Estudar, motivar, mobilizar

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

Li, há quinze anos, em uma época em que o jornal ainda reservava certa sacralidade em seu formato de celulose matinal, um artigo que me marcou. O psicanalista Contardo Caligaris discorria sobre as diferenças entre um ensino divertido e um ensino interessante. Desde então, nesse longo intervalo de tempo ocupei-me diariamente de um percurso escolar rico e intenso entre a orientação educacional do Ensino Fundamental 2 e o Médio na Escola da Vila. As cenas cotidianas, somadas a alguns elementos conceituais, continuaram a alimentar leituras antigas, tais como esse velho artigo.

Uma das cenas que me faz lembrar esse tema é a constante pergunta que surge em reuniões de pais sobre como motivar os filhos para que leiam e estudem. Sempre há, nessa pergunta, dois sentidos implícitos que se alternam de reunião em reunião: ora ela carrega um ressentimento em relação a “essa geração”, pois “na minha época a gente estudava, pegava no batente”, ora o ressentimento se volta à instituição: “a escola precisa se renovar e encontrar formas mais motivantes”.

Comecemos pelo primeiro sentido descrito: comparações entre as gerações são inevitáveis, pois utilizamos nosso próprio repertório para entender o mundo à nossa volta. Por outro lado, não podemos nos ater à nossa experiência para nos cobrirmos de certezas, inclusive porque nossa memória nos trai: que levantamento estatístico temos para dizer que “antigamente” se estudava mais? Não será que muitos dos que não estudavam espirravam mais rápido do sistema escolar? Será que estávamos atentos a tudo aquilo que não funcionava bem, do alto dos nossos 15 ou 16 anos? E, muito além disso: será que não lembramos com saudade e nostalgia de uma época que, vista com tanta distância e estando já mais maduros, com uma vida minimamente construída, nossa memória faz uma leitura mais polida sobre o passado, o que resulta em uma espécie de romance autobiográfico com o qual nos deleitamos? Afinal, depois de passado tanto sufoco, temos direito a nos sentirmos heroicos depois de um sem-número de trapalhadas acadêmicas, amorosas, profissionais e familiares cometidas ao longo desta longa estrada da vida. Depois que tanta coisa deu errado, podemos nos enganar um tiquinho pensando que tudo deu certo. Algumas doses de otimismo retroativo podem ser necessárias para seguir avançando.

Já com relação ao segundo sentido da queixa, eu pretendo me estender um pouco mais: a escola tem que se reinventar e entreter mais os seus alunos. Tem que conquistar mais essa moçada inquieta, muito bem informada, esperta, que sabe apertar botões – ops, botões existiam até o fim dos ’90, agora são telinhas – enfim, mexe com tecnologia com a mesma desenvoltura com que Louis Armstrong dedilhava seu trompete. Incrível, esse pessoal “já nasce sabendo”!

Ora, é verdade que a geração atual de crianças e adolescentes está diante de uma avalanche de estímulos que são diferentes de outrora. Isso traz muitos efeitos, e interpretá-los é uma tarefa árdua. Qualquer um que apareça com duas ou três frases definitivas sobre isso, sejam elas saudosistas ou não, está incorrendo na gigantesca tentação de entender o mundo de forma simples e apressada.

No caso do cotidiano escolar, entendemos que sim, é preciso se renovar. Mas não significa que educadores e demais cidadãos inquietos com o tema se deram conta disso agora. Há abundância de propostas transformadoras nos últimos 30 ou 40 anos – não por coincidência, em período posterior a longos ciclos de ditaduras militares na América Latina e em muitos países europeus. Basta ver a vasta quantidade de educadores de referência que proliferaram na Argentina, Brasil, Espanha ou Portugal, para ficar nos exemplos mais próximos e evidentes. A transformação de uma instituição que é, apesar de todos os seus pesares, a mais respeitada pela população, perdendo apenas para a família, como atestam algumas pesquisas, esbarra em questões políticas, mercadológicas e culturais que não são simples de superar.

Ao mesmo tempo há fundamentos elementares que, embora tenham inaugurado as primeiras décadas do século XX com a consolidação da escola como um direito fundamental, estão longe de envelhecer, pela profundidade e consistência pelas quais interpretam o ato de aprender. Muitas delas, tão díspares e amplas como a psicanálise ou os fundamentos vygotskianos, apontam para um ponto que nos interessa na discussão entre o que é divertido e o que pode ser interessante. Vejamos como.

Um dos muitos paradoxos do ato de ensinar é que o professor deve contar com a atividade intelectual do aluno. A ideia de transmitir conteúdo com a mesma mecanicidade com a qual se rega uma planta não pode ser mais considerada depois de todo o acúmulo teórico da psicologia, psicanálise, pedagogia e neurologia. Não existe aprendizagem sem atividade intelectual. O que um professor faz é oferecer as melhores condições possíveis para que o aluno abocanhe o conhecimento que lhe é exposto. E não se trata de um simples desfile de exposições acadêmicas: os professores se desdobram para não apenas “explicar direito”, mas também para gerar no aluno a percepção de certa carência de modo a, diante de seu repertório prévio e de suas lacunas, apropriar-se do momento e do modo adequados para incorporar o que lhe é proposto. Mais ou menos como um urso que, ao longo de suas quatro ou cinco décadas de vida, aprende a se posicionar no lugar certo do rio a cada temporada em que os salmões resolvem subir até a nascente onde nasceram, e assim abocanhar seu almoço. O professor dá elementos e condições para que o aluno aprenda a se posicionar cada vez melhor e desenvolva sua competência para se nutrir daquilo que lhe é proposto, por meio das mais diversas estratégias didáticas.

Pois bem, isso é impossível sem que o aluno se mexa. Ora, então, como é que a escola pode motivar meu filho a aprender? O erro está em pensar que um aluno deve se mover pela motivação. A motivação pode até existir, mas não é a peça-chave. Essa chave reside muito mais na mobilização. O que se procura é que se desenvolva um movimento intelectual capaz de dialogar com o desejo individual do aluno. É nesse diálogo um tanto obscuro que transita a construção do conhecimento e do saber. Como explicar o papel da motivação de tantos alunos que, sim, tiveram ótimos desempenhos escolares em instituições tão austeras e tradicionais de outros tempos? A escola tradicional era um lugar divertido? Não necessariamente. Algo ali mobilizava alguns desses alunos. Resta saber o que ocorria com aqueles que não entravam no jogo, mas isso é outra história.

A motivação nos remete a algo mais próximo da razão: segundo o dicionário Aurélio, motivar é dar motivos, fundamentar. Ora, é claro que devemos dar os motivos de frequentar a escola e expor as razões pelas quais um aluno deve estudar. Mas garanto que isso é apenas um ingrediente, longe de ser determinante, dentre aqueles que podem fazer alguém de fato estudar. O que de fato se busca é mobilizar o aluno.

Entreter, divertir, isso pode ajudar um pouco, especialmente no ensino infantil, pois é uma linguagem mais palatável para se apresentar um determinado patrimônio cultural – a língua, a música, as habilidades matemáticas, o que for. No entanto, com o avanço da idade, os alunos estão mais aptos a se apropriar de um repertório mais complexo, sem necessariamente se divertir para tanto. Um aluno pode ser motivado a entrar em sala de aula pontualmente se lhe forem oferecidos, por exemplo, chocolates. Mas isso não servirá para mobilizar seus recursos pessoais mais profundos de modo a que aprenda mais.

Voltando ao revisionismo autobiográfico entre as gerações, será que antigamente – sabe-se lá a qual antigamente cada um se refere – os alunos não precisavam se divertir tanto para se mobilizarem intelectualmente?

Será que os adolescentes, hoje, têm acesso a tão vasta gama de entretenimentos cotidianos que perderam a capacidade de se mobilizar sem que haja uma ferramenta de diversão como mediação? É difícil responder, inclusive porque isso é uma generalização perigosa que desconsidera brilhantes criações que vemos no dia a dia escolar, feitas com imaginação, esmero e muito interesse. Mas, sim, notamos que há um imediatismo crescente e preocupante, que avança sobre alimentos açucarados, drogas e demais estímulos fragmentados de retorno curto e imediato.

Tudo isso não impede que nos preocupemos com muito do que vemos nas crianças e adolescentes de hoje. Mas não devemos esperar que a construção de conhecimento seja apenas motivadora, somente pela grande oferta de diversão que parece ter se tornado um imperativo no mundo contemporâneo. Inclusive porque há fortes indícios de que essa abundância está gerando uma perigosa falta de desejo. E sem ele não há mobilização.

Para saber mais:

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber, formação de professores e globalização, Capítulos 4 e 5. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CALLIGARIS, Contardo. Vida divertida ou vida interessante? Folha de São Paulo, dez/2002.

LA TAILLE, Yves de.; HARKOT-DE-LA-TAILLE, Elizabeth. Valores dos jovens de São Paulo. São Paulo: Instituto SM para a Equidade e a Qualidade Educativa, 2005.

Tarefa complexa ou complicada?

Por Divino Marroquini, professor de Química do Ensino Médio
e Daniel Mauro Justi, professor de Biologia do Ensino Médio

 

A educação para a alimentação é um tema, entre outros, que família e escola compartilham durante o crescimento das crianças e adolescentes. Temos hoje uma grande quantidade de informação, pela internet, TV e revistas, a respeito do que se deve ou não comer, de vários tipos de dietas para emagrecer, ganhar massa muscular ou de dietas restritivas quanto às fontes alimentares, tais como o ovolactovegetarianismo e o veganismo. De um ponto de vista curricular, vemos a importância de possibilitar aos alunos uma reflexão sobre tais informações perante o conhecimento científico, o que ocorre nos vários segmentos da escolaridade com diferentes abordagens e níveis de complexidade, porém sempre incluindo um olhar do aluno sobre seus próprios hábitos alimentares.

No curso de Biologia do 2º ano do Ensino Médio, os alunos realizam uma tarefa complexa sobre a temática “Nutrição”, cujo objetivo é promover a discussão acerca dos nutrientes e de seus valores calóricos, além de uma comparação entre as calorias ingeridas e aquelas que são gastas nas atividades físicas. Primeiramente, cada aluno é convidado a realizar o seu recordatório alimentar, o registro de todos os alimentos que consome durante três dias. Além disso, registram as atividades físicas praticadas nesses dias. Em seguida, utilizando as informações dos rótulos dos produtos industrializados consumidos e de tabelas confiáveis, como a Tabela de Composição Alimentar (TACO), publicada pela Unicamp, os estudantes contabilizam as quantidades de calorias, proteínas, carboidratos e lipídios ingeridas. Também determinam a energia despendida durante as atividades físicas de uma semana.

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Mas como se determinam as calorias que existem em um alimento, tal como aparecem na tabela TACO?

Para responder a essa pergunta, os alunos realizaram no laboratório um experimento com castanhas-do-pará e nachos industrializados. Um recipiente com água, de volume conhecido, é posicionado sobre a castanha, que é levada à combustão, de forma que o calor liberado pela queima do alimento aqueça a água. Com um termômetro, fazem a medição da temperatura da água antes e depois da queima da castanha. Os dados permitem aos alunos que determinem quanta energia aqueceu a água, que corresponde à energia que aquela massa de castanha pode liberar ao ser digerida. Todo esse procedimento foi repetido para o nacho industrializado.

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É interessante notar que os conceitos de Física, envolvidos nos cálculos realizados, foram desenvolvidos no curso de Ciências Naturais do 9º ano do Ensino Fundamental II, quando os estudantes realizaram um experimento com o objetivo de estabelecer a relação matemática entre a quantidade de calor recebida por um corpo e sua massa, sua variação de temperatura e a natureza do material. A sequência possibilitou que os próprios alunos propusessem o modelo matemático envolvido no fenômeno, em vez de receber uma fórmula pronta, o que é muito importante para a compreensão profunda das inter-relações das grandezas físicas. Ao relembrarem a fórmula que deduziram há dois anos, eles estão aptos a medir a quantidade de calorias que estava presente no alimento. Percebemos, nessa retomada, uma atividade de grande valor pedagógico, visto que os estudantes reutilizam aquela expressão, mas dando-lhe novo significado pela contextualização em um tema do cotidiano.
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Com os dados em mãos, os alunos determinam as calorias por unidade de massa do alimento e comparam qual dos dois, castanha ou nacho, fornece mais calorias e, assim, podem investigar sua composição para entender o motivo dessa diferença. A atividade realizada é também um momento importante para disparar a discussão dos limites e contornos que o experimento apresenta, sendo fundamental para a compreensão das incertezas nesses resultados.

Para a comunicação desse experimento, os alunos produzem um relato de experiência sobre todas as etapas da tarefa complexa, desde como fizeram o recordatório alimentar, passam pelo experimento e chegam à discussão dos hábitos alimentares que permeou as várias etapas da tarefa.

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Podemos ver, enfim, as possibilidades de aprendizagem que uma tarefa como essa propicia. Refletir sobre um tema de grande importância para a vida, desenvolver competências de leitura, escrita, manipulação de aparelhos, tomada e análise de dados, avaliação de resultados, e retomar para ressignificar conhecimentos adquiridos no cotidiano e nas séries anteriores. Por isso, a chamamos de tarefa complexa… Não porque pretende ser complicada, e, sim, porque conjuga objetivos de aprendizagem diversos perante temas que são multifacetados, pela sua própria realidade.

Um pouquinho da SAD em filme

Por Susane Lancman

A expressão popular “uma imagem vale mais do que mil palavras” pode ser comprovada no filme que foi feito na primeira SAD de 2017 pelo Daniel Mattos, cinegrafista oficial da Escola da Vila.

De qualquer forma, vou tentar explicar com palavras um pouquinho da SAD e dessa em especial.

A tradicional Semana de Atividades Diversificadas (SAD) se constituiu num espaço muito rico e potente do ponto de vista pedagógico, uma vez que nos permitiu reorganizar o tempo e o espaço escolar para atividades que talvez não tivessem condições de serem realizadas no dia a dia normal da escola. Por exemplo, é na SAD que podemos programar saídas a campo, assistir e debater filmes sem sermos interrompidos em função do horário das aulas, criar atividades interséries com focos em interesses variados.

As atividades são preparadas com antecedência e discutidas por todo o corpo docente, sempre procurando que elas tenham caráter formativo e/ou estejam relacionadas com o currículo. Assim, cada uma das atividades das aulas regulares ou da SAD são planejadas, executadas e avaliadas tendo como parâmetro os objetivos mais amplos da educação e os específicos das disciplinas.

Nos últimos tempos, muitos alunos pediram à coordenação espaço na organização das atividades da SAD. Tal reivindicação foi acolhida com muito entusiasmo, uma vez que é um indicador do que entendemos como autonomia dos estudantes e porque aparecem atividades que atendem às demandas que os afligem não apenas como estudantes, mas como sujeitos de direitos e cidadãos. As atividades propostas pelos estudantes – organizados ou não no grêmio – passaram, então, a fazer parte da SAD e também fora dela. Como exemplos dessas organizações, podemos citar o Coletivo Feminista, o Cineclube, assim também como o Grêmio Estudantil. Todos esses agrupamentos dos estudantes são estimulados e acolhidos dentro da escola, desde que não extrapolem os acordos estabelecidos entre a instituição e os alunos.

É fácil entender que os alunos de alguma forma queiram discutir assuntos que estão permeando o cenário político brasileiro, como a greve geral. Além de trazerem seus interesses extraescolares com atividades relacionadas a música, arte, dança, literatura, ciências…

Na primeira SAD deste ano, em que a filmagem possibilita vivenciar um pouquinho do que de fato aconteceu, uma das atividades foi a Banda da SAD conduzida por três alunos do 3º ano, Cao L. Bergo, Luis Felipe F. Grupioni e João Pedro V. B. Jabour. O desafio era tocar diferentes instrumentos de percussão, cordas, sopro e teclado com alunos de diferentes classes com diferentes competências musicais. Outra atividade foi conduzida por uma aluna do 3º ano, Luara Macari Nogueira, que deu uma aula de dança tendo como foco refletir “O corpo afro-brasileiro na expressão mitológica de Oyá”. Já o aluno Antonio Pedro Ayd Zellmeister tinha como objetivo compartilhar seu conhecimento sobre arte Bauhaus e o trabalho do artista Hélio Oiticica e a partir dessas referências desenvolver uma intervenção no espaço escolar. O grupo dos alunos do Grêmio proporcionou uma explanação sobre as greves no Brasil e explicaram as reivindicações da greve geral de abril deste ano. Já o Coletivo Feminista organizou uma discussão sobre a cultura do estupro. Essas foram as atividades coordenadas pelos alunos, planejadas com muito comprometimento e conduzidas com muita seriedade. Houve também atividades conduzidas pelos professores relacionadas com os conteúdos da sala de aula, como as de oceanografia para os 2ºs anos, saídas e discussões  sobre moradia na cidade de São Paulo para os 1ºs anos, filmes e saídas relacionados às disciplinas de História e Geografia para os 3ºs anos. Outro rol de atividades foi conduzido por convidados, como os professores de universidades públicas, e por ex-alunos que conversaram com alunos dos 2os e 3ºs anos sobre a escolha da carreira acadêmica.

A segunda SAD acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de junho, tendo como tema central o preconceito racial, assunto que é muitas vezes velado em nossa sociedade brasileira, em que prevalece um discurso que vivemos em uma democracia racial. Mais uma vez o tema foi trazido por um grupo de alunos pertencentes ao Coletivo Preto, movimento criado recentemente, que visa discutir questões raciais. Acolhemos a ideia com muito entusiasmo por acreditarmos na relevância do tema. Vale dizer que a escolha do tema central da SAD não exclui a possibilidade de haver outras atividades que não se relacionam diretamente com a temática. Afinal, nossa intenção é que a diversidade de protagonistas, as atividades, os espaços e tempos contribuam na formação integral de nossos alunos.

Somos possíveis agentes de transformação… Lançamento da campanha VILACOLHE 2017

Por Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio

Durante os anos na Escola da Vila, em especial durante os três últimos, nós, Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio, passamos a olhar para o mundo de uma forma diferente. A partir das aulas de Política e Sociedade, do diálogo em casa e das atividades que são propostas na Escola, nós nos visualizamos como possíveis agentes de transformação, assim buscamos realizar uma ação real.

No ano de 2016, entre os muitos temas que nos impactaram, fomos tocadas pela situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Vimos que o frio intenso precariza ainda mais a situação dessas pessoas, que são, muitas vezes, deixadas de lado pela conjuntura social. Esse assunto acabou por nos mobilizar. Assim, em junho do mesmo ano, quando o frio atingia seu auge, iniciamos a Campanha do Agasalho com o objetivo de arrecadar roupas de inverno. Para tanto, pedimos auxílio da nossa coordenadora Susane e do orientador Chicão, que nos indicou um local para onde poderíamos levar os casacos e outras peças de roupa, enquanto as meias seriam enviadas para a Puket, que realizou uma movimentação em que essas peças seriam transformadas em cobertores.

Primeiramente passamos nas salas dos alunos do Ensino Médio avisando que estaríamos dando segmento a tal atividade. Na mesma semana, após conversarmos com a equipe do Fundamental 2, fomos às salas do Fundamental 2, onde fomos recebidas com grande entusiasmo por parte dos alunos. Assim, começamos a arrecadação de fato.

Efetuamos uma divulgação nas redes sociais para implicar mais pessoas e para que todas pudessem se sentir agentes de transformação.

Deixamos duas caixas na frente da famosa sala da Chacur, por onde todos os alunos passam, para que assim aumentasse a visibilidade do projeto.

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Logo notamos uma grande mobilização dos alunos, e vimos que ambas as caixas iam sendo enchidas progressivamente. Assim, no final de junho de 2016, ambas as caixas colocadas por nós estavam cheias graças a um projeto bastante colaborativo e bem recebido.

No início das férias escolares, enviamos as meias para a Puket e levamos os casacos para o grupo Filhos para Filhos. Nesse mesmo dia, auxiliamos na separação de roupas e na montagem de marmitas que seriam distribuídas para moradores de rua da região. Assim, vivemos nossa segunda ação real de transformação.

A experiência foi tão gratificante que, no final das férias, voltamos a esse local para realizar algumas atividades com crianças carentes. Cada uma delas era especial, tinha um sorriso único, um olhar único, elas pareciam estar valorizando os momentos que passamos junto delas.

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Ficamos encantadas com essas crianças!

Aos poucos fomos chamando para participar do projeto outras amigas muito queridas, como Beatriz Conishi, Nina Quintanilha e Manuela Moura, alunas secundaristas que também se envolveram com o projeto.

Voltamos outras vezes, como, por exemplo, no Dia das Crianças, em que foi realizado um evento no Parque da Chácara do Jóquei próximo à Unidade Morumbi, e lá passamos o dia às voltas com brincadeira infantis. Mais uma vez ficamos encantadas pela atitude dos nossos pequenos e pequenas.

As experiências que tivemos tanto no trabalho feito com a arrecadação de casacos como com as crianças foram extremamente prazerosas, e apesar de terem sido pequenas ações sentimos a diferença em nós mesmas.

Pensando em tudo isso, quando o frio deu os primeiros sinais este ano, sentimos que estava na hora de realizar novamente a Campanha do Agasalho. Desta vez, mais organizadas, criamos a CAMPANHA VILACOLHE. Temos como meta mínima este ano arrecadar aproximadamente 120 casacos e 70 meias. As caixas estarão nas três unidades e todos os alunos podem participar com doações.

Acreditamos na importância de ações voluntárias como forma de melhorar nossa sociedade, possibilitando, inclusive, unir nossa comunidade escolar. A mudança pode ser pequena diante da dimensão de tantos problemas que precisam mudar fora da Escola, mas, como agentes transformadores, precisamos fazer alguma diferença, mesmo que pequena.

Gostaríamos de agradecer a nossos professores, orientadores e colegas por terem recebido tão bem a nossa proposta, tanto no ano de 2016 como neste ano. Contamos com a colaboração de todos!

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Participação em modelos diplomáticos: a experiência na Escola Parque

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Na manhã do dia 21 de abril, meia dúzia de alunos da Escola da Vila terminava seu café da manhã, tomado de forma breve em uma antiga padaria do Leblon, tendo a seguir partido em direção à Escola Parque, localizada não muito longe dali, no bairro da Gávea. Sapatos e ternos atrapalhavam o caminhar dos seis jovens acostumados a roupas largas, chinelos e tênis. Não queriam se atrasar para sua primeira participação em um modelo diplomático que estava começando na Escola Parque, parceira carioca da Vila, evento para o qual tinham sido convidados poucos dias antes.

Uma vez dentro da Parque, passaram a ser reconhecidos por seus pares cariocas. Para além de uns poucos monitores e alguns ex-alunos, não havia ali nenhum outro adulto. A instituição estava ocupada e tomada por alunos engravatados e alunas em tailleur que caminhavam apressados pelos corredores. Ninguém se questionava ou olhava com distanciamento para o que ali ocorria. Todos estavam francamente ocupados com documentos que embasariam suas arguições perante os outros representantes de países dos quatro cantos do mundo em comissões de discussão separadas por temas de interesse internacional.

Nessas discussões, o exercício retórico era impecável. Não se ouviam ali expressões como “tipo…”, “meio que…” nem mesmo “eu acho…”. O rigor no figurino era o mesmo no cumprimento de horários, na linguagem e no papel adotado por cada um ao representar não apenas um país, mas uma figura diplomática do mundo real. A formalidade absoluta ganhava sentido: a argumentação deveria respeitar tempo de apresentação, réplicas, tréplicas e, principalmente e acima de tudo, poder de convencimento, sempre respeitando as determinações da mesa mediadora. Tudo baseado em documentos. A retórica diplomática era o instrumento supremo a ser esgrimido por oito horas diárias ao longo de três dias seguidos para, no fim, mostrar seus resultados em votações que concluiriam tais discussões.

Mas, afinal, do que estamos aqui falando? O que é exatamente um modelo diplomático? Qual o sentido de participar disso? A simulação diplomática, que pode ser, na maioria dos casos, uma réplica de comissões da ONU tratando temas atuais, mas não só, é um evento realizado por instituições de ensino das mais variadas, tanto de Ensino Médio como Universidades. Em muitos casos, a organização é feita por estudantes de Relações Internacionais, e os participantes são alunos do Ensino Médio. Há fóruns que recebem alunos de escolas do Brasil todo. Alguns chegam a muitas centenas de participantes. Outros, a algumas dezenas. O tamanho não tem relação com sua qualidade, em todo caso. Na Escola Parque, é realizado por alguns ex-alunos e os participantes são alunos do Ensino Médio de diversas escolas do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, prioritariamente.

Deixarei, no entanto, que o leitor acompanhe diretamente os relatos de nossos alunos, pois são quem melhor pode descrever a experiência. Com a palavra, a delegação Vila:

Por Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Marina Gregori Tokita e Lorena Caiuby Ferreira França.

Fomos convidadas para ir ao Rio de Janeiro, por três dias, para participar do MODEP – Modelo Diplomático da Escola Parque. Trata-se de um evento formal de simulação da ONU, no qual se formam diferentes comitês para discussão de diferentes tópicos. É organizado por alunos e ex-alunos e reúne aproximadamente 350 estudantes de diferentes escolas e faculdades.

Ingressamos no MODEP já no segundo dia do evento. Achamos que teríamos dificuldade em acompanhar as discussões, entretanto, pela atenção dos organizadores que nos receberam e pela organização da escola, conseguimos acompanhar as discussões proveitosamente.

Primeiramente, fomos apresentados aos temas de discussão. Todos tinham como pauta geral questões de conflito internacional e abrangiam o setor dos direitos humanos. Eram estes: Liga dos Estados Árabes; Conselho de Segurança Histórico; Pacto de Varsóvia; Parlamento Britânico; Conselho Europeu; Comissão para o Status da Mulher; O Novo Conceito Estratégico de Aliança e a Ação na Iugoslávia.

Nos foi sugerido que participássemos ou como ouvintes ou representando uma delegação. Diferentemente de nossos outros colegas, Joaquim Salazar (2º), Michel Sarfatti (1º), Vinícius Sabbag (1º), optamos pela primeira opção, pois assim era possível circular por todos os comitês e ter uma visão mais geral do evento e das discussões.

Todos os comitês, como é de costume da ONU, tinham organização formal e específica, pautada pela mediação de uma Mesa. As diferentes delegações levantavam suas placas quando desejavam se pronunciar, e só poderiam fazê-lo quando recebiam permissão da Mesa.

Especificamente, o comitê do Parlamento Britânico possuía uma organização semelhante aos outros comitês, porém a discussão tinha um caráter mais dinâmico. Logo, pela extensão do evento, este comitê nos atraiu mais e optamos por acompanhá-lo de forma mais presente. O Parlamento Britânico discutia a saída do Reino Unido da União Europeia. Desse modo, articulava-se com o comitê do Conselho Europeu, que reunia todos os países da União Europeia (tirando o Reino Unido), e discutia-se essa mesma questão – porém em diferentes esferas.

Como nos interessamos muito por esse tema, circulamos muito entre esses dois comitês, podendo assim acompanhar os diferentes conflitos, acordos e discussões que eram travados.

Logo que chegamos percebemos o caráter extremamente formal do evento e a imensa preparação da escola para tal, como a circulação de um jornal interno, a distribuição de bolsas e cadernos, um vasto lanche da tarde. Além disso, também pudemos reparar a preparação individual de cada pessoa para o evento. Todos possuíam um domínio muito grande sobre o tema de seu comitê, além de uma capacidade impressionante de debate, improviso e comportamento muito adequados às circunstâncias.

Também, no que se refere à organização do evento, o cronograma era muito extenso; todos os dias havia aproximadamente oito horas de discussão, divididas em sessões. Para nós, especificamente, que estávamos participando como ouvintes, essa extensão tornou o evento um pouco cansativo. Mas pensamos que, se estivéssemos participando das discussões, teríamos uma discussão diferente.

De modo geral, ficamos muito impressionadas com a qualidade das discussões, além dos cuidados dos organizadores com a nossa visita. Conseguimos tirar grande proveito da atividade, nos aprofundando em questões que certamente não adentraríamos em outras situações.

Além disso, a viagem em si foi muito agradável, pois tivemos a oportunidade de nos comunicar com diferentes pessoas e aprender muito.

Agradecemos à Escola Parque pelo convite e esperamos que no futuro seja possível formar uma delegação própria da Escola da Vila.

Agradecemos à Escola da Vila pela oportunidade e esperamos que haja sempre novas situações como essa.

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Por Michel Lancman Sarfatti, Joaquim Pedro Salazar e Vinícius Leoratti Sabbag

Nós, quando chegamos ao MODEP, pensamos que seríamos apenas ouvintes, mas na metade do primeiro dia descobrimos que poderíamos fazer parte do Parlamento Inglês. Assim, aceitando a proposta, Michel virou Caroline Lucas (Green Party), Vinícius virou Hillary Benn (Labour Party) e Joaquim virou Damien Green (Conservative Party). Sendo assim, discutimos com outras 30 pessoas os termos da saída do Reino Unido da União Europeia na perspectiva de um parlamentar inglês. Foi uma atividade nunca antes experienciada por nós. Discutimos questões como imigração, economia e legislação europeia até chegar a um consenso sobre a saída do Reino Unido.

O evento foi dividido em seis comissões, que discutiram assuntos históricos e atuais, sendo todos organizados em um modelo diplomático. Alguns dos temas presentes eram: discussão da OTAN sobre a guerra na Iugoslávia, conselho europeu discutindo Brexit, Organização dos Estados Americanos (OEA) discutindo a guerra na Guatemala, dentre outros.

A organização do evento distribuiu material escolar e didático, além de oferecer orientações a todos os participantes, a fim de criar um ambiente com discussões mais consistentes.

Impressionou-nos o nível de seriedade e profissionalismo dos integrantes, já que o evento até contava com uma equipe da imprensa que produzia matérias jornalísticas e cobria coletivas de imprensa dos políticos e diplomatas, de acordo com a linha editorial de cada publicação; os representantes diplomáticos construíam estratégias para alcançar seus objetivos de acordo com suas ideologias ou de quem representavam.

É um evento que exige muita preparação por parte dos alunos e dos organizadores, e por isso não tivemos uma participação efetiva em sua administração, mas entendemos como funciona o Parlamento Inglês e a posição dos principais integrantes sobre o Brexit.

Assim, o evento foi muito produtivo para nós, pois conseguimos conhecer esse tipo de atividade, e pretendemos ir a outros, como, por exemplo, o fórum FAAP e SPMUN.

Ouça também o podcast onde os alunos relatam suas impressões sobre esta atividade.

Romper os limites das disciplinas: um grande desafio

Escola da Vila

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Por Susane Lancman 

Dois professores na sala de aula, o de História e o de Língua Portuguesa, dão aula conjuntamente. Atentos, 31 alunos do 1o ano C. A fala se intercala entre o professor Guilherme e o professor Silas, um dueto afinado. Alguns questionamentos que permeiam a aula: Qual a relação entre o livro “Minha vida de menina”, de Helena Morley, e as disciplinas? Por que uma atividade interdisciplinar? Como funcionarão as aulas? O que será estudado com a obra literária do ponto de vista da História? E da Língua Portuguesa? Por que romper os limites das disciplinas?

Há uma piada que circula no meio educacional que diz que a única coisa que liga as diferentes salas de aula em uma escola são os canos e os fios elétricos. Não é o nosso caso na Escola da Vila: temos reuniões pedagógicas semanais para, justamente, discutir a unidade entre as salas de aula em relação às questões metodológicas, escolhas curriculares e valores educacionais, na busca insana de relacionar saberes.

O desafio da interdisciplinaridade é grande, afinal, é preciso romper o corpus de conteúdo organizado por disciplinas, algo rígido, construído em décadas de história da educação, em que o conhecimento foi fragmentado, encerrando as disciplinas nelas mesmas.

Romper com a presença de um só professor em sala de aula, em que ele detém todo o saber. Romper, em algumas situações, com a organização do espaço em que os alunos só interagem com o seu grupo/classe.

Mas, esse esforço só tem sentido quando se compreende que a interdisciplinaridade é uma oportunidade concreta para a revisão das relações com o conhecimento, provocando a organização de um ambiente interativo, entrelaçando os saberes e as pessoas, ampliando, na prática, o conceito da construção coletiva.

Nesse processo de troca entre professores, ampliam-se os conhecimentos dos próprios docentes sobre o objeto de ensino e sobre a forma de ensinar. Entretanto, compartilhar de forma sistemática um projeto, ter objetivos comuns, depender do fazer do outro exige muita discussão e comprometimento.

Em relação aos alunos, a interdisciplinaridade permite ampliar o olhar sobre as ciências, conectando conteúdos, possibilitando dar novos significados aos conteúdos e à realidade, relacionando a teoria e o real. Além disso, uma das formas dos alunos desenvolverem a criticidade é terem acesso a situações complexas, que possam ser estudadas por diferentes áreas do conhecimento, superando a fragmentação entre as disciplinas, o que possibilita gerar maior autonomia intelectual.

É bom ressaltar que a integração das disciplinas em si não desenvolve qualquer habilidade, pois depende da forma pela qual o trabalho é didaticamente estruturado. Assim, antes de integrar, é preciso perguntar: por que integrar? O que integrar? Quem integra? Como se faz a integração? O passo seguinte é definir o problema ou o fenômeno que será estudado; determinar os conhecimentos necessários, inclusive as disciplinas, modelos, tradições e bibliografias; desenvolver um marco integrador e as questões a serem pesquisadas; especificar os estudos ou pesquisas concretas que devem ser empreendidos. Por fim, é necessário construir novas organizações do espaço, do tempo e do currículo.

A aula de História e Língua Portuguesa termina com os alunos sentados, em grupo, discutindo o tema que irão focar durante a leitura de “Minha vida de menina”: trabalho, religião, gênero, educação, família e escravidão. Os grupos discutem os temas, votam, negociam-nos com os outros grupos e decidem a “lente” que será usada durante a leitura.

Sem dúvida, ler o livro com o foco nas questões relacionadas à literatura já traria enorme aprendizagem, mas, lê-lo também com a lente da disciplina de História, pode ampliar ainda mais o olhar dos nossos alunos.

O outro em nós: cultura e agrupamentos escolares

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Por Fermín Damirdjian

Um rifle simples, apoiado no ombro de um rapaz, apontado para um alce. É um dia de sol no Alaska. Boa visibilidade. Neve, cores. As narinas do animal expiram uma névoa breve que um eterno sol poente insiste em iluminar. Para o rapaz, seria apenas apertar o gatilho, mas isso não ocorre. Um movimento acidentado se transfigura por trás de um arbusto, e traduz uma cria que procura a mãe, caminhando com dificuldade na neve fofa. O rifle desce, o rapaz olha decepcionado, mas convicto de suspender a caça que o alimentaria por alguns dias.

Trata-se de uma cena do filme Na natureza selvagem, primorosamente dirigido por Sean Penn (2004, EUA. 147 min). O personagem é representado por Emile Hirsch, em uma performance sensível, que expõe a saga de um jovem que rompe com seus vínculos afetivos e sociais para lançar-se em um caminho longo, somente com a roupa do corpo, pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia, e então rumo ao Alaska, onde procura viver por conta própria. Sua relação com a família é truncada e vazia de sentido. Formou-se no college com notas suficientes para seguir carreira em Harvard, e tem uma polpuda reserva financeira, oriunda de uma família que almejava esse desfecho acadêmico para filho. Ele, no entanto, doa todo seu dinheiro a uma instituição filantrópica e abandona a irmã, os pais e sua cidade. Viaja durante alguns anos até chegar no coração da inóspita província onde pretende seguir sua vida. Esse é seu projeto.

É uma história verídica, reconstruída em um livro escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer, que contribuiu para o roteiro do filme. É com a breve sequência de 12 minutos que apresenta sua formatura, seu rompimento com sua identidade civil, e seus primeiros momentos no Alaska que inauguramos “Ensino Médio na Escola da Vila”, no auditório, com todos os alunos do 1o ano. E por que essa escolha? A resposta requer algumas digressões.

As assembleias de classe começam no 2o ano do Fundamental I da Escola da Vila. O espaço para considerar abertamente os conflitos e anseios que conformam o cerne da convivência grupal é um sustentáculo fundamental para o desenvolvimento da linguagem e da percepção dos vínculos, matéria básica da condição humana. A sensibilidade na arte, o exercício cognitivo, a prática de esportes coletivos, as especulações lógico-matemáticas, as construções teóricas estão permeadas, de forma irremediável, pelo desenvolvimento moral. Sendo assim, todo e qualquer âmbito que possibilite a explicitação das diferenças e semelhanças entre as ambições dos diversos indivíduos que dão vida à escola − os alunos − está sempre em destaque ao longo de toda a escolaridade.

Um desses âmbitos são os trabalhos em grupo. É possível dizer que esse formato, fonte de produções exímias dos nossos alunos, é também o berço de conflitos dos mais radicais entre aqueles que produzem e os que “não fazem nada”. Discordamos, no entanto, de que ele seja o caldeirão que cria esse conflito. Ele é, sim, o âmbito onde se tratam as diferenças e também onde se gera um ambiente saudável de convivência. O engano está em acreditar que a criação de um bom ambiente de convivência seja possível sem a reunião dos membros em torno de um assunto a ser desenvolvido, seja ele estritamente acadêmico ou não. Se há tensões nessa convivência, procuramos propiciar práticas que a tornem mais construtiva do que destrutiva, e os trabalhos em grupo são uma instância de processamento dessa convivência.

No caso do Ensino Médio, essa experiência se torna mais exigente − como ocorre com os desafios que surgem a cada segmento − pelo qual o aluno avança. Dentro de cada grupo-classe, os subgrupos de trabalho, no primeiro trimestre, são previamente escolhidos pela orientação da escola, seguindo critérios de heterogeneidade. Tenta-se formar agrupamentos que contemplem um mesmo número de meninos e meninas, distribuir bem os alunos recém-matriculados na escola, e também reunir perfis diferentes. É bom saber que esses perfis não são estanques − ao contrário, os alunos, como qualquer ser em franco desenvolvimento − mudam, e muito.

Pois bem. Além de eles não escolherem os grupos, estes também são fixos, de modo que o mesmo grupo permanecerá ao longo de todo o primeiro trimestre, realizando trabalhos de disciplinas das mais variadas. Isso faz com que o grupo tenha oportunidade de corrigir seu funcionamento, de um trabalho a outro. Ao invés de um aluno preservar a sua forma de se comportar em grupo, ele está exposto ao parecer de seus colegas. Para tanto, a orientação educacional procura abrir espaços de avaliação e de negociação entre os integrantes para que consigam se ajudar.

É curioso observar como a figura do Outro pode ser um problema ou um conforto. Pouco antes do início das aulas, as redes sociais dos nossos alunos debatem intensamente sobre “com quem vou cair”. Uma verdadeira roda da fortuna se reflete nos olhos de cada um enquanto especula sobre perder ou não a sua matilha na estepe africana. Sabemos que o refúgio de um pequeno mamífero se resume à sua manada. E assim se portam os alunos quando entram em sala pela primeira vez. Ocupam as carteiras e alinham-se com quem podem se sentir mais reconfortados. No fundo, na frente, no meio, ao lado; cercado de amigos ou com apenas um colega que, quem sabe, pode compensar o distanciamento daqueles que a providência divina colocou na outra sala, ao fundo, no andar de cima. Longe dele.

A orientação conduz, então, uma discussão que parte do filme. Por que o sujeito não matou o alce? Pelo óbvio motivo de ter se sensibilizado por sua cria que ficaria órfã. Em uma sala falou-se em compaixão. Em outra, de respeito. Também entraram outros elementos, que apontavam para a ambiguidade de um sujeito que procurou se isolar da cultura de modo radical, mas que, ao mesmo tempo, não se entregou às leis da selva para sobreviver, por não poder abandonar a sua humanidade. Se, por um lado, o outro o repelia − nunca mais se teve notícias de Christopher McCandless, o personagem real, até que o jornalista Jon Krakauer rastreou todos os seus passos, do interior dos Estados Unidos até o México, e dali até o Alaska − por outro lado, esse outro estava presente dentro dele em forma nada menos que de cultura. A compaixão é de natureza humana, no fim das contas. E o preço por tê-la, se queremos viver como animais, pode ser determinante. Vale a pena assistir ao filme para entender essa ideia em sua amplitude.

A discussão apontou para os caminhos que serão trilhados por abordagens antropológicas, pelas quais os alunos irão transitar ao longo de todo o primeiro ano, especialmente na disciplina de filosofia.

Em um segundo momento, discorreu-se sobre facilidades e dificuldades dos agrupamentos. Cada um deveria pensar como, com as suas próprias características, poderia contribuir ou prejudicar o grupo e, em função disso, traçar uma meta. Logo, o grupo finalmente se reúne e se reconhece, e todos se apresentam com as suas próprias metas. Por fim, e mais importante, os alunos se debruçam sobre a redação de uma convenção que todos assinam de próprio punho e à qual retornarão sempre que, de um trabalho para outro, for preciso chamar a atenção de seus membros.

Toda essa sequência não se dá como forma de estruturar uma maneira coletiva de vigiar e punir, mas, sim, de ampliar e sofisticar as negociações inevitáveis entre as pessoas que conformam um âmbito coletivo, e das quais o desenvolvimento do conhecimento não pode se furtar a contemplar. Isso não pode ser feito sem um determinado grau de tensão, mas certamente quanto mais preparados estiverem todos, mais frutíferos serão os avanços.

Os desafios morais aumentam na mesma proporção que as exigências acadêmicas. O saber e a moralidade se desenvolvem em um mesmo processo. O cenário em que são cultivados vai determinar os valores que cada um levará dentro de si − seja em ambiente acadêmico, profissional ou longe do outro.

Pais: protagonistas da formatura do 3º ano

Escola da vila

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Por Susane Lancman 

O dia da colação de grau é especial, mas a maior beleza está no processo que compõe a formatura, que tem duração de quase um ano inteiro.

Todo ano é sempre igual. Mudam os personagens, grupos diferentes de alunos e pais com suas características específicas, mas fica o ritual. O que mais me emociona é ver o processo de construção da formatura por parte dos alunos. A escolha dos paraninfos, dos oradores, do mestre de cerimônias, do discurso e da surpresa para os pais. E, por parte dos pais, a escolha do tema, os comes e bebes, a decoração, e a SURPRESA PARA OS FILHOS.

Em relação aos pais, tudo começa na primeira reunião, em que é apresentada a ideia de eles estarem à frente de algumas decisões relacionadas à formatura. Mostram-se exemplos de anos anteriores, decide-se o local da Escola que será usado, são formadas comissões, e é agendado o primeiro encontro. A primeira decisão é relativa ao tema: “Qual característica dos alunos poderia se revelar como um tema do grupo?”. A partir daí, pensa-se na decoração, nos discursos… E as reuniões seguem com diferentes pautas até tudo estar organizado.

O número de reuniões varia de ano para ano, bem como a quantidade de pais participantes do processo. Cada grupo de pais é único, com criações peculiares, tornando a formatura uma surpresa para todos.

Durante as férias contei inúmeras vezes para amigos e familiares o processo de formatura dos pais deste ano, especificamente o flash mob. Para que não fiquem mal-entendidos, escrevo sobre essa última formatura pelo fato de a lembrança ser recente e ainda estar viva, e pela grande emoção que gerou nos pais, como é possível ler no relato a seguir, de Priscila, mãe do Caio Canedo Romano.

Descrevo brevemente, como espectadora, o que vi: os discursos terminam, os mestres de cerimônia descem do palco, 450 pessoas sentadas em suas cadeiras, alunos se localizam no centro, pais e convidados estão nas cadeiras no fundo e nas laterais da quadra. Segundos de silêncio, uma música começa a tocar, uma mãe se levanta da cadeira, dança em seu próprio lugar,  senta-se novamente, e a música continua. Três pais se levantam das cadeiras, dançam no próprio lugar, e sentam-se. Os alunos se entreolham, e a música continua.  Dez pais se levantam, eles dançam e sentam-se, e a música continua. Os alunos ficam boquiabertos. Trinta pais se levantam, eles dançam e sentam-se, e a música continua. Os alunos parecem paralisados. Mais de cem pais se levantam, saindo dos mais diferentes cantos do ginásio, e dançam. Eles se dirigem para a frente do palco, a música contagia a todos, os pais se juntam do lado esquerdo do ginásio, e dançam… incrivelmente coordenados, sintonizados e emocionados. Os alunos parecem atônitos! A música termina, e a ovação é geral.

Antes de dar voz à mãe, vale dizer que, todos os anos, participar da finalização do ciclo de escolaridade obrigatório gera um sentimento dúbio. Parafraseando Ferreira Gullar:

Uma parte de mim

É a tristeza com a partida dos formandos.

Outra parte é a felicidade

De vê-los ultrapassando os muros da escola. 

Uma parte de mim

Sofre com a mudança.

Outra parte vislumbra

E se deslumbra com o novo.

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Uma experiência que vale a pena contar

Por Priscila Canedo

Eu queria falar sobre como uma vivência artística pode unir, tocar e transformar um grupo de pessoas. A criação do flash mob que apresentamos para os nossos filhos na noite de formatura foi uma experiência que vale a pena contar, porque toda aquela emoção que contagiou as pessoas na hora foi um processo que nasceu singelo e cresceu.

A colação de grau do Ensino Médio é toda organizada pelos pais, com inteiro suporte da escola. Como em todo evento de formatura, têm os discursos dos coordenadores, dos paraninfos e oradores. Os filhos fazem uma homenagem aos pais, e os pais aos filhos.

A verdade é que, com o turbilhão da vida diária, juntar um grupo de pais para discutir e organizar uma festa e uma homenagem não é fácil. O propósito de todos é o mesmo, as ideias são muitas, mas a rotina pessoal de cada família dificulta o encontro. O grupo inicial que começou a preparar a festa era bem pequeno, formado por mães e pais que tinham certa afinidade ou que já haviam organizado formaturas de filhos mais velhos em anos anteriores.

O projeto flash mob idealizado por esse pequeno grupo nos foi apresentado na última reunião entre pais e professores da escola. Ninguém sabia muito bem o que viria dali para a frente. Eu tive a impressão de que aquele momento de apresentação seria para recrutar o maior número de pais possível para participar, e também para conhecer o nosso facilitador e coreógrafo, Rubens de Oliveira, que já naquela noite fez a gente dar uns passinhos, movimentar o nosso corpo e dar muitas risadas.

Foi lindo! Durante mais ou menos dois meses, nós, pais de alunos do terceiro ano do Ensino Médio nos reuníamos às quartas-feiras para dançar. Aquele pequeno grupo foi crescendo e se conectando a cada ensaio, com exercícios de respiração, dinâmicas de integração, e muito movimento. Nos primeiros encontros a gente ia chegando devagar, cumprimentando os demais com um aceno tímido, recebendo os comandos e obedecendo. A conexão foi progressiva. A cada encontro notava-se a evolução e crescia o envolvimento de cada um.

Uma vez, fomos divididos em grupos e o Rubens nos propôs pensarmos em uma palavra para dizer aos nossos filhos, e com essa palavra deveríamos criar uma pequena coreografia para expressá-la. Foi uma missão divertida, que nos fez perceber que estávamos fortemente conectados. Dos cinco grupos formados, quatro deles escolheram a mesma palavra: coragem.

As relações se fortaleceram! No ensaio geral o clima foi de ansiedade e comprometimento. A apresentação seria uma surpresa para a maioria dos filhos. Quando a música começou e ainda nada acontecia, eu fiquei olhando a expressão da molecada. Eles se viravam de um lado para o outro à procura do que poderia acontecer. Foi quando as primeiras mães se levantaram, depois os pais, até que todos começaram a dançar e a coroar toda essa vivência que passamos juntos.

Um momento de suspensão

Escola da Vila
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Por Tuna Serzedello

Olhos atentos observando filhos, alunos, colegas transformarem o espaço da escola em um lugar de sonho, lembranças, histórias, memórias individuais e coletivas.

A potência do teatro, latente nos alunos-atores, grande demais para ser contida em um corpo (ou vários) invade a sala e as mentes e os corpos dos espectadores, obrigada a seguir o elenco pelos espaços da escola, numa ação teatral que não fica presa a um só espaço da instituição, mas invade todos os outros.

Aqueles, pais e professores, acostumados a mostrar o caminho a ser seguido pelos jovens, neste momento de suspensão, se deixam levar pelos alunos-filhos-atores.

São muitas as denominações para esses jovens, sem contar os papéis que assumiram na peça Terror e Miséria do III Reich, mas que, como quer o autor alemão, com distanciamento brechtiano, sem deixar de serem eles mesmos, de exercitar sua consciência crítica.

Empoderados da força das convenções teatrais, que como uma onda transformadora, como um “superpoder” adquirido, vão se transformando e transformando ao seu redor: escola vira palco, que vira cozinha, que vira hospital, que vira trincheira. Espaços imaginários que se materializam ali, naquele mesmo lugar, no qual durante o dia se aprende matemática, química e literatura: um grande espaço transformador.

O mundo é grande demais e cabe inteiro nas salas dessa escola, que processa e devolve o aprendizado por meio de seus alunos, em forma de ato: de teatro.

O protagonismo jovem se exercita nesse palco da escola, que permite ser transformada por eles e assim os transforma.

O ato de transformar é transformador” diz o homem de teatro Augusto Boal.

Que os aplausos que nos despertaram desse momento de suspensão nos façam perceber a grandeza do feito de todos os envolvidos ali: pais, professores, alunos e funcionários da escola.

Hoje, quando voltarmos à “normalidade” da vida escolar, jamais nos esqueceremos de que aquela sala, ontem, foi um tribunal do III Reich, e que aquele aluno, sentado ali, carrega em si um ator. E ator é aquele que age.

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Relato de Rafaela Sérpico

“A vida é o que fazemos com nosso tempo.
Eu gosto de fazer teatro, e pra mim, minha vida só começou de verdade no momento em que fiz a primeira aula, em que li o primeiro livro em forma de peça e fui em uma peça. Quando subi em um palco pela primeira vez, devo admitir, achei que meu coração ia sair pulando e roubar minha cena.
Esse ano, fiz uma das peças que mais me entusiasmou.
Às vezes, treinando no meu quarto e falando “Heil Hitler” dava vontade e até cheguei a chorar diante de tudo que esta expressão tem por trás…
Mas, ao mesmo tempo, eu consegui me conhecer mais, consegui perceber que mesmo com todo esse valor de “bem” e “mal” imposto pela sociedade, todos temos ambos os lados, e todos devemos expressá-los e não guardar e guardar dentro da gente, porque eu sei que uma hora isso precisa sair. E essa peça me ajudou por isso, porque ela me mostrou esse lado, de que é importante ser aquilo que você não é, falar aquilo que você mais despreza e simplesmente encarar isso mais do que tudo, como uma forma de aprendizado e justa oportunidade de poder dizer tais diferentes concepções, afinal, a realidade dessa peça não é a minha, eu disse coisas que jamais pensaria ou teria tal visão de mundo. Mas eu me senti mais leve e eu não estou dizendo que meu lado “mal” é nazista, porque eu não sou nazista de lado nenhum.
O que quero dizer com tudo isso é simplesmente que eu percebi com essa peça, que o teatro é a melhor forma de colocar o lado “mal” para fora e é também a ferramenta que mais me traz autoconhecimento.
“Terror e miséria do III Reich” foi uma experiência simplesmente incrível, e por mim eu sairia pelo mundo todo apresentando ela e falando esse texto maravilhoso, e que trouxe o que nenhum dos milhões de filmes sobre o nazismo que eu assisti jamais me mostraram e representaram.
Fazer essa peça e usar meu tempo pra ensaiar ela em casa ou na escola foi a experiência que me mostrou que, da minha vida, que é o que eu faço com o meu tempo, quero fazer teatro, afinal, não existe vida onde não há teatro.”

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Relato de Carolina Alayon

“Nós do Grupo de Teatro 2016 da Escola da Vila, realizamos a peça “Terror e a Miséria no Terceiro Reich” por Bertold Brecht, dramaturgo poeta alemão. Foi escrita entre 1935 e 1938, fazendo uso de recortes de jornal, notícias recebidas da resistência – Brecht vivia então na Dinamarca –, rádio, ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich, que se estabelecia. É um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazista. Uma coleção de instantâneos saída de casas operárias e cortes judiciais, de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas, de campos de concentração e aulas da juventude hitlerista. Mais do que retratar uma década mergulhada em equívocos, Brecht nos força a enxergar a decadência de toda uma sociedade, sufocada pelo terror.
Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título.
Os atores confirmam a ênfase desafiadora do texto e do caráter trágico, violento, repressor e opressor de seus personagens. Para atingirmos a compreensão do ato fora necessário muito esforço da parte de todos e ensaios acompanhados da direção de Tuna Serzedello, que disponibilizou obras de referência para estudo do grupo. Este diretor, que contribui maravilhosamente trabalhando arte/teatro com jovens, nos orientou no processo de construção do personagem e de ocupação do espaço da Escola para a apresentação, processo que demanda foco, bom gosto e disciplina.A profundidade e clareza do teatro, que consuma o momento histórico retratado em uma situação prática, é forte devido a temática, espelhada no período da Guerra nazista, do facismo hitlerista. Sua força intensa atinge o espectador quanto ser observador e sentimentalista, provocando um dilema reflexivo entre conforto e incômodo referente às condições físicas e emocionais tanto do personagem, quanto dos atores e dele próprio.”

XI Festival de Poesia. Tempo, espera e silêncio

Festival de Poesia da Escola da Vila
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A missanga, todos a veem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso,
vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo

Mia Couto

Por Vicente Domingues Régis 

O que faz com que mais de mil pessoas se encontrem e destinem grandes porções de seu escasso tempo à poesia, uma prática tão antiga e tão distante dos atuais traços da sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela voracidade e pelo consumo? Qual força sobrepuja o desejo quase incontrolável, que nos direciona diariamente para a frente das telas de nossos dispositivos eletrônicos, fazendo com que direcionemos nossa atenção para uma, duas ou três pessoas que declamam lentamente textos de Mel Duarte, Mário de Andrade, Mayakovsky ou Wislawa Szymborska? Por que insistimos em nos sentar na grama, em silêncio, durante tanto tempo, envolvidos pelas vozes daqueles que ousam derramar íntimos sentimentos em um antigo coreto, embalados pelos maxixes, choros e marchinhas de compositores como Anacleto de Medeiros, nascido há cento e cinquenta anos?

Como resposta a estas questões, nos reunimos no sábado, dia 29 de outubro, em frente ao coreto do Parque da Chácara do Jóquei para a realização do XI Festival de Poesia: “A poesia na rua, a rua na poesia”. Foram seis horas intensas de declamação, música, performance, oficinas, exposições de trabalhos, e encontros. Seis horas de protagonismo dos jovens que frequentam nossa escola, das suas famílias, de seus professores, e dos demais membros da nossa comunidade.

O espaço para a realização desse evento foi gentilmente cedido pela administração do parque, mediante a contrapartida de esgotamento da fossa de um dos banheiros e pintura do coreto e da área externa do redondel, realizados pela escola. Tivemos um público estimado de 1.200 pessoas durante o evento, que contou com o concurso de poesia falada, no qual foram declamados poemas de Vinicius de Moraes, Ana Cristina Cézar e Solano Trindade, entres muitos outros autores, e mais uma série de ações. Dentre estas, destacam-se as oficinas de criação de pôsteres, origami, criação de proposta de arte visual baseada em poema, o show dos Batutas do Coreto em homenagem a Anacleto de Medeiros, compositor carioca de importância fundamental para música brasileira, e, ainda, as apresentações dos grupos de teatro do Fundamental 2 e do Ensino Médio. Como encerramento do evento, alunos do Ensino Médio criaram uma performance relacionando o conto Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, com as canções Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos − que ganhou letra de Ferreira Gullar e Terceira Margem do Rio − canção homônima do conhecido conto de Guimarães criada por Milton Nascimento e Caetano Veloso. Tudo isso aberto ao público que frequenta o parque.

Vale ainda lembrar que os mais de 150 poemas inscritos no concurso de poesia escrita, assim como as oitenta inscrições para o concurso de poesia falada são, em grande parte, ecos de uma proposta pedagógica que valoriza a sensibilidade, a subjetividade e o diálogo. Reverberam de uma proposta pautada na autonomia e na cooperação, como pode-se observar no belíssimo e fundamental trabalho dos mestres de cerimônia: Carlos Navas, Daniel Innecco, Gustavo Torres, Gabriel Sampaio, Mariana Assef, Sabrina Cardoso e Yuri Carvalho − que se organizaram para tocar o evento e precisaram de pouquíssimo auxílio do setor cultural e dos demais profissionais da escola envolvidos na organização do festival.

Certamente, são muitos os motivos que concorrem para que destinemos tanta energia e tempo num festival como este. Entretanto, são estes de natureza tão subjetiva, singela e variada que não cabem ser resumidos aqui. Vale concluir: sentimos a necessidade do encontro em torno do fio que vem sendo tecido em silêncio pelos poetas há tanto tempo.

Aproveitamos o momento para parabenizar mais uma vez os vencedores dos concursos de poesia escrita e falada:

Poesia Falada

Categoria A

1o lugar: Bento Sipahi Pires Gonçalves dos Santos.

2o lugar: Alice Rossi, Lola Aguiar, Dora Mariani, Sofia Camargo.

3o lugar: Majoí Sotero Costa.

Menções honrosas: Frederico Kipnis e Luis Fernando Souza Dória.

Categoria B

1o lugar: Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Cecilia Neves Nannini, Marina Gregori Tokita, Manuela Arruda Pinto Lima, Paola Franceschini Giovanolli.

2o lugar: Lorena Polo.

3o lugar: Giulia Guarrera Zanetti.

Menção honrosa: Helena Veliago Costa e Laura Santanda.

Menção honrosa: Sofia de Carvalho Galvão e Fernanda Contarelli Lima

Categoria C

1o lugar: Median Aurea Trigo Grotti Vidal Costa.

2o lugar: Juliana Giannini, Luiza Moraes e Clarice Barreira.

3o lugar: Paula Lisboa e Teresa Lisboa.

Menção honrosa: Noam Rafael Kramer.

Poesia escrita

Categoria A

1o lugar: João Pedro Sequeira Rocha, “Infinito”.

2º lugar: Benny Sadka, “Marola”.

3º lugar: Bruno França, “Amor aleatório”.

Menções honrosas:

Nicolas Fernandes, “Negritude”.

Anne Hirata, “O tempo”.

Categoria B

1º lugar: Beatriz Bannwart Novaes, “sem título”.

2º lugar: Catarina Simonetti de Mattos, “Epinaufraga”.

3º lugar: Lua Bonduki de Sousa, “cena estática”.

Menções honrosas:

Bruna Duarte Savietto Frati.

Júlia Menezes, “A menina de cá”.