E depois da Festa Junina a gente vai ficar de férias?

Escola da Vila
Desenho de aluno da Educação Infantil

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Por Daniela Munerato

Para as crianças é assim. Algum evento importante e esperado ajuda a marcar o tempo, lembrar e retomar o que vai acontecer. As férias de julho são breves, mesmo assim vamos correr o risco de ouvir repetidamente: “amanhã já tem escola?” ou “quando voltaremos para casa?”.

Minha sugestão é ajudarmos as crianças na organização e no aproveitamento desse tempo. Elas estão a construir essa noção e precisam de alguns recursos para organizá-la. Assim, ficam mais tranquilas quando as ajudamos antecipando o que está porvir e retomando situações já vividas.

Para quem se anima, uma dica divertida de marcar esse tempo é produzir um calendário de férias. A folha do mês de julho pode ser feita em conjunto ou impressa e colada ao alcance das crianças! Pintar finais de semana, marcar início e término das férias, dias especiais em que um amigo vai visitá-la ou aniversário de alguém querido, por exemplo. Combinem de pintar ou realizar uma marca, conforme os dias forem passando. O calendário representa um marcador temporal conhecido pelas crianças, já utilizado por nós aqui na escola desde o Grupo 1! Vale lembrar que ele é para as crianças, ou seja, mais uma brincadeira de férias para fazerem juntos!

Outra dica é aproveitar para ver as fotos de férias passadas. Se não estiverem impressas, um aconchego na frente do computador para lembrar momentos vai ser interessante, e quem sabe escolher alguma especial para enquadrar. As fotos não precisam ser somente de viagens, mas de momentos diversos, histórias que precisam ser lembradas, um cinema com amigos, um chá de bonecas, uma exposição. As crianças têm a possibilidade de acompanhar seus percursos, crescimento, lembrar momentos simples e especiais e, por que não, planejar repeti-los!

Em dias de frio, as cabanas cairão bem, se chover, façam bolinhos. Descubram pequenos tesouros como pedrinhas ou tampinhas coloridas para brincar. Chame os amigos para um filme com pipoca, de acordo com a disponibilidade dos pais, e assistam a filmes que marcaram outras gerações, como O Mágico de Oz, Pippi Meialonga, O Garoto (de Chaplin), Beleza Negra, A Noviça Rebelde, ET – O Extraterrestre, etc.

Serão tantas oportunidades interessantes que outra dica é a produção de um diário de férias! Pode-se desenhar nele, colar ingressos, fotos, anotar brincadeiras aprendidas, filmes vistos, receitas… Serão registros de um tempo fora da escola, que poderá ser retomado quando retornarem às aulas e forem convidados a compartilhar com os amigos.

E, por fim, é hora de guardar a mochila e a lancheira da escola e contar os dias para o nosso reencontro. Nós aqui na escola estaremos aguardando nossas alunas e alunos com saudades dos abraços apertados, das histórias cheias de detalhes, das gargalhadas, prontos para enfrentarmos juntos os encantos e novos desafios do segundo semestre!

Empatia como conteúdo escolar?

Escola da Vila

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Por Daniela Munerato 

“Você está muito chateado? Se eu pegar uma água para você, ajuda? Tomar água faz acalmar para a gente conseguir conversar”

A afetividade está presente no convívio entre crianças. É por meio dos vínculos que elas se aproximam, confiam, testam, ficam bravas, se entristecem, brigam, etc. Então, que tal começarmos permitindo que as crianças sintam, que expressem seus sentimentos?

É frequente vermos o mundo adulto dizer: “não tenha medo”, “seja bom, deixe a braveza de lado”, “não fique triste, vai passar” e o clássico “não chore, nem foi nada”, evitando o enfrentamento ou reconhecimento de que conflitos fazem crescer. A criança precisa de ajuda para decifrar o que sente, aprender a comunicar seus incômodos e, sobretudo, reconhecer que o outro também passa pelas mesmas sensações e mal-estares que ela. O adulto é valioso na ajuda a essa identificação que, paulatinamente, passará a fazer parte de seu vocabulário e, mais que isso, conformando sua capacidade de compreensão de sentimentos.

Colocar-se no lugar do outro revela muitas vezes o desejo de prestar ajuda, principalmente na identificação clara de que o outro não está bem. A palavra empatia, muito em voga atualmente, vem do termo em grego empatheia, que significa a capacidade de uma pessoa pôr-se no lugar de outra, de participar afetivamente do que a outra sente, se trata de uma comunicação afetiva com outra pessoa.

Temos encontrado essa palavra no nosso cotidiano educacional com mais força que o habitual. Por razões sociais e reflexões educacionais, as palavras aparecem, viram moda, mas nossa responsabilidade é a de refletir sobre princípios e contextos na sua utilização e compreensão.

Na escola, os conteúdos são organizados pensando no desenvolvimento integral da criança, o educacional e o pedagógico caminham juntos, mas precisamos ter sempre o cuidado de não transformar algo como “ter empatia” em conteúdo de trabalho descontextualizado da experiência advinda daquilo que é próprio das relações, pois estamos falando em dimensões que dialogam e que dependem da compreensão do conflito como situação formativa para que se instalem espaços de reflexão e conversas sobre como entender o sentimento dos colegas e poder lhes prestar ajuda, mesmo entendendo que essa é uma primeira dimensão da empatia. Por essa razão, empatia não pode ser tratada como um conteúdo de aprendizagem da mesma natureza que a contagem ou que a pesquisa, por exemplo. Aprendemos a reconhecer nossos sentimentos, a pensar sobre eles e a relação deles com as nossas ações em contexto grupal e a partir do que cada grupo vive em seu coletivo e entre coletivos no ambiente escolar, isso sim a escola pode favorecer.

As atividades escolares na Vila têm como bases importantes a cooperação, a interação e a resolução de problemas que favorecem a vivência dos sentimentos. Se as diversas propostas desenhadas para o trabalho na escola estiverem alinhadas a essas bases, os sentimentos estarão presentes, evidenciados na forma como cada um lida com as experiências vividas, tematizados nos grupos como trabalho constitutivo dos mesmos.

A escola é lugar de viver experiências inesquecíveis e formadoras para a vida, cheias de conhecimentos, emoções, sentimentos, cuidados com as relações. É assim que vivemos em grupo. E a empatia, bem como o medo, a alegria, a indignação e a vergonha, por exemplo, são sentidos e refletidos, apreendidos na experiência, e não ensinados meramente por conversas, leituras como pretextos ou aulas sobre o tema.

As datas comemorativas dentro do calendário escolar

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

… Mas aqui não se comemora o Dia das Mães? Talvez a Páscoa? Ah, pelo menos um dia especial para as crianças em outubro? E o Natal?…

Já tive várias conversas com famílias que ficam curiosas quando descobrem que nosso calendário não está a serviço das datas comemorativas. Não “usamos” o dia 19 de abril para falar do índio nem 7 de setembro como marco para tratar da independência do Brasil. Vale retomar um pouco da história da educação para saber como a ideia de ensinar por meio das datas adentra ao espaço escolar.

As datas comemorativas passaram a fazer parte do currículo de várias escolas brasileiras em meados dos anos 60, diante de um estado ditatorial, com o intuito de ensinar “deveres cívicos”. As tomadas de decisão e as escolhas não vinham de quem entendia de educação, mas da “necessidade” daquele momento de formar superficialmente sujeitos que reconhecessem alguns “personagens” importantes para a história nacional. As concepções de aluno crítico e professor reflexivo não combinavam com o calendário escolar que teimava em colocar orelhas de coelho e ornamentos indígenas ao mesmo tempo na mesma criança. Talvez essa imagem hoje nos traga certo desconforto, mas não é raro nos depararmos com escolas que trazem resquícios dessa concepção na qual cada data é marcada por festas e “atividades específicas” que nada têm a ver com conteúdos relevantes para a formação de sujeitos implicados desde sempre em seus processos de aprendizagem.

Nossa escola segue o calendário de feriados nacionais, entretanto, eles não norteiam nosso planejamento nem são base para tratarmos de maneira significativa e profunda de assuntos que não merecem apenas um dia em pauta, mas muitas e variadas ações para que sejam compreendidos como construções históricas e desdobramentos de ações humanas, com discussões que abarcam distintos pontos de vista e não apenas uma data específica. Dentro da escola temos muitas oportunidades para fazer valer a força de uma dança secular brasileira ou uma manifestação folclórica regional, e não pretendemos de forma alguma aprisioná-las num calendário.

Para comemorar algo dentro da escola é fundamental refletir sobre a relevância disso dentro das vivências das crianças.

Se a escola é laica e sua comunidade compreende pessoas com diversas crenças ou nenhuma, não caberia pensar nas comemorações religiosas porque dessa forma romperíamos com o princípio que desvincula a educação da religião.

Ao pensar numa festa para o Dia das Mães, por exemplo, a escola desconsideraria as diferentes possibilidades de configurações parentais. Talvez uma criança com dois pais naquele momento pensasse que há um tipo de família da qual ela não faz parte, e na realidade e escola deveria fazer com que todos se sentissem acolhidos, seja qual for a família que se tenha.

Não queremos oferecer às crianças informações recortadas de uma cultura estereotipada, implícita no cocar do índio, nas orelhas do coelho ou na espada de um suposto mártir.

Cultura e festas populares na escola

 

Por Daniela Munerato 

“essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós, ela é de todos nós…” (cantigas populares, cirandeiro) 

Com a tecnologia avançada, muitas vezes não conseguimos saber de onde herdamos determinados rituais, crenças. O desafio de compreender a dimensão da cultura além do contato trazido pela mídia é grande, num olhar de menos consumo e mais identidade, que representa um valor na educação. Na escola, valorizar a cultura faz-se necessário, porque precisamos vivê-la para fazer parte dela. Então, que venham as histórias, os rituais e as brincadeiras populares, dentro e fora da escola.

Escola da Vila

A cultura está presente no nosso cotidiano e é de todos nós! Cultura como celebração ou memória de histórias que precisam ser lembradas e retomam a identidade de um lugar, de um povo, de uma sociedade. Uma identidade construída através do tempo e da valorização de costumes que evidenciam os lugares por onde passamos. A relação com as pessoas e o entendimento sobre um local fica muito mais amplo se conhecermos a sua cultura.

Tradição é uma palavra bastante lembrada quando falamos desse contexto, com origem no termo em latim traditio, que significa “entregar” ou “passar adiante”. A tradição é a transmissão de algo valioso, que precisa ser mantido, como os costumes, os comportamentos, as memórias, as crenças, as lendas que passam a fazer parte da vida das pessoas.

Escola da Vila

Na escola, elementos dessa tradição cultural ficam evidentes e são esperados, anunciados no calendário anual de atividades, postos como importantes temas de estudo, por meio da arte, história e geografia, por exemplo. A reflexão sobre o tema amplia o conhecimento de mundo e identidade.

Como exemplo das tradições culturais, temos os chamados festejos, como o carnaval ou a festa junina, comemorações apreciadas que acontecem no mesmo período sempre, com regularidade e muita preparação. Cheios de rituais, os festejos representam finalização de um processo que é elaborado com a dedicação do grupo que o prepara. Envolvem apreciações de músicas, imagens e trechos de festas anteriores. E na escola a equipe de professores prepara esse material de formação com muita animação.

Escola da Vila

No âmbito social, temos os “mestres” como responsáveis por passarem as bases das tradições, ensinando sobre o que está sendo festejado ou dançado, por exemplo, ajudando na compreensão das sutilezas dos símbolos que aparecem na cultura. As danças, assim como as lendas, representam uma das linguagens que nos fazem compreender uma cultura. Habitualmente, existem vestimentas, ritmos, decorações muito próprias com instrumentos, materiais e cores cheios de significados. São formas de dançar e brincar diferenciados.

As comidas típicas fazem parte das culturas, seja por um alimento bastante regional ou de safra em determinado período. É mais um motivo de união e coletividade que faz parte de comemorações, como na festa junina, por exemplo, e o número de pratos derivados do milho.

Escola da Vila

Assim, a cultura se dá nos espaços e tempos, ampliando histórias e favorecendo as interações.

Parabéns pra você…

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

O aniversário como ritual de espera e marco de crescimento 

O aniversário é um acontecimento memorável! Os motivos pelos quais tornamos essa data inesquecível podem variar bastante:

Quando se completa o equivalente a uma mão inteira de idade:

Uau! Cinco anos! Já? Não precisa esconder mais nenhum dedo da mão? Ano que vem vai precisar da outra!

Quando não se consegue apagar a vela do bolo da primeira, da segunda ou da terceira vez:

- Força! Essa vela é muito teimosa! Vamos! Dessa vez vai apagar!

Quando alguém que você esperou por muito tempo chega de surpresa, tapa seus olhos e pergunta:

- Adivinha quem é? E no mesmo instante você identifica a pessoa pelo tom de voz e pelo toque delicado!

Posso pensar em muitos motivos para me lembrar de cada aniversário, e naturalmente passarão por minha memória vários sentidos: o cheiro do brigadeiro na panela, o gosto forte da borracha das bexigas na boca, as gotas de suor escorrendo no rosto depois de correr quilômetros numa brincadeira incessante de pega-pega…

Não estou pensando nos “meus” aniversários, na “minha” época nem falando hipoteticamente desse evento. Já vivi muitas e diferentes possibilidades, como criança, jovem, adulta e mãe. Muitas coisas mudaram de lá para cá, e não penso que “minhas” comemorações eram melhores ou piores do que algumas em que participei como convidada, mas sei que é possível pensar em critérios de escolha levantando alguns princípios sobre a compreensão que temos da infância, consumo e participação dos aniversariantes. As melhores comemorações mais carregadas de significado e de boas memórias podem não ser para as crianças aquelas cheias de presentes ou hiperatividades (monitores, buffets, mágicos, carruagens, manicure, cabeleireiro, spas infantis e toda a sorte de influências publicitárias ou modismos).

Os melhores aniversários, que ficarão guardados durante muito tempo nas boas memórias da infância, convidam à intimidade, à surpresa, ao tempo de espera… Espera? Qual é mesmo o significado dessa palavra?

Não é fácil ensinar alguém a esperar, inclusive observo que muita gente está perdendo essa capacidade, especialmente as crianças, que, ao “estalar os dedos”, como num passe de mágica, têm suas vontades imediatamente atendidas. Se tudo o que querem está à mão, não há necessidade de esperar, aprender a planejar, considerar a possibilidade da frustração.

Espero que aquela sensação de frio na barriga ao olhar no calendário, contar quantos meses faltam e perceber que a data especial está se aproximando possa fazer parte da vida da maioria das crianças. Que elas saibam que as “artesanias” da comemoração são compartilhadas pela simplicidade de uma reunião para homenagear quem naquele dia muda de idade, independentemente do número de convidados ou adereços, mas pelo significado do encontro que ritualiza esta passagem. Fazer aniversário é marco de crescimento, de méritos conquistados, desejos esperados ao longo de um ano, com data para se cumprir!

Para terminar, sugiro algumas ideias, inspiradas no livro “A última criança na natureza”, de Richard Louv, que podem aproximar muito os convidados e tornar o dia do aniversariante muito especial:

- Passear em grupo por uma área arborizada para inventar histórias e deixar pistas pelo caminho como se fossem de personagens de contos de fada.

- Convidar avós para ensinar brincadeiras que eles faziam quando eram crianças.

- Acampamento no quintal.

- Observar nuvens, estrelas através de equipamentos (binóculos ou lunetas) construídos pelas crianças com sucata de rolos de papel higiênico, papel celofane colorido.

- Plantio de mudas num local escolhido pelo aniversariante.

- Caminhada pelo bairro para regar plantas.

- Caminhada noturna com lanternas.

- Coletar sementes, folhas, gravetos (caídos no chão) como um tesouro para o aniversariante.

- Construir cabanas de tecido.

- Leitura ao ar livre.

Cecilia Bajour na Escola da Vila

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Você não precisa de um local específico para ler uma história, nem de um livro que buzine, brilhe ou se desdobre em mil objetos. Você não precisa de uma varinha de condão para fazer mágica com as palavras, mas tem que saber como favorecer relações instigantes entre as crianças e as narrativas!

Na quinta-feira passada, tivemos a oportunidade de ouvir por algumas horas uma pesquisadora apaixonante! Já conhecia Cecilia Bajour por meio de textos extremamente belos sobre as pontes construídas pelos autores para aproximar sua obra dos leitores sem criar abismos intransponíveis. Ela fala do que se pode esperar, ocultar, dizer ou silenciar a cada virada de página e das diferentes visões de infância e criança que estão subentendidas na maneira como um livro é concebido!

É difícil traduzir em palavras o que acontece quando temos um livro nas mãos e um grupo de crianças dispostas a pactuar conosco uma grande “viagem” inexplicavelmente particular, na medida em que cada um é capaz de estabelecer suas próprias relações com imagens, palavras, contextos, e ao mesmo tempo coletiva porque, em grupo, podemos nos “alimentar” das ideias uns dos outros.

Vou tentar contar para vocês um pouco dessa relação.

Alguém abre um livro, estabelece-se um silêncio emocionante… Cada criança adentra ao espaço da história com suas próprias “ferramentas”. Diante da mesma narrativa colocamo-nos como coparticipantes e somos autorizados a “ser” quem quisermos, viver por alguns milésimos de segundos a dúvida do que acontecerá na próxima página e, ao encontrar novas dúvidas, somos impulsionados a continuar ativos nessa relação entre livro como material de arte, história, silêncio, incertezas e construção de sentido. Quando os adultos subestimam a capacidade das crianças de “jogar esse jogo”, partem então para “encontros” unilaterais com a leitura, nos quais a palavra é monopolizada e a postura do mediador a mais controladora possível.

A palestra de Cecilia reafirmou nossa crença de que há um caminho de muita confiança entre leitor e receptor. Nesse contexto, as crianças são capazes de criar e inventar. As histórias abrem significados e o grupo os expande cooperativamente. Instauram-se a partir daí respostas provisórias para textos desafiadores com modos de ler igualmente desafiadores.

As histórias não precisam da “tradução” dos adultos ou de simplificações que barateiam a narrativa. Enquanto lemos, as zonas ambíguas vão se construindo, e as crianças entendem onde o texto pretendia se “calar” ou nos interrogar.

Vale prestar atenção na inquietude que o “não saber” suscita e costurar teias múltiplas de interpretação sem fechá-las, deixando que os leitores apresentem suas hipóteses e falem sobre elas.

Termino com um trecho do livro Ouvir nas entrelinhas – O valor da escuta nas práticas de leitura”, da própria Cecilia Bajour:

“… acreditar que os leitores podem lidar com textos que os deixem inquietos ou em estado de interrogação é uma maneira de apostar nas aprendizagens sobre ambiguidade e a polissemia na arte e na vida. Nem todos os silêncios precisam ser preenchidos…”.

Para que possam dialogar com o “silêncio”, faço algumas indicações:

zoom  Zoom, de Istvan Banyai

willy  Willy y Hugo, de Anthony Browne

lobos  Lobos, de Emily Gravett

Uma boa conversa para início de ano…

Escola da Vila

Por Fernanda Flores

O valor de ler para as crianças, mesmo quando já leem por si mesmas.

Ano após ano, sempre somos consultadas por mães e pais sobre como podem ajudar seus filhos frente ao novo que se descortina.

Sem sombra de dúvida, a boa e velha leitura compartilhada em família é de longe daquelas ações das mais preciosas na formação das crianças! Seja à noitinha como ritual de adormecer, quer num momento confortável que melhor se adeque à rotina de cada família, ler e ouvir histórias perpetua um sem fim de oportunidades de relação: com a história que se está a ler, com as histórias de cada um dos envolvidos, com as memórias incitadas pelas palavras e imagens que envolvem a situação.

Não há mistério e, ao mesmo tempo, todos os mistérios do encontro estão ali contidos.

A fascinação por como sucedem as relações sutis entre palavra e imagem, como os diálogos vão compondo as representações do enredo, dos personagens e suas histórias, dançando na imaginação singular de cada um dos ouvintes, forma o que de mais humano há em nós: o sonho, a imaginação, a curiosidade instigada.

Essa leitura compartilhada em família com regularidade, constitui um ritual fantástico, pleno em qualidades, pois também nos ajuda como educadores a reconhecer (e se apaixonar) pelo tanto que as crianças seguem pensando e aprendem com as histórias que ouvem, elaborando perguntas e explicações imprevisíveis que nos ajudam a entender mais como pensam e organizam o mundo.

Ampliam horizontes, inserindo as crianças noutros contextos, menos familiares, mais plurais, oportunizando a valorização das diferenças culturais e dando muitos espaços para que enfrentem dilemas e questões existenciais humanas com distanciamento e uma implicação afetiva amenizada pela distância concreta frente à situação narrada.

É oportuno recomendar a leitura do texto Para fugir das armadilhas na escolha de bons livros para as crianças escrito por Paula Lisboa para nosso blog ano passado, que dá maravilhosas dicas relacionadas às escolhas do que ler (e evitar) na formação leitora de nossas crianças.

Um ano repleto de encontros literários para todos nós!

Coisas de criança

Escola da Vila

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Por Daniela Munerato

[...] na praia do mar de mundos sem fim, crianças brincam…
                                                                  Tagore¹

Se olharmos nosso cotidiano e observarmos as crianças poderemos perceber que há um limite bastante tênue entre o mundo da criança e o mundo do adulto. Mas, na verdade, essa reflexão nos leva a importantes desdobramentos. Por aqui, terão destaque apenas alguns, para iniciarmos a questão.

É bom ou divertido antecipar momentos? Acompanhamos em nossa sociedade adultos incentivando a criança a viver situações antecipadas, com agendas cheias de compromissos, celulares disponíveis nos momentos livres, com desafios propostos por jogos e situações solitárias, a ausência de brinquedos, de passeios a parques, de histórias com personagens que não aqueles sugeridos pela televisão. Precisamos ter a clareza dos ganhos e das perdas, a depender das condutas: incentivamos uma criança quando ela diz ter um namorado e lhe enviamos presentes? Deixamos as crianças decidirem pelos adultos? O que comer? Aonde ir? Em qual horário? Entre um jogo de tabuleiro e um computador achamos que o segundo estará a favor de mais aprendizagens? Compramos materiais duplicados para nossos filhos, evitando conflitos e/ou frustrações? Vale lembrar: o tempo passa muito depressa! O brincar e o conviver, com todos os desafios que isso representa, fazem a diferença.

A imitação, de forma geral, faz parte do brincar! A criança observadora e protagonista de múltiplas experiências identifica diferenças nas ações, fica curiosa em experimentar vozes, atitudes e gestos. Enquanto imita e brinca a criança compreende papéis e amplia sua visão de mundo. Também tem a oportunidade de mudar a realidade por meio da brincadeira, quando apresenta numa trama que vive habitualmente em sua vida um desfecho diferente, por exemplo. Nas brincadeiras as crianças desejam ser mães, pais, falam como seus professores ou repetem frases de seus filmes ou personagens preferidos. O brincar é universal, favorece o crescimento, conduz aos relacionamentos. A criança brinca, cria, imagina: coisas de criança!

Quem nunca calçou o sapato de salto alto de sua mãe ou vestiu a roupa enorme do pai, a camiseta de um time, uma gravata, um chapéu? E, depois, cuidadosamente, os guardou no lugar, não era seu, era “coisa de adulto”. Simplesmente brincadeira, algo que faz ser o outro durante um tempo… e quando os acessórios são suprimidos, a brincadeira é finalizada, e a criança volta a ser ela mesma. Mas quando a criança recebe um sutiã de seu tamanho, um sapato de salto alto de seu número, um batom ou esmalte de presente, que possa usar no dia a dia para ir a qualquer lugar, passa a não ser mais brincadeira. O que é do tamanho da criança diz ser feito para ela e a brincadeira passa a não ser mais tão almejada. Grande perda. Vamos pensar nas fontes deste mundo antecipado que ainda tenta nos fazer acreditar que este é o melhor para a criança. A mídia tem grande responsabilidade pelos inúmeros desejos passageiros nas ideias das crianças, pois são muitos os produtos apresentados, nem dá tempo de curtir algo que o desejo aparece de novo com uma novidade. E como todo dia é dia de ganhar algo em muitas famílias, é difícil ver uma criança com um brinquedo preferido, amado como um tesouro. Elas dizem PRECISAR ter tudo porque o outro tem? Ter em quantidade é um valor? Que tal conquistarmos o “ser”, pensando na formação de nossos pequenos! 

E como saber o que é de criança? Tudo aquilo que não a coloca em risco, físico ou psicológico, mas que favoreça experiências diversas. Roupa de criança é roupa confortável, que lhe permita ter segurança onde quer que esteja, sem apertar ou limitar ações. A escolha dos sapatos segue a mesma linha, de segurança e conforto, sem riscos. Batom de criança é um batom que ela possa usar para brincar, mas nenhuma criança precisa maquiar-se todos os dias antes de algum evento. 

Os lápis aquarela, por exemplo, são ótimos para pintar as unhas, desenhar no corpo e, com uma simples lavagem, podem ser retirados imediatamente. Quem orienta, decide, ajuda a criança na utilização adequada de materiais é o adulto. 

…Na praia do mar… As crianças precisam ter tempo, espaço e permissão para serem crianças, para buscarem e encontrar seus mundos sem fim. Temos a certeza de que os adultos, com tantas histórias para contar de sua infância, desejam o mesmo para seus filhos… e precisamos fazê-lo, apesar de a maré de consumo que invade a infância poder torná-la mais curta!


¹ Publicado no International Journal of Psycho-Analysis, v.48, parte 3 (1967).

Tem uma criança que incomoda meu filho. O que vocês estão fazendo para “contê-la”?

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

É muito comum que pais e mães queiram propiciar a seus filhos um ambiente onde jamais sejam submetidos a qualquer tipo de incômodo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, estes serão expostos a provocações e a questões impostas por diferentes maneiras de agir e de entender as relações interpessoais.

Se em muitas casas o diálogo sempre prevalece, e isso basta para orientar e organizar a “bagunça”, na casa do vizinho outras estratégias podem ser usadas, e, sem dúvida, as crianças trarão esse conhecimento para o espaço escolar. Muitas vivências encontram-se nesse ambiente educativo, e vale lembrar que tanto uma família quanto a outra escolheram o mesmo projeto pedagógico para seus filhos. Nesta escola, as diferenças são acolhidas, vividas e experimentadas diariamente e, a partir delas, o trabalho acontece de forma concreta.

Frequentemente, ouvimos as seguintes falas de crianças pequenas:

- “Meu pai falou para eu empurrar de volta se alguém me empurrar”.

- “Meu pai disse que se eu bater eu perco a razão e fico igual a quem me bateu”.

- “Minha mãe me disse que eu preciso avisar a professora antes da briga começar”.

- “Minha mãe falou que eu não posso me meter em confusão, de jeito nenhum”.

Em meio a opiniões divergentes e a questões que fazem as crianças pensarem não apenas sobre seu próprio ponto de vista, mas a partir de uma ótica que procura incluir o ponto de vista do outro, e tendo como ponto de partida o princípio do respeito mútuo, planejamos diversas abordagens para nossas ações: encorajar e fortalecer o grupo para tratar dos incômodos como algo que merece dedicação e tempo é uma das ações que favorece e responsabiliza cada criança.

Escolhemos o diálogo para tratar das regras de convivência como ponto de partida para toda e qualquer situação, sobretudo no fórum coletivo. As partes envolvidas têm o direito de falar enquanto os adultos encaminham o conflito demonstrando respeito pelos valores de cada um, demarcando limites claros. Os professores são reconhecidos como pessoas que possuem autoridade moral, capazes de negociações justas. A partir da observação de muitos exemplos de diálogo, em diferentes contextos, as crianças vão se instrumentalizando para atuar com crescente autonomia em situações semelhantes.

Para pensar e agir diante de pressupostos democráticos, é fundamental que o grupo seja o foco principal e ofereça elementos para que o indivíduo manifeste desagrado quando se sentir prejudicado. Dessa forma, os alunos que “incomodaram” atuando de forma inadequada podem perceber as consequências de suas ações atreladas ao conjunto de crianças que se opõem e não isoladamente.

Aprender a lidar com os próprios desejos e frustrações e entender que os desejos dos outros podem ser bem parecidos ou muito diferentes, controlar a própria raiva e saber falar sobre o que está sentindo é também aprender que, diante de uma provocação, a indignação é aceitável, reconhecendo o que não é permitido, como, por exemplo, os atos de agressão.

As intervenções processuais em ambiente escolar, com a clareza dos valores que organizam a rotina e o zêlo por todos neste espaço, permitem o fortalecimento de sentimentos de pertencimento ao grupo e de potência na resolução de contendas, o que permite que as crianças sigam buscando umas às outras em suas afinidades para brincar e aprender juntas.


Reedição de texto publicado dia 28 de abril de 2014.

Criança também pesquisa

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Por Alessandra Zanetti e Anelise Viegas

Pesquisar é algo que faz parte da vida do estudante e, mais adiante, também da vida profissional. Além de favorecer aprendizagens, instiga o interesse e a curiosidade. Por isso, desde a educação infantil, é possível que as crianças exerçam o papel de “pesquisadores”, mesmo que não tenham ideia de tudo o que estão aprendendo enquanto estão apaixonadas por um tema e ávidas por descobrir cada vez mais coisas sobre ele.

Nas classes de Grupo 1 (3 anos de idade) ao Grupo 3 (5 anos de idade), no segundo semestre, são propostas situações de pesquisa. Na maioria das vezes, o assunto tem relação com o mundo natural, por conta do interesse dos pequenos e do volume de materiais disponíveis sobre fauna e flora. Assim, emprestamos temas das Ciências Naturais para termos a possibilidade de acolher as curiosidades infantis sobre a vida animal e as plantas.

Claro que as crianças ganham muito em termos de conhecimento de mundo, mas ganham mais ainda em relação ao que aprendem sobre os textos que informam e comunicam o que se sabe sobre os assuntos em questão. Passam a compreender a função dos índices; refletem sobre a variedade de fontes de informação, na etapa em que estamos selecionando o material de trabalho; escutam a leitura de um trecho de texto em busca de informações pontuais; aproximam-se de vocabulário específico; apreciam imagens (estáticas e em movimento); visitam o laboratório; fotografam diferentes espécies de plantas; insetos, pássaros (entre outros); coletam e observam materiais com a lupa e no  microscópio para buscar respostas às suas dúvidas; produzem desenhos e escritas para registrar o que aprenderam ou o que mais gostariam de saber; comunicam aos colegas de salas e de segmento os dados que conseguiram obter, compartilhando saberes com a comunidade escolar.

Se no Grupo 1 (3 anos de idade) e no Grupo 2 (4 anos de idade o desafio é principalmente a leitura de imagens e acompanhar a professora na seleção de fontes e trechos de textos, no Grupo 3 são feitas perguntas sobre a presença de mapas, do conteúdo das legendas, do propósito de determinadas ilustrações, referem a presença de subtítulos para ajudar o leitor a localizar mais rapidamente as informações, entre outras coisas. Além disso, eventualmente, são convidados a uma reflexão sobre o sistema de escrita. Não dependem apenas da leitura e da escrita realizada pelo professor. Nas suas interações com os materiais de pesquisa e com os pares, também leem por si mesmos, refletem sobre onde pode estar escrita determinada palavra (ONÇA-PINTADA, FOLHA, PLANTA, por exemplo), apoiando-se em conhecimentos que já têm da escrita, como a letra inicial ou a relação entre parte da palavra procurada e o nome de algum amigo; alguns conseguem identificar com tranquilidade um dado numérico em meio a outros símbolos, e depois conseguem anotá-lo. Tudo isso sem necessariamente saber ler e escrever de forma convencional.

Por tudo isso, e começando pela grande curiosidade característica de crianças dessa faixa etária, se justifica este trabalho. Tenham certeza de que elas ganham muito, pois ampliam enormemente as fronteiras sobre a leitura e como ler nos possibilita ampliar aquilo que conhecemos e podemos imaginar!


Texto publicado em 3 de outubro de 2011.