Ah, a Vila Literária!

Vila Literária

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Por Vicente Régis, coordenador do Setor Cultural,
com a participação de Francisco Zardo de Melo, aluno do 6º ano

No segundo semestre, no dia 21 de outubro, teremos a quarta edição da Vila Literária. Para quem não o conhece, este é um evento de celebração da literatura, da poesia, da metáfora e da arte. Momento de celebração da coragem de se jogar em uma produção artística que revela um pouco mais do que somos, de nosso imaginário. Momento de entrar em contato com artistas que fazem do ato de inventar, escrever e contar histórias, recitar poemas ou criar oficinas seu principal caminho no mundo. Momento de celebração da literatura como linguagem que nos constrói, nos diverte, nos emociona e nos informa.

Além das oficinas, exposição de trabalhos de ilustradores, intervenções artísticas, oficinas diversas e uma feira de troca de livros, entre outras surpresas, teremos a premiação do IV Concurso Literário, concurso este que conta, a cada edição, com a participação de mais e mais estudantes do 2º ao 5º ano do Fundamental 1.

Este concurso prevê um processo de escolha de destaques que serão homenageados no dia do evento, e alguns dos textos são escolhidos pelo Grupo de Teatro do Ensino Médio para serem encenados ao público presente.

Mas o que um concurso escolar tem de importante? Entendemos que o real ganho de um convite como este está em estimular a produção literária autoral dentro da escola, abrir espaço para mais uma situação de produção textual, porém com menos tutoria dos adultos, espontânea e de livre adesão.

Acreditamos que os grandes ganhadores deste concurso são os alunos e as alunas que participam, que se empolgam e abraçaram o convite! Isso porque escrever um texto para um concurso é uma atividade bastante potente para o desenvolvimento da escrita e da habilidade de inventar narrativas e afins, que complementa a formação literária feita em sala de aula, quer seu texto ganhe destaque ou não. Quando as crianças se atiram em uma tarefa como esta, faz-se necessário lançar mão de muitas das competências desenvolvidas em anos de processos relacionados ao ato de escrever. E isso vale muito mais do que a seleção dos destaques.

Convidamos o aluno Francisco Zardo de Melo, atualmente no 6º ano, que participou das edições anteriores, para compartilhar seu depoimento!

“Ah, a Vila Literária!

É uma experiência incrível. Você se dedica um tempo, mas não é um tempo mal gasto. É um tempo gostoso, um tempo muito bem gasto. Na primeira vez, foi uma empolgação incrível. Descrever uma bruxa, usando a pura imaginação. Após muito trabalho, ver seu texto reconhecido, subir em um palco pra falar pra um monte de gente. Ter esse reconhecimento é demais!

Na segunda vez, estava mais tranquilo. Já tinha mais experiência como leitor. Tinha que escrever sobre minha família, alguma história engraçada. Escrevi sobre a vinda de uma humilde família portuguesa em busca de novos ares em território brasileiro. Escrevi com muito empenho, e me restou esperar. E, de novo, acabei ganhando. A mesma sensação, a mesma empolgação. Falei de novo para um montão de gente. Nem tanta gente, mas a empolgação traz a sensação de uma multidão. De novo a sensação de reconhecimento. Essa experiência que levo até hoje e vou levar para toda a minha vida. Um trabalho, um tempo, muito bem gasto, e que traz alegria, reconhecimento, empolgação e diversos sentimentos incríveis que todos vão levar para toda a sua vida, cada um de um jeito.

Bom, essa é minha experiência com a Vila Literária e com tudo que a Vila nos traz de literatura.” 

Aguardamos ansiosos as inscrições de todos os textos de nossos alunos e alunas para mais uma emocionante edição!

E, para os leitores interessados, compartilhamos aqui as revistas das edições anteriores com todos os textos entregues na I, II e III Vilas Literárias!!!

Festa Junina da unidade Granja Viana. Um evento feito por todos e para todos

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana
Clique na foto para acessar o álbum da festa no Flickr da Vila

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Por Vania Marincek, diretora da unidade Granja Viana

No sábado deste fim de semana, aconteceu a Festa Junina da unidade Granja Viana, e foi um sucesso. Muita animação, muita dança, muita alegria!

Quem esteve na festa pôde ver o cuidado com que a escola foi preparada para o evento, mas nem todos sabem que, para que isso acontecesse, houve trabalho de muita gente, e não só de quem trabalha na Vila.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Desde o planejamento e a concepção feitos pela equipe do setor cultural, passando pela decoração, confeccionada por todos da equipe administrativa, a organização do espaço e montagem da decoração pela equipe de manutenção e limpeza, até a confecção das prendas das barracas, elaboradas pelos alunos e professores de cada turma.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Esse tem sido o tom de nossas festas desde o primeiro ano da Vila na Granja. No primeiro ano tudo era novo, alunos, pais, funcionários e professores, todos estavam chegando e se conhecendo. Era o início de uma nova comunidade que começava a se constituir em cada ação com as crianças, em cada encontro com as famílias, e a festa junina cumpriu um papel importante nesse processo por ser uma festa com a participação de todos, com o foco na diversão e no aprendizado das crianças.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa com a qual todos se comprometeram, a começar pelas prendas que foram feitas pelos próprios alunos. O resultado foi lindo, as crianças se divertiram a valer nas barracas e valorizaram as prendas que ganhavam nas brincadeiras, tinham orgulho por terem feito cada uma delas. Era algo feito por eles e para eles.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Com a evidência do sucesso de nossa festa, no ano seguinte criamos as oficinas para pais, uma forma dos pais participarem de maneira mais efetiva. Oficinas semanais, no mês que antecede os festejos, em que as famílias podem participar ajudando na confecção das prendas e dos adereços que serão usados na decoração do evento.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Cada um participa como e quando pode. Algumas oficinas contam com um número grande de participantes, outras com uma menor participação, mas o que é unanimidade no depoimento de quem já participou é o prazer em produzir algo para as crianças e sentir-se mais próximo dos filhos e da interlocução com outros pais.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

A festa deste ano foi a nossa 4ª festa junina, e vimos nossa opção por fazê-la com a cooperação de todos reforçada em muitos momentos. Nos depoimentos dos alunos em sala, que contam que guardaram com carinho as prendas recebidas em outros anos, no envolvimento deles na produção das lembranças, desde os pequeninos do 1º ano até os mais velhos do F2; na participação não só dos pais nas oficinas, mas também de avós que vieram e ajudaram muito e, por fim, no clima contagiante do dia da festa.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa feita por todos e para todos os que convivem juntos no espaço da Escola!

Um momento de suspensão

Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no flickr

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Por Tuna Serzedello

Olhos atentos observando filhos, alunos, colegas transformarem o espaço da escola em um lugar de sonho, lembranças, histórias, memórias individuais e coletivas.

A potência do teatro, latente nos alunos-atores, grande demais para ser contida em um corpo (ou vários) invade a sala e as mentes e os corpos dos espectadores, obrigada a seguir o elenco pelos espaços da escola, numa ação teatral que não fica presa a um só espaço da instituição, mas invade todos os outros.

Aqueles, pais e professores, acostumados a mostrar o caminho a ser seguido pelos jovens, neste momento de suspensão, se deixam levar pelos alunos-filhos-atores.

São muitas as denominações para esses jovens, sem contar os papéis que assumiram na peça Terror e Miséria do III Reich, mas que, como quer o autor alemão, com distanciamento brechtiano, sem deixar de serem eles mesmos, de exercitar sua consciência crítica.

Empoderados da força das convenções teatrais, que como uma onda transformadora, como um “superpoder” adquirido, vão se transformando e transformando ao seu redor: escola vira palco, que vira cozinha, que vira hospital, que vira trincheira. Espaços imaginários que se materializam ali, naquele mesmo lugar, no qual durante o dia se aprende matemática, química e literatura: um grande espaço transformador.

O mundo é grande demais e cabe inteiro nas salas dessa escola, que processa e devolve o aprendizado por meio de seus alunos, em forma de ato: de teatro.

O protagonismo jovem se exercita nesse palco da escola, que permite ser transformada por eles e assim os transforma.

O ato de transformar é transformador” diz o homem de teatro Augusto Boal.

Que os aplausos que nos despertaram desse momento de suspensão nos façam perceber a grandeza do feito de todos os envolvidos ali: pais, professores, alunos e funcionários da escola.

Hoje, quando voltarmos à “normalidade” da vida escolar, jamais nos esqueceremos de que aquela sala, ontem, foi um tribunal do III Reich, e que aquele aluno, sentado ali, carrega em si um ator. E ator é aquele que age.

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Relato de Rafaela Sérpico

“A vida é o que fazemos com nosso tempo.
Eu gosto de fazer teatro, e pra mim, minha vida só começou de verdade no momento em que fiz a primeira aula, em que li o primeiro livro em forma de peça e fui em uma peça. Quando subi em um palco pela primeira vez, devo admitir, achei que meu coração ia sair pulando e roubar minha cena.
Esse ano, fiz uma das peças que mais me entusiasmou.
Às vezes, treinando no meu quarto e falando “Heil Hitler” dava vontade e até cheguei a chorar diante de tudo que esta expressão tem por trás…
Mas, ao mesmo tempo, eu consegui me conhecer mais, consegui perceber que mesmo com todo esse valor de “bem” e “mal” imposto pela sociedade, todos temos ambos os lados, e todos devemos expressá-los e não guardar e guardar dentro da gente, porque eu sei que uma hora isso precisa sair. E essa peça me ajudou por isso, porque ela me mostrou esse lado, de que é importante ser aquilo que você não é, falar aquilo que você mais despreza e simplesmente encarar isso mais do que tudo, como uma forma de aprendizado e justa oportunidade de poder dizer tais diferentes concepções, afinal, a realidade dessa peça não é a minha, eu disse coisas que jamais pensaria ou teria tal visão de mundo. Mas eu me senti mais leve e eu não estou dizendo que meu lado “mal” é nazista, porque eu não sou nazista de lado nenhum.
O que quero dizer com tudo isso é simplesmente que eu percebi com essa peça, que o teatro é a melhor forma de colocar o lado “mal” para fora e é também a ferramenta que mais me traz autoconhecimento.
“Terror e miséria do III Reich” foi uma experiência simplesmente incrível, e por mim eu sairia pelo mundo todo apresentando ela e falando esse texto maravilhoso, e que trouxe o que nenhum dos milhões de filmes sobre o nazismo que eu assisti jamais me mostraram e representaram.
Fazer essa peça e usar meu tempo pra ensaiar ela em casa ou na escola foi a experiência que me mostrou que, da minha vida, que é o que eu faço com o meu tempo, quero fazer teatro, afinal, não existe vida onde não há teatro.”

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Relato de Carolina Alayon

“Nós do Grupo de Teatro 2016 da Escola da Vila, realizamos a peça “Terror e a Miséria no Terceiro Reich” por Bertold Brecht, dramaturgo poeta alemão. Foi escrita entre 1935 e 1938, fazendo uso de recortes de jornal, notícias recebidas da resistência – Brecht vivia então na Dinamarca –, rádio, ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich, que se estabelecia. É um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazista. Uma coleção de instantâneos saída de casas operárias e cortes judiciais, de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas, de campos de concentração e aulas da juventude hitlerista. Mais do que retratar uma década mergulhada em equívocos, Brecht nos força a enxergar a decadência de toda uma sociedade, sufocada pelo terror.
Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título.
Os atores confirmam a ênfase desafiadora do texto e do caráter trágico, violento, repressor e opressor de seus personagens. Para atingirmos a compreensão do ato fora necessário muito esforço da parte de todos e ensaios acompanhados da direção de Tuna Serzedello, que disponibilizou obras de referência para estudo do grupo. Este diretor, que contribui maravilhosamente trabalhando arte/teatro com jovens, nos orientou no processo de construção do personagem e de ocupação do espaço da Escola para a apresentação, processo que demanda foco, bom gosto e disciplina.A profundidade e clareza do teatro, que consuma o momento histórico retratado em uma situação prática, é forte devido a temática, espelhada no período da Guerra nazista, do facismo hitlerista. Sua força intensa atinge o espectador quanto ser observador e sentimentalista, provocando um dilema reflexivo entre conforto e incômodo referente às condições físicas e emocionais tanto do personagem, quanto dos atores e dele próprio.”

XI Festival de Poesia. Tempo, espera e silêncio

Festival de Poesia da Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no Flickr

A missanga, todos a veem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso,
vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo

Mia Couto

Por Vicente Domingues Régis 

O que faz com que mais de mil pessoas se encontrem e destinem grandes porções de seu escasso tempo à poesia, uma prática tão antiga e tão distante dos atuais traços da sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela voracidade e pelo consumo? Qual força sobrepuja o desejo quase incontrolável, que nos direciona diariamente para a frente das telas de nossos dispositivos eletrônicos, fazendo com que direcionemos nossa atenção para uma, duas ou três pessoas que declamam lentamente textos de Mel Duarte, Mário de Andrade, Mayakovsky ou Wislawa Szymborska? Por que insistimos em nos sentar na grama, em silêncio, durante tanto tempo, envolvidos pelas vozes daqueles que ousam derramar íntimos sentimentos em um antigo coreto, embalados pelos maxixes, choros e marchinhas de compositores como Anacleto de Medeiros, nascido há cento e cinquenta anos?

Como resposta a estas questões, nos reunimos no sábado, dia 29 de outubro, em frente ao coreto do Parque da Chácara do Jóquei para a realização do XI Festival de Poesia: “A poesia na rua, a rua na poesia”. Foram seis horas intensas de declamação, música, performance, oficinas, exposições de trabalhos, e encontros. Seis horas de protagonismo dos jovens que frequentam nossa escola, das suas famílias, de seus professores, e dos demais membros da nossa comunidade.

O espaço para a realização desse evento foi gentilmente cedido pela administração do parque, mediante a contrapartida de esgotamento da fossa de um dos banheiros e pintura do coreto e da área externa do redondel, realizados pela escola. Tivemos um público estimado de 1.200 pessoas durante o evento, que contou com o concurso de poesia falada, no qual foram declamados poemas de Vinicius de Moraes, Ana Cristina Cézar e Solano Trindade, entres muitos outros autores, e mais uma série de ações. Dentre estas, destacam-se as oficinas de criação de pôsteres, origami, criação de proposta de arte visual baseada em poema, o show dos Batutas do Coreto em homenagem a Anacleto de Medeiros, compositor carioca de importância fundamental para música brasileira, e, ainda, as apresentações dos grupos de teatro do Fundamental 2 e do Ensino Médio. Como encerramento do evento, alunos do Ensino Médio criaram uma performance relacionando o conto Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, com as canções Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos − que ganhou letra de Ferreira Gullar e Terceira Margem do Rio − canção homônima do conhecido conto de Guimarães criada por Milton Nascimento e Caetano Veloso. Tudo isso aberto ao público que frequenta o parque.

Vale ainda lembrar que os mais de 150 poemas inscritos no concurso de poesia escrita, assim como as oitenta inscrições para o concurso de poesia falada são, em grande parte, ecos de uma proposta pedagógica que valoriza a sensibilidade, a subjetividade e o diálogo. Reverberam de uma proposta pautada na autonomia e na cooperação, como pode-se observar no belíssimo e fundamental trabalho dos mestres de cerimônia: Carlos Navas, Daniel Innecco, Gustavo Torres, Gabriel Sampaio, Mariana Assef, Sabrina Cardoso e Yuri Carvalho − que se organizaram para tocar o evento e precisaram de pouquíssimo auxílio do setor cultural e dos demais profissionais da escola envolvidos na organização do festival.

Certamente, são muitos os motivos que concorrem para que destinemos tanta energia e tempo num festival como este. Entretanto, são estes de natureza tão subjetiva, singela e variada que não cabem ser resumidos aqui. Vale concluir: sentimos a necessidade do encontro em torno do fio que vem sendo tecido em silêncio pelos poetas há tanto tempo.

Aproveitamos o momento para parabenizar mais uma vez os vencedores dos concursos de poesia escrita e falada:

Poesia Falada

Categoria A

1o lugar: Bento Sipahi Pires Gonçalves dos Santos.

2o lugar: Alice Rossi, Lola Aguiar, Dora Mariani, Sofia Camargo.

3o lugar: Majoí Sotero Costa.

Menções honrosas: Frederico Kipnis e Luis Fernando Souza Dória.

Categoria B

1o lugar: Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Cecilia Neves Nannini, Marina Gregori Tokita, Manuela Arruda Pinto Lima, Paola Franceschini Giovanolli.

2o lugar: Lorena Polo.

3o lugar: Giulia Guarrera Zanetti.

Menção honrosa: Helena Veliago Costa e Laura Santanda.

Menção honrosa: Sofia de Carvalho Galvão e Fernanda Contarelli Lima

Categoria C

1o lugar: Median Aurea Trigo Grotti Vidal Costa.

2o lugar: Juliana Giannini, Luiza Moraes e Clarice Barreira.

3o lugar: Paula Lisboa e Teresa Lisboa.

Menção honrosa: Noam Rafael Kramer.

Poesia escrita

Categoria A

1o lugar: João Pedro Sequeira Rocha, “Infinito”.

2º lugar: Benny Sadka, “Marola”.

3º lugar: Bruno França, “Amor aleatório”.

Menções honrosas:

Nicolas Fernandes, “Negritude”.

Anne Hirata, “O tempo”.

Categoria B

1º lugar: Beatriz Bannwart Novaes, “sem título”.

2º lugar: Catarina Simonetti de Mattos, “Epinaufraga”.

3º lugar: Lua Bonduki de Sousa, “cena estática”.

Menções honrosas:

Bruna Duarte Savietto Frati.

Júlia Menezes, “A menina de cá”.

Tempo de colheita

Festa Junina Escola da Vila

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Por Vicente Domingues Régis

[...] Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro, não chores não viu,
Que eu voltarei, viu, meu coração [...].

Muitas são as histórias sobre as origens da Festa Junina. Dentre as várias referências, destacam-se relatos sobre festas realizadas para celebrar a colheita na Antiguidade, no norte da África e na Europa, no período do solstício de verão, próximo ao dia 21 de junho para o calendário atual. Nessas festas, a fertilidade da terra era celebrada com música, dança e comida, e grandes fogueiras eram acesas para espantar maus espíritos e reunir as pessoas. Com o avanço da religião cristã na Europa, as festas passaram a celebrar São João Batista, protetor da colheita, assim como Santo Antônio e São Pedro. No norte da Europa, em países como Suécia, Finlândia e Dinamarca, grandes festas acontecem nesse período, desde os tempos dos vikings, com grandes fogueiras que marcam o início do verão. Na Suécia dá-se o nome de Midsommar ao feriado mais esperado pelo país, que celebra a fertilidade da natureza em uma festa familiar, que para muitos tem mais importância do que o Natal, no qual dançar em volta de um mastro é um momento bastante marcante.

Trazidas pelos europeus que passaram a habitar nosso país desde as navegações, as Festas Juninas foram incorporadas pelos povos que aqui se fixaram, resultando, portanto, num grande encontro de culturas e costumes de diversas partes do mundo. Aos poucos, as festas foram adquirindo forma, até ganharem forte elemento de identidade regional. Das gaitas e paus-de-fita do sul, ao carimbó e às saias de chita do norte, passando pelas quermesses do sudeste, pela viola caipira do centro-oeste, e pelas festas de São João do nordeste, as Festas Juninas guardam como semelhança a celebração da colheita, a música, a dança e a fogueira. Milho, pinhão, mandioca e diversos outros alimentos são servidos em volta do fogo, com muita música, dança e alegria, ajudando a criar um ritual que marca o ciclo da natureza e a passagem do tempo. Esse ritual registra, a meu ver, o paradoxo do advento do novo versus a manutenção de antigos costumes: quando dançamos na Festa Junina celebramos a capacidade humana de compreender e controlar parte dos processos da natureza, à medida que nos entregamos à inexorável transformação da nossa cultura e da nossa vida pela passagem do tempo.

Dentro desse panorama, é curioso ver como muitos elementos da nossa festa aqui na Vila remetem a esse paradoxo. Desde os bolos de milho e de mandioca aos sanduíches de pernil, hot-dogs e pastéis. Desde a sanfona, o pandeiro e a zabumba, até a sofisticada estrutura de som que montamos, passando pelos vestidos caipiras, camisas xadrezes, laços de fita, saias de chita, chapéus de palha e botas de cowboy. São muitos os elementos que nossa comunidade escolhe para se encontrar na escola e celebrar o crescimento das crianças e adolescentes que estão conosco. Uma das explicações para a emoção que sentimos ao assistir às crianças dançarem também remete a esse paradoxo: a dança nos mostra como somos capazes de nos organizar coletivamente e reverenciar antigos costumes, ao passo que acolhe a individualidade de cada um, na sua maneira particular de dançar e no seu processo de crescimento.

Mas, e a nossa fogueira, onde se encontraria na festa? Será que um elemento tão importante das Festas Juninas não poderia compor a nossa festa? Não temos o costume de fazer uma fogueira. São muitas crianças juntas, e lidar com o fogo nessa situação acaba gerando grande apreensão. Entretanto, é importante lembrar que o fogo é um dos símbolos atrelados ao conhecimento. Segundo uma interpretação do mito de Prometeu, por exemplo, o fogo roubado representa a audácia humana em busca do saber e sua vontade de compartilhá-lo. Acredito que, em nossa Festa da Colheita, aqui na escola, celebramos o ciclo de renascimento dos saberes e dos valores que cultivamos, em nossa eterna insistência em nos organizar coletivamente para saudar nossa ancestralidade e receber o desconhecido.

Veja as fotos da Festa Junina no Flickr da Vila:

Unidade Granja Viana

Unidade Morumbi, F1, álbum 1

Unidade Morumbi e Butantã, F1, álbum 2

Unidade Morumbi e Butantã, F2, Ensino Médio e ex-alunos, álbum 1

Unidade Morumbi e Butantã, F2, Ensino Médio e ex-alunos, álbum 2

A poesia na rua, no parque, no coreto, no jardim. A poesia na música, na dança, no teatro, no desenho. A poesia na vida.

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Algumas oficinas da SAD estão registradas neste vídeo. 

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Por Vicente Domingues Régis e Luisa Furman

“O diabo na rua,
 no meio do redemoinho.”

Abrir as portas, baixar os muros e intensificar o contato da escola com a comunidade é um desejo de alunos, pais, professores e demais atores sociais de qualquer instituição escolar. Quem não sonha com um lugar de portas abertas, no qual os “ventos sopram livremente”, transportando o conhecimento do mundo para a escola e o conhecimento da escola para o mundo?

Diante desse desejo, muitas são as tentativas de intensificar o contato da escola com a cidade e com a comunidade. As linguagens artísticas favorecem esse contato, uma vez que brotam de questões que perpassam simultaneamente todos os aspectos da nossa existência: a cidade e o indivíduo, a universalidade e o cotidiano, o sagrado e o profano, e qualquer outro tipo de dualidade existencial que possamos nomear.

Por conta disso, elegemos a poesia na rua, a rua na poesia como tema do XI Festival de Poesia da Escola da Vila, que será realizado no dia 22 de outubro. A rua como caminho, encontro, solidão, manifesto, confronto, desejo de futuro, lugar da brincadeira, símbolo de progresso e morte da natureza. A rua como fragmento essencial do espaço coletivo no qual a poesia e as demais linguagens artísticas habitam de forma a dar vida ao nosso redemoinho de questões, paradoxos, desejos, devaneios, anseios, delírios e demais aspectos da condição humana.

Para o lançamento desse tema e divulgação do Festival para nossos alunos do Ensino Médio, preparamos uma ação na Semana de Atividades Diversificadas (SAD) do mês de maio. Essa ação consistiu de uma série de oficinas que desembocaram num sarau realizado no coreto do recém-inaugurado Parque Chácara do Jockey. As oficinas abordaram linguagens tais como: dança, fotografia, declamação e Poetry Slam, com o propósito de contribuir e ampliar o repertório e os recursos para que nossos alunos pudessem ter acesso e participar do Festival. Para o sarau, apenas abrimos o microfone e deixamos que os alunos se manifestassem livremente.

Foi bonito de ver! A resposta dos alunos nos surpreendeu! Alguns deles cantaram, outros declamaram, tocaram, e muitos ouviram. E o parque, com sua paisagem e sonoridade tão características, nos acolheu num belo dia de frio e sol.

Atividades pedagógicas que complementam o currículo

29_2_2016

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Por Sônia Barreira 

Todos sabem que o tempo usado pela escola para atividades de ensino formal é limitado, e há uma discussão constante sobre a melhor maneira de usá-lo. Há quem defenda um menor número de propostas estruturadas e obrigatórias para que os estudantes tenham possibilidade de escolher atividades que complementem seu currículo. Há quem pense que não se pode dispor do tempo didático para nada que não seja essencial.

Embora essas posições sejam antagônicas, ambas são verdadeiras. Há muito que se propor, e a escolha individual é também tão importante!

Recentemente, a aprovação da lei que obriga as escolas a inserirem Música, Teatro e Artes Visuais no currículo foi comemorada por todos os educadores. Há algum tempo, comemorou-se também a obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia no currículo do Ensino Médio. Isso para não mencionar a ampliação de um para dois idiomas no currículo, que também foi muito bem-vinda. Sem dúvida, quanto mais rico o currículo, melhor.

Mas, se isso tudo é inserido na jornada semanal e nada é retirado, o que, de fato, acontece? Os alunos ficam mais tempo na escola? A escola faz mágica?

No caso da Escola da Vila, a jornada do Ensino Médio é de 6 horas diárias, o F2 tem mais do que 5 horas, a Educação Infantil tem proposta de período integral para os que necessitam. Será que a solução é essa? Aumentar a permanência dos alunos na escola?

Enquanto desenhamos soluções criativas para as propostas curriculares e temos a maior jornada escolar que nossa escola suporta, desenvolvemos outras possibilidades, num cardápio amplo que articula propostas variadas para incentivar nossos alunos a aprenderem em outros campos do conhecimento.

Os cursos e as propostas de atividades de extensão curricular são opcionais, escolha dos alunos e das famílias. São coordenadas pelo Setor Cultural ou pelo Setor de Esportes, e pretendem complementar o currículo com atividades que vão desde as práticas de esportes até as culturais variadas como teatro, música, leitura, programação, passando também por propostas com maior diálogo com o currículo, como as práticas de investigação científica e os desafios matemáticos. Há um leque amplo que se atualiza a cada semestre, em função dos interesses e potencialidades de cada faixa etária.

A ideia, portanto, não é oferecer aleatoriamente cursos sobre várias temáticas, mas sim construir, ano a ano, uma oferta que seja realmente formativa e coerente com o Projeto Pedagógico da Escola da Vila. No momento é a forma que encontramos de oferecer simultaneamente um currículo rico e estável, e um conjunto de opções para nossos alunos.

A maior parte desses cursos começou na semana passada, mas ainda é possível fazer uma aula experimental para conhecer melhor as propostas. Veja o nome do curso e os horários aqui.

Sustos e arrepios pelas ondas do rádio

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Por Luíza Zaidan, Professora de teatro do Ensino Fundamental 1 e 2

Escolher um material para trabalhar nas aulas de teatro nunca é uma tarefa fácil. Os desejos são muitos, as opiniões entram em conflito: história de princesa, roteiro de filme americano, tragédia grega, poesia. Há quem queira contar os casos da própria família ou brincar de ser o autor.

“Do que vocês querem falar?” Surge um festival de mãos se erguendo, depois que a professora de teatro ataca com a clássica pergunta. Apesar de comum, esse questionamento está sempre no ar. Porque é dele que surge o impulso de realizar no teatro. O que lhe toca, individualmente? O que mobiliza esse grupo, em especial? Como unir, em um único texto, as necessidades e paixões de toda a turma? No primeiro semestre de 2015, a resposta veio em coro: “Queremos contar uma história de terror! ”

Sim, pode ter sido algum evento astronômico, influência dos filmes ou a mais pura coincidência. O fato é que todas as turmas de teatro – do Ensino Fundamental 1 e 2 – queriam trabalhar os tais contos de mistério. Ou, como dizem os alunos menores, “as histórias de susto”.

Tema escolhido, atacamos o desafio seguinte: contar histórias de medo usando nossos jogos, as ferramentas próprias da aula de teatro. Com os alunos mais velhos, fomos beber na fonte do mestre, levando para a cena contos de Edgar Alan Poe. Os mais novos mostraram interesse especial pelas lendas brasileiras e os arrepios que podem causar o galope de uma mula-sem-cabeça ou os uivos do lobisomem. Mas ainda não tínhamos completado nossa escolha.

Foram dois meses de pesquisa até encontrar o estímulo perfeito. Mais uma vez, a reposta veio dos alunos, que leram no livro Minha Querida Assombração, de Reginaldo Prandi, as palavras que procuravam para tirar o fôlego dos espectadores.

No livro, uma família paulistana viaja para uma fazenda, no interior do Estado. Durante as férias, além de entrar em contato com a cultura caipira, as crianças ficam fascinadas com os casos fantasmagóricos contados, a cada noite, pelos anfitriões do lugar.

Mas o que, naquelas histórias, fazia a turma ficar de cabelo em pé? Aos poucos, os mecanismos do suspense foram se revelando: sons assustadores; uma maneira especial de narrar, com pausas escolhidas a dedo; personagens com vozes roucas e misteriosas. O terror não estava tanto nos acontecimentos, mas na maneira de contá-los.

Logo, os recursos sonoros se mostraram um forte aliado. O galope de um animal feroz poderia vir de dois pedaços de madeira batidos contra o chão. Um instrumento musical lembraria o som da chuva que atravessa as cenas de mistério. Com os próprios corpos, os alunos começaram a trazer vendavais, portões enferrujados e fantasmas para dentro da sala de aula.

De olhos fechados, ouve-se um tanto e o resto se imagina. Voltamos no tempo para buscar, na linguagem das radionovelas, os recursos que serviriam às nossas histórias de terror. A ideia era abrir mão de cenários, figurinos e do tão estimulado sentido da visão, para mergulhar de vez no território do ouvir e contar uma narrativa usando apenas os sons. Além disso, seria uma ótima oportunidade de experimentar uma nova maneira de interpretar. A composição física das personagens, suas maneiras de andar e agir, os acontecimentos da história, tudo foi pesquisado para que, depois, cada detalhe fosse condensado na voz dos alunos/atores.

A estrutura em capítulos do livro de Reginaldo Prandi favoreceu um trabalho coletivo entre todas as turmas. A cada episódio da radionovela Contos da Meia-noite (título escolhido pelos alunos de teatro), um grupo do Fundamental 1 ou 2 narra uma história de terror que assombra o pessoal da Fazenda Velha.

Agora, chegou a hora de acompanhar o resultado desse trabalho. Junte uma boa dose de coragem com chá e bolo caipira de fubá. Reúna a família como se fazia antigamente, em volta dos antigos aparelhos de rádio e… bom proveito pro’cês! 

Radionovela Contos da Meia-noite

Capítulo 1: O Poço do Destino – Turma de teatro do Fundamental 2.

Capítulo 2: A Noiva da Figueira – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Morumbi.

Capítulo 3: A Volta da Mula-sem-cabeça – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Butantã, período da manhã.

Capítulo 4: O Baile do Caixeiro Viajante – Turma de teatro do Fundamental 1, Unidade Butantã, período da tarde. 

Bem-vinda III Vila Literária!

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Feira de troca de livros

Por Fernanda Flores

“É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. (…)

É o que a literatura oferece e abre a todo aquele que deseja entregar-se à fantasia. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar, romper o limite do provável. Sua fundação reflexiva possibilita ao leitor dobrar-se sobre si mesmo e estabelecer uma prosa entre o real e o idealizado. A leitura literária é um direito de todos e que ainda não está escrito.”

Bartolomeu Campos de Queirós.
Manifesto por um Brasil literário.
FLIP 2009

Em outubro, mais precisamente no sábado, dia 24, teremos a terceira edição da Vila Literária, evento de celebração da literatura, da poesia, da metáfora e da arte. Momento de viver a coragem de se jogar em uma produção artística que revela um pouco mais do que somos, de nosso imaginário. Momento de entrar em contato com artistas que fazem do ato de inventar, escrever e contar histórias, recitar poemas ou criar oficinas seu principal caminho no mundo. Momento de celebração da literatura como linguagem que nos constrói, nos diverte, nos emociona e nos informa.

Com isso, reunimos crianças, pais e comunidade escolar ao redor de livros, leituras, conversas literárias, oficinas, exposições, feira de trocas de livros e outras surpresas, todas voltadas para esse mesmo fim, o de formar o leitor literário como uma das forças centrais da Escola da Vila.

Estamos, agora, em período de recepção das produções escritas dos alunos de 2º a 5º anos do Ensino Fundamental, que participam do III Concurso Literário, ação que integra o evento desde sua primeira edição.

O valor de formação de eventos como esse é enorme, e esperamos a participação de muitos de nossos alunos no concurso, inclusive porque escrever um texto para um concurso é uma atividade bastante potente para o desenvolvimento da escrita e da habilidade de inventar narrativas e afins, que complementa a formação literária feita em sala de aula. Quando as crianças se atiram em uma tarefa como essa, faz-se necessário lançar mão de muitas das competências desenvolvidas em processos relacionados ao ato de escrever.

Nesse sentido, consideramos que também estamos contribuindo para um Brasil mais literário!

Um Pouquinho de Brasil na Unidade Granja Viana


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Por Luisa Furman e Vicente Régis

No dia 23 de maio a Unidade da Granja teve seu primeiro evento do ano, Um Pouquinho de Brasil.

À medida que chegavam e adentravam a escola, as famílias iam descobrindo as atividades ali preparadas pelos professores, quase todos já conhecidos dos alunos. O espaço de todo dia se transformara em um ambiente com propostas de novos olhares, desafios, e novas descobertas. Assim é o evento Um Pouquinho de Brasil, um dia especial de convivência e troca.

As salas de aula foram organizadas com oficinas de linguagens variadas; uma ótima oportunidade de as famílias buscarem a construção de saberes, além de poderem interagir e conhecer melhor outras famílias da escola.

As atividades propostas pelos professores – Oficina de construção de helicóptero, Abayomi, Capoeira, Criação Musical, Vivência Lúdico-Motora, e a contação de história “A little bit of Mo Willians” – permitiram às famílias manter contato com diversos materiais, sons, movimentos e histórias, proporcionando uma situação típica do dia a dia na escola, repleta de desafios.

O ateliê de arte ganhou vida ao ser recheado de produções diversas, realizadas pelos alunos nesse mesmo espaço ao longo do primeiro trimestre.

É possível imaginar o quanto cada aluno nesse dia se sentiu parte de um grupo, podendo apreciar suas produções expostas, assim como a de seus colegas, e tendo a oportunidade de contar aos pais os detalhes da elaboração daqueles trabalhos, compartilhando conteúdos importantes aprendidos nas aulas de arte, lançando mão de um repertório ali construído e observando a diversidade de soluções e escolhas de cada participante desse grupo.

O ginásio foi transformado e tomado por cores para receber de forma aconchegante e convidativa o grupo Canta e Conta, que encenou a bela história do folclore brasileiro Bumba meu boi, valorizando nossa cultura e encerrando o evento com muita alegria!

Ao longo dessa agradável manhã de sol, podia-se perceber que as famílias aos poucos iam ficando mais à vontade, se apropriando do espaço privilegiado, que não apenas oferece a possibilidade de ter na escola um lugar de convívio, mas também um núcleo potente de formação cultural para toda a comunidade escolar, que ainda está nascendo.

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