Imagina isso: um grupo de alunos que resolveu fazer teatro!

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Por Luíza Zaidan

Imagine uma ex-aluna que se encontrou com o teatro nos corredores da Vila, se formou como atriz e agora volta à sala de aula, como assistente do grupo do Ensino Médio. Imagine como foi acompanhar esse processo.

Primeiro, imagine o cenário: uma turma querendo apostar no encontro com o público, para sentir na pele as dores e a delícia de fazer teatro.

Depois, imagine o pretexto: o texto que dará voz à turma. O contexto que reunirá aqueles jovens no palco, aprendendo a se organizar como grupo, vencendo desafios e se divertindo – diversão, é esse o objetivo número um do teatro.

Blecaute, nosso “texto-pretexto”, começou assim. Abrigando um monte de anseios, desejos e, sobretudo, a vontade incessante de contar uma história. De dar vida a um relato de outro jovem, dessa vez escocês, que passou por situações de violência na escola, reagiu e foi parar na prisão, de onde começa a narrar sua experiência.

Foi partindo do relato desse garoto, que inspirou a peça de Davey Anderson, que o grupo se preparou para seu grande encontro: o dia em que a experiência teatral se completa. É quando um sujeito se coloca diante de outros e representa. E comunica. E questiona, é questionado, estimula reflexões, críticas, se expõe, abre espaço para o erro; tropeça e se levanta. Tudo diante do público, que é testemunha, mas também é cúmplice daquilo que se vivencia durante uma apresentação. Porque jogo é jogo e treino é treino. Somente quando um espetáculo sai da sala de ensaio e encontra seu espectador é que ele realiza seu propósito, fechando o círculo da criação artística.

Mas, sem treino, não tem jogo. Logo nos primeiros ensaios de Blecaute, a coisa foi tomando forma. A linguagem estética que vestiria nossa história foi surgindo a cada pequena cena. “E se a gente empilhar duas mesas para fazer a cela da prisão?” Aos poucos, mesa foi virando cadeia, apartamento, cidade. Tudo cabia naquela sala de aula fechada: de manhã, problema de matemática, lição de biologia, experimento de química. À tarde, a cada sexta-feira, aquele espaço ia sendo transformado em ficção.

No início do texto, o autor já avisa: “Esta peça não vem com manual, nem com uma série de instruções para sua encenação.” Melhor ainda! Éramos os novos donos daquela história e poderíamos contá-la da forma que achássemos melhor. A narrativa do protagonista, permeada por atos violentos e consequências graves, precisava caber na boca de uma turma inteira, com suas questões e características particulares. Como aproximar dois universos distantes geograficamente, mas semelhantes na idade, nos conflitos e nas relações? Como trazer a história de Thiago, um estudante escocês, para a realidade da nossa escola, nossa sociedade, nosso tempo? A resposta veio dos próprios alunos. Ninguém melhor do que eles para captar os acontecimentos contemporâneos, processá-los e transformá-los em recurso estético, em tema de discussão. Assim, eles construíram a ponte entre a realidade que observam e a ficção que estavam trabalhando. As músicas que aprenderam nas passeatas de junho viraram parte do espetáculo, as gírias que pareciam mais adequadas para o nosso contexto foram selecionadas. E o público assistiu a uma peça que buscava dialogar com o tempo em que foi montada.

Repetir, repetir e repetir. Estrutura desenhada, era a hora de colocá-la em funcionamento, aprimorá-la através da eterna repetição que faz o cotidiano do trabalho teatral. E, a cada repetição, uma descoberta. Um problema surge e, com ele, a necessidade de solucioná-lo organizando-se como um coletivo, assumindo a responsabilidade de colocar um projeto em prática e vivenciá-lo com dedicação. Ensaios de domingo, falas sem decorar, faltas, atrasos. A estrutura começa a enguiçar e a pedir reparos. É aí que surge o espírito de grupo. A liderança que se articula e passa a motivar o resto da turma, lembrando sempre qual é o objetivo disso tudo: por que fazemos teatro?

Porque fazemos teatro? Por que ele auxilia a capacidade de comunicação do aluno? Pode ser. Por que o teatro amplia o potencial criativo, estimula novas habilidades, desenvolve o aspecto lúdico do adolescente? Também. Por que o teatro traz o contato com referências culturais que enriquecem a bagagem intelectual? Sem dúvida. Por todos esses aspectos, mas, principalmente, por nenhum deles. Porque o teatro, como todas as artes, é inútil, por definição. E sua função está justamente no espaço que se abre com a certeza de sua inutilidade. Nessa lacuna que rompe o cotidiano cheio de obrigações e certezas, surge lugar para o erro. O descompromisso do jogo cênico, a brincadeira criativa, possibilita e ensina uma forma de se relacionar com a sociedade, analisando-a e interferindo em sua dinâmica através da ótica do constante experimentar, sem a obrigatoriedade de concluir ou acertar.

Agora, imagina isso: uma turma de alunos que apostou no encontro com o público. Que enfrentou o risco da exposição e se permitiu errar. Que se divertiu, se emocionou. Que refletiu e fez refletir quase duzentas pessoas, reunidas em uma única noite. Dispostas a participar de algo vivo, pulsante. Uma experiência cheia de falhas, imperfeições que só autenticam seu valor.

Agora, imagina isso: uma turma repleta de diferenças que acabaram se somando. Um grupo que começou a amadurecer junto. Um texto com conflitos atuais. Tudo isso em uma apresentação, na quadra da escola. A noite já pela metade. Imagina. A ansiedade de mostrar o trabalho e a dedicação de todo um semestre. A realização, ao ver esse trabalho quase concluído. Imagina que eles já estão nas últimas falas. Falta pouco para a peça acabar. O público confinado, circundado pelos alunos/atores que o têm sobre controle, conduzindo-o através da história que escolheram contar.

Agora imagina isso: é a minha deixa. Estamos no final da apresentação. Eu corro até a caixa de luz. Desligo as chaves de energia. A luz se apaga.

Blecaute.

De longe, posso ouvir os aplausos.

Por último, imagine isso: para quem perdeu as primeiras apresentações de Blecaute ou quer rever essa história, aqui vai mais uma oportunidade. O grupo de teatro da Vila foi selecionado para o Festival Fundação das Artes de Teatro Estudantil e se apresentará no dia 03/10/14, às 15h, no Teatro Santos Dumont (Avenida Goiás, 1.111, Santa Paula – São Caetano do Sul). Esperamos vocês lá.

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Luíza Zaidan, Graduada em Artes Cênicas pela UNICAMP, participou como atriz em peças como Quase Muda e A Hora em que não sabíamos nada uns dos outros. É professora do curso de extensão curricular de teatro do F2 e assistente no grupo de teatro do Ensino Médio.

A relação das crianças pequenas com as regras

26_09_2014

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Por Daniela Munerato

… É término de uma atividade e a professora pede aos alunos que a ajudem a guardar os brinquedos para que possam organizar a sala, pois o momento da pintura se aproxima. Inicia a tarefa e é seguida pelos pequenos que fazem o mesmo percurso pela sala, não tiram os olhos da professora, imitam o que ela diz, fingindo brincar de piratas que guardam tesouros…

A oportunidade de estar na escola favorece à criança situações diferentes do contexto de suas casas. Aprendem a conviver num espaço coletivo, do qual se apropriam conforme o vínculo e a adaptação acontecem. Neste espaço, progressivamente, compreendem que existem organizações importantes para que se sintam seguros e consigam interagir de forma tranquila, considerando diferenças. A escola representa a sociedade para nossos pequenos aprendizes, e o trabalho de apropriação das regras faz parte do processo de aprendizagens de atitudes e valores que os alunos vão passar ao longo da escolaridade.

A partir do breve relato que inicia este texto, podemos imaginar o motivo que faz com que as crianças nesta e em muitas outras situações da rotina cumpram regras que organizam seu cotidiano, inseridas numa regularidade que conforta e permite antecipar o que vai acontecer. Observamos que a professora pede que os alunos ajudem sem discutir ou abrir uma possibilidade de escolha de fazer ou não a tarefa. Pode completar seu pedido com informações que os auxiliem a construir conceitos, como dizer que precisamos organizar o espaço para a próxima atividade, que os brinquedos são de todos e precisamos cuidar deles, que as crianças juntas guardam rapidamente e que ela conta com a participação de todos. As crianças compreendem a importância da ação de cada um, seu papel no grupo e o valor das regras no dia a dia e com o tempo. No início, só desejam ajudar um adulto que representa segurança, por quem se vincularam e desejam retribuir a afetividade. Obedecem inicialmente por uma relação de amor e pelo medo de perdê-lo, não desejando o descontentamento do professor.

O papel do adulto é fundamental, guiando a criança, numa fase do ponto de vista da moralidade nomeada pelo autor Jean Piaget como heterônoma. A criança precisa do adulto para saber o que é esperado que ela faça, explicitando expectativas, revelando direitos e deveres para conduzi-lo da melhor forma, mas sem fazer por ele. Este é o caminho da autonomia moral, para que um dia saibam escolher com responsabilidade. Por essa razão, nesta fase do desenvolvimento o limite é tão importante. Para o adulto, a regra precisa ser clara, derivada de um princípio que a sustenta. Para a criança pequena, inicialmente, é algo que deve cumprir, sobre a qual aos poucos conseguirá compreender, para que um dia possa olhá-la de forma mais contextualizada.

Mas nem sempre a criança cumpre a regra, deseja testar se o adulto mantém sua palavra após um desafio posto, tenta inventá-la ou modificá-la em favor de seus desejos e, nesses momentos, a postura do adulto é o suporte para que a criança saiba elaborar sentimentos importantes que, como escreve o autor Yves de La Taille, servirão como um cimento afetivo na construção da moralidade, como a confiança (modelo do adulto que faz o que diz), a vergonha (freio moral) e a empatia (colocar-se no lugar do outro), por exemplo.

Isso posto, ressaltamos o quão importante é a tarefa do responsável, pois, ao respeitar horários de entrada e saída, não permitir que seu filho ou sua filha utilize o brinquedão quando estiver com a corrente, utilizar o serviço da cantina somente em eventos da escola junto à família, bem como estar atento às autorizações de saída para que elas aconteçam tranquilamente, comunica seu respeito às regras do espaço escolar, atitudes essas extremamente importantes para a formação moral dos pequenos.

Vale lembrarmos aqui que regras e combinados são diferentes. As regras vêm de princípios e devem ser respeitadas e cumpridas, diferentes dos combinados, que são muito mais flexíveis e podem ser alterados. Na escola, temos as duas situações, podemos combinar uma brincadeira desejada, um jogo diferente, um local não explorado para tomar lanche, mas não combinamos ou discutimos, por exemplo, se devemos ter respeito com as pessoas com as quais convivemos: afirmamos que sim, esperamos que isso aconteça e trabalhamos com ações que causem reflexões importantes e fundamentem as nossas ações.

Aprendendo com as regras

25_09_2014

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Por Vania Marincek e Fernanda Silvares

A vida em sociedade exige a presença de regras. Sem dúvida, há espaços que contam com um maior número delas, e, outros, com um número mais reduzido. Tais diferenças se devem às características do espaço e, sem dúvida, ao público que o frequenta.

Da mesma forma como as regras organizam os espaços, primando pela soberania dos interesses coletivos, elas também possibilitam a organização interna dos indivíduos que se reúnem em tais ambientes. Ao se preparar para ir a uma peca de teatro, espetáculo de dança, ou mesmo, ao cinema, por exemplo, as pessoas precisam antecipar algumas situações; a atividade tem um tempo de duração, horário de início e fim, é preciso chegar com um pouco de antecedência, deve-se estar com as próprias necessidades minimamente atendidas para não sentir muita fome, sono ou necessidade de ir ao banheiro para não perder parte da apresentação, não se pode estar aguardando uma ligação urgente, pois o uso de equipamentos eletrônicos não é permitido. O exemplo pode parecer simplório, mas oferece um elemento importante de ser considerado quando estamos falando de um tema que, por vezes, pode se mostrar polêmico. A regra organiza os contextos sociais e também os sujeitos que neles atuam.

A escola é uma instituição que, entre outras coisas, caracteriza-se como um dos primeiros contextos sociais em que as crianças se inserem. Depois do convívio familiar, é na escola que as crianças enfrentam os desafios de interagir com as outras e atender as regras que organizam o funcionamento coletivo. O “diálogo” entre os desejos e os interesses pessoais e as regras de funcionamento coletivo impõem para as crianças um grande desafio. Quantas vezes as ouvimos afirmarem “ – Mas… Eu queria.”? Deixar de lado o que eu quero naquele momento para cumprir como o que está estabelecido para todos não é tarefa fácil para as crianças. Por vezes, nem mesmo para os adultos. Mas, sem dúvida, é um aprendizado que contribui para que possamos enfrentar inúmeras situações de nosso cotidiano.

As regras dentro da escola regulam tanto a ação das crianças como, por vezes, de seus familiares. Um exemplo simples desse sistema é o próprio horário de funcionamento das aulas, a hora de entrada e saída acaba por definir o horário do almoço, do jantar, do banho e de outras atividades do cotidiano familiar.

A flexibilidade de alguns contextos faz com que, eventualmente, fique confuso o que é regra e o que é uma possibilidade, um valor, uma orientação que visa favorecer as relações e o convívio entre as pessoas.

No F1, os alunos estão em um momento de sua formação em que começam a entender que a regra está a serviço de regular o convívio. Antes disso, as crianças ainda não conseguem generalizar e nem se distanciar de seu jeito de ver o mundo, totalmente focado em seus desejos.

É exatamente a partir dos 7 anos que passam a começar a considerar o entorno e os outros e, ao longo do F1, passam a entender cada vez melhor a necessidade e o uso das regras para garantir o convívio.

No início, as regras são ainda entendidas como dogmas a serem seguidos. À medida que crescem e que também vivem muitas situações em que as situações de convívio são balizadas e resolvidas pelas regras, vão se dando conta de sua função.

Nos anos finais do F1, as crianças ampliam suas possibilidades de compreensão e de estabelecer relações, o que lhes traz maiores possibilidade de argumentação. Para os pais, esse é um momento em que reconhecem que os recursos que utilizavam com seus filhos na colocação de limites se mostram pouco eficientes, a criança passa a utilizar argumentos muito mais lógicos e é comum passarem a imagem de que já são “senhores de suas vidas, quase adultos”…

Os pais de primeira viagem, desavisados, muitas vezes,  deixam-se levar por essa impressão, mas veem suas apostas naufragarem em seguida pois, apesar de reproduzirem um  discurso muito articulado, próximo ao de um adulto, as crianças ainda são crianças e não sustentam as posições em que se colocam.

Na escola, observamos esse movimento nas reivindicações dos alunos de final de 4º ano, ou ao longo do 5º. Começam a se articular, a questionar as normas, a perceber os colegas como parceiros de reivindicações. Querem organizar eventos, mobilizações, mudar combinados e transpor regras, mas ainda não dão conta de considerar todo o planejamento prévio que sustenta esse tipo de ação.

Cabe ao adulto atuar como modelo não só no cumprimento das normas, mas também auxiliando na organização das ações propostas por eles, quando se mostram em consonância com as normas estabelecidas e passíveis de implantação.

Dialogar com as crianças, deixar que exponham os argumentos que construíram e, ao mesmo tempo, ajudá-los a compreender as limitações de suas reivindicações, e também propor que planejem a implantação das mudanças que reivindicam, quando se mostram possíveis, oferecendo ajuda para tal, são formas de apoiar o crescimento, valorizando o cumprimento das regras.

As crianças certamente entenderão, sentir-se-ão respeitadas e avançarão na construção de sua moralidade.

A importância da intervenção do professor na construção de regras e dos jogos de Educação Física para a Educação

24_09_2014

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Por Marcos Santos Mourão (Marcola)

Um aspecto essencial à educação é o desenvolvimento de formas saudáveis de convivência social. Os jogos na aula de Educação Física podem se constituir como valiosos elementos de prática, consciência de regras e construção da autonomia, uma vez que quem joga enfrenta um conjunto de normas, valores e atitudes que norteiam a ação de todos. Esse enfrentamento, e aí reside a importância da intervenção do professor, pode ser feito de duas formas: com base na promoção de recompensa e punição, ou na experimentação e na descoberta.

Recompensa e punição

A recompensa e a punição são as formas, talvez uma das, mais comuns nas práticas tradicionais de Educação Física. Nelas, o vencedor é extremamente valorizado e as transgressões são punidas com descontos, punições e perda de pontos. Neste contexto, as crianças são submetidas a códigos de regras inflexíveis e a cobranças de resultados, inclusive dos próprios colegas e professores. Não há espaço para discussão e construção do que pode ser feito no jogo e do por que disso. Segue um exemplo desta situação em uma aula de jogos e brincadeiras:

As crianças saem para brincar de um jogo coletivo de pega-pega. A brincadeira começa e, após alguns minutos, alguns alunos começam a desobedecer a algumas regras. O professor começa a dar bronca e a retirar do jogo aqueles que não estão cumprindo os “combinados”. A brincadeira continua e surgem alguns conflitos entre as crianças:

- Ele está roubando! – Diz um aluno.

- Ele foi pego e não ficou no lugar! – Outro reclama.

- Eles estão nos provocando! – Diz o outro time. 

O professor interrompe a atividade, responsabiliza os alunos pelo fracasso do jogo, divulga o resultado final e termina a aula.

Nesse caso, percebemos que a ação do professor em relação ao comportamento das crianças frente às regras não é considerar que elas precisam de ajuda para entendê-las e praticá-las. Uma vez que acredita que a regra é um regulador meramente externo, ele vê seu papel como alguém que apenas deve controlar as ações do jogo, com interrupções e punições dignas de um árbitro. Esse tipo de intervenção docente, acumulada ao longo dos primeiros anos do ensino fundamental, trará efeitos marcantes na relação das crianças com a prática e a consciência de regras nos jogos, pois as distanciarão da relação e do vínculo afetivo que as regras dos jogos possuem. A tendência é que elas cumpram “os combinados” com pouca autonomia, apenas por receio da punição.

Experimentação e descoberta

A experimentação e a descoberta, por sua vez, demandam um olhar menos imediato para o resultado e mais prolongado para o processo. Neste outro contexto, as crianças são estimuladas a refletir sobre a importância das regras, a discutir coletivamente seus efeitos e suas ações, e, principalmente, a conhecer seu caráter regulador ao invés de arbitrário. Vejamos um exemplo:

“As crianças saem para brincar de um jogo coletivo de pegador. A brincadeira começa e após alguns minutos, algumas crianças começam a desobedecer a algumas regras. O professor interrompe o jogo e pede para que as crianças sentem em roda. Neste momento, ele retoma as regras principais do jogo e avisa que alguns não as estão cumprindo. Conversa sobre a importância de se seguir jogando da forma explicada e pergunta se alguém tem alguma sugestão de mudança.” 

Nesse caso, percebemos que a ação do professor em relação ao comportamento das crianças é considerar que elas precisam de orientação e ajuda para praticar o jogo, pois acredita que o não cumprimento das regras pode ter ocorrido por uma falta de prática ou consciência destas. Ao invés de controlar as ações do jogo meramente punindo, ele resolve discutir com o grupo as ações observadas, tornando a regra algo pertinente a todos. Esta forma de atuação docente certamente trará efeitos na relação das crianças com as regras dos jogos, só que no sentido da autonomia e da cooperação, uma vez que terão suas ideias e ações frequentemente consideradas pelo grupo e pelo professor.

Assim, a relação entre os jogos e a educação, como vimos, depende e muito da forma como o professor olha e atua com as regras. Ao trabalhar no sentido do desenvolvimento de uma educação voltada para a autonomia e a cooperação, o professor pode oferecer jogos que, entre vários aspectos, valorizem a ação da criança, na qual a preocupação esteja voltada para a discussão e a reflexão sobre as regras, favorecendo o desenvolvimento de um ambiente moral construtivo.

A falta em provas e outras situações de avaliação e o direito à atividade substitutiva

22_09_2014

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Por Tiago Lima e Joana Elkis

Em junho, por conta da importância que esse período tinha para o segundo trimestre letivo, e no intuito de reduzir mais as ausências de alunos numa época com grande quantidade de feriados com emendas e de jogos da Copa do Mundo, estabeleceu-se – em comunicado enviado no dia 2 de junho aos pais do Fundamental 2 – que a substituição de provas parciais nesse mês só se daria exclusivamente nos casos previstos no regimento escolar.

A regra já existia no Ensino Médio, mas sentimos a necessidade de estendê-la ao F2 em função das inúmeras ocorrências recentes. Essa transposição para o F2 demandou compreensão e disposição das famílias, que responderam prontamente, remanejando ou cancelando viagens de passeio.

Em março de 2013, havíamos publicado no blog da escola um texto que procurava compartilhar com os pais os prejuízos que uma viagem em período de aulas causava. O texto era uma reedição de outro que já tinha sido publicado em 2011 com o mesmo o objetivo: propor uma reflexão que contribuísse para reduzir o alto número de famílias que optam por tirar férias durante períodos de aula. Sempre, nessas situações, a preocupação era de tentar minimizar o impacto das faltas na rotina escolar e na aprendizagem, além de pensar em como fazer para que a presença nas atividades escolares não seja sentida pelo estudante como banal.

Contudo, aos obstáculos que as faltas em período de aulas trazem ao aluno para sua aprendizagem, soma-se uma dificuldade de gerenciamento da rotina escolar por parte dos professores e da orientação todas as vezes em que alguma avaliação parcial é perdida, os quais precisam:

(a) parar para avaliar a melhor data para o aluno perder mais uma aula para fazer essa reposição (tomando o cuidado para que ele não assista à correção da prova que os outros já fizeram, mas que também não perca aulas cruciais e, eventualmente, fazendo negociações com o aluno e a família para que ele tenha tempo para se preparar para a tal avaliação);

(b) em alguns casos, fazer adaptações na avaliação porque, em instrumentos mais objetivos, a cola fica muito facilitada;

(c) criar um espaço e disponibilizar uma pessoa (geralmente um orientador educacional ou um estagiário da disciplina) que acompanhe o aluno na realização da atividade;

(d) encaminhar, mais uma vez com atraso, a correção e a devolutiva daquele instrumento. Muitas avaliações parciais também possuem uma continuidade de trabalho que fica, por sua vez, atrasada com relação ao resto da classe.

Infelizmente, fato é que, nos últimos anos, a quantidade de casos que precisam desse tipo de atenção não só não regrediu, como tem se tornado cada vez mais a regra.

Algumas escolas, para combater esse tipo de costume, criam, por exemplo, medidas como cobrar um valor das famílias para que o aluno faça algum tipo de avaliação, geralmente ao fim do trimestre, que possa substituir a nota perdida. Importante falar aí de nota e não de avaliação, porque a função da última fica, ao fim do processo, reduzida à da primeira. Ou passa a coincidir com um tipo de avaliação de objetivo muito específico e que já existe: a prova trimestral – a qual, por estar situada no fim do processo, tem um caráter bastante distinto das avaliações parciais.

Mas mais interessante é o efeito que essa medida de cobrar uma taxa para reposição de provas tem produzido: o pagamento, ao invés de coibir a prática, tem intensificado a frequência com que ela acontece. Isso porque a legitima, na medida em que a institucionaliza e desobriga todos de terem de pensar no prejuízo pedagógico envolvido.

Por todos esses motivos é que gostaríamos de manter a medida de junho para o futuro, guardando a reposição de provas realmente para os casos excepcionais – e não mais como a regra.

Enquanto orientadores educacionais, muitas vezes acompanhamos a decisão de famílias em fazer uma viagem que frequentemente têm ganhos muito claros para a formação de uma criança ou adolescente, em termos de amadurecimento, conhecimento e cultura. Se isso nos deixa, por um lado, com mais vontade ainda de fazer o que está ao nosso alcance para tornar essa experiência o mais tranquila e sem prejuízos para o desempenho escolar do aluno, também sabemos que aquela viagem realmente excepcional na escolaridade de um aluno, quando é escolhida de forma consciente, ponderando perdas e ganhos, é passível de ser contornada no restante do ano, mesmo sem a reposição das notas envolvidas. Isto é, se a família avalia que o sujeito tem condições de enfrentar estas perdas e depois recuperá-las, faz uma escolha responsável. Já as viagens frequentes passarão, sim, a ter um impacto prejudicial no desempenho do aluno – e são essas que queremos evitar.

Está na hora de dar um celular para o seu filho?

Web

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Por Vera Barreira e Roberta Tinoco 

“§ 3º – É vedado ao aluno: 

I – O uso de aparelhos eletrônicos (walkman, telefone celular, ipods, etc)durante as aulas e/ou atividades propostas; 

a) A escola não se responsabiliza pelo extravio, desaparecimento, sumiço ou furto de aparelhos deste ou de outro tipo que não sejam componentes ou solicitados como parte das necessidadesdo seu projeto pedagógico.”

Uma das regras que temos na Escola diz respeito ao uso de aparelhos eletrônicos. Os alunos de FII não são proibidos de trazer aparelhos eletrônicos (tablets, smartphones, vídeo game portátil…), para a escola, pois acreditamos que crianças acima de 11 anos têm autonomia e responsabilidade para cuidar de seus pertences, mas nosso regimento impõe limitações para seu uso.

Os aparelhos eletrônicos não podem ser usados em sala de aula, mas apenas nos horários de parque ou saída. Durante as aulas, devem permanecer desligados e guardados, caso contrário, os professores devem confiscá-los e deixá-los na secretaria, sendo que os objetos confiscados só podem ser retirados pelos pais. Os alunos entendem essa regra, e tem sido raro vivenciarmos esse tipo de situação em aula.

Alguns pais nos perguntam por que não proibimos de uma vez que os alunos tragam celulares e aparelhos afins para a escola. De nossa parte, vemos que muitas famílias utilizam os celulares, a partir do FII, para controlar os filhos que vão embora sozinhos, que fazem rodízios ou que ficam para treinos ou atividades na escola à tarde. Mas, mais importante que isso, acreditamos que é vivendo as situações, refletindo sobre elas e encarando as consequências que os alunos ganham autonomia. Saber usar o celular em situações adequadas e não usar quando vai atrapalhar o grupo ou o outro é também uma aprendizagem. Quantos adultos parecem não ter aprendido isso ainda?

 “A essência da autonomia é que as crianças tornem-se aptas a tomar decisões por si mesmas. Mas autonomia não é a mesma coisa que liberdade completa. A autonomia significa levar em consideração os fatores relevantes para decidir agir da melhor forma para todos. Não pode haver moralidade quando se considera apenas o próprio ponto de vista. Quando uma pessoa leva em consideração os pontos de vista das outras, não está mais livre para mentir, quebrar promessas e ser leviano.” (Constance Kamii, in A autonomia como finalidade da educação.)

Deixamos a cargo dos pais decidir e avaliar se seu filho tem ou não tem condições de cuidar desse tipo de aparelho, incluindo aí a maturidade suficiente para fazer uso adequado dos mesmos.

Mas temos enfrentado, com frequência, um sério problema com os aparelhos eletrônicos trazidos de casa: a falta de cuidado por parte dos alunos. São vários aparelhos esquecidos em sala, alguns mais de uma vez; aparelhos quebrados durante brincadeiras inadequadas; aparelhos deixados no banheiro, no parque… e o desespero do dono quando percebe isso. E, daí, a mobilização de adultos para apoiar o aluno. Quando um objeto é “esquecido”, alguns funcionários da escola precisam ajudar o aluno a encontrá-lo: pessoal da secretaria, orientação educacional, monitoria conversam com o aluno para acalmá-lo, fazem perguntas que o ajudem a retomar a história e a lembrar-se da última vez que viu/mexeu no aparelho; acompanham o aluno as várias instâncias para verificar se o objeto já foi encontrado, vai em busca de outros colegas que estavam juntos etc…

Quando o objeto se torna parte de uma brincadeira e acaba danificado/quebrado, muitos sentimentos e emoções são gerados nos alunos envolvidos, necessitando, então, da mediação da orientação educacional ou dos professores para que possam se ouvir e negociar uma solução.

E, diante da angústia, do sofrimento ou do nervosismo dos alunos, e muitas vezes dos pais, frente a uma situação que envolva seu aparelho eletrônico, mesmo que a escola, como consta no regimento, não se responsabilize por objetos que não façam parte do material escolar, acabamos por gastar um tempo de uma série de pessoas para cuidar da questão, deixando de lado aspectos mais importantes do cenário escolar.

Diante dessas novas possibilidades e recentes práticas sociais de uso dos eletrônicos, é preciso refletir e ponderar: está na hora de dar um celular para o seu filho?

Por favor, deixe meu filho entrar, só hoje??!!

17_09_2014
Ilustração de John Tenniel para o livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

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Por Angela Crescenzo e Irene Antunes

“O despertador não tocou!!!”
“A Raposo estava muito congestionada!”
“O carro quebrou! O pneu furou!!!”

Situações como estas são muito comuns no portão da escola. Para contemplar as eventualidades, está previsto no nosso regimento interno que:

“§ 1º – São direitos dos alunos:

(…) III – Entrar na escola após o horário, no máximo 03 (três) vezes/mês, e solicitar saídas antecipadas, desde que justificadas pelos responsáveis”.

Mas por que será que essa regra existe? Qual é o princípio que a fundamenta?

Para responder essas questões, vamos retomar o post Normas, regras, e organização da vida coletiva na escola.

“As regras surgem justamente para colocar ordem nos imprevistos, nas situações particulares que podem atrapalhar o funcionamento coletivo. Elas são respostas às necessidades identificadas pelos educadores e jamais caprichos ou inflexibilidade da escola”.

Como trabalhamos com o coletivo, precisamos garantir o andamento das atividades para todos. Não há a possibilidade de tratarmos de cada caso individualmente, pois, se assim o fizéssemos, não conseguiríamos administrar as exceções, nem tão pouco o direito dos alunos que cumpriram a regra de assistir à aula no horário estabelecido. Ou seja, a regra perderia seu sentido, não havendo a necessidade da mesma.

Elas são importantes para a organização do cotidiano escolar e para a formação mais ampla dos alunos, considerando que, na escola têm seu primeiro contato com uma vivência coletiva, de preparação para a vida em sociedade.

Ainda sobre atrasos, segundo consta na agenda escolar:

“Se houver atraso (entre aulas), o aluno só entrará na aula com autorização escrita que deve ser entregue ao professor. Haverá uma tolerância de dois atrasos no mês. No terceiro atraso, o aluno deve ficar na sala de orientação educacional e perderá a aula”.

Essa é outra situação do nosso cotidiano. Com frequência ouvimos comentários como:

“Posso entrar só para pegar o livro de LP?”
“Vou só pedir para o professor me entregar a ficha.”
“Mas a aula de hoje vai ser tão importante.”

O trabalho que fazemos com esse aluno que deixa de assistir à aula é no sentido de que perceba que o grupo e o professor serão prejudicados caso ele interrompa a aula. Mais uma vez nos preocupamos em levá-lo a refletir sobre a questão da coletividade. Se flexibilizarmos essa regra, estaremos impedindo este aluno de antecipar os imprevistos e de se responsabilizar pelo andamento do trabalho em sala de aula, bem como pelo bom convívio coletivo.

Muitas vezes, os alunos, que são adolescentes em formação e estão aprendendo a lidar com essa relação do âmbito coletivo sobre o individual, argumentam em favor da exceção. Que bom que nessa hora podemos contar com a regra, para não ficar a ideia de que ao orientador ou ao professor caberá o julgamento de cada situação.

De volta ao post de 15 de setembro:

“A compreensão da regra e sua interiorização são mais importantes para a construção da moralidade, do senso de coletividade, do que sua imposição cega, que seria apenas a obediência”.

É muito importante, quando pensamos em uma regra, conhecer o princípio que a rege, que “está por trás” dela. Nesses casos, estamos tratando do princípio do respeito aos colegas, ao professor, enfim, à comunidade envolvida no trabalho de sala de aula e na gestão desse organismo vivo que é uma escola.

Sabemos que esse processo é uma longa construção, que envolve a tentativa de contra-argumentação da regra pelo aluno, a compreensão do seu sentido, para, aos poucos, poder atuar e fazer escolhas que priorizem o âmbito coletivo.

Trata-se do exercício da cidadania e de um trabalho de muitos vai e véns. Mas esse é o fazer da educação.

Normas, regras, e organização da vida coletiva na escola

Web

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Por Sônia Barreira

Costumamos dizer aos alunos que temos poucas e boas regras para organizar nossa vida diária dentro da Escola da Vila. Nosso regimento menciona algumas, e nosso Guia de Convívio as explica e fundamenta. Mas, nos últimos tempos, tem sido árdua a tarefa dos orientadores no sentido de lidar com as exceções solicitadas por pais e alunos, em contextos diversos.

Por que regras?

As regras surgem justamente para colocar ordem nos imprevistos, nas situações particulares que podem atrapalhar o funcionamento coletivo. Elas são respostas às necessidades identificadas pelos educadores e jamais reflexo de caprichos ou inflexibilidade da escola.

No entanto, pode parecer que basta existirem regras e punições que o trabalho educacional estará realizado. Tratando-se de educação básica, isso não é suficiente. A compreensão da regra e sua interiorização são mais importantes para a construção da moralidade, do senso de coletividade, do que sua imposição cega, que seria apenas a obediência. E já superamos a ideia de que a obediência é o objetivo final, ao contrário, a meta é a construção da autonomia, a capacidade fundamental de distinguir moralmente o que é certo do que é errado para o indivíduo e para o coletivo.

Por outro lado, a construção de vínculos de confiança e a convicção de que a instituição escolar não toma medidas aleatórias é fundamental para que possamos legitimar o papel dos educadores. Por essa razão, precisamos também da compreensão e do apoio das famílias.

Nossa proposta para os próximos posts é abordar algumas regras, a necessidade das mesmas, os problemas que ocorrem se elas forem flexibilizadas, e o trabalho realizado para que sejam compreendidas pelos alunos. Será também uma boa oportunidade para divulgarmos trechos de nosso regimento interno, documento que oficializa as normas e sustenta as posturas adotadas pela escola em diversas situações.

Projeto político-pedagógico: o que comunicar à nova família

Door in Forest

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Por Susane L. Sarfatti

Em uma aula na faculdade de psicologia o professor fazia uma profunda e detalhada explanação sobre a primeira infância, suas características e conflitos, quando uma aluna o  interrompeu:

− Professor, eu entendo as suas explicações, mas a minha dúvida é: Por que os primeiros anos de vida são tão importantes para Freud?

− Ora, porque são os primeiros! – respondeu-lhe o professor.

O diálogo acima é de grande simplicidade, mas traz uma verdade: os começos são importantes, justamente por serem um primeiro momento, um marco zero. O primeiro beijo, a primeira viagem, a primeira escola, o primeiro dia de aula muitas vezes são inesquecíveis, deixam marcas. Assim, é preciso cuidar bem do atendimento inicial a uma família nova na escola, é o início de uma nova relação. Usando um pleonasmo, diríamos: é preciso cuidar com muito cuidado.

Em poucas palavras podemos definir que cuidar significa estar atento ao bem-estar do outro. Nesse caso, é preciso planejar o encontro em todos os seus detalhes para que seja um “bom começo”. Organizar o tempo, o espaço, o material, as formas de interação e, especialmente, o que abordar sobre o projeto político-pedagógico da escola.

Uma escola sem projeto político-pedagógico, o chamado PPP, é como uma casa sem teto e sem chão; pode até ter sido feita com esmero, mas só pode se localizar na rua dos bobos, parafraseando o poema “A Casa”, de Vinicius de Moraes.

O PPP é um documento que expressa a identidade da escola, reúne os princípios educacionais e pedagógicos, orienta as ações cotidianas, e não pode ser percebido somente como uma exigência legal. Ele deve ser construído coletivamente por toda a equipe pedagógica, de forma que todos se sintam responsáveis pelo seu conteúdo, se comprometam com as metas traçadas e trabalhem no dia a dia da escola concretizando-o em ações com os alunos.

Mas, o que comunicar aos pais novos sobre o PPP? Certamente, não é possível abordar sua totalidade, seja porque não seria de interesse das famílias, seja porque o tempo não é suficiente. Mas mesmo que fosse, seria preciso exemplificar a forma em que o PPP se expressa na sala de aula e na escola como um todo para a formação do cidadão que se almeja.

É importante que a família e o aluno (a depender da idade) compreendam alguns aspectos básicos do PPP por meio de exemplos:

  • Ensino das diferentes disciplinas: O professor inicia um conteúdo com uma questão/ problema para que os alunos pensem, discutam e elaborem hipóteses. Ou o professor explica o novo conteúdo e pede para os alunos exercitarem?
  • Concepção de aprendizagem: Aprender é repetir o que foi ensinado ou é estabelecer relação com outros conhecimentos já aprendidos?
  • Interação entre os alunos: Somente no recreio os estudantes interagem, porque na sala de aula o professor precisa de silêncio para explicar bem os conteúdos?Ou os alunos são colocados em duplas e grupos para discutir suas hipóteses sobre determinado conteúdo e a partir daí o professor organiza a situação didática?
  • Processo de avaliação: As avaliações servem para medir o que o aluno sabe e certificá-lo? Ou estão a serviço do aluno e do professor para que possam fazer ajustes no ensino e na aprendizagem?
  • Materiais utilizados: São adotados livros didáticos, apostilas ou materiais produzidos na própria escola? E qual a qualidade dos mesmos?
  • Carga horária para cada disciplina: São muitas disciplinas com carga horária reduzida para cada uma ou menos disciplinas com maior carga horária?

A quantidade de informação sobre o PPP às novas famílias depende não só da seleção prévia do conteúdo, mas também das questões que são trazidas pelas mesmas. Contudo, é essencial que o PPP seja percebido pelos pais não como uma carta de intenção mas, sim, que seja expresso na prática da sala de aula, no cotidiano da escola. Desta forma, será possível construir com a nova família uma relação sólida, muito diferente da “casa engraçada, sem teto, sem nada, sem parede para pendurar a rede para dormir, sem penico para pipi”.

Sobre fazer parte da comunidade escolar

No dia seguinte ao evento “Um pouquinho de Brasil”, Daniela, uma mãe da escola, escreveu sobre a participação de sua família no evento e nos brindou com uma reflexão sobre o que é fazer parte de uma comunidade. Agradecemos à Daniela Giaquinto pela parceria e por nos autorizar a postar suas palavras.

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Por Daniela  Lopes Giaquinto

“Começo esse ‘pensamento traduzido em palavras escritas’, relatando a minha conversa com o Diego, meu filho de 3 anos, no carro.

“- Vamos para o “Um Pouquinho de Brasil” na sua escola, Diego.
- Mas esse não é o caminho da minha escola!
- Ah… mas é que você estuda na Unidade Butantã e nós estamos indo para a Unidade Morumbi.
- Tem duas escolas?
- Sim, filho, na verdade tem três, porque tem a Unidade Granja Viana. Mas é tudo a mesma escola.
- E é tudo minha?
- Sim!
- Ebaaaa!!!”

E lá, enquanto Diego sofria pela falta de coordenação motora para fazer uma pipa (rs), fiquei pensando na importância que esse nosso passeio tinha. Isso porque não se tratava de um evento direcionado para o segmento dele, embora fosse aberto a todos. As atividades eram propostas para o Fundamental I, e o Diego ainda levará alguns anos para fazer parte desse grupo.

Fato, gosto de prestigiar os eventos da escola do meu filho. Por ser professora, sei o trabalho que dá organizar esses eventos e uma maneira de apreciar tal empenho é comparecer. Mas a minha intenção é mais do que prestigiar a escola e os profissionais envolvidos nesse projeto. Minha intenção é fazer parte da comunidade escolar. Conhecer as pessoas que fazem parte do dia a dia do meu filho, seus amigos (que conheço todos e sei seus nomes), os pais dos seus amigos, com quem compartilho impressões, experiências e a fé de que “tudo vai dar certo”, os professores e os orientadores, os que estão com ele hoje e os que fazem parte dessa comunidade, e todos os profissionais que dividem comigo a presença dele, desde a direção até a moça que passa pano no chão do banheiro. Quero que meu filho entenda que cada pessoa dessas faz parte de uma engrenagem que só funciona porque todos compõem uma equipe. Equipe da qual ele faz parte.

Fazer parte.

Acho que o motivo principal pelo qual gosto de me sentir pertencente a essa comunidade escolar está ligada à crença de que as crianças também aprendam observando modelos. E o que eu quero que o Diego aprenda ao observar como me relaciono com sua escola é que ela não é feita “para ele” mas “com ele”. Que saiba que, desde pequenino como é hoje, ele colabora com a construção e a manutenção desse lugar, com sua forma de ser e existir. Eu penso a escola como um organismo vivo, que pulsa, respira e pensa. E quero que o Diego entenda que ele é parte do que inspira e expira desse organismo, que é a vida que corre (no caso dele, literalmente!) pelos corredores, parques, salas de aula, mundo… Uma vez que compartilho dos princípios que fundamentam essa instituição, acredito que faça sentido o Diego ir se apropriando deles à medida em que os compreenda, e que os adote em sua maneira de viver.

Conhecer o trabalho dos mais velhos é conhecer o próprio trabalho (e vice-versa), afinal, ele, de alguma forma, compartilha dessas descobertas. Os grandes já estiveram onde ele está. Os pequenos chegarão lá e, nesse dia, serão “os grandes”. Nos retroalimentamos de curiosidade, descoberta, aprendizado e, sim, do prazer que dá aproveitar o resultado.

Quero ainda que ele entenda o quanto valorizo sua vida acadêmica e que o que entendo por ela é muito mais do que as notas no boletim. É o convívio, a participação, a arte, a capoeira, a música, a culinária… O conjunto da obra, figura e fundo, individual e coletivo.

Por fim, espero que meu filho aprenda a apreciar a vida nessa comunidade, que aprenda a participar dela da melhor forma e que isso se traduza em ser feliz na escola, mesmo quando as coisas forem difíceis, mesmo quando houver desafios a cumprir. Acho que posso chamar isso de amor. E é isso… Quero que ele aprenda a amar a sua escola, porque ele a representa e ela também o representa.

Talvez alguém me diga:

- Mas, Dani, e se depois disso tudo ele não sentir dessa forma? Afinal, vocês são diferentes, ele pode não ter vontade, quando mais velho, de participar tão de perto dessa comunidade…

Eu responderei:

- Pode ser. Não há como garantir que ele ame a escola ou que queira se envolver tanto assim. Mas, no mínimo, poderemos dizer que, num sábado ensolarado, abraçamos os amigos e juntos curtimos um passeio muito legal…

ps #euamoavila