Nova composição societária da Escola da Vila

Escola da Vila

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Por Sônia Barreira, Fernanda Flores, Vania Marincek, Ana Luiza Amaral, Eva Diaz

No mundo atual, com as profundas transformações provocadas pelas novas tecnologias e com as importantes mudanças no cenário social, político e econômico, acreditamos que mais do que nunca, as escolas precisam se articular em redes profissionais que permitam um debate frequente e consistente sobre a educação necessária para as novas gerações.

Neste momento, observa-se também forte movimento de consolidação de escolas que, em parceria com empresas, buscam melhorar a saúde financeira das instituições e viabilizar sua perenidade.

A Escola da Vila, que há alguns anos planeja sua sucessão e a continuidade de seu projeto educacional, encontrou em 2016 o sócio ideal para estruturar a criação de um grupo de escolas, em um movimento que fortalece ainda mais sua proposta de ensino, ajuda a escola a enfrentar os desafios financeiros e fazer frente aos grandes grupos educacionais.

Assim, é com grande satisfação que comunicamos a todos vocês que três grandes escolas brasileiras – a Escola da Vila, de São Paulo, a Escola Parque, do Rio de Janeiro, e a Escola Balão Vermelho, de Belo Horizonte –, com nítidas afinidades filosóficas e pautadas em teorias de educação contemporâneas, se reúnem numa sólida parceria com o objetivo maior de fortalecer nossos projetos pedagógicos precursores da valorização da autonomia, cooperação e pensamento crítico dos nossos estudantes.

Nesta parceria, viabilizada e estruturada em uma sociedade com a Bahema, as três escolas, reconhecidas e prestigiadas em suas cidades e no Brasil, vão sistematizar trocas de experiências, projetos de intercâmbio, atividades formativas e outras iniciativas que reafirmam o exercício de uma educação crítica e relevante, além de compartilhar métodos de gestão administrativa.

A Bahema é uma empresa brasileira com histórico de 60 anos de participação em diferentes setores da economia e que desde 2016 escolheu investir na educação básica.

Compartilhamos com a comunidade escolar essa notícia que tanto nos entusiasma, assegurando que nossa identidade, nossa equipe e nosso funcionamento permanecem e a eles se acrescentam as experiências dessas instituições, com o fortalecimento de nossos ideais educativos e ampliação de nossa capacidade de promover inovações e atualizar frequentemente nossas práticas.

A partir deste ano, estudantes, pais e professores poderão observar as vantagens desta parceria. Um Comitê formado por educadores das três escolas já estuda, discute e viabiliza as primeiras trocas de experiências entre os colégios.

É com orgulho que somamos nossos saberes e convicções para continuar a educar pessoas comprometidas com o conhecimento, com uma sociedade mais justa e com os desafios da contemporaneidade. Nasce assim, um grupo educacional de qualidade ímpar, formado por escolas independentes e unido pelo compromisso com a formação integral de seus alunos e alunas.

O coletivo feminista no Fundamental 2 e a libertação feminina

Escola da Vila-

Alguns saldos importantes do ano de 2016

 

Por Manuela Lima, aluna do 9º B (2016) 

O espaço moral cedido pela escola para nós, alunas do nono ano, organizarmos um coletivo feminista semanal, no intuito de conscientizar xs menores sobre, principalmente, igualdade e identidade de gênero, tem trazido à tona muitas questões majoritariamente a respeito dos direitos da mulher no papel, e sua diferença para a sociedade em si. É justamente esse tipo de reflexão que buscamos nxs alunxs participantes do coletivo para que elxs possam levar o conhecimento para fora da sala de aula, fora da escola.

Muitas meninas já vieram falar conosco sobre a importância do coletivo no processo de amadurecimento pelo qual elas estão passando, e sempre ressaltando o fator empoderamento. Elas corrigem comentários preconceituosos em geral, e isso está cada vez mais evidentemente presente no cotidiano do sétimo ano, por exemplo, e sem o coletivo isso talvez não estivesse tão marcado. Isso porque já discutimos a revelação do machismo desde as piadas (onde ele aparece sempre muito banalizado) até nas peças publicitárias, passando pela definição de xingamento e de ver o “ser mulher” como algo pejorativo, machismo nas músicas, esse tipo de coisa.

Tomamos muito cuidado, também, para não tratar de temas de forma extremamente radical sem apresentar dois pontos de vista, por causa dxs menores, que são facilmente influenciadxs pela nossa opinião. Assim, o coletivo passa a acrescentar muito na vida das participantes, de um jeito incrível.

Participam dos encontros meninos e meninas de todo F2. Entendemos a importância da participação de todos, uma vez que nossos objetivos são: 1) promover a sororidade dentro e fora da escola, podendo assim ajudar muitas meninas a se fortalecerem e se empoderarem; e 2) expandir nossos conhecimentos sobre a causa por meio de debates, rodas de conversa, discussões de acontecimentos, textos, vídeos, notícias etc. Assim, nada melhor do que promover um espaço aberto, que possibilite que todos adquiram maior conhecimento, consciência e a possibilidade de refletir (e transformar) relações que ocorrem no próprio cotidiano. Está dando certo! Percebemos que eles têm sido cada vez mais respeitosos e cuidadosos com algumas falas ao fazerem referências, “brincadeiras” com as meninas.

O coletivo esse ano foi espaço de libertação expressiva. Desabafos, acolhimentos, tudo de melhor. Posso dizer em nome de todo o nono ano que sou eternamente grata por poder passar as tardes de sexta-feira com tanta gente maravilhosa e que tem se empoderado cada vez mais, e levado questões e reflexões para a vida.

Novos temas em educação e a necessidade de pensar sobre eles

Escola da Vila-

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Por Sônia Barreira

Para a Escola da Vila o ano de 2016 foi intenso. Trabalhamos muito, como sempre, mas enfrentamos temas novos e bastante desafiadores para todos.

Passamos por processos de luto que abalaram a equipe, mas mantivemos o foco e cuidamos de nosso trabalho com muito carinho, preservando a memória daqueles que nos deixaram.

Demos início ao planejamento de novos projetos, como a preparação para a implantação do uso do computador pessoal nas turmas de sextos anos do Morumbi e Butantã, o que requereu grande investimento dos professores, desde a elaboração do material digital até a aprendizagem de novos procedimentos no mundo virtual.

Revigoramos ações de investigação científica no Fundamental 1, envolvendo a participação das famílias e promovendo situações de aprendizagem inusitadas e fecundas. Com os pequenos intensificamos as vivências nos grupos multisseriados, diminuindo assim os efeitos de uma seriação precoce.

Mas a novidade maior ficou por conta da forte adesão de nossas alunas aos movimentos feministas que se popularizaram recentemente. Alunas de 12 a 17 anos de idade passaram a nos questionar frequentemente sobre a presença do machismo e da discriminação na sociedade de um modo geral, e na escola em particular. Essas colocações, impactantes para nós que somos herdeiras das conquistas feministas dos anos de 1970 e 1980, nos fizeram ver que estávamos um tanto acomodadas e começamos a nos questionar: há discriminação no ambiente escolar? Onde? Como?

Esse olhar mais atento, impulsionado pela pressão das alunas e dos profissionais mais jovens nos levaram a promover, entre outras ações, rodas de conversa com professores universitários, que se dedicavam ao tema, debates internos que culminaram com uma festa de final de ano com toda a equipe, totalmente diferente da habitual. Convidamos duas professoras do Ensino Médio, Cristina Maher e Paula Camargo, de Sociologia e Geografia respectivamente, para que fizessem uma apresentação  sobre algumas ideias acerca de sexo e gênero geradas pela nossa cultura, muitas vezes naturalizadas, e as desigualdades identificadas por um conjunto expressivo de pesquisas que clarificam em dados estatísticos os lugares sociais ocupados pelas mulheres. As duas mestras deram um show de conhecimento em suas apresentações, o que nos obrigou a refletir e analisar o tema.

Em seguida, nos reunimos em 15 subgrupos que misturaram professores de diversos segmentos, funcionários administrativos, da limpeza e manutenção, direção, equipe técnica, todo mundo, das três unidades, discutindo a partir das ideias trazidas pelas professoras palestrantes: há discriminação no ambiente escolar? Em que já avançamos? O que falta avançar?

Os 45 minutos de roda de conversa produziram depoimentos importantes, novas reflexões, trocas de repertório, dificuldades partilhadas, e, acima de tudo, uma conversa entre iguais, profissionais dedicados a fazer a escola possível, que precisam refletir, porque não têm respostas para tudo e precisam se ouvir, se olhar, se conhecer e se reconhecer. Foi intenso, bonito e importante para todos.

Saímos de férias felizes por constatar que conseguimos um ambiente democrático e seguro para discutir temas complexos, para os quais não temos o mesmo posicionamento, mas que não podemos deixar de enfrentar.

No próximo post, o texto das alunas e alunos que participaram do Grupo Feminista de 2016.

O começo do ano ou a volta às aulas

Escola da Vila

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Por Sônia Barreira 

O caderno novo, o estojo, a lancheira, a mochila. Expectativa, ansiedade, desejo, saudades. O receio, o embaraço, e o reencontro. Tudo isso junto, misturado e confuso faz parte da volta às aulas. Tanto para o aluno que conhece a escola, como para o novo, que acabou de chegar.

A alegria de retomar a rotina e reencontrar os amigos vem junto com as obrigações e responsabilidades, em qualquer idade, em qualquer segmento da escolaridade.

Com exceção dos muito pequenos, todos sabem e esperam que a escola lhes ofereça inúmeras situações para aprender, desafiadoras, engraçadas, maçantes, rotineiras, incríveis, chatas, legais, envolventes, de todos os tipos! O ano começa num dia, mas naquela semana, mês, trimestre, um mosaico de demandas, experiências, vivências e aprendizagens acontecerão de modo intenso e fecundo.

Da parte da escola, o cuidado no planejamento de tudo isso, incluindo a recepção dos novatos, tratando de conciliar duas coisas centrais: que tudo seja educativo e importante para que os alunos aprendam e se desenvolvam, e que tudo seja significativo e faça sentido para eles. Fazer da aprendizagem um processo significativo é o desafio maior para todos nós educadores da Escola da Vila!

E, ainda que o foco do início do ano seja o planejamento cuidadoso do dia a dia, vale lembrar que somos norteados por três valores fundamentais, cada vez mais importantes no mundo atual: a busca pela construção da autonomia moral e intelectual dos alunos, a convicção de que o conhecimento é o ingrediente indispensável para isso, e que cooperação é o elemento central para a vida em comum.

Esses três valores são guias importantes para todas as ações que desenvolvemos com nossos alunos, e, portanto, são a marca da nossa escola. Que o ano de 2017 seja muito fecundo para todos, e que nossa tarefa seja concretizada da melhor maneira possível.

Bem-vindos ao novo ano letivo!

Soneto da Rosa

Escola da Vila
Produção de aluno do 1º ano do F1

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Por Vinicius de Moraes

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

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E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora

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Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude

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Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.

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Desejamos que 2017 traga alegria, entusiasmo e ótimas novidades!

Simpósio Interno da Escola da Vila

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Por Fernanda Flores

No último sábado, dia 8 de outubro, tivemos a abertura do Simpósio Interno da Escola da Vila. Como parte de nossa história, mais uma vez, contamos com a apresentação de oitenta trabalhos de professores que atuam da Educação Infantil ao Ensino Médio - divididos em 23 mesas temáticas -, com apresentações que se estendem a mais duas reuniões pedagógicas, até o dia 18 de outubro.

Segundo Ivone Domingues, coordenadora pedagógica de Fundamental 2, “como a memória é algo sempre em reconstrução, vale a pena retomar os principais motivos que levaram a Escola da Vila a criar esse evento anual. O maior propósito do Simpósio é fomentar algo que consideramos central para todos os profissionais da educação: a prática da escrita reflexiva. O Simpósio foi criado para isso. Para promover o que Donald Schön (1983) denomina de reflexão sobre a ação, uma análise a posteriori realizada pelo professor sobre as características e os processos do seu trabalho.

Espera-se que cada membro da equipe procure refletir sobre o seu trabalho, usando a escrita como meio de tomar distância da sua prática pedagógica e possa problematizá-la, dispondo-se a dialogar com seus pares a partir dessa produção. Sabemos que o estudo, a teoria, quando tomados com sentido, são sempre necessários para avançar, mas é preciso dizer, também, que tão ou mais importantes são as ideias próprias, é a problematização do que se vive no ambiente escolar, pois é a partir desse debate que o conhecimento coletivo se constrói.”

A Escola da Vila tem tradição na valorização da escrita, no debate e na criação de espaços de construção coletiva do conhecimento, algo inerente à sua dinâmica. Estamos em clima efervescente, debatendo ideias, discutindo opções didáticas, propostas, inovações, e nos aproximando mais das maneiras de pensar o trabalho em outros segmentos. Enfim, consolidando novamente, também na equipe de professores, alguns dos princípios centrais de nosso projeto pedagógico: a autonomia e a cooperação intelectual.

Como ápice de toda essa produção, com muito orgulho, aproveitamos esse canal para compartilhar a revista Conversa de Professor, que chega à sua 5ª edição, divulgando os trabalhos de nossa equipe, selecionados do Simpósio de 2015.

Boa leitura!

A importância da formação do professor leitor para o trabalho com a Literatura na escola

Revisitamos textos publicados há alguns anos em nosso blog e selecionamos aqueles que seguem valendo muito ler de novo! Começamos com uma série de textos relacionados ao papel central da leitura em nossa escola.

Eu? Leitor?

Escola da Vila

Por Bárbara Franceli Passos

Qual foi o último livro que você leu? Você se recorda do motivo que o impulsionou a essa leitura? Com que frequência você lê, e com qual finalidade? Onde costuma ler? Em quais horários dedica seu tempo à leitura? Quais são os seus autores, gêneros, assuntos e temas preferidos? Você prefere ler sozinho ou partilhando o livro? Qual o sentido da leitura em sua vida?

Muitos questionamentos podem fazer parte de nossa rotina como leitores! Indo nessa direção, podemos ainda nos perguntar: “Que tipo de relação estabelecemos entre o nosso movimento como leitores e o nosso fazer em sala de aula?”.

Na função de mediadores de leitura, temos a oportunidade de tratar de diferentes aspectos que envolvem o universo literário: compartilhar títulos, autores e ilustradores; conversar sobre estratégias e hábitos leitores; refletir sobre os diferentes sentidos presentes nos textos. Em todas essas situações, nos apresentamos, também, como “modelo de leitor” para os nossos alunos e assumimos a desafiadora tarefa de “ensinar a ler”.

Nesse contexto, é relevante destacar que o nosso próprio caminhar como leitores e pessoas que “ensinam a ler” vão além de compartilhar títulos, ler junto e refletir sobre o lido. É isso e muito mais. Quando nos assumimos leitores observamos que, muitas vezes, assumimos também uma postura diante das descobertas sobre a vida e as questões humanas, pois a leitura pode despertar em nós o desejo de desvendar aquilo que nos inquieta e nos atrai de algum modo. Por essa razão, conversar sobre a relação que temos com a leitura e a literatura torna-se fundamental no processo de troca e intercâmbio de experiências. Afinal, quando falamos informalmente com os alunos sobre os livros de que gostamos, compartilhamos as nossas idas às livrarias e socializamos o que sentimos durante a leitura de determinado título, colocamo-nos numa atmosfera de troca extremamente favorável à ideia de que “viver a literatura” é também criar uma autoimagem leitora e conversar sobre o lido.

Dessa forma, estamos contribuindo para que os nossos alunos percebam que os livros e a literatura existem dentro da escola e também fora dela. Por isso, cada leitor deve ficar atento à necessidade de ampliar as suas estratégias de busca e compreensão acerca do que lê e também alargar os seus passos rumo ao encontro com os livros e novos leitores.

Assim, para alimentar essa ideia e refletir a respeito de nossas posturas leitoras, podemos comungar com Manguel, quando ressalta que “é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significados a um sistema de signos e depois decifrá-lo. Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial”.

Se ler é, então, função essencial, precisamos investir em situações que favoreçam o nosso acesso aos livros e às experiências leitoras. Sendo assim, é importante que nós, professores leitores, e nossos alunos, tenhamos possibilidade de estabelecer uma relação viva e intensa com os livros. Além disso, é fundamental que nos reconheçamos como leitores e que, acima de tudo, encontremos sentido no ato de ler. Mas será que, enquanto mediadores de leitura, assumimos esse papel? Compartilhamos com os nossos alunos o sentido da leitura em nossas vidas? Falamos de nossas experiências leitoras com eles? Verbalizamos sobre os momentos em que as leituras aparecem em nossa rotina?

Sim, somos professores. E, por essa razão, na maior parte do tempo, temos a tarefa de escolher o que o nosso aluno deverá ler. Diante dessa atribuição, portanto, precisamos conhecer intimamente o trabalho de autores, ilustradores e editoras, dado o intenso crescimento do mercado editorial, a fim de garantir escolhas acertadas, coerentes e pertinentes, considerando os interesses, os desejos de nossos alunos e as habilidades que eles precisam desenvolver como leitores na etapa da vida escolar da qual fazem parte. Porém, temos essa familiaridade necessária com o título a ser trabalhado com as nossas crianças em sala de aula? Temos, de fato, o hábito de pensar em nosso repertório leitor quando definimos o(os) livro(s) com o(os) qual(is) trabalharemos? Costumamos avaliar as nossas escolhas, na medida em que entendemos a importância de favorecer uma convivência significativa de nossos alunos com os livros?

Para Umberto Eco, “Um texto não apenas se apoia em uma competência, mas também contribui para criá-la”. Dessa forma, quando selecionamos textos/livros para ler com os alunos estamos “selecionando degraus” para construir “escadas” na formação do leitor. Partindo das ideias de Eco, podemos então nos questionar ainda: “Estamos favorecendo a ampliação do olhar dos alunos para os livros e para a leitura?”. Tal pergunta nos instiga a dialogar com Yolanda Reyes, quando ressalta: “Um professor de leitura é, simplesmente, uma voz que conta; a mão que abre portas e traça caminhos entre a alma dos textos e a alma dos leitores. Seu trabalho, como a literatura mesma, é risco e incerteza. Seu ofício privilegiado é, basicamente, ler. E seus textos de leitura não são apenas os livros, mas também os leitores. Não se trata de um ofício, mas de uma atividade de vida. No fundo, os livros são isso: conversas sobre a vida. E é urgente, sobretudo, aprender a conversar”.

Partindo do diálogo com esses autores, podemos ainda enfatizar a necessidade de refletirmos a respeito das estratégias que comumente utilizamos para desenvolver as nossas propostas de trabalho com a leitura e a literatura na escola, atentando, principalmente, para a ideia de que construímos leitores a cada dia, a cada escolha, a cada livro lido e discutido com os nossos pequenos alunos. Nesse sentido, concluímos (por enquanto) dizendo: encontrar possibilidades efetivas para que alunos e professores se (re)conheçam leitores, juntos, pode ser um importante caminho para o desenvolvimento de práticas ainda mais significativas no universo de trabalho com os livros, com a leitura e a literatura. E cabe aqui mais uma indagação: “Quais caminhos são possíveis?”. Parafraseando Reyes, arriscamo-nos a indagar: “Trouxeste a chave da porta?”.


Texto publicado em 25 de outubro de 2013.

Cuidado e responsabilidade: aprendendo para a autonomia

Escola da Vila

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Por Vania Marincek e Joana Sampaio Primo

Aprender a cuidar do que é seu é algo muito importante para o desenvolvimento infantil e esse é um aprendizado que se dá aos poucos, tanto através do crescimento e da aquisição de maiores competências afetivas e cognitivas, quanto através de intervenções feitas por nós, adultos, sejamos pais ou professores.

Na escola, apoiamos nossos alunos para que compreendam o quão importante é cuidar de seus pertences para que eles estejam completos, íntegros e disponíveis para serem utilizados. Essas são situações importantes para evidenciar às crianças que, ainda que elas sejam pequenas, há, desde sempre, aspectos da rotina diária que podem ser considerados de sua responsabilidade.

Uma das formas de demonstrar a necessidade do cuidado é pontuar as consequências que o descuido acarreta. Quando um aluno esquece seu material na escola ou em casa reiteradamente, é importante que se converse com ele apontando o quanto isso pode comprometer seu vínculo com o trabalho. Além disso, se a escola e a família tiverem os mesmos encaminhamentos, será mais fácil ajudar a criança a se organizar e a se ocupar com seus pertences.

Em casa, muitas vezes, torna-se difícil para os pais saberem quais ações podem ser feitas para revelar a importância da responsabilidade a seus filhos e contribuir para que se tornem pessoas autônomas. Há, entretanto, algumas bastante simples e que, se consideradas, contribuem muito para a formação das crianças.

A primeira delas se refere à valorização da escola, das aprendizagens por ela proporcionadas e do próprio cotidiano de seu filho. Já tratamos disso em outro post, quando sugerimos que a ida a museus, exposições, cinemas, e outros tipos de ações culturais contribuem para ampliar a formação das crianças e, ao mesmo tempo, valorizar o que estão aprendendo na escola.

Outra intervenção interessante é pensar sobre o lugar que as crianças estão ocupando na rotina familiar. Seu filho tem responsabilidade em casa? Cuida de seus pertences? Guarda os brinquedos que usa? Definir em família as pequenas responsabilidades do dia a dia, como separar a roupa para ir à escola, ajudar a preparar o lanche que levará, dar comida para o cão, entre outras atitudes que configuram para as crianças que, na vida em comunidade, cada um se responsabiliza por uma parte e, dessa forma, todos ficam bem.

Acreditamos que essa seja a parte mais importante dessa aprendizagem: responsabilizar-se por seu cotidiano é um exercício que se relaciona com a constituição de sujeitos autônomos, isto é, sujeitos que decidem livremente sobre os rumos de suas vidas a partir da responsabilização de suas escolhas. Evidentemente que cuidar do material é o primeiro passo, porém cuidar dele sabendo que se trata de uma parte importante do laço com o espaço comum é algo fundamental.

Os desafios de educar

29_8_2016

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Por Vania Marincek 

Na infância e na adolescência é quando mais se aprende. Cada nova experiência vivida por nossos pequenos e por nossos jovens se transforma em situação de aprendizado que contribui para a constituição de valores que vão definir que adulto cada um deles será. E escola e família assumem especial importância nessa formação, já que são essas instituições que possibilitam que as relações e as experiências aconteçam, além de se constituírem como modelos e referências.

Aprender a conviver não é tarefa fácil, especialmente para quem ainda está conhecendo sobre o mundo e sobre as relações.

Colocar-se no lugar do outro é algo que se aprende? Como ajudar nossos filhos e alunos a se colocarem no lugar do outro? É possível aprender a fazer amigos? Como a escola e a casa podem contribuir para isso? À medida que as crianças crescem, precisam aprender a se responsabilizar por seus pertences, por suas aprendizagens. Então, como escola e família podem, juntas, contribuir para essa aprendizagem? Como os pais podem ajudar seus filhos a darem sentido a suas aprendizagens escolares?

Esses serão os temas tratados nos próximos dias. Esperamos que possam contribuir para a reflexão sobre a complexa tarefa de educar.

A experiência olímpica e o papel das escolas na formação para a cultura esportiva

Handebol Brasil

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Por Washington Nunes – coordenação de esportes da Escola da Vila

Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Para muitos, uma incógnita. Para os mais céticos, o Brasil não conseguiria deixar as instalações prontas, o público não compareceria e os jogos seriam um fiasco.

Ah, como foi interessante olhar para tudo que aconteceu e perceber que, sim, podemos fazer as coisas, e bem feitas!

As arenas estavam impecáveis e completamente lotadas, e o parque olímpico, muito bonito.

Sem contar com a “genialidade” da torcida brasileira que deu um show nas arquibancadas. Como explicar que, em uma luta de boxe, entre lutadores do Azerbaijão e do Cazaquistão, a torcida vibra com a atuação do ÁRBITRO BRASILEIRO? Como fazer alguém entender que, na final do handebol masculino entre França x Dinamarca, a torcida começa a gritar “o campeão voltou”? Isso aconteceu quando ficaram sabendo que o Brasil conquistou a medalha de ouro no voleibol, que acontecia em outro ginásio. Os Jogos Olímpicos ficaram marcados pela simplicidade e pela alegria que nosso povo esbanja em todo tipo de festa.

Washington

Estive presente nos jogos como auxiliar técnico da equipe de handebol do Brasil. Trabalhamos muito duro nos últimos quatro anos e, pela primeira vez na história, conseguimos avançar até as quartas de final. Infelizmente, mesmo tendo feito um grande jogo contra a atual campeã mundial, a França, não conseguimos passar por ela e vimos o sonho de uma medalha terminar ali (cabe aqui um grande agradecimento a todos que torceram e deram a maior força para nós). Mas sabemos que as etapas de construção de um processo levam tempo. Como ganhar uma medalha se nunca conseguimos passar para as quartas de final? Somente passando uma, duas, três vezes é que conseguiremos ir às semifinais para tentar uma medalha. Por isso, a continuidade do processo tem que acontecer.

E, por incrível que pareça, esse processo se dá no dia a dia das escolas. É na escola que as crianças conhecem e experimentam várias modalidades e, se tiverem interesse e aptidão para continuar sua prática, buscarão especializações e melhorarão tanto seu desempenho que poderão fazer parte de uma seleção no futuro.

WashingtonToda escola deve ter três objetivos muito importantes para a construção de futuros atletas:

1- Mostrar a todos os alunos o universo esportivo e fazer com que eles aumentem a cultura sobre os diferentes esportes que existem no mundo (tanto os que fazem parte do programa olímpico como os que ainda não fazem parte deste);

2- Estimular e desenvolver uma das partes mais importantes em todo o processo de aquisição técnica dos futuros atletas: os estímulos e a melhora das capacidades coordenativas de todos os alunos;

3- Oferecer, quando possível, grupos de treinamento, para que esse processo efetivamente aconteça.

WashingtonEssa foi a terceira (e acredito também que seja a última) Olimpíada de que participo e, pelo fato de ser no Brasil, com certeza foi a que vivi mais intensamente. Chorei na abertura, chorei no encerramento e chorei em grandes momentos dos jogos.

Os jogos do Rio ficarão para sempre em minha memória e em meu coração.

Tenho certeza de que para muita gente também. Quem puder ir ao Rio assistir aos Jogos Paralímpicos, conhecer o parque olímpico e viver o clima das competições vai poder sentir muito disso que falei por aqui.