A experiência de produzir e estrear uma peça

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Por Gabriel Rosa e Dora Novais do 3o EM, alunos do Grupo de Teatro e do Núcleo de Produção Cultural da Vila

Este ano passou muito rápido, e nós do Núcleo de Produção e do Grupo de Teatro, com certeza, aproveitamos cada minuto. Apesar de todo o caos no país, 2018 foi um ano incrível e trouxe um vasto leque de projetos. O maior de todos, sem dúvida, foi a adaptação coletiva da obra de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, nomeada de “Relatos Cegos”. O grupo todo escolheu e aceitou encarar esse grande desafio que é transformar uma narrativa criada na linguagem literária para a linguagem teatral. Assim, cada integrante do grupo ficou responsável por adaptar uma parte do livro, fizemos diversos cortes e muitas descrições que não cabiam dentro da linguagem do teatro ficaram de fora. Compusemos uma trilha sonora original e levamos pro palco, da nossa maneira, a história desses personagens que enfrentam tantos conflitos ao tentar organizar uma pequena sociedade sem regras.

Muitos integrantes, além de fazer parte do Grupo de Teatro, também fazem parte do Núcleo de Produção Cultural. Para quem ainda não conhece: o Núcleo é um grupo formado por alunos que têm como intuito auxiliar em produções e projetos culturais da escola, como a peça “Relatos Cegos”. Assim, além de atuar, muitos alunos tiveram também a engrandecedora experiência de trabalhar com a produção. Pensamos, assim, nos figurinos e todos os adereços que compunham o cenário. Além disso, o Núcleo foi responsável por levar o Grupo de Teatro para diversos festivais de teatro estudantil, no interior e São Paulo. Para isso, nós tivemos que arrecadar dinheiro para levar a nossa peça para esses festivais e para investir em outros projetos culturais destinados para a comunidade escolar. Fizemos o nosso próprio Sarau, nosso Brechó, fizemos vendas de doce na escola e até criamos produtos próprios do Núcleo, como sacolas e camisetas, para vender. Participamos da Festa Junina, da organização do Festival de Poesia e apresentamos um pequeno trecho da peça no evento. Tudo isso feito pelos próprios alunos, com as arrecadações revertidas para todos os outros alunos que compõem a comunidade vilana. Nós não iríamos conseguir sem a ajuda e o grande apoio da Luiza Zaidan, que, além de dirigir a peça, nos orienta no Núcleo.

A principal característica do teatro, em nossa opinião, é o trabalho em grupo, algo que a Escola da Vila presa em seu currículo e que, com certeza, nos ajudou a realizar todos os nossos projetos. A participação e o apoio da comunidade escolar e de cada funcionário da escola foram essenciais para a realização de cada projeto. Uma das mais lindas experiências que vivemos, sem dúvida, foi a oficina com as bailarinas cegas da Associação Fernanda Bianchini. Esse encontro não só fez diferença na construção de personagens da peça, mas fez diferença também para a nossa formação como seres humanos.

Tivemos diversas vitórias durante este ano. Construímos uma peça do zero, uma peça que foi capaz de tocar o público, convidando-o a refletir sobre o mundo em que vivemos. Reservamos um teatro para nossas apresentações e tivemos o orgulho de pagar o aluguel com nossa primeira bilheteria. Para os integrantes do grupo que estão no 3o ano, infelizmente, foi o último ano de teatro, mas foi uma experiência com muitas risadas e união. Nós, integrantes do Grupo de Teatro, somos mais do que colegas, nós conseguimos construir uma grande amizade.

Que 2019 também seja um ano maravilhoso, como foi este.

Vilalê: descobertas e amigos inesperados

Escola da Vila

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Por Sofia M. Duarte Pedrosa Rechi Aguiar e Tiago Costa Soriano – Formandos do Ensino Fundamental 2

Todos nós já nos sentimos solitários. Não pertencentes. Em dúvida sobre gostos, personalidade, sobre nós mesmos. Às vezes encontramos acolhimento onde menos esperamos, e é isso que o Vilalê representa para muitos de nós. Um lugar onde ninguém lhe julga. Onde até mesmo os mais tímidos têm voz.

Começamos todo ano escolhendo um livro. Esse sempre é sugerido pelo grupo e eleito a partir de uma votação, portanto todos conseguem ser atendidos de alguma forma. Fazemos leitura compartilhada nos encontros de quinze em quinze dias, discutindo o que lemos em casa e no encontro passado. Sempre há diferentes interpretações e observações, deixando a leitura mais rica e com diferentes opiniões sobre os acontecimentos do livro.

Com um grupo diverso e unido, inclusive na questão da idade (que é mais evidente nesta fase da nossa vida), conseguimos, por meio de sorrisos, espantos e lágrimas, finalizar a leitura. Após o final de cada livro, um sentimento de preenchimento inunda nossas mentes e corações. Êxtase dos amantes de bibliotecas.

A escrita e a leitura se mostram libertadoras. No Vilalê, ninguém nos força a nada. Ambiente mais aberto e leve não poderia existir. Sempre mudamos de espaço físico, mas a empolgação pelo próximo capítulo do livro se mantinha a mesma. O Vilalê foi como um veículo de descoberta sobre nós mesmos. Um grupo que acabaria se tornando muito mais amigo do que começou e nos faria aprender muito além do imaginado.


Agora que vou me formar e sair da Vila, este meu último encontro me fez lembrar de como vou sentir falta da experiência de ler livros impressionantes (que guardo com carinho em minha prateleira) em uma roda unida pelo interesse em comum por histórias e, claro, pipoca. Agradeço de coração à Fernanda, que, com todo o seu carisma, media o Vilalê e se esforça para enriquecê-lo de diversas formas (já chegamos até a conversar com uma autora holandesa). Àqueles que estão chegando, saibam que, para quem gosta de ler, o Vilalê só tem vantagens. Adeus e obrigado por tudo!

Vinícius Silva Fernandes Kuhlmann – Formando do Ensino Médio

Alunos da Escola da Vila visitam o maior empreendimento científico da história brasileira

Escola da Vila
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Por Alex Brilhante, professor de Ciências Naturais e Física

Apesar dos cortes drásticos de orçamento para a ciência, desde 2015 o Brasil vem construindo o seu mais grandioso projeto científico: o Sirius, um imenso acelerador de elétrons que será uma das melhores máquinas do mundo no gênero, possibilitando a realização de experimentos na fronteira do conhecimento e atraindo pesquisadores internacionais.

Com previsão de entrada em funcionamento já em 2019, o Sirius tem como peça central uma circunferência de mais de 500 metros, onde os elétrons chegam a uma velocidade próxima à da luz. Ao realizarem a curva ao longo da circunferência, os elétrons emitem radiação eletromagnética, ou seja, luz. As particularidades da luz emitida pelo acelerador permitem a observação em escala molecular e atômica de diversos tipos de materiais, de semicondutores a fósseis, o que faz dessa máquina um instrumento versátil e estratégico para pesquisas em áreas tão diversas, que vão de nanotecnologia a biociências.

A construção do Sirius não é uma mera aposta grandiosa, esperando por resultados incertos. Desde 1997 o Brasil já conta um grande acelerador de elétrons, o acelerador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, que talvez seja o nosso empreendimento científico mais bem-sucedido até o momento. Trata-se de um laboratório nacional, ou seja, aberto para pesquisadores de todo o Brasil e do mundo, que já recebeu milhares de pesquisadores ao longo de suas duas décadas de funcionamento. O Sirius é “apenas” um upgrade de mais de 1 bilhão de reais em uma experiência científica de sucesso.

Na semana passada, alunos de nono ano do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio – acompanhados por Regis Neuenschwander, da Divisão de Engenharia do LNLS – tiveram a oportunidade única de observar, de dentro da construção, como funcionará o futuro acelerador de partículas. Assim que a construção terminar, não será mais possível entrar nos meandros do acelerador. Além de visitar a construção da nova máquina, nossos alunos visitaram a máquina que está atualmente em funcionamento e aprenderam como essas máquinas produzem imagens em escalas moleculares e atômicas, além de terem visitado os demais laboratórios que compõem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas.

Nossa iniciativa, ao mesmo tempo que tem por objetivo aproximar nossos alunos da ciência nacional – mostrando as áreas de pesquisa em que temos uma tradição de produção científica de qualidade para, quem sabe, estimular alguns alunos a enveredarem no mundo instigante da pesquisa científica –, é também o nosso reconhecimento da importância da ciência na construção de uma nação, importância nem sempre divulgada propriamente. Dados de uma pesquisa sobre a percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil, publicada em 2015 pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), nos mostram que apesar da atitude altamente favorável à ciência manifestada pelos brasileiros, apenas 12% dos entrevistados pela pesquisa conseguiu se lembrar de alguma instituição científica brasileira, número bastante pequeno mesmo se comparado a países com uma trajetória científica similar à nossa, como a Argentina, por exemplo, em que 25% dos entrevistados sabiam nomear alguma instituição de pesquisa.

Sabemos que a produção científica é uma atividade cara e, em grande medida, custeada por todos. Se a produção científica nacional não for divulgada adequadamente, nada garante que a sociedade civil veja sentido em seguir apoiando a ciência e os cientistas brasileiros.

Educar em tempos de cisão

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

A cada ano, um grupo de alunos da Vila viaja à Argentina e permanece em convivência com outros alunos de uma escola parceira, não sem antes estudar ao longo do ano as características sociais, históricas, culturais e políticas daquele país. Em grande parte das vezes, nossos alunos investigam, intrigados, as origens da grande cisão que parte o país em dois, de acordo com a orientação política de cada setor, comunidade, família ou indivíduo. Voltam sem uma resposta, mas com a dúvida mais consistente, e conseguindo pensar mais a esse respeito. Se há um país neste continente que entenda de viver cindido, esse país é a Argentina.

Neste ano, porém, algo foi diferente. Estávamos lá durante as eleições de primeiro turno no Brasil. Já na segunda-feira, os olhares que nossos alunos receberam pelos colegas da escola hermana eram de permanente assombração, quase um fascínio. Já estavam ao tanto que um candidato da extrema direita estava pleiteando a presidência do vizinho gigante e admirado. Admiração oriunda de suas praias, de sua música e de seu futebol, mas também por uma trajetória política e econômica um tanto invejável, a julgar especialmente por sua estabilidade. Em comparação à Argentina, as crises brasileiras são verdadeiras marolinhas inevitáveis ao mundo globalizado.  Assemelham-se mais a corrosões lentas e persistentes, com alguns momentos de rearranjo, do que às explosões sociais e econômicas que caracterizam a história argentina. Isso, é claro, visto a distância e com certa idealização.

Ocorre que, de uns anos para cá, com uma presidente deposta e um ex-presidente preso, os argentinos também começaram a tecer opiniões e a encontrar um terreno fértil para tomar partido a respeito dos protagonistas da disputa política no vizinho gigante. O ápice disso foi a configuração da eleição presidencial atual. Por isso o espanto e o fascínio, quase uma inveja, de como seria possível o alcance de uma conjuntura tão dramaticamente polarizada.

Se a “Macrise” argentina deixava os peronistas confirmando a desgraça já prevista que recairia sobre o país sob o comando de Mauricio Macri, para os partidários do atual presidente tudo é resultado da governante anterior, a quem se referem com apelidos depreciativos e machistas. O Brasil, porém, conseguiu superar com um golaço de fora da área essa disputa sobre a qual os argentinos certamente viam assegurada sua hegemonia desde o advento do peronismo, nos anos 50, e acirrada por intermitentes ditaduras que tentaram anulá-la, mediante métodos repressivos de dar inveja aos nazistas.

Nossos alunos, então, na segunda-feira, 8 de outubro de 2018, eram uma pérola circulando pelo Colegio de la Ciudad. E nada melhor do que convidá-los para uma roda de conversa durante a tarde, para que explicassem aos argentinos com quais jogadores, técnico e estratégia estavam conseguindo tamanha goleada.

Foi necessária uma lousa para que os representantes vilanos explicassem, com a devida parcimônia e atenção didática, como se compunha a situação em campo. A lousa, é claro, foi dividida em dois, a fim de esclarecer as características de cada protagonista. Em cada setor, um breve histórico do candidato, seus vínculos, sua história. O relato tinha sido ensaiado algumas horas antes. Afinal, é preciso municiar-se de informações mais precisas. Quando se está dentro de uma situação, toma-se como pressuposto uma série de saberes que, muitas vezes, são apenas percepções subentendidas, e antes de transmiti-las é preciso checá-las. Essa é a grande riqueza de formular um relato. Mais ainda em terra estrangeira. E mais ainda se seu público já é bem informado, como era o caso.

Intuitivamente, nossos alunos trouxeram à tona algumas bases teóricas que fazem parte de seu repertório escolar. Os quatro princípios da construção de um mito salvador, personificadas em um líder, formulados por Lená Medeiros em seu ensaio “A sacralização do profano[1]“, são exemplo disso.

A discussão se desenvolveu bem, com o idioma de cada um dos nossos sendo posto à prova, na mesma medida que sua capacidade de análise. Descrever e analisar são duas propostas diferentes, que podem se diferenciar, mas nunca se descolar cirurgicamente uma da outra. É um baita exercício. Como esse jogo pode se dar para todos nós? E para adolescentes? E para as crianças?

Muitos depoimentos poderiam surgir aqui, assim como muitas análises. E poucas respostas. O que sabemos é que a atual conjuntura é marcante. Lembro-me, quando criança, de um clima tenso e escuro, na Argentina dos anos 70. Adultos sisudos, o ar denso, palavras proibidas, uma população visivelmente aterrorizada. Em espaço público, não se falava. Era tenso, portanto, andar com crianças. Em um trem lotado, certa vez, meu irmão, um permanente tagarela, perguntou em altíssimo volume: “Mamá, Videla es bueno??”. Responder que sim ou que não era ganhar inimigos imediatos. Minha mãe enfiou um alfajor na boca do pirralho e saímos do trem na primeira estação que apareceu. Não havia outras respostas possíveis.

O que podemos oferecer nos dias de hoje? A situação torna-se difícil, pois as bases políticas expostas consideram pontos que, para muitos de nós, são intocáveis. Seja pelo que já foi visto em governos anteriores, seja pelo que os partidos que buscam estrear no poder executivo propõem. Como combater o que cada um entende como essencial ao país? Seria avançando sobre tudo aquilo que possa ameaçá-los, ou mostrando resistência? Propor a discussão ou fechar trincheiras? Se essas possibilidades já geram muita controvérsia entre os adultos, é preciso mostrar algum caminho para crianças, adolescentes, jovens. Não esperamos estar todos alinhados dentro disso. Pode-se estar do mesmo lado político, inclusive, mas discordar profundamente entre famílias, escolas, educadores, sobre que postura adotar e como orientar.

Em todo caso, é preciso criar espaços para pensar. Ler, discutir – e muito. O âmbito comum permite a elaboração. Assumir uma posição e ficar sozinho com ela, na atual conjuntura, seria o pior dos mundos. Sendo assim, se é possível conversar sobre isso na mesa do jantar, nas assembleias em sala de aula, no recreio, no parque, onde for, tanto melhor.

O maniqueísmo é uma ferramenta útil que brota com facilidade em momentos de crise, e crianças e adolescentes têm forte tendência a dividir o mundo em dois, ou em poucos aspectos. Em época de eleição, todo candidato assume que o melhor lado é o dele, e promove essa ideia. Sendo assim: quando os agentes políticos configuram uma situação de maniqueísmo antagônico, como oferecer a crianças e adolescentes uma compreensão do mundo que se dê pela via do pensamento, da ponderação, da análise? Não queremos parar na próxima estação com um chocolate na boca. Sugestões são bem-vindas.


[1] Publicado em “História e Religião”. Lana Lage de Gama Lima et al. Rio de Janeiro, FAPERJ: Mauad. 2002.

Precisamos falar sobre isso

Uma pequena reflexão sobre um difícil tema

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Como nos posicionar diante de tragédias públicas envolvendo jovens?

Esse foi o convite que recebemos das mais variadas formas e dos mais variados sujeitos: alunos do Ensino Médio adentrando a sala da coordenação pedagógica e da orientação educacional com interesse legítimo de conversar, pais preocupados ligando e enviando e-mail, professores em todos os espaços da Escola discutindo o contexto social e escolar, amigos e conhecidos em restaurante e supermercado querendo obter informações que explicassem a relação entre jovens e suicídio.

Por infeliz coincidência, já dada a seriedade e gravidade das notícias, eu estava lendo um livro cujo título antecipa o peso do enredo: “O pai da menina morta”. O autor, Tiago Ferro, inicia a escrita do livro logo após sua filha ter morrido, e com uma linguagem arrojada e uma forma textual pouco convencional nos faz conhecer a dor dilacerante de perder uma filha. Sua escrita é visceral. Quase podemos sentir a dor aguda em nossas vísceras. Quase vemos as lágrimas e o sangue escorrendo pelas páginas.

“Você deixou sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!” Assim, escreve Ferro em um dos questionamentos do protagonista da história. A culpa pela morte da filha está presente no decorrer do texto, mas mais do que isso há a tentativa inócua de compreender a logicidade do fato. A morte não tem lógica. Menos ainda a morte de uma filha. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada por um vírus. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada pelo vírus da gripe. Não há lógica.

O suicídio sofre do mesmo mal, sua ilogicidade. Há uma dificuldade extrema de ser compreendido, ainda mais quando se trata de jovens. Mais ainda quando se trata de jovens de classe social alta. Mais ainda quando se trata de jovens com boas famílias, boas viagens, boas escolas, bons amigos. Podemos inferir que eram jovens com boas vidas. Mas, uma boa vida não pressupõe uma vida sem agruras, tristezas, amargor, dissabor, angústia, vicissitudes, fragilidades, desequilíbrios. Se há algo democrático, como sinônimo de igualitário, nesta vida, é o sofrimento psíquico. Esse não diferencia os humanos em classe social, etnia ou credo, é universal, podendo atingir qualquer um, basta ser humano e estar vivo.

No livro, o protagonista faz listas infindáveis durante toda a narrativa tentando colocar ordem no caos. Lista de medos. Lista de títulos. Lista do que fazer. Lista do que não fazer. Lista de tratamentos. Lista de dúvidas bobas. Além disso, o protagonista busca o significado das palavras, também com a intenção de domar o caos. Significado da palavra céu. Significado da palavra cérebro. Significado da palavra miocardite. Significado da palavra clube. Mas não há lista e significado que deem conta da morte.

Como responder às demandas de posicionamento diante das tragédias?

Não há prescrição. Não há manual. Não há bula. Mas há sujeitos impactados, comovidos, sensíveis. Sujeitos capazes de analisar contextos complexos e não reduzir a dor à pressão escolar, nem à separação de pais, nem à decepção amorosa ou briga entre amigos. Sujeitos capazes de escutar. Sujeitos que sabem a importância da palavra.

Tiago Ferro buscou ajuda com Drummond, Gilberto Gil e Eric Clapton. Ele procurou seus pares que também perderam filhos. Na Escola nossa tentativa é que alunos, pais e professores sintam que têm pares, que as vozes apareçam em nossa comunidade.

Escola da Vila

No dia 5 de maio, na Folha de São Paulo, a personagem da cartunista Fabiane Langona ilustra a tentativa de fingir a felicidade, inclusive utilizando álcool. Fingir para quem? Quanto tempo de fingimento? É preciso sempre mostrar que está feliz, as redes sociais que o digam, o que é muito penoso. Sem dúvida esse pode ser um investimento muito perigoso. Talvez seja essa uma das grandes infelicidades: a necessidade de se mostrar feliz o tempo todo.

Tentar aplacar a dor com fingimentos e álcool pode ser muito danoso. A tristeza precisa aparecer na escola, no clube, nas casas, ainda mais entre os jovens que estão em processo de construção identitária. Mas não é de hoje que a tristeza e a depressão devem ser escondidas, já foi até considerado pecado grave, afinal isso demonstrava subestimação ao poder Divino que possibilitou a vida, inclusive em cemitérios judaicos era costume colocar os suicidas nas margens do cemitério por terem desprezado a vida, não mereciam a centralidade.

Escola da Vila

No mesmo dia, também no jornal Folha de São Paulo, o cartunista Caco Galhardo ilustrou o desabafo de Lili com a sua sensação de “afundamento”, e seu par parece não levá-la muito a sério, afirmando ser uma simples impressão, imaginação, um equívoco.

Tiago Ferro sabia que o que sentia não era “impressão”, talvez tenha escrito o livro como forma de ajustar a vida depois da ausência da filha, de conviver com a perda, de encontrar um novo sentido para vida. Ele precisou escrever. Nós precisamos falar sobre dor, precisamos falar sobre morte. Precisamos levar essas dores a sério. Uma gripe pode levar à miocardite. Uma tristeza à depressão. O álcool à impulsividade. A ideia não é alardear, apavorar, pelo contrário, é cuidar de nossa saúde psíquica em uma sociedade adoecida.

Ensinar à distância ou aprender na convivência?

Escola da Vila - Aprender na convivência

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Por Fermín Damirdjian, orientação educacional do ensino médio

Eu e minha irmã temos um pacto de sangue. Se prometemos algo uma à outra, essa promessa tem peso absoluto e jamais pode ser quebrada. E eu a fiz esconder de mim o meu celular e me prometer não contar, durante um mês, o seu paradeiro.” “Ah, é? E por quê?” “Porque ele estava me fazendo mal. Desde pequena fico com aquilo na mão, vendo o que vão dizer sobre o que eu disse em muitos grupos, e eu respondo ao que disseram sobre mim, e não termina nunca esse diz-que-diz. E não converso com meus pais, e quero terminar logo o jantar porque estou pensando em tudo o que estão falando no WhatsApp enquanto fico com eles na mesa. Eu sinto que, quando estou com as pessoas, estou perdendo tempo, porque o que acontece de verdade acontece no WhatsApp. E me dei conta de que, se eu penso isso, eu devo estar completamente maluca. E quando me dou conta de que estou maluca, fico mais aflita ainda e mais ansiosa por estar me sentindo maluca. Então achei que o único jeito era tentar aprender a ficar com as pessoas. Estar com elas de verdade, e não esperando que o encontro termine logo.” “E como tem sido esses dias? “Tem sido ótimos. Aprendi a conversar e dar risada com os outros. Claro que acontecem coisas chatas também, mas é uma de cada vez e não tudo ao mesmo tempo. E a gente está vendo a outra pessoa, não está tentando entender se o que ela disse foi uma piada, uma ironia ou uma agressão. É mais… real.”

As linhas acima são a transcrição de um trecho de um depoimento dado na sala da orientação do Ensino Médio, por uma aluna do 1o ano. Trata-se de apenas um trecho. Foi um depoimento um tanto longo, feito em ritmo bastante acelerado. Cada palavra brotava sem filtro, de forma crua, seca e rápida, a fala entregue a um fluxo frenético de estímulos internos e externos de tudo o que se vive aos 14 anos de idade.

Ela relata, em meio ao caos, uma decisão: pedir o auxílio fraterno para livrá-la do cálice digital que ardia em seus dedos, dia e noite, para conseguir algo elementar à existência humana, desde tempos imemoriais: estar com os outros. Algo que, por momentos, parece estar em risco de extinção nos dias de hoje. A fascinante e meteórica evolução tecnológica nos oferece vagões de metrô lotados, em que todos estão com a cara enfiada no celular. Ou mesmo as rodas de amigos – adolescentes ou não -, na mesma posição, seja nos jardins de uma escola, seja em um restaurante. Ainda assim, pensar na extinção do encontro físico soa um tanto exagerado. Mas não é um equívoco pensar que os encontros entre as pessoas, seja de caráter amistoso, amoroso, esportivo, instrutivo ou profissional, podem estar perdendo certa qualidade.

Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar, como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois com as contribuições do outro uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca a as palavras e limita o desempenho em campo.

Saltando agora para um cenário diverso em tempo e espaço, mas ainda dentro dos muros da escola. Ao longo dos meses, a ânsia por extravasar o furor represado em sala de aula tem levado a uma prática um tanto perigosa: os jogos de futebol no recreio têm ocorrido sem limites de participantes. Em vez de se formarem vários times e quem toma gol sai, formam-se apenas dois, cada um com oito, dez, quinze, dezoito jogadores. Da extinção dessa regra elementar, foi apenas um passo para extinguir as faltas, elemento básico para o andamento razoável de qualquer esporte coletivo. Coisas do contato físico. Por fim, aconteceu o que seria previsto: deu briga. Jogos suspendidos por três dias, a quadra deixou de ser uma arena para se tornar uma ágora. Sentada no chão, a multidão de interessados em retomar os jogos debate sobre forma e modos de reativar as disputas. Quais regras retomar? Como se explica o crescimento da tensão? O que aconteceu exatamente? Precisaremos de um árbitro? Um contrato escrito?

Ambas as situações são típicas e frequentes em qualquer escola que compreenda a aprendizagem não como um processo meramente reprodutivo, no qual uma autoridade dite as explicações para que os alunos as reproduzam. A proposta que subjaz nessas cenas é que a regulação coletiva, se bem tem autoridades mediadoras, é essencial para a mobilização intelectual. Isso vale para erigir conceitos matemáticos, políticos, científicos, como se queira chamá-los. Um pesquisador bielo-russo chamado Vygotsky chamou essas habilidades humanas que se desenvolvem em uma complexa trama de elementos sociais e históricos de conceitos superiores. Dentre as diversas e complexas funções da escola, encontra-se a de promover espaços de elaborações coletivas, as quais favorecem o desenvolvimento dos conceitos superiores.

Olhando agora sob uma ótica mais abrangente, encontramo-nos diante de uma situação social – e, por que não, histórica – de transformações políticas de grandes dimensões, nos últimos anos. Dentre elas, destacamos que em 2017 aprovou-se uma reforma do Ensino Médio que é no mínimo controversa. Alguns aspectos podem ser interessantes, outros podem estar a serviço de motivações que ainda precisam ser mais esclarecidas. Olharemos para apenas uma delas, ainda mais recente: no dia 20 de março a imprensa noticiou que o Governo Federal propõe liberar 40% da carga horária do Ensino Médio a ser realizada a distância.

Não vamos realizar aqui análises sobre o uso didático da tecnologia. Ela tem as suas potencialidades, e não são poucas. Mas a permissão de suprimir quase a metade da convivência física dos alunos que se encontram em idade de constituir a sua subjetividade, por cursos a distância, é uma jogada que pode estar a serviço de muitas coisas, menos à de uma formação consistente de indivíduos, seja como estudantes ou como cidadãos. É uma proposta que abre uma flexibilidade de produtos supostamente educacionais que oferecem situações de interação extremamente limitadas. Se bem pode-se pensar em fóruns de discussões ou trabalhos colaborativos, eles serão uma peça de ficção se essas experiências não estiverem asseguradas em um dia a dia de encontros físicos, profícuos em tensões lexicais, conceituais, lógicas, esportivas – vivenciais, enfim.

Se a escola, em nossa Era Moderna, é uma instituição que nasceu com o intuito de formar cidadãos, não se pode encarar a transmissão de conhecimentos e de valores culturais como um manual de instruções online. A constituição da subjetividade não é um manual a ser baixado na rede. Nem mesmo em 40% – fração que pode se tornar muito mais do que isso, se considerarmos a agressiva evolução tecnológica que arde nas mãos de todos nós e tem potencial para moldar as instituições de todo tipo. Uma coisa seria pensar em um curso técnico ou uma especialização para adultos, outro é o de educar adolescentes que precisam, como dizia a depoente inicial deste relato, crescer e aprender algo tão elementar como “estar com os outros”. É a partir dessa convivência intensa que se dá o desenvolvimento pessoal, com toda a sua complexidade cognitiva e moral.

Estudar, motivar, mobilizar

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

Li, há quinze anos, em uma época em que o jornal ainda reservava certa sacralidade em seu formato de celulose matinal, um artigo que me marcou. O psicanalista Contardo Caligaris discorria sobre as diferenças entre um ensino divertido e um ensino interessante. Desde então, nesse longo intervalo de tempo ocupei-me diariamente de um percurso escolar rico e intenso entre a orientação educacional do Ensino Fundamental 2 e o Médio na Escola da Vila. As cenas cotidianas, somadas a alguns elementos conceituais, continuaram a alimentar leituras antigas, tais como esse velho artigo.

Uma das cenas que me faz lembrar esse tema é a constante pergunta que surge em reuniões de pais sobre como motivar os filhos para que leiam e estudem. Sempre há, nessa pergunta, dois sentidos implícitos que se alternam de reunião em reunião: ora ela carrega um ressentimento em relação a “essa geração”, pois “na minha época a gente estudava, pegava no batente”, ora o ressentimento se volta à instituição: “a escola precisa se renovar e encontrar formas mais motivantes”.

Comecemos pelo primeiro sentido descrito: comparações entre as gerações são inevitáveis, pois utilizamos nosso próprio repertório para entender o mundo à nossa volta. Por outro lado, não podemos nos ater à nossa experiência para nos cobrirmos de certezas, inclusive porque nossa memória nos trai: que levantamento estatístico temos para dizer que “antigamente” se estudava mais? Não será que muitos dos que não estudavam espirravam mais rápido do sistema escolar? Será que estávamos atentos a tudo aquilo que não funcionava bem, do alto dos nossos 15 ou 16 anos? E, muito além disso: será que não lembramos com saudade e nostalgia de uma época que, vista com tanta distância e estando já mais maduros, com uma vida minimamente construída, nossa memória faz uma leitura mais polida sobre o passado, o que resulta em uma espécie de romance autobiográfico com o qual nos deleitamos? Afinal, depois de passado tanto sufoco, temos direito a nos sentirmos heroicos depois de um sem-número de trapalhadas acadêmicas, amorosas, profissionais e familiares cometidas ao longo desta longa estrada da vida. Depois que tanta coisa deu errado, podemos nos enganar um tiquinho pensando que tudo deu certo. Algumas doses de otimismo retroativo podem ser necessárias para seguir avançando.

Já com relação ao segundo sentido da queixa, eu pretendo me estender um pouco mais: a escola tem que se reinventar e entreter mais os seus alunos. Tem que conquistar mais essa moçada inquieta, muito bem informada, esperta, que sabe apertar botões – ops, botões existiam até o fim dos ’90, agora são telinhas – enfim, mexe com tecnologia com a mesma desenvoltura com que Louis Armstrong dedilhava seu trompete. Incrível, esse pessoal “já nasce sabendo”!

Ora, é verdade que a geração atual de crianças e adolescentes está diante de uma avalanche de estímulos que são diferentes de outrora. Isso traz muitos efeitos, e interpretá-los é uma tarefa árdua. Qualquer um que apareça com duas ou três frases definitivas sobre isso, sejam elas saudosistas ou não, está incorrendo na gigantesca tentação de entender o mundo de forma simples e apressada.

No caso do cotidiano escolar, entendemos que sim, é preciso se renovar. Mas não significa que educadores e demais cidadãos inquietos com o tema se deram conta disso agora. Há abundância de propostas transformadoras nos últimos 30 ou 40 anos – não por coincidência, em período posterior a longos ciclos de ditaduras militares na América Latina e em muitos países europeus. Basta ver a vasta quantidade de educadores de referência que proliferaram na Argentina, Brasil, Espanha ou Portugal, para ficar nos exemplos mais próximos e evidentes. A transformação de uma instituição que é, apesar de todos os seus pesares, a mais respeitada pela população, perdendo apenas para a família, como atestam algumas pesquisas, esbarra em questões políticas, mercadológicas e culturais que não são simples de superar.

Ao mesmo tempo há fundamentos elementares que, embora tenham inaugurado as primeiras décadas do século XX com a consolidação da escola como um direito fundamental, estão longe de envelhecer, pela profundidade e consistência pelas quais interpretam o ato de aprender. Muitas delas, tão díspares e amplas como a psicanálise ou os fundamentos vygotskianos, apontam para um ponto que nos interessa na discussão entre o que é divertido e o que pode ser interessante. Vejamos como.

Um dos muitos paradoxos do ato de ensinar é que o professor deve contar com a atividade intelectual do aluno. A ideia de transmitir conteúdo com a mesma mecanicidade com a qual se rega uma planta não pode ser mais considerada depois de todo o acúmulo teórico da psicologia, psicanálise, pedagogia e neurologia. Não existe aprendizagem sem atividade intelectual. O que um professor faz é oferecer as melhores condições possíveis para que o aluno abocanhe o conhecimento que lhe é exposto. E não se trata de um simples desfile de exposições acadêmicas: os professores se desdobram para não apenas “explicar direito”, mas também para gerar no aluno a percepção de certa carência de modo a, diante de seu repertório prévio e de suas lacunas, apropriar-se do momento e do modo adequados para incorporar o que lhe é proposto. Mais ou menos como um urso que, ao longo de suas quatro ou cinco décadas de vida, aprende a se posicionar no lugar certo do rio a cada temporada em que os salmões resolvem subir até a nascente onde nasceram, e assim abocanhar seu almoço. O professor dá elementos e condições para que o aluno aprenda a se posicionar cada vez melhor e desenvolva sua competência para se nutrir daquilo que lhe é proposto, por meio das mais diversas estratégias didáticas.

Pois bem, isso é impossível sem que o aluno se mexa. Ora, então, como é que a escola pode motivar meu filho a aprender? O erro está em pensar que um aluno deve se mover pela motivação. A motivação pode até existir, mas não é a peça-chave. Essa chave reside muito mais na mobilização. O que se procura é que se desenvolva um movimento intelectual capaz de dialogar com o desejo individual do aluno. É nesse diálogo um tanto obscuro que transita a construção do conhecimento e do saber. Como explicar o papel da motivação de tantos alunos que, sim, tiveram ótimos desempenhos escolares em instituições tão austeras e tradicionais de outros tempos? A escola tradicional era um lugar divertido? Não necessariamente. Algo ali mobilizava alguns desses alunos. Resta saber o que ocorria com aqueles que não entravam no jogo, mas isso é outra história.

A motivação nos remete a algo mais próximo da razão: segundo o dicionário Aurélio, motivar é dar motivos, fundamentar. Ora, é claro que devemos dar os motivos de frequentar a escola e expor as razões pelas quais um aluno deve estudar. Mas garanto que isso é apenas um ingrediente, longe de ser determinante, dentre aqueles que podem fazer alguém de fato estudar. O que de fato se busca é mobilizar o aluno.

Entreter, divertir, isso pode ajudar um pouco, especialmente no ensino infantil, pois é uma linguagem mais palatável para se apresentar um determinado patrimônio cultural – a língua, a música, as habilidades matemáticas, o que for. No entanto, com o avanço da idade, os alunos estão mais aptos a se apropriar de um repertório mais complexo, sem necessariamente se divertir para tanto. Um aluno pode ser motivado a entrar em sala de aula pontualmente se lhe forem oferecidos, por exemplo, chocolates. Mas isso não servirá para mobilizar seus recursos pessoais mais profundos de modo a que aprenda mais.

Voltando ao revisionismo autobiográfico entre as gerações, será que antigamente – sabe-se lá a qual antigamente cada um se refere – os alunos não precisavam se divertir tanto para se mobilizarem intelectualmente?

Será que os adolescentes, hoje, têm acesso a tão vasta gama de entretenimentos cotidianos que perderam a capacidade de se mobilizar sem que haja uma ferramenta de diversão como mediação? É difícil responder, inclusive porque isso é uma generalização perigosa que desconsidera brilhantes criações que vemos no dia a dia escolar, feitas com imaginação, esmero e muito interesse. Mas, sim, notamos que há um imediatismo crescente e preocupante, que avança sobre alimentos açucarados, drogas e demais estímulos fragmentados de retorno curto e imediato.

Tudo isso não impede que nos preocupemos com muito do que vemos nas crianças e adolescentes de hoje. Mas não devemos esperar que a construção de conhecimento seja apenas motivadora, somente pela grande oferta de diversão que parece ter se tornado um imperativo no mundo contemporâneo. Inclusive porque há fortes indícios de que essa abundância está gerando uma perigosa falta de desejo. E sem ele não há mobilização.

Para saber mais:

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber, formação de professores e globalização, Capítulos 4 e 5. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CALLIGARIS, Contardo. Vida divertida ou vida interessante? Folha de São Paulo, dez/2002.

LA TAILLE, Yves de.; HARKOT-DE-LA-TAILLE, Elizabeth. Valores dos jovens de São Paulo. São Paulo: Instituto SM para a Equidade e a Qualidade Educativa, 2005.

Tarefa complexa ou complicada?

Por Divino Marroquini, professor de Química do Ensino Médio
e Daniel Mauro Justi, professor de Biologia do Ensino Médio

 

A educação para a alimentação é um tema, entre outros, que família e escola compartilham durante o crescimento das crianças e adolescentes. Temos hoje uma grande quantidade de informação, pela internet, TV e revistas, a respeito do que se deve ou não comer, de vários tipos de dietas para emagrecer, ganhar massa muscular ou de dietas restritivas quanto às fontes alimentares, tais como o ovolactovegetarianismo e o veganismo. De um ponto de vista curricular, vemos a importância de possibilitar aos alunos uma reflexão sobre tais informações perante o conhecimento científico, o que ocorre nos vários segmentos da escolaridade com diferentes abordagens e níveis de complexidade, porém sempre incluindo um olhar do aluno sobre seus próprios hábitos alimentares.

No curso de Biologia do 2º ano do Ensino Médio, os alunos realizam uma tarefa complexa sobre a temática “Nutrição”, cujo objetivo é promover a discussão acerca dos nutrientes e de seus valores calóricos, além de uma comparação entre as calorias ingeridas e aquelas que são gastas nas atividades físicas. Primeiramente, cada aluno é convidado a realizar o seu recordatório alimentar, o registro de todos os alimentos que consome durante três dias. Além disso, registram as atividades físicas praticadas nesses dias. Em seguida, utilizando as informações dos rótulos dos produtos industrializados consumidos e de tabelas confiáveis, como a Tabela de Composição Alimentar (TACO), publicada pela Unicamp, os estudantes contabilizam as quantidades de calorias, proteínas, carboidratos e lipídios ingeridas. Também determinam a energia despendida durante as atividades físicas de uma semana.

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Mas como se determinam as calorias que existem em um alimento, tal como aparecem na tabela TACO?

Para responder a essa pergunta, os alunos realizaram no laboratório um experimento com castanhas-do-pará e nachos industrializados. Um recipiente com água, de volume conhecido, é posicionado sobre a castanha, que é levada à combustão, de forma que o calor liberado pela queima do alimento aqueça a água. Com um termômetro, fazem a medição da temperatura da água antes e depois da queima da castanha. Os dados permitem aos alunos que determinem quanta energia aqueceu a água, que corresponde à energia que aquela massa de castanha pode liberar ao ser digerida. Todo esse procedimento foi repetido para o nacho industrializado.

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É interessante notar que os conceitos de Física, envolvidos nos cálculos realizados, foram desenvolvidos no curso de Ciências Naturais do 9º ano do Ensino Fundamental II, quando os estudantes realizaram um experimento com o objetivo de estabelecer a relação matemática entre a quantidade de calor recebida por um corpo e sua massa, sua variação de temperatura e a natureza do material. A sequência possibilitou que os próprios alunos propusessem o modelo matemático envolvido no fenômeno, em vez de receber uma fórmula pronta, o que é muito importante para a compreensão profunda das inter-relações das grandezas físicas. Ao relembrarem a fórmula que deduziram há dois anos, eles estão aptos a medir a quantidade de calorias que estava presente no alimento. Percebemos, nessa retomada, uma atividade de grande valor pedagógico, visto que os estudantes reutilizam aquela expressão, mas dando-lhe novo significado pela contextualização em um tema do cotidiano.
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Com os dados em mãos, os alunos determinam as calorias por unidade de massa do alimento e comparam qual dos dois, castanha ou nacho, fornece mais calorias e, assim, podem investigar sua composição para entender o motivo dessa diferença. A atividade realizada é também um momento importante para disparar a discussão dos limites e contornos que o experimento apresenta, sendo fundamental para a compreensão das incertezas nesses resultados.

Para a comunicação desse experimento, os alunos produzem um relato de experiência sobre todas as etapas da tarefa complexa, desde como fizeram o recordatório alimentar, passam pelo experimento e chegam à discussão dos hábitos alimentares que permeou as várias etapas da tarefa.

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Podemos ver, enfim, as possibilidades de aprendizagem que uma tarefa como essa propicia. Refletir sobre um tema de grande importância para a vida, desenvolver competências de leitura, escrita, manipulação de aparelhos, tomada e análise de dados, avaliação de resultados, e retomar para ressignificar conhecimentos adquiridos no cotidiano e nas séries anteriores. Por isso, a chamamos de tarefa complexa… Não porque pretende ser complicada, e, sim, porque conjuga objetivos de aprendizagem diversos perante temas que são multifacetados, pela sua própria realidade.

Um pouquinho da SAD em filme

Por Susane Lancman

A expressão popular “uma imagem vale mais do que mil palavras” pode ser comprovada no filme que foi feito na primeira SAD de 2017 pelo Daniel Mattos, cinegrafista oficial da Escola da Vila.

De qualquer forma, vou tentar explicar com palavras um pouquinho da SAD e dessa em especial.

A tradicional Semana de Atividades Diversificadas (SAD) se constituiu num espaço muito rico e potente do ponto de vista pedagógico, uma vez que nos permitiu reorganizar o tempo e o espaço escolar para atividades que talvez não tivessem condições de serem realizadas no dia a dia normal da escola. Por exemplo, é na SAD que podemos programar saídas a campo, assistir e debater filmes sem sermos interrompidos em função do horário das aulas, criar atividades interséries com focos em interesses variados.

As atividades são preparadas com antecedência e discutidas por todo o corpo docente, sempre procurando que elas tenham caráter formativo e/ou estejam relacionadas com o currículo. Assim, cada uma das atividades das aulas regulares ou da SAD são planejadas, executadas e avaliadas tendo como parâmetro os objetivos mais amplos da educação e os específicos das disciplinas.

Nos últimos tempos, muitos alunos pediram à coordenação espaço na organização das atividades da SAD. Tal reivindicação foi acolhida com muito entusiasmo, uma vez que é um indicador do que entendemos como autonomia dos estudantes e porque aparecem atividades que atendem às demandas que os afligem não apenas como estudantes, mas como sujeitos de direitos e cidadãos. As atividades propostas pelos estudantes – organizados ou não no grêmio – passaram, então, a fazer parte da SAD e também fora dela. Como exemplos dessas organizações, podemos citar o Coletivo Feminista, o Cineclube, assim também como o Grêmio Estudantil. Todos esses agrupamentos dos estudantes são estimulados e acolhidos dentro da escola, desde que não extrapolem os acordos estabelecidos entre a instituição e os alunos.

É fácil entender que os alunos de alguma forma queiram discutir assuntos que estão permeando o cenário político brasileiro, como a greve geral. Além de trazerem seus interesses extraescolares com atividades relacionadas a música, arte, dança, literatura, ciências…

Na primeira SAD deste ano, em que a filmagem possibilita vivenciar um pouquinho do que de fato aconteceu, uma das atividades foi a Banda da SAD conduzida por três alunos do 3º ano, Cao L. Bergo, Luis Felipe F. Grupioni e João Pedro V. B. Jabour. O desafio era tocar diferentes instrumentos de percussão, cordas, sopro e teclado com alunos de diferentes classes com diferentes competências musicais. Outra atividade foi conduzida por uma aluna do 3º ano, Luara Macari Nogueira, que deu uma aula de dança tendo como foco refletir “O corpo afro-brasileiro na expressão mitológica de Oyá”. Já o aluno Antonio Pedro Ayd Zellmeister tinha como objetivo compartilhar seu conhecimento sobre arte Bauhaus e o trabalho do artista Hélio Oiticica e a partir dessas referências desenvolver uma intervenção no espaço escolar. O grupo dos alunos do Grêmio proporcionou uma explanação sobre as greves no Brasil e explicaram as reivindicações da greve geral de abril deste ano. Já o Coletivo Feminista organizou uma discussão sobre a cultura do estupro. Essas foram as atividades coordenadas pelos alunos, planejadas com muito comprometimento e conduzidas com muita seriedade. Houve também atividades conduzidas pelos professores relacionadas com os conteúdos da sala de aula, como as de oceanografia para os 2ºs anos, saídas e discussões  sobre moradia na cidade de São Paulo para os 1ºs anos, filmes e saídas relacionados às disciplinas de História e Geografia para os 3ºs anos. Outro rol de atividades foi conduzido por convidados, como os professores de universidades públicas, e por ex-alunos que conversaram com alunos dos 2os e 3ºs anos sobre a escolha da carreira acadêmica.

A segunda SAD acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de junho, tendo como tema central o preconceito racial, assunto que é muitas vezes velado em nossa sociedade brasileira, em que prevalece um discurso que vivemos em uma democracia racial. Mais uma vez o tema foi trazido por um grupo de alunos pertencentes ao Coletivo Preto, movimento criado recentemente, que visa discutir questões raciais. Acolhemos a ideia com muito entusiasmo por acreditarmos na relevância do tema. Vale dizer que a escolha do tema central da SAD não exclui a possibilidade de haver outras atividades que não se relacionam diretamente com a temática. Afinal, nossa intenção é que a diversidade de protagonistas, as atividades, os espaços e tempos contribuam na formação integral de nossos alunos.

Somos possíveis agentes de transformação… Lançamento da campanha VILACOLHE 2017

Por Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio

Durante os anos na Escola da Vila, em especial durante os três últimos, nós, Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio, passamos a olhar para o mundo de uma forma diferente. A partir das aulas de Política e Sociedade, do diálogo em casa e das atividades que são propostas na Escola, nós nos visualizamos como possíveis agentes de transformação, assim buscamos realizar uma ação real.

No ano de 2016, entre os muitos temas que nos impactaram, fomos tocadas pela situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Vimos que o frio intenso precariza ainda mais a situação dessas pessoas, que são, muitas vezes, deixadas de lado pela conjuntura social. Esse assunto acabou por nos mobilizar. Assim, em junho do mesmo ano, quando o frio atingia seu auge, iniciamos a Campanha do Agasalho com o objetivo de arrecadar roupas de inverno. Para tanto, pedimos auxílio da nossa coordenadora Susane e do orientador Chicão, que nos indicou um local para onde poderíamos levar os casacos e outras peças de roupa, enquanto as meias seriam enviadas para a Puket, que realizou uma movimentação em que essas peças seriam transformadas em cobertores.

Primeiramente passamos nas salas dos alunos do Ensino Médio avisando que estaríamos dando segmento a tal atividade. Na mesma semana, após conversarmos com a equipe do Fundamental 2, fomos às salas do Fundamental 2, onde fomos recebidas com grande entusiasmo por parte dos alunos. Assim, começamos a arrecadação de fato.

Efetuamos uma divulgação nas redes sociais para implicar mais pessoas e para que todas pudessem se sentir agentes de transformação.

Deixamos duas caixas na frente da famosa sala da Chacur, por onde todos os alunos passam, para que assim aumentasse a visibilidade do projeto.

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Logo notamos uma grande mobilização dos alunos, e vimos que ambas as caixas iam sendo enchidas progressivamente. Assim, no final de junho de 2016, ambas as caixas colocadas por nós estavam cheias graças a um projeto bastante colaborativo e bem recebido.

No início das férias escolares, enviamos as meias para a Puket e levamos os casacos para o grupo Filhos para Filhos. Nesse mesmo dia, auxiliamos na separação de roupas e na montagem de marmitas que seriam distribuídas para moradores de rua da região. Assim, vivemos nossa segunda ação real de transformação.

A experiência foi tão gratificante que, no final das férias, voltamos a esse local para realizar algumas atividades com crianças carentes. Cada uma delas era especial, tinha um sorriso único, um olhar único, elas pareciam estar valorizando os momentos que passamos junto delas.

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Ficamos encantadas com essas crianças!

Aos poucos fomos chamando para participar do projeto outras amigas muito queridas, como Beatriz Conishi, Nina Quintanilha e Manuela Moura, alunas secundaristas que também se envolveram com o projeto.

Voltamos outras vezes, como, por exemplo, no Dia das Crianças, em que foi realizado um evento no Parque da Chácara do Jóquei próximo à Unidade Morumbi, e lá passamos o dia às voltas com brincadeira infantis. Mais uma vez ficamos encantadas pela atitude dos nossos pequenos e pequenas.

As experiências que tivemos tanto no trabalho feito com a arrecadação de casacos como com as crianças foram extremamente prazerosas, e apesar de terem sido pequenas ações sentimos a diferença em nós mesmas.

Pensando em tudo isso, quando o frio deu os primeiros sinais este ano, sentimos que estava na hora de realizar novamente a Campanha do Agasalho. Desta vez, mais organizadas, criamos a CAMPANHA VILACOLHE. Temos como meta mínima este ano arrecadar aproximadamente 120 casacos e 70 meias. As caixas estarão nas três unidades e todos os alunos podem participar com doações.

Acreditamos na importância de ações voluntárias como forma de melhorar nossa sociedade, possibilitando, inclusive, unir nossa comunidade escolar. A mudança pode ser pequena diante da dimensão de tantos problemas que precisam mudar fora da Escola, mas, como agentes transformadores, precisamos fazer alguma diferença, mesmo que pequena.

Gostaríamos de agradecer a nossos professores, orientadores e colegas por terem recebido tão bem a nossa proposta, tanto no ano de 2016 como neste ano. Contamos com a colaboração de todos!

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