Dia do Acampante: uma situação de convívio fora dos padrões habituais

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Por Eliane Mingues 

“Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leitura, de imaginações. Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.”

Ítalo Calvino¹.

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E parece ser mesmo assim que, de experiência em experiência, vamos nos constituindo e dando forma a cada nova situação vivida, e por isso tudo é sempre tão único: cada ano de trabalho, cada grupo de crianças, cada história, cada vínculo, cada viagem!

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E é nesse cenário que os acampamentos, como atividades extraescolares, podem contribuir para a construção desta dinâmica: cada ano uma situação diferente, cada viagem um grupo diferente, que se junta e se encontra e se conhece mais, embora o lugar possa ser o mesmo e as brincadeiras se repetirem, ainda assim nada será como antes.

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Já nos preparativos para o grande dia começa a viagem dos pequenos e de seus pais: “O que levar na mala? Com quem vou me sentar no ônibus? Que filme vamos assistir na volta? Que músicas vamos escolher para ouvir durante o caminho? Vou poder brincar o dia inteiro?”. Essas são só uma amostra das muitas questões formuladas e compartilhadas nos dias que antecedem o acampamento – esse espaço diferenciado de convívio entre as crianças, e entre elas e os adultos, em que vão experimentar novas propostas, em outro espaço diferente do espaço escolar, e que sem dúvida lhes possibilita construir novos recursos para a sua autonomia.

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Chegar, reconhecer o espaço, entrar no chalé, escolher uma cama, desfazer as malas e arrumar suas coisas já vai evidenciando e mostrando um tanto de animação e cooperação entre todos, que é emocionante presenciar. Ver uns ajudando os outros a organizar seus pertences, a passar o protetor solar e a lembrar que é preciso calçar o chinelo e não esquecer do repelente antes de sair para as aventuras do dia são só alguns exemplos do que é possível observar de pronto. E essa cooperação e esses vínculos só vão se fortalecendo ao longo do dia com as situações de brincadeiras, refeições e paradas para a organização dos próximos eventos, sempre tendo como ponto de encontro o chalé. E é nesses momentos também que temos o privilégio de conhecer mais de perto cada um, com suas preferências, seus costumes e seu jeito de ser e conviver.

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Quando é chegada, enfim, a hora das brincadeiras, aí, então, a diversão chega ao seu ápice: piscina, tirolesa, escorregar na lama, caça ao tesouro, dentre outras propostas, garantem o sucesso do dia e recompensam todo o cansaço, o machucado, os possíveis desentendimentos.

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E assim, tudo, apesar de tão familiar, costuma parecer uma grande novidade nesse dia: o ônibus grande, o caminho mais longo, os colegas de outras classes compartilhando o mesmo espaço, a professora que toma café, almoça e entra junto com eles na brincadeira da piscina, no futebol, no pebolim humano… E é por isso que cada acampamento costuma ser uma delícia, pois todos juntos e misturados damos forma a uma somatória de novas experiências que fazem desse dia um evento sempre singular e especial.

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Estão esperando o quê? Vamos acampar!!!


¹ÍTALO, Calvino. Seis propostas para o próximo milênio, 2a Ed. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Oficinas de Matemática: encontros para além do tempo regular de sala de aula

Por Renata Akemi

Diante de um novo problema matemático, o que o aluno faz? Procura a solução com base em conhecimentos anteriores? Ou… tenta um pouco, mas logo desiste? Acredita que pode resolver o problema ou julga estar fora de seu alcance?

Nas aulas de matemática queremos que os alunos se lancem à resolução dos problemas propostos, estabeleçam relações, investiguem, discutam suas respostas com os colegas, argumentem, e se considerem capazes de produzir conhecimento matemático. Buscamos estratégias para incluir todos os alunos nesse fazer, com ações individuais e coletivas na sala de aula ou no processo de recuperação paralelo. Além disso, no contraturno, a escola oferece a Oficina de Matemática aos alunos do Ensino Fundamental 2.

Essas oficinas são organizadas com o objetivo de favorecer um vínculo positivo do aluno com a disciplina de matemática, retomar os conteúdos das séries anteriores, que ainda não foram construídos com segurança, e oferecer mais uma oportunidade de resolver dúvidas sobre os conteúdos vistos em aula.

Visando ao fortalecimento desse vínculo, promovemos atividades em que os alunos possam participar ativamente do fazer matemático e ocupem o lugar de quem vai apresentar ou explicar algo para o outro, tais como:

- resolver desafios, discutir estratégias e resoluções, produzir um cartaz para o mural da sala de aulas e, depois, inteirar-se das respostas dos colegas e analisá-las;

- ajudar alunos de séries anteriores a retomarem conteúdos;

- conhecer recursos tecnológicos interessantes para a disciplina e depois apresentar para a própria sala e atuar como monitor;

- produzir problemas que integrem orientações de estudo para as provas regulares e que serão usados por toda a sala;

- elaborar sínteses sobre os conteúdos estudados e compartilhar com os colegas esse material de estudo.

Para finalizar as atividades em 2016, os alunos da oficina de matemática produziram e atuaram como monitores de uma sala com desafios e jogos elaborados. Nossa “Sala (ma)temática” foi organizada para os alunos do 5º ano da escola.

Os alunos do Fundamental 1 participaram de um jogo de tabuleiro com perguntas sobre operações matemáticas, frações e números decimais, e pensaram em alguns desafios que consistiam na apresentação de contas incorretas que teriam de ser corrigidas com a movimentação de apenas um palito.

Ao pensar nas possibilidades de jogos e desafios para alunos menores, os alunos da oficina precisam refletir sobre os conteúdos que esses alunos já sabem, como articulá-los, quais perguntas os pequenos podem fazer e quais podem ser feitas a eles, como as respostas serão colocadas, entre outros. Além da oportunidade de os alunos da oficina ocuparem o papel do saber, de quem vai explicar, esse tipo de atividade ajuda a fortalecer os próprios mecanismos de autoavaliação, pois ao pensar em como o outro pode aprender, os alunos maiores criam ferramentas para pensar no próprio processo de aprendizagem.

As atividades que repercutem na própria sala ou em outra sala de aulas são bastante enriquecedoras para todos os envolvidos, e muito potentes para ajudar os alunos que apresentam dificuldades em matemática. Sabemos que para vincular o aluno positivamente à matemática são necessárias ações de diversas naturezas, e acreditamos que a atuação conjunta dos professores regulares e das oficinas, assim como as atividades que integram os alunos da escola constituem um caminho favorável para tal.

A tecnologia a favor do dinamismo nas aulas de inglês

Por Caroline Milan Brasilio,  Professora de Inglês – Unidade Granja Viana

As crianças estão cada dia mais conectadas. O mundo digital deixou de ser um mundo em paralelo e passou a fazer parte cotidiana da vida dos pequenos. Como podemos, então, tratar isso como uma vantagem nas aulas de inglês, tornando as aulas mais atrativas e dinâmicas, para atender às novas demandas das crianças já imersas no mundo tecnológico?

Palavras do cotidiano tecnológico de nossas crianças (download, share…) são utilizadas em inglês e já foram adotadas por elas e usadas habitualmente. Tutoriais no YouTube, filmes no Netflix, games online – o acesso a produções culturais e linguísticas do mundo todo por meio da internet; toda essa exposição ao idioma já acontece todos os dias, fora do contexto de sala de aula.

Estando nossa sala de aula também conectada com o mundo através da internet, temos então a possibilidade de explorar, de diferentes maneiras, situações de exposição e prática de inglês que tornam nossas aulas mais dinâmicas e interessantes, buscando a expansão do repertório de nossos alunos, por meio de oportunidades de contato com o idioma de formas diferentes no decorrer de seu percurso escolar.

Escola da Vila

Nas turmas de 1º ano, a leitura da série Knuffle Bunny é seguida de vídeos, gravados pelo autor e sua filha, personagem principal das histórias, narrando o livro – situação que traz aos alunos o contato com outros falantes de inglês, além do professor. As imagens, antes estáticas do livro, ‘ganham vida’ – a identificação dos alunos com a história é imediata, e o uso do idioma é feito de forma leve e interessante para os pequenos. Além disso, em todas as aulas há contato com canções e parlendas em inglês, pelos canais online como o Super Simple Songs.

Escola da Vila

Por meio do projeto Cartoon, presente nos cursos de 2º a 5º ano, nossos alunos assistem a desenhos animados em que o idioma é utilizado em situações cotidianas de comunicação, tendo contato com múltiplos falantes da língua. A partir dessa exposição, nossos alunos são conduzidos a analisar aspectos específicos do idioma, expressar suas opiniões sobre o material assistido em inglês e a produzir questionários que serão respondidos pelos colegas de outras séries. Esse transitar entre turmas também é um momento extremamente enriquecedor para os alunos, que têm a possibilidade de demonstrar seus conhecimentos e praticar com outros alunos que possuem experiências e contato diferentes com o idioma.

O interessante é notar que as propostas partem de situações reais de uso do idioma e possibilitam uma grande amplitude de desafios – aqueles menos experientes seguem modelos e se comunicam usando um repertório construído no projeto. Já aqueles mais experientes têm a oportunidade de explorar novos caminhos, testar seu próprio repertório e ampliá-lo ao entrar em contato com os cartoons autênticos.

A partir do Fundamental II, o dinamismo das aulas é potencializado por meio do uso de tecnologia em novos contextos. Na unidade Granja Viana, o uso de computadores pessoais nas salas de aula do 6º, 7º e 8º ano possibilita o uso e a prática do idioma em plataformas que favorecem o contato dinâmico com o professor e com material disponibilizado no Google Classroom e AVA; o uso de dicionários online, o contato com material genuíno produzido no idioma: diversas formas de exposição e prática de inglês. Por meio da escrita de e-mails para alunos de outros países no 6º ano, com a gravação de vídeos com notícias no 7º ano, na produção de um infográfico sobre a fome no mundo no 8º ano – a tecnologia apresenta aos alunos múltiplas oportunidades de contato e uso do inglês de modo dinâmico e atrativo.

Refletir e atualizar constantemente os recursos utilizados nas aulas de inglês que atendam a esse novo perfil de estudante, que por meio da tecnologia tem contato com uma gama imensa de conteúdo, que busca rápidas respostas e que tem contato com a língua em ambientes para além do contexto de sala de aula se faz necessário para que as aulas sejam sempre atuais e dinâmicas.

Cultura e festas populares na escola

 

Por Daniela Munerato 

“essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós…” (cantigas populares, cirandeiro) 

Com a tecnologia avançada, muitas vezes não conseguimos saber de onde herdamos determinados rituais, crenças. O desafio de compreender a dimensão da cultura além do contato trazido pela mídia é grande, num olhar de menos consumo e mais identidade, que representa um valor na educação. Na escola, valorizar a cultura faz-se necessário, porque precisamos vivê-la para fazer parte dela. Então, que venham as histórias, os rituais e as brincadeiras populares, dentro e fora da escola.

Escola da Vila

A cultura está presente no nosso cotidiano e é de todos nós! Cultura como celebração ou memória de histórias que precisam ser lembradas e retomam a identidade de um lugar, de um povo, de uma sociedade. Uma identidade construída através do tempo e da valorização de costumes que evidenciam os lugares por onde passamos. A relação com as pessoas e o entendimento sobre um local fica muito mais amplo se conhecermos a sua cultura.

Tradição é uma palavra bastante lembrada quando falamos desse contexto, com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de algo valioso, que precisa ser mantido, como os costumes, os comportamentos, as memórias, as crenças, as lendas que passam a fazer parte da vida das pessoas.

Escola da Vila

Na escola, elementos dessa tradição cultural ficam evidentes e são esperados, anunciados no calendário anual de atividades, postos como importantes temas de estudo, por meio da arte, história e geografia, por exemplo. A reflexão sobre o tema amplia o conhecimento de mundo e identidade.

Como exemplo das tradições culturais, temos os chamados festejos, como o carnaval ou a festa junina, comemorações apreciadas que acontecem no mesmo período sempre, com regularidade e muita preparação. Cheios de rituais, os festejos representam finalização de um processo que é elaborado com a dedicação do grupo que o prepara. Envolvem apreciações de músicas, imagens e trechos de festas anteriores. E na escola a equipe de professores prepara esse material de formação com muita animação.

Escola da Vila

No âmbito social, temos os “mestres” como responsáveis por passarem as bases das tradições, ensinando sobre o que está sendo festejado ou dançado, por exemplo, ajudando na compreensão das sutilezas dos símbolos que aparecem na cultura. As danças, assim como as lendas, representam uma das linguagens que nos fazem compreender uma cultura. Habitualmente, existem vestimentas, ritmos, decorações muito próprias com instrumentos, materiais e cores cheios de significados. São formas de dançar e brincar diferenciados.

As comidas típicas fazem parte das culturas, seja por um alimento bastante regional ou de safra em determinado período. É mais um motivo de união e coletividade que faz parte de comemorações, como na festa junina, por exemplo, e o número de pratos derivados do milho.

Escola da Vila

Assim, a cultura se dá nos espaços e tempos, ampliando histórias e favorecendo as interações.

O cuidar e o educar – um olhar a partir de diferentes abordagens

Escola da Vila - Abordagem Pikler

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Por Ana Paula Yazbek 

Há quinze anos, quando comecei o Espaço da Vila, o documento que inspirou boa parte de nosso Projeto Curricular foi o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNei), de 1998. E um dos textos desse documento tratava da questão do cuidar e do educar de uma maneira diferente da usual, não mais como uma polarização. Tornando-se um marco importante para o olhar sobre a primeira infância.

Nele, cuidar e educar eram considerados interdependentes, se entrelaçavam, rompendo com a dicotomia histórica, oriunda dos tempos em que o atendimento às crianças pequenas era de responsabilidade da assistência social. Quando não havia exigência de formação das pessoas responsáveis pelas crianças e a rotina estava na garantia dos cuidados básicos (alimentação, higiene e sono), enquanto as mães trabalhavam.

O termo cuidar durante muito tempo foi menosprezado pelos educadores, como sendo algo menor, pois considerava-se que o foco do trabalho deveria ser o educar, traduzido por oferecer propostas específicas às crianças para promover seu desenvolvimento, aprendizagem e inteligência. A educação infantil procurava se descolar da ideia de assistencialismo que o cuidar trazia consigo, até que os RCNeis trouxeram outro olhar.

Entretanto, ainda levou um tempo para que os educadores percebessem que o cuidar não era apenas garantir o bem-estar físico e emocional das crianças para que elas pudessem, assim, se envolver em propostas de aprendizagem.

As minúcias das situações de cuidado, a atenção aos detalhes, o trabalho delicado e sutil com as crianças não era foco de estudo dos educadores. Tornando muitas vezes a atuação mecânica, uma vez que o interesse destinava-se às reflexões sobre o que propor às crianças e como desafiá-las: quais histórias ler e como ler para elas; fazer um levantamento de propostas de arte; pensar em vivências musicais enriquecidas ou materiais diferenciados para a exploração das crianças, entre tantas outras coisas.

Muitas vezes, de uma forma muito bem-intencionada, os cuidados ainda eram tratados como algo menor. Até que começamos a entrar em contato com algumas abordagens focadas no trabalho com a primeira infância, principalmente com a Abordagem Pikler, que rompe completamente com a dicotomia entre o cuidar e o educar e traz a questão dos cuidados como algo primordial, que necessita ser estudado com muita atenção pelos educadores e cuidadores de crianças. Fazendo com que o olhar para essas situações ganhasse um foco bastante diferenciado, promovendo um salto na qualidade nas interações entre crianças e educadores. Ressignificando formas equivocadas de falar sobre os cuidados e o atendimento às crianças pequenas, como, por exemplo, a frequente queixa de que não estudamos tanto tempo para trocar uma fralda.

Na Abordagem Pikler é fundamental que se estude muito para realizar uma troca de fralda, é necessário redefinir quem é a criança, como interagir com ela, como falar, como esperar que ela corresponda ao que você está fazendo com ela. É preciso dar outro status para os diferentes papéis que adultos e crianças assumem nesse momento. Isto é, deve-se olhar para a criança e não para uma fralda suja que precisa ser trocada. É preciso se atentar ao tempo de espera, aos gestos que se fazem necessários, aos humores, numa sincronia de ações bastante diferente dos atos mecânicos que muitas vezes aconteciam e ainda acontecem nesses momentos de trocas de fraldas.

A partir do contato com essa abordagem, o pêndulo voltou-se preferencialmente aos cuidados e às ações genuínas das crianças pequenas, tornando as propostas sugeridas pelos adultos uma invasão ou interrupção em seus percursos.

Atualmente, no trabalho com as crianças pequenas, o pensar sobre seu cotidiano traz a urgência da integração efetiva entre o cuidar e o educar. Considero que devemos criar uma nova identidade para esse trabalho, uma identidade que efetivamente identifique o cuidar como algo primordial e identifique o acesso à cultura como um direito que devemos assegurar às crianças,

O desafio é conseguir integrar o cuidar e o educar de um modo efetivo e respeitoso, que considere quem é a criança à qual estamos nos dirigindo e considere os motivos pelos quais iremos oferecer-lhes contextos nos quais tenham acesso a histórias, situações de pintura, brincadeiras, momentos de construção e desconstrução, contato com a natureza, música, movimentos, junto com momentos dela consigo mesma num espaço coletivo. Esse é nosso desafio, e eu convido a todos que se dedicam ao trabalho com as crianças pequenas a enfrentarem esse maravilhoso desafio, porque quando a gente consegue parar para observar, interagir e refletir sobre as respostas das crianças, a gente aprende muito sobre o que fazer e o que propor a elas.

Uma ótima oportunidade para iniciarmos este diálogo será o encontro que acontecerá no dia 8 de abril: 0 a 3 em debate: reflexões sobre a Abordagem Pikler com os bem pequenos. Participem!

A configuração das salas e o trabalho interidades: a experiência das aulas de tutoria no F2 da Granja.

Por Ana Vitiritti 

Sempre que pensamos nas sequências didáticas de ensino, nós, professores, elencamos conteúdos conceituais, pensamos em atividades que possam promover a discussão na classe, temas que sejam ao mesmo tempo interessantes e estimulantes, garantindo a manutenção da aula, e que possam potencializar a aprendizagem. Mas não é só baseada em conteúdos que deverá estar a atenção do professor. Os agrupamentos produtivos e a ambientação da sala de aula contribuem para o alcance dos nossos objetivos.

Quando, premeditadamente, o professor define como será a organização da turma, sob a orientação adequada, os alunos poderão trocar nas duplas, nos trios, quartetos ou em um grupo grande de discussão. Essas trocas poderão criar um ambiente favorável à criação de hipóteses, à resolução de problemas, à necessidade de argumentação diante de um novo ponto de vista, possibilitando que os alunos coloquem em cheque suas ideias e administrem a sua própria aprendizagem.

Um aluno mais velho, por exemplo, poderá assumir um papel de mediador da discussão, poderá centralizar o registro do que foi discutido, poderá servir de exemplo para alunos mais novos. Por outro lado, um aluno mais novo, curioso e criativo poderá questionar as escolhas dos outros colegas procurando os porquês conceituais que ainda desconhece.

Nesse sentido, na Unidade da Granja temos desenvolvido agrupamentos de todos os alunos do F2 nas aulas de tutoria. Temos alunos do 6o ano, recém-chegados do F1, alunos do 7o ano, já acostumados às trocas de professores e procedimentos básicos trabalhados em sala, e alunos do 8o ano, que, com a própria diferença de idade, já possuem um grau de abstração e argumentação distinto dos menores.

Nas aulas, temos um grande tema de fundo das nossas discussões: a Mídia Digital. Estamos imersos em um mundo tecnológico, e os alunos acordam cercados pelas tecnologias digitais, vão para a escola com seus computadores e tablets, realizam as atividades também usando essas tecnologias e, quando ainda há tempo, não perdem nenhum segundo para conversar com seus amigos no snapchat ou twitter. Tema interessante e que desperta curiosidade sobre como foram os avanços nos últimos tempos. Como saímos da escrita nas paredes da caverna com corantes naturais à base de terra e chegamos a sinais de telefonia celular que, imediatamente, identificam as informações, reconhecem o local que o usuário está e, se bobear, já indicam o restaurante mais próximo?

Para a discussão desse tema, cada professor pinçou um aspecto que relaciona o tema à sua disciplina específica e às necessidades procedimentais que observa no grupo de alunos do F2 de maneira geral. Em Ciências Naturais, a necessidade de trabalhar o gênero descritivo e a escrita organizada, que representa passo a passo o que foi pensado, o que foi discutido e que retoma as ideias de causa e efeito. Em Língua Portuguesa, a necessidade de trabalhar a leitura e a interpretação de textos com um grau de aprofundamento distinto da superficialidade. Em Ciências Humanas, a necessidade de trabalhar as respostas completas, coerentes com o que foi pedido, a necessidade da interpretação de gráficos, tabelas, infográficos e esquemas. E, em Matemática, a necessidade de criar textos argumentativos que representem a resolução pretendida para a solução de problemas complexos, que envolvam cálculos simples e as regularidades da multiplicação.

Após a definição do tema, os alunos do F2 foram divididos nos grupos de trabalho mesclados e escolhidos de acordo com as necessidades pretendidas pelos professores. Em seguida, as estratégias dos professores foram criadas para atentar ao tema, atender aos objetivos específicos, levando em consideração as competências dos grupos interidades.

Diferentemente do que ocorre nos agrupamentos gerais com alunos de idades distintas, aqui eles foram selecionados com competências e habilidades muito semelhantes para que a proposta do professor pudesse ser desafiante para todos e para que no grupo exista uma ordem horizontal e eles tomem as decisões e apresentem soluções com a mesma propriedade, independentemente da série.

Essa escolha intencional teve como objetivo colocar o grupo de alunos em um mesmo lugar em relação à aprendizagem, mesmo sabendo das diferentes competências inerentes às idades. Segundo Vygotsky, a aprendizagem só se consuma quando intermediada pelo outro, e se esse outro é muito competente em relação ao o que sei, como saberei se sei ou se apenas reproduzo aquilo que é do outro? Se o outro é muito competente e eu ainda não, será que me espelho ou apenas me escondo? Se somos iguais, como faremos para resolver algo que não é de conhecimento de nenhum de nós?

As aulas começaram agora em fevereiro, e não temos ainda muitas notícias. Vamos esperar as próximas duas semanas, quando os primeiros módulos de atividades tiverem acabado para contar mais um pouco da nossa experiência com agrupamentos produtivos interidades nas aulas de tutoria da Granja. Mas algo já sabemos: o tema é interessante, e os grupos interidades trabalhando com um objetivo único no projeto poderão aprender com as diferenças e deverão saber ouvir e se posicionar de maneira clara e coerente diante de alunos que não são, necessariamente, de seu convívio diário, o que já é um ganho enorme.

Parabéns pra você…

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

O aniversário como ritual de espera e marco de crescimento 

O aniversário é um acontecimento memorável! Os motivos pelos quais tornamos essa data inesquecível podem variar bastante:

Quando se completa o equivalente a uma mão inteira de idade:

Uau! Cinco anos! Já? Não precisa esconder mais nenhum dedo da mão? Ano que vem vai precisar da outra!

Quando não se consegue apagar a vela do bolo da primeira, da segunda ou da terceira vez:

- Força! Essa vela é muito teimosa! Vamos! Dessa vez vai apagar!

Quando alguém que você esperou por muito tempo chega de surpresa, tapa seus olhos e pergunta:

- Adivinha quem é? E no mesmo instante você identifica a pessoa pelo tom de voz e pelo toque delicado!

Posso pensar em muitos motivos para me lembrar de cada aniversário, e naturalmente passarão por minha memória vários sentidos: o cheiro do brigadeiro na panela, o gosto forte da borracha das bexigas na boca, as gotas de suor escorrendo no rosto depois de correr quilômetros numa brincadeira incessante de pega-pega…

Não estou pensando nos “meus” aniversários, na “minha” época nem falando hipoteticamente desse evento. Já vivi muitas e diferentes possibilidades, como criança, jovem, adulta e mãe. Muitas coisas mudaram de lá para cá, e não penso que “minhas” comemorações eram melhores ou piores do que algumas em que participei como convidada, mas sei que é possível pensar em critérios de escolha levantando alguns princípios sobre a compreensão que temos da infância, consumo e participação dos aniversariantes. As melhores comemorações mais carregadas de significado e de boas memórias podem não ser para as crianças aquelas cheias de presentes ou hiperatividades (monitores, buffets, mágicos, carruagens, manicure, cabeleireiro, spas infantis e toda a sorte de influências publicitárias ou modismos).

Os melhores aniversários, que ficarão guardados durante muito tempo nas boas memórias da infância, convidam à intimidade, à surpresa, ao tempo de espera… Espera? Qual é mesmo o significado dessa palavra?

Não é fácil ensinar alguém a esperar, inclusive observo que muita gente está perdendo essa capacidade, especialmente as crianças, que, ao “estalar os dedos”, como num passe de mágica, têm suas vontades imediatamente atendidas. Se tudo o que querem está à mão, não há necessidade de esperar, aprender a planejar, considerar a possibilidade da frustração.

Espero que aquela sensação de frio na barriga ao olhar no calendário, contar quantos meses faltam e perceber que a data especial está se aproximando possa fazer parte da vida da maioria das crianças. Que elas saibam que as “artesanias” da comemoração são compartilhadas pela simplicidade de uma reunião para homenagear quem naquele dia muda de idade, independentemente do número de convidados ou adereços, mas pelo significado do encontro que ritualiza esta passagem. Fazer aniversário é marco de crescimento, de méritos conquistados, desejos esperados ao longo de um ano, com data para se cumprir!

Para terminar, sugiro algumas ideias, inspiradas no livro “A última criança na natureza”, de Richard Louv, que podem aproximar muito os convidados e tornar o dia do aniversariante muito especial:

- Passear em grupo por uma área arborizada para inventar histórias e deixar pistas pelo caminho como se fossem de personagens de contos de fada.

- Convidar avós para ensinar brincadeiras que eles faziam quando eram crianças.

- Acampamento no quintal.

- Observar nuvens, estrelas através de equipamentos (binóculos ou lunetas) construídos pelas crianças com sucata de rolos de papel higiênico, papel celofane colorido.

- Plantio de mudas num local escolhido pelo aniversariante.

- Caminhada pelo bairro para regar plantas.

- Caminhada noturna com lanternas.

- Coletar sementes, folhas, gravetos (caídos no chão) como um tesouro para o aniversariante.

- Construir cabanas de tecido.

- Leitura ao ar livre.

Conversa entre alunos de diferentes séries e unidades: a temática do feminismo

Escola da Vila

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Por Joana Sampaio Primo

Todas as instituições (re)produzem a sociedade na qual estão inseridas; nas escolas não é diferente. Todavia, as instituições de ensino têm uma particularidade que as fortalece, a saber, o papel de transmitir para quem está sendo formado os princípios e conhecimentos acumulados num dado período histórico. Assim, se por um lado a escola reproduz padrões e valores sociais, por outro ela é um campo de permanente produção e reflexão, já que ensinar e aprender são ações construídas cotidianamente.

O feminismo – como bem abordado em post recente deste Blog – tem ressurgido com força nos últimos 5 anos, movimento que chega às escolas pela organização e reflexão de seus agentes, alunos e professores. Reconhecidamente um tema que trata das relações cotidianas, refletir sobre essa temática significa pensar o lugar de (re)produção dos homens e mulheres em nossa sociedade e, especificamente, nas escolas.

No final do ano passado, resolvemos introduzir no espaço das aulas de Orientação Educacional, da Unidade Granja, reflexões sobre o lugar da mulher em nossa sociedade. Num primeiro momento, pode parecer um assunto precoce para estudantes de 6º e 7º anos, porém vivenciávamos situações nas quais percebíamos que as alunas e os alunos (re)produziam determinados comportamentos sem refletirem sobre suas determinações.

Fizemos uma sequência de discussões com a turma. Eles se envolviam nas atividades, mas agiam como se não houvesse nenhuma relação com eles nem com suas atitudes. Instigadas por essas participações, planejamos outras estratégias.

Resgatamos um encaminhamento que faz parte de nossa prática na Escola da Vila, isto é, alunas e alunos ocuparem o papel de transmissores do conhecimento, pois concebemos que o exercício de comunicar um saber implica uma nova maneira de compreendê-lo. Trata-se, também, de uma estratégia na qual os estudantes podem ocupar outra posição em relação aos colegas e ao conhecimento, modificando o lugar de quem vai ensinar e de quem está sendo ensinado. Apostamos, portanto, que escutar um colega de idade próxima reconfigura as possibilidades de transmissão e de compreensão, aproximando alunas e alunos do que está sendo discutido.

Orientadas por esses princípios, propusemos, no final do ano passado, uma conversa entre duas alunas e um aluno do Coletivo Feminista do Fundamental II e os estudantes de 6º e 7º anos da Granja. A conversa com pessoas de outras Unidades e idades era uma forma de aproximá-los da temática e de valorizar o Coletivo que foi criado por iniciativa própria dos alunos.

Com a mediação da Orientação das unidades, combinamos com o Coletivo um dia para virem. Eles se prepararam, compartilharam um plano de aula especificando o que gostariam de discutir com os alunos da Granja, estavam animados! Por aqui, antecipamos com nossos estudantes o dia da conversa e quem viria discutir feminismo com eles, ficaram ansiosos! Na última tarde de segunda-feira do F2 antes das férias, fizemos uma grande roda de conversa e nada melhor do que acompanharmos o que aconteceu pelo relato de algumas alunas que quiseram compartilhar a experiência que viveram.

Sofia Lebrão Ferreira
Quando começamos a conversar sobre feminismo na aula de OE, fiquei um pouco sem graça e sem entender o porquê daquilo e sua importância na sociedade, porque esse assunto não é do nosso dia a dia e costume. Depois da conversa com os alunos das outras unidades, percebi que era muito mais que uma aula qualquer de OE sobre esse tema. Percebi que o feminismo é algo muito grande, e aprendi muito, acho que todos aprenderam, porque antes eram só risadas e brincadeiras sem graça, depois todos começaram a levar muito a sério e entender. E esse, eu acho, foi o ponto forte dessa conversa com os alunos, o fato de que tudo ficou mais claro, debaixo do nosso nariz, todos os dias, o tempo todo, mas não percebíamos nem sabíamos o que era. Muitos nem sabiam o significado da palavra feminismo, eu era uma dessas pessoas, mas todos nós ficamos conscientes sobre esse assunto tão comum atualmente.

Carolina Bonfiglioli Lopes
Para mim, a diferença entre escutar a temática do feminismo sendo abordada na aula de OE e na conversa com as alunas e os alunos na Unidade Butantã foi que nas aulas de OE o clima era muito tenso e sério, mas com os alunos era mais informal, e havia as atividades sobre pensar no que você brincou quando era criança, que roupas usou, e eu achei isso bem legal porque nós poderíamos pensar nas divisões que “temos” que seguir.

O que eu achei mais importante na conversa com os alunos e as alunas foi que muitas coisas foram esclarecidas e que nós pudemos ver diferentes pontos de vista (das outras unidades).

Alice Novis Rossi
O coletivo feminista de 2016 envolveu um grande processo de aprendizagem. Não só para as alunas que eram pouco familiarizadas com o assunto, mas também para as que, como a maioria do oitavo e do nono ano, já sabiam um pouco sobre o assunto.

(…)

À medida que o coletivo foi avançando, as pessoas estavam ficando mais engajadas e com um conhecimento maior sobre o assunto, chegamos aos poucos a temas mais complexos, como representatividade da mulher na cultura pop, a mulher como objeto nas publicidades, vertentes do feminismo, etc.

(…)

Resumindo, foi possível notar uma mudança no comportamento e na visão de todas as pessoas que participaram do coletivo ao longo do segundo semestre. As discussões envolveram um processo de aprendizado incrível, e promoveram um ambiente confortável para que as pessoas expressassem sua opinião (embora algumas pessoas ainda estejam em posição de ouvintes). O coletivo trouxe com ele exatamente a sensação de coletividade, uma ideia de estarmos juntas fazendo uma coisa importante para mudar o espaço escolar que também é nosso.

Cecilia Bajour na Escola da Vila

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Você não precisa de um local específico para ler uma história, nem de um livro que buzine, brilhe ou se desdobre em mil objetos. Você não precisa de uma varinha de condão para fazer mágica com as palavras, mas tem que saber como favorecer relações instigantes entre as crianças e as narrativas!

Na quinta-feira passada, tivemos a oportunidade de ouvir por algumas horas uma pesquisadora apaixonante! Já conhecia Cecilia Bajour por meio de textos extremamente belos sobre as pontes construídas pelos autores para aproximar sua obra dos leitores sem criar abismos intransponíveis. Ela fala do que se pode esperar, ocultar, dizer ou silenciar a cada virada de página e das diferentes visões de infância e criança que estão subentendidas na maneira como um livro é concebido!

É difícil traduzir em palavras o que acontece quando temos um livro nas mãos e um grupo de crianças dispostas a pactuar conosco uma grande “viagem” inexplicavelmente particular, na medida em que cada um é capaz de estabelecer suas próprias relações com imagens, palavras, contextos, e ao mesmo tempo coletiva porque, em grupo, podemos nos “alimentar” das ideias uns dos outros.

Vou tentar contar para vocês um pouco dessa relação.

Alguém abre um livro, estabelece-se um silêncio emocionante… Cada criança adentra ao espaço da história com suas próprias “ferramentas”. Diante da mesma narrativa colocamo-nos como coparticipantes e somos autorizados a “ser” quem quisermos, viver por alguns milésimos de segundos a dúvida do que acontecerá na próxima página e, ao encontrar novas dúvidas, somos impulsionados a continuar ativos nessa relação entre livro como material de arte, história, silêncio, incertezas e construção de sentido. Quando os adultos subestimam a capacidade das crianças de “jogar esse jogo”, partem então para “encontros” unilaterais com a leitura, nos quais a palavra é monopolizada e a postura do mediador a mais controladora possível.

A palestra de Cecilia reafirmou nossa crença de que há um caminho de muita confiança entre leitor e receptor. Nesse contexto, as crianças são capazes de criar e inventar. As histórias abrem significados e o grupo os expande cooperativamente. Instauram-se a partir daí respostas provisórias para textos desafiadores com modos de ler igualmente desafiadores.

As histórias não precisam da “tradução” dos adultos ou de simplificações que barateiam a narrativa. Enquanto lemos, as zonas ambíguas vão se construindo, e as crianças entendem onde o texto pretendia se “calar” ou nos interrogar.

Vale prestar atenção na inquietude que o “não saber” suscita e costurar teias múltiplas de interpretação sem fechá-las, deixando que os leitores apresentem suas hipóteses e falem sobre elas.

Termino com um trecho do livro Ouvir nas entrelinhas – O valor da escuta nas práticas de leitura”, da própria Cecilia Bajour:

“… acreditar que os leitores podem lidar com textos que os deixem inquietos ou em estado de interrogação é uma maneira de apostar nas aprendizagens sobre ambiguidade e a polissemia na arte e na vida. Nem todos os silêncios precisam ser preenchidos…”.

Para que possam dialogar com o “silêncio”, faço algumas indicações:

zoom  Zoom, de Istvan Banyai

willy  Willy y Hugo, de Anthony Browne

lobos  Lobos, de Emily Gravett

Romper os limites das disciplinas: um grande desafio

Escola da Vila

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Por Susane Lancman 

Dois professores na sala de aula, o de História e o de Língua Portuguesa, dão aula conjuntamente. Atentos, 31 alunos do 1o ano C. A fala se intercala entre o professor Guilherme e o professor Silas, um dueto afinado. Alguns questionamentos que permeiam a aula: Qual a relação entre o livro “Minha vida de menina”, de Helena Morley, e as disciplinas? Por que uma atividade interdisciplinar? Como funcionarão as aulas? O que será estudado com a obra literária do ponto de vista da História? E da Língua Portuguesa? Por que romper os limites das disciplinas?

Há uma piada que circula no meio educacional que diz que a única coisa que liga as diferentes salas de aula em uma escola são os canos e os fios elétricos. Não é o nosso caso na Escola da Vila: temos reuniões pedagógicas semanais para, justamente, discutir a unidade entre as salas de aula em relação às questões metodológicas, escolhas curriculares e valores educacionais, na busca insana de relacionar saberes.

O desafio da interdisciplinaridade é grande, afinal, é preciso romper o corpus de conteúdo organizado por disciplinas, algo rígido, construído em décadas de história da educação, em que o conhecimento foi fragmentado, encerrando as disciplinas nelas mesmas.

Romper com a presença de um só professor em sala de aula, em que ele detém todo o saber. Romper, em algumas situações, com a organização do espaço em que os alunos só interagem com o seu grupo/classe.

Mas, esse esforço só tem sentido quando se compreende que a interdisciplinaridade é uma oportunidade concreta para a revisão das relações com o conhecimento, provocando a organização de um ambiente interativo, entrelaçando os saberes e as pessoas, ampliando, na prática, o conceito da construção coletiva.

Nesse processo de troca entre professores, ampliam-se os conhecimentos dos próprios docentes sobre o objeto de ensino e sobre a forma de ensinar. Entretanto, compartilhar de forma sistemática um projeto, ter objetivos comuns, depender do fazer do outro exige muita discussão e comprometimento.

Em relação aos alunos, a interdisciplinaridade permite ampliar o olhar sobre as ciências, conectando conteúdos, possibilitando dar novos significados aos conteúdos e à realidade, relacionando a teoria e o real. Além disso, uma das formas dos alunos desenvolverem a criticidade é terem acesso a situações complexas, que possam ser estudadas por diferentes áreas do conhecimento, superando a fragmentação entre as disciplinas, o que possibilita gerar maior autonomia intelectual.

É bom ressaltar que a integração das disciplinas em si não desenvolve qualquer habilidade, pois depende da forma pela qual o trabalho é didaticamente estruturado. Assim, antes de integrar, é preciso perguntar: por que integrar? O que integrar? Quem integra? Como se faz a integração? O passo seguinte é definir o problema ou o fenômeno que será estudado; determinar os conhecimentos necessários, inclusive as disciplinas, modelos, tradições e bibliografias; desenvolver um marco integrador e as questões a serem pesquisadas; especificar os estudos ou pesquisas concretas que devem ser empreendidos. Por fim, é necessário construir novas organizações do espaço, do tempo e do currículo.

A aula de História e Língua Portuguesa termina com os alunos sentados, em grupo, discutindo o tema que irão focar durante a leitura de “Minha vida de menina”: trabalho, religião, gênero, educação, família e escravidão. Os grupos discutem os temas, votam, negociam-nos com os outros grupos e decidem a “lente” que será usada durante a leitura.

Sem dúvida, ler o livro com o foco nas questões relacionadas à literatura já traria enorme aprendizagem, mas, lê-lo também com a lente da disciplina de História, pode ampliar ainda mais o olhar dos nossos alunos.