Vasto mundo

Vila Literária

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Por Vicente Domingues Régis

“Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”
Clarice Lispector

É com grande satisfação que chegamos ao lançamento de mais uma revista com os textos de alunos de 2º a 5º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila, produzidos para o IV Concurso Literário. Este concurso é mais uma das ações que compõem a Vila Literária, evento voltado para os alunos de Educação Infantil e Fundamental 1 com o propósito de festejar a literatura e sua relação com a música, o teatro e as demais linguagens artísticas.

Nesta edição, contamos com mais de cem textos que nos brindam com diversos personagens, conflitos, emoções e enredos, formando um grande retrato que revela a potência criadora do imaginário infantil. Ao passo que o leitor passeia por esse vasto mundo e suas histórias que só os olhos das crianças são capazes de contar, pode também vislumbrar as ferramentas que vêm sendo construídas ao longo da escolaridade por nossos alunos.

Convidamos, portanto, o leitor a percorrer esse caminho poético pelo imaginário infantil, para se deparar com uma bruxa que tinha os dentes muito sujos, mas que podia comer quatro pessoas de uma vez. Nesse caminho também se encontra uma curiosa explicação para a origem da raiva, que tem início lá no país das emoções, por conta de uma confusão entre uma bruxa e dois príncipes. Além de um planeta chamado Grhouland, que é habitado pelos Grhouls, que eram a raça mais triste que já existiu, assim como muitas outras possibilidades que só são possíveis por conta da inventividade e autenticidade dos nossos pequenos escritores.

Toda essa profusão criativa consiste num grande desafio para o júri do concurso. E, para contar um pouco dessa experiência, convidamos Claudia Aratangy, ex-professora da Vila, atual diretora pedagógica da Bahema, escritora de blog e leitora voraz, que participou do júri na categoria Histórias de Infância, do 4º ano.

Missão jurada

Ao ser convidada para compor o júri do VI Concurso Literário da Vila, além de honrada, fiquei um pouco receosa – como avaliar de forma justa os textos dos alunos? Seria eu capaz de fazer isso?

Escrever não é tarefa simples. Quando eu era criança, escrever na escola era um tormento. Por mais bem-intencionadas que fossem as professoras, o que nos propunham eram as chamadas redações, que tinham como tema datas comemorativas, passeios, férias ou o mais complicado de todos: o tal “tema livre” que nos aprisionava e torturava no enorme vácuo da falta de ideias. A indicação do gênero textual também não tinha limites claros: combinávamos relato, memória e até divulgação científica – uma salada. Para o bem ou para o mal, nossos leitores resumiam-se à professora e, em alguns casos, mães e pais. Fazíamos o que estava ao nosso alcance para tentar escrever algo que correspondesse às expectativas de leitores tão importantes. O resultado era pífio.

Hoje as propostas escolares são bem mais estruturadas, também porque são mais fundamentadas – os alunos leem e analisam os gêneros que irão escrever, aprendem a organizar suas ideias, planejam a escrita e, além disso, podem ter diferentes leitores para seus textos, pois não ficam mais restritos a uma folha de papel ou aprisionados em um caderno – o mundo é o limite, já que temos a web.

Assim, embora escrever continue a ser uma tarefa árdua, hoje há mais conhecimentos e recursos didáticos disponíveis, e os alunos se beneficiam deles. Ao que parece, quando nos deparamos com os textos do concurso, podemos concluir que, na Escola da Vila, escrever transformou-se em um desafio que meninos e meninas estão dispostos a enfrentar espontaneamente e com sucesso.

Como nunca havia sido jurada em um concurso dessa natureza, optei por participar em apenas uma das categorias – Narrativas de Infância – me arrependi depois, pois gostaria de ter lido mais textos.

Foi inspirador passear entre as memórias vividas ou inventadas das crianças. Observar como começam a estar atentas às escolhas que faz um escritor: busca de palavras para tornar o texto mais engraçado ou mais comovente, frases encaixadas para criar suspense ou empatia, a evidente preocupação com a cumplicidade do leitor.

Não foi simples eleger as narrativas para serem premiadas – gostaria de homenagear todos que se empenharam nessa tarefa! Como isso não era possível, busquei seguir as orientações da organização do concurso. Li, me deixei levar pelo impacto causado pela história e, em seguida, analisei em que medida a narrativa apresentava um fato de infância, caracterizava ambientes e personagens, temperava com pitadas de humor ou emoção e surpreendia com desfecho inusitado. Combinando critérios mais objetivos com outros um pouco mais subjetivos, fiz minha classificação. Curioso observar que nenhum jurado fez a escolha exatamente igual ao outro – o que confirma que muitos textos eram dignos da premiação. O resultado final é uma composição dos pontos em comum entre as várias escolhas. Acredito que fomos tão justos quanto possível!

Acredito que a experiência de um concurso – independentemente de ser premiado ou não – propicia aprendizagens preciosas e, espero, que cada ano mais alunos se atrevam a encarar esse desafio. Espero, também, poder participar novamente da difícil – mas prazerosa – missão de ser jurada.

O papel da leitura na vida das pessoas

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Por Fernanda Flores, diretora pedagógica da Escola da Vila.

Recentemente, recebemos Marcela Carranza, professora e especialista pela Universidade de Barcelona em Livros e Literatura para crianças, para uma conversa e oficina com professores de nossa escola e de outras, para pensarmos nas relações entre Arte, Brincadeira e Literatura.

Deixou-nos um texto escrito recentemente para provocar reflexões sobre o papel da leitura na vida das pessoas, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Esse texto, em seu original, está publicado pelo Laboratório Emília, que esteve, com o CEDAC, em parceria com nosso Centro de Formação, na promoção de ações formativas que deem suporte a práticas pedagógicas comprometidas com a formação crítica e integral das novas gerações.

Uma janela aberta para A Terra do Nunca
(sobre a literatura de arrebatamento) de Marcela Carranza[1]

El arte, la poesía siempre pensé es la continuación de la infancia por otros medios.
(…) la escritura es eso, como volver a jugar.
En realidad estás jugando
con el lenguaje.
María Negroni

A literatura nos aproxima da infância. É uma maneira de restaurá-la. Quem se deixa levar pela literatura seja como escritor ou como leitor, a distinção não importa aqui, é capaz de restaurar maneiras de pensar próprias das crianças, especialmente das pequenas, e isso, para um mundo todo estruturado e que se quer previsível, é perturbador, desestabilizador, pouco tolerável e no mínimo incômodo, para não dizer, perigoso.

A Terra do Nunca, para onde nos levam as brincadeiras, os livros e também outras experiências culturais, é um país onde há outras possibilidades para o mundo em que vivemos, para a própria vida. É um mundo a construir, um mundo de aventuras e riscos. As garantias que se pressupõem de um mundo seguro se esvaem.

Não deixo de me perguntar por que a escola, em particular, e a sociedade em geral se esmeram com tanto afinco em querer domesticar a literatura: por que custa tanto à maioria dos adultos aceitar a indocilidade, a incontrolabilidade quando se trata de literatura para crianças. Penso que o problema, quem sabe, resida aqui: o imprevisível, o aberto, o não dado, a possibilidade de pensar completamente de outro modo, isso assusta, ainda mais quando se trata de crianças. Mas por quê? Porque elas ainda não assumiram as nossas verdades como únicas e insubstituíveis.

Tudo deve ser útil? A literatura na escola deve ser útil, servir para algo, ter alguma finalidade imediata? Se pensarmos um pouco, quando alguém lê um conto para uma criança pensando que deixa pra ela algum ensinamento, uma mensagem positiva, então não está depositando o devido valor na experiência mesma de ler, de brincar com as palavras, com as imagens, com os sonhos, a imaginação e a fantasia que esse texto pode provocar na criança leitora, mas pensa em algo que está fora dela. E isso não ocorre somente para textos mais tradicionais, que deixam ensinamentos ultrapassados, livros que vergonhosamente seguem vigentes; mas isso ocorre também para livros e leituras produzidas e destinadas a ensinar valores atuais, como a solidariedade, a paz mundial, o cuidado com o meio ambiente, o respeito às diferenças, os direitos feministas, etc. Livros que pretendem guiar passo a passo a transformação do leitor-criança segundo os desígnios do adulto.

“A literatura não é utilitária, tem relação com outras coisas, com uma espécie de busca que se faz por meio da linguagem. A linguagem é um meio e o que faz é uma coisa muito mais sutil. A escrita desmonta as maneiras convencionais de olhar a realidade, desmonta, desconstrói. Então cai por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. E, quando digo autoritário, não me refiro somente ao discurso político, e sim a qualquer discurso, porque todos são políticos, todos são, o discurso íntimo também o é. O discurso que diz “isso é assim”, em definitivo, é autoritário, venha de onde vier”.
María Negroni. 

“Se invisto tempo e esforço na leitura de um conto para uma criança, devo esperar algum resultado.” – pensam muitos adultos.

Há necessidade de um vazio prévio para a criação. E a leitura é criação, não resta dúvida. Um bom texto não nos diz como devemos lê-lo. Podemos dar às crianças materiais para brincar, oferecer-lhes um espaço, quem sabe uma orientação inicial, mas será a criança quem irá brincar, o único protagonista da brincadeira, e fará o que quiser com ela.

Com a leitura, acontece algo parecido. Felizmente, ninguém pode ler pelo outro nem dizer ao outro como se deve ler um texto, nem sequer o próprio autor. No entanto, muitos adultos querem guiar a leitura das crianças, dizendo o que e como devem ler, obrigando a coincidir suas leituras com as da escola. Muitos adultos, muitos professores, entendem a leitura como uma entre tantas formas de acatar a autoridade, ao que a sociedade nos tem tão tristemente acostumado. É o outro que tem a verdade, o outro que conhece a leitura correta do texto, e eu devo reproduzir. Isso está longe do brincar, de criar, de descobrir e de pensar.

A literatura é uma luta contra o dogma, do “certo e indiscutível” que pode se manifestar de formas variadas, uma delas, a mais sutil e talvez eficaz e efetiva, são as formas cristalizadas da linguagem. O dogma da palavra estabelecida. Por isso, brincar com a linguagem, transgredir suas regras, pôr em evidência seus lugares comuns, revelar clichês, como fazem com maestria Caroll, Cortázar, entre outros, é uma passagem para a liberdade.

Segundo María Negroni, ao desmontar as formas convencionais de olhar a realidade, em sua busca por meio da linguagem, a literatura deita por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. Na linguagem literária falamos de liberdade, porque as palavras se libertam de sua servidão como instrumento de sentido.

Por isso, para permanecerem apegados aos conteúdos, os temas em livros infantis não deixam de ser uma maneira a mais de limitar a linguagem da literatura de seu poder libertador.

Jacques Derrida diz que quando as palavras começam a ficar loucas é quando se conectam com as outras artes:

“Assim quando estou realmente enamorado das palavras, e como alguém encantado pelas palavras, as trato sempre como corpos que contêm sua própria perversidade – sua própria desordem regrada. E quando isso ocorre, a linguagem se abre às artes não verbais. Quando as palavras começam a enlouquecer dessa maneira e deixam de comportar-se respeitando o discurso é quando têm mais relações com as demais artes.”

Viver uma experiência estética que nos permite sermos outros para voltar a pensar e pensar-nos, uma experiência que nos rapta deste mundo, nos distancia do tempo e do espaço, para nos devolver transformados, irreconhecíveis. Se não cremos em fadas, as fadas morrem. E com elas morre uma parte de nós mesmos, aquela que nos conecta com a infância, com nosso modo de estar no mundo durante a infância.

A brincadeira, a arte, a literatura compartilham um mesmo lugar na vida das pessoas, esse lugar da espera, da negociação com o mundo, com seus limites e suas exigências. No espaço da brincadeira, da literatura, diz Graciela Montes, há gratuidades, há liberdade absoluta.


[1] Tradução livre, de versão reduzida pela própria autora. Para ler na íntegra seu texto em espanhol, clique aqui.

Parecer da Escola da Vila sobre Alfabetização na BNCC

Escola da Vila
Produção em dupla realizada por alunos do 1º ano para o Projeto Mitos Gregos

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Por Fernanda Flores, diretora pedagógica da Educação Infantil e Fundamental 1

No meio educacional, passamos por processo de imensa importância, a definição de uma base nacional comum curricular com implicações diretas na organização dos currículos das escolas, ou seja, uma lei nacional sobre os objetivos gerais de aprendizagem, aquilo que se pretende que se ensine na educação básica para todos os brasileiros e brasileiras em território nacional.

A alfabetização é um aspecto chave na inserção e na construção de vínculos de todo ser humano com sua cultura de origem. É um ponto central, a partir do qual se decide quem são os que terão mais ferramentas para comunicar o que pensam, compartilhando um acervo social e cultural, assumindo-o como próprio, e quem ficará à margem, sem os meios suficientes para participar de forma qualificada da cultura escrita.

Quando há risco de a alfabetização voltar a ser vista como uma etapa mecânica e isolada dos processos de aprendizagem da leitura e da escrita, precisamos dedicar todas as forças para nos opor, para marcar posição contrária e, certamente, para unir vozes que impactem uma revisão da versão que se encontra em discussão no Conselho Nacional de Educação.

Vimo-nos convocadas a situar uma e outra vez, quantas forem necessárias, que o documento da BNCC em sua terceira versão apresenta uma visão reducionista dos processos relacionados à aprendizagem da leitura e da escrita, aumentando a distância entre os que têm acesso a práticas pedagógicas que consideram a formação do leitor e escritor como um aprendiz de um ofício, que aprende porque está imerso, desde o primeiro dia na escola, em contato frequente e sistemático com contextos de leitura e escrita; e os que menos têm acesso, ou simplesmente são introduzidos ao mundo da escrita via a aprendizagem isolada dos nomes das letras, das sílabas e de (pseudo) textos que dizem nada a ninguém, esvaziados de sentido porque são meros pretextos para ensinar letras, sons e sua combinatória.

Vimos aqui publicar nosso parecer crítico, enviado em 11 de setembro ao Conselho Nacional de Educação, e expressamos nosso compromisso com a educação pública, com o valor da educação como direito primordial, em condições de equidade e qualidade garantidas pelo estado. Valorizamos, assim, a oportunidade de participar em discussões que deem suporte ao avanço qualificado das políticas educacionais de nosso país.

Para conhecer o Parecer na íntegra, clique aqui.

Estudar, motivar, mobilizar

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

Li, há quinze anos, em uma época em que o jornal ainda reservava certa sacralidade em seu formato de celulose matinal, um artigo que me marcou. O psicanalista Contardo Caligaris discorria sobre as diferenças entre um ensino divertido e um ensino interessante. Desde então, nesse longo intervalo de tempo ocupei-me diariamente de um percurso escolar rico e intenso entre a orientação educacional do Ensino Fundamental 2 e o Médio na Escola da Vila. As cenas cotidianas, somadas a alguns elementos conceituais, continuaram a alimentar leituras antigas, tais como esse velho artigo.

Uma das cenas que me faz lembrar esse tema é a constante pergunta que surge em reuniões de pais sobre como motivar os filhos para que leiam e estudem. Sempre há, nessa pergunta, dois sentidos implícitos que se alternam de reunião em reunião: ora ela carrega um ressentimento em relação a “essa geração”, pois “na minha época a gente estudava, pegava no batente”, ora o ressentimento se volta à instituição: “a escola precisa se renovar e encontrar formas mais motivantes”.

Comecemos pelo primeiro sentido descrito: comparações entre as gerações são inevitáveis, pois utilizamos nosso próprio repertório para entender o mundo à nossa volta. Por outro lado, não podemos nos ater à nossa experiência para nos cobrirmos de certezas, inclusive porque nossa memória nos trai: que levantamento estatístico temos para dizer que “antigamente” se estudava mais? Não será que muitos dos que não estudavam espirravam mais rápido do sistema escolar? Será que estávamos atentos a tudo aquilo que não funcionava bem, do alto dos nossos 15 ou 16 anos? E, muito além disso: será que não lembramos com saudade e nostalgia de uma época que, vista com tanta distância e estando já mais maduros, com uma vida minimamente construída, nossa memória faz uma leitura mais polida sobre o passado, o que resulta em uma espécie de romance autobiográfico com o qual nos deleitamos? Afinal, depois de passado tanto sufoco, temos direito a nos sentirmos heroicos depois de um sem-número de trapalhadas acadêmicas, amorosas, profissionais e familiares cometidas ao longo desta longa estrada da vida. Depois que tanta coisa deu errado, podemos nos enganar um tiquinho pensando que tudo deu certo. Algumas doses de otimismo retroativo podem ser necessárias para seguir avançando.

Já com relação ao segundo sentido da queixa, eu pretendo me estender um pouco mais: a escola tem que se reinventar e entreter mais os seus alunos. Tem que conquistar mais essa moçada inquieta, muito bem informada, esperta, que sabe apertar botões – ops, botões existiam até o fim dos ’90, agora são telinhas – enfim, mexe com tecnologia com a mesma desenvoltura com que Louis Armstrong dedilhava seu trompete. Incrível, esse pessoal “já nasce sabendo”!

Ora, é verdade que a geração atual de crianças e adolescentes está diante de uma avalanche de estímulos que são diferentes de outrora. Isso traz muitos efeitos, e interpretá-los é uma tarefa árdua. Qualquer um que apareça com duas ou três frases definitivas sobre isso, sejam elas saudosistas ou não, está incorrendo na gigantesca tentação de entender o mundo de forma simples e apressada.

No caso do cotidiano escolar, entendemos que sim, é preciso se renovar. Mas não significa que educadores e demais cidadãos inquietos com o tema se deram conta disso agora. Há abundância de propostas transformadoras nos últimos 30 ou 40 anos – não por coincidência, em período posterior a longos ciclos de ditaduras militares na América Latina e em muitos países europeus. Basta ver a vasta quantidade de educadores de referência que proliferaram na Argentina, Brasil, Espanha ou Portugal, para ficar nos exemplos mais próximos e evidentes. A transformação de uma instituição que é, apesar de todos os seus pesares, a mais respeitada pela população, perdendo apenas para a família, como atestam algumas pesquisas, esbarra em questões políticas, mercadológicas e culturais que não são simples de superar.

Ao mesmo tempo há fundamentos elementares que, embora tenham inaugurado as primeiras décadas do século XX com a consolidação da escola como um direito fundamental, estão longe de envelhecer, pela profundidade e consistência pelas quais interpretam o ato de aprender. Muitas delas, tão díspares e amplas como a psicanálise ou os fundamentos vygotskianos, apontam para um ponto que nos interessa na discussão entre o que é divertido e o que pode ser interessante. Vejamos como.

Um dos muitos paradoxos do ato de ensinar é que o professor deve contar com a atividade intelectual do aluno. A ideia de transmitir conteúdo com a mesma mecanicidade com a qual se rega uma planta não pode ser mais considerada depois de todo o acúmulo teórico da psicologia, psicanálise, pedagogia e neurologia. Não existe aprendizagem sem atividade intelectual. O que um professor faz é oferecer as melhores condições possíveis para que o aluno abocanhe o conhecimento que lhe é exposto. E não se trata de um simples desfile de exposições acadêmicas: os professores se desdobram para não apenas “explicar direito”, mas também para gerar no aluno a percepção de certa carência de modo a, diante de seu repertório prévio e de suas lacunas, apropriar-se do momento e do modo adequados para incorporar o que lhe é proposto. Mais ou menos como um urso que, ao longo de suas quatro ou cinco décadas de vida, aprende a se posicionar no lugar certo do rio a cada temporada em que os salmões resolvem subir até a nascente onde nasceram, e assim abocanhar seu almoço. O professor dá elementos e condições para que o aluno aprenda a se posicionar cada vez melhor e desenvolva sua competência para se nutrir daquilo que lhe é proposto, por meio das mais diversas estratégias didáticas.

Pois bem, isso é impossível sem que o aluno se mexa. Ora, então, como é que a escola pode motivar meu filho a aprender? O erro está em pensar que um aluno deve se mover pela motivação. A motivação pode até existir, mas não é a peça-chave. Essa chave reside muito mais na mobilização. O que se procura é que se desenvolva um movimento intelectual capaz de dialogar com o desejo individual do aluno. É nesse diálogo um tanto obscuro que transita a construção do conhecimento e do saber. Como explicar o papel da motivação de tantos alunos que, sim, tiveram ótimos desempenhos escolares em instituições tão austeras e tradicionais de outros tempos? A escola tradicional era um lugar divertido? Não necessariamente. Algo ali mobilizava alguns desses alunos. Resta saber o que ocorria com aqueles que não entravam no jogo, mas isso é outra história.

A motivação nos remete a algo mais próximo da razão: segundo o dicionário Aurélio, motivar é dar motivos, fundamentar. Ora, é claro que devemos dar os motivos de frequentar a escola e expor as razões pelas quais um aluno deve estudar. Mas garanto que isso é apenas um ingrediente, longe de ser determinante, dentre aqueles que podem fazer alguém de fato estudar. O que de fato se busca é mobilizar o aluno.

Entreter, divertir, isso pode ajudar um pouco, especialmente no ensino infantil, pois é uma linguagem mais palatável para se apresentar um determinado patrimônio cultural – a língua, a música, as habilidades matemáticas, o que for. No entanto, com o avanço da idade, os alunos estão mais aptos a se apropriar de um repertório mais complexo, sem necessariamente se divertir para tanto. Um aluno pode ser motivado a entrar em sala de aula pontualmente se lhe forem oferecidos, por exemplo, chocolates. Mas isso não servirá para mobilizar seus recursos pessoais mais profundos de modo a que aprenda mais.

Voltando ao revisionismo autobiográfico entre as gerações, será que antigamente – sabe-se lá a qual antigamente cada um se refere – os alunos não precisavam se divertir tanto para se mobilizarem intelectualmente?

Será que os adolescentes, hoje, têm acesso a tão vasta gama de entretenimentos cotidianos que perderam a capacidade de se mobilizar sem que haja uma ferramenta de diversão como mediação? É difícil responder, inclusive porque isso é uma generalização perigosa que desconsidera brilhantes criações que vemos no dia a dia escolar, feitas com imaginação, esmero e muito interesse. Mas, sim, notamos que há um imediatismo crescente e preocupante, que avança sobre alimentos açucarados, drogas e demais estímulos fragmentados de retorno curto e imediato.

Tudo isso não impede que nos preocupemos com muito do que vemos nas crianças e adolescentes de hoje. Mas não devemos esperar que a construção de conhecimento seja apenas motivadora, somente pela grande oferta de diversão que parece ter se tornado um imperativo no mundo contemporâneo. Inclusive porque há fortes indícios de que essa abundância está gerando uma perigosa falta de desejo. E sem ele não há mobilização.

Para saber mais:

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber, formação de professores e globalização, Capítulos 4 e 5. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CALLIGARIS, Contardo. Vida divertida ou vida interessante? Folha de São Paulo, dez/2002.

LA TAILLE, Yves de.; HARKOT-DE-LA-TAILLE, Elizabeth. Valores dos jovens de São Paulo. São Paulo: Instituto SM para a Equidade e a Qualidade Educativa, 2005.

Sobre eventos, celebrações e Brasil

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

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Por Eliane Mingues, formadora dos professores de F1 da Unidade Granja Viana

Ao final de um evento, seja ele qual for e onde for, lá no fundo, nos vem uma sensação boa de dever cumprido, já perceberam? Dever que é quase um aliado da obrigação e muitas vezes tão comum, quando falamos de instituições. Só que, na verdade, quando o evento é mais do que um dia na agenda, essa sensação não é de dever, mas de satisfação – porque tudo deu certo.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E aqui vale um parêntese, o que é dar certo? Como andam nossas métricas de sucesso e perfeição? Com nossos dias corridos e exigências cada vez mais acirradas, estamos conseguindo valorizar o que de fato importa? É nessas horas, no depois, que temos que colocar reparo: o que é perfeito? Perfeito para quem?

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Os eventos, aqui na Escola da Vila, são grandes parceiros dessa minha reflexão. Isso porque eles não são seus, nem meus, nem de ninguém, mas, sim, de cada aluno e de suas emoções e empenhos ali depositados. A partir de cada um é que chega até nós a celebração daquilo que eles fizeram, puderam e conseguiram, numa partilha solidária que só as a crianças sabem prover.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

O “Um Pouquinho de Brasil”, realizado no último sábado na unidade da Granja Viana, foi mais um evento que deu certo. Emocionou quem esteve presente porque pudemos sentir cada depósito de atitude e comprometimento dos alunos com aquele dia. Sua duração, das 10h às 14h30, foi apenas um instante para celebrar com eles uma festa que começou muito, muito antes. No pensamento conjunto entre professores e alunos sobre as oficinas, na preparação de cada trabalho, no empenho de sua preparação e montagem, nos sons e nas formas que queríamos contar a respeito do nosso país, esse tal Brasil que anda atribulado ultimamente, assim como todo o restante do mundo, de certa forma.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

É que, “Um Pouquinho de Brasil”, uma tradição na Vila, é o reconhecimento autêntico do nosso espaço na rica cultura popular brasileira que nunca pode ser abandonada pelo lastro da globalização. A gente sempre celebrou o Brasil por aqui, e construindo esse pensamento com nossas crianças e jovens, preservamos um orgulho que passa pelo reconhecimento do que temos de melhor, mas também de pior, para corajosamente ampliarmos o bem ou contribuirmos verdadeiramente com as mudanças necessárias.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Cada lantejoula costurada no painel da entrada, cada colagem do nosso lambe-lambe comunitário para a fachada da escola, cada família participante, cada som do tambor na apresentação do grupo Tiquequê, cada olhar curioso perante as tecnologias que convivem, e muito bem, com as tradições, cada olho no olho dos nossos alunos, cada qual, cada um, cada ação individual e coletiva dessa festa nos encharca de vida boa, fica na memória e faz jus aos dias que buscamos para o futuro das nossas crianças.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

“Um Pouquinho de Brasil”, aqui na Granja, ainda nos deu a conhecer outras situações especiais de outros projetos desenvolvidos durante o primeiro semestre, e assim pudemos adentrar outros cenários e conhecer os répteis e animais do fundo do mar, o museu da família, que este ano foi todo organizado pelos alunos, e a exposição dos anos 60 e 70, que retratou toda a pesquisa e o estudo sobre esse tão conturbado período da nossa história.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E depois de sair tão nutrida por tantas e tantas coisas lindas construídas pelos alunos, tudo o que foi possível sentir ali naquele sábado de sol foi: que bom que somos brasileiros. Que bom que decidimos estar juntos. Que bom que escolhemos partilhar esse momento. Que bom que vocês foram lá para ver os alunos da Escola da Vila cuidando do patrimônio do nosso país.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Que bom que tudo deu certo. E que bom, sendo assim, ter sido perfeito entre os seus diferentes e os seus iguais.

Dever cumprido! Ou melhor, mais um ano de grande satisfação.

Iqbal e o direito de ser criança

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Por Fernanda de Lima Passamai Perez

Em quase 7 anos de existência, o Vilalê, clube de leitura, leu diversos títulos que despertaram discussões acaloradas e sensibilizaram o grupo, mas nenhum como Iqbal.

Ao se propor o título, havia um desafio para além da linguagem, havia um fato real: o assassinato de uma criança. Iqbal, garoto paquistanês cuja história serve como fio condutor da narrativa, foi entregue pela família ainda muito pequeno para trabalhar como tecelão em uma das inúmeras tapeçarias de seu país, sem qualquer direito. E, diferente das muitas outras crianças que trabalhavam em situação semelhante, Iqbal não deixou de sonhar, não se rendeu ao destino que traçaram para ele.

A saga do garoto franzino e sorridente tornou-se conhecida mundialmente. Ainda que tenha tido sua vida abreviada, Iqbal deixou um legado. Esse legado inspirou desde a construção de escolas no Paquistão, bem como prêmios: Iqbal Masih Award for the Elimination of Child Labor e WORLD’S CHILDRENSPRIZE, entregues àqueles que combatem a escravidão infantil no mundo.

A empatia dos integrantes com esse personagem foi intensa. Embora A história de Iqbal seja uma ficção, ela é baseada em fatos reais, infelizmente. No decorrer da leitura, o grupo foi refletindo e tomando conhecimento de que esse cenário não era exclusividade de um longínquo país asiático. Mesmo aqui no Brasil havia crianças e adolescentes que trabalhavam em condições não favoráveis ao seu desenvolvimento, o que, de certo modo, impede o acesso delas à educação. Iniciou-se então uma série de questionamentos a respeito da falta de direitos dessas crianças, principalmente o direito de SER criança. Foi então que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) apareceu nas discussões. Mas o que é ECA? Por que a elaboração de um estatuto para garantir direitos às crianças? Criança tem direito? E se ela for pobre não pode trabalhar para ajudar a família?

Para responder às inquietações e curiosidades dos integrantes, em nosso último encontro, dia 23 de junho 2017, o Vilalê recebeu a visita de Francisco Bodião¹, mais conhecido como Chicão, orientador educacional do Ensino Médio, profundo conhecedor do ECA e ativista pelo direito à cidadania, principalmente de crianças e adolescentes – grupos bastante vulneráveis e pouco visíveis pela sociedade.

O encontro teve início com relatos dos integrantes sobre o livro e sobre a recepção da leitura por parte do grupo. Em seguida, Chicão relatou de maneira muito emocionante experiências pessoais que serviram para exemplificar a importância do ECA – que completou 27 anos no dia 13 de julho –, e seu significado para o Brasil no início da década de 1990, poucos anos depois da abertura política brasileira e com uma Carta Magna nova. Gradualmente, os presentes foram entendendo a importância de haver leis específicas, que garantam às crianças e aos adolescentes o acesso à educação, cultura e condições especiais de trabalho, com o fim de assegurar oportunidades equânimes para o desenvolvimento desses jovens como cidadãos. Entre as muitas informações que o nosso convidado compartilhou estava a de que, há 17 anos, a biblioteca Tatiana Belinky acolheu o grupo, do qual Chicão ainda faz parte, que criou o Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Butantã (FoCA), cujas reuniões acontecem mensalmente, e convidou a todos para participar da Semana do ECA – na última semana de setembro.

A história de Iqbal disparou diversas outras questões em relação a direitos para além da criança e do adolescente, a situação dos idosos no Brasil, por exemplo. Como desafio, nosso convidado propôs ao grupo buscar uma leitura que provocasse uma discussão a esse respeito. Desafio aceito!

Para finalizar, Chicão revelou um desejo: “Que a gente tenha cada vez mais dúvidas. Que a gente cada vez mais se pergunte. Que a gente não aceite de primeira qualquer coisa”.

Obrigada, Iqbal! Obrigada, Chicão!


¹Chicão Trabalhou na Pastoral do Menor da Praça da Sé.

Por que é tão difícil dizer não?

Lidia Aratangy na Vila

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Por Cecília Galoro, mãe de alunos da unidade Granja Viana

Em uma noite fria e chuvosa, como a da última quinta-feira 17 de agosto, a Escola da Vila – Unidade Granja Viana – recebeu um auditório lotado de famílias e educadores, no evento em que a psicóloga Lidia Aratangy foi convidada para falar sobre o Não e sua importância na educação das crianças.

Com o tema Por que é difícil dizer não?, pais, mães, professores e educadores de São Paulo, Cotia e região se mostraram interessados em refletir sobre a árdua tarefa de colocar limites para as crianças nos dias de hoje.

A psicóloga, com grande experiência de vida e profissão, abordou de maneira simples e divertida pontos cruciais que devem ser levados em conta na hora de educar por amor.

A palestra foi preparada em conjunto com todos os participantes, que enviaram antecipadamente suas maiores questões e dificuldades para serem esclarecidas, fazendo com que o evento fosse, de fato, uma rica troca de experiências, proposta presente e convergente na maneira de atuar da Escola da Vila.

Ao relatar, por exemplo, que é um erro tentar evitar as frustrações inerentes do processo de amadurecimento das crianças e jovens, Lidia deixa claro que muitas vezes, em vez de amor, podemos ter colaborado para a dor de nossos filhos no futuro, já que, certamente, eles irão conviver com fracassos ao longo da vida.

Durante 1h30, muitos mitos foram desmistificados, propondo uma reflexão autêntica sobre o papel de cada pessoa em contato com uma criança, e a responsabilidade de todos no processo de educar.

Aspectos e dúvidas como o desafiante mundo virtual, castigos, a banalização do não, o diálogo verdadeiro, um não pode virar um sim, o que significa ser amigo do seu filho, liberdade e limite, a diversidade vivenciada e não apenas discursada, respeito e, por fim, a nossa responsabilidade em manter a crença na humanidade, sendo filtros e não esponjas, para assim valorizarmos nos nossos filhos e alunos, seus atos de solidariedade, tolerância e cuidado com o meio ambiente, foram explanados de forma clara, com o objetivo de colaborar para a transformação de um futuro melhor, que será construído por eles nas bases da educação que nós oferecemos hoje.

Certamente todos os que compareceram, dizendo não ao frio, à chuva, ao trânsito e sim ao tempo dedicado aos seus filhos e alunos, saíram desse encontro certos de que saber escolher entre o sim e o não é um grande ato de coragem e amor.

Transformador, podemos dizer.


A palestra está disponível no canal do Youtube da Escola da Vila.
Por que é difícil dizer não?

Blog entra de férias

Caros leitores e leitoras,

Nosso blog entra de férias hoje e retoma suas publicações no mês de agosto, trazendo novos posts sobre o trabalho realizado na escola e também nossas reflexões acerca de temas educacionais contemporâneos.

Mas, como fechamento do semestre, escolhemos um texto escrito sobre Férias, em 2014, pelo orientador do Ensino Médio, muito oportuno para esse período!

Boa leitura e tenham todos merecidas férias!

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Férias!

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian

Por esta época, as escolas dão aos alunos as diretrizes dos trabalhos escolares a serem feitos nas férias. Algo como um ou dois livros a serem lidos e algum filme para assistir, no caso do Ensino Médio da Escola da Vila. Para alguns casos específicos, seria uma oportunidade para o aluno retomar conteúdos que não puderam ser bem assimilados por ele na correria dos dias letivos. Sabemos que a escola tem um ritmo próprio que, por mais que os educadores se disponham a fazer algumas adaptações, há um calendário que avança, inexorável como qualquer medida de tempo. Há alunos para os quais essa medida atropela suas possibilidades de aprendizagem, que existem, mas que requerem uma situação menos frenética para serem desenvolvidas.

De um jeito ou de outro, vemos os rostos dos alunos se desfigurando em expressões de desagrado, em queixas de excesso de conteúdo, de falta de sossego e de tempo para o ócio. Não raro os pais também manifestam seu desconforto, especialmente quando as atividades para as férias atravessam a oportunidade do lazer em família, arduamente conquistada entre os longos períodos de tensão profissional.

Se as férias são férias, por que diabos a escola invade esse precioso tempo com leituras e tarefas? De fato, a escola não é obrigada a fazer uso desse período. É mesmo uma opção. E o que se leva em conta para seguir esse caminho são muitos fatores.

Em primeiro lugar, no Ensino Médio, contamos com o fôlego dos nossos alunos. E isso é algo que costuma espantar os pais de primeira viagem com seus filhos no 1º ano desse segmento, já na mudança de ritmo e da grade de matérias que passarão a fazer parte da rotina dos filhos. Mas logo veem e se surpreendem que eles respondem, em geral, de forma positiva à profundidade e à diversidade desses conteúdos. Não raro no primeiro trimestre, alguns se queixam de ver o filho estudando até a madrugada para uma prova do dia seguinte. É mais do que óbio que não medimos o grau de eficácia didática pelas olheiras dos nossos alunos. Mas dentre as exigências está o aprendizado sobre os procedimentos de estudo e o aprimoramento de sua postura de estudante como elementos a serem conquistados, de forma a antecipar e a organizar seus afazeres. Ainda assim, é claro que em algumas épocas os estudos podem invadir as horas de sono.

Por outro lado, a exigência dos alunos por férias plenas pode ser vista como uma reivindicação básica nesse caldeirão de contradições que caracteriza essa fase da vida: uma negociação árdua e extenuante, no dia a dia escolar e familiar, daquilo que querem preservar da infância, tal como o conforto e a distensão, e o que querem ganhar da vida adulta que se espreita no horizonte, como a independência supostamente ampla e irrestrita.

Mas cabe-nos olhar mais detalhadamente as coisas se quisermos sair do senso comum e se pretendemos levantar elementos que nos ajudem a lidar com aqueles que pretendemos educar. E se há algo que pode caracterizar nosso papel é a tensão que caracteriza a prática educativa e que pode variar de figura e de intensidade no convívio com aqueles que educamos, sejam filhos ou alunos, mas que nunca cessa.

Tanto na escola como na família, há momentos de carinho, de comunhão, de troca com esses adultos, sem dúvida alguma. No caso da família, as férias são a oportunidade de ter algumas dessas vivências com maior frequência do que no dia a dia. Mas em todos os casos, é preciso considerar que há uma luz que nunca se apaga completamente. É como a chama-piloto dos antigos aquecedores a gás, que mantinha o aparelho aceso, pronto para ferver a água do encanamento, em qualquer momento do dia ou da noite, ao longo de toda a sua existência. E talvez seja isso o que mais desgasta no papel daquele que educa: o fato de nunca desligarmos totalmente. Por mais que nos propusermos a isso, estar dentro de um cinema ou levantar o jornal e deixar-se absorver por notícias banais já é uma opção. E, como toda opção, carrega em si a responsabilidade da escolha.

Os lares dos anos 70 tinham em casa uma caixa mágica chamada TV em cores, na época acusada de paralisar a infância diante de sua luz animada. Aquelas crianças, que hoje são pais, veem-se diante de muitos outros recursos que anestesiam a tensão da educação. E, como toda anestesia, consistem num mero disfarce de alguma dor ou tensão.

Outros, mais radicais, poderiam apontar para a abundância de entorpecentes, tão diversificados e com poder de ação mais intensificados, que circulam pelo mercado legal ou ilegal, na mesma proporção do aumento dos canais de TV nas últimas décadas. E, com eles, a promoção permanente dos prazeres e limites que devem ser extrapolados, com urgência, como referência de realização pessoal.

Não raro os adultos se queixam do imediatismo dos jovens que se assustam diante de uma lição de casa ou da obrigação de estudar. Alguns alunos nem sequer se assustam, mas apenas não compreendem por onde devem começar, pois há um sentido de dever que não foi lá muito desenvolvido. Para além de pensar em um mundo fartamente irrigado com drogas e gadgets, é preciso pensar que estes últimos compõem o dia a dia familiar pelas mãos dos próprios adultos.

Como já foi dito, a tensão da chama-piloto pesa, e muito, para esses adultos. Por isso a anestesia não é só opção de crianças e adolescentes. Ela cumpre um papel de distensão na medida em que, uma vez tendo as crianças hipnotizadas diante de um tablet, os adultos conseguem ler jornal, conversar, lavar a louça, trabalhar ou relaxar.

Pouco se considera o tempo do final de semana para ajudar a família a fazer algumas das tarefas realizadas apenas por adultos. Um adolescente arrumando a cama, descarregando as compras do supermercado do carro, ajudando o pai no trabalho ou trocando uma lâmpada são imagens que parecem ser de um país muito distante, especialmente se comparadas à vida diária da classe média paulistana.

Isso para não falarmos em aproveitar as férias para fazer um trabalho voluntário, um estágio ou alguma coisa que, minimamente, ou mesmo simbolicamente, procure retribuir as oportunidades oferecidas pela família e, por que não, pela sociedade. O filme  Supersize me (2004) concentra-se no aumento do consumo mínimo do McDonald’s ao longo dos anos, mas seria muito obtuso reduzi-lo a isso e não pensar em um mundo que elevou a níveis para lá de insalubres os padrões mínimos de consumo e lazer. E é claro que não falamos apenas de saúde física, mas principalmente de saúde mental e “cultural”.

A pergunta que fica não é porque os alunos e os filhos se espantam com um dever a ser realizado nas férias, seja ele escolar, doméstico ou do mundo laboral. O que sim devemos olhar é por que oferecemos tão pouco, quando temos a ilusão de fornecer muito.

É evidente o bem que pode fazer a uma família descansar, e descansar junto. Mas não podemos nos iludir de que nesse momento não há educação, não há papéis. Ao contrário, os papéis nunca cessam. O tempo de distensão e os meios para fazê-lo são sempre escolhas que compõem a educação do filho. É preciso entender que, depois de uma refeição, algo ou alguém lava aquela louça. Pode-se dormir até tarde se for essa a opção, mas algo, em algum momento, deve evitar escamotear a regra mais básica de qualquer forma de vida: até o Animal Planet ensina que não existe almoço grátis, nem na savana africana, nem em nossa confortável paisagem doméstica.

Isso não significa exercer o sadismo para mostrar como a vida é dura, de forma alguma. Mas apenas acreditar que eles podem, ao longo de 30 alegres dias, em Paris, em Boiçucanga ou na Vila Gomes, ler um ou dois livros e fazer uma lista de exercícios.

Não se trata de apontar as falhas deles, mas de nos olharmos no espelho e observar nossas opções cotidianas. É o sentido de dever que parece estar enfraquecido, junto com a capacidade dos adultos para suportar a tensão de seu papel.

E depois da Festa Junina a gente vai ficar de férias?

Escola da Vila
Desenho de aluno da Educação Infantil

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Por Daniela Munerato

Para as crianças é assim. Algum evento importante e esperado ajuda a marcar o tempo, lembrar e retomar o que vai acontecer. As férias de julho são breves, mesmo assim vamos correr o risco de ouvir repetidamente: “amanhã já tem escola?” ou “quando voltaremos para casa?”.

Minha sugestão é ajudarmos as crianças na organização e no aproveitamento desse tempo. Elas estão a construir essa noção e precisam de alguns recursos para organizá-la. Assim, ficam mais tranquilas quando as ajudamos antecipando o que está porvir e retomando situações já vividas.

Para quem se anima, uma dica divertida de marcar esse tempo é produzir um calendário de férias. A folha do mês de julho pode ser feita em conjunto ou impressa e colada ao alcance das crianças! Pintar finais de semana, marcar início e término das férias, dias especiais em que um amigo vai visitá-la ou aniversário de alguém querido, por exemplo. Combinem de pintar ou realizar uma marca, conforme os dias forem passando. O calendário representa um marcador temporal conhecido pelas crianças, já utilizado por nós aqui na escola desde o Grupo 1! Vale lembrar que ele é para as crianças, ou seja, mais uma brincadeira de férias para fazerem juntos!

Outra dica é aproveitar para ver as fotos de férias passadas. Se não estiverem impressas, um aconchego na frente do computador para lembrar momentos vai ser interessante, e quem sabe escolher alguma especial para enquadrar. As fotos não precisam ser somente de viagens, mas de momentos diversos, histórias que precisam ser lembradas, um cinema com amigos, um chá de bonecas, uma exposição. As crianças têm a possibilidade de acompanhar seus percursos, crescimento, lembrar momentos simples e especiais e, por que não, planejar repeti-los!

Em dias de frio, as cabanas cairão bem, se chover, façam bolinhos. Descubram pequenos tesouros como pedrinhas ou tampinhas coloridas para brincar. Chame os amigos para um filme com pipoca, de acordo com a disponibilidade dos pais, e assistam a filmes que marcaram outras gerações, como O Mágico de Oz, Pippi Meialonga, O Garoto (de Chaplin), Beleza Negra, A Noviça Rebelde, ET – O Extraterrestre, etc.

Serão tantas oportunidades interessantes que outra dica é a produção de um diário de férias! Pode-se desenhar nele, colar ingressos, fotos, anotar brincadeiras aprendidas, filmes vistos, receitas… Serão registros de um tempo fora da escola, que poderá ser retomado quando retornarem às aulas e forem convidados a compartilhar com os amigos.

E, por fim, é hora de guardar a mochila e a lancheira da escola e contar os dias para o nosso reencontro. Nós aqui na escola estaremos aguardando nossas alunas e alunos com saudades dos abraços apertados, das histórias cheias de detalhes, das gargalhadas, prontos para enfrentarmos juntos os encantos e novos desafios do segundo semestre!

Tarefa complexa ou complicada?

Por Divino Marroquini, professor de Química do Ensino Médio
e Daniel Mauro Justi, professor de Biologia do Ensino Médio

 

A educação para a alimentação é um tema, entre outros, que família e escola compartilham durante o crescimento das crianças e adolescentes. Temos hoje uma grande quantidade de informação, pela internet, TV e revistas, a respeito do que se deve ou não comer, de vários tipos de dietas para emagrecer, ganhar massa muscular ou de dietas restritivas quanto às fontes alimentares, tais como o ovolactovegetarianismo e o veganismo. De um ponto de vista curricular, vemos a importância de possibilitar aos alunos uma reflexão sobre tais informações perante o conhecimento científico, o que ocorre nos vários segmentos da escolaridade com diferentes abordagens e níveis de complexidade, porém sempre incluindo um olhar do aluno sobre seus próprios hábitos alimentares.

No curso de Biologia do 2º ano do Ensino Médio, os alunos realizam uma tarefa complexa sobre a temática “Nutrição”, cujo objetivo é promover a discussão acerca dos nutrientes e de seus valores calóricos, além de uma comparação entre as calorias ingeridas e aquelas que são gastas nas atividades físicas. Primeiramente, cada aluno é convidado a realizar o seu recordatório alimentar, o registro de todos os alimentos que consome durante três dias. Além disso, registram as atividades físicas praticadas nesses dias. Em seguida, utilizando as informações dos rótulos dos produtos industrializados consumidos e de tabelas confiáveis, como a Tabela de Composição Alimentar (TACO), publicada pela Unicamp, os estudantes contabilizam as quantidades de calorias, proteínas, carboidratos e lipídios ingeridas. Também determinam a energia despendida durante as atividades físicas de uma semana.

Escola da Vila

Mas como se determinam as calorias que existem em um alimento, tal como aparecem na tabela TACO?

Para responder a essa pergunta, os alunos realizaram no laboratório um experimento com castanhas-do-pará e nachos industrializados. Um recipiente com água, de volume conhecido, é posicionado sobre a castanha, que é levada à combustão, de forma que o calor liberado pela queima do alimento aqueça a água. Com um termômetro, fazem a medição da temperatura da água antes e depois da queima da castanha. Os dados permitem aos alunos que determinem quanta energia aqueceu a água, que corresponde à energia que aquela massa de castanha pode liberar ao ser digerida. Todo esse procedimento foi repetido para o nacho industrializado.

Escola da Vila

É interessante notar que os conceitos de Física, envolvidos nos cálculos realizados, foram desenvolvidos no curso de Ciências Naturais do 9º ano do Ensino Fundamental II, quando os estudantes realizaram um experimento com o objetivo de estabelecer a relação matemática entre a quantidade de calor recebida por um corpo e sua massa, sua variação de temperatura e a natureza do material. A sequência possibilitou que os próprios alunos propusessem o modelo matemático envolvido no fenômeno, em vez de receber uma fórmula pronta, o que é muito importante para a compreensão profunda das inter-relações das grandezas físicas. Ao relembrarem a fórmula que deduziram há dois anos, eles estão aptos a medir a quantidade de calorias que estava presente no alimento. Percebemos, nessa retomada, uma atividade de grande valor pedagógico, visto que os estudantes reutilizam aquela expressão, mas dando-lhe novo significado pela contextualização em um tema do cotidiano.
Escola da Vila

Com os dados em mãos, os alunos determinam as calorias por unidade de massa do alimento e comparam qual dos dois, castanha ou nacho, fornece mais calorias e, assim, podem investigar sua composição para entender o motivo dessa diferença. A atividade realizada é também um momento importante para disparar a discussão dos limites e contornos que o experimento apresenta, sendo fundamental para a compreensão das incertezas nesses resultados.

Para a comunicação desse experimento, os alunos produzem um relato de experiência sobre todas as etapas da tarefa complexa, desde como fizeram o recordatório alimentar, passam pelo experimento e chegam à discussão dos hábitos alimentares que permeou as várias etapas da tarefa.

Escola da Vila

Podemos ver, enfim, as possibilidades de aprendizagem que uma tarefa como essa propicia. Refletir sobre um tema de grande importância para a vida, desenvolver competências de leitura, escrita, manipulação de aparelhos, tomada e análise de dados, avaliação de resultados, e retomar para ressignificar conhecimentos adquiridos no cotidiano e nas séries anteriores. Por isso, a chamamos de tarefa complexa… Não porque pretende ser complicada, e, sim, porque conjuga objetivos de aprendizagem diversos perante temas que são multifacetados, pela sua própria realidade.