Redação de ex-aluno da Vila está entre as melhores da Fuvest 2013

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O texto abaixo foi escrito pelo ex-aluno Pedro Teixeira na Fuvest 2013 e foi selecionado como uma das melhores redações do exame. Parabéns Pedro, e parabéns a todos que contribuíram com a escolaridade deste excelente aluno.

A perda de referências e o consumismo na globalização

O shopping center talvez seja, hoje em dia, o maior símbolo da globalização. Em qualquer lugar do mundo, o interior de um shopping é praticamente o mesmo. Este símbolo apenas, é um grande exemplo de dois dos mais importantes aspectos da globalização: a perda de referências e o consumismo.

O historiador Nicolau Sevcenko, ao caracterizar o processo de globalização comparou o sujeito inserido neste processo a uma pessoa em uma viagem de montanha russa, mais especificamente no loop de uma. Para Sevcenko, a perda de referências sofrida no loop de uma montanha russa é semelhante à sofrida na constante corrida de avanço tecnológico e progresso da sociedade contemporânea. Seja na arte ou nas relações sociais, o sujeito globalizado parece estar sozinho, desorientado e à procura de algo. Esta procura muitas vezes se traduz na compra e apologia de mercadorias, o consumismo.

O shopping center funciona exatamente como a montanha russa. Bombardeados por anúncios, luzes e lojas, os consumidores entram em um estado de frenesi, que os induz a comprar mais. A perda de referências se dá pela ausência de marcadores de tempo (relógios ou entradas de luz natural) e pela rapidez com que os produtos se renovam. Absolutamente tudo é novo e melhor. Com a inovação constante, o velho se torna obsoleto e a felicidade se encontra em obter as novidades, dispensando até mesmo o seu aproveitamento.

Ideologia, no seu sentido marxista, é uma ideia que tem como objetivo ofuscar a visão da realidade. Utilizando este conceito, é possível situar o shopping center como ferramenta de uma ideologia da classe dominante. No estágio em que o capitalismo se encontra hoje, de progresso pelo progresso e reprodução não produtiva do capital, a única engrenagem que mantém o sistema de produção é o consumismo, que por sua vez é mantido por anúncios veiculados na mídia. É preciso desacelerar a montanha russa da globalização, ou perderemos todas as nossas referências e nos tornaremos apenas consumidores.

Projetos, projetos, projetos… Ora, estamos falando da mesma coisa?

Por Sônia Barreira

Todos, pais, professores, alunos, já ouvimos falar em projetos nas propostas das escolas, não é mesmo?

Essa palavrinha mágica parece enfeitar qualquer tipo de proposta nas escolas modernas. Já ouvimos contar de projetos temáticos, projetos de investigação, projetos interdisciplinares, projetos integrados, projetos didáticos e mais outros tantos que povoam o repertório pedagógico construtivista, mais ou menos construtivista ou pseudo-construtivista. Há até aquelas escolas tradicionais, que dizem que trabalham de modo “híbrido”, tradicional em Matemática e com projetos em Língua.

Bom, então nunca sabemos se estamos falando do mesmo quando alguém nos relata uma experiência com projetos!

Aqui no Quebec, tivemos a grata surpresa de encontrar uma escola em que se trabalha com projetos, e não importa de que tipo, mas projetos que respondem a certas condições didáticas que resultam em aprendizagens consistentes, alunos motivados, professores envolvidos e resultados em avaliações externas de fazer inveja a qualquer escola vencedora dos rankings do ENEM!

Trata-se do Protic, projeto desenvolvido em parceria com a universidade local, que tem por princípio algumas das formulações do Knowledge Forum. Nada que a história da pedagogia já não tenha proposto em momentos diferentes, com nomes distintos, mas de fato semelhantes!

O professor lança uma proposta, e os alunos devem enfrentá-la em gupos: fazer um jogo com os conteúdos estudados em história, com a condição de que a proposta seja exequível e que se possa, de fato, jogar; fazer um filme, com roteiro, filmagem, edição e participação em concurso (tipo Oscar), envolvendo toda a comunidade; identificar ambientes de preservação ambiental no Canadá, desenvolver uma estratégia para que as pessoas se interessem em conhecer e definir procedimentos de preservação; enfim, nada tão diametralmente oposto ao que tantos de nós já tentamos fazer em tantas escolas brasileiras. Mas, para a execução destes projetos, além do uso integrado das tecnologias, encontramos professores entusiasmados, comprometidos e com muita clareza de onde pretendem chegar com estas propostas.

Além disso, cada um deles está convicto de que o trabalho é do aluno, e que seu papel é ajudar, apoiar, problematizar e viabilizar a consecução dos objetivos. E, assim, com este ingrediente fundamental, encontramos a diferença! Os doze princípios do KF sustentam as tomadas de decisão destas equipes.

“Se queres avançar, faça-o com uma teoria” - título de um texto tão importante para nossa equipe, nos mostra novamente o valor de um suporte teórico para as escolhas dos docentes.

Saímos de lá todos boquiabertos com o que vimos. Éramos mais de vinte brasileiros visitantes, que invadiram as salas de aula, falando, fotografando, perguntando… E os alunos? Educadamente nos respondiam, mas entusiasmadamente continuavam trabalhando! Concentradamente pesquisavam, trocavam ideias, escreviam, construíam seus conhecimentos, ao mesmo tempo em que explicavam-nos seus percursos e argumentavam a favor desta metodologia.

Nosso respeito e admiração pela equipe de professores do Protic. Nosso respeito e admiração pela equipe da universidade que os apoia. Nosso respeito e admiração pela direção escolar, que soube inovar e manter a equipe.

Nosso profundo desejo de nos aproximarmos mais e mais desta utopia!

Ensinar a aprender: uma possibilidade concreta.

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Por Sônia Barreira

O engajamento no processo de aprendizagem, a motivação genuína e a curiosidade natural são elementos fundamentais para a construção do conhecimento na escola.

Se por um lado, conhecemos estas ideias a fundo, por outro, sabemos o quanto nos custa obtê-las em sala de aula, com todos os alunos, em diversas disciplinas.

Em momentos diferentes da história da educação, especialistas  envolvidos nesta difícil missão desenvolveram estratégias, teorias, métodos e abordagens variadas visando atingir seus objetivos. Hoje sabemos que não há respostas totalmente suficientes e precisas que resolvam todos os obstáculos que surgem no dia a dia da sala de aula. Por isso, a tendência dominante nos grupos de profissionais da educação é a criação de comunidades de aprendizagem, nas quais as  boas práticas possam ser compartilhadas e a construção de soluções possa contar com contribuições diversas.

Mas isso também não e fácil, pois as realidades das escolas são muito diversas, e a transposição de métodos e encaminhamentos nem sempre são tarefas fáceis. Ainda assim, tem se tornado comum a reunião de grupos de educadores de regiões diferentes, em contextos de aprendizagem variados, até mesmo com concepções distintas de educação. Comunidades de aprendizagem, rede de boas práticas, ou simplesmente troca profissional, são cada vez mais comuns.

A viagem ao Canadá com 26 profissionais da educação está sendo um bom exemplo desta busca. Profissionais de diversas instituições, de várias regiões do país, juntaram-se a nós para conhecer novas experiências.

Na primeira etapa desta excursão pedagógica o grupo encontrou-se com pesquisadores, professores, diretores de escola, técnicos do ministério da educação, e até mesmo especialistas em inovação em grande escala. Observamos classes, ouvimos apresentações de alunos, recebemos palestras, debatemos, perguntamos e nos encantamos com a generosidade dos canadenses.

O Knowlegde Building, metodologia desenvolvida pela equipe da professora Marlene Scardamalia e Carl Bereiter, recebe nos próximos meses uma nova versão de sua plataforma digital, e poderá ser usada por todos aqueles que se interessarem.

A potência da ferramenta, que permite a construção colaborativa de conhecimentos, é muito grande, mas mais importante ainda são os 12 princípios pedagógicos que configuram a metodologia, estes podem estar presentes em propostas que usam ou não a tecnologia. No entanto, o ambiente virtual entusiasmou demais o grupo. Entre  tantos recursos e possibilidades importantes que ajudam a explicitar e valorizar os princípios da abordagem proposta destacamos um deles: as ferramentas discursivas.

Essas ferramentas apoiam o processo de construção de conhecimentos favorecendo sobremaneira os processos metacognitivos, pois além de oferecerem um percurso produtivo para a organização das informações, hipóteses, socializações, induzem o aluno a refletir todo o tempo sobre o que está fazendo para conseguir aprender.

Desta maneira, pensando sobre o pensamento, fica evidente que o velho sonho da escola construtivista, de ensinar a aprender, se realiza com profundidade.

Depois da voz dos alunos…

Por Sonia Barreira

Nesses últimos posts vocês tiveram a oportunidade de conhecer depoimentos de vários alunos muito diferentes entre si, trajetórias escolares distintas, escolhas mais ou menos consistentes, estilos pessoais próprios e reflexões muito interessantes.

Os alunos responderam ao nosso apelo para que produzissem a última lição de casa para a Escola da Vila, mesmo já não estando mais aqui. Foram todos textos reflexivos, que mostraram jovens capazes de pensar sobre suas escolhas, tomar decisões, revê-las, admitir suas falhas, identificar suas competências. Mas há tantas outras histórias bonitas e interessantes. Pena não podermos contar todas de modo completo!

Mas, apenas para não ser injusta com quem não apareceu aqui, é preciso lembrar que há muitos outros:

Tem a Alice, que foi aprovada em 5º lugar no curso de Jornalismo da Cásper Líbero, e olha que ela ainda fez intercâmbio para outro país e ficou um tempo longe da Vila; tem a outra Clara, que entrou em psicologia na PUC e que, com certeza, fará seu curso com seriedade, e ela participou do intercâmbio para a Argentina quando estava no 2º ano do Ensino Médio e vai ser colega da Helena, que também passou no mesmo curso. O Fábio passou na Cásper em Jornalismo, cujas vagas são bastante disputadas porque o curso está bem conceituado. O Felipe queria ESPM, mas ficou contente com a vaga que conseguiu para Propaganda e Marketing no Mackenzie. O Matheus, que quer mesmo é jogar bola, entrou em Administração no Mackenzie e na PUC, e escolheu a primeira faculdade porque eles incentivam muito os esportes e ele espera conseguir uma bolsa integral.

O Felipe, que sempre quis cinema, ficou muito contente por conseguir sua vaga na FAAP, que além de tudo é do lado da sua casa! A Gaê entrou em Ciências Sociais na USP, e era isso mesmo o que ela queria! O Guilherme vai fazer História na USP, e não considerou outra opção. A Juliana resolveu fazer Letras e conseguiu sua vaga também na USP, e vai ser colega da Dora e do Rafael.

O Luca vai fazer Economia no Insper, vai poder comparar seu curso com o do Matheus Genaro na USP, e do Ariel na Unicamp.  Guilherme e Laís vão para a Escola da Cidade cursar Arquitetura. Vamos conhecer suas opiniões sobre o curso daqui um tempo. A Mariana – nossa excepcional atriz do grupo de teatro da Vila -  foi para a Geografia da USP, e ficou muito contente. O Maurício vai fazer Psicologia na PUC; a Úrsula entrou na Medicina da Uninove; o Mateusinho entrou na Administração da PUC; a Isabela entrou em História na PUC. Já o Calvin, entrou em Física e quase perdeu a matrícula porque não tinha olhado a lista da segunda chamada… Ainda bem que os amigos o avisaram.  Mais recentemente, o Theo nos contou feliz que entrou em Direito pelo Sisu – nota do Enem – na Universidade Federal de Brasília. Ele estava super feliz e nós também… Ele merece!

Temos até medo de encerrar este texto, pois podemos ter nos esquecido de alguns, afinal, eles nem sempre nos contam tudo, precisamos correr atrás da informação, ligar, perguntar, insistir.

Tem aquele pessoal que foi para a segunda fase da Fuvest,  mas que não conseguiu entrar. Para estes, fica a frustração porque chegaram “quase lá”. Vão para o cursinho, com aqueles que não quiseram fazer faculdade privada, e, certamente, terão sucesso no próximo ano.

Para finalizar, convidamos todos os leitores – especialmente os que têm os filhos menores – a fazer um exercício e procurar imaginar resposta para a seguinte pergunta:

“Que história terá meu filho para contar quando terminar sua escolaridade básica?”

Falará sobre uma trajetória de conquistas, amizades, vivências, reflexões? Falará de um ambiente de aprendizagem estimulante e de professores respeitosos e entusiasmados? Receberá comentários de professores que o viram crescer e testemunharam o desenvolvimento de suas competências? Lembrará, saudoso, dos projetos de pesquisa, de trabalhos de campo que contribuíram para suas aprendizagens? Conseguirá avaliar de modo tão consistente seu processo escolar, seu método de estudo, suas motivações, seus estímulos, suas referências no mundo adulto?

Esperamos que sim, pois é isso o que a Escola da Vila propicia a seus alunos. Esperamos que sim, pois é isso o que pudemos ver no depoimento desses alunos. Esperamos que sim, pois é por isso que trabalhamos todos os dias com empenho e entusiasmo.  E esperamos que, após essas leituras, seja fácil entender por que números não mostram os verdadeiros resultados da nossa escola.

Afinal, a Vila prepara ou não os alunos para o vestibular?

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Por Sonia Barreira

Mais cedo ou mais tarde, esta pergunta se coloca para as famílias que têm os filhos aqui. Uns pensam que não, mas que isso não importa tanto, se a escola lhes der uma boa formação e preparo para enfrentar o que vem depois da escolaridade básica. Outros pensam que sim, afinal conhecem um grande número de ex-alunos frequentando excelentes universidades. Há aqueles que ainda têm dúvidas e acham que o discurso da escola não é muito claro. E há os que reclamam que a escola não disponibiliza suas estatísticas.

Bem, a verdade é que esta é uma questão complexa. Nós mesmos poderíamos dar respostas distintas, como os diferentes grupos de pais. Vejamos a seguir algumas delas.

Sim, preparamos os alunos para enfrentar os vestibulares, se isso quer dizer ter um currículo rico e completo, que abarca os conteúdos cobrados em todas as disciplinas. Sim, se isso quer dizer oferecer revisões, simulados, discussões sobre os tipos de prova que cada vestibular pratica. Sim, se isso implica oferecer vivência de provas longas, com diversos tipos de questões. E a resposta seria sim, se também estivéssemos nos referindo a prepará-los para a escolha, mostrando os diferentes tipos de faculdades e seus exames, ajudando-os num processo de autoconhecimento e facilitando a construção de um projeto de futuro.

Mas também poderíamos responder NÃO, se esta preparação significasse tornar os vestibulares o mais importante tema do Ensino Médio. Seria um não convicto, caso implicasse separar os alunos por nível de aprendizagem (ou por notas), ou ainda pressioná-los com os mais diversos mecanismos de competição entre eles. A resposta poderia continuar sendo negativa, no caso de estarmos considerando colocar o projeto formativo destes alunos em segundo plano e renunciarmos a atividades e conhecimentos que não impactam diretamente nos exames vestibulares, como os trabalhos de campo, a valorização do teatro, da poesia, dos projetos de investigação em ciências naturais, do uso consistente da tecnologia, da participação no grêmio escolar, e tantas outras situações significativas para o projeto pedagógico da Escola da Vila.

Assumimos que nosso projeto é propedêutico, uma vez que prepara o aluno para seu futuro, mas, por outro lado, pensamos que há inúmeras possibilidades para o futuro, o que torna nossa missão mais complexa e rica.

Não gostamos de mostrar números, porque eles mascaram conquistas e valorizam falsos sucessos. Gostamos de analisar cada caso, de cada aluno, e garantir a todos os pais que seus filhos, sejam eles como forem, terão espaço em nosso projeto pedagógico.

Por isso, decidimos tomar conta deste blog por uns dias, para contar a vocês algumas destas histórias, nas palavras de nossos próprios alunos. Vocês verão que há aqueles estudiosos, que têm muita facilidade de estudar, que entram nas faculdades mais concorridas deste país; verão também aqueles que precisaram superar dificuldades imensas para ascender a uma universidade de primeira linha, porém privada. Há os que não estudaram o suficiente, ou não sabiam o que queriam, e têm planos de cursinho, viagens, outras experiências. Infelizmente, há os que estudaram e se frustraram, pois “não foi desta vez”, mas certamente do próximo ano não passa. Há os que têm outros planos e se veem obrigados a ir para uma universidade por pressão familiar. Tem os que não queriam passar (ah, tem!) e tudo bem, não passaram mesmo. E tem aqueles que se surpreenderam com a aprovação.

Conhecer suas histórias pode ajudar aos pais dos alunos mais novos a relativizarem os números, as estatísticas e valorizarem o que temos de melhor nesta escola: o apoio à singularidade de cada aluno.

Conversa de professor.

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Por Sônia Barreira

Esse é o título da revista que a Escola da Vila acaba de lançar com oito artigos de professores da nossa equipe, frutos do trabalho reflexivo apresentado no último Simpósio Interno.

Esta iniciativa concretiza um desejo antigo de socializar com outros educadores o conhecimento pedagógico produzido na escola. O Centro de Formação atua intensamente em todo o país com este objetivo, mas a publicação é sem dúvida uma ampliação importante desta missão institucional.

A tiragem de 2.500 exemplares foi distribuída gratuitamente para os participantes da programação de férias de julho, para a equipe interna e os demais exemplares serão oferecidos aos participantes das próximas programações de setembro e janeiro.

Para alguns, pode parecer relativamente tranquilo escrever sobre o próprio trabalho, mas quem já passou por isso sabe que não é! Há inúmeros obstáculos a serem vencidos.

O primeiro e mais sério elemento que dificulta esta tarefa é o tempo, carrasco de todos no mundo atual e fatal na vida escolar. O professor tem de encontrar tempo para se distanciar – ainda que minimamente – de seu fazer diário, para analisá-lo, buscar ou retomar as referências teóricas que o sustentam, encontrar um aspecto relevante de investigação, coletar os dados, refletir sobre eles, organizar o discurso, preparar uma apresentação para seus pares, inserir possíveis contribuições de seus interlocutores, rever o texto, e assim, sucessivamente, até um momento em que o prazo acaba, para colocar fim a um processo que poderia ser interminável!

Aceitar este desafio é muito mais do que realizar uma tarefa proposta pela escola, por tratar-se de um âmbito do trabalho docente que implica um grau de comprometimento profissional e enfrentamento pessoal que coloca em jogo a própria competência docente.

Felizmente, pudemos constatar no processo de seleção dos textos para esta publicação, que o conjunto de textos produzidos continha um grande número de trabalhos de qualidade. O tamanho da revista, no entanto, impôs restrições, nos obrigando a buscar critérios de diversidade temática, de faixa etária e representatividade; tarefa que ao final, possibilitou a constituição de uma mostra significativa do conhecimento pedagógico produzido pela equipe.

Alguns destes trabalhos renderam outros frutos aos autores. Os textos de Miruna Genoino e Ana Cláudia Santos Nicolau,  que referem aspectos desenvolvidos em suas respectivas monografias para o curso de  Pós-Graduação da Escola da Vila, foram selecionados para apresentação no II Simpósio Internacional sobre o ensino de Língua Portuguesa, realizado em Uberlândia/MG, entre os dias 30 de maio e 1 de junho e recebidos com grande reconhecimento pela comunidade acadêmica ali presente.

Nesta semana  recebemos a notícia auspiciosa de que dois outros trabalhos, também presentes na revista Conversa de Professor, foram  selecionados para o Congresso Ibero Americano de Las Linguas en la Educacion e Cultura em Salamanca/Espanha: o texto de Celina Martins, sobre a escrita em Ciências Naturais e o elaborado por Luisa Moraes e Clarice Camargo sobre o uso de tecnologias em situações de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa.

Luisa e Celina viajarão em setembro para Salamanca, para apresentarem suas reflexões já que Clarice teve – juntamente com outros colegas da equipe -  a oportunidade de mostrar seu trabalho recentemente, na Viagem Pedagógica a Barcelona, ocasião em que o mesmo foi bastante elogiado pelo professor Cesar Coll.

Além de darem ainda mais sentido e significado ao Simpósio Interno, destino primeiro destes trabalhos reflexivos, estes desdobramentos trazem ganhos para todos. Para os professores é uma oportunidade de expandir seus conhecimentos e ampliar suas possibilidades profissionais. Para a escola, a oportunidade de consolidar sua missão de produtora de conhecimento didático, educacional e pedagógico, além da divulgação de sua imagem institucional. E para os alunos, que sem dúvida só têm a ganhar em serem educados por profissionais verdadeiramente reflexivos.

As férias e a volta!

 

Por Sônia Barreira

Houve um tempo em que todos diziam que os professores eram privilegiados porque tinham 3 meses de férias. Mas onde foram parar estes três meses?? Pois nunca mais sequer nos aproximamos disso! Aliás, eu tenho 32 anos de escola e não tenho memória deste período, creio que ocorria quando eu era estudante, ou então é boato!

Hoje há os 30 dias de recesso mais os 30 dias de férias de fato, respectivamente em julho e entre final de dezembro e final de janeiro. É um bom período de férias, mas de modo algum são excessivas para os 200 dias letivos e os períodos de planejamento e avaliação.

As férias revigoram certamente devido ao descanso que proporcionam. Mas, além disso, elas permitem um distanciamento de uma rotina tão intensa e dinâmica, que ao nos afastarmos nos damos conta de uma série de coisas que passaram despercebidas.

Entendemos melhor um dado processo, nos damos conta de certos detalhes e temos ideias novas! Nossa como temos ideias novas para trabalhar com os alunos. Identificamos novas informações, compramos livros, atualizamos leituras, nos encantamos com novas paisagens, e das novas experiências tiramos sempre algum proveito para o trabalho pedagógico.

As férias são necessárias para todos, sem dúvida, mas sem estas duas interrupções,  as escolas não se reinventariam, não teriam fôlego para uma empreitada só!

A volta para a escola é só alegria, afeto, novidades, entusiasmo e dinamismo. Quem se diz contrariado com a retomada das atividades escolares não está contando toda a verdade. O fato é que alunos, professores e funcionários voltam ao dia-a-dia  com muita vontade e prontos para mais 5 meses de vida escolar!

Viva a escola!

Ainda Barcelona: Uma escola inspiradora!

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Por Sônia Barreira

Nossa relação com a Escola Sunion é antiga. Em 2004 estive lá pela primeira vez, por indicação da professora Isabel Solé, * que aqui estivera nos dando uma brilhante assessoria na área de linguagem, e cujos filhos estudaram lá.

Ela me relatou brevemente algumas características dessa escola, mas, sinceramente, concluí que havia entendido mal, pois considerei impossível que uma instituição escolar se organizasse bem daquela maneira.  “Eles têm uma gestão dos tempos, espaços e agrupamentos entre os alunos, completamente flexível, o horário não é único durante todo o ano letivo, nem mesmo durante um trimestre, mês ou semana!” Fui conferir!

A primeira cena que vi naquele ano foi exatamente a mesma, com a qual nos deparamos na visita guiada que realizamos neste mês quando o Centro de Formação promoveu mais uma Viagem Pedagógica Internacional com a presença de quase trinta educadores brasileiros. Quatro alunos de aproximadamente 15 anos, duas vassouras e uma pá na frente da escola “varriam” a calçada da frente do prédio.

Desta vez, conhecendo o projeto pedagógico, me antecipei e contei ao grupo: cada aluno desta escola se dedica a um “serviço” escolar por 15 minutos diários, faz parte do currículo, e está na grade horária!

Fomos recebidos pelo diretor Joan Puig (a quem tento desde minha primeira visita, sem sucesso, trazer ao Brasil para contar-nos sobre sua experiência como gestor), que imediatamente promoveu um tour por todas as dependências da escola. Pudemos conhecer um dia típico dessa instituição. Através de suas salas envidraçadas, nos corredores, alunos circulavam discretamente em pequenos grupos; um desavisado concluiria que a frequência é livre, mas era apenas efeito do horário flexível.

Durante a conversa com o também professor de matemática, Joan Puig, o grupo foi compreendendo a estrutura original de funcionamento dessa escola inspiradora.

Os alunos não são organizados em salas de aula e sim por agrupamentos, formados naturalmente entre eles, de aproximadamente oito alunos. O professor, ao fazer seu planejamento semanal, define com quantos grupos naturais pretende trabalhar, por quanto tempo, e em que espaço.

Para que isso se efetive, há na escola uma pessoa especializada na confecção dos horários, que recebe a demanda dos professores, organiza e publica progressivamente o esquema de cada dia da semana. Para o trabalho com os grupos naturais há em cada andar da escola um conjunto de quatro pequenas salas de trabalho onde os grupos se reúnem, sem o professor, para o trabalho autônomo que já foi devidamente orientado. Há, também, as aulas convencionais, que juntam quatro grupos naturais ou, ainda, se a atividade requer, é possível juntar os 120 alunos da mesma série para concretizá-la.

O horário pode ser organizado em tempos diferentes. A base é de 45 minutos, mas pode haver atividades de 15, 30 ou 90 minutos.

O objetivo, segundo nos foi explicado, é adaptar o horário e o espaço ao planejamento do professor e não o contrário, deixar que horários rígidos e espaços iguais obriguem o professor a fazer um mesmo tipo de planejamento, sempre!

Em cada grupo natural, o aluno tem duas outras responsabilidades: é monitor de uma disciplina, e é responsável por um serviço de apoio à escola. Como monitor, é responsável pelas atividades em subgrupo, distribui tarefas, explica-as, recolhe-as e devolve-as ao professor, com quem se reúne (juntamente com os demais monitores dos outros grupos) regularmente. Como responsável por um serviço de apoio, ele dedica 15 minutos diários a uma das possibilidades: varrer os espaços coletivos, distribuir materiais, apoiar o setor de xerox ou, ainda, atender aos telefonemas e as visitas que procuram a escola, na recepção.

Foi dessa proposta que nasceu o nosso projeto Conviver, que ainda hoje propõe aos alunos que permanecem na escola no contraturno, atividades de apoio aos serviços escolares como forma de esses alunos compreenderem melhor os diversos trabalhos “invisíveis” que ocorrem para que o ambiente escolar seja estruturado, limpo e organizado.

Com quantos paus se faz uma canoa?

Outro aspecto que chama a atenção é a presença da equipe de professores na escola. Como são contratados por 35 horas semanais – todos – estão todo o tempo em atividade, seja em aula, planejamento, tutoria aos grupos de alunos; o professor é responsável por todo o projeto pedagógico e educacional. Dessas 35 horas, vinte ele atua em aula propriamente; o restante do tempo ele pode usar em seu gabinete individual de trabalho, espaço que causou inveja a todos os professores do nosso grupo.

Nesse regime de trabalho, a equipe de professores, juntamente com o diretor, cumprem todas as funções pedagógicas e educacionais da instituição. Equipe enxuta e eficiente!

A Escola Sunion — como nós da Vila –, está implementando o uso das novas tecnologias e todos os professores têm seus cursos em ambiente virtual, e escolheram também, como nós, a plataforma Moodle.

Observamos que essa escola responde com dinamismo às novas formas de aprender, de se relacionar dos jovens, e investe na construção da autonomia a partir de vivências, nas quais os alunos e seus grupos tomam muitas decisões.

Não há supervisão constante, praticamente nenhuma vigilância. Monitores, bedéis, auxiliares – são apoios pedagógicos que não fazem parte do repertório da equipe da Sunion, ao contrário, os olhares frequentes são, exclusivamente, dos professores que trabalham em seus pequenos gabinetes envidraçados espalhados por toda a escola. E tudo funciona muito bem!

Certamente, isso nos faz pensar em nossa estrutura, que caminha no sentido inverso: monitores por toda a escola, auxiliares para grande parte das atividades, estagiários que apoiam o trabalho do professor, orientadores educacionais, orientadores pedagógicos, coordenadores, assistentes, sem falar nos professores, evidentemente, e todos bastante ocupados!

Voltamos intrigados e dispostos a refletir e avaliar. Afinal, em se tratando de escolas que pretendem favorecer a construção da autonomia, quantos adultos são necessários para o trabalho pedagógico e educacional?

* Isabel Solé é professora do departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha.

O valor formativo de uma viagem pedagógica.

Colégio Collaso i Gil - Vínculo com o conhecimento e com uso significativo das Tic

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Por Sônia Barreira

Há anos promovemos viagens pedagógicas. Reunimos um grupo de pessoas interessadas num determinado tema, especialmente aquelas que fazem parte de nossas redes de profissionais da educação, identificamos experiências relevantes, profissionais de referência, e estruturamos um período de estudos, observação e debates.

É claro que nunca uma experiência em educação pode ser integralmente transportada para uma outra realidade. No entanto, não há escolas, projetos ou atividades que não possam, de alguma maneira, disparar uma reflexão, promover uma mudança, inspirar uma ideia.

Porém, algumas equipes e escolas chamam a nossa atenção de modo singular, instigam através do contraste. Na Escola Colasso I Gil, tivemos a oportunidade de entender como, numa realidade tão desfavorável para o avanço das aprendizagens, a equipe da escola consegue tantas conquistas.

Para compreender, é preciso contextualizar um pouco o bairro do Raval. Trata-se de uma zona pobre, no centro de Barcelona, para onde chegam (ou chegavam) os imigrantes de todas as etnias e países: latino-americanos, paquistaneses, marroquinos, etc. A Escola tem mais alunos filhos de imigrantes (que mal falam as línguas da região, o catalão e espanhol) do que espanhóis. O diretor nos conta que já houve salas em que se falavam mais de 15 idiomas distintos!

A equipe técnica (diretiva) tem três pessoas, o diretor, a chefe de estudos (que corresponderia à nossa coordenação pedagógica) e a secretária, e estão nesta mesma unidade escolar há muito tempo. Todos dão aulas também, pois, em Barcelona, é inimaginável cargos técnicos sem a devida complementação em aula! Menciono isso porque me parece que este detalhe faz toda a diferença para o andamento do trabalho – os coordenadores conhecem a verdadeira escola: os alunos, os pais, os processos de trabalho e suas modificações ao longo do tempo.

A escola cumpre a função de escola e, ao mesmo tempo, de assistência social, de modo que os problemas e afazeres do dia-a-dia são tão diversos e complexos que ela se torna incomparável com as demais instituições escolares! E lá, no meio desta dificuldade toda, encontramos duas professoras, Núria Cervera e Anna Pérez, que não se contentaram em oferecer mais do mesmo para seus alunos! Elas desenvolveram projetos interdisciplinares utilizando uma série de recursos tecnológicos de dar inveja a qualquer escola privada brasileira, cheia de equipamentos e cursos de treinamento aos professores.

As professoras se apoiaram e juntaram as turmas para poder atender melhor aos alunos. Eram mais de 50 que trabalhavam em subgrupos. Uns criavam histórias em forma de filmes de vídeo usando o Pinnacle Studio para a edição, outros elaboravam posters sobre o percurso que a comida faz no corpo até ser digerida, usando uma das várias ferramentas gratuitas da web 2.0 usadas pelas professoras, chamada Glogster (http://www.glogster.com), e outros ainda nos mostravam, orgulhosos, o levantamento dos prédios modernistas de Barcelona, usando um aplicativo de geolocalização que permite a gravação das vozes dos alunos e a elaboração de um guia de áudio com o Woices (http://woices.com/).

Crianças pobres, filhas de pais possivelmente desempregados na atual Espanha em crise, mas desafiadas por professoras comprometidas, estavam engajadas em suas pesquisas, orgulhosas de seus produtos, generosas e disponíveis, nos explicando detalhadamente o que haviam aprendido com este projeto!

Mais tarde, para finalizar este percurso, conversamos com as professoras, que revelaram seu processo formativo: participaram de algumas comunidades virtuais de troca de experiências com outros professores e fizeram esta parceria, o que permitiu uma gestão mais adequada das duas turmas, em subgrupos. A escola possuía uma boa estrutura de rede, o que facilitava o acesso à internet, e os aplicativos foram explorados, muitas vezes, com a ajuda dos próprios alunos.

“Bem, entendemos que não há como ignorar esta questão e tratamos de nos capacitarmos. Fomos atrás de aprender, para não deixarmos nossos alunos alheios ao mundo virtual.”

Uma beleza! Sorte nossa termos podido conhecer experiência tão gratificante!

Quando o professor torna-se orientador.

Pedro Henrique Raveli, Gislaine Rasi, Celina Martins, Daniela Munerato e Adriana Reali

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Por Sônia Barreira

Uma antiga orientadora minha, quando me chamou para fazer parte da equipe de orientação me fez duas perguntas que me parecem ainda hoje bastante válidas: a) você está preparada para atravessar a ponte e não voltar? b) você saberia lidar com seus colegas numa outra posição dentro da instituição?

Muito possivelmente, naquela época eu não dei a devida atenção ao sentido destes dois questionamentos, porque imediatamente aceitei o desafio de assumir a orientação de parte da equipe da antiga e pequena Escola da Vila. Mas, o exercício da função foi me obrigando a ressignificar o que minha orientadora tentava me preparar.

Ao ingressar numa escola, seu foco profissional está voltado para os processos de aprendizagem dos alunos, foi isso o que o levou até lá porque  é isso que fascina e envolve o profissional da educação. Ao assumir a função de orientador, seu foco passa a ser outro: o processo de desenvolvimento do professor. E por mais que isso esteja intimamente relacionado com os alunos, seu alvo é outro!

Ajudar o professor a refletir sobre o trabalho, dar sentido às propostas curriculares, compreender o enfoque metodológico, construir um ambiente favorável à aprendizagem, é um desafio e tanto para aquele que foi durante anos, professor de sala de aula. É preciso aprender que não se pode mais atuar como professor. O que está em jogo não é pensar quais as melhores formas de ensinar o aluno, agora o desafio é pensar quais as melhores formas de apoiar o professor.

O segundo desafio é sair do lugar confortável de colega e colocar-se como co-autor da prática pedagógica de outro profissional, co-responsável! É preciso saber fazer esta transição com segurança e serenidade!

Em nossa equipe isso é uma prática constante, muitos de nossos orientadores vieram da própria equipe, seja para o trabalho pedagógico, seja para o educacional. Alguns deles acumulam as duas funções, o que é ainda mais desafiador, pois o profissional tem de pensar de dois lugares distintos!

De todo modo, o grande conhecimento que têm da cultura institucional os ajuda neste percurso, assim como a interlocução com colegas que já passaram por isso. Mas, o maior apoio vem mesmo da equipe de professores, que já vê aquele profissional como referência na equipe de trabalho.

Em nossa escola nestes últimos anos, alguns professores passaram a assumir o trabalho de orientação, em vários segmentos. Processo facilitado pelo fato de já serem, anteriormente, referência importante para os colegas em suas áreas de atuação.

Nos próximos posts, apresentaremos estes profissionais!