O trabalho com as profissões no Grupo 2

Por Daniela Munerato

Imersas no egocentrismo inerente à faixa etária, as crianças pequenas têm como principal referência suas experiências pessoais.

Em relativamente pouco tempo de vida percebem a casa e o aconchego na companhia dos pais e de outros cuidadores como lugares de segurança.

Quando chegam à escola, começam a se relacionar com outras pessoas – adultos e crianças – e também com um novo espaço. Então é chegada a hora de construir uma relação com outras pessoas e aceitar que há regras de convivência neste novo espaço. Aprender a respeitar e também aprender a respeitar-se são novos desafios que passa a enfrentar.

Aos poucos, as crianças começam a observar que cada ambiente possui características que lhe são próprias. Aos seus olhos, por exemplo, o padeiro é aquele que sempre lhe oferece pão de queijo para provar e pertence àquela padaria; da mesma forma que a banca de jornal não poderia existir sem o conhecido “seu José”, e assim por diante.

Portanto, quando chegam à escola as crianças acreditam que todos os funcionários moram neste espaço, por pertencerem a ele, inclusive seus professores. Afinal, como explicar o parque limpo ou a presença da professora quando chegam à sala? Já observaram a cara de decepção das crianças pequenas quando encontram seus professores em outros espaços, como o cinema ou supermercado? E se estiverem acompanhadas então dos filhos e do marido?

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, sabemos que aos quatro anos de idade as crianças ampliam a capacidade de olhar o outro, observar diferenças, testar limites, imitar condutas até então nunca experimentadas. Diante das mais variadas situações buscam compreender a origem e os princípios a partir dos quais constrói relações: Por quê? Onde? Como? É uma fase considerada de transição. O vocabulário vai se ampliando e é cada vez mais bem empregado. Enfim, assistimos a importantes transformações do ponto de vista cognitivo, social e afetivo.

Em casa, a frase “Vou trabalhar!”, entendida até então como um momento no qual os pais estão ausentes, começa a ser questionada com perguntas do tipo: “Como é o seu trabalho?” “Onde você trabalha?”, “O que você vai fazer?”

A unidade de trabalho “Profissões”, no G2, acontece considerando todo o contexto colocado anteriormente e cumpre vários propósitos. Conhecer a natureza de algumas profissões ajuda na compreensão do universo do trabalho, do mundo adulto. Ajuda a ampliar relações de confiança no ambiente escolar, a atribuir importância ao trabalho realizado cotidianamente pelas pessoas que fazem a escola acontecer. Garante a segurança de que os pais exercem atividades que apreciam, que escolheram e que existem diversas profissões na nossa sociedade.

No início do trabalho o foco são os profissionais da escola. Eles são observados, entrevistados e se tornam muito conhecidos e queridos. Da mesma forma, acontecem posteriormente os encontros com os pais. Quando eles marcam entrevista, as crianças contam os dias para este encontro. Preparam perguntas e ficam muito animadas para ver se confirmarão ou não suas hipóteses sobre o que é ser, por exemplo, psicólogo. Quem diria que uma psicóloga não trabalha com piscinas?

Outro ganho importante que acontece através deste trabalho é a aproximação das crianças com os pais de seus colegas, que passam a ser cumprimentados com enorme desenvoltura, e são surpreendidos com comentários sobre o dia do encontro e novas perguntas sobre a profissão exercida.

Diante das novas aprendizagens sobre o tema, as crianças constroem olhares diferentes sobre a organização social: nem todos os núcleos que reúnem pessoas representam lares, mas podem ser locais de trabalho. Por outro lado, retomam a referência do ambiente familiar para pensar que todos os profissionais que conhecem pertencem a famílias, trabalham e voltam para suas casas. Isso também tranquiliza as crianças. E há ainda os que arriscam pensar o que gostariam de ser quando “forem grandes”.

Meu irmão pode ir junto?

Por Daniela Munerato

A notícia da chegada de um bebê na família marca o início de uma relação que será construída e descoberta progressivamente. O primogênito acompanha mudanças na casa, muitas vezes em seu quarto, e estas novidades demoram sempre um tempo para tornarem-se conhecidas ou para que, de fato, sejam tranquilas.

Acostumada com as atenções individualizadas, a não ter que esperar para ser atendida, a criança compreende aos poucos as mudanças que acontecerão. Tudo será dividido, mas não há uma perda, e sim um ganho, um olhar mais amplo para a configuração familiar que assume outra estrutura e deve se reorganizar. E é justamente esta questão que deve ficar clara desde o início, tanto para os pais como para as crianças.

Sabemos que as intervenções dos pais fazem com que a relação entre irmãos aconteça. Dentro deste universo contamos com várias posições: de pais, filho mais velho, filho mais novo, etc. Assim como toda a relação interpessoal, o relacionamento fraterno tem seu lugar no âmbito familiar, mas não podemos esquecer que cada sujeito marca seu espaço individual independente do grupo a qual pertence. Temos as características da idade, o papel que cada um assume e tudo isto deve ser considerado!

Outro fato é que os pais sempre estão repletos de expectativas para os filhos e naturalmente as crianças ficam muito influenciadas por elas. Estas expectativas vão determinar fortemente a organização da fratria, as relações de poder, a função de cada um dos seus elementos e o tipo de comunicação dominante.

Fora de casa temos outros âmbitos nos quais  os filhos constroem tipos de relações diferentes das familiares, frequentam a escola, clubes e ampliam suas redes sociais. Nestas interações aprendem mais sobre as diferentes formas de relação que contribuem para as suas aprendizagens e para a própria construção da personalidade.

Inseridos nestes contextos, os convites para festas, eventos, lanches ou brincadeiras na casa dos amigos acontecem com maior frequência. Em determinado momento os pais não precisam mais acompanhar seus filhos, seguros de que já conseguem cuidar-se ou de que outro adulto de referência estará por perto. Mas, existe uma outra questão muito recorrente sobre este tema que causa reflexão e dúvida entre os pais: o que fazemos com o irmão? Se um é convidado o outro deve ir junto?

Eis uma questão que merece considerações e pode ser analisada sob diferentes pontos de vista. Quem convida um amigo para ir a sua casa deseja interagir com ele ou conhecê-lo melhor. A entrada de um irmão, neste sentido, interfere na relação, pois sabemos que as crianças saudavelmente exercem diferentes posições a depender dos contextos sociais. Muitas vezes, quem é liderado pelo irmão mais velho em casa tem a oportunidade de liderar na escola e o contrário também pode acontecer. Se o irmão mais velho vai sempre junto tira do mais novo a responsabilidade de se cuidar, de se adequar a situação fora do contexto familiar. Por outro lado, se o irmão mais velho leva sempre o mais novo junto sente seu espaço dividido, pois deve considerar o irmão em suas brincadeiras e atividades, fato que pode gerar muitos conflitos.

Do ponto de vista do irmão que acompanha, o fato pode ser visto como uma situação de ganho, principalmente quando o irmão mais novo acompanha o mais velho e, inclusive tem a ilusão de ser “grande” por isto. Mas, a sensação pode ser também de perda, quando o irmão mais velho acompanha o mais novo e não se sente a vontade para entrar nas brincadeiras dos menores. Devemos olhar para cada criança, colocar-se no lugar deles, antecipar questões que possam aparecem e se esta parceria “irmãos e amigos” favorecerá um dia divertido para todos. Afinal, este é o propósito do convite! Portanto, não esqueçam de considerar estas questões antes de decidir o que deve acontecer.

O mais importante, dentro deste contexto, é que irmãos tenham espaços individualizados garantidos: pertencem a mesma família, mas são pessoas diferentes, com amigos comuns e diversos, que acompanham suas idades e interesses. Estamos falando de direitos dentro do contexto familiar que favorecem o desenvolvimento de competências, de negociação e cooperação entre irmãos. Quando são vistos como diferentes ficam mais seguros, o ciúme acontece menos, pois o amor está garantido dentro da sua particularidade.

O irmão pode ir junto? Sim! Mas, cuidemos para que a diversidade de oportunidades e de interações esteja presente, garantindo a individualidade de cada um.

Estar com pais: momentos preciosos

Por Daniela Munerato

Independente da rotina que se tem, do tempo disponível e da mídia, que invade nossos lares desmedidamente, os momentos que as crianças passam com seus pais são preciosos!

Sabemos que a família tem uma importância fundamental no desenvolvimento e na integridade das crianças. Temos diferentes formas de organizar a rotina (muitas vezes corrida) hoje em dia, algumas vezes podendo contar com colaboradores, mas é sempre muita coisa para conciliar: casa, escola, trabalho e demais compromissos, tanto dos adultos como das crianças.

Mas o final do dia ou o final de semana sempre chega e podemos ter diferentes olhares para este tempo com nossos filhos. E neste ritmo imposto pela vida moderna, o mais importante é o que conseguimos fazer com eles. Perguntar sobre atividades da escola, falar sobre o nosso dia de adulto (curiosidades deste mundo) são trocas importantes. Vale pensarmos que muitas vezes os pequenos não imaginam onde o pais ficam ou o que fazem quando saem cedo e dizem: “Vou trabalhar!”

Fato é que o tempo em casa é sempre muito curto para tudo que desejamos fazer. Chegamos em casa muitas vezes sem sair do trabalho, isto é, o celular permanece ligado e continua tocando. Vez ou outra ainda é preciso dar aquela olhadinha no computador para terminar uma tarefa ou verificar se obtivemos resposta para algo que encaminhamos ao longo do dia. Refiro-me a rotinas paralelas, acontecendo concomitantemente. Falei em fim do dia, mas o fim do dia para as pessoas que estão no mundo do trabalho é muito diverso. Para alguns é na hora do almoço, para outros, às 17h, para outros ainda, depois das 20h e para outros, quando os filhos já estão na cama. Aquela velha história de todos sentados à mesa na hora do jantar agora é um sonho de muitos pais. E os encontros, tão importantes para que a relação de fato aconteça?

Através dos jornais, televisão, indicações de amigos e outras pessoas, temos notícias de tantas possibilidades para as crianças: são peças de teatros, festas, exposições, shoppings centers … Tais atividades são experiências interessantes, que ampliam o repertório, mas algumas vezes não favorecem o encontro entre adulto-criança, entre pais e filhos. Apesar de estarem no mesmo lugar, quase não se olham, não se ouvem, movidos pela atração, que cada um consome a partir de seus próprios critérios. E critérios muito distintos.

É isso mesmo, as expectativas de pais e de filhos num mesmo espaço podem ser diferentes. O que interessa uma criança em uma livraria é folhear diversos livros e ouvir histórias, enquanto os pais podem estar loucos para visitarem as estantes dos “livros mais lidos” ou para procurar algo relacionado com sua área de trabalho. A nossa decisão por uma ou outra situação depende de uma escolha e de novo temos prioridades em jogo. Por isso é importante considerar: se nosso tempo é escasso e estamos com nossos filhos, o que devemos priorizar?

O que não podemos perder de vista é que para as crianças o mais precioso é ter a atenção e a companhia dos pais, e isso é mais importante que comprar. Pode acreditar. Na verdade o que as crianças desejam é sentirem-se compreendidas, conhecidas, cuidadas. E depois, é preciso reconhecer, elas crescem, e os critérios e as necessidades mudam. Temos todos de nos adaptar constantemente (nós e nossos filhos). Cada etapa pode ser um maravilhoso desafio!

E que momentos favorecem estes encontros a que me refiro? Sentar com os pequenos. Reconhecer velhos e bons livros lidos com eles num exemplar novinho em folha na prateleira da livraria e cuja história sabemos quase de memória; folhear títulos novos de velhos autores ou não; desfrutar uma nova história sem o compromisso de levar para casa o exemplar, afinal, as livrarias, por exemplo, também se prestam a isso. E quando em casa, pegar uma caixa escondida no fundo do armário cheia de objetos, cada um com uma história: podem ser conchinhas, medalhas, fotografias, velhas carteirinhas de escola, bilhetinhos antigos, alguns exemplares que sobraram de uma velha coleção de gibis ou de miniaturas etc.

Também pertencem ao mesmo grupo de atividades os lençóis que magicamente se juntam às cadeiras e se transformam em cabanas no meio do quarto; brincadeiras com lanternas; aquela receita de bolo ou de biscoitinhos que exala um cheiro maravilhoso e cujo tempo de preparação representa uma espera quase impossível.

A nossa casa deve ser o cenário principal destes encontros. Um lugar que aconchega, que reúne e que não somente supre necessidades básicas, como comer ou dormir, mas favorece acontecimentos que nos fazem gostar de estar neste espaço e com aquelas pessoas, significa-o afetivamente de forma constante.

Quem não tem este tipo de memória? Quem não deseja este tipo de experiência também para os filhos? Estamos falando de relações e significados construídos a partir delas. Os pais representam portos seguros, cuidado, diversão e limites. As crianças precisam destes distintos olhares e da presença que esclarece a pertença familiar e constrói uma história.

As crianças e as experiências de infância dos pais.

Por Fernanda Flores

Dando continuidade às ideias exploradas no post do dia 18/04, que nos convidava a refletir sobre a qualidade do tempo que dedicamos aos nossos filhos, à convivência familiar, acho oportuno destacar outro aspecto que me parece pouco explorado em nossas reflexões cotidianas sobre a tarefa de educar.

Trato aqui das oportunidades que nos damos e proporcionamos a nossos filhos de revelarmo-nos como filhos que fomos.

Mas em que saber de nossa vida durante a infância, a adolescência pode nos aproximar?  Na medida em que os filhos podem nos conhecer vivendo experiências com as quais se identificam, pelas quais passam, percebendo que os pais também tiveram bagunças, brigas, tombos, molecagens, levaram broncas, não foram tão bem na escola como imaginam, tiveram causas profundas pelas quais brigaram com os pais… Reconhecem-se mais próximos, nos veem mais humanos, menos perfeitos (como imaginam).

Laços de identidade se fortalecem, compartilhamos mais situações de vida sobre as quais pensar, rir, recordar. Geramos intimidade, acolhimento e interesse pelas vidas que vivemos e que vivem nossos pequenos, mesmo nas pequeninas “bobaginhas” que teimam em nos contar.

Nossas histórias de infância falam a nossos filhos de emoções triviais, vividas tão intensamente na infância que muitas vezes esquecemos o quão importante foi, para cada um de nós… fugir das abelhas junto aos primos, depois de tanto jogar bolinhas de papel na colmeia; cair do muro ao tentar andar na borda estreita; chegar em penúltimo lugar na prova de natação do clube; colocar pimenta na bolacha do irmão que achava ser catchup; tocar a campainha do vizinho e sair correndo; ter ficado de castigo…

Da mesma maneira que ficam fascinados com contos e personagens de mundos fantasiosos e distantes, apresentados pelos livros e pelas contações de histórias, enlaçam-se igualmente nos enredos de nossas peripécias de pequenos, nossos “quase isso”, nossos “e se aquilo”, lições de vida tão íntimas e verdadeiras, valiosas pelo simples fato de serem somente da família de cada um, constitutivas dos adultos e pais que somos hoje e das pessoas que formamos todos os dias.

Como bem disse Dayse, “são coisas pequenas, (…), que para os pequenos são grandes acontecimentos”, alegrias e tristezas que temos oportunidade de compartilhar com nossos filhos.

Experimentem!

As crianças e as coisas pequenas da vida.

Por Dayse Gonçalves

Agora é a vez do tempo que dedicamos às crianças. Não é incomum que as crianças queiram compartilhar o que fizeram no final de semana na companhia de seus familiares. Muitas vezes, como no nosso caso, é a escola que estimula este tipo de troca. E as razões para este tipo de intercâmbio são muitas: conhecê-los melhor, se conhecerem melhor, com a vantagem de que ainda produzem relatos fascinantes à medida que vão ganhando maior desenvoltura como falantes. É muito gostoso ouvi-los conversar na roda. Se um diz “Eu fui ao Parque Villa Lobos ontem” o outro pergunta: “E você andou de bicicleta com seu pai?” No mais das vezes, a professora só cuida da “distribuição democrática” da palavra, como costumamos dizer. E quase sempre ainda temos de propor que continuemos conversando na hora do lanche, já que quase todo mundo quer falar, quer contar o que fez, com quem fez.

Tive notícias de uma roda muito inspiradora numa turma de G3 (crianças 5 anos) nesta semana. Uma criança chegou contando que plantou bambu com seu pai. Começou meio timidamente, talvez por julgar que este tipo de programa não tivesse, para os colegas e as professoras, o mesmo valor que um passeio, uma ida ao teatro. Mas nem preciso dizer o quanto os colegas acharam ‘o máximo’ este tipo de experiência. Tinham muitas perguntas a fazer e ela, muita coisa para contar. Contou das plantas que têm em casa, das que não vingaram, das que foram substituídas, das que vicejaram … de modo que este tipo de atividade foi ganhando cada vez mais sentido e significado.

Então aproveito este post para convidar a uma reflexão sobre a qualidade do tempo que dedicamos aos filhos, à convivência familiar. A vida moderna impõe alguns valores, algumas demandas das quais precisamos sempre desconfiar. Passar um final de semana em casa parece castigo para algumas pessoas. Divertir-se é sinônimo de fazer muitas coisas fora de casa (ir ao cinema, ao teatro, a festas, ao shopping, ao restaurante, a um churrasco…). Isto também. Mas é preciso mostrar às crianças que o tempo desfrutado realizando outro tipo de atividade também é importante. São coisas pequenas, como está dito no título, que para os pequenos são grandes acontecimentos, como ir à feira, cuidar do jardim, cozinhar sem pressa, combinar o que vão assistir no “cineclubinho” (com ou sem convidados), organizar as fotografias, telefonar para os avós, ficar cada um no seu canto, um pouquinho sozinho, fazendo aquilo que mais gosta ou que precisa fazer (lendo, desenhando, cochilando …).

Também é importante tentar conciliar as necessidades adultas com as necessidades infantis. Outro dia conversava com um casal sobre o comportamento do filho em restaurantes. Especulávamos sobre quão exigente é este tipo de atividade, já que solicita da criança um tempo de permanência à mesa que muitas vezes não conseguimos em casa. Obviamente sou entusiasta deste tipo de experiência. Script de frequentador de restaurante se aprende frequentando restaurantes. Mas creio também que não podemos perder de vista a necessidade de conciliarmos nossas necessidades com as necessidades e possibilidades de nossos filhos. Às vezes é preciso abrir mão do nosso desejo adulto para poupar os pequenos (e também para nos pouparmos de alguma contrariedade). E, ainda, vai ter experiência que a gente vai ter de adiar por um tempo, até que nossos filhos possam nos acompanhar. Mas, por ora, a melhor coisa a fazer é mesmo aproveitar os pequenos. Afinal, a infância está acontecendo agora. E olha que ela passa depressa, viu?

As crianças pequenas e a TV.

Por Dayse Gonçalves

Não, leitor, não se trata da reedição de um post relacionado com o tema das tragédias que aconteceram nos últimos dias no Brasil e no mundo. Dessa vez o assunto é mesmo a relação da criança pequena com a televisão.  Me explico.

Há mais ou menos duas semanas discutia em orientação com uma das professoras da Educação Infantil uma sequência de rodas de conversa temáticas. Então nos ocorreu propor uma conversa sobre televisão: o que aquele grupo de crianças costuma ver na TV. A idéia inicial era conhecer suas preferências, inclusive para nos mantermos atualizadas. Então ficamos pensando que com esta conversa acabaríamos conhecendo ainda mais as crianças. Teríamos uma idéia, por exemplo, de quanto tempo passam diante da TV. Saberíamos se veem TV sozinhos ou acompanhados. Parece estranho, não é? Mas é isso mesmo, faz muita diferença assistir televisão sozinho e acompanhado. Algo parecido com o que se diz da relação dos alunos mais velhos com a internet. Todos sabemos como é importante manter o computador num espaço onde se possa exercer algum grau de supervisão sobre os “mares por onde navegam”.

Desse modo, o mesmo pode-se dizer do uso da televisão pelos pequenos. É muito importante que conheçamos a programação destinada ao público infantil. Apesar do poder que este meio de comunicação audiovisual tem e de seu potencial educativo, infelizmente ainda não dispomos de uma TV de qualidade no Brasil. Temos muita coisa boa, mas também muita coisa de má qualidade. Sem falar na inadequação da programação destinada ao público adulto, mas que a criança consome por ter acesso a ela.

Por isso ocorreu-nos aproveitar este espaço para trazer algumas questões para pensarmos. Questões relacionadas ao tempo que permitimos que nossos filhos passem diante da TV. Mas não basta restringir o horário, há que se combinar também com que propósito a televisão será ligada. Seria desejável que fosse ligada somente no horário em que o programa combinado fosse transmitido. Sabe aquela mania que muita gente tem de ligar a TV e deixá-la ligada por muito tempo? Então, seria interessante evitar o desenvolvimento deste tipo de hábito. Mas para isso seria interessante também planejar e proporcionar alternativas de diversão, como descer no playground; brincar no quintal; montar uma bela cabana nos dias de muito frio ou chuva; jogar; desenhar; ler/ouvir histórias; ajudar a fazer bolo; brincar/cuidar dos animais de estimação … E, se permitem, mais uma dica: nada de ligar a TV (ou o videogame) nos dias em que está recebendo amigos em casa. Amigo ou amiga em casa é oportunidade que não se pode desperdiçar.

Mas voltando à questão do ver TV junto com a criança, pensamos que vale a pena considerar esta possibilidade, principalmente na etapa em que estamos “tomando pé” da programação existente para em seguida negociarmos o que será possível consumir. É muito importante conversar com a criança sobre o que ela está vendo. As crianças ainda não têm critérios para distinguir o que é bom do que é ruim, o que é real e o que é fictício. Então, falar sobre o que se vê e sobre o que se sente diante de determinadas cenas ou comportamentos pode fazer toda a diferença. Pense nisso!

As situações de convívio na Educação Infantil

Situações de convívio fazem parte de nossas lembranças de infância: crianças brincando na rua, dividindo espaços variados – com irmãos, primos, vizinhos, crianças mais novas, crianças mais velhas -, interagindo quase nunca com intervenção de adultos. Os mais velhos conduziam as brincadeiras. Brincávamos com pouquíssimos materiais. Estes tinham mais importância quando estávamos em casa, ou em dias de chuva, porque na verdade não precisávamos muito deles quando estávamos com nossos companheiros (professores de brincadeiras).  A rua era o espaço era o lugar onde aconteciam as ‘peladas’, o esconde-esconde, o pega-pega, a mãe-da-rua, estátua etc. E nestes espaços cabiam brinquedos como pipa, bolinha de gude, carrinho de rolemã, patinete etc. Um monte de brinquedo que tem gente que cresceu sem nunca experimentar.

Tais situações representavam muito mais que diversão. Eram também uma oportunidade para aprender a conviver, a lidar com conflito. Esta é a riqueza das situações de interação!

No nosso caso, os mais velhos às vezes eram líderes nas brincadeiras e às vezes eram até temidos por nós, mas foram importantes porque nos ajudaram a ficar mais fortes, mais seguros. Foram nossos mestres no sentido de que nos permitiram construir um tipo de repertório que não teria lugar se não tivéssemos aprendido a ocupar espaço, a enfrentar os conflitos, a mostrar eventualmente a nossa força. Os menores que a gente, estes eram muitas vezes liderados por nós, e exercer este papel também foi importante no nosso desenvolvimento, por nos permitir nos perceber às vezes mais fortes, às vezes fracos. E é assim que somos ainda hoje, adultos.

É também através do convívio que aprendemos a respeitar opiniões diferentes das nossas, que nos deparamos com idéias que não teríamos sozinhos. A imaginação ganha força, nós ganhamos força!

Hoje, mais que ontem, a escola talvez seja o único lugar onde a maior parte das crianças viva este tipo de experiência. É, portanto, promotora de encontros, diversão, aprendizagens, situações de enfrentamento de conflito, construção de relações: os dias por aqui são oficinas de convívio!

Brincamos com a expressão, mas as Oficinas de Convívio são uma estratégia que criamos para favorecer encontros semanais entre crianças de diferentes idades, na Educação Infantil, com a duração de aproximadamente quarenta minutos. São várias oficinas acontecendo concomitantemente, e das quais as crianças escolhem participar. Há ainda outras situações planejadas com esta intenção: lanches coletivos, récitas públicas, leituras, brincadeiras, oficinas de Arte, culinária etc. Nestes encontros, tutores e tutorados têm a oportunidade de construir um olhar a um só tempo de tolerância e de admiração.

Tudo isso garante relações harmoniosas todo o tempo? Não! Mas são ações que mostram como é possível conviver na diversidade. E isso requer tempo de ensino e de aprendizagem.

 

Daniela Munerato e Dayse Gonçalves – Coordenação da Educação Infantil

A Educação Infantil e a aprendizagem de habilidades sociais.

Por Dayse Gonçalves

Outro dia, num plantão de saída, ocupei lugar numa mesa onde havia uma criança de 5 anos desenhando. Ela é nova na escola e aproveitei aquele momento para me aproximar. Achei que estava realmente fazendo um bom trabalho e elogiei seu desenho, ao que ela reagiu com um “Obrigado”. Era uma menina. Disse ‘obrigado’, mas isso não tem a menor importância. O mais difícil é aprender a reconhecer que recebeu um elogio e agradecer a atitude gentil de seu interlocutor.

Trago este exemplo aqui porque é difícil que crianças pequenas respondam a seus interlocutores. Cumprimentamos e nem sempre somos cumprimentados. Prestamos muitas ajudas e nem sempre nos dizem “por favor” e “obrigado” … Isso não é um problema quando ainda são pequenos, porque estão começando a aprender a se relacionar, por isso digo que já é o momento de nos preocuparmos com isso. Afinal, todos desejamos filhos e alunos respeitosos com os outros e seguros de si, com uma boa autoestima, não é mesmo? Certamente outros fatores intervêm no autoconceito, mas o modo como os adultos se relacionam com as crianças e as educam parece ser uma das componentes mais importantes neste comecinho de vida.

De que maneira então podemos lhes ensinar? Primeiramente nos preocupando em ser bons modelos (pais/educadores). As crianças aprendem imitando. A maneira como nos relacionamos, como já foi dito, é a estratégia mais potente de ensino (no nosso caso) e de aprendizagem (no caso de nossos filhos e alunos). E sabem por quê? Porque temos prestígio junto às crianças: pais, mães, professores e professoras. Então, nesta fase do desenvolvimento, vai contar nesta aprendizagem se cumprimentamos as pessoas que encontramos pelo caminho; se as chamamos pelo nome; se quando solicitamos ou recebemos algo dizemos “por favor” e “obrigado”, não importando quem seja o nosso interlocutor (idade, condição/posição social); se ao enfrentar situações de conflito procuramos agir de forma equilibrada, não humilhando as pessoas, agindo de forma assertiva mas não agressiva.

Vale pensar também na maneira como nos dirigimos às próprias crianças. Se quando estão falando conosco olhamos nos seus olhos, demonstrando interesse. O tom de voz com que exercemos nossa autoridade, quando colocamos limites ou lidamos com transgressões e birras. Se somos capazes de ser continentes e de compreender seus sentimentos e sua maneira de manifestar emoção, mesmo quando somos objeto de sua raiva, porque de fato somos muitas vezes, quando lhe impomos situações de frustração. As tais frustrações que filhos e alunos precisam experimentar para poder crescer, se fortalecer.

Não é fácil, é verdade! E não é incomum muitos pais acreditarem que precisam ser amigos dos filhos e que se não forem generosos com eles estarão sendo autoritários. Sem falar nos nossos sentimentos de culpa, que acabam nos fazendo generosos e lenientes, quando precisávamos somente exercer nossa função de pai e de mãe e prepará-los para a vida. Compreendo que os pais sofram quando ouvem falas do tipo “Eu não gosto mais de você!” “Eu não sou mais seu amigo!” “Eu não sou mais sua filha e você não é mais minha mãe!” Mas, vejam, não podemos nos intimidar, e, lembrando o propósito deste post, não podemos também intimidá-los, mas precisamos admitir que há sim uma assimetria nesta relação. E não esquecer nosso mais importante compromisso quando decidimos ter filhos (vale para alunos também!): educar. É nossa obrigação! Temos de ajudá-los a se preparar para a vida, para que desejem uma boa vida para si e para os outros.

Como costumamos dizer brincando “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”.

Só mais um beijinho…

Por Regina, Luiza e Juliana - Professoras de Grupo 1

Chegar pela primeira vez num lugar novo, com caras novas, não é fácil para ninguém, muito menos para as crianças. Conhecer esse lugar, torná-lo próprio, chegar a desfrutá-lo é um processo lento e singular de cada criança. Sabemos o quanto é difícil despedir-se, seja da família ou de um amigo querido, seja por um período curto ou longo. Despedir-se pode ser sofrido para qualquer pessoa. Despedidas emocionadas, então, muito duradouras, tanto por parte das crianças como dos adultos, são um prato cheio para dificultar a entrada delas na escola.

Muitas vezes, na hora da despedida, as crianças pedem ‘só mais um beijinho’. E como não resistir a tentação?  De fato, para alguns o derradeiro beijo é suficiente, mas na maioria das vezes não o é.  É uma última tentativa de enlaçar o pescoço e agarrar-se ao corpo do pai ou da mãe, e então, adulto e criança, ficam com os olhos marejados.

Para ajudar neste processo podemos lembrar que a despedida encerra um momento, para que outro se inicie. Na escola, as crianças se confortam no reencontro com as professoras, com os colegas, com os brinquedos queridos. É quase imediata a vontade de se permitir experimentar, explorar, e elas sabem bem que há momentos que só acontecem na escola. Abreviar a despedida é, portanto, uma maneira de favorecer este reencontro.

Por isso, ressaltamos a importância de os pais colaborarem dando de fato “só mais um beijinho” e seguirem seu caminho, com a certeza de que seu filho estará amparado, seguro e desfrutando de atividades especialmente planejadas para ele.

Não  estranhem se, repentinamente, escutarem de seu filho um sonoro: “Mãe, hoje eu vou sozinho pra minha sala, tá?” As crianças estão sempre nos surpreendendo e prontas para enfrentar novos desafios. Agora, será que vocês já estão preparados?

As crianças e as cenas da TV em tempos de grandes tragédias.

Por Dayse Gonçalves

A semana passada terminou com a grande tragédia que devastou o Japão. Cenas de casas e automóveis sendo arrastados pelas águas do mar por conta de tsunamis, depois foram imagens externas e internas mostrando os efeitos dos tremores, tudo isso de forma reiterada e insistente, pelos diversos canais de TV. Também foi assim em relação à região Serrana e é também em São Paulo, cidade onde vivemos, e onde enfrentamos dias de grandes enchentes. Temos notícias, desde o início do ano, de muitas perdas. Perdas de toda sorte: de vidas, de bens materiais, e também da tranquilidade e da segurança, sobretudo no caso dos que foram diretamente atingidos pelas catástrofes e pelas chuvas fortes que vêm assolando muitas cidades brasileiras nestes primeiros meses do ano.

E como ficam os nossos pequenos diante de tantas notícias e imagens que mobilizam os adultos? Trago esta questão para pensarmos um pouco. Os adultos ficam alarmados, abalados, e é compreensível que queiram se interar dos acontecimentos, mas é preciso saber em que momento fazê-lo e de que maneira, e como lidar com as crianças, que são experts em detectar clima de tensão no ar e ouvir, mesmo que não pareça que estejam ouvindo, as conversas entre os adultos, os comentários frequentes sobre os eventos. E como se não bastasse isso, elas ainda têm de lidar com os próprios medos, os muitos medos que sentem e que são inerentes ao seu processo de desenvolvimento, como o medo de perder os pais, de ser abandonado por eles, dos pesadelos que têm. De modo que a pergunta que fica é: como podemos salvaguardar a integridade emocional de nossos pequenos?

Nestes tempos de grande tensão e tristeza, precisamos, em primeiro lugar, poupá-los de cenas chocantes e dos noticiários em geral.  Depois, precisamos permitir que nos façam perguntas, que falem de seus medos, para que possamos tranquilizá-los, transmitir a eles a segurança que necessitam. Cabe a nós, ainda, a tarefa de tentar controlar nossas próprias emoções. E um bom jeito de fazer isso é demonstrando nosso carinho e interesse por eles, dizendo a eles de nossos esforços – nossos e dos demais adultos envolvidos nos cuidados e na educação deles – para protegê-los. Outra atitude importante é ressaltar as ações de solidariedade nos lugares onde as coisas ruins acontecem, entre os povos, e reiterar que sempre haverá gente trabalhando para minimizar o sofrimento humano (é melhor dizer com outras palavras).

De qualquer forma, alguns sempre chegam à escola contando o que viram e ouviram. Além de ouvi-los e de fazer falas como as já referidas, nos preocuparemos em mostrar algumas coisas lindas e delicadas que herdamos dos japoneses. Histórias, um bom chá, imagens de cerejeiras em flor…, para reverenciar um povo que tem muita dignidade.