O transporte público como uma opção: deslocamentos favoráveis à aprendizagem

Escola da Vila

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Por Joana Sampaio Primo

Visitas a museus e viagens de estudo são habituais nas escolas, já que se trata de atividades nas quais os alunos podem aprofundar suas aprendizagens a partir das experiências que o campo proporciona. Na Escola da Vila entendemos que tais visitas são fundamentais na escolarização dos alunos, pois elas permitem um novo envolvimento, seja no campo das Artes, seja no campo das Ciências ou da História.

Os 6ºs anos, por exemplo, estudam ao longo do primeiro trimestre a importância dos recursos hídricos para as sociedades e, consequentemente, as diferentes relações entre o uso desses recursos e o processo de urbanização. Faz parte desse estudo uma visita ao Pateo do Collegio, marco zero da cidade de São Paulo, que conta com uma maquete, croquis e mapas do crescimento da cidade vinculado diretamente ao Rio Tamanduateí e ao Rio Anhangabaú. Ademais, o Pateo do Collegio encontra-se no planalto de tais rios, no qual nossos alunos podem observar, do mirante, a canalização do Rio Tamanduateí. Destacamos, portanto, que a experiência de observar os rios canalizados que eles conhecem nas aulas, de andar do planalto ao vale do rio, possibilita outra apreensão do que está sendo trabalhado. Dessa forma, fica clara a importância que tais visitas têm para os objetivos de aprendizagem escolares.

Escola da Vila

Desde o ano passado começamos a refletir, aqui na unidade Granja, que o caminho até a cidade de São Paulo poderia igualmente favorecer a aprendizagem de nossos alunos. Não é novidade para quem mora na Granja que ir até São Paulo no horário de fluxo é uma tarefa árdua: há muito trânsito, por conta do grande número de carros e pela relativa escassez de transporte público. Assim, se ocorre algum imprevisto, por exemplo, uma chuva, o que já é ruim fica pior ainda. Como dissemos, o transporte público na região em que a escola se encontra também tem problemas, porém pegar o trem na Estação Jardim Silveira para ir até o centro de São Paulo demonstrou-se um deslocamento rico em outras aprendizagens para nossos alunos.

Escola da Vila

Utilizar o transporte público da região metropolitana, além de ser uma experiência que muitos de nossos alunos nunca tiveram, ainda os coloca em contato com os trabalhadores da região que utilizam esse meio de locomoção. No ano passado, por exemplo, quando foram ao Pateo do Collegio, os alunos de 6º e 7º ano tiveram a oportunidade de entrevistar os usuários de transporte público para conhecerem melhor as possibilidades de deslocamento da região e ampliarem seu estudo sobre o entorno da escola.

Além disso, andar de trem possibilita a observação das cidades-satélites de nosso entorno, possibilita entrar em contato com o mercado ambulante dentro do trem e outras situações que despertam a atenção deles, que os coloca em outra posição no interior da cidade. Evidentemente, essa experiência é mediada pelos professores que os acompanham, sensíveis em escutar aquilo que chamou a atenção de todos. E depois poderão continuar abordando esses temas em sala de aula.

A rua, o transporte público e o contato com a cidade de uma maneira menos mediada pelos muros da escola proporcionam uma aprendizagem diferente e tão importante como as visitas a museus. Essas experiências nos fizeram decidir que muitas das saídas que o Fundamental 2 da Granja faz em São Paulo começará no deslocamento deles, o próximo já está marcado: será na última segunda-feira do mês, quando o 6º ano visitará a exposição Rios Descobertos, no SESC Carmo.

Referências:

Visitar museus é conteúdo curricular.

Por que visitar museus e exposições?

Museu e Escola – O que pode essa parceria?

Cultura e festas populares na escola

 

Por Daniela Munerato 

“essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós…” (cantigas populares, cirandeiro) 

Com a tecnologia avançada, muitas vezes não conseguimos saber de onde herdamos determinados rituais, crenças. O desafio de compreender a dimensão da cultura além do contato trazido pela mídia é grande, num olhar de menos consumo e mais identidade, que representa um valor na educação. Na escola, valorizar a cultura faz-se necessário, porque precisamos vivê-la para fazer parte dela. Então, que venham as histórias, os rituais e as brincadeiras populares, dentro e fora da escola.

Escola da Vila

A cultura está presente no nosso cotidiano e é de todos nós! Cultura como celebração ou memória de histórias que precisam ser lembradas e retomam a identidade de um lugar, de um povo, de uma sociedade. Uma identidade construída através do tempo e da valorização de costumes que evidenciam os lugares por onde passamos. A relação com as pessoas e o entendimento sobre um local fica muito mais amplo se conhecermos a sua cultura.

Tradição é uma palavra bastante lembrada quando falamos desse contexto, com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de algo valioso, que precisa ser mantido, como os costumes, os comportamentos, as memórias, as crenças, as lendas que passam a fazer parte da vida das pessoas.

Escola da Vila

Na escola, elementos dessa tradição cultural ficam evidentes e são esperados, anunciados no calendário anual de atividades, postos como importantes temas de estudo, por meio da arte, história e geografia, por exemplo. A reflexão sobre o tema amplia o conhecimento de mundo e identidade.

Como exemplo das tradições culturais, temos os chamados festejos, como o carnaval ou a festa junina, comemorações apreciadas que acontecem no mesmo período sempre, com regularidade e muita preparação. Cheios de rituais, os festejos representam finalização de um processo que é elaborado com a dedicação do grupo que o prepara. Envolvem apreciações de músicas, imagens e trechos de festas anteriores. E na escola a equipe de professores prepara esse material de formação com muita animação.

Escola da Vila

No âmbito social, temos os “mestres” como responsáveis por passarem as bases das tradições, ensinando sobre o que está sendo festejado ou dançado, por exemplo, ajudando na compreensão das sutilezas dos símbolos que aparecem na cultura. As danças, assim como as lendas, representam uma das linguagens que nos fazem compreender uma cultura. Habitualmente, existem vestimentas, ritmos, decorações muito próprias com instrumentos, materiais e cores cheios de significados. São formas de dançar e brincar diferenciados.

As comidas típicas fazem parte das culturas, seja por um alimento bastante regional ou de safra em determinado período. É mais um motivo de união e coletividade que faz parte de comemorações, como na festa junina, por exemplo, e o número de pratos derivados do milho.

Escola da Vila

Assim, a cultura se dá nos espaços e tempos, ampliando histórias e favorecendo as interações.

Nove não são dez

No passado, vivemos situações como a abordada nesse texto que aqui compartilhamos. Essa sempre é uma reflexão tocante e necessária.

4_5_2016

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Por Fabiana Ribeiro, no blog PARATODOS

Festa de 8 anos do seu filho. Você resolve chamar todos os meninos da turma para uma festa de pijama. Nove garotos da sala. Todos, não. Todos menos um. Ah, todos-menos-um é quase igual a todos. E você é quase legal.

Mas você não contava com uma coisa. Vazou. Vazou no whatsapp da turma que vai ter uma festa. Poxa, que coisa, você tinha pedido discrição aos pais. Você segue com seus planos até que chega o grande dia. Lá está você, na escola, pra pegar os nove garotos que vão animar a sua noite. Nove garotos que não vão dormir nadica, que vão dar um trabalho do cão, que vão pedir suco de uva, quando só tem tem de caju, que vão querer Nescau, colo, travesseiro, água e televisão na hora do deitar. Que vão sujar o seu carpete de brigadeiro e ainda vão colocar o pé no sofá. É essa turma que entra na van. Do lado direito da fila indiana, lá está aquele menino esquisito que não fala, inerte no seu mundo, fora do contexto. Por sorte, nem viu a turma sair cantando, se distraiu com alguma coisa. “Melhor assim”, você pensa. Mas, você, já dentro do carro, vê a mãe do garoto que ficou pra trás. Não entende porque ela abraça o filho e discretamente chora. Nove não são dez. 

Então, você se pergunta em meio ao caos da van. “Por que mesmo não convidei aquele menino?” E você, claro, se lembra. Porque não se comporta como deveria. Porque ele não fala. Porque ele tem mediador. Porque ele pode babar nos brinquedos do aniversariante. Porque pode roubar o brinde antes do parabéns. Porque ele representa um risco para as demais crianças. Porque ele não brinca com as crianças, não interage com as crianças. Porque ninguém gosta dele. Porque ele tem Down ou autismo ou alguma dessas coisas complicadas. Porque, porque, porque… Você mal sabe o porquê, porque nunca se interessou. Nove não são dez. 

E você, se tiver o mínimo de sensibilidade, se dá conta da besteira que fez. E se arrepende. De não ter ligado para os pais do menino e dividido com eles o seu problema: vou dar uma festa de pijama para o meu filho, como podemos fazer para o seu filho participar? De não ter conversado com a escola para saber a opinião da professora sobre o garoto. De não ter sequer tentado. De ter feito um papelão na frente do seu próprio filho – que convive com o menino todos os dias e sabe, melhor do que você, incluir alguém na brincadeira. De ter cometido uma baita gafe pública, logo você que é cheia de valores morais tão consistentes. Nove não são dez. 

Então, você se pega pensando que, se a moda da exclusão pegar na turma, seu filho pode ser o próximo. Logo ele tão cheio de cachos e de bochechas rosadas, mas com certa intolerância a cumprir regras e combinados. “Coisa dessa geração”, você pondera. Lembra de filmes em que mães imploram para que seus filhos sejam convidados para as festas e garante que faria o mesmo pelo seu rebento. E, com coração apertado, pensa: “Nove não são dez”.   

Você, que era só simpatia quando ia à escola, nos últimos tempos se esconde. Você está com vergonha de encontrar aquela mãe. Tem medo de ela te olhar nos olhos e, apenas com os olhos, te lembrar que nove não são dez.

Nove não são dez, você bem entendeu.

#35anosescoladavila

Rogê Carnaval

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Por Rogê Carnaval

Lembro a primeira vez que ouvi o nome Escola da Vila na minha vida. O ano era 1997, eu refazia o 1º colegial numa escola tradicional do bairro do Pacaembu, muito perto de onde morava nessa época, Perdizes. Pelo meio do ano, meus pais se viram obrigados a devolver o apartamento alugado em Perdizes, e questões financeiras nos trouxeram de volta ao Butantã, onde temos um apartamento desde o início dos anos 80, no qual nunca havíamos morado. Acostumar-mo-nos com o novo bairro foi difícil, e talvez por isso meus pais nem sequer cogitaram nos trocar de escola. Foram anos difíceis, cruzando a ponte cotidianamente, enfrentando a intransponível Rebouças, morando muito longe da escola pela primeira vez na vida. Por outro lado, foi um tempo de novos aprendizados: usar o transporte público da cidade, o primeiro assalto (perdi um par de tênis que amava), desvendar outras partes da cidade distantes do bem comportado bairro de Perdizes.

O problema continuava sendo o desempenho nas exatas: matemática e física eram pedras no meu sapato! Um dia, uma amiga propôs que fizéssemos juntos aulas particulares com uma moça que ela jurava explicar matemática como ninguém. Conheci assim a Ligia. Ela estudava arquitetura e se sustentava com aulas particulares. Além de linda, eu a admirava pela inteligência e pelo posicionamento político. Lígia talvez nem saiba, mas me despertou de forma irreversível o interesse pelas questões sociais, algo que, lá na frente, seria decisivo na minha escolha profissional. Um dia, Ligia me perguntou: “Por que você continua estudando nessa escola tradicional, longe da sua casa, sendo que você parece infeliz lá? Aqui bem perto da sua casa tem a Escola da Vila, construtivista como a escola em que estudei, é a sua cara! Ou então o Equipe, que é bem pertinho também! Vai, se arrisca, Rogê!”. Eu pensei que não fazia sentido mudar de escola, já que, a essa altura, eu estava na metade do 2º colegial. Mesmo instigado pelo que ouvia sobre a Vila e o construtivismo, meus parcos 16 anos não me permitiram tão ousada mudança.

Em 2006, já na FFLCH, vivi uma experiência de moradia coletiva numa linda casa do Morro do Querosene. Naquele ano, um dos meus melhores amigos e que morava comigo, o Fábio, havia sido contratado para trabalhar como professor de História na Vila. Eu era professor de cursinho nessa época. O que se faz em termos pedagógicos em um cursinho é essencialmente diferente do que se faz em uma escola, especialmente na Vila. Conversando sobre as práticas pedagógicas da Vila com o Fábio, eu enfim começava a entender o que havia perdido por não seguir o conselho da Ligia. Me encantava ouvir os projetos, as propostas, as produções dos alunos do Fábio. No ano seguinte, comecei a trabalhar em uma escola da comunidade coreana no Bom Retiro, mas mantive-me também no cursinho. Aos poucos, me encantava mais o trabalho na escola, ainda que não desgostasse de forma alguma em trabalhar com os pré-vestibulandos. Em 2009, o Fábio já havia saído da Vila para se dedicar integralmente à carreira acadêmica. Mas mantinha-se dando o curso de Revisão para o vestibular, opcional aos alunos do 3º ano do Médio. Ocorreu que, por razões de agenda, ele não poderia dar as aulas de revisão naquele ano, e me indicou ao então coordenador do EM, Armando Tambelli. Durante 6 semanas, revisei com aquele 3º ano temas como Revolução Francesa, Revolução Inglesa, neocolonialismo. Foi então que entendi de vez a besteira que fiz ao não seguir o conselho da Ligia: que alunos! Que escola! Que astral! Aquilo existia mesmo! Fiquei realmente feliz com o trabalho que executei naquelas semanas.

Em 2010, o professor Pedro Ravelli assumiu a coordenação da área de Humanas no EM. Armando precisava de um professor de História que pegasse apenas uma turma, algo como 6 aulas. Aceitei imediatamente! E assim cheguei oficial e regularmente à Escola da Vila.

Em 2011, a Sônia me convidou pra permanecer no EM e assumir também o 9º ano. Hoje, à frente dos 8ºs e 9ºs anos, sinto que cheguei aonde queria, cheguei ao lugar certo. Gosto do trabalho que realizo, do projeto da Escola, onde, além de ensinar, aprendo muito, com alunos e colegas. Nesse lugar, fiz amigos pra vida, além de proporcionar às minhas filhas um ensino em que acredito e que eu mesmo acabei não vivenciando como aluno. Hoje, é impossível não pensar: a Ligia tinha mesmo razão.

Avaliação, a alma do negócio?

25_06_2014

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Por Lilian Ceile Marciano

A avaliação está no centro dos processos educativos, indissociável do ensino desde quando a escolaridade se tornou obrigatória. A forma como uma escola avalia, o que ela avalia e como interpreta e comunica essa avaliação também comunica muito sobre a própria escola.

O que responderíamos à pergunta que intitula este post? Vejamos um exemplo de uma escola que avalia apenas por provas consideradas, por alunos e professores daquele projeto, como bastante difíceis. A grande maioria dos alunos tem baixo ou médio desempenho, são poucos aqueles que atingem a excelência. Qual a representação que usualmente se tem dessa escola? É muito comum que seja avaliada como uma escola-forte, uma escola exigente. E, por essa ótica, o contrário seria válido: uma escola em que muitos alunos são bem sucedidos seria considerada uma escola fácil, portanto, fraca. Assim, responderíamos positivamente a pergunta inicial: sim, a avaliação é a alma do negócio, estigmatiza a ignorância de alguns, celebra a excelência de poucos, comunica socialmente a imagem de uma boa escola e também um excelente “negócio”.

Então, uma escola forte não avalia as aprendizagens? Tampouco propõe provas rigorosas? Sabemos que avaliar, em algum momento, também é criar hierarquias de excelência, em função das quais se decidem as progressões entre as séries e as certificações ao final dos ciclos da escolaridade. Entretanto, em uma escola que se dedica à aprendizagem de seus alunos, a avaliação tem função muito mais ampla; ela está a serviço da promoção de ajustes durante o processo de ensino e aprendizagem.

E qual seria, então, a essência da avaliação na Escola da Vila?

Avaliamos para ensinar melhor.

Avaliamos para tomar decisões mais acertadas sobre o que e como ensinar. A interpretação sobre o que sabem e o que não sabem os alunos, as diferentes formas como resolvem os problemas nas diversas áreas do conhecimento são ferramentas de trabalho para o professor. É a partir da análise realizada sobre a produção dos alunos que se planejam as aulas. Estas serão tão ajustadas à demanda do grupo quanto mais específicas forem as informações obtidas sobre os saberes (e não apenas os não saberes) dos alunos. Essas informações são obtidas por meio de uma diversidade de instrumentos, uma prova, atividades realizadas em aula, um texto, o olhar atento do professor, em trabalhos realizados individualmente ou em pequenos grupos, entre tantas outras possibilidades. A análise dos desempenhos contribui para que se possam fazer ajustes no trabalho a ser realizado com cada um dos grupos; em muitas ocasiões, dão origem à proposição de trabalhos diversificados, e para um olhar criterioso para o currículo escolar. Para nós, é altamente relevante que a avaliação esteja a serviço das aprendizagens de nossos alunos. A análise da produção dos alunos é aspecto central em nosso trabalho e, por essa razão, é tema norteador para o Simpósio Interno[1] deste ano.

Sendo assim, nós também respondemos afirmativamente a questão inicial no título deste post. Consideramos a avaliação “a alma e o segredo do negócio”, ela está no centro dos processos de ensino e de aprendizagem e nela também está a nossa força.


[1] Todos os anos, a Escola da Vila organiza um Simpósio Interno, em que toda a equipe pedagógica participa apresentando trabalhos investigativos relacionados à sua prática. Conheça algumas dessas produções na revista Conversa de professor