Amigos, colegas, conhecidos, populares: reflexões sobre categorias transitórias da adolescência

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian

A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.
Platão

Yo diría que el amor no puede prescindir de la amistad. Si el amor prescinde de la amistad es una forma de locura. Una especie de frenesí, un error, en suma.
Jorge Luis Borges

E sei que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior?
Caetano Veloso

Seria necessário um compêndio de citações para nos aproximarmos de alguma definição sobre a amizade. Não é exatamente o que se pretende aqui. Ocorre, no entanto, que, em plena adolescência, garotos e garotas parecem se perguntar sobre esse tema tanto quanto poetas e escritores dos mais diversos lugares e momentos históricos. Em uma escola, costumamos dizer aos alunos que há amigos com os quais podemos contar para nos divertir, e outros com os quais podemos trabalhar e estudar em sala de aula. Eles nos olham como se os adultos nada soubessem a respeito da amizade. Como posso estabelecer categorias do tipo “trabalhar” e “estudar” quando penso na minha vida afetiva? Adolescentes podem não ter a perspectiva de tempo que ganhamos com o passar dos anos, mas não lhes falta consistência aos questionamentos que nos apresentam na sala da orientação educacional.

Os elos encontrados entre adolescentes são de uma força sem precedentes. Vemos amigos que não se desgrudam; uma necessidade infinda de estar fisicamente próximos, em sala de aula, na volta da escola, no fim de semana. Por outro lado, estão aqueles marcados por não terem companhias com essa força (garotos e garotas que não são influentes no grupo). E todas as variações existem em um mosaico social que nunca termina de se definir.

É comum ouvirmos uma menina “superpopular” nos dizer que sabe que está sempre rodeada de gente, mas que descobre não ter nenhum amigo ou amiga de verdade. Um conflito se apossa de um sujeito; que, ainda assim, se nega a abandonar seu papel nessa nau de loucos que parece ser uma turma de amigos nessa faixa etária.

O fato é que há certas coisas na adolescência que, embora possam ir se acomodando no lodo mnemônico algumas décadas depois, certamente deram as bases para estruturar nossas relações humanas ao longo da vida. As experiências da adolescência podem não ser todas determinantes, mas certamente dão os rumos do barco por muito tempo.

Entre os 15 e os 18 anos, ao longo do Ensino Médio, os grupos se reacomodam na mesma velocidade das transformações físicas e emocionais dos alunos. Muitos deles apresentam um personagem a cada ano, e com ele muda seu entorno social mais próximo. Preferências estéticas, sexuais, musicais, ideológicas, podem acontecer, ao mesmo tempo em que transitam por um mosaico de conformações grupais variadas.

Ocorre que, em torno de todos eles, há adultos olhando, muitas vezes com um certo ar de preocupação. Essa circulação entre os vínculos sociais ilustra também outras indefinições da faixa etária, que normalmente incomodam os pais, tendo como “carro-chefe” a escolha profissional com a “instituição-alvo”, já bem clara e escolhida. Com a mesma necessidade de saber “o que você vai prestar?”, os pais também se questionam quando é que o filho ou a filha vai se definir como sujeito. A que grupo vai pertencer? Por quanto tempo vai negar os estudos? Quando vai optar entre a banda e a carreira universitária? Quando vai pensar em algo além de futebol? Vai sempre andar com a turma que apronta no fim de semana? Ou ainda: por que ele nunca sai no sábado à noite? Ela está aflita demais com o vestibular? Ele está numa fase difícil ou é tímido mesmo? Ele é do tipo que tem poucos amigos ou se sente fracassado por não pertencer a uma turma mais numerosa e barulhenta?

Não podemos, porém, esquecermo-nos de que essa tortuosa trajetória é mais que necessária para estabelecer identidades duradouras. É uma experimentação que dá vida às escolhas pessoais, ao tipo de indivíduo que se forma a partir do contato com tão variados ambientes.

Pode parecer um trânsito superficial, por ser, muitas vezes, tão veloz, mas se esperamos alguma consistência no caráter, ou em escolhas pessoais, é preciso tempo de maturação. Não raro os pais se preocupam, com total legitimidade, com seus filhos, por estarem estes tão indefinidos. Mas também é preciso reconhecer que nós, adultos, também parecemos um tanto imediatistas, por querermos que um indivíduo configure um caráter tão sólido e com sentimentos tão profundos em tão pouco tempo.


Reedição de post publicado em agosto de 2012.

Fazer artístico na matemática: criações de alunos do 7º ano em software de geometria dinâmica

-Escola da Vila

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Por Kalil Hussein Charanek

Com o intuito de inserir a tecnologia em nossa prática pedagógica, os alunos dos 7os anos estudam uma sequência de geometria inteiramente realizada no software de geometria dinâmica GeoGebra. O uso dessa potente ferramenta exige que os alunos realizem construções geométricas virtuais, como se estivessem com papel, lápis e instrumentos geométricos em mãos. Entre as várias vantagens do uso do aplicativo em sala de aula estão:

• Ressignificar o estudo dos conceitos de reta, segmento de reta, círculo, circunferência, ponto médio, paralelismo, perpendicularismo, polígonos, além de explorar funções ainda não abordadas em aula, como a reflexão, elipse etc.

• Reforçar a necessidade da utilização das propriedades geométricas das figuras na hora da construção, já que é possível, no GeoGebra, movimentá-las para verificar se as propriedades se mantém ou se as construções se desfazem com a movimentação. Se as figuras não são construídas a partir das propriedades geométricas, como paralelismo, perpendicularidade, circunferência como o lugar geométrico que dista o mesmo de um ponto central, etc,  ao serem movimentadas, as figuras se desmancham. Essa é uma das potências dessa ferramenta tecnológica, que permite trabalhar com o conteúdo matemático desejado e possibilita que os alunos tenham um feedback da própria ferramenta em relação ao domínio do conteúdo estudado.

• Trabalhar com a criatividade dos alunos e sua capacidade de explorar e inovar quando se trata de ferramentas tecnológicas.

Assista ao vídeo, com as criações em geometria dinâmica feitas pelos alunos dos 7os anos da unidade Morumbi, durante as três últimas semanas de agosto, além de alguns depoimentos que explicam um pouco mais sobre o funcionamento desse software. Ao explicar como realizaram a figura e seus movimentos, é preciso que os alunos evoquem os conteúdos matemáticos estudados de forma relacionada e com sentido, além de favorecer o uso de vocabulário específico e adequado em um contexto que lhe dá significado.

O coletivo e o conhecimento

Escola da Vila

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Por Clarice Gil Barreira Camargo

Pois o que é próprio do homem não é tanto o
mero aprender, mas o aprender com outros
homens, ou ser ensinado por eles.
(Fernando Savater, O valor de educar, p. 39)

Historicamente, a escola, como instituição de ensino coletivo, surge da demanda social de educar um grande número de pessoas de uma só vez.

Em nossa visão, a maior vantagem de nos reunirmos em grupos não está relacionada à praticidade ou produtividade, mas a um aspecto determinante para a aprendizagem humana, e que Savater está ressaltando no trecho acima: a possibilidade de interagir com o outro e assim aprender mais e melhor.

Uma das mais importantes finalidades da educação não é apenas promover a aprendizagem de certos conteúdos, mas garantir que os alunos dominem os meios necessários para continuar seus processos de aprendizagem por toda a vida. Para isso, é essencial que esses alunos desenvolvam as competências necessárias para estudar e, por isso, diariamente, se reúnem com os colegas de classe para ler, discutir, pesquisar, resolver problemas, entre outros, a partir da orientação e supervisão de um adulto, o professor.

Porém, se o objetivo é desenvolver a autonomia no processo de aprendizagem, é necessário que saibam estudar também sem uma tutela externa, tomando decisões a respeito de seus próprios caminhos, de forma consciente e produtiva.

Essa autonomia não se produz como um mero efeito da passagem de tempo na escola, ela deve ser desenvolvida por meio de um trabalho pedagógico intencional, e aqui chegamos ao assunto principal deste texto. São muitas as propostas que fazemos ao longo da escolaridade para favorecer o desenvolvimento da autonomia nos mais diversos âmbitos, em especial no que diz respeito ao estudo. Como uma das propostas deste ano, para os alunos do 8o ano, organizamos grupos de estudos na semana de provas trimestrais. Elegemos duas matérias e convidamos os alunos para se reunirem na escola e estudarem com os colegas, duas tardes da semana.

Qual é o objetivo desse grupo?

Os alunos se inscrevem com o objetivo de estudar para a prova trimestral que se aproxima, mas como quase todas as situações de ensino/aprendizagem desenvolvidas na escola, o nosso objetivo vai um pouco além. Queremos, assim como eles, promover um momento de estudo que colabore para a aprendizagem de um conteúdo, mas também que o próprio estudo seja um conteúdo. Queremos que nossos alunos aprendam a estudar.

E como funcionam os grupos de estudo?

Se estamos tratando o estudo como conteúdo e objetivamos desenvolver a autonomia dos alunos, é importante que esse espaço seja essencialmente gerido por eles. A qualidade do estudo, dessa forma, depende da qualidade da preparação e da organização deles. Por essa razão, não é possível participar do grupo sem trazer o material completo, sem antecipar parte do trabalho identificando suas dúvidas, preparando resumos, realizando a OE entregue pelo professor etc. Não há, ali, um adulto que vai ensinar a matéria, fazer uma revisão ou oferecer novos materiais. A equipe de orientação os acompanha e apoia em caso de necessidade, mas são os próprios alunos que gerem seu estudo.

No início do encontro levantamos temas que podem ser escolhidos como foco. Cada um avalia sua própria necessidade e se inscreve no grupo de um dos temas. Os grupos devem planejar como vão desenvolver o estudo e desenvolvê-lo.

E o resultado?

Ninguém melhor do que os próprios alunos para nos dizerem quais as vantagens e desvantagens dessa proposta. E aqui vale ressaltar: nos interessa saber o que eles pensam, porque nos interessa que eles reflitam sobre as experiências. Além de aproveitar ou não desses momentos de estudo, queremos que eles saibam analisar se aproveitaram ou não, o porquê, e queremos que eles possam, inclusive, decidir se o estudo em grupo funciona para eles ou não.

Como vantagem mais evidente do trabalho coletivo, os alunos identificam a possibilidade de tirar dúvidas com os colegas e compartilhar conhecimentos. Mas, além disso, os alunos percebem, por exemplo, que estar com o outro contribui para maior tomada de consciência a respeito de seu próprio saber. Você já se viu na situação de saber algo e quando lhe pedem para explicar a coisa se complica? Ter um interlocutor contribui para descobrirmos o quanto estamos preparados para falar, expor, discutir, analisar um assunto, coisa que o estudo sozinho não permite.

Por outro lado, estudar em grupo pode ser desafiador, em especial para alunos mais novos, porque estão entre amigos, e muitas vezes se dispersam. Desenvolver autocontrole em relação a isso, conseguir manter o foco, ser capaz de dirigir um grupo para que funcione bem são habilidades importantes de se desenvolver, e isso só é possível tentando e errando.

Veja abaixo alguns depoimentos dos participantes:

Ganhando maior experiência e autonomia, nossa expectativa é a de que os alunos passem a se programar para estudar em grupo, independentemente desse espaço. Que possam se reunir na casa de alguém, na biblioteca da escola ou mesmo por Skype, como já fazem muitos dos alunos de 9o ano. E que nesse processo eles aprendam muito sobre ciências naturais, matemática, língua portuguesa, geografia ou história, mas aprendam muito também sobre aprender.

Amizades na primeira infância

Escola da Vila

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Por Daniela Munerato

A amizade é um tesouro que descobrimos ao longo da vida. Em cada fase do desenvolvimento humano ela acontece com contornos e intensidades diferentes. Portanto, entender como ela se dá pode ser bem interessante para percebermos que a experiência infantil de amizade costuma ser bem diferente em relação ao que os adultos interpretam ou atribuem à mesma.

Nesse sentido, partiremos da seguinte afirmação: a amizade é um processo que envolve o descentrar-se de si. As crianças bem pequenas experimentam as relações de convívio para satisfazer seus próprios desejos e ficam contentes quando alcançam seus objetivos imediatos. Isto posto, podemos dizer que tudo começa com a interação mediada (quer pelo objeto, quer por um terceiro), favorecedora da formação de vínculos, da observação das compatibilidades, do descobrir-se pelos olhos dos outros e do desejo da companhia de alguém na concretização de uma ideia, de uma brincadeira.

Pela preciosidade e singularidade deste tema, não é à toa que existem tantos livros e letras de músicas que nos fazem pensar sobre esta relação, porque para cada um terá significados diferentes. Algo para sempre? Não necessariamente, mas há memórias importantes reveladas nas histórias para contar: engraçadas, de muita cumplicidade ou de aprendizado diante das diferenças.

Para as crianças, próximas dos três anos de idade, a amizade é definida pela proximidade física. Olhando o mundo que os cerca, com o egocentrismo que lhes cabe, os pequenos, em um primeiro momento, só desejam ter uma companhia para interagir e brincar. Nessa etapa de suas vidas a amizade é súbita, quase momentânea, sem nenhuma intenção de permanência. Portanto, todo aquele que aceita compartilhar uma brincadeira será visto como amigo e, nessa fase, não importará a idade ou o gênero do companheiro. E, assim, os vínculos vão se estabelecendo a partir das interações ocasionais, quando as crianças passam a ter compatibilidades que favorecem os encontros.

Por volta dos quatro anos de idade, as crianças estarão muito atentas às diferenças, de forma geral, principalmente entre os companheiros de seu entorno e convívio. Assim, as características físicas ficarão evidentes, bem como as preferências e, consequentemente, as identidades, que as aproximam e as diferenciam.  É fato que uma curiosidade imensa toma conta desses pequenos, que desejam justamente descobrir e compreender tantas diferenças observadas. O critério agora será conviver bem e conhecer melhor o outro por uma curiosidade despertada. Portanto, elas brincam muito juntas, e nessa etapa do desenvolvimento as parcerias tendem a ser mais estáveis, mas também abertas às possibilidades que o brincar mais estruturado proporciona.

Aos cinco ou seis anos de idade, teremos outra mudança nessas relações, pois esse costuma ser um período de busca de identificação. Muito atentas aos adultos de referência como figuras importantes de identificação, observamos que as crianças tenderão a se agrupar por escolhas e preferências mais rigidamente organizadas, na maioria das vezes, revelando o que é de cada um e, então, se fortalecem os pequenos grupos por identidade − os que gostam dos mesmos personagens, gostam de fantasias, gostam de jogar bola etc.

Deixar que se fechem nesses grupos? Entendemos que compete aos adultos intervir sempre para favorecer a integração de todo o grupo. Respeitando momentos de preferências pessoais, mas, sobretudo, valorizando a coletividade no ambiente escolar, a exploração de novas possibilidades, e a percepção de que brincar em vários grupos é possível, desejável e, mais do que isso, pode ser bem legal.  Por esta razão, vale considerarmos que as famílias também podem colaborar, ampliando contatos com colegas não habituais para brincar em suas casas ou programar passeios juntos.

E, apesar da volatilidade das amizades na primeira infância, sabemos que valores importantes oriundos dessas relações estão sendo cultivados desde as primeiras experiências, como o respeito, a confiança, o poder contar sempre… e que tais valores serão cada vez mais compreendidos e valorizados durante o longo processo de construção e de vivência do conceito chamado Amizade.

Reedição revisada de post publicado em agosto de 2012.

Cuidado e responsabilidade: aprendendo para a autonomia

Escola da Vila

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Por Vania Marincek e Joana Sampaio Primo

Aprender a cuidar do que é seu é algo muito importante para o desenvolvimento infantil e esse é um aprendizado que se dá aos poucos, tanto através do crescimento e da aquisição de maiores competências afetivas e cognitivas, quanto através de intervenções feitas por nós, adultos, sejamos pais ou professores.

Na escola, apoiamos nossos alunos para que compreendam o quão importante é cuidar de seus pertences para que eles estejam completos, íntegros e disponíveis para serem utilizados. Essas são situações importantes para evidenciar às crianças que, ainda que elas sejam pequenas, há, desde sempre, aspectos da rotina diária que podem ser considerados de sua responsabilidade.

Uma das formas de demonstrar a necessidade do cuidado é pontuar as consequências que o descuido acarreta. Quando um aluno esquece seu material na escola ou em casa reiteradamente, é importante que se converse com ele apontando o quanto isso pode comprometer seu vínculo com o trabalho. Além disso, se a escola e a família tiverem os mesmos encaminhamentos, será mais fácil ajudar a criança a se organizar e a se ocupar com seus pertences.

Em casa, muitas vezes, torna-se difícil para os pais saberem quais ações podem ser feitas para revelar a importância da responsabilidade a seus filhos e contribuir para que se tornem pessoas autônomas. Há, entretanto, algumas bastante simples e que, se consideradas, contribuem muito para a formação das crianças.

A primeira delas se refere à valorização da escola, das aprendizagens por ela proporcionadas e do próprio cotidiano de seu filho. Já tratamos disso em outro post, quando sugerimos que a ida a museus, exposições, cinemas, e outros tipos de ações culturais contribuem para ampliar a formação das crianças e, ao mesmo tempo, valorizar o que estão aprendendo na escola.

Outra intervenção interessante é pensar sobre o lugar que as crianças estão ocupando na rotina familiar. Seu filho tem responsabilidade em casa? Cuida de seus pertences? Guarda os brinquedos que usa? Definir em família as pequenas responsabilidades do dia a dia, como separar a roupa para ir à escola, ajudar a preparar o lanche que levará, dar comida para o cão, entre outras atitudes que configuram para as crianças que, na vida em comunidade, cada um se responsabiliza por uma parte e, dessa forma, todos ficam bem.

Acreditamos que essa seja a parte mais importante dessa aprendizagem: responsabilizar-se por seu cotidiano é um exercício que se relaciona com a constituição de sujeitos autônomos, isto é, sujeitos que decidem livremente sobre os rumos de suas vidas a partir da responsabilização de suas escolhas. Evidentemente que cuidar do material é o primeiro passo, porém cuidar dele sabendo que se trata de uma parte importante do laço com o espaço comum é algo fundamental.

A importância das experiências diversificadas para dar sentido às aprendizagens escolares: a ampliação do repertório cultural e o papel dos pais

Escola da Vila

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Por Joana Sampaio Primo

Ensinar não é uma tarefa fácil, pois ela não depende apenas dos educadores: ela depende, sobretudo, do interesse que a criança possa desenvolver em sua experiência com a aprendizagem. A curiosidade, o movimento de tornar-se um eterno pesquisador, o desejo por aprender serão, então, os componentes fundamentais de qualquer processo de aquisição do conhecimento. Assim, os educadores – com essa palavra, incluo tanto os professores quanto os responsáveis pelas crianças – terão que trabalhar no intuito de despertar o desejo por aprender.

Tarefa paradoxal, uma vez que desenvolver a inclinação pelo conhecimento não se faz pela apresentação de conteúdos, mas sim pelo instigar da curiosidade, por uma consideração pelo que a criança levanta como hipótese e pela constante ampliação dos repertórios e das referências dela.

As escolas promovem e reforçam os vínculos dos alunos com a cultura; dito de outro modo, essas instituições, em nossa sociedade, cumprem o papel de transmitir-lhes o acúmulo de conhecimento das gerações anteriores, possibilitando às crianças vincularem-se a ele e sentirem-se capazes de transformá-lo, de questioná-lo e de produzi-lo.

Cabe à escola, portanto, o papel de introduzir e consolidar o interesse dos jovens alunos pelo conhecimento. No entanto, essa tarefa apenas poderá ser cumprida com a valorização da sociedade e a parceria das famílias com tal instituição.

Investir na educação dos filhos não significa apenas acompanhar as lições de casa, estudar para as avaliações e verificar os desempenhos; significa dar sentido às aprendizagens. Porém, o que queremos dizer com isso?

É corriqueira, no cotidiano escolar, a procura das famílias por orientações em relação ao acompanhamento dos estudos de seus filhos. Porém, é incomum que essa busca seja motivada por indicações de programas culturais aos quais os pais possam ir com seus filhos.

É igualmente cotidiano que os responsáveis procurem a escola para queixarem-se da falta de interesse dos filhos em aprender, das dificuldades cotidianas que fazer a lição de casa impõe à rotina familiar, das motivações únicas dos alunos por jogos de computador ou por brincar com os amigos, construindo um cenário no qual as crianças parecem não se interessar por nada do ensino regular.

Mas vale ponderar que, se o ensino regular ficar relegado a ocupar o lugar das tarefas enfadonhas e dos conteúdos desconexos, concordamos com os estudantes que tal modo de aprender não estimula em nada a vinculação deles com o conhecimento. Indagamo-nos novamente: como os pais podem dar sentido às aprendizagens escolares?

Não tenho a pretensão de responder a essa pergunta, pois, para o percurso de cada um, teríamos que pensar em estratégias singulares. Porém, tenho certeza de que seja uma diretriz importante o auxílio das famílias em ampliarem o repertório cultural das crianças, ou seja, que incorporem em seus cotidianos atividades que instiguem os educandos sobre os processos culturais. Tal dilatação das experiências pode ser feita com visitas a exposições de arte, a museus, escolhas por filmes não comerciais, entre outras atividades nas quais as crianças possam fazer conexões únicas com o mundo em que vivem. Ampliar o repertório cultural possibilita que estas desejem mais, possibilita que façam associações inusitadas, possibilita que experienciem a sociedade de uma maneira diferente.

Despedindo-me do “Um Pouquinho de Brasil”

Um pouquinho de Brasil - Escola da Vila

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Por Adriana Marcondes Machado, mãe dos alunos José, Antonio e Maria

Saí do último evento Um Pouquinho de Brasil, sábado dia 27 de agosto, despedindo-me: “ Meu último Pouquinho de Brasil”. Dois filhos maiores e agora, a menor, com 10 anos.  Fomos em 13 eventos. Ano que vem, não haverá mais nenhum filho ou filha no Fundamental I.

O dia é marcado na agenda, ainda de papel, desde o começo do ano. Sempre fomos. Não é necessário comer muito no café da manhã, pois lá haverá boas coisas para comer, vamos com tempo (coisa rara nos dias de hoje) e, muitas vezes, quando dá, somos dos últimos a sair. Nas estantes de casa, temos vários objetos feitos de madeira: caixas, carros, e, agora, uma pequena cama para casa de boneca. Já trouxemos barangandãs, pinturas, argila, pipas… Ao chegar no evento, começa-se em alguma oficina, sem saber o que se fará depois, pois isso dependerá dos encontros que ocorrerão durante a manhã: um amigo que chama para fazer ou ver algo, ou apenas andar e conversar, um começo de atividade que se larga na metade para ver outra coisa, um passeio para ver a exposição daquele ano e lembrar das que foram realizadas nos outros anos. Tem criança que fica todo o tempo em uma oficina. Está bom. Tem criança que quer fazer várias atividades diferentes. Está bom. Teve um ano em que minha filha não participou de nenhuma atividade e ficou ajudando o pessoal do terceiro ano do Ensino Médio a vender camisetas para arrecadarem dinheiro para a formatura. Estava bom. Um dia para ser bom. As quadras são ocupadas com oficinas e isso, muitas vezes, afasta os amantes dos esportes. Mas muitos deles também vão, e é dia em que dá para subir na árvore perto da lanchonete, dá para brincar no brinquedo do parque, dá para ouvir o show que sempre há no encerramento do dia. Na mesa de argila são incríveis os trabalhos que vão se produzindo, com direito a molhar o barro em um canto com água e terra… A menina que pintava a partir de uma modelo, usou a modelo como inspiração, e seu desenho tornou-se um jogo de cores. Nada tem que ser de UMA maneira apenas, nada tem que ser igual a nada.

Nas mesas da lanchonete e no canto da argila, encontrei-me com mães, pais, educadoras e funcionárias. Sem música alta, sem muita gente, vai-se tendo conversas com começo, meio e fim.  Não sei se era o espírito de despedida, mas busquei essas conversas onde elas surgiam. Encontrei minha filha em alguns momentos; há cinco anos, ela estaria quase todo tempo comigo.

O evento, as exposições, as salas enfeitadas nos mostram trabalho. Percebe-se, nesse evento, o intenso trabalho de muitas professoras/os e funcionárias/os que, no dia, nos recebem animando-nos a fazer, ousar, arriscar, experimentar. Gente que pesquisa, que busca as técnicas e os sentidos de fazeres apostando nas marcas que eles precisam manter produzindo em nós. Os boizinhos… todo ano eles estão lá. Sustentar esse evento e as atividades que lá se expõem exige constante disputa no currículo. Claro, isso deveria acontecer mais, ocupar mais, mais tempo, mais espaço. Nesse dia a escola está ocupada – palavra que nos remete ao que é necessário para que o pertencimento se opere -, ocupada por arte na grama, nas paredes e muretas.  E ocupada por tempo para observar e ver como os outros fazem e fizeram.

Sou acelerada, sempre agenda cheia, muito trabalho, fazendo diferentes coisas ao mesmo tempo… O dia Um Pouquinho de Brasil produz algumas derivações nisso, é um dia em que consigo ficar sem saber o que fazer a priore, perambular no espaço da escola, olhar e me encantar com os detalhes.

Agradecida às professoras/es e funcionárias/os que organizam esse dia de arte.

Ei você, que vira um CABIDE quando pega sua(as) criança(s) na escola…

Escola da Vila

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Por Fernanda Flores

Muitas vezes sou eu quem pega a mochila do João, e a lancheira, ele nem pede, eu ofereço, eu pego mesmo sem ele me pedir. Que mais que eu tenho carregado que não seja da minha alçada, hein?

(De uma “mãe cabide” arrependida.)

Há alguns bons anos, professoras da Educação Infantil escreveram sobre um fenômeno curioso, uma transformação sobre a qual precisamos refletir: os familiares cabide. Os anos passam e precisamos reeditar algumas de nossas preocupações com mensagens cotidianas, que passamos às crianças sem mesmo considerá-las situações cheias de sentido e aprendizagens importantíssimas para a vida e, consequentemente, para a vida na escola. Uma delas diz respeito aos cuidados com os próprios pertences, a atenção e o olhar para aquilo que é pessoal, que eu carrego e, portanto, sobre o qual tenho responsabilidade.

Principalmente nas turmas dos pequenos, é frequente vermos os responsáveis, tão logo ouvem o sinal, se dirigirem para a porta, ansiando pelo reencontro com a criança. Quando o pai, a mãe ou o responsável por buscar uma criança chega à escola, esta já sabe o que fazer: dirige-se ao seu cabide, coloca a mochila nas costas e, com a lancheira em mãos, segue ao encontro daquele que o levará para casa.

Esse é o ritual da hora da saída pelo qual passamos, todos os dias, na Educação Infantil. No entanto, no momento em que os dois pés das crianças já estão do lado de fora é que acontece a transformação. Como num passe de mágica, aquela mochila e lancheira, tão bem confeccionadas para o corpo de uma criança, estão no chão, largadas, e a criança sumiu. No próximo passo, como que para terminar o número, o responsável pela criança transforma-se num cabide e sai carregando as coisas do pequeno.

Com muita frequência, temos uma atitude antagônica, reconhecida pelas crianças certamente: de um lado ela pendura e cuida de seus materiais em sala, leva e traz a lancheira de piqueniques realizados na escola, sabe que pode dar conta de seus pertences feitos para isso, mas o mundo adulto manda aquela mensagem equivocada: Você não precisa cuidar do que é seu. Vá em frente e divirta-se, que eu faço o resto! Acho que não é isso o que queremos, certo?

Nada contra dar uma mãozinha aos pequenos, dividir o peso numa hora de cansaço, oferecer ajuda como opção. Mas, temos de saber quando isso se transforma em algo que, além de não educar corretamente, desresponsabiliza e contribui para a criança não aprender cotidianamente que precisamos cuidar do que é nosso, e parte disso se traduz em levar embora nossas coisas.

Entender, por meio das ajudas e mensagens dos pais, que se trata de “quebrar um galho”, de dividir a responsabilidade ao prestar uma ajuda solidária, e não de uma obrigação do adulto, compulsória por ser pai ou mãe, constitui uma forte experiência de responsabilidade, de que, mesmo pequeno, cada um já é forte o bastante para arcar com suas responsabilidades, mesmo que pareçam pequenas ou aparentemente insignificantes (o que não existe quando falamos sobre educar!).


Texto inspirado na publicação de 2011, “Minha mãe virou um cabide!”.

Os desafios de educar

29_8_2016

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Por Vania Marincek 

Na infância e na adolescência é quando mais se aprende. Cada nova experiência vivida por nossos pequenos e por nossos jovens se transforma em situação de aprendizado que contribui para a constituição de valores que vão definir que adulto cada um deles será. E escola e família assumem especial importância nessa formação, já que são essas instituições que possibilitam que as relações e as experiências aconteçam, além de se constituírem como modelos e referências.

Aprender a conviver não é tarefa fácil, especialmente para quem ainda está conhecendo sobre o mundo e sobre as relações.

Colocar-se no lugar do outro é algo que se aprende? Como ajudar nossos filhos e alunos a se colocarem no lugar do outro? É possível aprender a fazer amigos? Como a escola e a casa podem contribuir para isso? À medida que as crianças crescem, precisam aprender a se responsabilizar por seus pertences, por suas aprendizagens. Então, como escola e família podem, juntas, contribuir para essa aprendizagem? Como os pais podem ajudar seus filhos a darem sentido a suas aprendizagens escolares?

Esses serão os temas tratados nos próximos dias. Esperamos que possam contribuir para a reflexão sobre a complexa tarefa de educar.

A experiência olímpica e o papel das escolas na formação para a cultura esportiva

Handebol Brasil

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Por Washington Nunes – coordenação de esportes da Escola da Vila

Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Para muitos, uma incógnita. Para os mais céticos, o Brasil não conseguiria deixar as instalações prontas, o público não compareceria e os jogos seriam um fiasco.

Ah, como foi interessante olhar para tudo que aconteceu e perceber que, sim, podemos fazer as coisas, e bem feitas!

As arenas estavam impecáveis e completamente lotadas, e o parque olímpico, muito bonito.

Sem contar com a “genialidade” da torcida brasileira que deu um show nas arquibancadas. Como explicar que, em uma luta de boxe, entre lutadores do Azerbaijão e do Cazaquistão, a torcida vibra com a atuação do ÁRBITRO BRASILEIRO? Como fazer alguém entender que, na final do handebol masculino entre França x Dinamarca, a torcida começa a gritar “o campeão voltou”? Isso aconteceu quando ficaram sabendo que o Brasil conquistou a medalha de ouro no voleibol, que acontecia em outro ginásio. Os Jogos Olímpicos ficaram marcados pela simplicidade e pela alegria que nosso povo esbanja em todo tipo de festa.

Washington

Estive presente nos jogos como auxiliar técnico da equipe de handebol do Brasil. Trabalhamos muito duro nos últimos quatro anos e, pela primeira vez na história, conseguimos avançar até as quartas de final. Infelizmente, mesmo tendo feito um grande jogo contra a atual campeã mundial, a França, não conseguimos passar por ela e vimos o sonho de uma medalha terminar ali (cabe aqui um grande agradecimento a todos que torceram e deram a maior força para nós). Mas sabemos que as etapas de construção de um processo levam tempo. Como ganhar uma medalha se nunca conseguimos passar para as quartas de final? Somente passando uma, duas, três vezes é que conseguiremos ir às semifinais para tentar uma medalha. Por isso, a continuidade do processo tem que acontecer.

E, por incrível que pareça, esse processo se dá no dia a dia das escolas. É na escola que as crianças conhecem e experimentam várias modalidades e, se tiverem interesse e aptidão para continuar sua prática, buscarão especializações e melhorarão tanto seu desempenho que poderão fazer parte de uma seleção no futuro.

WashingtonToda escola deve ter três objetivos muito importantes para a construção de futuros atletas:

1- Mostrar a todos os alunos o universo esportivo e fazer com que eles aumentem a cultura sobre os diferentes esportes que existem no mundo (tanto os que fazem parte do programa olímpico como os que ainda não fazem parte deste);

2- Estimular e desenvolver uma das partes mais importantes em todo o processo de aquisição técnica dos futuros atletas: os estímulos e a melhora das capacidades coordenativas de todos os alunos;

3- Oferecer, quando possível, grupos de treinamento, para que esse processo efetivamente aconteça.

WashingtonEssa foi a terceira (e acredito também que seja a última) Olimpíada de que participo e, pelo fato de ser no Brasil, com certeza foi a que vivi mais intensamente. Chorei na abertura, chorei no encerramento e chorei em grandes momentos dos jogos.

Os jogos do Rio ficarão para sempre em minha memória e em meu coração.

Tenho certeza de que para muita gente também. Quem puder ir ao Rio assistir aos Jogos Paralímpicos, conhecer o parque olímpico e viver o clima das competições vai poder sentir muito disso que falei por aqui.