico com aquilo na mão, vendo o que vão dizer sobre o que eu disse em muitos grupos, e eu respondo ao que disseram sobre mim, e não termina nunca esse diz-que-diz. E não converso com meus pais, e quero terminar logo o jantar porque estou pensando em tudo o que estão falando no WhatsApp enquanto fico com eles na mesa. Eu sinto que, quando estou com as pessoas, estou perdendo tempo, porque o que acontece de verdade acontece no WhatsApp. E me dei conta de que, se eu penso isso, eu devo estar completamente maluca. E quando me dou conta de que estou maluca, fico mais aflita ainda e mais ansiosa por estar me sentindo maluca. Então achei que o único jeito era tentar aprender a ficar com as pessoas. Estar com elas de verdade, e não esperando que o encontro termine logo.” “E como tem sido esses dias? “Tem sido ótimos. Aprendi a conversar e dar risada com os outros. Claro que acontecem coisas chatas também, mas é uma de cada vez e não tudo ao mesmo tempo. E a gente está vendo a outra pessoa, não está tentando entender se o que ela disse foi uma piada, uma ironia ou uma agressão. É mais… real.”

As linhas acima são a transcrição de um trecho de um depoimento dado na sala da orientação do Ensino Médio, por uma aluna do 1o ano. Trata-se de apenas um trecho. Foi um depoimento um tanto longo, feito em ritmo bastante acelerado. Cada palavra brotava sem filtro, de forma crua, seca e rápida, a fala entregue a um fluxo frenético de estímulos internos e externos de tudo o que se vive aos 14 anos de idade.

Ela relata, em meio ao caos, uma decisão: pedir o auxílio fraterno para livrá-la do cálice digital que ardia em seus dedos, dia e noite, para conseguir algo elementar à existência humana, desde tempos imemoriais: estar com os outros. Algo que, por momentos, parece estar em risco de extinção nos dias de hoje. A fascinante e meteórica evolução tecnológica nos oferece vagões de metrô lotados, em que todos estão com a cara enfiada no celular. Ou mesmo as rodas de amigos – adolescentes ou não -, na mesma posição, seja nos jardins de uma escola, seja em um restaurante. Ainda assim, pensar na extinção do encontro físico soa um tanto exagerado. Mas não é um equívoco pensar que os encontros entre as pessoas, seja de caráter amistoso, amoroso, esportivo, instrutivo ou profissional, podem estar perdendo certa qualidade.

Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar, como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois com as contribuições do outro uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca a as palavras e limita o desempenho em campo.

Saltando agora para um cenário diverso em tempo e espaço, mas ainda dentro dos muros da escola. Ao longo dos meses, a ânsia por extravasar o furor represado em sala de aula tem levado a uma prática um tanto perigosa: os jogos de futebol no recreio têm ocorrido sem limites de participantes. Em vez de se formarem vários times e quem toma gol sai, formam-se apenas dois, cada um com oito, dez, quinze, dezoito jogadores. Da extinção dessa regra elementar, foi apenas um passo para extinguir as faltas, elemento básico para o andamento razoável de qualquer esporte coletivo. Coisas do contato físico. Por fim, aconteceu o que seria previsto: deu briga. Jogos suspendidos por três dias, a quadra deixou de ser uma arena para se tornar uma ágora. Sentada no chão, a multidão de interessados em retomar os jogos debate sobre forma e modos de reativar as disputas. Quais regras retomar? Como se explica o crescimento da tensão? O que aconteceu exatamente? Precisaremos de um árbitro? Um contrato escrito?

Ambas as situações são típicas e frequentes em qualquer escola que compreenda a aprendizagem não como um processo meramente reprodutivo, no qual uma autoridade dite as explicações para que os alunos as reproduzam. A proposta que subjaz nessas cenas é que a regulação coletiva, se bem tem autoridades mediadoras, é essencial para a mobilização intelectual. Isso vale para erigir conceitos matemáticos, políticos, científicos, como se queira chamá-los. Um pesquisador bielo-russo chamado Vygotsky chamou essas habilidades humanas que se desenvolvem em uma complexa trama de elementos sociais e históricos de conceitos superiores. Dentre as diversas e complexas funções da escola, encontra-se a de promover espaços de elaborações coletivas, as quais favorecem o desenvolvimento dos conceitos superiores.

Olhando agora sob uma ótica mais abrangente, encontramo-nos diante de uma situação social – e, por que não, histórica – de transformações políticas de grandes dimensões, nos últimos anos. Dentre elas, destacamos que em 2017 aprovou-se uma reforma do Ensino Médio que é no mínimo controversa. Alguns aspectos podem ser interessantes, outros podem estar a serviço de motivações que ainda precisam ser mais esclarecidas. Olharemos para apenas uma delas, ainda mais recente: no dia 20 de março a imprensa noticiou que o Governo Federal propõe liberar 40% da carga horária do Ensino Médio a ser realizada a distância.

Não vamos realizar aqui análises sobre o uso didático da tecnologia. Ela tem as suas potencialidades, e não são poucas. Mas a permissão de suprimir quase a metade da convivência física dos alunos que se encontram em idade de constituir a sua subjetividade, por cursos a distância, é uma jogada que pode estar a serviço de muitas coisas, menos à de uma formação consistente de indivíduos, seja como estudantes ou como cidadãos. É uma proposta que abre uma flexibilidade de produtos supostamente educacionais que oferecem situações de interação extremamente limitadas. Se bem pode-se pensar em fóruns de discussões ou trabalhos colaborativos, eles serão uma peça de ficção se essas experiências não estiverem asseguradas em um dia a dia de encontros físicos, profícuos em tensões lexicais, conceituais, lógicas, esportivas – vivenciais, enfim.

Se a escola, em nossa Era Moderna, é uma instituição que nasceu com o intuito de formar cidadãos, não se pode encarar a transmissão de conhecimentos e de valores culturais como um manual de instruções online. A constituição da subjetividade não é um manual a ser baixado na rede. Nem mesmo em 40% – fração que pode se tornar muito mais do que isso, se considerarmos a agressiva evolução tecnológica que arde nas mãos de todos nós e tem potencial para moldar as instituições de todo tipo. Uma coisa seria pensar em um curso técnico ou uma especialização para adultos, outro é o de educar adolescentes que precisam, como dizia a depoente inicial deste relato, crescer e aprender algo tão elementar como “estar com os outros”. É a partir dessa convivência intensa que se dá o desenvolvimento pessoal, com toda a sua complexidade cognitiva e moral.

O retorno do Blog da Vila

Escola da Vila

.

Por Sonia Barreira, direção geral

Este blog teve início em 2010, com a intenção de ampliar os canais de comunicação com as famílias da Escola da Vila.

Naquele momento, pretendíamos manter uma publicação diária, o que fizemos por quatro anos, progressivamente fomos reorganizando nossa produção com a finalidade de atendermos a todos os segmentos e passamos a produzir textos três vezes na semana.

Até o final de 2017 foram 965 textos: 271 sobre Educação Básica, 133 sobre Educação Infantil, 144 sobre F1, 134 sobre F2, 145 sobre Ensino Médio e 138 sobre o nosso Centro de Formação de Professores.

Neste ano, ainda que um pouco atrasados em relação ao início do ano letivo, retomaremos nossos posts a partir de abril, regularmente em três eixos principais:

a) Reflexões autorais sobre temas que impactam o cenário educacional e posicionamentos institucionais sobre políticas públicas, tendências educativas e questões que impactam nosso Projeto Pedagógico.

b) Análise sobre projetos, atividades e acontecimentos de nossa escola que contribuam para o conhecimento de toda a comunidade sobre como e por que concretizamos o currículo escolar da forma que o fazemos.

c) Curadoria e resenhas de textos, exposições, leituras e atividades de outras instituições que possam interessar às famílias das nossas escolas e aos educadores de modo geral.

Não haverá compromisso com dias para a publicação, muito embora nosso desejo é manter de duas a três publicações por semana.

Nas primeiras semanas de abril, o blog retoma com uma análise sensível e profunda do orientador do Ensino Médio, Fermín Damirdjian, sobre a ideia veiculada na mídia sobre a possibilidade do currículo do Ensino Médio poder acontecer 40% a distância.

Em seguida, Fernanda Flores, diretora da Educação Infantil e do F1, retomará nosso posicionamento sobre o sentido da Educação Infantil escolar, seguida de textos da equipe que destacam a importância do profissional educador para essa etapa do desenvolvimento humano.

Ainda nesse período, vamos divulgar um posicionamento claro e detalhado sobre a visão da Escola da Vila sobre a inclusão, logo após reunião com as famílias dedicada a essa temática.

No que se refere à rotina escolar, teremos como destaque o projeto do Fundamental 2 do Butantã do “Recreio com Jogos” – que visa estimular a ampliação das atividades de recreação dos alunos desse segmento.

A equipe do Fundamental 1 vai produzir posts destacando os projetos interséries que, em 2018, ganharam em regularidade e amplitude.

Como desejamos que o Blog da Vila siga cumprindo sua missão de contribuir com o debate de temas de interesse de nossa comunidade e com vistas a ampliar o campo de questões abordado, contamos com a sua colaboração, respondendo à seguinte breve enquete, neste formulário.