Os avós visitam a escola de seus pequenos netos.

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Por Dayse Gonçalves

Na Educação Infantil, segmento onde as crianças são, na sua maioria, acompanhadas por adultos à hora da chegada e da saída, observamos que muitos avós contribuem de forma muito ativa na organização da rotina das crianças (e, porque não dizer, de seus pais!). Não é incomum observarmos netos e netas comemorando a chegada do avô ou da avó (ou de ambos) no final do período em determinado dia da semana. Ouvi ao longo de todo o Grupo 1 um menininho dizer, há alguns anos: “Hoje é dia do meu avô Zé vir me buscar!” E era sempre emocionante o encontro entre os dois. De onde estivesse vinha para encontrar, de braços abertos, o vovô Zé. Saía no colo – apesar de já bem crescidinho – mas estava justificado porque aquele colinho era uma extensão do abraço que tinha só começado no momento do encontro.

O vô Zé, pelo que sei, ainda vem uma vez por semana (e já está no seu quarto ano de EV), mas há os que têm uma participação ainda maior na vida dos pequenos, se responsabilizando por trazê-los ou buscá-los mais dias na semana. Outros, ainda, gostariam de ter esta chance, mas vários fatores os impedem. Mas têm ao menos a oportunidade de vir num dia muito especial à escola: o dia em que a turma de G1 os recebe para uma boa conversa sobre seus tempos de criança. Então os avós têm o seu dia nas turmas de Grupo 1. Cada dia vem uma avó ou um avô. Ou ambos, se forem avós do mesmo neto.

Agora no segundo semestre há um cronograma de visitas agendadas, com promessas de conversas sobre os mais variados temas: brincadeiras de infância, histórias preferidas, lanches inesquecíveis, lembranças de brinquedos, jeitos de se vestir para ocasiões especiais, a entrada na escola, as fantasias que vestiam, os lugares que frequentavam ou que visitavam nos passeios em família, o cinema na sua época, canções nunca esquecidas, etc.

Para nós, que desenvolvemos esta Unidade de Trabalho há muitos anos, é muito interessante e também muito gostoso acompanhar como avôs e avós, com seus relatos, fotos e objetos de época, vão se apresentando às crianças pequenas. Melhor, vão apresentando um tempo diferente do das crianças, e com isso as crianças vão fazendo incríveis descobertas. Isso mesmo, descobertas!

Outro dia, por exemplo, ouvindo uma mãe comentar de uma brincadeira de infância da avó, ouvi uma criança de três anos comentar de volta que não sabia que sua avó tinha sido criança. Não é uma graça? O pensamento infantil é muito interessante. Para os pequenos, tudo sempre foi como se apresenta para eles neste momento. Das pessoas às formas de viver e de se relacionar. Por essa razão este convívio intergeracional é tão importante. Aprender que se aprende sobre um tempo passado ouvindo um depoimento, um relato, ou, ainda, conversando sobre uma imagem ou objeto de época.

Lembro-me de uma vez também, em que uma avó enviou para a escola, atendendo às solicitações da professora da neta, fotografias de quando era pequena. Foi um momento mágico para a neta, para a professora e para seus amigos! Todos os colegas, inclusive a própria criança, diziam ser aquela foto da menina. Então a professora conversou com eles sobre um outro possível tipo de herança que costumamos recebemos de nossos avós: a semelhança física!

Dentre tantas descobertas maravilhosas por parte dos pequenos, há ainda a magia que o encontro representa para os próprios avós. É sempre com gosto e empenho que se preparam para vir à escola. Poder relembrar passagens gostosas da infância, poder abrir seus guardados (memórias concretas e imateriais) para compartilhar com os pequenos… Do lado dos pequenos, a surpresa de reconhecer no “lenço atrás” o corre cotia ou o pato pato ganso que brincam hoje, ou em saber que não havia muitas fantasias que existem hoje, e nem que não eram usadas no dia a dia. Em compensação, havia outras coisas muito legais com que meninos e meninas se divertiam.

Dentre as muitas razões para manter este trabalho nas turmas de G1, a principal talvez seja mesmo essa: a de reconhecer no nosso presente o passado de nossos avós. E de se reconhecer neles e de reconhecê-los em nós.

A difícil arte de aprender que na vida há momentos de tristeza.

“Fiz ela na casa dela, brincando, porque ela ia gostar” – Fonte: Mural Grupo 3A

Por Daniela Munerato e Dayse Gonçalves – Coordenação da Educação Infantil

Sexta-feira, dia 2 de setembro, perdemos nossa querida aluna Julia Macedo, do G3A. Uma menina que vivia sempre fantasiada, que adorava ser princesa. Uma das últimas boas lembranças que temos dela é a carta que escreveu para a turma dias antes de falecer. Nela, contava sobre a festa de aniversário de princesas que seus pais tinham preparado para ela. Numa das passagens dizia que em vez de ter ido à Disney, a Disney tinha vindo até ela.

E foi essa a imagem que ficou da Julia para as crianças: a imagem de uma menina princesa, que gostava de brincadeiras simbólicas envolvendo fantasias, bonecas e bebês, casinha e comidinhas, tudo muito delicado, como ela própria era.

No mural de despedida e de homenagem à companheira querida podem-se ver muitas referências a esse universo.

Trabalhar na construção deste mural foi muito importante, porque ajudaria as crianças a compreenderem que a relação com a colega não acabaria ali. Mas tínhamos uma dúvida: e se nem todas as crianças quisessem participar? Afinal, as crianças lidam de um jeito muito diferente dos adultos nestas situações. E podia ser também que ao longo dos dias algumas manifestassem alteração de humor. Algumas poderiam sentir raiva, poderiam ficar mais agitadas, voltar a fazer perguntas… Era preciso lidar com isso. Esperávamos também que ainda que sentissem tristeza, certamente iam querer brincar e se divertir, porque é brincando também que a criança aprende sobre a vida. Sabíamos que era importante ensinar a elas também que não existem normas no que diz respeito a sentimentos. Que não existem sentimentos bons ou ruins.
Todos os colegas de turma quiseram participar. Então o mural ficou ali, num lugar escolhido por todos. Sabíamos que ele nos ajudaria a construir um outro tipo de vínculo com a amiga Julia. Ele nos daria a oportunidade de conversar sobre saudade, além de nos ajudar a ter boas lembranças, que guardaríamos como pequenos tesouros em nossos corações.

E foi assim que começamos a semana, com grandes desafios a enfrentar: o primeiro deles era o simples ato de receber as crianças. E se nos emocionássemos? Era preciso lembrar de tudo que já tínhamos lido e das orientações recebidas da Dra. Maria Helena Pereira Franco, que foi um porto seguro para nós nos últimos meses, e que nos ensinou que se acontecesse de nos emocionarmos, estaríamos ensinando às crianças a lidar naturalmente com seus próprios sentimentos. Sabíamos também que elas chegariam com o que tinham para expressar e perguntar. Isso mesmo, perguntar. As crianças lidam com a morte de um jeito muito diferente do adulto. São curiosas e desejam compreender o mundo e os acontecimentos à sua volta. Seria preciso responder às perguntas de forma simples, mas com honestidade, não utilizando metáforas. E, por último, o desafio de marcar este momento de tristeza que o desaparecimento de Julia representava para nós, e por essa razão a rotina não podia ser a mesma de todos os dias, ainda que soubéssemos que enfrentando este tipo de situação e dando vazão à nossa tristeza, sentimos também necessidade de nos distrairmos, como já foi dito. Então nos permitimos demorar um pouco mais na oficina de Arte do que de costume, escolhemos juntos uma brincadeira para realizar. E alguém teve a idéia de escolher uma das brincadeiras preferidas da Julia para realizarmos naquele dia. E foi assim que ficamos todos muito juntos no dia do reencontro.
A experiência de perder seres queridos – como Matheus e Julia – é terrível mas traz alguns aprendizados. Aprendemos um pouco mais sobre como lidar com nossas emoções, com nossos sentimentos, sobre como tratar do tema com nossos alunos, com crianças pequenas, e que a morte é parte integrante da vida.

Queremos concluir este post com um agradecimento especial aos pais das crianças do G3A e do G3Bm, e em especial à Priscila e Nícolas, que demonstraram tanta solidariedade e ofereceram tantas formas de ajuda.
Queremos agradecer também aos professores da Educação Infantil: em especial à Mariana Mas, por sua coragem e sensibilidade, ao Vicente, à Marisa, à Regina e à Lili, dentre outras coisas por terem aguentado firme, conseguindo ser e fazer o que era preciso durante este tempo.

Por último, queremos incluir aqui a colega Joana e seu marido Rodrigo – pais da princesa Julia -, que junto com os outros pais, confiou em nós e a nós seu pequeno tesouro, e que tanto nos ensinaram.

 

“Acabei!”

Por Fernanda Issa e Tucha – Professoras da Educação Infantil

É comum que as professoras de Educação Infantil ouçam esta exclamação ao longo do dia, vinda de alguma porta fechada do banheiro.

Na Educação Infantil, os alunos de G1 e G2 são sempre acompanhados ao banheiro por algum adulto (professoras ou monitoras). Nestas situações, nosso papel é de orientar e auxiliar as crianças para que façam uso adequado daquele espaço, pois ainda não temos banheiros automatizados: os assentos dos nossos vasos sanitários não sobem e descem sozinhos, é preciso um pequeno apertãozinho para que a descarga seja efetuada e, o mais incrível de tudo, não existe uma “mão mágica” com papel higiênico bem dobradinho para limpar os bumbuns mais fofos jamais vistos!

Cabe então a nós, professoras, ensinarmos aos nossos pequenos todas estas tarefas para que possam, progressivamente, serem cada vez mais autônomos ao usarem o banheiro e, dentre todas estas, limpar-se sozinho é de fato a mais desafiante.

Ao ouvirmos “Acabei!”, costumamos auxiliar os alunos de G1 e G2 verbalizando todas as nossas ações enquanto atuamos, e no caso dos alunos de G3 estas são executadas pelas próprias crianças, com nossa supervisão, orientado-as verbalmente do lado de fora da porta do banheiro. Dizemos assim: “Vou pegar primeiro um pedaço de papel, nem muito grande, nem muito pequeno; depois vou passar no seu bumbum e jogar no lixo; vou pegar outro pedaço de papel do mesmo tamanho e fazer a mesma coisa, até o papel sair limpinho. Pronto! Papel limpinho, bumbum sem cocô”!

E com isso esperamos que aprendam mais este procedimento, aprendizado de grande importância agora que estão com quase seis anos de idade. Portanto, que tal experimentarem também em casa o passo a passo para um bumbum limpinho, investindo neste importante conquista?

Meu filho não conta nada sobre a escola

Por Daniela Munerato

Os filhos geram sentimentos inerentes ao tipo de relação que estabelecem com seus pais. Os pais desejam acompanhar, cuidar, controlar a fim de não deixarem que nada escape e possa gerar um sentimento de culpa ou falha. Conduta comum, afinal somos seres humanos! Enquanto estão com os filhos, observam cada movimento, e se deixam aos cuidados de familiares ou empregados também encontram maneiras de acompanhar cada ação, previamente combinada ou organizada. Mas, e quando os filhos estão na escola?

Quando estão na escola a situação é um pouco diferente. Apesar da confiança, do conhecimento da proposta e das unidades de trabalho de cada série, os pais buscam as notícias diárias. Para os professores, é praticamente impossível dar notícias a todos os pais da turma diariamente, e a ideia nem é essa. Por outro lado, a depender da idade e das características pessoais, muitas crianças compartilham parte do que fazem por aqui.

É comum acompanharmos os desabafos dos pais nas portas das salas. Ávidos por notícias fresquinhas que os transportem rapidamente para dentro da sala de seus filhos, pelo menos um pouquinho, os pais recebem seus filhos no momento de saída perguntando: “Como foi a escola?” “O que você fez hoje?”

As crianças estão imersas no contexto da despedida, saem da sala animados pelo que viveram no ambiente escolar, mas habitualmente driblando o cansaço. Observamos que reagem de diversas formas: acontecem os abraços apertados, as notícias confusas do dia, pois desejam contar em dois minutos tudo que vivenciaram em cinco horas. Outra reação vista neste momento é a breve resposta que gera muita frustração nos pais: “Tudo bem” ou mesmo fingem não ter ouvido, perguntando algo sobre o jantar, a família ou alguma atividade que ainda desejam realizar, ignorando o interesse dos progenitores.

Os pais ficam cheios de dúvidas: “Ele não tem o que contar? Então a escola não foi tão boa!”, “Será que aconteceu alguma coisa que ele não quer me dizer?”, “Será que não acompanha o grupo? Não aprende? Não tem interesse pelo que a professora está oferecendo ao grupo?”, “O que acontece que não me conta?”

É curioso, mas às vezes uma mesma criança pode assumir posições opostas na companhia ou na ausência dos pais, mostrando-se mais ou menos falante, a depender da companhia e do contexto. Em casa, longe do grupo e da professora e sem o desafio de fazer-se conhecer cada vez melhor, a criança pode dar notícias muito breves sobre um assunto perguntado ou preferir não responder a determinadas questões. Na escola, diante dos amigos e do desejo de participar das atividades, descreverá as situações com riqueza de detalhes.

É fato que o ganho da oralidade abre muitas portas para as crianças no campo das relações. Com o aumento do vocabulário elas observam que a palavra comunica sentimentos, desejos, controle ou mesmo a negação. As formas de expressão variam entre crianças: temos os que se expressam com facilidade, os que precisam de ajuda e os que sonegam informações. É só voltarmos um pouquinho no tempo e nos lembrarmos de que aprenderam que dizer “não” é algo que lhes dá um certo poder, dando-lhe a possibilidade de exercer um certo controle ou de colocar limites aos pais, assim como escolher o que compartilhar, quando e com quem. Na verdade, toda criança deseja comunicar as suas experiências, mas esta comunicação pode acontecer de diversas formas, pois as crianças são diferentes.

Então, quais seriam estas possibilidades de comunicação? Em primeiro lugar, ainda centrados neles mesmos, nossos pequenos aprendizes compreendem que se não contarem as notícias aos pais eles nunca saberão. Pode ser uma maneira de testar as relações e aprender como funcionam, como reagem seus pais a este tipo de situação. De qualquer forma, o que acontece na escola é reapresentado em casa de muitas formas. Quando reproduzem gestos ou falas dos professores. Quando apresentam um comportamento imitativo de um colega. Quando estão num jogo de faz de conta, representando papéis novos, que os pais nunca viram antes. Enquanto cantarolam uma canção ou tentam ensinar uma brincadeira…

O que os pais desejariam mesmo é que seus rebentos lhes colocassem a par de tudo, inclusive do que foi bom e do que foi ruim. Mas muitas crianças contam somente alguns episódios, e nem sempre no dia em que de fato aconteceram.  Isso quando não o fazem fora de contexto, como na hora em que vão se deitar, na fila do cinema, no carrinho de compra no supermercado… O tempo das crianças é diferente do tempo dos adultos!

Por fim, temos os episódios misturando a realidade e a ficção, muito comum na infância, e ainda relatos que implicam no olhar da criança, que compartilhar eventos a partir da sua vivência, de seus sentimentos, sem considerar o outro: “Hoje eu fiquei muito chateado, o meu amigo brigou comigo!” Mas esquece de dizer que o amigo brigou porque ela tirou o brinquedo, por exemplo.

Diante de todas estas colocações seguem algumas sugestões para viabilizarmos as notícias em casa. Como vimos, a criança não querer contar as novidades é muito esperado, mas fiquem atentos a outras formas de comunicação. Vocês também podem ajudá-la antecipando o que já sabem ou quando modificam suas perguntas. Se as aulas de música acontecem às segundas–feiras, perguntem sobre o Vicente, se cantaram e o que cantaram, se dançaram ou tocaram instrumentos, ao invés de perguntarem “O que você deseja contar do seu dia?” Sejam mais diretos perguntando:  “O Vicente propôs na aula hoje? Ensinou alguma música nova?”, “Como você fez esta produção que está exposta?” Para isto, pode ser interessante acompanhar as notícias no site da escola, apreciar juntos as fotos postadas, revisitar o planejamento anual da série, perguntando sobre determinada unidade de trabalho ou tema, observar os murais das salas e dos corredores e perguntar sobre eles. Estas podem ser algumas chaves que nos permitem abrir com mais facilidade as portas desta comunicação. Vale tentar!

Já sei fazer sozinho, não preciso mais da sua ajuda.

Por Lilia Standerski, professora do G2 A (4 anos)

Calçar o tênis, amarrá-lo, vestir-se, tomar banho, comer com garfo e faca, beber no copo de vidro, carregar coisas, colocar cinto de segurança, limpar-se no banheiro, dar a descarga, escovar o dente, fechar o zíper da mochila ou do casaco, abrir lancheiras e potes, colocar luvas, arregaçar a manga, pentear-se, dobrar a roupa, organizar o armário, guardar os brinquedos…

Essas são algumas das muitas coisas que as crianças pequenas vão aprendendo a fazer sozinhas, prescindindo da ajuda do adulto. “Mas isso meu filho não dá conta de fazer sozinho!” Será? Com que idade podemos começar a apostar que os pequenos dão conta sim?

Na escola, fazemos um trabalho intenso, desde o Grupo 1, para que as crianças possam continuar a construção da autonomia que começaram a construir em casa. Em cada série temos expectativas comuns, para todas as crianças. No entanto, sabemos que cada uma é uma, e precisamos de uma observação apurada para sabermos o que podemos apostar e com quem. Essa observação nem sempre dá conta de tudo, e por isso o papel do adulto deve ser o de arriscar, experimentar, deixar rolar, para depois surpreender-se.

Eles são capazes de muito mais do que imaginamos, mas só saberemos disso se permitirmos que tentem, não consigam, tentem mais uma vez, não consigam mais uma vez e assim por diante, até que uma bela manhã, como me contou uma mãe da Escola, você acordará e seus filhos terão organizado a mesa de café!

Deixemos as crianças crescerem, permitindo que experimentem, aguentando nossas ansiedades e valorizando o já conhecido: “Eu já sei fazer sozinho!”

O reinício das aulas e o período de readaptação.

Por Daniela Munerato

Estávamos de férias… Até que um dia a roupa da escola começa a ser reorganizada, a lancheira volta para o mesmo lugar de sempre e o movimento e a rotina da casa voltam a ficar parecidos com o que era antes. Pilhas carregadas? E então bem -vindos ao segundo semestre!

As crianças, como caixinhas de surpresas que são, apresentam reações variadas diante da notícia do retorno às aulas. Algumas perguntam se poderão usar aquela blusa nova, porque o retorno é um momento de festa. Outras fazem muitas perguntas: “Vai ter aula de música?”, “Será que vai ter massinha azul?”, “A árvore do parque cresceu?”, “Vou encontrar todos os meus amigos?”, “Ainda estou no Grupo 2?” Outros, ainda, vão fazer pergunta que revelam grande curiosidade e o quanto gostavam de vir à escola, mas que vão sentir uma pontinha de vontade de ficar mais um pouco em casa, afinal a casa da gente também é um ambiente muito gostoso.

Neste retorno, às vezes, é preciso pensar uma readaptação! A despedida e a separação; o estar em outro lugar que não a casa, na companhia de muitas outras crianças, portanto tendo novamente que dividir objetos e atenção; mesmo que este lugar e as pessoas sejam velhos conhecidos. As lembranças aparecem muitas vezes de forma desorganizada, precisam de respostas para perguntas como as referidas acima, como que para estabelecerem novamente as sequências dos dias, das situações vividas. Lembrarem-se das histórias lidas, das brincadeiras que realizavam, situações nas quais eles mesmos eram protagonistas. Trata-se de um processo de reconhecimento!

Outras crianças, em um movimento de chamar a atenção dos pais, desejando conhecer suas reações, ou mesmo incertas de que tudo será como antes, podem chorar e dizer que não desejam voltar, não estão com saudades, não gostam da escola. Estamos a poucos dias do retorno, cada um tem a sua rotina, o que vai acontecer? Muita calma nesta hora. Ter calma é fundamental neste período de readaptação. As crianças precisam da certeza e da confiança dos pais em mais esta conquista!

Os pais ficam um pouco aflitos, pois se tudo é tão conhecido, por que essa história de não gostar ou querer ir para a escola? Dizer que a criança já conhece os amigos, os espaços e as professoras pode não ajudar muito inicialmente, como imaginamos, mas trazer outro olhar para este reencontro pode ser uma possibilidade interessante. Que tal separarmos aquele livro preferido para levar no primeiro dia de aula ou levar algo para mostrar à professora e aos colegas? Uma foto feita pela família na festa junina, o último evento coletivo da escola, por exemplo. Convide também seu filho a participar da organização da mochila; escolher uma troca de roupa, o lanche que trará, fazer um desenho sobre as férias… Isso tudo ajuda muito!

No primeiro dia de aula, assim como no período de adaptação do início do ano, não prometam nada que não possam cumprir. Na dúvida, respondam: “Vamos conversar com a sua professora e decidimos juntos como podemos resolver esta questão?”

Este voto de confiança, na criança e na relação estabelecida com a escola e seus professores, também favorece o sucesso neste processo. E lembrem-se: o choro na porta e a necessidade do colo da professora podem acontecer. Como vocês podem ajudar? Com as despedidas breves e palavras que revelam confiança de que seus filhos estarão bem na escola e terão muitas novidades para contar e ouvir ao longo do dia.

E fiquem tranquilos. Assim como no início do ano, tudo ficará bem em breve!

O período de férias para os pequenos


 Por Daniela Munerato

Estamos no final do semestre e um tempo de férias se aproxima. Junto a ele, surgem sempre algumas dúvidas por parte das crianças, por mais que as professoras conversem a respeito na escola. São elas: “Depois das férias vamos mudar de série?” “Vai ser 2012?” “Eu já vou fazer aniversário de novo?”

Diante destas questões, convido vocês a pensarem algumas ações que podem ajudar na organização deste tempo. As crianças pequenas não têm esta noção construída e precisam de alguns recursos para organizá-lo, e isso, além de lhes tranquilizar, ainda permite que antecipem ou retomem situações.

A primeira sugestão é usar um calendário. Vocês podem deixá-lo num lugar bem visível para a criança, isto é, onde sua visão alcance.  Marquem os dias em que as férias começam e terminam, como um tempo a ser acompanhado. O calendário representa um marcador temporal conhecido pelas crianças! Aqui na escola, desse o G1, marcamos eventos, aniversários, aulas de especialistas, dias de biblioteca, visitas ou mesmo o retorno ou a chegada de um amigo.

Desta forma, aproveitem para anotar compromissos previstos para este período, como a ida na casa dos avós, ou a chegada de um parente que vem passar uns dias em SP, ou de amigo, que vem brincar.

Além disso, a comunicação entre as crianças do grupo, neste período, é uma possibilidade interessante de convívio fora da escola. No início do ano, as professoras enviaram uma lista ou uma agenda de telefones, não é mesmo?

Como sugeriu Lúcia Rosenberg em palestra feita recentemente para vocês, pais, surpreendam as crianças com programas interessantes, como organizar um pic nic (num parque ou mesmo em casa). Muitas famílias costumam combinar uma espécie de rodízio para garantir passeios ou programas especiais. Um dia é uma que leva um pequeno grupo ao cinema (sempre tem coisa interessante para ver neste período), outro dia outra recebe um grupo em casa, para brincar … Pode-se também criar uma espécie de cineclubinho itinerante, de acordo com a disponibilidade dos pais, com direito a pipoca e tudo, e que pode dar ensejo a experiências fantásticas, com os pequenos assistindo a filmes que marcaram outras gerações, como O Mágico de Oz, Pippi Meia Longa, O Garoto (de Chaplin), Beleza Negra, A Noviça Rebelde, ET – O Extraterrestre, etc.

Outra sugestão é utilizarem um caderno para fazer um diário de férias. Pode-se desenhar nele, colar ingressos, fotos, anotar brincadeiras aprendidas, filmes vistos, passeios realizados… Estes serão registros de um tempo fora da escola, que poderá ser retomado quando retornarem às aulas e forem convidados a compartilhar com os amigos. Sempre ajuda na construção da noção de um tempo que passou e de situações que marcaram este período.

E, por fim, que este tempo seja de muito aconchego, momentos preciosos de encontro e empatia entre pais e filhos, para citar mais uma vez a nossa palestrante. Que as crianças tenham boas lembranças deste tempo, em casa ou fora da cidade. Tempo fundamental para retomar a rotina no segundo semestre. Afinal, os pequenos também precisam descansar. Até a volta então!

Encontro cultural entre a Educação Infantil e o Ensino Médio.

Por Vicente Régis

Com o objetivo de intensificar a integração entre os segmentos da escola pelo viés da cultura, convidamos a aluna Antonia Baudouin, do 3o ano do Ensino Médio, para contar uma história para o Grupo 3A. O encontro aconteceu na terça feira, dia 7 de junho. Antonia se revelou uma excelente contadora de histórias, e os alunos do G3A, ouvintes realmente muito curiosos. Um detalhe poético: Antonia trouxe o manuscrito de um livro escrito por seu avô para ela, quando ainda era criança. O resultado deste encontro foi uma explosão de sorrisos. Segue uma breve reflexão posteriormente escrita por nossa mais nova contadora de histórias, revelando a potencialidade deste tipo de acontecimento. Adoramos sua visita Antonia, esperamos que você e seus amigos possam voltar em breve.

 

“Hoje, eu participei de uma aula do G3, apareci na sala e todos estavam esperando sentados e a curiosidade era estrondosa! Eu li uma história que o meu avô escreveu pra mim, “Cuentos para Antonia”, com pequenas narrativas sobre diferentes animais, respondendo, ou não, perguntas sobre eles. Um livro perfeito, eu diria, para essas crianças com tanta coisa pra perguntar e querendo as respostas menos convencionais possíveis. Eles questionaram, se posicionaram, fizeram piadas, imitaram minhas caras e riram de mim, coisas que em um mundo que não seja das crianças, te deixariam incomodado. Foi divertidíssimo.

Acho que as crianças podem aprender muito se relacionando com histórias, compartilhando o som da história com outros ouvidos, conhecendo algo novo, alguém de outra idade, alguém também estudante como eles, que tem algo para mostrar. A aproximação é essencial, e o reconhecimento de um conjunto, da pessoa que tá contando a história e dos que estão ouvindo, mostrará de alguma maneira, que os papeis sempre podem se inverter, todos tem ouvidos, bocas e interesses. Eles percebem isso de uma maneira muito feliz e com um alto potencial. Histórias são importantes para divertir, agrupar, conhecer, aprender, entender, criticar, sonhar, rir e repassá-las.

Antes de ir-me, ensinaram-me uma de suas brincadeiras “da China-na-na”, com o maior entusiasmo e vontade e no fim de tudo pularam em cima de mim e eu, naturalmente, gostei.”

Antonia  Baudouin


Quero dar um zoom!

Regina Izzo e Daniela Munerato

Memórias nos fazem felizes ou tristes! Pode ser um cheiro, uma música, uma imagem. A memória acontece através das experiências vividas e do significado que atribuímos a elas. Um grupo de pessoas participa de uma mesma situação e tem diferentes lembranças do acontecimento. Além de características distintas, das diferenças que nos singularizam, o que está em jogo é a afetividade, o sentimento!

As fotos cumprem um papel importante nas nossas memórias. Elas registram fatos, eventos e servem justamente para evocarmos as situações como um todo. Olhamos a foto de uma apresentação e lembramos de tudo, desde o primeiro ensaio, acertos e improvisações. Inevitavelmente, o sentimento acontece: a saudade, a pontinha de medo, a felicidade por ter conseguido enfrentar o desafio… Porém, vale lembrarmos que só somos capazes de retomarmos as situações e os sentimentos envolvidos se os tivermos vivenciado.

Com a popularização da câmera digital, todo mundo tem muuuuita foto! Fica difícil registrarmos os momentos em poucas imagens: é tão fácil, rápido! E selecionar as imagens então? São tantas variáveis: ângulos possíveis, a luz, os efeitos. Fica tão difícil escolher, que na maioria das vezes nem imprimimos ou mandamos revelar, deixando sempre este momento para depois. Fica lá guardado no computador para algum dia – se esse dia chegar -, termos acesso. Toda a novidade gera adaptações!

A era digital nos traz outro problema: estamos tão focados nos registros que perdemos a oportunidade de vivenciarmos as situações. No ano passado ouvimos o desabafo de uma família sobre a dificuldade de observar seu filho num evento da escola. Segundo o relato destes pais, a enorme aglomeração em busca do registro digital impedia a visão da apresentação. Os pais que fotografavam viam seus filhos através das câmeras. Já as crianças, muitas devem ter buscado os olhares emocionados de seus pais, mas talvez não tenham conseguido encontrá-los.

Pensemos juntos: as crianças, em dia de apresentação, passam por diversas emoções: precisam se apresentar diante de um público grande, às vezes desconhecido. Querem fazer bonito, com certeza. Sabem que há expectativas em torno de sua performance, mesmo que isso não tenha sido dito a elas. Os professores, por sua vez, são sempre portos seguros, mas para encontrar o conforto, a criança também busca sua família na platéia. Então, o que ela espera? Espera poder identificar onde estão seus pais e olhá-los sempre que der, para ver se estão gostando e acompanhando cada movimento. A apresentação é para eles! Mas o que ela vê? Um monte de pais atrás de câmeras fotográficas!

Nossa reflexão vai na seguinte direção: a facilidade de registrar não pode substituir o que fundamenta a memória. Se não houver sentimento, será apenas uma foto. Que tal aproveitar estas oportunidades – seja na Festa Junina ou no Festival de Música -, junto aos filhos, para ouvir, participar, marcar presença e, se der, registrar, naquela clássica pose que os professores sugerem que as crianças façam no final, através de fotos.

As crianças se preparam tanto para estes olhares! Além disso, fazemos todos parte de uma comunidade, e devemos considerar que dividimos o espaço com diversas famílias (e olhares) que partilham do mesmo desejo.

E que as fotos nos tragam, sim, ótimas memórias: de um dia divertido, dos amigos que compareceram e de suas famílias. E que entre uma foto e outra, além de se lembrarem da apresentação em si, se lembrem da emoção manifesta nos olhares de seus pais, dos sorrisos de satisfação, dos acenos que “diziam”: estamos aqui! Enfim, memórias.

Aproveitamos a oportunidade para sugerir a leitura de um livro que no nosso entender é para todas as idades: Guilherme Augusto Araújo Fernandes, escrito por Mem Fox e Julie Vivas, da Editora Brinque-Book. Trata-se da história de um menino que era vizinho de um asilo de idosos e que soube que uma das senhoras tinha perdido a memória. É lindo e seu conteúdo guarda relação com a reflexão que propomos neste post. Aproveitem!

O trabalho com as profissões no Grupo 2

Por Daniela Munerato

Imersas no egocentrismo inerente à faixa etária, as crianças pequenas têm como principal referência suas experiências pessoais.

Em relativamente pouco tempo de vida percebem a casa e o aconchego na companhia dos pais e de outros cuidadores como lugares de segurança.

Quando chegam à escola, começam a se relacionar com outras pessoas – adultos e crianças – e também com um novo espaço. Então é chegada a hora de construir uma relação com outras pessoas e aceitar que há regras de convivência neste novo espaço. Aprender a respeitar e também aprender a respeitar-se são novos desafios que passa a enfrentar.

Aos poucos, as crianças começam a observar que cada ambiente possui características que lhe são próprias. Aos seus olhos, por exemplo, o padeiro é aquele que sempre lhe oferece pão de queijo para provar e pertence àquela padaria; da mesma forma que a banca de jornal não poderia existir sem o conhecido “seu José”, e assim por diante.

Portanto, quando chegam à escola as crianças acreditam que todos os funcionários moram neste espaço, por pertencerem a ele, inclusive seus professores. Afinal, como explicar o parque limpo ou a presença da professora quando chegam à sala? Já observaram a cara de decepção das crianças pequenas quando encontram seus professores em outros espaços, como o cinema ou supermercado? E se estiverem acompanhadas então dos filhos e do marido?

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, sabemos que aos quatro anos de idade as crianças ampliam a capacidade de olhar o outro, observar diferenças, testar limites, imitar condutas até então nunca experimentadas. Diante das mais variadas situações buscam compreender a origem e os princípios a partir dos quais constrói relações: Por quê? Onde? Como? É uma fase considerada de transição. O vocabulário vai se ampliando e é cada vez mais bem empregado. Enfim, assistimos a importantes transformações do ponto de vista cognitivo, social e afetivo.

Em casa, a frase “Vou trabalhar!”, entendida até então como um momento no qual os pais estão ausentes, começa a ser questionada com perguntas do tipo: “Como é o seu trabalho?” “Onde você trabalha?”, “O que você vai fazer?”

A unidade de trabalho “Profissões”, no G2, acontece considerando todo o contexto colocado anteriormente e cumpre vários propósitos. Conhecer a natureza de algumas profissões ajuda na compreensão do universo do trabalho, do mundo adulto. Ajuda a ampliar relações de confiança no ambiente escolar, a atribuir importância ao trabalho realizado cotidianamente pelas pessoas que fazem a escola acontecer. Garante a segurança de que os pais exercem atividades que apreciam, que escolheram e que existem diversas profissões na nossa sociedade.

No início do trabalho o foco são os profissionais da escola. Eles são observados, entrevistados e se tornam muito conhecidos e queridos. Da mesma forma, acontecem posteriormente os encontros com os pais. Quando eles marcam entrevista, as crianças contam os dias para este encontro. Preparam perguntas e ficam muito animadas para ver se confirmarão ou não suas hipóteses sobre o que é ser, por exemplo, psicólogo. Quem diria que uma psicóloga não trabalha com piscinas?

Outro ganho importante que acontece através deste trabalho é a aproximação das crianças com os pais de seus colegas, que passam a ser cumprimentados com enorme desenvoltura, e são surpreendidos com comentários sobre o dia do encontro e novas perguntas sobre a profissão exercida.

Diante das novas aprendizagens sobre o tema, as crianças constroem olhares diferentes sobre a organização social: nem todos os núcleos que reúnem pessoas representam lares, mas podem ser locais de trabalho. Por outro lado, retomam a referência do ambiente familiar para pensar que todos os profissionais que conhecem pertencem a famílias, trabalham e voltam para suas casas. Isso também tranquiliza as crianças. E há ainda os que arriscam pensar o que gostariam de ser quando “forem grandes”.