Sonhando acordado?

Por Tucha –  professora do Grupo 3 C

Hora da entrada… Eis que chega um pai com seu rebento aconchegado ao ombro, braços pendentes, respiração profunda. Mal consegue levar seu menino, a mochila e a lancheira. Cambaleia até a porta da classe e dirige-se à professora falando bem baixinho, praticamente sussurrando:

- Boa tarde, Tucha. Hoje o Cebolinha brincou muito durante a manhã inteira e está muito cansado. Veio dormindo profundamente no carro e nem se mexeu quando eu o peguei no colo. Você poderia providenciar um lugar para ele dormir por favor? Acho que este soninho vai longe…

Neste momento ouço uma risadinha e percebo os olhos de Cebolinha se abrirem e fecharem rapidamente. Digo então ao Cebolão:

- Acho que ele já está acordando, não é mesmo Cebolinha? Vou te pegar no colo, sentar um pouquinho com você perto da pista de carrinhos até você acabar de acordar, combinado? Hoje teremos muitas atividades interessantes e divertidas e fico feliz ao ver que você já está despertando para participar de todas elas.

A situação descrita acima acontece algumas vezes em nosso dia a dia e sabemos que este sono é legítimo, principalmente no início do ano, após a flexibilidade da rotina das crianças durante o período de férias. Muitas vezes também chegar à escola “sonhando acordado” é uma estratégia que alguns alunos utilizam para terem o privilégio de serem transportados no colo durante o percurso do carro até a sala de aula. De fato é muito gostoso poder contar com os braços fortes de quem os está trazendo, garantindo um colinho tão gostoso! Colinho de pai ou de mãe e também colinho de professora! Este último, dormindo ou acordado estará sempre disponível no início do período, quando ainda estamos organizados em cantos e as crianças estão envolvidas nas brincadeiras organizadas pelas educadoras. Enquanto escolhem com autonomia um brinquedo ou brincadeira, a professora pode receber com a atenção que merecem os colegas que estão chegando.

Não podemos esquecer, porém, que nossas atividades diárias são planejadas visando que todos os alunos aproveitem ao máximo o período que passam na escola. Que tal desfrutarmos intensamente estes 285 minutos diários de trabalho e diversão, acordando calmamente nossos pequenos nestas ocasiões, levando-os tranquilamente pela mão até a classe, para que possam participar integralmente de todas as atividades propostas? Assim, ao voltar para casa, poderão se entregar totalmente aos “braços de Orfeu”, com a certeza de que aproveitaram na íntegra seu dia na Escola da Vila.

Que espaço é esse?

Por Marisa Szpigel

É no primeiro ano que os alunos da Escola da Vila passam a freqüentar as oficinas de arte. Entre as mudanças relacionadas a passagem da Educação Infantil para o Fundamental I, ter aula de arte em um espaço diferente da sala é uma conquista que marca o ingresso neste segmento.

O trabalho realizado neste início é decisivo para a construção de procedimentos e atitudes que vão acompanhar os estudantes durante todo o Fundamental I e II. Estar em oficina pode ser considerado um conteúdo importante na prática artística. Para que a criação flua é necessário que os estudantes possam se movimentar com autonomia em um espaço organizado e conhecido. Os materiais precisam estar ao alcance das crianças, para que possam buscá-los de acordo com suas necessidades e desejos, por isto, cada material precisa estar sempre no mesmo lugar.

Nas primeiras aulas de arte as crianças investigam o espaço da oficina a fim de conhecer o  lugar que cada material mora. Cada cantinho é vasculhado e as conversas giram em torno da função dos meios, suportes e ferramentas, trabalhos possíveis de fazer com eles e os cuidados em relação à organização.

As oficinas de arte podem ser comparadas aos ateliês de artistas. O espaço de trabalho pode revelar características da poética de cada um. Por exemplo, o ateliê de Mondrian segue a mesma limpeza e o rigor construtivo de suas telas.

Já o ateliê de Calder, com uma profusão de materiais por todo canto, revela o caráter experimental de sua obra, caracterizada pela pesquisa de materiais, tais como peso e leveza, cheio e vazio, equilíbrio e movimento.

No caso de nossos estudantes, é preciso aprender a compartilhar o espaço de criação, para que possam  movimentar-se em harmonia, trocar ideias e aprender uns com os outros, para investigar e experimentar as possibilidades plásticas dos materiais e de ação poética sobre o mundo.

Estar na Escola e ser da Escola.

Por Daniela Munerato

O ano letivo começa e, após as férias, a escola novamente tem o movimento, a voz e as cores das crianças que retornam a este espaço cheias de expectativas, ávidas por reconhecerem as mudanças e os novos desafios. Também chegam ao espaço escolar crianças que nunca frequentaram uma escola ou que mudaram de escola. De alguma forma, elas irão se encontrar para compor classes e turmas.

Em casa, estas crianças já ouviram seus pais comentando: “Você vai ser do Grupo 1” ou “Agora você está numa escola de crianças grandes”. Imaginamos que nossos pequenos ficam curiosos pela ideia de ter uma professora que não conhecem, espaços para brincar, pintar, dançar e aprender. Porém, o que significa ser do Grupo 1?

É fato que estar na escola e ser da escola representam desafios diferentes. Enquanto estar na escola tem um significado físico, ser da escola depende de uma construção da pertinência progressiva, que faz com que nossos pequenos aprendizes compreendam que fazem parte de um grupo. Um grupo que estará junto todos os dias, participará das mesmas atividades e construirá a sua identidade. Através do convívio diário, as crianças compreendem que a singularidade e a diversidade são reconhecidas e valorizadas nas interações que têm lugar no espaço escolar.

Neste sentido, para as crianças, a rotina cumpre um papel fundamental na construção desta pertinência. Ela é construída no dia a dia com o objetivo de organizar o tempo na escola, a ordem das atividades que acontecem numa jornada, e que são planejadas considerando as necessidades dos pequenos, os compromissos coletivos, de modo a viabilizar as aprendizagens em muitos âmbitos do desenvolvimento infantil.

Em nome desta organização, que favorece a interação com os adultos, entre pares e com os materiais e espaços, o desconhecido torna-se previsível em nome da tranquilidade que a antecipação gera. Por este motivo, acompanhamos as professoras repetindo as mesmas histórias no período de adaptação, oferecendo as mesmas propostas nos cantos de entrada, terminando o dia com rituais que marcam a saída, como a “famosa pipoca”. Tudo é planejado de forma que as crianças se olhem, façam-se conhecer, contem umas com as outras, aprendam a expressar ideias, sentimentos, e reconheçam professores e demais funcionários que apóiam o segmento, como adultos significativos, confiáveis e responsáveis por eles no período em que permanecem na escola. Isto é fazer parte de um grupo!

Os pais também podem contribuir com este trabalho, evitando atrasos, garantindo que as crianças aproveitarão cada momento desta rotina especialmente planejada. Outra sugestão é tentar obter notícias sobre as atividades, as brincadeiras realizadas junto aos colegas, procurando saber o nome dos companheiros de turma, se referindo aos adultos que trabalham na escola pelo nome, respeitando sempre a disponibilidade de cada criança para compartilhar as experiências vividas na escola.

Em pouco tempo surgem os primeiros sinais da construção da pertinência grupal. As crianças encontram conhecidos na entrada da escola e dizem: “Vamos para a nossa sala?”, “Eu trouxe dois brinquedos e vou emprestar para você!” E quando chegam à porta da sala perguntam: “O Antonio já chegou?”, “Hoje nós vamos fazer colagem?”

A construção desta pertinência permeia toda a escolaridade, pois acontecerão mudanças a cada ano: professoras, salas, novos alunos e novidades na escola. Este trabalho estará sempre presente, no cuidado com cada um e com o grupo ao qual pertencem.

Existe outro lugar, além das bibliotecas Tatiana Belinky e José Mindlin, ambas da Escola da Vila, onde se pode emprestar livros para ler com os pais?

Por Dayse Gonçalves

Quem mora na Zona Oeste da cidade, mais precisamente próximo a Pinheiros, Alto de Pinheiros, Vila Beatriz, Vila Madalena e adjacências, deve ter reparado que há uma biblioteca pública muito simpática chamada ‘Álvaro Guerra’, na Rua Pedroso de Moraes. É lá que vamos com as crianças de G3 (5-6 anos) agora no mês de outubro. Pretendemos conhecer o seu acervo, fazer uma gostosa roda de leitura, lanchar e brincar no seu jardim.

Nossa bibliotecária, a Angela Muller, já esteve lá conversando com a direção e com a monitoria. Ela própria trabalhou por muitos anos numa biblioteca pública (na Monteiro Lobato, na região Central), por essa razão tem sido uma interlocutora importante, que vem nos ajudando a concretizar essa ideia de ampliar a experiência de nossos pequenos leitores, já tão assíduos e tão vorazes, apesar da tenra idade.

E quando pensei em compartilhar essa notícia no blog, fiquei pensando que argumentos poderia trazer para justificar nossa decisão, neste ano, de apresentar às crianças uma biblioteca pública.

Não será, certamente, pela suposta ameaça que a existência de novos suportes da informação e as novas tecnologias representam, pois estes pequenos não encontrarão dificuldades para lidar com isso. Não estes pequenos! Pelo contrário, para eles, as novas tecnologias serão aliadas. Insisto, eles não só já têm o hábito da leitura, como não terão dificuldades com estratégias mediáticas de acesso à cultura. Talvez até defendam uma sociedade que prescinda ou que faça uso cada vez mais reduzido do papel como suporte, por razões econômicas e ambientais. O que não quer dizer, infelizmente, que não continuaremos assistindo a um enorme fosso entre aqueles que têm acesso às tecnologias e os que não têm, enfim à exclusão social.

Por tudo isso, fico pensando que apesar de fazerem parte da camada social que pode pagar pelos livros que precisam e desejam, e sem a intenção de colocar em discussão, aqui, a problemática das bibliotecas públicas, que passa pelo seu papel na promoção da leitura e da cultura, e pelas desigualdades sociais, a começar, por exemplo, pela localização destas instituições, como é o caso da Álvaro Guerra, que é acessível justamente àqueles que dela podem prescindir, talvez nossos pequenos leitores, como usuários, tenham ainda outro papel: o de ajudar a justificar a importância deste tipo de instituição na nossa sociedade.

Esperamos, com essa visita, animá-los também vocês, pais, a providenciar a inscrição das crianças como usuários, não só na Álvaro Guerra, mas de outras bibliotecas públicas da cidade, e a incluí-las no seu roteiro cultural.

Temos notícias de que muitas contam com excelente acervo para crianças, jovens e adultos, bem como de uma programação cultural que acontece inclusive aos sábados, como sessões de contação de história, oficinas etc. No link HTTP://bibliotecas.prefeitura.sp.gov.br não só terão acesso ao acervo através dos catálogos online, como dos eventos culturais que promovem.

À escola o que é da escola, à sociedade o que é da sociedade

Por Dayse Gonçalves

Essa frase interessante é de António Nóvoa, importante educador português que vem propondo discussões em torno da missão da escola, que ao longo de sua história foi tomando para si algumas funções que deveriam ser assumidas por outras instituições sociais. Segundo ele, essa seria uma das razões pelas quais se produziria uma enorme desigualdade em relação à qualidade da formação dos cidadãos. Aqueles que estariam dentro das escolas invadidas pelas demandas sociais estariam em desvantagem em relação àqueles que estariam dentro das escolas onde o foco de atenção estaria nas aprendizagens. Mas isso é assunto complexo e fica para outra ocasião.

O que estamos trazendo para pensar é assunto menor, menos importante que a questão do transbordamento da escola, mas que as famílias podem considerar um problemão. Queremos falar do problema (que em termos de segurança é solução) da cadeirinha. Parece que todos os motoristas, tirante taxistas e afins, terão de ter uma cadeirinha dentro das especificações da lei para o transporte de crianças dentro de certa faixa etária.

Outro dia alguém perguntou: como a escola está pensando resolver esta questão? Quando me deparei com esta indagação imediatamente de lembrei do professor Nóvoa. Será essa mais uma responsabilidade da escola?

Segundo levantamento feito às pressas, só na Educação Infantil do Butantã teríamos mais ou menos 70 crianças por período sendo transportadas em cadeirinhas, sem falar nas séries iniciais do F1, onde temos crianças de 6 a 7 anos e meio. Portanto, necessitaríamos de espaço para estacioná-las aqui na escola. Não bastasse a falta de espaço, imaginem como seria a hora da saída, com as famílias todas buscando sua(s) cadeirinha(s)?

Embora sejamos absolutamente favoráveis à lei, reconhecemos as dificuldades de sua implantação, que começa com a escassez do produto no mercado, a alta dos preços em função da demanda, a questão dos rodízios …  Vivemos um tempo de mudanças. Mudanças nos obrigam a pensar e a agir. As saídas nem sempre são fáceis, mas não podemos assumir mais essa responsabilidade.

Como é que vocês conseguem?

Por Dayse Gonçalves - Orientadora Pedagógica e Educacional da Educação Infantil

Essa é uma pergunta que pais de crianças pequenas frequentemente nos fazem. E ainda completam: “Lá em casa eu só tenho três e às vezes não consigo dar conta!”

Costumamos responder a essa pergunta dizendo que o ambiente escolar nos favorece. O fato de a criança fazer parte de uma turma, de querer compor com o grupo de amigos, isto é, ter atitudes parecidas com as de seus pares, que tanto admiram e nos quais se espelham, de corresponder às expectativas dos professores, isso tudo já ajuda e muito.

Uma criança de 4 ou 5 anos que sempre faz birras quando contrariada em casa nem sempre faz birras na escola. Acreditem! Se fizer, logo os próprios amigos lhe dizem “Não precisa chorar! Que tal a gente brincar um pouco de cada coisa?” ou “Não precisa chorar, quem chora é bebê! A gente já sabe conversar, não é professora?”

Obviamente, são atitudes que se aprende, portanto, se ensina. Quando chegam à escola, é comum os menores chorarem quando contrariados ou mesmo agirem fisicamente, quando desejam algo que está com outra criança. Às vezes agem fisicamente até por uma dificuldade de separar fantasia de realidade. Há uns dois anos, por exemplo, estava observando três crianças de 3 anos brincando (dois meninos e uma menina) e um dos meninos deu um empurrão na menina. Me aproximei e perguntei por que tinha feito aquilo? Ao que ele respondeu: “É que ela é do mal, Dayse!” Então expliquei que se tratava de uma brincadeira, e que na brincadeira a gente finge que está lutando, dá soco no ar … aquele discurso que os adultos já conhecem e fazem em situações parecidas.

Mas voltando à pergunta inicial – Como é que vocês conseguem? – costumo dizer a relação adulto-criança, no ambiente escolar, é um pouco diferente. Em primeiro lugar, não chegamos cansados do trabalho (a escola é o nosso trabalho); não nutrimos sentimentos de culpa, pelo menos não a ponto de ceder às chantagens dos pequenos ou de achar que com os limites que colocamos estamos impingindo a eles um sofrimento ao qual não podem suportar.

Temos clareza da importância de ajudar nossos pequenos a lidar com situações de frustração, de ensinar a expressar sentimentos e necessidades verbalmente, de ajudá-los a compreender, progressivamente, que o diálogo é a forma privilegiada de comunicação e de expressão de sentimentos e ideias. Nas situações mais exigentes emocionalmente, como no momento de lidar com um conflito ou de colocar limites, sem alterar o tom de voz olhamos olho no olho. Mesmo quando é preciso conter fisicamente, o fazemos com firmeza mas demonstrando ao mesmo tempo nossa crença na sua capacidade de aprender a lidar com aquele tipo de situação.

Dá trabalho? Dá muito trabalho! Mas não sabem a satisfação que é acompanhar este processo de aprendizagem. Se a gente não exercita isso no dia a dia, como é que as crianças vão aprender a se relacionar?

O que aprendem agora as crianças levam para a vida. Se desejamos uma sociedade mais justa, mais democrática, precisamos preparar nossos alunos para o convívio social. Portanto, uma boa autoestima e equilíbrio emocional são fundamentais para a inserção social, quaisquer que sejam os espaços de relação interpessoal.

A formação do leitor de literatura na Educação Infantil. O que isso tem a ver com construtivismo?

Por Daniela Munerato – Professora de Grupo 2

A formação do leitor de literatura é um dos objetivos na Escola da Vila desde a Educação Infantil. Para isso, diversas situações são planejadas pelos professores com o propósito de favorecer a ampliação do repertório das crianças sobre obras e autores, compartilhando ideias que vão na direção da construção de diversos sentidos possíveis e do cultivo e expressão da opinião pessoal.

Sabemos que o universo literário se apresenta às crianças no dia a dia delas na escola, nas visitas feitas às livrarias e no acervo que vão constituindo em casa. Em interação com este amplo universo, constroem uma relação com o mundo dos livros, um percurso leitor, e tudo isso é considerado todo o tempo pela escola, por seus professores. Na escola, como nossa intervenção cumpre propósitos diversos daqueles do contexto familiar, além de favorecer a construção do gosto pela leitura e muitos momentos de prazer, nossas intervenções perseguem a construção de outros observáveis sobre algumas obras que as crianças apreciam reler. Assim, cada atividade é planejada criteriosamente por nós, que temos de levar em consideração muitos aspectos que interferem nos processos de ensino e de aprendizagem. Por exemplo, a potencialidade da obra, as características do pensamento infantil, contribuições de uma didática específica. Acreditem, atualmente um conjunto expressivo de estudiosos realiza pesquisas em didática do ensino da literatura na escola. Nos últimos anos, recebemos contribuições valorosas neste sentido.

Portanto, os processos de aprendizagem dizem respeito a conteúdos, alunos e professores. Um triângulo! Está é uma boa imagem para pensar as relações entre estas três dimensões do processo de ensino e aprendizagem. Um objeto de conhecimento que guarda determinadas características (a leitura literária), um aluno que tem de se implicar no seu próprio processo de aprendizagem e um professor que tem de controlar as condições didáticas em que esta interação entre aprendiz e objeto de conhecimento se dá.

Considerando tudo isso, não posso deixar de pensar nos meus vinte e dois pequenos alunos, de quatro anos de idade, entrando na biblioteca Tatiana Belinky e se deixando encantar com os livros expostos nas mesas. Convidados a escolher um livro para folhear e levar para casa, aproximam-se curiosos. Vejo que as escolhas são feitas com base em critérios variados: personagens que lhes interessem, como animais ou seres encantados; capas e títulos que chamam a atenção; autores conhecidos. Também são muito receptivos às sugestões feitas pelos próprios colegas e pelos adultos envolvidos neste processo.

Meu olhar corre rapidamente o grupo, que se organiza para nosso delicioso ritual de leitura: com os livros em mãos, algumas crianças procuram tapetes para apoiá-los onde possam folheá-los demoradamente. Vejo que me imitam nesta atitude, pois tenho o cuidado de repousar os livros que leio num tapete, tratando o livro como objeto sagrado, como de fato penso que deva ser visto.  Também observo algumas crianças cantarolando a canção ritual de início dessa imersão neste mundo mágico. Outras crianças, ainda, observam as imagens e tentam imaginar, sozinhos, o enredo, o relato, tudo a partir do que veem. E assim me ponho a refletir sobre o quanto estes pequenos aprendizes de quatro anos já sabem sobre o mundo da literatura. Sem dúvida, são ações que reconheço como fruto de nossas intervenções.

Vale dizer que os livros dispostos na mesa foram escolhidos por mim, segundo objetivos definidos previamente, com base no tipo de aprendizagem que pretendemos promover na educação infantil.  Nossas ações estão carregadas de intenções!

Isto posto, apesar de ter escolhido o tema da formação do leitor literário, é preciso dizer que tudo é absolutamente intencional em todos os eixos do trabalho, em todos os segmentos da escolaridade. Somos especialistas em educação. Estudamos para eleger conteúdos, definir objetivos e desenhar projetos e sequências didáticas com base no que sabemos sobre os processos de aprendizagem de nossos alunos, incluindo todas as variáveis que neles interferem. Dá trabalho ser construtivista, mas vale a pena! O que nossos alunos aprendem levam para a vida.

Desenhar para o filho ou com o filho?

Por Dayse Gonçalves – Orientação Educação Infantil e Marisa Szpigel – Coordenação de Arte

Seu filho pede para você desenhar para ele? Perguntamos isso porque é comum que crianças pequenas peçam aos pais e outros adultos com os quais convivem para que desenhem para elas. Diante deste pedido, o que fazer? O que significa desenhar para as crianças? As crianças estão em busca de referências visuais, de modelos. Mas será que neste caso o adulto será um bom modelo? Em certa ocasião o artista Guto Lacaz revelou em uma conversa informal que por um longo período visitou um vizinho desenhista todas as tardes, para observá-lo desenhar. Guto não desenhava naquele momento, mas levava os desenhos para casa, e a noite desenhava a partir do modelo. Disse que observar o processo de desenhar era muito importante. Por outro lado, Picasso, artista conhecido por sua intensa e ininterrupta produção, em uma de suas frases de impacto, disse que levou dez anos para pintar como os mestres e a vida toda para desenhar como as crianças.

Tudo leva a pensar que este simples pedido pode parecer pouco importante, e na verdade não o é. A criança, como o faz, solicita modelos, e também precisa ser incentivada a desenhar sem a presença deles. O ato de desenhar carrega uma complexidade de operações, numa articulação entre os estímulos internos e os externos.
Na escola, nas classes de educação infantil, não desenhamos na frente das crianças, pois não é incomum que depois do encaminhamento de uma atividade, diante do modelo oferecido pelo professor, alguns trabalhos revelem nossa forte influência. Se o professor desenha algo na presença das crianças é comum que os pequenos sintam-se impelidos a desenhar como ele, pela admiração que sentem por seus mestres.
Nestas situações, em que estamos encaminhando uma proposta, apresentando os materiais, convidamos as próprias crianças a explicitarem ideias sobre as possibilidades de uso dos materiais, de modo que o modelo oferecido é muito mais próximo do tipo de produção que as crianças costumam realizar.
E quando nos pedem para desenhar, lhes dizemos que há inúmeros jeitos de desenhar, e convidamos várias crianças do grupo a fazê-lo, além de apresentar imagens em diferentes livros, evitando, com isso, um único modelo.
Então, se seu filho pedir para você desenhar, compartilhe com ele momentos de pesquisa de imagens. Os livros de literatura infantil são rica fonte para isto. Notem como cada ilustrador resolve graficamente uma figura humana, uma casa, um animal. Desenhe com ele e não para ele.

A propósito, desenhos figurativos costumam ser os mais valorizados socialmente, portanto mais uma razão para variar experiências. Que tal propor passeios de linhas sobre o papel, em um tanque de areia, no vidro embaçado do box do banheiro… Com certeza o simples pedido poderá se transformar em encontros significativos para deixar a linha, ou o desenho, sonhar.

“Mãe, me empresta seu batom? Quero sair como você hoje.

Por Érica Ditolvo – assistente de Orientação Educacional do Fundamental 1

Essa fala pode ser algo natural de uma criança ou causar preocupações. O que será que tem por trás do que essa filha pede à mãe, uma brincadeira de imitação ou a ideia de que já é grande o suficiente para andar como uma adulta?

Há uma grande diferença entre a criança brincar de imitar os adultos, fazer shows, brincar de mamãe e filhinha, de cientista e, “fora da brincadeira”, querer se portar como tal, se maquiando ou sentando para conversar como se tivesse 30 anos.

As crianças têm vivido uma forte estimulação que vem da mídia, da cultura e da sociedade para que amadureçam logo. Atualmente, não é incomum vermos uma criança passeando com suas famílias parecendo um pequeno adultinho.

Se pensarmos na importância da infância como uma fase do desenvolvimento em que se conhece o mundo, aprende a se relacionar com o outro, experimenta papeis através do faz de conta, entre tantas outras novas experiências, teremos clareza de como não há motivos para que atropelemos uma etapa tão importante (e gostosa!) do crescimento. Mas então, por que será que vemos tantos pais orgulhosos de seus filhos serem tão “maduros”? De onde vem isso?

O limite entre o mundo adulto e o infantil está fragilizado. As informações circulam livremente e fazem com que as crianças fiquem expostas a conteúdos que não são apropriados.

E, por falar em informações inadequadas, até que ponto devemos responder às curiosidades de nossas crianças? A nós adultos cabe permitir que entrem em contato apenas com aquilo que elas têm possibilidade de entender, de elaborar. É muito comum que as crianças, por volta dos 5 ou 6 anos, comecem a se interessar por temas como “de onde viemos?”. Nessa idade as crianças ainda não conseguem dar sentido aos detalhes do processo reprodutivo, e nem precisam. Portanto, devemos responder a questão, sem dúvida, porém de modo simples.

Esses mundos também se confundem quando os pais, para cuidar do futuro de seus filhos, oferecem tantas atividades e responsabilidades, que acabam sem muito tempo para algo que é fundamental na infância: brincar.

Já que estamos imersos nesse mundo que influencia nossas crianças a se tornarem logo pequenos adultos, o que podemos fazer é deixar o mais claro possível que cada coisa tem seu tempo e por enquanto é hora de aproveitar SER CRIANÇA!

Celular: nova babá eletrônica?

Por Fernanda Flores

Em geral, por volta dos 5 anos, as crianças de nossa comunidade passam a frequentar a casa de colegas da escola. Gostam de combinar encontros para passar manhãs, tardes ou finais de semana uns com outros, vivendo experiências extremamente importantes para seu crescimento.

No entanto, ultimamente, nos deparamos com relatos que chegam à escola de crianças que têm levado consigo, a essas visitas, além de suas mochilas, brinquedos e escova de dentes, um celular…

Para quê mesmo?

Vejamos, todo o propósito do estreitamento de laços entre amigos, que é o que acontece quando passam a se frequentar em ambiente familiar, não ocorre somente entre as crianças, também deveria acontecer entre os pais. Aquele antigo (e insubstituível) combinado: saber quem estará em casa com as crianças, trocar telefones para que os adultos responsáveis possam se falar em caso de necessidade, confiar que a criança estará bem e será atendida em suas necessidades, são requisitos para que a família esteja tranquila nessa nova fase mais social de seu filho ou filha.

Podemos pensar que o celular aparece aqui como um intruso desnecessário, que tende a fragilizar a relação de confiança da criança no ambiente novo que a está recebendo. Veja só: ao menor sinal de desconforto, de incômodo, a quem a criança pedirá ajuda? O esperado é que os adultos mais próximos e responsáveis por aquele encontro a confortem, ajudem as crianças a seguirem bem, ultrapassando um conflito ou um desentendimento.

No entanto, com o celular à mão, corre-se o grande risco de cairmos numa armadilha imediatista – cada pai resolve o problema e “socorre” o próprio filho – atitude que afasta a família que recebe e que pouco contribuirá para a construção do sentimento de confiança, de laços mais fortes entre as crianças e, principalmente, entre as famílias. E, não deixem de pensar o quão essencial é podermos conhecer e confiar nas famílias dos amigos e amigas de nossos filhos… Mas como, se a babá celular estiver por lá???