Bem-vindos ao Jurassic Park!

Por Fernanda de Lima Passamai Perez e Erica P. C. Santos 

Lançado em 1993, o filme Parque dos dinossauros (Jurassic Park) conquistou plateias de todo o mundo e arrematou três estatuetas do Oscar. Afinal, tornar possível o retorno dos gigantes jurássicos, mesmo que na ficção, seduz o imaginário coletivo.

18_5_2016Apesar da adaptação para a telona, nós, do Vilalê, leitores ávidos por aventuras e desafios, quisemos mais! Tanto é que, mesmo com o fato de alguns membros do grupo já terem assistido ao filme ou ‘conhecerem’ a história, a ficção científica de Michael Crichton foi eleita .

E será que ‘conhecer’ o final estragaria o prazer da leitura? Resolvemos apostar que não, já que saber como a narrativa chegou àquele desfecho parece ser o mais divertido. O enredo, bem estruturado e amarrado, apresenta informações sobre os universos da tecnologia, do entretenimento e das ciências que não aparentavam nenhuma relação entre si até então, propondo questionamentos mais objetivos sobre os avanços científicos conquistados nas décadas anteriores a 1990, como a clonagem e suas consequências. O posicionamento ético dos personagens e das instituições também ganhou maior destaque no texto impresso.

Vale ainda contar sobre a chegada de novos integrantes ao Vilalê, ou melhor, deixar que a Sofia (recém-chegada), a Helena (veterana) e a Dalgi, mãe do João Pedro do 6º ano, contem um pouco sobre essa experiência .

Enfim, a aventura vai muito além de um passeio de estreia em um novo parque temático e de dinossauros, por isso, estamos devorando-a parte por parte.

O evento “Um Pouquinho de Brasil” na unidade Granja Viana

Pouquinho de Brasil na Escola da Vila Granja Viana

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Por Luisa Furman 

Há muitos anos se faz roda na Escola da Vila, em todos os segmentos e em diversas situações. A roda possibilita a todos sentarem-se no mesmo nível e se olhar, ouvir e compartilhar algo importante. Nas rodas da Educação Infantil os pequenos aprendem a dividir com os colegas passagens importantes de suas vidas, tais como: um episódio do final de semana, uma descoberta, um novo aprendizado, uma conquista, um medo, uma tristeza.

Essa organização estrutural pode ser realizada em qualquer espaço da Escola, estando ligada a um conteúdo curricular ou procedimental. Os agrupamentos também podem variar de acordo com o objetivo da roda.

Existem, também, as rodas de capoeira, de histórias, de apreciação de cadernos de arte, para tomar lanche, para fazer assembleias, e várias outras, que muitas vezes ocorrem espontaneamente. A roda é um convite ao diálogo, à troca, à interação, valores fundamentais para o nosso projeto.

Também fazemos rodas para dançar e cantar, como aquela de encerramento do Um Pouquinho de Brasil − evento de arte organizado pelo Setor Cultural, no dia 30 de abril, na unidade Granja Viana − conduzida pelo grupo Mergulhatu, que apresentava diversos ritmos brasileiros como o Maracatu, velho conhecido da turma do complementar, estudado no primeiro trimestre, que propõe aos alunos, a suas famílias e aos professores a participação interativa, cantando e dançando com os músicos.

Essa grande roda finalizou o evento, que acontece todos os anos, e evidencia os processos de aprendizagem das aulas de arte, promovendo a integração entre as famílias e a escola. Os alunos têm a oportunidade de atuar como protagonistas, mostrando as produções realizadas ao longo do primeiro trimestre, expostas pelo espaço da escola e relatando os conteúdos e procedimentos aprendidos para a concretização de cada trabalho. Os professores, por sua vez, participam dessa integração ao preparar o ambiente para receber a comunidade, organizam e oferecem atividades, acompanham seus alunos e conversam com as famílias.

Ao final, uma das professoras presentes na atividade, admirada com a participação das famílias, resgatou um sentido importante da roda para uma comunidade que está se constituindo e tem fortalecido sua parceria com a escola − a roda como comunhão, como uma engrenagem que, girando em torno de seu eixo, realiza algo em comum entre suas peças, estabelecendo uma sintonia de sentimentos, do modo de pensar e de agir.

Veja as fotos do evento no Flickr da Vila.

Projeto Cicerone: a voz do aluno

Cicerone

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Por Sônia Barreira 

Nesses muitos anos viajando com o Centro de Formação da Escola da Vila nas famosas Viagens Pedagógicas, temos conhecido incontáveis experiências escolares, das mais variadas linhas: alternativas inovadoras, convencionais, tecnológicas, criativas, enfim, propostas com um DNA próprio e identidade forte, alicerçadas nos fundamentos de seus projetos pedagógicos. De modo que qualquer uma delas sempre nos fez pensar na nossa, de vários pontos de vista.

Deveríamos flexibilizar mais o espaço e a seriação? O uso das tecnologias está muito tímido? A interação entre maiores e menores está bem utilizada? A audiência real para os projetos dos alunos poderia ser mais garantida? As paredes estão devidamente “vestidas” com as produções dos alunos?

Mas algumas experiências simplesmente nos causam aquela perplexidade: por que não pensamos nisso antes? Uma delas é a ideia de colocar os próprios alunos a apresentarem a escola às novas famílias e futuros alunos. A primeira vez que isso nos chamou a atenção foi na Escola Sunion, de Barcelona. Aliás, quase tudo naquela instituição nos marcou positivamente. Lá, escola secundária, todo aluno é responsável por contribuir com algum “serviço” na escola (xerox, distribuição de correspondência, atendimento, etc, além da limpeza, da qual, todos devem participar) por algum tempo semanal. Foi nesse processo que tivemos alguns alunos nos ciceroneando, num tour pela escola. Através de seus olhares pudemos conhecer os valores daquele projeto tão inovador.

Mais tarde, na viagem ao Canadá, o mesmo aconteceu no Ontario Institute for Studies in Education, com alunos relativamente pequenos, que nos ajudaram a compreender como a metodologia de inquirement based funcionava nas diferentes salas de aula.

Na viagem para a Califórnia, recebidos pelos alunos da HTH, de Chula Vista e Point Loma, em San Diego, pudemos – em diferentes grupos, questionar mais a fundo os alunos sobre os diferenciais da escola, buscar contradições, entender os pormenores. Nessas escolas, os cicerones são denominados embaixadores, e surpreendem seus interlocutores pela clareza em destacar os valores das escolas, seus projetos para diversas faixas etárias, os resultados que eles próprios observam.

As vivências nessas situações distintas nos fizeram concluir que, além da experiência única para nós, de termos a escola desvendada pelos próprios alunos, a situação era também bastante significativa para aqueles que se esforçavam por comunicar aquilo que viam na escola como relevante para sua formação, as vantagens formativas dos projetos ou conteúdos estudados, o potencial para a aprendizagem de certos encaminhamentos.

Conhecer o projeto pedagógico no qual está inserido, acreditar nele, saber reconhecer seu valor e, acima de tudo, dar sentido às suas experiências escolares é extremamente importante para o aluno. Esses sentimentos ajudam no engajamento dos estudantes, na atitude positiva para os desafios e no ambiente favorável para o aprendizado.

Por essas razões, demos início, em 2016, mais precisamente no mês de abril, à constituição de um grupo de alunos, por adesão espontânea, que está passando por um processo de discussão e de preparação para poderem ciceronear visitantes que queiram conhecer o projeto pedagógico da Escola da Vila.

Acreditamos que essa iniciativa vai fortalecer os laços dos alunos com a escola, além de proporcionar uma experiência muito significativa aos visitantes: conhecerem a escola e suas propostas através dos próprios estudantes.

A partir deste mês de maio, aqueles que se inscreverem poderão ter o privilégio de serem guiados por esses jovens entusiastas da nossa Escola. Ganharemos todos, certamente.

E, conforme tenhamos alguns relatos dos alunos e alunas sobre essa experiência, compartilharemos com vocês por esse canal!

Nove não são dez

No passado, vivemos situações como a abordada nesse texto que aqui compartilhamos. Essa sempre é uma reflexão tocante e necessária.

4_5_2016

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Por Fabiana Ribeiro, no blog PARATODOS

Festa de 8 anos do seu filho. Você resolve chamar todos os meninos da turma para uma festa de pijama. Nove garotos da sala. Todos, não. Todos menos um. Ah, todos-menos-um é quase igual a todos. E você é quase legal.

Mas você não contava com uma coisa. Vazou. Vazou no whatsapp da turma que vai ter uma festa. Poxa, que coisa, você tinha pedido discrição aos pais. Você segue com seus planos até que chega o grande dia. Lá está você, na escola, pra pegar os nove garotos que vão animar a sua noite. Nove garotos que não vão dormir nadica, que vão dar um trabalho do cão, que vão pedir suco de uva, quando só tem tem de caju, que vão querer Nescau, colo, travesseiro, água e televisão na hora do deitar. Que vão sujar o seu carpete de brigadeiro e ainda vão colocar o pé no sofá. É essa turma que entra na van. Do lado direito da fila indiana, lá está aquele menino esquisito que não fala, inerte no seu mundo, fora do contexto. Por sorte, nem viu a turma sair cantando, se distraiu com alguma coisa. “Melhor assim”, você pensa. Mas, você, já dentro do carro, vê a mãe do garoto que ficou pra trás. Não entende porque ela abraça o filho e discretamente chora. Nove não são dez. 

Então, você se pergunta em meio ao caos da van. “Por que mesmo não convidei aquele menino?” E você, claro, se lembra. Porque não se comporta como deveria. Porque ele não fala. Porque ele tem mediador. Porque ele pode babar nos brinquedos do aniversariante. Porque pode roubar o brinde antes do parabéns. Porque ele representa um risco para as demais crianças. Porque ele não brinca com as crianças, não interage com as crianças. Porque ninguém gosta dele. Porque ele tem Down ou autismo ou alguma dessas coisas complicadas. Porque, porque, porque… Você mal sabe o porquê, porque nunca se interessou. Nove não são dez. 

E você, se tiver o mínimo de sensibilidade, se dá conta da besteira que fez. E se arrepende. De não ter ligado para os pais do menino e dividido com eles o seu problema: vou dar uma festa de pijama para o meu filho, como podemos fazer para o seu filho participar? De não ter conversado com a escola para saber a opinião da professora sobre o garoto. De não ter sequer tentado. De ter feito um papelão na frente do seu próprio filho – que convive com o menino todos os dias e sabe, melhor do que você, incluir alguém na brincadeira. De ter cometido uma baita gafe pública, logo você que é cheia de valores morais tão consistentes. Nove não são dez. 

Então, você se pega pensando que, se a moda da exclusão pegar na turma, seu filho pode ser o próximo. Logo ele tão cheio de cachos e de bochechas rosadas, mas com certa intolerância a cumprir regras e combinados. “Coisa dessa geração”, você pondera. Lembra de filmes em que mães imploram para que seus filhos sejam convidados para as festas e garante que faria o mesmo pelo seu rebento. E, com coração apertado, pensa: “Nove não são dez”.   

Você, que era só simpatia quando ia à escola, nos últimos tempos se esconde. Você está com vergonha de encontrar aquela mãe. Tem medo de ela te olhar nos olhos e, apenas com os olhos, te lembrar que nove não são dez.

Nove não são dez, você bem entendeu.

Unidade Granja Viana – os desafios e as delícias de uma implantação

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Por Vania Marincek 

Implantar uma escola é uma tarefa repleta de desafios. Desde a concepção e a organização do espaço em função da proposta pedagógica, passando pelo funcionamento e chegando ao dia a dia da sala de aula, tudo precisa ser pensado e planejado em detalhes.

Estamos no terceiro ano da implantação da unidade da Granja Viana e, nesse período, já podemos ver que construímos uma escola cheia de vida, com alunos instigados a querer saber sempre mais e com todos, alunos, professores e pais, sendo todo o grupo muito implicado com tudo o que acontece na escola. A sintonia é tanta que parece que a escola já existe há muitos anos.

Para chegar a isso em tão pouco tempo, a experiência acumulada pela Escola da Vila nesses 36 anos de existência tem contado muito. Sabemos como uma escola funciona, sabemos como fazê-la funcionar. Temos um projeto pedagógico sólido, que se reconstrói cotidianamente pelo trabalho de todos, um currículo consistente que alicerça os fazeres de professores e alunos, e temos como princípio promover e apoiar a formação contínua de nossos professores. Mas sabemos também que a escola se constrói a cada dia, e ganha sentido à medida que se constitui como comunidade de todos aqueles que dela participam.

Na Granja, temos buscado construir esse sentido em cada uma de nossas ações.

Nas situações em sala de aula, voltadas para a aprendizagem dos alunos, e que também contam com a participação, direta ou indireta, dos pais; na organização de eventos culturais pensados com cuidado e carinho para a participação de toda a família; nas reuniões de pais, que buscam apresentar a essas famílias um pouquinho de nosso trabalho; nos momentos cotidianos de entrada e saída, em que pais e professores trocam notícias; nas conversas e entrevistas individuais, que vão dando a conhecer aos pais o nosso olhar para as aprendizagens e a nossa forma de trabalhar, e de estabelecer, para cada um de nossos alunos, parcerias ricas e produtivas com as famílias.

Nossa experiência de tantos anos, construída com as duas primeiras unidades, contribuiu para que os alunos da Unidade Granja pudessem começar sua nova vida escolar imersos na cultura da Escola da Vila. O currículo, o material didático, a forma, bastante peculiar, de encaminhar o trabalho em sala de aula, e de gerir de forma respeitosa as relações entre alunos-alunos e professor-aluno se fizeram presentes desde o primeiro dia de aula da nova unidade.

Essa mesma experiência contribuiu para muito mais do que isso. Pudemos introduzir na unidade da Granja inovações que já vínhamos gestando e que vêm ganhando forma e substância ao serem implantadas. Propostas que reforçam nossas escolhas de trabalho pautadas nos valores que são a referência da Escola da Vila: autonomia, cooperação e conhecimento.

No Fundamental 1, as salas de aula, construídas com paredes removíveis, possibilitaram a organização da rotina prevendo momentos durante a semana em que alunos de séries diferentes trabalham juntos. Nesses momentos, duas salas se transformam em uma única, ampla, que comporta diversos agrupamentos, previamente pensados pelas professoras de forma a garantir a troca entre os alunos e o avanço de cada um. Essa organização, implantada no início do ano passado, possibilitou um ambiente de trabalho produtivo em que parcerias preciosas e inesperadas se formaram e contribuíram para as aprendizagens.

Também, desde o ano passado, introduzimos na rotina semanal das turmas de 4º e 5º ano momentos destinados a promover as aprendizagens de base das áreas de Matemática e Práticas de Linguagem. Nesses, os alunos dessas duas turmas são organizados em pequenos grupos de trabalho por conteúdos diferentes, sempre relativos a aspectos em que precisam avançar na compreensão.

Já no Fundamental 2, segmento que começou a ser implantado este ano, também há na grade um horário em que alunos de 6º e 7º ano se organizam, em grupos, por projetos que integram as áreas de Práticas de Linguagem e Ciências Humanas, ou Matemática e Ciências Naturais – as tutorias. Nessas aulas, o grupo de alunos conta sempre com o apoio das professoras de área e da professora-estagiária, o que garante um atendimento bem próximo a cada grupo. Essa organização foi pensada para não fragmentar o conteúdo e para apresentá-lo aos alunos da forma como é na vida real: situações reais que entrelaçam as diferentes áreas de conhecimento.

No primeiro trimestre na tutoria de Práticas de Linguagem e Ciências Humanas, os alunos escolheram para investigar temas bastante distintos e diversos: moda no século XIX; os uniformes e a moda; capoeira; futebol; as grandes invenções (avião); arte e entretenimento; o youtube. Essas pesquisas já estão sendo finalizadas.

Na tutoria de Matemática e Ciências Naturais, as investigações giraram em torno dos seguintes temas: as viagens espaciais, os eclipses, as informações do sistema solar e o lançamento de foguetes. Os resultados desse trabalho puderam ser conhecidos por toda a escola no evento do último sábado, dia 30 de abril, quando os pais, os alunos e a professora lançaram o foguete construído em sala de aula, e tiveram a chance de visitar todos os trabalhos que foram organizados pelos próprios alunos, na forma de exposição.

foguete foguete

Mas a mudança mais significativa que está acontecendo na implantação do Fundamental 2 diz respeito ao uso da tecnologia para o apoio ao trabalho em sala de aula. Iniciamos 2016 com as turmas de 6º e 7º ano, e todo o material didático está organizado em forma digital. Cada aluno tem seu computador e trabalha o tempo todo com ele, pois grande parte das propostas acontecem em meio digital. Para os alunos, esse foi um novo desafio. Havia muito a aprender, desde o cuidado com seu equipamento, passando por dominar as possibilidades de uso da agenda eletrônica, do controle das lições e das anotações de aula… As aulas das primeiras semanas foram planejadas para que aprendessem também os procedimentos de uso desse novo material. Como previmos, em pouco tempo, a grande maioria dos alunos se apropriou desses procedimentos, e essa aprendizagem seguirá acontecendo com o tempo, à medida que os estudantes forem ganhando cada vez mais familiaridade com a proposta e o material. Do ponto de vista das aprendizagens, já podemos afirmar que o material digital apresenta muito mais possibilidades de troca entre os alunos, de devolutivas específicas de trabalhos e de organização do material produzido por eles, do que a forma tradicional de organização em livros e cadernos.

Importante ressaltar que, nesse processo de mudança, o desafio que nos colocamos foi o de abraçar o digital, com todas as suas múltiplas possibilidades, muitas, sequer sonhadas nem imaginadas antes, sem deixar de lado as tecnologias tradicionais. Em nossas propostas em sala de aula, coexistem computadores, lápis, papel, lousa e todo e qualquer tipo de recurso que possibilite que os alunos aprendam sempre e cada vez melhor. Esse é um princípio que norteia o trabalho em toda a Escola e não só nessa situação específica do Fundamental 2.

Melhor do que contar ou saber sobre o que tem acontecido nesse início da nova unidade é poder participar disso tudo vivendo a cada dia a delícia de fazer parte de um projeto consistente, e que, por isso mesmo, pode se transformar e buscar novas respostas aos desafios que se colocam.

Cuidando do clima escolar e das relações interpessoais

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Por Sônia Barreira

Vivemos um momento tenso no cenário político, que vem repercutindo nas relações sociais e em todos os âmbitos coletivos. Na escola isso não é diferente.

Entre as famílias que acreditam no Projeto da Escola da Vila há posicionamentos políticos variados, que são expressos pelos filhos, de qualquer idade. Mesmo em nossa Educação Infantil já tivemos crianças entoando coros prós e contras.

De nossa parte, educadores que somos, devemos nos guiar por nossos valores éticos e educacionais, assumindo posicionamentos educativos e fundantes do projeto pedagógico desta escola. Por exemplo, a ideia de liberdade com responsabilidade e conhecimento, que resultam em autonomia intelectual e moral dos sujeitos é uma crença fundamental para nós, assim como a cooperação pela interação, que nasce do diálogo, da tolerância e do respeito mútuo. Pensamos assim, e praticamos da mesma forma.

Procuramos em nossas ações e em nossas escolhas levar os alunos ao pensamento crítico, à capacidade de solucionar problemas, à criação de novas proposições e à compreensão das complexidades dos diversos campos de estudo. Nosso processo pedagógico inclui: investigar, compreender, dialogar, confrontar e construir conhecimentos.

A cada etapa da escolaridade procuramos alimentar a reflexão e o estudo, para que as crianças e os jovens possam formar seus pontos de vista, elaborar hipóteses e construir paulatinamente suas convicções.

Não assumimos posicionamentos partidários, e orientamos os professores a, nos temas em que a sociedade não encontra consenso, que problematizem as certezas mais do que ofereçam posições prontas e fechadas.

A Escola esclarece que não censura ou proíbe nenhum posicionamento de seus alunos. Nosso trabalho diário vai no sentido contrário: o de garantir que os alunos expressem seus modos distintos de pensar em relação a qualquer tema, e que sejam ouvidos e respeitados para que se sintam bem no seu dia a dia em nossa instituição.

Esperamos que as famílias que optaram por nosso projeto pedagógico para a formação de seus filhos confiem naquilo que fazemos, com a convicção de que, quando erramos, assumimos o erro, tentando sempre ser transparentes, intelectual e tecnicamente, com honestidade e eficiência.

Deste modo, nessa fase complicada em que se encontra o país, temos tentado diariamente garantir a voz a todos, e sempre cuidar do respeito, da interlocução e da proteção ao bem-estar de nossos alunos e funcionários.

Para finalizar, é preciso reafirmar que nosso projeto pedagógico é conhecido, transparente e aberto ao diálogo. Entendemos que nossas convicções pedagógicas não são sempre partilhadas por todos, e respeitamos isso, mas não abriremos mão da metodologia e do trabalho arduamente construído por 36 anos de pesquisa e estudos, e amplamente reconhecido pela comunidade educativa do país.

Recomendamos um texto para leitura e um vídeo, que podem contribuir para a reflexão de todos aqueles que estão preocupados com as tensões e os antagonismos presentes em todos os ambientes sociais.

Por fim, se vivemos em tempos de muita celeridade de informações − imagens e atitudes −, mais do que nunca é preciso moderar expressões impulsivas que possam solapar a reflexão, tão necessária neste momento, especialmente em se tratando de crianças e de adolescentes.

O que você vai ser quando crescer?

27_4_2016

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Por Susane Lancman

Essa pergunta acompanha muitas fases do desenvolvimento infantil, e nem sempre é desprovida de tensão.

É comum no meio adulto questionar os pequenos humanos sobre a escolha profissional e achar graça dessas escolhas, seja porque fazem parte do mundo imaginativo de profissões: “Vou cuidar de dinossauros”, seja porque mostra aptidões recém-adquiridas: “Serei um grande chef” ou, ainda, porque demonstram a falta de repertório em relação ao assunto: “Ora, quando crescer, serei grande”.

Na medida em que os pequenos seres crescem, chegando ao final da escolaridade obrigatória, essa pergunta traz muita ansiedade, não sendo mais motivo de risadas familiares. Muitas vezes, passa a ser o grande tema de conversa entre os jovens e seus pais. Os primeiros, tentando saber do que realmente gostam, se dando conta de que nem sempre possuem autoconhecimento suficiente para tal decisão, e sofrendo ao perceberem que escolher significará abandonar outras opções. E os pais, querendo ajudar nessa escolha, com sua experiência de vida, seus conhecimentos e dados da realidade profissional para que a escolha seja a mais acertada possível.

Nem todos têm facilidade para uma escolha imediata. Assim, na Escola da Vila fazemos algumas atividades que podem ajudar nesse processo: leitura de textos de ex-alunos contando sobre suas opções na carreira acadêmica, encontros com ex-alunos, com professores de diferentes universidades, estágio em diferentes locais de trabalho, e encontros com a orientação da escolha da carreira acadêmica (OECA).

Esses encontros OECA acontecem no período da tarde, e são opcionais. Em cada grupo participam, em média, nove alunos. São promovidos cinco encontros, com atividades que ajudam no autoconhecimento, na ampliação das opções de carreiras acadêmicas, no conhecimento de diferentes cursos e universidades.

Leiam a seguir alguns trechos de depoimentos de alunos que participaram do grupo OECA nos meses de março e abril, e, por fim, o relato da aluna Bruna contando sobre o seu processo de escolha da carreira acadêmica.

[...] o que mais valeu a pena no OECA foram as informações que adquiri em relação às faculdades que têm o curso que quero, até porque já sabia o que queria cursar… Além disso, me ajudou a descobrir mais sobre a minha personalidade e as coisas que são de fato importantes para mim.”
Vitor Pereira

“Mesmo sem ter me decidido, penso que foi uma boa experiência o OECA para pensar sobre o assunto, me ajudando a excluir algumas opções e ampliar outros horizontes…” Renato Silva

Acredito que minha experiência foi muito positiva, pois me ajudou a me conhecer melhor, me fez pensar sobre o que quero fazer e o que gosto de fazer. Foi muito interessante ter um momento na semana para conversar sobre as possibilidades e ouvir outras pessoas que estão na mesma situação…”
Anita Meyer

“O fato de o grupo ser pequeno proporciona um ambiente seguro para compartilhar angústias, dúvidas e decisões…”
Sofia Púlice

“[...] sobre a minha escolha de curso universitário continuou a mesma que já tinha pensado antes do OECA e me sinto satisfeita, porém não muito com o futuro profissional que esse curso pode me proporcionar no que se refere a salário.”
Sofia Galvão

“[...] estava em dúvida entre engenharia e medicina. No decorrer dos encontros fui conhecendo mais sobre mim mesmo, procurando cursos que se aproximassem da minha personalidade, e acredito que encontrei: engenharia biomédica…”
João Oliveira

“Sempre pensei em diversas carreiras desde criança, sendo muito plural em meus gostos… No OECA não aconteceu um ‘descobrimento’, mas sim uma revelação de mim mesma. Minha opção para o vestibular é Matemática aplicada…”
Juliana Akemi Rodrigues

Processo para responder à pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. 

Por Bruna Costriuba Grisotti de Maria

Quando eu era pequena, amava meus bichos de pelúcia como nunca amei nada na vida. Meu fascínio pelos animais sempre se focou em lagartos, cobras e dragões, ou seja, todos eles com escamas. Entre meus 5 e12 anos de idade me diziam, então, que eu poderia ser paleontóloga. Uma vez, entretanto, um parente meu me disse que quando crescesse todos os dinossauros já teriam sido descobertos. Acho que foi por aí que desisti da ideia.

Os anos seguintes foram puramente de indecisão. Nunca sabia responder ao que diabos eu queria fazer da faculdade, ou com o que queria trabalhar. Uma certeza eu tinha: nada que envolvesse humanas. Assim que descobri que paleontólogos usavam geografia para achar os dinossauros e todos os outros fósseis, fiquei extremamente agradecida a meu parente que havia me desencorajado. Geografia e História não são para mim.

Aos poucos, fui vendo minha já tão descoberta paixão e facilidade para matemática, ser passada para Ciências Naturais, como chamávamos as matérias Física, Química e Biologia no Fundamental 2. No nono ano, então, enquanto as pessoas me davam parabéns pela formatura, me perguntavam o que eu queria prestar na faculdade. Eu respondia com um sorriso tímido no rosto: “Engenharia”.

Descobri que engenharia era bem mais complexa do que eu imaginava. Não se limitava a circuitos ou a simplesmente carros. Havia tantas engenharias diferentes que eu não sabia escolher nenhuma, e muitas eu nem sabia para o que serviam. Até hoje não sei. Mas já ia eliminando algumas delas simplesmente pelos nomes. Engenharia Mecânica eu associava com carros e máquinas de fábricas, e logo risquei de minha lista. Engenharia Elétrica era uma opção. Mas sempre havia uma tal de “Engenharia Mecatrônica”, que sempre me trouxe curiosidade. Então, fui trocar ideia sobre engenharias diversas com um amigo da FEI. Ele me explicou mais ou menos como era a mecatrônica e como era a elétrica e a mecânica. E eu pensei: “parece legal, vou fazer engenharia mecatrônica”.

Deixei a minha recém-descoberta paixão pelas matérias biológicas de lado, até que comecei a me fascinar pelo corpo humano, tanto física quanto mentalmente. E, embora ainda me divertisse com matemática e física, eram as aulas de biologia que me faziam querer deixar minha cama e ir para a escola. Aos poucos, busquei relacionar engenharia e corpo humano, e pensei logo em próteses. Minha ideia então era fazer Mecatrônica, e depois fazer um curso de biologia estrutural, e juntar o melhor dos dois mundos.

Com essa nova ideia em mente, eu já não respondia mais Mecatrônica com o mesmo sorriso de antes. Acho que, na verdade, nunca gostei de mecatrônica, apenas me apeguei a um curso que me interessasse, pouco pensando no futuro. Nunca, entretanto, havia sentado um dia e olhado para as opções de cursos na minha frente. Apenas aceitei algo que parecia legal. Com o OECA (orientação da escolha da carreira acadêmica), tudo mudou. Em uma das primeiras aulas precisávamos falar sobre nossas vidas e sobre nossos interesses, e, timidamente, comentei que uma de minhas ideias era produzir próteses. A Susane então me respondeu que havia um curso novo, que poucas faculdades tinham, mas que podia me interessar. Uma tal de “Engenharia Biomédica”.

Não botei fé, assim como nunca aceito facilmente o que os outros falam. Mas um dia resolvi me dar uma chance, e fui ao computador para tentar descobrir que diabos era essa engenharia. E eu simplesmente me apaixonei pelo curso! Nunca havia sentido uma vontade tão grande de entrar na faculdade, ou me senti tão feliz em pensar: “Vou fazer Engenharia Biomédica”, pensamento e sentimento que nem sequer passavam em minha mente quando a Mecatrônica dominava minha cabeça.

Ainda estou no fim do primeiro trimestre do terceiro ano do Ensino Médio, mas já me sinto animada e pronta para começar a prestar os vestibulares e me dedicar aos estudos para entrar em faculdades. Pois agora tenho um objetivo, uma vontade de chegar a algum lugar, com uma alegria e ansiedade que apenas quem descobre o curso certo pode sentir.

A Cultura Popular Brasileira como eixo de trabalho do Complementar da Granja

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Por Diogo Silva de Sousa e Joana Sampaio Primo 

Cavalo-marinho, Dança dos arcos, Danças circulares, Maracatu, Bumba meu boi e Boitatá são alguns dos movimentos e histórias da Cultura Popular Brasileira que o Complementar do Fundamental 1, unidade Granja, está pesquisando e que orientará o trabalho com as crianças.

Pautado na premissa de construir um espaço que ofereça maior tempo e dedicação à ampliação da formação cultural na escola, o Período Complementar organiza sua rotina compreendendo, além das diversas atividades de convivência social (lanche, almoço, lição de casa e procedimentos de estudo), diferentes momentos de interação que possibilitem o alargamento de conhecimentos das linguagens artísticas e culturais.

Os projetos de longo prazo orientam o planejamento de nossa rotina, de forma que esta fique organizada em etapas: primeiramente, as crianças dispõem de tempo para mergulhar na pesquisa da Cultura Popular, espaço próprio ao Complementar, em que elas vivenciam o contexto cultural das manifestações a partir da culinária local, das fantasias, das músicas e danças; num segundo momento, essa pesquisa ganhará mais foco, de acordo com as opções do grupo para, finalmente, tomar corpo em uma apresentação criada por elas e orientada pelo professor.

De maneira geral, no Complementar do Fundamental I da Granja queremos garantir que as crianças tenham contato prático e palpável com a pesquisa, orientadas por três princípios de triangularidade de Ana Mae Barbosa, fundamentais para a aprendizagem: a apreciação, a contextualização e a vivência. Tais princípios aproximam nossos alunos de outras formas de viver e estar no mundo, e ampliam o repertório delas de conhecimentos em história e tradição brasileira. O saldo disso tudo é que as crianças ficam “experts” em Cultura Popular!

Ademais, como o nosso Complementar recebe crianças de diferentes faixas etárias, as propostas oferecidas as desafiam em suas habilidades corporais, cognitivas, e na convivência com amigos de diferentes faixas etárias. Esse convívio interidades abre espaço para que os alunos mostrem o que sabem fazer muito bem e para que aprendam com outros colegas compartilhando seus saberes.

A rotina do Complementar configura-se como um espaço de muitos desafios e atividades, pois precisa dar conta das práticas rotineiras − como as refeições e a lição de casa −, dos projetos de estudo da Cultura Popular, do projeto de corpo e movimento, das oficinas com especialistas − arte e tecnologia, teatro, teatro de sombras e bonecas, capoeira e música − e do convívio com crianças de idades diferentes.  Assim, esse espaço é mais um desafio para a nossa Escola, que vem garantindo a aprendizagem das crianças em diferentes e múltiplos âmbitos!

Mães e pais: precisamos conversar sobre o WhatsApp

Por Fernanda Flores 

Há 7 anos, esse aplicativo adentrou em nossa vida digital e, de lá para cá, passou a ser uma opção imediata na criação de contatos, sendo inevitável que qualquer pessoa que o utilize seja colocada compulsoriamente em algum grupo ou seja criadora de um ela mesma, com a finalidade de ter notícias da família, conectar-se rapidamente com filhos, colegas de trabalho, grupos de amigos e, por que não, com os pais e as mães da mesma turma de seu(sua) filho(a) na escola.

A tecnologia facilita algumas relações, e ferramentas como o whatsapp permitem que grupos conversem de forma privada sobre os mais variados assuntos. No entanto, tais grupos possuem diferentes objetivos, e a clareza desses objetivos e limites é objeto da reflexão que propomos a seguir.

Como todo tema difícil, precisamos assumir o desafio de enfrentá-lo e entendemos que uma boa conversa e o esclarecimento de como a Escola vem interpretando o fenômeno “conversas entre pais nos grupos de whatsapp” se torna necessária e urgente.

Em nossa escola, a maioria dos pais participa de grupos assim para trocar informações relacionadas ao dia a dia das crianças. Entendemos que esse canal ajuda muito a tratar rapidamente de assuntos corriqueiros que envolvem toda sorte de combinados, os quais podem vir a fortalecer as relações de convívio e permitem divulgar e promover programas culturais entre as crianças, bem como facilitam a organização de rodízios e caronas, comunicam festas e aniversários, divulgam ações comunitárias, alertam para adoecimentos contagiosos (e que já foram comunicados pelos pais e responsáveis à escola, ufa!), enfim, que, de fato, promovam uma aproximação e uma cultura colaborativa entre as famílias.

Esse é o aspecto que vemos como mais positivo desses grupos: ampliaram as rodas das portas da escola e incluíram aqueles que não dão conta de levar e buscar seus filhos todos os dias. Mas em que medida aparecem, também, temas que geram desconforto entre os participantes dos grupos de whatsapp, assuntos que promovem desavenças e interpretações precipitadas de fenômenos inerentes ao cotidiano escolar?

Vivemos muitas situações nas quais a escola é informada indiretamente sobre cenas do cotidiano distorcidas, parcialmente analisadas, com uma lupa sobre ações de crianças e/ou professores, nas quais, via de regra, há estigmatizações, prejulgamentos superficiais e, muitas vezes, deixando de lado o principal interessado em esclarecer qualquer ocorrido, a coitada da escola! À escola resta, nessas circunstâncias, realizar um conjunto de ações que visem comunicar e esclarecer encaminhamentos que deveriam fazer parte da confiança básica dos familiares em relação aos profissionais.

18_4_2016_3Uma criança que agride não é, necessariamente, uma ameaça; um objeto que desaparece não é, necessariamente, resultado de um furto; um adulto que fica bravo não foi, obrigatoriamente, inadequado; uma frase tirada do contexto (coisa comum para uma criança que relata uma cena em casa) não quer dizer, literalmente, o que foi dito; uma família desorganizada temporariamente não deixa de amar e cuidar de seus filhos; uma provocação infantil não é sempre bullying. Precisamos ponderar, e quem pode fazer isso, com toda a propriedade, são os profissionais da escola escolhida pelas famílias para acolherem seus filhos!

Há também outras situações igualmente embaraçosas nas quais surgem desrespeito entre pais, mães, responsáveis, com escritas que acuam, constrangem, julgam ou reprimem condutas, nem sempre conhecidas devidamente. A expressão desses julgamentos efêmeros ganha concretude escrita, ao contrário das palavras orais que se esvaem e são esquecidas. Indisposições e eventualmente inimizades são criadas desnecessariamente.

E eis em cena algo que conversamos imensamente com nossos estudantes, sejam da EI, do F1, do F2 ou do Médio: determinadas conversas, determinados assuntos DEVEM ser tratados face a face, pessoalmente, mediados por olhar, tom de voz, gestos e com o equilíbrio necessário quando enfrentamos contendas comuns à vida na coletividade.

Ficamos, como comunidade de educadores, perplexos com a manifestação de falta de tolerância e de disponibilidade para o outro, o diferente, temas tão caros para a escola, valores que passamos anos a forjar na formação integral de nossos alunos e alunas.

Como disse Paula Sibilia, em recente palestra na escola, os muros e as paredes não são suficientes mais para cercearem e definirem os contextos, pois eles são invadidos por aqueles que lá não estão.

18_4_2016_1Observamos situações nas quais mães e pais interferem na construção de responsabilidades próprias do estudante, pedindo aos pais dos colegas cópias das lições de casa que seus filhos não anotaram, conferindo orientações de estudos, revisando provas, comentando questões e consignas dos trabalhos, ações todas voltadas para resolver problemas que deveriam ser dos alunos. Ou seja: aos olhos da escola, retiram desafios fundamentais para seus filhos na busca de evitarem frustrações e situações que podem ser profundamente educativas para o futuro dos mesmos. Como irão esses jovens, tutorados pelos pais, assumir suas responsabilidades atuais e futuras se lhes roubamos a oportunidade de aprender?

Assim, assumimos, com todos os riscos aqui envolvidos, a tentativa de deixar-lhes recomendações para que os grupos de whatsapp entre pais e mães caminhem com tranquilidade, respeito mútuo e amabilidade frente a temas desafiadores:

Ponderar: é esperado que alguns pais se angustiem mais que outros frente a algumas situações. Assim, vale a experiência e os comentários de quem já viveu situações análogas e sempre pode contribuir. Forma-se, então, uma rede que se autorregula e se ajuda nos desafios esperados ao longo do crescimento num grupo de convívio escolar.

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Compreender: que os membros do grupo pensam de formas diferentes e têm distintos graus de intimidade, ou seja, lidam de forma mais ou menos reservada, a depender do assunto e da forma como ele é apresentado.

Endereçar: atuar no grupo de forma a dimensionar a necessidade de remeter à escola quando as questões precisam ser tratadas pela orientação e somente encontram razão de ser se abordadas na escola e pela escola.

Dialogar: lembrar sempre que o diálogo, seja em redes sociais ou pessoalmente, é uma via de mão dupla, em que cada um tem o direito de colocar suas ideias nos limites do direito do outro, cuidando da linguagem e demonstrando o respeito que todos merecemos.

E, para finalizar, entendemos que a reflexão e a transparência sobre os alcances dessa ferramenta como mediadora de temas complexos entre pais e escola tende a amadurecer na comunidade escolar.

Escrever em provas

15_4_2016

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Por Fermín Damirdjian

“Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos torvos conquistadores… Andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, em busca de batatas, chouriços, feijões, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele voraz apetite que nunca mais se viu no mundo… Tudo engoliam, juntamente com as religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que traziam em seus alforjes… Por onde passavam deixavam a terra arrasada… Mas os bárbaros deixavam das botas, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que ficaram aqui, resplandecentes… o idioma.
Saímos perdendo… 
Saímos ganhando… Eles levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e deixaram-nos tudo… Deixaram-nos as palavras.”

Pablo Neruda, “Confesso que vivi” 

Neste trecho de sua autobiografia, Pablo Neruda descreve lindamente aquilo que praticamos em nossa rotina: reproduzimos, modificamos e mantemos vivos os fonemas herdados da mãe, da família, da música, das leituras, da cultura enfim. A palavra, além de utilizada desde a tenra infância, permeia vivências diversas, raramente se ausenta. Dificilmente a psicologia – ou, ao menos, a psicanálise – conseguiria erigir um saber sem discorrer sobre as marcas deixadas por essas representações gráficas e fonéticas no universo social e subjetivo – justamente porque são o mais perfeito amálgama entre essas dimensões.

Na escola, não é diferente. Representação plena de nossa cultura e sua diversidade, essa instituição utiliza vídeos, trabalhos de campo, vivências coletivas e individuais, sem nunca abandonar a palavra. Ora como símbolo de confiança entre alunos e educadores, ora como recurso elementar em aulas dialogadas ou expositivas, o formato escolar faz uso direto desse saber que confere a nossa humanidade.

Há, no entanto, uma estranha frase que emerge, em claras palavras, e que se repete ao longo do tempo, quando um aluno não encontra em seu desempenho escolar uma correspondência com aquilo que ele entende por dominar um conteúdo: “Não é que eu não saiba a matéria. Eu estou sabendo, mas na hora de botar no papel, eu não consigo”. Essa situação merece uma análise.

Tempos atrás, li um artigo na revista Nova Escola que contava ser perfeitamente possível que alguém soubesse algo, mas não conseguisse colocá-lo em palavras. Por grande infortúnio deste que escreve, guardei o artigo em algum lugar bem separado, longe dos papéis que vivem se embaralhando pelos ventos cotidianos que varrem a paisagem por tormentas laborais, familiares e demais ataques à tentativa de pôr ordem na vida. Como dizia a personagem Mafalda: “O urgente não deixa tempo para o importante”. E assim foi que, mais cedo ou mais tarde, perdi esse artigo diante de alguma urgência, e nunca mais o encontrei. Fico devendo-o ao leitor.

Nesse bendito texto, o autor argumentava que há vivências que não conseguimos descrever em palavras, mas que temos clareza sobre o que sentimos naquelas situações. Um filme, dizia ele, pode até ser descrito em palavras, mas dificilmente essa descrição pode transmitir o que o espectador viveu ao assistir a ele. Eu ainda completaria esse argumento com o exemplo de um sonho. É comum sentirmos que, ao contar um sonho ainda recente e nítido em nossa memória, ele se torna raso com as palavras que encontramos para transformá-lo em um relato. Sonhos costumam ter uma atmosfera muito particular, com muitas indefinições e ambivalências. Nada disso impede que tenhamos clareza sobre ele. No entanto, relatar um sonho com fidelidade é uma tarefa bastante árdua. Outro exemplo da dificuldade em colocar coisas em palavras pode ocorrer quando alguém conhece bem o seu ofício, mas tem grande dificuldade em falar sobre ele. Uma pessoa pode saber arar a terra muito bem, ou consertar o motor de um carro, e não conseguir explicar um procedimento típico de seu ofício, sem que isso não signifique que ele ignore seus atributos nesse quesito.

É possível que isso também ocorra nas atividades escolares? Não é raro que, quando um pai vai buscar seu filho no retorno de um trabalho de campo, já no carro surgir a pergunta: “Como foi?”. Qual a resposta mais frequente? O viajante recém-chegado não consegue avançar muito além do “Legal!”. Eventualmente, os progenitores conseguem ser agraciados com um “Foi muito show.” Os mais verborrágicos avançam para um “Você não tem noção”. E a verdade é que não se poderia esperar muita coisa, pois não podemos esquecer que a pergunta também é muito genérica, certo? O resultado da viagem chega aos poucos, em palavras que vão se deixando cair nos dias e nas semanas subsequentes, no almoço de família, no elevador, parando no supermercado e, de, acordo com nosso estilo de vida, em outras viagens de carro.

É preciso certo tempo de elaboração para ir nomeando aquela confusão de vivências. Naquele trajeto entre a escola e a sua casa, os sabores da convivência com os amigos, os lugares visitados no trabalho de campo, os conceitos revistos pelo professor e as percepções dos próprios alunos ainda se encontram todos misturados. Porém, ao longo do tempo e com muito auxílio da escola, os alunos vão decifrando o que ocorreu naqueles dias. Há um trabalho proposital em que se volta a nomear e a conceitualizar tudo o que ali fora visto.

Saindo agora desse exemplo, e partindo para um texto que é apresentado em sala de aula, com uma leitura cuidadosa e lenta comandada pelo professor, ou de uma experiência em laboratório para a qual os alunos foram preparados ao longo de algumas aulas, vamos nos distanciando ainda mais da dificuldade de transpor para o papel aquilo que concebemos simplesmente como uma vivência de âmbito subjetivo. Há um trabalho verbal para decifrar textos, filmes, vivências ou exposições teóricas de toda sorte. No momento de uma prova, o que se pede ao aluno é que ele reproduza, com as devidas articulação e profundidade, conteúdos que foram introduzidos e revistos não como uma avalanche onírica, mas sim com certa parcimônia pedagógica.

Diante de uma prova trimestral, o aluno precisa se submeter a uma estrutura que o obriga a oferecer diversos recortes sobre um determinado assunto. Por isso ele precisa também se restringir ao espaço que ali está determinado para a resposta, e não mais. Há casos em que o aluno quer ultrapassar aquele espaço de escrita. Mas para esse excedente, provavelmente haverá outra pergunta, e assim vão sendo contemplados os conteúdos dados no trimestre. Estes, a rigor, são mais do que fatores a serem reproduzidos. O conjunto de perguntas, se bem respondidas, contempla a totalidade daquilo que os professores querem que os alunos de fato saibam. E esse saber passa por conseguir redigir. Nada daquilo foi exposto por outra via que não tenha sido pela palavra. Mesmo com trabalhos de campo, vídeos, músicas, seminários audiovisuais, as análises foram feitas por textos e por aulas, expositivas e dialogadas. Forma e conteúdo, assim, são absolutamente indissociáveis.

Ao contrário de um sonho, do conserto de um carro ou de arar a terra, a atividade acadêmica se constitui de reflexões e experiências que passam pela palavra. A didática se ocupa de fazer com que o aluno consiga expressar por esse meio os conteúdos trabalhados. Ainda assim, um sonho, mesmo não submetido a qualquer pedagogia, não é algo indescritível, embora isso seja para poucos. Assim como pode ser contada toda uma vida em uma única e primorosa obra. É o que fazem poetas e grandes escritores. Mas isso já é outra história.