Os sentidos de uma Escola de Educação Infantil

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Nossa turma de crianças mais novas completa seu segundo ano de vida agora em 2018. Nasceram num mundo digital e conectado, no qual a informação circula massivamente, onde há desafios gigantescos para a humanidade: ecologia e clima estão na agenda, é imperativo tanto a busca pela diminuição das desigualdades culturais e socioeconômicas quanto o aprendizado de viver na diferença e entendê-la como aquilo que nos constitui. Enfim, um mundo da agilidade, das transformações e, porque não, das incertezas.

De que espaço educacional precisam esses pequenos? Quais experiências devem compor seu ambiente para que vivam plenamente as múltiplas possibilidades e potências em seu desenvolvimento? Para que construam projetos de vida singulares e consistentes, quais situações são emblemáticas em sua formação?

Aprender não significa mais o acúmulo de informações e o domínio de ferramentas para seu manejo, mas sim o que fazemos com todo esse acesso, como pensamos, como nos relacionamos e atuamos criativamente frente aos desafios que nos são apresentados cotidianamente.

Em artigo recente, a filósofa da Educação Carla Boto[1] faz uma análise muito aguçada acerca da escola contemporânea e das muitas críticas e questionamentos que tem recebido por parte de inúmeros setores da vida social. Aponta como, tão facilmente, considera-se a instituição obsoleta, diz-se que ela não foi capaz de acompanhar os tempos, que a velocidade das informações na sociedade digital tornou a escola desatualizada. Há claramente uma crise nas imagens pelas quais a escola é representada e isso não acontece somente no Brasil.

Assim, não à toa, vivemos movimentos de repensar a escola, seus propósitos, alcances, sua organização, objetivos, tempos e espaços. Para todos os segmentos da educação básica, do Infantil ao Médio, são inúmeras as discussões ao redor do mundo sobre competências para este século, novos currículos, formação e valorização do professor, processos de avaliação, entre tantos outros.

Nesse cenário, compete aos profissionais que vivem a escola diariamente reafirmar as dimensões, os sentidos e o valor inegável da escola na formação das novas gerações. E, neste post, trataremos de seu início… Lá onde tudo começa: a etapa da educação infantil.

Segundo Ana Malajovich[2], a produção científica atual apresenta a nós, educadores, um estranho paradoxo. Por um lado, reconhecemos nas crianças, desde muito pequenas, maiores capacidades que não imaginávamos há algumas décadas e, como produto do avanço científico sobre essa etapa da vida humana, comprovou-se o peso decisivo que o ambiente sociocultural assume no início do desenvolvimento humano.

No entanto, por outro lado, vemos correntes que pretendem afastar das crianças os direitos básicos à aprendizagem como experiência social e socializadora, o que inclui o direito ao convívio com outros, mediado por profissionais formados, em condições e ambientes favoráveis ao seu pleno desenvolvimento afetivo, relacional, cultural, dentre outras dimensões.

Se a escola de educação infantil é vista como espaço diminuto, tempos gastos em atividades super dirigidas, preenchimento de folhas, protocolos pré-determinados a serem seguidos, vivência de relações nas quais há a imposição de condutas pelo adulto, temos óculos extremamente distorcidos, ultrapassados e que urgentemente precisam de NOVAS LENTES para olhar o que excelentes escolas e espaços de educação infantil estão promovendo em nosso país.

Se, na curvatura da vara, passamos a ter movimentos defendendo que o mais adequado e contemporâneo para a infância é a “não-escola”, precisamos repensar urgentemente quais oportunidades oferecemos às crianças pequenas para desenvolverem suas linguagens e suas potências e, claro, quais condições são inegociáveis para uma experiência plena na primeira infância.

Um projeto educativo responsável garante às crianças a oportunidade de conhecer, de confrontar e criar, de interagir com seus pares e com adultos especialmente formados para essa mediação, de experimentar e de brincar, de ter acesso ao mundo e à cultura acumulada pela humanidade, expressando-se por meio de diferentes linguagens.

Mas qual a razão de propiciar tudo isso às crianças quando pequenas? Não basta poderem brincar do que desejam, a qualquer tempo, como e quando queiram?

Há sentidos múltiplos em jogo, e selecionamos alguns pontos centrais, ao nosso ver, para responder às perguntas iniciais: para que efetivamente uma criança viva uma experiência inicial potente e criativa de relação com o aprender, entendemos ser essencial priorizar que cada criança possa:

Ser única e ser entre outras. O eixo da interação e da percepção do eu a partir do outro é essencial à constituição de qualquer indivíduo. É um aprendizado ter uma escuta atenta ao outro, entender que a ideia do outro pode ser muito legal e, deixar de fazer uma coisa de imediato para ouvir uma oferta que está sendo proposta por outrem é situação que requer a mediação de adultos profissionais. Por que é tão importante se entender como um entre outros? Para além da constituição da identidade, os sentimentos advindos de perceber-se como parte de um coletivo, de ter um grupo de pertencimento e, assim, ter o primeiro afastamento da família nuclear, são experiências humanas cruciais da primeira infância.

A construção de laços de confiança e amizade, a expressão de sentimentos, a vivência de situações desafiadoras e conflituosas, de alguma angústia, num espaço de acolhimento e de mediação adulta qualificada, trazem para a criança benefícios indeléveis.

Criar, assumindo riscos. Arriscar-se em brincadeiras, em construções, em narrar uma história a outros, cantar, contar, modelar, dançar, escrever… Falhar, tentar novamente e ser encorajado para isso. Reconhecer-se nos olhos de outros, especialmente de professores e pares, e sentir a confiança em suas capacidades de realização. Lidar com o erro de forma saudável e processual e, sobretudo, ver suas iniciativas na solução de situações problema valorizadas é o que alimenta o pensamento criativo e a coragem de se expressar. Para isso, é necessário intencionalidade nas provocações planejadas pela equipe de profissionais que entende cada criança e sabe como ajustar bons desafios à diversidade que o ambiente escolar representa.

Investigar e ampliar seus horizontes. A curiosidade não se alimenta por si só, ela pode e deve ser instigada. Entendemos que a ampliação dos olhares da criança para o mundo por meio de situações que trazem a cultura do conhecimento nos mais diversos meios é, sim, responsabilidade do ambiente escolar. A investigação é a força motriz das transformações e ter experiências desde a simples observação de fenômenos, de conversar sobre as coisas, os animais, as plantas, aquilo que vemos, que não vemos, enfim, é propiciado em ambientes ativos e exuberantes em possibilidades de exploração e conversação sobre ideias e descobertas.

São muitas as necessidades da infância e, certamente uma reflexão crucial é o quanto o espaço escolar e seus profissionais são essenciais ao sucesso desse imenso desafio de educar em parceria com as famílias.

No entanto, compreender o valor do profissional que atende a todas essas condições é premissa. A formação que esse educador precisa consolidar é especializada. Não basta gostar de crianças, não basta ter jeito, é necessário estudo contínuo, compreensão das etapas de desenvolvimento que compõem a jornada de aprendizado dos indivíduos nos seus primeiros anos de vida, além de muita reflexão sobre a prática.

Mas tratar da relevância central da formação profissional para os educadores de Educação Infantil é assunto para continuarmos num próximo post, aguardem!


[1] Carla Boto, “Homeschooling”: a prática de educar em casa. 16/3/2018

[2] Ana Malajovich, Jogar ou  Aprender: as duas caras da mesma moeda? 15/9/2012

Vila Literária: um evento, muitos autores!

Escola da Vila

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Por Vicente Domingues Régis

No sábado dia 21 de outubro tivemos a IV Vila Literária, evento que reuniu crianças, suas famílias, professores, funcionários e demais convidados, ao redor de livros, trocas, leituras, oficinas, exposições e apresentações.

Muito do que se viu é fruto dos valores da escola em ação. A autonomia, a cooperação e o conhecimento são o tecido que sustenta as aprendizagens e as experiências que têm parte de seu ápice no próprio evento, mas não somente, pois foram inúmeras as situações que o antecederam e que seguem permeando o cotidiano das salas de Educação Infantil e Fundamental 1 no fomento da formação leitora de nossos jovens.

Um dos aspectos centrais que queremos aqui destacar é o valor da autoria e do protagonismo. O evento é costurado a muitas mãos desde sua concepção, envolvendo equipes de professores que engajam alunos e alunas na criação e transformação daquilo que já fazem na escola em espaços expositivos, propositivos de experiências de fruição com a Literatura e a Arte.

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Esses valores são percebidos nas muitas ações e exposições que tomam os espaços das unidades e do evento, em especial, traduzindo a essência do que entendemos por ter o aluno ao centro dos processos de ensino e aprendizagem.

Essa autoria se transforma no protagonismo juvenil que movimenta os grupos de teatro dos alunos de Fundamental 2, Ensino Médio e o Núcleo de Produção Cultural, que deram ainda mais vida aos textos escritos pelos alunos de 2o, 3o, 4o e 5o ano, na cerimônia de premiação do concurso literário. Protagonismo este que também se pode notar quando os mesmos alunos se transformaram em personagens de Alice no País das Maravilhas e circularam pela escola anunciando para o público as atividades propostas.

É essa mesma autoria que enxergamos em nossos professores e professoras, preparando uma série de oficinas para receber nossa comunidade, incluindo contação de histórias, criação de personagens, teatro de sombras e tantas outras que tinham como foco a relação da literatura com as demais linguagens artísticas.

Esses valores também mobilizaram a formação de um grupo de música de câmara formado integralmente por pais da escola, que nos brindou com uma maravilhosa apresentação no auditório. Apresentação que contou com um belíssimo programa composto por obras de compositores como Heitor Villa-Lobos, Edmundo Villani-Côrtes, Chico Buarque e Alexandre Guerra, sendo este último pai de dois alunos da escola. Não poderíamos deixar de agradecer aEliane Tokeshi (violinista), Emerson De Biaggi (violista), Vana Bock, (violoncelista) e Alexandre Zamith (pianista) pela tarde que combinou sensibilidade e virtuosismo, aproximando a música erudita do imaginário infantil.

O valor de formação de propostas como essa é enorme, e aproveitamos para compartilhar o álbum de fotos do evento, com registros das diferentes atividades realizadas e, mais do que isso, da participação encantada de nossa comunidade!

Para finalizar, agradecemos a participação e o envolvimento de todos, em especial daqueles que contribuíram com seu trabalho e dedicação para que a IV Vila Literária ficasse, mais uma vez, marcada na memória das crianças e suas famílias.

Entre o devaneio e a realidade

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Numa breve viagem de metrô, entre as estações Butantã e Luz, aprendi muito numa conversa com uma criança de seis anos e sua mãe! Estávamos sentados próximos, e ele, supertagarela, perguntou primeiro:

- Você vai trabalhar?

- Eu não, e você, pra onde vai?

- Eu vou para o trabalho da minha mãe e depois vou para a escola!

- Ah! Você fica com sua mãe um pouquinho?

- Não, a gente só passa lá e vai para a escola. Depois ela me pega!

Para mudar o rumo da prosa, já que o garoto era bem conversador, resolvi perguntar se ele gostava de andar de metrô:

- Quando eu “era” criança eu gostava mais, porque achava que estava dentro de uma nave espacial!

- Você pode achar que está numa nave ainda! O metrô tem cara de nave espacial pra mim também!

- Eu não acho, não é, mãe? Agora eu sou grande, tenho seis anos, ó… e rapidamente me mostrou os cinco dedos de uma mão e um da outra.

A mãe, nada tagarela, olhou para mim com simpatia e mexeu a cabeça com um sorriso afirmativo.

- Ah, mas eu não acho que seus seis anos te impedem de pensar que o metrô pode ser uma nave e que estamos indo para outro planeta…Você quer ir pra onde?

- Eu? Eu… quero ir para Saturno! Rapidamente ele “embarcou na brincadeira”.

- Então vamos fazer de conta que estamos indo? Como num passe de mágica, aquelas propagandas eletrônicas que ficam do lado de fora do trem, mostraram uma nova versão do filme do Super-Homem e a imagem que víamos à nossa frente era do herói voando para atingir uma “bola de kriptonita” no espaço!

- Olha, ali! Estamos quase chegando a Saturno, eu disse.

Percebi o quão maravilhado o garoto estava por voltar a pensar, dentro de sua lógica de seis anos, que poderia sim fazer de conta que o metrô era uma nave, ou qualquer coisa que ele bem entendesse. Nunca quis tanto permanecer por mais tempo numa linha de metrô…

A mãe do menino, ao se despedir de mim, comentou:

- Ele é superprecoce, deu para perceber? A gente incentiva muito que ele cresça e entenda as coisas como elas são, mas agradeço a atenção que você deu para a “criancice” dele!

Nesse momento, o sorriso sem jeito foi meu! Não tive tempo suficiente para dizer para aquela mãe que a fantasia, o devaneio e a criatividade andam de mãos dadas com as crianças e que cabe aos adultos oferecerem elementos para que elas se sintam capazes de criar suas próprias teorias sobre “as coisas”!

Escola da Vila

Para as crianças, o mundo está repleto de objetos misteriosos, de acontecimentos incompreensíveis e figuras indecifráveis. Longe da lógica adulta, já ouvi muita poesia construída por gente pequena:

- Sabe aquelas plantas que ficam na beira da areia? São os cabelos do mar…

- Eu dei uma voltinha e fiquei tonta… se eu der uma voltona eu vou voar…

Eu descobri que nessa pontinha da caneta tem muita tinta, parece um pincel preso.

Quando eu durmo, acontecem muitas coisas que não acontecem quando estou acordada…

 - Quando eu canto essa música, é como se uns flocos de neve saíssem da minha boca…  

- Dá pra colar com cola, com fita crepe e com o pensamento. O pensamento é um tipo de cola que gruda o que a gente sabe.

-  O sol é bem mole…

- Você já tocou nele para saber se é mole?

- Não, mas ele me tocou, me deixou bem ardido, então ele deve ser bem mole para chegar até aqui!

Adoro colecionar pensamentos filosóficos das crianças, dedico tempo especial para escutar e sempre saio maravilhada com o que ouço! Borges, escritor argentino que eu amo, diz que “estamos rodeados de beleza, estamos rodeados de poesia, só se trata de poder vê-las”. As crianças dão conta de fazer isso por meio da brincadeira, da literatura, das narrativas que constroem enquanto elaboram explicações para o “indizível”.

Escola da Vila

A criatividade não é dada por nós às crianças como herança genética, ela é construída com muita escuta e confiança. Eles precisam acreditar verdadeiramente que suas ideias têm valor, e essa dimensão criativa ganhará outras proporções na vida adulta, quando forem capazes de olhar a realidade com olhos investigativos, questionadores e solidários, sem perder a capacidade de embarcar em devaneios e sonhos, que cá pra nós, não foram esses que nos trouxeram até aqui?

Escola da Vila

E depois da Festa Junina a gente vai ficar de férias?

Escola da Vila
Desenho de aluno da Educação Infantil

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Por Daniela Munerato

Para as crianças é assim. Algum evento importante e esperado ajuda a marcar o tempo, lembrar e retomar o que vai acontecer. As férias de julho são breves, mesmo assim vamos correr o risco de ouvir repetidamente: “amanhã já tem escola?” ou “quando voltaremos para casa?”.

Minha sugestão é ajudarmos as crianças na organização e no aproveitamento desse tempo. Elas estão a construir essa noção e precisam de alguns recursos para organizá-la. Assim, ficam mais tranquilas quando as ajudamos antecipando o que está porvir e retomando situações já vividas.

Para quem se anima, uma dica divertida de marcar esse tempo é produzir um calendário de férias. A folha do mês de julho pode ser feita em conjunto ou impressa e colada ao alcance das crianças! Pintar finais de semana, marcar início e término das férias, dias especiais em que um amigo vai visitá-la ou aniversário de alguém querido, por exemplo. Combinem de pintar ou realizar uma marca, conforme os dias forem passando. O calendário representa um marcador temporal conhecido pelas crianças, já utilizado por nós aqui na escola desde o Grupo 1! Vale lembrar que ele é para as crianças, ou seja, mais uma brincadeira de férias para fazerem juntos!

Outra dica é aproveitar para ver as fotos de férias passadas. Se não estiverem impressas, um aconchego na frente do computador para lembrar momentos vai ser interessante, e quem sabe escolher alguma especial para enquadrar. As fotos não precisam ser somente de viagens, mas de momentos diversos, histórias que precisam ser lembradas, um cinema com amigos, um chá de bonecas, uma exposição. As crianças têm a possibilidade de acompanhar seus percursos, crescimento, lembrar momentos simples e especiais e, por que não, planejar repeti-los!

Em dias de frio, as cabanas cairão bem, se chover, façam bolinhos. Descubram pequenos tesouros como pedrinhas ou tampinhas coloridas para brincar. Chame os amigos para um filme com pipoca, de acordo com a disponibilidade dos pais, e assistam a filmes que marcaram outras gerações, como O Mágico de Oz, Pippi Meialonga, O Garoto (de Chaplin), Beleza Negra, A Noviça Rebelde, ET – O Extraterrestre, etc.

Serão tantas oportunidades interessantes que outra dica é a produção de um diário de férias! Pode-se desenhar nele, colar ingressos, fotos, anotar brincadeiras aprendidas, filmes vistos, receitas… Serão registros de um tempo fora da escola, que poderá ser retomado quando retornarem às aulas e forem convidados a compartilhar com os amigos.

E, por fim, é hora de guardar a mochila e a lancheira da escola e contar os dias para o nosso reencontro. Nós aqui na escola estaremos aguardando nossas alunas e alunos com saudades dos abraços apertados, das histórias cheias de detalhes, das gargalhadas, prontos para enfrentarmos juntos os encantos e novos desafios do segundo semestre!

Empatia como conteúdo escolar?

Escola da Vila

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Por Daniela Munerato 

“Você está muito chateado? Se eu pegar uma água para você, ajuda? Tomar água faz acalmar para a gente conseguir conversar”

A afetividade está presente no convívio entre crianças. É por meio dos vínculos que elas se aproximam, confiam, testam, ficam bravas, se entristecem, brigam, etc. Então, que tal começarmos permitindo que as crianças sintam, que expressem seus sentimentos?

É frequente vermos o mundo adulto dizer: “não tenha medo”, “seja bom, deixe a braveza de lado”, “não fique triste, vai passar” e o clássico “não chore, nem foi nada”, evitando o enfrentamento ou reconhecimento de que conflitos fazem crescer. A criança precisa de ajuda para decifrar o que sente, aprender a comunicar seus incômodos e, sobretudo, reconhecer que o outro também passa pelas mesmas sensações e mal-estares que ela. O adulto é valioso na ajuda a essa identificação que, paulatinamente, passará a fazer parte de seu vocabulário e, mais que isso, conformando sua capacidade de compreensão de sentimentos.

Colocar-se no lugar do outro revela muitas vezes o desejo de prestar ajuda, principalmente na identificação clara de que o outro não está bem. A palavra empatia, muito em voga atualmente, vem do termo em grego empatheia, que significa a capacidade de uma pessoa pôr-se no lugar de outra, de participar afetivamente do que a outra sente, se trata de uma comunicação afetiva com outra pessoa.

Temos encontrado essa palavra no nosso cotidiano educacional com mais força que o habitual. Por razões sociais e reflexões educacionais, as palavras aparecem, viram moda, mas nossa responsabilidade é a de refletir sobre princípios e contextos na sua utilização e compreensão.

Na escola, os conteúdos são organizados pensando no desenvolvimento integral da criança, o educacional e o pedagógico caminham juntos, mas precisamos ter sempre o cuidado de não transformar algo como “ter empatia” em conteúdo de trabalho descontextualizado da experiência advinda daquilo que é próprio das relações, pois estamos falando em dimensões que dialogam e que dependem da compreensão do conflito como situação formativa para que se instalem espaços de reflexão e conversas sobre como entender o sentimento dos colegas e poder lhes prestar ajuda, mesmo entendendo que essa é uma primeira dimensão da empatia. Por essa razão, empatia não pode ser tratada como um conteúdo de aprendizagem da mesma natureza que a contagem ou que a pesquisa, por exemplo. Aprendemos a reconhecer nossos sentimentos, a pensar sobre eles e a relação deles com as nossas ações em contexto grupal e a partir do que cada grupo vive em seu coletivo e entre coletivos no ambiente escolar, isso sim a escola pode favorecer.

As atividades escolares na Vila têm como bases importantes a cooperação, a interação e a resolução de problemas que favorecem a vivência dos sentimentos. Se as diversas propostas desenhadas para o trabalho na escola estiverem alinhadas a essas bases, os sentimentos estarão presentes, evidenciados na forma como cada um lida com as experiências vividas, tematizados nos grupos como trabalho constitutivo dos mesmos.

A escola é lugar de viver experiências inesquecíveis e formadoras para a vida, cheias de conhecimentos, emoções, sentimentos, cuidados com as relações. É assim que vivemos em grupo. E a empatia, bem como o medo, a alegria, a indignação e a vergonha, por exemplo, são sentidos e refletidos, apreendidos na experiência, e não ensinados meramente por conversas, leituras como pretextos ou aulas sobre o tema.

As datas comemorativas dentro do calendário escolar

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

… Mas aqui não se comemora o Dia das Mães? Talvez a Páscoa? Ah, pelo menos um dia especial para as crianças em outubro? E o Natal?…

Já tive várias conversas com famílias que ficam curiosas quando descobrem que nosso calendário não está a serviço das datas comemorativas. Não “usamos” o dia 19 de abril para falar do índio nem 7 de setembro como marco para tratar da independência do Brasil. Vale retomar um pouco da história da educação para saber como a ideia de ensinar por meio das datas adentra ao espaço escolar.

As datas comemorativas passaram a fazer parte do currículo de várias escolas brasileiras em meados dos anos 60, diante de um estado ditatorial, com o intuito de ensinar “deveres cívicos”. As tomadas de decisão e as escolhas não vinham de quem entendia de educação, mas da “necessidade” daquele momento de formar superficialmente sujeitos que reconhecessem alguns “personagens” importantes para a história nacional. As concepções de aluno crítico e professor reflexivo não combinavam com o calendário escolar que teimava em colocar orelhas de coelho e ornamentos indígenas ao mesmo tempo na mesma criança. Talvez essa imagem hoje nos traga certo desconforto, mas não é raro nos depararmos com escolas que trazem resquícios dessa concepção na qual cada data é marcada por festas e “atividades específicas” que nada têm a ver com conteúdos relevantes para a formação de sujeitos implicados desde sempre em seus processos de aprendizagem.

Nossa escola segue o calendário de feriados nacionais, entretanto, eles não norteiam nosso planejamento nem são base para tratarmos de maneira significativa e profunda de assuntos que não merecem apenas um dia em pauta, mas muitas e variadas ações para que sejam compreendidos como construções históricas e desdobramentos de ações humanas, com discussões que abarcam distintos pontos de vista e não apenas uma data específica. Dentro da escola temos muitas oportunidades para fazer valer a força de uma dança secular brasileira ou uma manifestação folclórica regional, e não pretendemos de forma alguma aprisioná-las num calendário.

Para comemorar algo dentro da escola é fundamental refletir sobre a relevância disso dentro das vivências das crianças.

Se a escola é laica e sua comunidade compreende pessoas com diversas crenças ou nenhuma, não caberia pensar nas comemorações religiosas porque dessa forma romperíamos com o princípio que desvincula a educação da religião.

Ao pensar numa festa para o Dia das Mães, por exemplo, a escola desconsideraria as diferentes possibilidades de configurações parentais. Talvez uma criança com dois pais naquele momento pensasse que há um tipo de família da qual ela não faz parte, e na realidade e escola deveria fazer com que todos se sentissem acolhidos, seja qual for a família que se tenha.

Não queremos oferecer às crianças informações recortadas de uma cultura estereotipada, implícita no cocar do índio, nas orelhas do coelho ou na espada de um suposto mártir.

Cultura e festas populares na escola

 

Por Daniela Munerato 

“essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós…” (cantigas populares, cirandeiro) 

Com a tecnologia avançada, muitas vezes não conseguimos saber de onde herdamos determinados rituais, crenças. O desafio de compreender a dimensão da cultura além do contato trazido pela mídia é grande, num olhar de menos consumo e mais identidade, que representa um valor na educação. Na escola, valorizar a cultura faz-se necessário, porque precisamos vivê-la para fazer parte dela. Então, que venham as histórias, os rituais e as brincadeiras populares, dentro e fora da escola.

Escola da Vila

A cultura está presente no nosso cotidiano e é de todos nós! Cultura como celebração ou memória de histórias que precisam ser lembradas e retomam a identidade de um lugar, de um povo, de uma sociedade. Uma identidade construída através do tempo e da valorização de costumes que evidenciam os lugares por onde passamos. A relação com as pessoas e o entendimento sobre um local fica muito mais amplo se conhecermos a sua cultura.

Tradição é uma palavra bastante lembrada quando falamos desse contexto, com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de algo valioso, que precisa ser mantido, como os costumes, os comportamentos, as memórias, as crenças, as lendas que passam a fazer parte da vida das pessoas.

Escola da Vila

Na escola, elementos dessa tradição cultural ficam evidentes e são esperados, anunciados no calendário anual de atividades, postos como importantes temas de estudo, por meio da arte, história e geografia, por exemplo. A reflexão sobre o tema amplia o conhecimento de mundo e identidade.

Como exemplo das tradições culturais, temos os chamados festejos, como o carnaval ou a festa junina, comemorações apreciadas que acontecem no mesmo período sempre, com regularidade e muita preparação. Cheios de rituais, os festejos representam finalização de um processo que é elaborado com a dedicação do grupo que o prepara. Envolvem apreciações de músicas, imagens e trechos de festas anteriores. E na escola a equipe de professores prepara esse material de formação com muita animação.

Escola da Vila

No âmbito social, temos os “mestres” como responsáveis por passarem as bases das tradições, ensinando sobre o que está sendo festejado ou dançado, por exemplo, ajudando na compreensão das sutilezas dos símbolos que aparecem na cultura. As danças, assim como as lendas, representam uma das linguagens que nos fazem compreender uma cultura. Habitualmente, existem vestimentas, ritmos, decorações muito próprias com instrumentos, materiais e cores cheios de significados. São formas de dançar e brincar diferenciados.

As comidas típicas fazem parte das culturas, seja por um alimento bastante regional ou de safra em determinado período. É mais um motivo de união e coletividade que faz parte de comemorações, como na festa junina, por exemplo, e o número de pratos derivados do milho.

Escola da Vila

Assim, a cultura se dá nos espaços e tempos, ampliando histórias e favorecendo as interações.

Parabéns pra você…

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

O aniversário como ritual de espera e marco de crescimento 

O aniversário é um acontecimento memorável! Os motivos pelos quais tornamos essa data inesquecível podem variar bastante:

Quando se completa o equivalente a uma mão inteira de idade:

Uau! Cinco anos! Já? Não precisa esconder mais nenhum dedo da mão? Ano que vem vai precisar da outra!

Quando não se consegue apagar a vela do bolo da primeira, da segunda ou da terceira vez:

- Força! Essa vela é muito teimosa! Vamos! Dessa vez vai apagar!

Quando alguém que você esperou por muito tempo chega de surpresa, tapa seus olhos e pergunta:

- Adivinha quem é? E no mesmo instante você identifica a pessoa pelo tom de voz e pelo toque delicado!

Posso pensar em muitos motivos para me lembrar de cada aniversário, e naturalmente passarão por minha memória vários sentidos: o cheiro do brigadeiro na panela, o gosto forte da borracha das bexigas na boca, as gotas de suor escorrendo no rosto depois de correr quilômetros numa brincadeira incessante de pega-pega…

Não estou pensando nos “meus” aniversários, na “minha” época nem falando hipoteticamente desse evento. Já vivi muitas e diferentes possibilidades, como criança, jovem, adulta e mãe. Muitas coisas mudaram de lá para cá, e não penso que “minhas” comemorações eram melhores ou piores do que algumas em que participei como convidada, mas sei que é possível pensar em critérios de escolha levantando alguns princípios sobre a compreensão que temos da infância, consumo e participação dos aniversariantes. As melhores comemorações mais carregadas de significado e de boas memórias podem não ser para as crianças aquelas cheias de presentes ou hiperatividades (monitores, buffets, mágicos, carruagens, manicure, cabeleireiro, spas infantis e toda a sorte de influências publicitárias ou modismos).

Os melhores aniversários, que ficarão guardados durante muito tempo nas boas memórias da infância, convidam à intimidade, à surpresa, ao tempo de espera… Espera? Qual é mesmo o significado dessa palavra?

Não é fácil ensinar alguém a esperar, inclusive observo que muita gente está perdendo essa capacidade, especialmente as crianças, que, ao “estalar os dedos”, como num passe de mágica, têm suas vontades imediatamente atendidas. Se tudo o que querem está à mão, não há necessidade de esperar, aprender a planejar, considerar a possibilidade da frustração.

Espero que aquela sensação de frio na barriga ao olhar no calendário, contar quantos meses faltam e perceber que a data especial está se aproximando possa fazer parte da vida da maioria das crianças. Que elas saibam que as “artesanias” da comemoração são compartilhadas pela simplicidade de uma reunião para homenagear quem naquele dia muda de idade, independentemente do número de convidados ou adereços, mas pelo significado do encontro que ritualiza esta passagem. Fazer aniversário é marco de crescimento, de méritos conquistados, desejos esperados ao longo de um ano, com data para se cumprir!

Para terminar, sugiro algumas ideias, inspiradas no livro “A última criança na natureza”, de Richard Louv, que podem aproximar muito os convidados e tornar o dia do aniversariante muito especial:

- Passear em grupo por uma área arborizada para inventar histórias e deixar pistas pelo caminho como se fossem de personagens de contos de fada.

- Convidar avós para ensinar brincadeiras que eles faziam quando eram crianças.

- Acampamento no quintal.

- Observar nuvens, estrelas através de equipamentos (binóculos ou lunetas) construídos pelas crianças com sucata de rolos de papel higiênico, papel celofane colorido.

- Plantio de mudas num local escolhido pelo aniversariante.

- Caminhada pelo bairro para regar plantas.

- Caminhada noturna com lanternas.

- Coletar sementes, folhas, gravetos (caídos no chão) como um tesouro para o aniversariante.

- Construir cabanas de tecido.

- Leitura ao ar livre.

Cecilia Bajour na Escola da Vila

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Você não precisa de um local específico para ler uma história, nem de um livro que buzine, brilhe ou se desdobre em mil objetos. Você não precisa de uma varinha de condão para fazer mágica com as palavras, mas tem que saber como favorecer relações instigantes entre as crianças e as narrativas!

Na quinta-feira passada, tivemos a oportunidade de ouvir por algumas horas uma pesquisadora apaixonante! Já conhecia Cecilia Bajour por meio de textos extremamente belos sobre as pontes construídas pelos autores para aproximar sua obra dos leitores sem criar abismos intransponíveis. Ela fala do que se pode esperar, ocultar, dizer ou silenciar a cada virada de página e das diferentes visões de infância e criança que estão subentendidas na maneira como um livro é concebido!

É difícil traduzir em palavras o que acontece quando temos um livro nas mãos e um grupo de crianças dispostas a pactuar conosco uma grande “viagem” inexplicavelmente particular, na medida em que cada um é capaz de estabelecer suas próprias relações com imagens, palavras, contextos, e ao mesmo tempo coletiva porque, em grupo, podemos nos “alimentar” das ideias uns dos outros.

Vou tentar contar para vocês um pouco dessa relação.

Alguém abre um livro, estabelece-se um silêncio emocionante… Cada criança adentra ao espaço da história com suas próprias “ferramentas”. Diante da mesma narrativa colocamo-nos como coparticipantes e somos autorizados a “ser” quem quisermos, viver por alguns milésimos de segundos a dúvida do que acontecerá na próxima página e, ao encontrar novas dúvidas, somos impulsionados a continuar ativos nessa relação entre livro como material de arte, história, silêncio, incertezas e construção de sentido. Quando os adultos subestimam a capacidade das crianças de “jogar esse jogo”, partem então para “encontros” unilaterais com a leitura, nos quais a palavra é monopolizada e a postura do mediador a mais controladora possível.

A palestra de Cecilia reafirmou nossa crença de que há um caminho de muita confiança entre leitor e receptor. Nesse contexto, as crianças são capazes de criar e inventar. As histórias abrem significados e o grupo os expande cooperativamente. Instauram-se a partir daí respostas provisórias para textos desafiadores com modos de ler igualmente desafiadores.

As histórias não precisam da “tradução” dos adultos ou de simplificações que barateiam a narrativa. Enquanto lemos, as zonas ambíguas vão se construindo, e as crianças entendem onde o texto pretendia se “calar” ou nos interrogar.

Vale prestar atenção na inquietude que o “não saber” suscita e costurar teias múltiplas de interpretação sem fechá-las, deixando que os leitores apresentem suas hipóteses e falem sobre elas.

Termino com um trecho do livro Ouvir nas entrelinhas – O valor da escuta nas práticas de leitura”, da própria Cecilia Bajour:

“… acreditar que os leitores podem lidar com textos que os deixem inquietos ou em estado de interrogação é uma maneira de apostar nas aprendizagens sobre ambiguidade e a polissemia na arte e na vida. Nem todos os silêncios precisam ser preenchidos…”.

Para que possam dialogar com o “silêncio”, faço algumas indicações:

zoom  Zoom, de Istvan Banyai

willy  Willy y Hugo, de Anthony Browne

lobos  Lobos, de Emily Gravett

Uma boa conversa para início de ano…

Escola da Vila

Por Fernanda Flores

O valor de ler para as crianças, mesmo quando já leem por si mesmas.

Ano após ano, sempre somos consultadas por mães e pais sobre como podem ajudar seus filhos frente ao novo que se descortina.

Sem sombra de dúvida, a boa e velha leitura compartilhada em família é de longe daquelas ações das mais preciosas na formação das crianças! Seja à noitinha como ritual de adormecer, quer num momento confortável que melhor se adeque à rotina de cada família, ler e ouvir histórias perpetua um sem fim de oportunidades de relação: com a história que se está a ler, com as histórias de cada um dos envolvidos, com as memórias incitadas pelas palavras e imagens que envolvem a situação.

Não há mistério e, ao mesmo tempo, todos os mistérios do encontro estão ali contidos.

A fascinação por como sucedem as relações sutis entre palavra e imagem, como os diálogos vão compondo as representações do enredo, dos personagens e suas histórias, dançando na imaginação singular de cada um dos ouvintes, forma o que de mais humano há em nós: o sonho, a imaginação, a curiosidade instigada.

Essa leitura compartilhada em família com regularidade, constitui um ritual fantástico, pleno em qualidades, pois também nos ajuda como educadores a reconhecer (e se apaixonar) pelo tanto que as crianças seguem pensando e aprendem com as histórias que ouvem, elaborando perguntas e explicações imprevisíveis que nos ajudam a entender mais como pensam e organizam o mundo.

Ampliam horizontes, inserindo as crianças noutros contextos, menos familiares, mais plurais, oportunizando a valorização das diferenças culturais e dando muitos espaços para que enfrentem dilemas e questões existenciais humanas com distanciamento e uma implicação afetiva amenizada pela distância concreta frente à situação narrada.

É oportuno recomendar a leitura do texto Para fugir das armadilhas na escolha de bons livros para as crianças escrito por Paula Lisboa para nosso blog ano passado, que dá maravilhosas dicas relacionadas às escolhas do que ler (e evitar) na formação leitora de nossas crianças.

Um ano repleto de encontros literários para todos nós!