VilaConversa: encontros, trocas e reflexões

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Esta semana, encerramos o Ciclo de Palestras VilaConversa com a vinda da Dra. Julieta Jerusalinsky abordando a temática das intoxicações digitais vividas pelo mundo adulto interferindo na construção das relações interpessoais tão próprias da infância, da juventude e da vida humana.

As contribuições dos cinco encontros realizados este ano foram muitas. A interação dos palestrantes convidados com as famílias presentes, a contribuição dessas conversas para que todos, família e escola, tenham mais elementos de reflexão e contrapontos a elaborar na desafiadora experiência de educar crianças e jovens.

Alcançamos nossos objetivos ao propor esses encontros: trazer à mesa de conversa temas difíceis, para os quais não temos respostas prontas, e que somente o diálogo consistente pode trazer caminhos possíveis para sua compreensão.

Lembrando os encontros que tivemos, destacamos alguns pontos centrais de cada um deles para que oportunamente possam assisti-los, todos filmados e disponíveis no canal de YouTube da Escola da Vila.

Escola da Vila

Julieta Jerusalinsky trouxe uma profunda análise acerca da descontinuidade produzida pela era digital nos modos pelos quais estabelecemos laços sociais e nas formas discursivas de sustentarmos subjetivamente as experiências, levando-nos a interrogar sobre qual rede sustenta o sujeito contemporâneo no balanço entre o público e o privado, entre o lazer e o trabalho, entre a realidade e a ficção, ao ser e estar lançado virtualmente na web.

Escola da Vila

Claudia Aratangy reforçou o que nossa escola pratica e defende como valor da formação literária das novas gerações. No encontro sobre Leitura de literatura: um caminho para conexão e pertencimento, ela destacou o poder das narrativas e o entrelaçamento dos enredos em diversas histórias, contos, como forma humana de compartilhar emoções e de conectar-se com o passado, para viver no hoje e projetar os futuros próximos.

Escola da Vila

Ilana Katz, analisando o tema Os adultos, as crianças e suas políticas, trouxe importante contribuição para pensarmos o papel da ocupação e do uso da cidade como forma de estar pública, coletiva, política, que comunica aos jovens e às crianças sobre quem somos, onde estamos e como podemos viver juntos. 

Escola da Vila

Alexandre Feldman, em Sono: acorde para a vida, destacou para uma audiência muito interessada as relações tão estreitas entre sono e bem-estar geral, esclarecendo aspectos que leigos desconhecem sobre os mecanismos do sono e a responsabilidade que este tem na saúde das pessoas, saúde física e sobretudo psíquica.

Escola da Vila

André Trindade, com a temática O corpo na infância e na adolescência: desafios da educação contemporânea, tratou da importância de valorizarmos o corpo nas práticas vividas na escola não somente nas aulas de educação física, mas também nas posturas adotadas para o trabalho e nos momentos de contemplação e relaxamento, olhar para postura e corpos das crianças e jovens passa a ser imperativo em tempos de experiências virtuais mais frequentes.

É nossa convicção que esses encontros são essenciais na criação de oportunidades para o encontro, para a conversa, para a troca de experiências e visões sobre temas que nos afligem como educadores. Seguiremos assim, pois entendemos que essa é uma responsabilidade da escola.

Voltamos ano que vem, com novas propostas e temas sugeridos pela comunidade Vila!

Sobre o já famoso Simpósio Interno da equipe da Vila

Escola da Vila

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Por Sonia Barreira, direção geral da Escola da Vila

No próximo sábado, dia 6 de outubro, toda a equipe pedagógica da Escola da Vila estará reunida na unidade Granja Viana para dar início ao 15º simpósio interno.

Desde a sua fundação, a equipe da Vila instaurou em sua cultura de trabalho a elaboração de textos reflexivos por parte dos professores. Já publicamos neste espaço um conjunto de textos que explicitam como essa atividade dá vida a certos valores fundamentais da nossa instituição. Vale a pena a leitura!

Simpósio Interno da Escola da Vila

Simpósio interno… “Pra que isso, meu Deus?”

Simpósio 2013: mais um desafio instigante!

O sentido da reflexão sobre a prática pedagógica: compartilhar e avançar coletivamente.

Neste ano, os trabalhos versam, em sua maioria, sobre os esforços da equipe para entender, melhorar e produzir conhecimento sobre “o atendimento à diversidade na escola”.

Muitos artigos são relativos às experiências realizadas com os grupos interséries, que mostraram ser um importante mecanismo para fugir da padronização dos agrupamentos por idade e favorecer interações dinâmicas entre os alunos.

Há trabalhos que buscam justificar as modificações realizadas em sequências didáticas para poder atender melhor aos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos de um mesmo grupo. Outros aprofundam a análise sobre as formas de recuperação que promovemos com os alunos maiores.

Alguns educadores vão mostrar suas hipóteses de trabalho por meio de estudos de casos individuais. Há aqueles que vão analisar novos projetos de intervenção na realidade e abordagens mais globais e menos conteudísticas.

Há diversidade, profundidade, conclusões, mas, também, questões abertas, indagações e provocações para que nossa equipe siga curiosa, cooperativa e comprometida com a produção de conhecimento pedagógico.

Parabéns a todos pelo esforço e pela valorização da reflexão profissional escrita!

Eleições: qual o papel dos educadores e da escola?

Escola da Vila

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Sonia Barreira, diretora da Escola da Vila, coordenou a elaboração deste texto, que foi escrito a muitas mãos por membros da equipe técnica de F2 e EM

O assunto “Eleições” invade a escola por todos os lados possíveis: nas aulas, no recreio, na entrada e saída. Os pais comentam entre si, procurando conhecer um pouco mais sobre a família dos amigos de seus filhos; os alunos questionam os professores em busca de pistas sobre seus votos; os professores debatem suas tendências na sala dos professores; todos comentam, analisam, fazem suas predições sobre o futuro!

A escola é parte da sociedade e, como tal, repercute fortemente seus temas, polêmicas, preocupações. Atualmente, com as inevitáveis narrativas construídas nas redes sociais há, além do posicionamento sobre os fatos da realidade, uma análise diária sobre as representações dessa mesma realidade que proliferam no Twitter, Instagram e Facebook. Fake news, pós-verdade, mentiras completas, e tudo o mais misturado com notícias, análises, opiniões, interpretações variadas.

Mas qual o papel da escola contemporânea nesse processo? O que deve fazer para responder, adequadamente, a seu propósito maior: formar os novos membros da sociedade, cidadãos participativos e críticos? Deve conduzir, interferir, mediar ou ignorar a questão política? Em outros termos, política é algo a ser ensinado na escola?

Para o famigerado movimento “Escola sem Partido” – professores que acolhem essa demanda, de preparar os alunos para a vida política, o fazem acima de tudo para fazer proselitismo político ou a famosa “doutrinação”. Para os adeptos dessa proposta, o ideal é a “neutralidade”. Os professores deveriam se ater a fatos e informações, nada mais. Ou, no máximo, expor – sem posicionar-se ou promover debates, as várias visões sobre um dado tema.

Mas as escolas que enfrentam o desafio de formar cidadãos críticos, analíticos, autônomos e implicados sabem que não basta informar. Não restringimos nosso papel social a um repositório de materiais. Não nos vemos como um banco de dados neutro e impessoal. Não entendemos que a missão da escola se restringe a transmitir conteúdos, fatos, informações. É necessário favorecer a capacidade de pensar, discernir e dialogar. Para nós, o professor deve se implicar, ser ele próprio um ator reflexivo, questionador e crítico dos processos que ensina. Em outros termos, não se pode pretender que os alunos tenham autonomia intelectual se o professor não puder igualmente exercer a sua autonomia.

O professor deve ensinar ao aluno que a neutralidade não existe integralmente, pois qualquer recorte de fatos e conceitos é realizado a partir de uma visão de mundo, de interpretações e representações conceituais complexas, as quais, querendo ou não, revelam ideologias, posicionamentos políticos, crenças e convicções pessoais e profissionais.

Poderíamos pensar, por exemplo, em debates que não necessariamente se atenham às ciências humanas, alvos frequentes de críticos do suposto dogmatismo, e olhar para as ciências naturais. O que pode ser melhor para nosso país como matriz energética? A energia nuclear, hidrelétrica ou eólica? E o que podemos pensar sobre a exploração de reservas de petróleo? Devem ser feitas com alguma regulação estatal? A delegação de setores na cadeia extrativa pode ser mais produtiva para a economia do país e para o meio ambiente? São questões que envolvem conhecimento técnico, sem dúvida, mas que são inseparáveis da realidade política e econômica do nosso país. Seria um equívoco pedagógico promover um debate entre os alunos, subsidiados com o devido material teórico para alimentar a discussão? Seria preciso, necessariamente, chegar a um consenso nesse debate?

Outro exemplo interessante da neutralidade impraticável, valeria perguntar, no caso da colonização, deveríamos mostrar os dois lados? Do colonizador e do colonizado? Sem nenhuma validação desta ou daquela visão histórica? E no caso no nazismo? Deveríamos fazer o mesmo?

Se a neutralidade é questionável, como evitar, então, o que hoje tantos temem, a famosa doutrinação? Como minimizar, como querem alguns, a influência da visão de mundo dos educadores, na construção de pontos de vista por parte dos estudantes?

Seria importante lembrarmo-nos – antes de mais nada, de nossa própria adolescência e juventude, possivelmente cercados de posições antagônicas, na família, escola, amigos, como pudemos adquirir a capacidade de pensar por nós mesmos? Qual o papel dos nossos professores, colegas e familiares nesse processo? E aqueles adultos que conhecemos que reproduzem pensamentos alheios, que se agarram a dogmas e verdades incontestáveis, que não alteram sua maneira de pensar nem contra evidências indiscutíveis? Qual teria sido a influência de seus colegas?

A autonomia não pode se instaurar a partir de proibições ou regulamentações estritas sobre a atuação do professor. O pensamento crítico não pode ser construído a partir da imposição de regras de condutas, e um currículo fechado, inflexível, repleto de verdades incontestáveis.

É óbvio que a propaganda política partidária não deve encontrar espaço na sala de aula, mas o posicionamento individual não precisa ser escondido, mesmo porque, em qualquer equipe pedagógica, sempre há diferenças e os alunos podem e devem lidar com a diversidade de pontos de vista. O professor precisa mostrar, a partir de ações concretas, que ele mesmo é um ser social, implicado, reflexivo, que assume posições, faz autocríticas e busca uma sociedade melhor.

É preciso apostar no diálogo, no debate e, acima de tudo, na capacidade dos jovens de duvidar, relacionar, comparar e PENSAR por si mesmos. Portanto, cabe à escola a formação política ampla – aquela que promove o entendimento por parte do aluno, do funcionamento da democracia; aquela que promove a implicação no que se refere a questões que afetam seu país, a população de um modo geral, a cidade onde vive, a escola que frequenta. Uma formação que estimula o posicionamento, e não a alienação. Queremos jovens que se sintam capazes e que entendam que se importar, querer agir, estar implicados são ações políticas! E que disponham de ferramentas para fazê-lo com fundamento e respeito à diversidade de opiniões.

Em nosso projeto pedagógico, essa formação política tem espaço em ações regulares, tais como as práticas de assembleias de classe que visam facilitar uma vivência e reflexão sobre os valores democráticos e a vida coletiva. Nas aulas diárias, nas quais a equipe procura tratar, sempre que possível, a relação dos conteúdos disciplinares com acontecimentos relevantes fora da escola. E no currículo tal como é proposto, que busca constantemente a reflexão, a construção de hipóteses e a intervenção na realidade por parte dos alunos. Há também iniciativas importantes dos próprios alunos que se reúnem e formam coletivos de debate (Coletivo Preto, Coletivo Feminista, Coletivo Cultural, Grêmio), nos quais aprendem a colocar sua voz, expressar ideias e realizar ações coletivas que efetivamente buscam mudanças no núcleo social no qual vivem.

Projetos que contam com a adesão espontânea dos alunos de Fundamental 2 e Ensino Médio também ampliam a capacidade de nossos jovens de conhecerem outras realidades e buscarem, juntos, intervenções propositivas, tais como o Vilativa e o Grupo de Direitos Humanos.

Em épocas de eleição há também eventos ou situações pontuais: a discussão entre candidatos de diferentes partidos; palestras que ajudam a compreender como são feitas as pesquisas de opinião que determinam a tendência dos votos; eventuais simulações de eleições; comparação de manchetes de jornais sobre a mesma notícia; entrevistas com autoridades; leitura e comparação entre as propostas de governo, entre outras ações pedagógicas.

Com tudo isso, pretendemos enfrentar a nossa responsabilidade educativa, nesse tema tão relevante quanto espinhoso!

Por outro lado, há certos valores que precisam ser defendidos por aqueles que escolheram a tarefa de educar: o respeito ao outro, o combate ao preconceito, o apreço à liberdade de opinião, a justiça, a defesa da vida, etc. E essa escolha nos obriga a combater, sem sombra de dúvidas, ideias que se opõem a esses valores. Não há, para um educador comprometido, como manter-se neutro nesse campo!

O construtivismo e a hora da mudança.

Por Sonia Barreira, direção geral

Foi um prazer imenso encontrar tantos educadores queridos e importantes na palestra de Antoni Zabala na ocasião do lançamento do Grupo Critique:

Na plateia, familiares dos alunos, professores, educadores e diretores de escolas importantes ouviram atentamente o famoso educador catalão, que retomou para todos nós como as pesquisas científicas nos mostram como os alunos aprendem.

Evitando rótulos fáceis e etiquetas simplificadoras de conceitos complexos e com muito humor e simpatia, ele nos questionou sobre a organização da instituição escolar para responder a seus propósitos. Se antes a escola tinha essencialmente a função propedêutica e seletiva, hoje, a escola do século XXI deve se preparar para realmente oferecer uma formação integral para todos e todas e cumprir uma função orientadora e inclusiva.

Uma formação com essas características e propósitos deve se organizar em torno de competências complexas e não apenas em função de conteúdos conceituais específicos e sobrepostos das disciplinas e áreas de conhecimento. Para tanto, o professor Zabala retomou a importância do enfrentamento de problemas reais e complexos na escola não apenas como um complemento da experiência escolar, mas como essência curricular.

Muitos de nós, na plateia, trocamos olhares cúmplices, admitindo uns para os outros que já sabíamos de tudo isso, mas que ainda não conseguimos reestruturar o currículo escolar de modo coerente com essas ideias!

Propostas de investigação, projetos, simulações, resolução de problemas e estudos de caso existem e se multiplicam em nossas escolas. Mas não de modo estrutural. Não a ponto de oferecermos uma vivência escolar cujo eixo central siga essa lógica.

Ao final da palestra, ao encontrar uma ex-professora da Vila, hoje diretora de uma importante escola paulista, ela me olhou um tanto encabulada, outro tanto inconformada e me disse:

- Sonia, já ouvimos tudo isso há uns dez ou quinze anos, não?
- Sim, Marta, ouvimos tudo isso, mas não fizemos o que era para fazer, não é?
- Não, não fizemos! Vamos passar os próximos dez anos tentando?

Definitivamente não fizemos a revolução que sabíamos necessária. Mas plantamos boas e fortes sementes para que as mudanças possam acontecer progressivamente, sem rupturas bruscas que geram insegurança e resistência.

Agora, tratemos de arregaçar as mangas e mudar o que é preciso mudar nos nossos projetos. Não estamos tão longe assim do que queremos!

Otávio, Otávio, Otávio!

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Por Maria da Penha Brant, arte-educadora e mãe de duas alunas da Vila

É estranho que eu estivesse esperando um momento para escrever este texto para vocês e me sentasse aqui para fazê-lo logo após saber de uma tragédia (anunciada a meu ver), que foi o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

No final do ano passado, Sônia Barreira me solicitou a organização da pequena coleção que a Escola da Vila reuniu no transcorrer dos anos, decorrente de parcerias na própria comunidade escolar, de pais de alunos que estudam ou estudaram na Vila ou artistas que aqui trabalham ou trabalharam.

A ideia era que eu pudesse reunir todos os trabalhos, fotografasse e escrevesse um pequeno texto biográfico de cada artista. Dessa forma, poderíamos organizar uma exposição e apresentá-la a todos: alunos, pais, funcionários, profissionais da educação que frequentam o Centro de Formação e outros.

A Escola da Vila tem uma história construída em torno do trabalho encaminhado junto dos alunos, suas famílias e profissionais da educação, e para mim, ex-professora de Arte da escola, mãe de alunas, foi um privilégio também estar junto.

Rosa Iavelberg, Monique Deheinzelin, Yara Carmona foram mulheres fundamentais na reflexão do ensino e aprendizado da Arte, fomentando e fazendo com que cada um de nós, que foi se juntando ao redor delas, nos apaixonássemos e profissionalizássemos, como fizemos. Foi construída uma prática de trabalho em Arte que reverberaria até hoje nesse desejo trazido por Sônia, de reunir essa pequena coleção.

Além de fazer observações do trabalho, por meio de diários de classe ou reuniões de equipe, participar de orientação para o encaminhamento de propostas no ateliê ou fora dele, ter autonomia para criá-las, discutir teorias e apreciar obras, pensávamos nos fundamentos do trabalho, o que se tornaria primordial e fortaleceria a ideia de que era impossível uma escola sem Arte.

Entre esses fundamentos, destaco aqui aquele que faz com que a escola tenha acolhido e exposto esses trabalhos que vemos ao caminhar pelo espaço interno e externo das unidades.

Faz parte do trabalho a convivência com formas diversas de produção artística. Aquela que é realizada pelos alunos, pelos professores e pelos pais, mote para todos estarem perto da arte – a escola é também espaço para acolhê-la e mediá-la.

Otávio Roth é uma surpresa dentro desse conjunto de obras espalhadas pelo espaço da escola. Imagino que as exposições, de um modo geral, em museus e galerias, possam também se dar dessa forma, reunindo, à medida do possível, o que se tem de um artista. Foi o que fizemos aqui.

Com ajuda e muita gentileza da filha de Otávio Roth, ex-aluna da Escola da Vila, Isabel Roth, atual curadora do acervo do artista, conseguimos agrupar um conjunto de objetos que acabaram dando mais vigor ao pouco, mas o que foi possível, para apresentar o artista a todos da comunidade.

A exposição reúne três trabalhos que fazem parte de uma pequena coleção de arte da Escola da Vila. Os livros que a biblioteca dispõe, escritos por Ruth Rocha e ilustrados por Otávio Roth. O primeiro livro escrito no Brasil tratando de pesquisa sobre o papel. Uma pequena entrevista com Isabel Roth. Fotos cedidas pela família. A obra “A Árvore”, projeto que solicita a participação de crianças, fazendo crescer folhinhas desenhadas por elas, até que se complete 1 milhão delas e possam ser projetadas na parte externa do prédio da ONU. E, finalmente, as 30 reproduções do álbum de Direitos Humanos, realizadas em xilogravura também para a ONU, por Otávio Roth.

Em meio às notícias de descaso com a cultura, descobrir Otávio Roth e sua vontade imensa de produzir, pesquisar pelo mundo afora, fazer circular suas ideias e obras, e, ainda, ensinar, diz muito da vontade de ter a arte como parceira diária, imaginando mundos.

Falência só do Ensino Médio?

Escola da Vila

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Por Sonia Barreira, direção geral

É falsa a ideia de que os resultados fracos do Ensino Médio se devem apenas aos problemas desta etapa da escolaridade, e isso é evidente para quem atua em instituição escolar. Olhando os números da última avaliação da educação básica (SAEB) divulgados dia 30/8/2018, aparentemente o Fundamental melhorou e o Ensino Médio piorou.

Como é do conhecimento de qualquer educador, os programas escolares estão organizados por série, ou seja, a cada idade corresponde um dado programa curricular. Teoricamente há progressão nessas propostas, garantindo que os alunos tenham acesso a conteúdos mais complexos a cada ano que passa. No entanto, não há propriamente um uso das ciências de base que ajudem a definir o que cada etapa do desenvolvimento cognitivo pode elaborar e aprender.

Então como as escolas definem o que ensinar? Até recentemente, e ainda hoje, os conteúdos são distribuídos de acordo com o que aparecem nos livros didáticos. Mas como as editoras distribuem os conteúdos nos livros didáticos? O fizeram de acordo com a tradição escolar. E de onde vem essa tradição? Não se sabe. Os sistemas de ensino, nascidos mais tarde, também seguiram a lógica definida pelos livros didáticos, com algumas pequenas alterações. É claro que as escolas fizeram seus ajustes, mas são raros. Vale ressaltar que alguns livros didáticos se modernizaram depois dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), mas não alteraram substancialmente a sequência dos conteúdos pelas séries escolares.

Hoje, há iniciativas conhecidas para sanar esse problema por meio da Base Nacional Comum Curricular. Aparentemente, isso seria um dos maiores empecilhos para se ter uma educação de qualidade no país. Associada a essas mudanças, prometem-se novos programas de formação de professores, novas maneiras de praticar as avaliações nacionais e mudanças nos vestibulares!

No entanto, ainda que tudo isso dê certo e funcione perfeitamente bem (difícil de acreditar) o fato de a Base estar também organizada por expectativas de aprendizagem por série (idade) faz com que um problema central permaneça inalterado.

Na prática, essas definições não estão diretamente vinculadas à capacidade dos alunos aprenderem, isto é, não seguem a “lógica da aprendizagem”. Essas definições foram realizadas tendo por critério a lógica dos conteúdos. Nem sempre essas duas lógicas estão sintonizadas. Há assim uma organização dos conteúdos que nem sempre facilita a aprendizagem, ao contrário, muitas vezes são responsáveis pelo surgimento de obstáculos cognitivos que impedem a compreensão dos aprendizes.

Por outro lado, os alunos, seres humanos singulares e distintos uns dos outros, vêm de experiências pessoais igualmente distintas e chegam à escola com maior ou menor capacidade de aprender certos conteúdos. Não é apenas porque o professor não sabe ensinar que o aluno não aprende, às vezes, lhe falta conhecimentos ou experiências anteriores que facilitariam seu processo.

Mas as escolas estão organizadas para o ensino padronizado. Se na quarta série ensinam-se frações, é nesse momento que o aluno precisa aprender. Se não aprende, o único mecanismo que a instituição escolar tem para lidar com essas defasagens é a reprovação. Refazer um ano e ter novamente contato com as noções que envolvem as frações não torna o aluno apto a aprender, porque ele novamente começa o mesmo processo, sem os conceitos ou experiências anteriores necessários.

Quando o aluno não é reprovado, segue para o ano seguinte para aprender um novo conteúdo, sem que ninguém mais vá dedicar-se a ensinar-lhe frações já que está na hora de aprender novo conteúdo. E, então, ele prossegue na vida escolar, às vezes reprovado, outras vezes não, mas sem saber um conteúdo que envolve conceitos determinantes para que possa compreender os novos conteúdos que vêm pela frente.

Quando chega ao Ensino Médio e vai para a avaliação nacional, fracassa não porque seu professor não sabia ensinar, mas porque o sistema pedagógico no qual está inserido prescreve aprendizagens específicas num dado tempo e momento e não prevê mecanismos eficientes para aqueles que não seguem a par e passo com os demais. Infelizmente não se trata da minoria, e por essa razão, ao avaliarmos nosso Ensino Médio, concluímos rapidamente que o problema está situado apenas nessa etapa.

Evidentemente não negamos que o Ensino Médio tem sérios problemas e necessita mudanças, assim como é preciso valorizar a profissão docente, aumentar os salários e garantir tempo para o trabalho coletivo. Mas, enquanto a instituição escolar não romper com a lógica do tempo igual para todos aprenderem o mesmo e se organizar para o atendimento à diversidade, continuaremos produzindo o fracasso da escola desde as séries iniciais!

O trânsito no cotidiano da Escola

Escola da Vila

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Reedição de texto de Vania Marincek de abril/2013

Quem passa na frente da escola no início da manhã, no horário de almoço ou no final da tarde, não imagina a quantidade de cuidados e de ações que são necessários para que os alunos entrem e saiam da escola em segurança. São muitos aspectos a serem considerados, desde a decisão por portões diferentes para quem entra e para quem sai, a fim de garantir o fluxo e a segurança dos alunos, até a organização do espaço da rua, para que as famílias possam buscar e deixar seus filhos com rapidez.

Todo início de ano, equacionamos um conjunto de variáveis, para obter um funcionamento ajustado e eficiente, revendo os procedimentos já estabelecidos e fazendo os ajustes que consideramos necessários para que o funcionamento nesses horários aconteça da melhor forma possível.

Sistematicamente, acionamos os órgãos responsáveis pelo gerenciamento do trânsito em nossa cidade, para solicitar a revisão do plano que melhor atenda à mobilidade nas regiões ao redor da escola e nem sempre o que consideramos bom para nossa comunidade pode ser viabilizado.

Sabemos que alguns aspectos dessa organização dependem de leis e regras de funcionamento de trânsito externos a nossas decisões. Assim, para o bom funcionamento da proposta de organização da escola é fundamental a participação responsável de toda a comunidade. Parar em filas duplas, estacionar em garagens e desconsiderar as solicitações dos funcionários da escola são exemplos de atitudes que comprometem o funcionamento da estrutura montada, gerando um verdadeiro caos nas ruas da escola e seus arredores.

Muito mais grave do que a desorganização gerada na rotina por aqueles que desconsideram as regras é o que se comunica aos nossos filhos e filhas com essas atitudes. As crianças, os adolescentes e os jovens se constituem por meio da observação e da reprodução dos modelos que presenciam. Dificilmente pensarão no coletivo, se seguirem presenciando cenas em que a vontade individual se sobrepõe ao bem-estar da comunidade. Essa é uma reflexão importante, que todos os que se ocupam de educar deveriam compartilhar. Nilton Bonder, em artigo na Folha de São Paulo, faz uma análise do papel de quem conduz um carro. “Quem conduz um automóvel é uma consciência”, diz ele.

O debate, a discussão e o diálogo sobre essas atitudes são sempre fomentados por nós, porque são importantes para que possamos ajudar todos a tomar consciência dessa situação. No entanto, é preciso lembrar que a escola, como instituição, tem seus limites de tempo e pessoas e deve priorizar, sempre, a educação de seus alunos, contando com a comunidade de responsáveis fazendo a sua parte.

Sobre uma partida inesperada, ignorância e educação

Escola da Vila

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Por Gabriel Castanho Sanches de Oliveira, ex-aluno da Vila

Durante esta semana, recebi com enorme pesar uma triste notícia. Que me tocou profundamente. A perda de uma das mais queridas professoras com quem tive o privilégio de aprender sobre tantas coisas. Inez Cerullo deixará em mim muitas reflexões e aprendizados, além de saudade. Agradeço sempre por ter tido a oportunidade de, ainda em vida, ter feito a ela uma singela homenagem.

A matemática, matéria que lecionava minha querida e já saudosa Inez, sempre foi um campo difícil para mim. Extremamente difícil. Ao longo de anos, apesar da boa vontade e insistência de outros grandes professores que tive, as dificuldades se multiplicavam. Proporcionalmente, aumentava também meu desinteresse. Isso me custou algumas férias fazendo reforço, horas e horas de aulas particulares e, no final das contas, uma repetência.

Até que cheguei ao colegial simplesmente ignorando a matemática. Ignorava a ponto de ser para mim uma imensidão escura, que eu não fazia o mínimo esforço para enxergar. Havia me tornado um perfeito ignorante.

Foi então que conheci Inez. O começo não foi fácil, o bloqueio que eu havia desenvolvido em relação à matemática era robusto. Além disso, eu não era um aluno exemplar do ponto de vista comportamental. Mas, de maneira sutil e natural, fui percebendo por qual caminho aquela mulher forte e doce me direcionava cautelosamente.

Meus amigos da época do colegial são testemunhas de que em determinado momento, já no terceiro ano, eu realizava todas as provas bimestrais sentado ao lado da mesa dela, virado de frente para eles. Era incrível. Algo totalmente diferente do que eu já tinha visto ou vivido. Alguns até questionavam o motivo, inclusive eu.

O que ninguém sabia é que tínhamos um acordo velado. O combinado era de que eu seria o exemplo para os outros colegas. Sentar ao lado da professora nos momentos de avaliação não era um privilégio, muito pelo contrário, poderia ser inclusive motivo de vergonha. No entanto, a representação daquilo era de que ela estaria do meu lado para encarar o desafio, desde que eu estivesse do lado dela e disposto a encarar a dificuldade. Foi uma parceria. Se o aluno com maior dificuldade estava disposto a encarar o desafio, quem poderia não estar? Se aquele que poderia arruinar as aulas estava ao lado da professora, quem não estaria? Se o aluno com maior dificuldade iria passar de ano e se formar, quem não iria? E assim sucedeu.

No dia da cerimônia de entrega do diploma, uma cena da qual jamais me esquecerei. Outro grande e saudoso mestre, Pedro Ravelli, professor de história, estava com o canudo na mão para fazer a entrega enquanto eu subia ao palco. Fazia todo sentido e eu me sentiria honrado, dado meu fascínio pela matéria e o professor em questão… Eis que Inez, de maneira surpreendente e bem-humorada, tomou-lhe o canudo e disse que faria questão de entregá-lo a mim. Pronto. Eu voltava a enxergar o mundo da matemática outra vez.

Fica o questionamento: seria a matemática ciência exata ou humana? E o que representaria um professor/mestre/educador, senão aquele que joga a luz de sua sabedoria sobre o aluno/discípulo e o ensina a encontrar o caminho para a própria luz?

Como eu gostaria que cada jovem estudante no Brasil tivesse a oportunidade de aprender matemática com a Inez, ou história com o Pedro…

E então me peguei refletindo esta semana. Que o Brasil é um dos países que menos investem em educação no mundo é claro e cristalino. Que nosso país tem um grande déficit educacional também. E então ganha força o discurso da ignorância. Ora, é exatamente o mundo da matemática que eu não conseguia enxergar. A escuridão, mesmo para quem não consegue enxergar, está lá. Mas não é vista. Com a ignorância é a mesma coisa. Discursos medíocres, rasos, contraditórios, segregadores, oportunistas acabam por refletir essa escuridão. Refletem a tal ignorância. Refletem também a canalhice daqueles que reconhecem a escuridão e somam-se a ela.

Mas render-se a escuridão? Jamais.

Onde há escuridão, haverá luz.

E que minha querida professora siga seu caminho iluminado. Assim como meu querido professor.

Desse plano seremos iluminados por eles, e encontraremos o caminho para não seguir na escuridão.

Fotografia é arte ou é ciência?

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Por Mauritz Gregorio de Vries, professor de Química do Ensino Médio

No Grupo de Investigações Científicas (GIC) investigamos fenômenos e técnicas diversas. Nos últimos anos construímos sistemas de captação de água e desenvolvemos um tratamento para torná-la potável, investigamos diversas características do solo e construímos técnicas para remediá-lo (construção de composteira e correção de pH), desenvolvemos pilhas rústicas, decompusemos a água para aproveitar o gás hidrogênio e o gás oxigênio, fizemos diversas reações químicas para obter diferentes gases e, assim, analisarmos o crescimento de plantas em diferentes atmosferas, entre muitas e muitas outras experiências.

De forma geral, a cada ano começamos o trabalho com um projeto coletivo, no qual todos os alunos estão envolvidos com o mesmo problema. Com o tempo, a partir da maior familiaridade com o laboratório, visitas a feiras de ciências e experiências com o controle de variáveis, os projetos individuais serão planejados e desenvolvidos. E, de modo gradual, o papel de construir perguntas, decidir quais materiais são necessários, planejar e replanejar o percurso investigativo e analisar os resultados é, cada vez mais, assumido pelos alunos com autonomia.

O nosso projeto coletivo de 2018 é o de fotografia, conhecimentos e aparatos. Construímos câmaras escuras e projetores e, a partir da análise desses resultados e estudos, estudamos o mecanismo da visão humana. Na sequência, fizemos nossos “pinholes” – latas metálicas com um pequeno orifício – e no seu interior colocamos um pedaço de papel fotossensível. Fizemos fotos com diferentes tempos de exposição do papel à luz e também tomamos o cuidado de medir o nível de luminosidade para calibrar as nossas câmeras. Assim, conseguimos materializar as imagens num pedaço de papel! Para revelar a imagem negativa, fizemos o nosso próprio revelador, interruptor e fixador! No momento, estamos realizando ajustes, melhorando a câmera que fizemos e testando diferentes reveladores. Para terminar, nos envolveremos ainda no desafio de fabricar o nosso próprio papel fotossensível. Imaginem a materialização de uma imagem inteiramente feita à mão?! Ao colocar a mão na massa, registrar, pesquisar, replanejar, discutir, nos envolvemos no problema de modo mais integral, de modo que nem sempre somos capazes de distinguir em nossa prática o que é técnica, o que é arte ou o que é ciência!

Ampliando a experiência escolar

Por Sonia Barreira, Direção Geral
e Celina Martins, Coordenação de Apoio do F2

O currículo escolar está em discussão nacional. Na Vila, ele está em discussão todos os dias! Nosso projeto pedagógico concretiza um currículo dinâmico, flexível e orientado para a aprendizagem significativa. Mas o que isso quer dizer?

Quer dizer que, durante todo o ano, a equipe tem metas de ensino claras, mas é também desafiada a discutir os temas trazidos pelos alunos, algumas das questões endereçadas por eles devem ser encaminhadas, debatidas, se possível respondidas. Da mesma forma, não podemos nos furtar a tratar dos temas que surgem das experiências cotidianas ou das páginas dos jornais! O currículo se constitui, portanto, de elementos estruturados e planejados de maneira mais demarcada, realizados num percurso de maior fôlego, mas também situações novas, frescas, de ritmo mais acelerado e temas do momento.

Escola da Vila
Vila Ativa

Para dar conta desse processo com o devido equilíbrio, é preciso haver, por parte dos professores, o senso de oportunidade, sem deixar de lado a responsabilidade pelo planejamento.

Nessa perspectiva, a Vila desenvolveu alguns mecanismos de trabalho, entre eles a SAD – Semana de atividades diversificadas –, que permite a realização de um conjunto expressivo de atividades distintas das habituais com novas dinâmicas e temas. Debates e palestras com convidados externos; visitas a museus de arte e ciência; oficinas de dança, fotografia, de construção de engenhocas, de programação; muitos são os exemplos de novas oportunidades de aprendizagem, com novos arranjos de tempo, espaço e pessoas, viabilizadas nessas semanas especiais.

Escola da Vila
Grupo de Investigações Científicas

Além disso, fomos implantando, ao longo dos anos, projetos de trabalhos complementares, opcionais, voltados a diferentes necessidades educacionais, com conteúdos que ora tangenciam o currículo regular, outras vezes o expandem, ou ainda permitem sua revisão ou aprofundamento.

É o caso de quatro atividades complementares: o Grupo de Investigações Científicas  (GIC), voltado para investigação de fenômenos e técnicas; o Vilalê (Clube de leitura), no qual o grupo elege, lê e comenta um livro comum a todos os participantes, a Oficina de Matemática, que oferece desafios que visam reaproximar o aluno da matemática e instigá-lo a enfrentar situações de resolução de problemas, e o VilaAtiva, voltado neste ano para a investigação sobre a complexidade da cidade.

Escola da Vila
Oficina de Matemática

Cada uma dessas atividades/cursos traz princípios importantes de sua área de origem, em consistência com o projeto pedagógico e os referenciais didáticos das áreas, mas também se constituem como espaços distintos dos cursos regulares, seja pela mistura de alunos de diferentes séries, pelas outras marcações temporais ou até pela ocupação de novos espaços dentro e fora da escola.

Escola da Vila
Vilalê

Nos próximos posts do nosso blog, você poderá conhecer um pouco melhor sobre o trabalho de cada um desses projetos por meio dos relatos dos professores envolvidos com cada um deles.