Participação em modelos diplomáticos: a experiência na Escola Parque

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Na manhã do dia 21 de abril, meia dúzia de alunos da Escola da Vila terminava seu café da manhã, tomado de forma breve em uma antiga padaria do Leblon, tendo a seguir partido em direção à Escola Parque, localizada não muito longe dali, no bairro da Gávea. Sapatos e ternos atrapalhavam o caminhar dos seis jovens acostumados a roupas largas, chinelos e tênis. Não queriam se atrasar para sua primeira participação em um modelo diplomático que estava começando na Escola Parque, parceira carioca da Vila, evento para o qual tinham sido convidados poucos dias antes.

Uma vez dentro da Parque, passaram a ser reconhecidos por seus pares cariocas. Para além de uns poucos monitores e alguns ex-alunos, não havia ali nenhum outro adulto. A instituição estava ocupada e tomada por alunos engravatados e alunas em tailleur que caminhavam apressados pelos corredores. Ninguém se questionava ou olhava com distanciamento para o que ali ocorria. Todos estavam francamente ocupados com documentos que embasariam suas arguições perante os outros representantes de países dos quatro cantos do mundo em comissões de discussão separadas por temas de interesse internacional.

Nessas discussões, o exercício retórico era impecável. Não se ouviam ali expressões como “tipo…”, “meio que…” nem mesmo “eu acho…”. O rigor no figurino era o mesmo no cumprimento de horários, na linguagem e no papel adotado por cada um ao representar não apenas um país, mas uma figura diplomática do mundo real. A formalidade absoluta ganhava sentido: a argumentação deveria respeitar tempo de apresentação, réplicas, tréplicas e, principalmente e acima de tudo, poder de convencimento, sempre respeitando as determinações da mesa mediadora. Tudo baseado em documentos. A retórica diplomática era o instrumento supremo a ser esgrimido por oito horas diárias ao longo de três dias seguidos para, no fim, mostrar seus resultados em votações que concluiriam tais discussões.

Mas, afinal, do que estamos aqui falando? O que é exatamente um modelo diplomático? Qual o sentido de participar disso? A simulação diplomática, que pode ser, na maioria dos casos, uma réplica de comissões da ONU tratando temas atuais, mas não só, é um evento realizado por instituições de ensino das mais variadas, tanto de Ensino Médio como Universidades. Em muitos casos, a organização é feita por estudantes de Relações Internacionais, e os participantes são alunos do Ensino Médio. Há fóruns que recebem alunos de escolas do Brasil todo. Alguns chegam a muitas centenas de participantes. Outros, a algumas dezenas. O tamanho não tem relação com sua qualidade, em todo caso. Na Escola Parque, é realizado por alguns ex-alunos e os participantes são alunos do Ensino Médio de diversas escolas do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, prioritariamente.

Deixarei, no entanto, que o leitor acompanhe diretamente os relatos de nossos alunos, pois são quem melhor pode descrever a experiência. Com a palavra, a delegação Vila:

Por Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Marina Gregori Tokita e Lorena Caiuby Ferreira França.

Fomos convidadas para ir ao Rio de Janeiro, por três dias, para participar do MODEP – Modelo Diplomático da Escola Parque. Trata-se de um evento formal de simulação da ONU, no qual se formam diferentes comitês para discussão de diferentes tópicos. É organizado por alunos e ex-alunos e reúne aproximadamente 350 estudantes de diferentes escolas e faculdades.

Ingressamos no MODEP já no segundo dia do evento. Achamos que teríamos dificuldade em acompanhar as discussões, entretanto, pela atenção dos organizadores que nos receberam e pela organização da escola, conseguimos acompanhar as discussões proveitosamente.

Primeiramente, fomos apresentados aos temas de discussão. Todos tinham como pauta geral questões de conflito internacional e abrangiam o setor dos direitos humanos. Eram estes: Liga dos Estados Árabes; Conselho de Segurança Histórico; Pacto de Varsóvia; Parlamento Britânico; Conselho Europeu; Comissão para o Status da Mulher; O Novo Conceito Estratégico de Aliança e a Ação na Iugoslávia.

Nos foi sugerido que participássemos ou como ouvintes ou representando uma delegação. Diferentemente de nossos outros colegas, Joaquim Salazar (2º), Michel Sarfatti (1º), Vinícius Sabbag (1º), optamos pela primeira opção, pois assim era possível circular por todos os comitês e ter uma visão mais geral do evento e das discussões.

Todos os comitês, como é de costume da ONU, tinham organização formal e específica, pautada pela mediação de uma Mesa. As diferentes delegações levantavam suas placas quando desejavam se pronunciar, e só poderiam fazê-lo quando recebiam permissão da Mesa.

Especificamente, o comitê do Parlamento Britânico possuía uma organização semelhante aos outros comitês, porém a discussão tinha um caráter mais dinâmico. Logo, pela extensão do evento, este comitê nos atraiu mais e optamos por acompanhá-lo de forma mais presente. O Parlamento Britânico discutia a saída do Reino Unido da União Europeia. Desse modo, articulava-se com o comitê do Conselho Europeu, que reunia todos os países da União Europeia (tirando o Reino Unido), e discutia-se essa mesma questão – porém em diferentes esferas.

Como nos interessamos muito por esse tema, circulamos muito entre esses dois comitês, podendo assim acompanhar os diferentes conflitos, acordos e discussões que eram travados.

Logo que chegamos percebemos o caráter extremamente formal do evento e a imensa preparação da escola para tal, como a circulação de um jornal interno, a distribuição de bolsas e cadernos, um vasto lanche da tarde. Além disso, também pudemos reparar a preparação individual de cada pessoa para o evento. Todos possuíam um domínio muito grande sobre o tema de seu comitê, além de uma capacidade impressionante de debate, improviso e comportamento muito adequados às circunstâncias.

Também, no que se refere à organização do evento, o cronograma era muito extenso; todos os dias havia aproximadamente oito horas de discussão, divididas em sessões. Para nós, especificamente, que estávamos participando como ouvintes, essa extensão tornou o evento um pouco cansativo. Mas pensamos que, se estivéssemos participando das discussões, teríamos uma discussão diferente.

De modo geral, ficamos muito impressionadas com a qualidade das discussões, além dos cuidados dos organizadores com a nossa visita. Conseguimos tirar grande proveito da atividade, nos aprofundando em questões que certamente não adentraríamos em outras situações.

Além disso, a viagem em si foi muito agradável, pois tivemos a oportunidade de nos comunicar com diferentes pessoas e aprender muito.

Agradecemos à Escola Parque pelo convite e esperamos que no futuro seja possível formar uma delegação própria da Escola da Vila.

Agradecemos à Escola da Vila pela oportunidade e esperamos que haja sempre novas situações como essa.

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Por Michel Lancman Sarfatti, Joaquim Pedro Salazar e Vinícius Leoratti Sabbag

Nós, quando chegamos ao MODEP, pensamos que seríamos apenas ouvintes, mas na metade do primeiro dia descobrimos que poderíamos fazer parte do Parlamento Inglês. Assim, aceitando a proposta, Michel virou Caroline Lucas (Green Party), Vinícius virou Hillary Benn (Labour Party) e Joaquim virou Damien Green (Conservative Party). Sendo assim, discutimos com outras 30 pessoas os termos da saída do Reino Unido da União Europeia na perspectiva de um parlamentar inglês. Foi uma atividade nunca antes experienciada por nós. Discutimos questões como imigração, economia e legislação europeia até chegar a um consenso sobre a saída do Reino Unido.

O evento foi dividido em seis comissões, que discutiram assuntos históricos e atuais, sendo todos organizados em um modelo diplomático. Alguns dos temas presentes eram: discussão da OTAN sobre a guerra na Iugoslávia, conselho europeu discutindo Brexit, Organização dos Estados Americanos (OEA) discutindo a guerra na Guatemala, dentre outros.

A organização do evento distribuiu material escolar e didático, além de oferecer orientações a todos os participantes, a fim de criar um ambiente com discussões mais consistentes.

Impressionou-nos o nível de seriedade e profissionalismo dos integrantes, já que o evento até contava com uma equipe da imprensa que produzia matérias jornalísticas e cobria coletivas de imprensa dos políticos e diplomatas, de acordo com a linha editorial de cada publicação; os representantes diplomáticos construíam estratégias para alcançar seus objetivos de acordo com suas ideologias ou de quem representavam.

É um evento que exige muita preparação por parte dos alunos e dos organizadores, e por isso não tivemos uma participação efetiva em sua administração, mas entendemos como funciona o Parlamento Inglês e a posição dos principais integrantes sobre o Brexit.

Assim, o evento foi muito produtivo para nós, pois conseguimos conhecer esse tipo de atividade, e pretendemos ir a outros, como, por exemplo, o fórum FAAP e SPMUN.

Ouça também o podcast onde os alunos relatam suas impressões sobre esta atividade.

Romper os limites das disciplinas: um grande desafio

Escola da Vila

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Por Susane Lancman 

Dois professores na sala de aula, o de História e o de Língua Portuguesa, dão aula conjuntamente. Atentos, 31 alunos do 1o ano C. A fala se intercala entre o professor Guilherme e o professor Silas, um dueto afinado. Alguns questionamentos que permeiam a aula: Qual a relação entre o livro “Minha vida de menina”, de Helena Morley, e as disciplinas? Por que uma atividade interdisciplinar? Como funcionarão as aulas? O que será estudado com a obra literária do ponto de vista da História? E da Língua Portuguesa? Por que romper os limites das disciplinas?

Há uma piada que circula no meio educacional que diz que a única coisa que liga as diferentes salas de aula em uma escola são os canos e os fios elétricos. Não é o nosso caso na Escola da Vila: temos reuniões pedagógicas semanais para, justamente, discutir a unidade entre as salas de aula em relação às questões metodológicas, escolhas curriculares e valores educacionais, na busca insana de relacionar saberes.

O desafio da interdisciplinaridade é grande, afinal, é preciso romper o corpus de conteúdo organizado por disciplinas, algo rígido, construído em décadas de história da educação, em que o conhecimento foi fragmentado, encerrando as disciplinas nelas mesmas.

Romper com a presença de um só professor em sala de aula, em que ele detém todo o saber. Romper, em algumas situações, com a organização do espaço em que os alunos só interagem com o seu grupo/classe.

Mas, esse esforço só tem sentido quando se compreende que a interdisciplinaridade é uma oportunidade concreta para a revisão das relações com o conhecimento, provocando a organização de um ambiente interativo, entrelaçando os saberes e as pessoas, ampliando, na prática, o conceito da construção coletiva.

Nesse processo de troca entre professores, ampliam-se os conhecimentos dos próprios docentes sobre o objeto de ensino e sobre a forma de ensinar. Entretanto, compartilhar de forma sistemática um projeto, ter objetivos comuns, depender do fazer do outro exige muita discussão e comprometimento.

Em relação aos alunos, a interdisciplinaridade permite ampliar o olhar sobre as ciências, conectando conteúdos, possibilitando dar novos significados aos conteúdos e à realidade, relacionando a teoria e o real. Além disso, uma das formas dos alunos desenvolverem a criticidade é terem acesso a situações complexas, que possam ser estudadas por diferentes áreas do conhecimento, superando a fragmentação entre as disciplinas, o que possibilita gerar maior autonomia intelectual.

É bom ressaltar que a integração das disciplinas em si não desenvolve qualquer habilidade, pois depende da forma pela qual o trabalho é didaticamente estruturado. Assim, antes de integrar, é preciso perguntar: por que integrar? O que integrar? Quem integra? Como se faz a integração? O passo seguinte é definir o problema ou o fenômeno que será estudado; determinar os conhecimentos necessários, inclusive as disciplinas, modelos, tradições e bibliografias; desenvolver um marco integrador e as questões a serem pesquisadas; especificar os estudos ou pesquisas concretas que devem ser empreendidos. Por fim, é necessário construir novas organizações do espaço, do tempo e do currículo.

A aula de História e Língua Portuguesa termina com os alunos sentados, em grupo, discutindo o tema que irão focar durante a leitura de “Minha vida de menina”: trabalho, religião, gênero, educação, família e escravidão. Os grupos discutem os temas, votam, negociam-nos com os outros grupos e decidem a “lente” que será usada durante a leitura.

Sem dúvida, ler o livro com o foco nas questões relacionadas à literatura já traria enorme aprendizagem, mas, lê-lo também com a lente da disciplina de História, pode ampliar ainda mais o olhar dos nossos alunos.

O outro em nós: cultura e agrupamentos escolares

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Por Fermín Damirdjian

Um rifle simples, apoiado no ombro de um rapaz, apontado para um alce. É um dia de sol no Alaska. Boa visibilidade. Neve, cores. As narinas do animal expiram uma névoa breve que um eterno sol poente insiste em iluminar. Para o rapaz, seria apenas apertar o gatilho, mas isso não ocorre. Um movimento acidentado se transfigura por trás de um arbusto, e traduz uma cria que procura a mãe, caminhando com dificuldade na neve fofa. O rifle desce, o rapaz olha decepcionado, mas convicto de suspender a caça que o alimentaria por alguns dias.

Trata-se de uma cena do filme Na natureza selvagem, primorosamente dirigido por Sean Penn (2004, EUA. 147 min). O personagem é representado por Emile Hirsch, em uma performance sensível, que expõe a saga de um jovem que rompe com seus vínculos afetivos e sociais para lançar-se em um caminho longo, somente com a roupa do corpo, pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia, e então rumo ao Alaska, onde procura viver por conta própria. Sua relação com a família é truncada e vazia de sentido. Formou-se no college com notas suficientes para seguir carreira em Harvard, e tem uma polpuda reserva financeira, oriunda de uma família que almejava esse desfecho acadêmico para filho. Ele, no entanto, doa todo seu dinheiro a uma instituição filantrópica e abandona a irmã, os pais e sua cidade. Viaja durante alguns anos até chegar no coração da inóspita província onde pretende seguir sua vida. Esse é seu projeto.

É uma história verídica, reconstruída em um livro escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer, que contribuiu para o roteiro do filme. É com a breve sequência de 12 minutos que apresenta sua formatura, seu rompimento com sua identidade civil, e seus primeiros momentos no Alaska que inauguramos “Ensino Médio na Escola da Vila”, no auditório, com todos os alunos do 1o ano. E por que essa escolha? A resposta requer algumas digressões.

As assembleias de classe começam no 2o ano do Fundamental I da Escola da Vila. O espaço para considerar abertamente os conflitos e anseios que conformam o cerne da convivência grupal é um sustentáculo fundamental para o desenvolvimento da linguagem e da percepção dos vínculos, matéria básica da condição humana. A sensibilidade na arte, o exercício cognitivo, a prática de esportes coletivos, as especulações lógico-matemáticas, as construções teóricas estão permeadas, de forma irremediável, pelo desenvolvimento moral. Sendo assim, todo e qualquer âmbito que possibilite a explicitação das diferenças e semelhanças entre as ambições dos diversos indivíduos que dão vida à escola − os alunos − está sempre em destaque ao longo de toda a escolaridade.

Um desses âmbitos são os trabalhos em grupo. É possível dizer que esse formato, fonte de produções exímias dos nossos alunos, é também o berço de conflitos dos mais radicais entre aqueles que produzem e os que “não fazem nada”. Discordamos, no entanto, de que ele seja o caldeirão que cria esse conflito. Ele é, sim, o âmbito onde se tratam as diferenças e também onde se gera um ambiente saudável de convivência. O engano está em acreditar que a criação de um bom ambiente de convivência seja possível sem a reunião dos membros em torno de um assunto a ser desenvolvido, seja ele estritamente acadêmico ou não. Se há tensões nessa convivência, procuramos propiciar práticas que a tornem mais construtiva do que destrutiva, e os trabalhos em grupo são uma instância de processamento dessa convivência.

No caso do Ensino Médio, essa experiência se torna mais exigente − como ocorre com os desafios que surgem a cada segmento − pelo qual o aluno avança. Dentro de cada grupo-classe, os subgrupos de trabalho, no primeiro trimestre, são previamente escolhidos pela orientação da escola, seguindo critérios de heterogeneidade. Tenta-se formar agrupamentos que contemplem um mesmo número de meninos e meninas, distribuir bem os alunos recém-matriculados na escola, e também reunir perfis diferentes. É bom saber que esses perfis não são estanques − ao contrário, os alunos, como qualquer ser em franco desenvolvimento − mudam, e muito.

Pois bem. Além de eles não escolherem os grupos, estes também são fixos, de modo que o mesmo grupo permanecerá ao longo de todo o primeiro trimestre, realizando trabalhos de disciplinas das mais variadas. Isso faz com que o grupo tenha oportunidade de corrigir seu funcionamento, de um trabalho a outro. Ao invés de um aluno preservar a sua forma de se comportar em grupo, ele está exposto ao parecer de seus colegas. Para tanto, a orientação educacional procura abrir espaços de avaliação e de negociação entre os integrantes para que consigam se ajudar.

É curioso observar como a figura do Outro pode ser um problema ou um conforto. Pouco antes do início das aulas, as redes sociais dos nossos alunos debatem intensamente sobre “com quem vou cair”. Uma verdadeira roda da fortuna se reflete nos olhos de cada um enquanto especula sobre perder ou não a sua matilha na estepe africana. Sabemos que o refúgio de um pequeno mamífero se resume à sua manada. E assim se portam os alunos quando entram em sala pela primeira vez. Ocupam as carteiras e alinham-se com quem podem se sentir mais reconfortados. No fundo, na frente, no meio, ao lado; cercado de amigos ou com apenas um colega que, quem sabe, pode compensar o distanciamento daqueles que a providência divina colocou na outra sala, ao fundo, no andar de cima. Longe dele.

A orientação conduz, então, uma discussão que parte do filme. Por que o sujeito não matou o alce? Pelo óbvio motivo de ter se sensibilizado por sua cria que ficaria órfã. Em uma sala falou-se em compaixão. Em outra, de respeito. Também entraram outros elementos, que apontavam para a ambiguidade de um sujeito que procurou se isolar da cultura de modo radical, mas que, ao mesmo tempo, não se entregou às leis da selva para sobreviver, por não poder abandonar a sua humanidade. Se, por um lado, o outro o repelia − nunca mais se teve notícias de Christopher McCandless, o personagem real, até que o jornalista Jon Krakauer rastreou todos os seus passos, do interior dos Estados Unidos até o México, e dali até o Alaska − por outro lado, esse outro estava presente dentro dele em forma nada menos que de cultura. A compaixão é de natureza humana, no fim das contas. E o preço por tê-la, se queremos viver como animais, pode ser determinante. Vale a pena assistir ao filme para entender essa ideia em sua amplitude.

A discussão apontou para os caminhos que serão trilhados por abordagens antropológicas, pelas quais os alunos irão transitar ao longo de todo o primeiro ano, especialmente na disciplina de filosofia.

Em um segundo momento, discorreu-se sobre facilidades e dificuldades dos agrupamentos. Cada um deveria pensar como, com as suas próprias características, poderia contribuir ou prejudicar o grupo e, em função disso, traçar uma meta. Logo, o grupo finalmente se reúne e se reconhece, e todos se apresentam com as suas próprias metas. Por fim, e mais importante, os alunos se debruçam sobre a redação de uma convenção que todos assinam de próprio punho e à qual retornarão sempre que, de um trabalho para outro, for preciso chamar a atenção de seus membros.

Toda essa sequência não se dá como forma de estruturar uma maneira coletiva de vigiar e punir, mas, sim, de ampliar e sofisticar as negociações inevitáveis entre as pessoas que conformam um âmbito coletivo, e das quais o desenvolvimento do conhecimento não pode se furtar a contemplar. Isso não pode ser feito sem um determinado grau de tensão, mas certamente quanto mais preparados estiverem todos, mais frutíferos serão os avanços.

Os desafios morais aumentam na mesma proporção que as exigências acadêmicas. O saber e a moralidade se desenvolvem em um mesmo processo. O cenário em que são cultivados vai determinar os valores que cada um levará dentro de si − seja em ambiente acadêmico, profissional ou longe do outro.

Pais: protagonistas da formatura do 3º ano

Escola da vila

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Por Susane Lancman 

O dia da colação de grau é especial, mas a maior beleza está no processo que compõe a formatura, que tem duração de quase um ano inteiro.

Todo ano é sempre igual. Mudam os personagens, grupos diferentes de alunos e pais com suas características específicas, mas fica o ritual. O que mais me emociona é ver o processo de construção da formatura por parte dos alunos. A escolha dos paraninfos, dos oradores, do mestre de cerimônias, do discurso e da surpresa para os pais. E, por parte dos pais, a escolha do tema, os comes e bebes, a decoração, e a SURPRESA PARA OS FILHOS.

Em relação aos pais, tudo começa na primeira reunião, em que é apresentada a ideia de eles estarem à frente de algumas decisões relacionadas à formatura. Mostram-se exemplos de anos anteriores, decide-se o local da Escola que será usado, são formadas comissões, e é agendado o primeiro encontro. A primeira decisão é relativa ao tema: “Qual característica dos alunos poderia se revelar como um tema do grupo?”. A partir daí, pensa-se na decoração, nos discursos… E as reuniões seguem com diferentes pautas até tudo estar organizado.

O número de reuniões varia de ano para ano, bem como a quantidade de pais participantes do processo. Cada grupo de pais é único, com criações peculiares, tornando a formatura uma surpresa para todos.

Durante as férias contei inúmeras vezes para amigos e familiares o processo de formatura dos pais deste ano, especificamente o flash mob. Para que não fiquem mal-entendidos, escrevo sobre essa última formatura pelo fato de a lembrança ser recente e ainda estar viva, e pela grande emoção que gerou nos pais, como é possível ler no relato a seguir, de Priscila, mãe do Caio Canedo Romano.

Descrevo brevemente, como espectadora, o que vi: os discursos terminam, os mestres de cerimônia descem do palco, 450 pessoas sentadas em suas cadeiras, alunos se localizam no centro, pais e convidados estão nas cadeiras no fundo e nas laterais da quadra. Segundos de silêncio, uma música começa a tocar, uma mãe se levanta da cadeira, dança em seu próprio lugar,  senta-se novamente, e a música continua. Três pais se levantam das cadeiras, dançam no próprio lugar, e sentam-se. Os alunos se entreolham, e a música continua.  Dez pais se levantam, eles dançam e sentam-se, e a música continua. Os alunos ficam boquiabertos. Trinta pais se levantam, eles dançam e sentam-se, e a música continua. Os alunos parecem paralisados. Mais de cem pais se levantam, saindo dos mais diferentes cantos do ginásio, e dançam. Eles se dirigem para a frente do palco, a música contagia a todos, os pais se juntam do lado esquerdo do ginásio, e dançam… incrivelmente coordenados, sintonizados e emocionados. Os alunos parecem atônitos! A música termina, e a ovação é geral.

Antes de dar voz à mãe, vale dizer que, todos os anos, participar da finalização do ciclo de escolaridade obrigatório gera um sentimento dúbio. Parafraseando Ferreira Gullar:

Uma parte de mim

É a tristeza com a partida dos formandos.

Outra parte é a felicidade

De vê-los ultrapassando os muros da escola. 

Uma parte de mim

Sofre com a mudança.

Outra parte vislumbra

E se deslumbra com o novo.

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Uma experiência que vale a pena contar

Por Priscila Canedo

Eu queria falar sobre como uma vivência artística pode unir, tocar e transformar um grupo de pessoas. A criação do flash mob que apresentamos para os nossos filhos na noite de formatura foi uma experiência que vale a pena contar, porque toda aquela emoção que contagiou as pessoas na hora foi um processo que nasceu singelo e cresceu.

A colação de grau do Ensino Médio é toda organizada pelos pais, com inteiro suporte da escola. Como em todo evento de formatura, têm os discursos dos coordenadores, dos paraninfos e oradores. Os filhos fazem uma homenagem aos pais, e os pais aos filhos.

A verdade é que, com o turbilhão da vida diária, juntar um grupo de pais para discutir e organizar uma festa e uma homenagem não é fácil. O propósito de todos é o mesmo, as ideias são muitas, mas a rotina pessoal de cada família dificulta o encontro. O grupo inicial que começou a preparar a festa era bem pequeno, formado por mães e pais que tinham certa afinidade ou que já haviam organizado formaturas de filhos mais velhos em anos anteriores.

O projeto flash mob idealizado por esse pequeno grupo nos foi apresentado na última reunião entre pais e professores da escola. Ninguém sabia muito bem o que viria dali para a frente. Eu tive a impressão de que aquele momento de apresentação seria para recrutar o maior número de pais possível para participar, e também para conhecer o nosso facilitador e coreógrafo, Rubens de Oliveira, que já naquela noite fez a gente dar uns passinhos, movimentar o nosso corpo e dar muitas risadas.

Foi lindo! Durante mais ou menos dois meses, nós, pais de alunos do terceiro ano do Ensino Médio nos reuníamos às quartas-feiras para dançar. Aquele pequeno grupo foi crescendo e se conectando a cada ensaio, com exercícios de respiração, dinâmicas de integração, e muito movimento. Nos primeiros encontros a gente ia chegando devagar, cumprimentando os demais com um aceno tímido, recebendo os comandos e obedecendo. A conexão foi progressiva. A cada encontro notava-se a evolução e crescia o envolvimento de cada um.

Uma vez, fomos divididos em grupos e o Rubens nos propôs pensarmos em uma palavra para dizer aos nossos filhos, e com essa palavra deveríamos criar uma pequena coreografia para expressá-la. Foi uma missão divertida, que nos fez perceber que estávamos fortemente conectados. Dos cinco grupos formados, quatro deles escolheram a mesma palavra: coragem.

As relações se fortaleceram! No ensaio geral o clima foi de ansiedade e comprometimento. A apresentação seria uma surpresa para a maioria dos filhos. Quando a música começou e ainda nada acontecia, eu fiquei olhando a expressão da molecada. Eles se viravam de um lado para o outro à procura do que poderia acontecer. Foi quando as primeiras mães se levantaram, depois os pais, até que todos começaram a dançar e a coroar toda essa vivência que passamos juntos.

Um momento de suspensão

Escola da Vila
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Por Tuna Serzedello

Olhos atentos observando filhos, alunos, colegas transformarem o espaço da escola em um lugar de sonho, lembranças, histórias, memórias individuais e coletivas.

A potência do teatro, latente nos alunos-atores, grande demais para ser contida em um corpo (ou vários) invade a sala e as mentes e os corpos dos espectadores, obrigada a seguir o elenco pelos espaços da escola, numa ação teatral que não fica presa a um só espaço da instituição, mas invade todos os outros.

Aqueles, pais e professores, acostumados a mostrar o caminho a ser seguido pelos jovens, neste momento de suspensão, se deixam levar pelos alunos-filhos-atores.

São muitas as denominações para esses jovens, sem contar os papéis que assumiram na peça Terror e Miséria do III Reich, mas que, como quer o autor alemão, com distanciamento brechtiano, sem deixar de serem eles mesmos, de exercitar sua consciência crítica.

Empoderados da força das convenções teatrais, que como uma onda transformadora, como um “superpoder” adquirido, vão se transformando e transformando ao seu redor: escola vira palco, que vira cozinha, que vira hospital, que vira trincheira. Espaços imaginários que se materializam ali, naquele mesmo lugar, no qual durante o dia se aprende matemática, química e literatura: um grande espaço transformador.

O mundo é grande demais e cabe inteiro nas salas dessa escola, que processa e devolve o aprendizado por meio de seus alunos, em forma de ato: de teatro.

O protagonismo jovem se exercita nesse palco da escola, que permite ser transformada por eles e assim os transforma.

O ato de transformar é transformador” diz o homem de teatro Augusto Boal.

Que os aplausos que nos despertaram desse momento de suspensão nos façam perceber a grandeza do feito de todos os envolvidos ali: pais, professores, alunos e funcionários da escola.

Hoje, quando voltarmos à “normalidade” da vida escolar, jamais nos esqueceremos de que aquela sala, ontem, foi um tribunal do III Reich, e que aquele aluno, sentado ali, carrega em si um ator. E ator é aquele que age.

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Relato de Rafaela Sérpico

“A vida é o que fazemos com nosso tempo.
Eu gosto de fazer teatro, e pra mim, minha vida só começou de verdade no momento em que fiz a primeira aula, em que li o primeiro livro em forma de peça e fui em uma peça. Quando subi em um palco pela primeira vez, devo admitir, achei que meu coração ia sair pulando e roubar minha cena.
Esse ano, fiz uma das peças que mais me entusiasmou.
Às vezes, treinando no meu quarto e falando “Heil Hitler” dava vontade e até cheguei a chorar diante de tudo que esta expressão tem por trás…
Mas, ao mesmo tempo, eu consegui me conhecer mais, consegui perceber que mesmo com todo esse valor de “bem” e “mal” imposto pela sociedade, todos temos ambos os lados, e todos devemos expressá-los e não guardar e guardar dentro da gente, porque eu sei que uma hora isso precisa sair. E essa peça me ajudou por isso, porque ela me mostrou esse lado, de que é importante ser aquilo que você não é, falar aquilo que você mais despreza e simplesmente encarar isso mais do que tudo, como uma forma de aprendizado e justa oportunidade de poder dizer tais diferentes concepções, afinal, a realidade dessa peça não é a minha, eu disse coisas que jamais pensaria ou teria tal visão de mundo. Mas eu me senti mais leve e eu não estou dizendo que meu lado “mal” é nazista, porque eu não sou nazista de lado nenhum.
O que quero dizer com tudo isso é simplesmente que eu percebi com essa peça, que o teatro é a melhor forma de colocar o lado “mal” para fora e é também a ferramenta que mais me traz autoconhecimento.
“Terror e miséria do III Reich” foi uma experiência simplesmente incrível, e por mim eu sairia pelo mundo todo apresentando ela e falando esse texto maravilhoso, e que trouxe o que nenhum dos milhões de filmes sobre o nazismo que eu assisti jamais me mostraram e representaram.
Fazer essa peça e usar meu tempo pra ensaiar ela em casa ou na escola foi a experiência que me mostrou que, da minha vida, que é o que eu faço com o meu tempo, quero fazer teatro, afinal, não existe vida onde não há teatro.”

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Relato de Carolina Alayon

“Nós do Grupo de Teatro 2016 da Escola da Vila, realizamos a peça “Terror e a Miséria no Terceiro Reich” por Bertold Brecht, dramaturgo poeta alemão. Foi escrita entre 1935 e 1938, fazendo uso de recortes de jornal, notícias recebidas da resistência – Brecht vivia então na Dinamarca –, rádio, ou qualquer forma que pudesse levar a informação além das fronteiras do Reich, que se estabelecia. É um panorama da sociedade alemã sob o domínio nazista. Uma coleção de instantâneos saída de casas operárias e cortes judiciais, de trabalhadores socialistas e comunidades judaicas, de campos de concentração e aulas da juventude hitlerista. Mais do que retratar uma década mergulhada em equívocos, Brecht nos força a enxergar a decadência de toda uma sociedade, sufocada pelo terror.
Esta peça teatral composta de múltiplos quadros independentes, aparentemente desconexos, em que cada cena nos mostra uma faceta do regime, em que as personagens cumprem todo o seu papel numa aparição breve que contudo as não diminui nem lhes retira força, encontra a sua unidade no seu título.
Os atores confirmam a ênfase desafiadora do texto e do caráter trágico, violento, repressor e opressor de seus personagens. Para atingirmos a compreensão do ato fora necessário muito esforço da parte de todos e ensaios acompanhados da direção de Tuna Serzedello, que disponibilizou obras de referência para estudo do grupo. Este diretor, que contribui maravilhosamente trabalhando arte/teatro com jovens, nos orientou no processo de construção do personagem e de ocupação do espaço da Escola para a apresentação, processo que demanda foco, bom gosto e disciplina.A profundidade e clareza do teatro, que consuma o momento histórico retratado em uma situação prática, é forte devido a temática, espelhada no período da Guerra nazista, do facismo hitlerista. Sua força intensa atinge o espectador quanto ser observador e sentimentalista, provocando um dilema reflexivo entre conforto e incômodo referente às condições físicas e emocionais tanto do personagem, quanto dos atores e dele próprio.”

XI Festival de Poesia. Tempo, espera e silêncio

Festival de Poesia da Escola da Vila
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A missanga, todos a veem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso,
vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo

Mia Couto

Por Vicente Domingues Régis 

O que faz com que mais de mil pessoas se encontrem e destinem grandes porções de seu escasso tempo à poesia, uma prática tão antiga e tão distante dos atuais traços da sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela voracidade e pelo consumo? Qual força sobrepuja o desejo quase incontrolável, que nos direciona diariamente para a frente das telas de nossos dispositivos eletrônicos, fazendo com que direcionemos nossa atenção para uma, duas ou três pessoas que declamam lentamente textos de Mel Duarte, Mário de Andrade, Mayakovsky ou Wislawa Szymborska? Por que insistimos em nos sentar na grama, em silêncio, durante tanto tempo, envolvidos pelas vozes daqueles que ousam derramar íntimos sentimentos em um antigo coreto, embalados pelos maxixes, choros e marchinhas de compositores como Anacleto de Medeiros, nascido há cento e cinquenta anos?

Como resposta a estas questões, nos reunimos no sábado, dia 29 de outubro, em frente ao coreto do Parque da Chácara do Jóquei para a realização do XI Festival de Poesia: “A poesia na rua, a rua na poesia”. Foram seis horas intensas de declamação, música, performance, oficinas, exposições de trabalhos, e encontros. Seis horas de protagonismo dos jovens que frequentam nossa escola, das suas famílias, de seus professores, e dos demais membros da nossa comunidade.

O espaço para a realização desse evento foi gentilmente cedido pela administração do parque, mediante a contrapartida de esgotamento da fossa de um dos banheiros e pintura do coreto e da área externa do redondel, realizados pela escola. Tivemos um público estimado de 1.200 pessoas durante o evento, que contou com o concurso de poesia falada, no qual foram declamados poemas de Vinicius de Moraes, Ana Cristina Cézar e Solano Trindade, entres muitos outros autores, e mais uma série de ações. Dentre estas, destacam-se as oficinas de criação de pôsteres, origami, criação de proposta de arte visual baseada em poema, o show dos Batutas do Coreto em homenagem a Anacleto de Medeiros, compositor carioca de importância fundamental para música brasileira, e, ainda, as apresentações dos grupos de teatro do Fundamental 2 e do Ensino Médio. Como encerramento do evento, alunos do Ensino Médio criaram uma performance relacionando o conto Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, com as canções Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos − que ganhou letra de Ferreira Gullar e Terceira Margem do Rio − canção homônima do conhecido conto de Guimarães criada por Milton Nascimento e Caetano Veloso. Tudo isso aberto ao público que frequenta o parque.

Vale ainda lembrar que os mais de 150 poemas inscritos no concurso de poesia escrita, assim como as oitenta inscrições para o concurso de poesia falada são, em grande parte, ecos de uma proposta pedagógica que valoriza a sensibilidade, a subjetividade e o diálogo. Reverberam de uma proposta pautada na autonomia e na cooperação, como pode-se observar no belíssimo e fundamental trabalho dos mestres de cerimônia: Carlos Navas, Daniel Innecco, Gustavo Torres, Gabriel Sampaio, Mariana Assef, Sabrina Cardoso e Yuri Carvalho − que se organizaram para tocar o evento e precisaram de pouquíssimo auxílio do setor cultural e dos demais profissionais da escola envolvidos na organização do festival.

Certamente, são muitos os motivos que concorrem para que destinemos tanta energia e tempo num festival como este. Entretanto, são estes de natureza tão subjetiva, singela e variada que não cabem ser resumidos aqui. Vale concluir: sentimos a necessidade do encontro em torno do fio que vem sendo tecido em silêncio pelos poetas há tanto tempo.

Aproveitamos o momento para parabenizar mais uma vez os vencedores dos concursos de poesia escrita e falada:

Poesia Falada

Categoria A

1o lugar: Bento Sipahi Pires Gonçalves dos Santos.

2o lugar: Alice Rossi, Lola Aguiar, Dora Mariani, Sofia Camargo.

3o lugar: Majoí Sotero Costa.

Menções honrosas: Frederico Kipnis e Luis Fernando Souza Dória.

Categoria B

1o lugar: Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Cecilia Neves Nannini, Marina Gregori Tokita, Manuela Arruda Pinto Lima, Paola Franceschini Giovanolli.

2o lugar: Lorena Polo.

3o lugar: Giulia Guarrera Zanetti.

Menção honrosa: Helena Veliago Costa e Laura Santanda.

Menção honrosa: Sofia de Carvalho Galvão e Fernanda Contarelli Lima

Categoria C

1o lugar: Median Aurea Trigo Grotti Vidal Costa.

2o lugar: Juliana Giannini, Luiza Moraes e Clarice Barreira.

3o lugar: Paula Lisboa e Teresa Lisboa.

Menção honrosa: Noam Rafael Kramer.

Poesia escrita

Categoria A

1o lugar: João Pedro Sequeira Rocha, “Infinito”.

2º lugar: Benny Sadka, “Marola”.

3º lugar: Bruno França, “Amor aleatório”.

Menções honrosas:

Nicolas Fernandes, “Negritude”.

Anne Hirata, “O tempo”.

Categoria B

1º lugar: Beatriz Bannwart Novaes, “sem título”.

2º lugar: Catarina Simonetti de Mattos, “Epinaufraga”.

3º lugar: Lua Bonduki de Sousa, “cena estática”.

Menções honrosas:

Bruna Duarte Savietto Frati.

Júlia Menezes, “A menina de cá”.

A política, os adultos e os jovens: qual é a interseção?

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Há quem diga que estamos vivendo um momento histórico na vida política do país. Inclusive, algo que acompanhe certo ciclo cronológico e geracional, ao menos desde o golpe de 1964, passando pelas “Diretas Já” e pelo impeachment de Fernando Collor. Para muitos, é um momento promissor, pois mudaram os atores de uma política incorreta, enquanto, para outros, mudaram apenas os atores, e tudo segue igual. Também estão os que entendem que era preciso fazer algo, mas não têm muita clareza sobre, justamente, o que deveria ser feito. As opiniões, enfim, são muito variadas. Pode-se concordar em algum aspecto genérico, mas, quando são aprofundadas as análises, as diferenças aparecem. Isso quando as pessoas têm opiniões sólidas, o que nem sempre acontece, especialmente em um momento que permite tantas especulações.

Mas o que opinam e o que fazem aqueles que ainda sequer votaram em uma eleição? O fato de não terem ainda idade para votar ou que estrearam seu título eleitoral em outubro deste ano turbulento, não significa que estejam alheios ao que ocorre. Se bem que é verdade que, por um lado, parecem ter opiniões contundentes em uma situação tão peculiar; por outro, é louvável que estejam em busca de algo a ser feito no mundo político. Dizemos louvável porque, se nós, eleitores adultos deste Brasil gigante, chegamos a concordar com alguma coisa, por mais vaga que seja, provavelmente concordaremos que algo precisa ser feito. Só não somos unânimes – ou não sabemos – o que deve ou pode ser feito.

Pois bem! Eis que muitos alunos têm manifestado opiniões políticas. As formas como isso tem ocorrido foram muito variadas: assertivas ou vagas, em pequenos agrupamentos, em grupos diminutos, individual ou isoladamente; com contundência ou com ar de desamparo; algumas vezes, com matizes violentos; outras, com diálogos extensos e inconclusos. Em certo aspecto, nada tão diferente do que também pode ser identificado no mundo adulto. Neste texto, no entanto, tentaremos nos ater justamente a algumas características que possam diferir das manifestações políticas entre eleitores velhos e, digamos, eleitores estreantes.

Talvez a melhor forma de encontrar as características próprias da vida política de um adolescente seja muito mais o papel que as atitudes dessa natureza cumprem em sua vida, e não tanto o conteúdo de suas opiniões. Para entender melhor, vale a pena nos determos para observar o que é que se exige desses adolescentes no mundo de hoje. Esta é uma maneira, ainda que limitada, de tentarmos nos colocar na pele deles.

Uma das coisas que os adultos mais cobram de um Homo sapiens de 16 anos de idade é que ele seja, de uma vez por todas, autônomo. Afinal, ele já tem dimensões anatômicas adultas, é fisicamente capaz de se vestir, arrumar o quarto, locomover-se pela cidade, estudar, praticar esportes e, por que não, pensar sobre o próprio futuro. Para não falar no direito ao voto. Em todo caso, quando não faz nada disso, nos surpreendemos, e lhe perguntamos o que está esperando para realizar qualquer uma dessas coisas. Afinal, o “mundo lá fora” não é mole e ele não poderá passar a vida entre os “seriados” e a geladeira cheia de guloseimas.

Há inúmeras formas de esse sujeito mostrar, justamente, que pode fazer muitas coisas que os adultos fazem. Ele pode beber cerveja, por exemplo. Ou pode também fumar cigarro. Pode andar pela cidade de madrugada. Os exemplos pelos quais ele sente que pode se aproximar da vida adulta é flertando, muitas vezes, com situações arriscadas – e, não raro, com uma imprudência fabulosa. Certo tempo atrás, publicamos, neste blog, um texto sobre o papel da discussão política entre pais e filhos. Tudo indica que vale a pena retomar esse assunto, inclusive por um viés que, agora, nos aproxime das organizações de adolescentes e jovens que têm como fim a ação política.

A política é, portanto, uma forma de participar da vida adulta. Curiosamente, os jovens costumam encontrar aí, com bastante frequência, forte resistência dos adultos que os rodeiam, sejam eles pais ou educadores, que agem diretamente com eles, sejam aqueles que os observam de longe. Os adultos que se deparam com os argumentos de um rapaz de 16 anos de idade o olham com indignação. Tal sentimento pode derivar basicamente de dois fatores: por um lado, ou porque esse adulto se espanta de como alguém dessa idade pode estar tão convicto do que diz, tendo ele argumentos a princípio ingênuos e pouca experiência de vida; e, por outro, um aspecto que pode se somar ao que acabou de ser relatado, mas que é ainda mais perturbador: o adulto se desespera porque o filho ou o aluno estaria “virando” algo muito ruim, politicamente falando. Estaria ganhando uma identidade que é totalmente diferente daquilo que o pai ou o educador esperam que ele seja.

Ambas as situações desprezam uma série de elementos fundamentais, que vale a pena enumerar. Em primeiro lugar, podemos pensar que, para além de buscar uma exposição física a um determinado risco para mostrar sua potência – como poderia ser o de abusar das drogas ou dirigir em alta velocidade, ou acampar em um lugar estapafúrdio, ou surfar em um mar revirado, por exemplo – estamos diante de alguém que busca um combate em uma via infinitamente mais madura. No caso do envolvimento político, trata-se de esgrimir argumentações que exigem repertório e articulação.

Também tratamos de valores, ética, ideias e ideologias, elementos abstratos que buscam apoio no concreto, no intuito, sem dúvida alguma, de uma melhoria que escapa tanto da qualidade do wi-fi para seus seriados quanto dos quitutes na geladeira: uma melhoria nada menos que do mundo em que se vive.

A ação política, se, por um lado, é um exercício de convivência em um grupo de fortes afinidades subjetivas, por outro, impele ao inferno das negociações para conviver e construir algo junto com os outros. O grêmio escolar é um típico exemplo disso.

Em suma: se queremos que nossos alunos e filhos ganhem autonomia para mostrarem a sua potência em âmbitos razoavelmente sofisticados e construtivos, precisamos abrir espaços para a contestação política dentro do respeito e da boa argumentação. O momento político do país é muito propício para isso.

Educação, política e desconforto

Escola da Vila

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Por Fermin Damirdjian

Há um princípio no ensino construtivista que afirma ser necessário tirar o aprendiz de sua posição de conforto no que diz respeito a seu conhecimento de mundo. No fundo, trata-se de uma tendência inerente ao ser humano: um bebê passeia seus olhos por seu entorno, e qualquer coisa que lhe chame a atenção já lhe causará um desequilíbrio interno, o qual pode variar desde uma pequena atividade mental até querer alcançar esse objeto fisicamente.

Em outras situações, o desconforto surge internamente, por exemplo, quando esse bebê sente fome, o que lhe causa irritabilidade e, em condições normais de temperatura e pressão, isso será reconhecido por aqueles que o assistem e, assim, aquele choro, aquela cara, aqueles movimentos serão interpretados e vão gradualmente se transformando em formas de comunicação. Em estágios seguintes, a palavra vai tomando o lugar desses sinais físicos.

No caso de um educador, o que ele pode fazer é provocar um sutil desconforto nos alunos de acordo com o repertório que eles já têm, e assim oferecer um desafio intelectual que os mobilize a especular e a buscar respostas, construindo boas perguntas. Ocorre que, em muitos casos, os alunos mesmos trazem indagações por sua própria conta e voracidade intelectual, a partir de um repertório já adquirido que lhes permite observar o mundo e querer interpretá-lo. Aqui já não estamos falando necessariamente de estudantes, mas sim de jovens em geral, cuja curiosidade e inquietação se expressam vinculadas ou não à sala de aula. Nos referimos àqueles que colocam em ação suas dúvidas, tanto no papel de alunos como no de filhos ou cidadãos, sem distinções entre esses âmbitos. Devemos considerá-los, em última instância, sujeitos.

Ocorre que essa contemplação do processo educativo e sua relação com o desconforto também deve levar em conta a mobilização de outra figura: aquele que educa. Pai, mãe, padrinho, professor, orientador, não importa: se há alguém ali que se vê apropriado de seu papel, seja no momento de ouvir um choro e alimentar, seja ao se deparar com perguntas ingênuas, substanciosas, assertivas ou vagas, se esse sujeito educador é de fato receptor de tais mensagens, ele se vê e convive em situação de desconforto.

Um casal que busca oferecer à sua criatura certo grau de previsibilidade em horários de sono e refeições, para assim regular o ritmo fisiológico e dar a ela certa segurança psíquica, tem seu mérito, tanto como um professor que antecipa a rotina a seus alunos, seja de uma aula, seja do complexo percurso acadêmico ao longo de um ano. Antecipar o ouvinte é prepará-lo. Do mesmo modo, em um processo antecipatório de ordem menos racional, as expectativas daquele que educa e cria são fundamentais, pois estão carregadas de desejo e afeto, elementos que andam juntos e são determinantes na constituição da subjetividade.

Nessa dinâmica, porém, ganha corpo uma premissa paradoxal: é necessário estar preparado para o imprevisível. Podemos, e talvez devamos, antecipar o que pode ocorrer na vida, o que é natural fazermos, visto que, no mais das vezes, tal antecipação é fruto de ansiedade e desejo de realização, já que projetamos muito nos jovens aquilo que gostaríamos que com eles ocorresse. No entanto, eles nos surpreendem, sempre.

A situação política atual, que ainda nos custa delinear e interpretar com clareza, é palco fértil para a ação dos jovens. Não esqueçamos que eles já são aptos em termos físicos, psíquicos e culturais para elaborar questionamentos e projeções nutridas com forte carga de desejo e transformação. O que fazer diante disso, como pais e educadores? Passemos a outro âmbito para especular a partir dessa pergunta.

Com frequência, o ex-jogador, médico e colunista Tostão nos oferece observações sobre a dinâmica do futebol que transitam entre a amplitude das reações humanas e as ações de um jogador, um técnico ou um time em campo. Para além de analogias baratas, é possível encontrar o papel da previsão e do imponderável que, em última instância, estão no âmago do trabalho de um técnico. A técnica se prestaria a dominar justamente aquilo que é impossível de controlar: o surpreendente.

Expulsões, contusões, erros de árbitros, bolas perdidas, acasos, que não sabemos onde e quando vão ocorrer, e tantos outros detalhes e instantes fugazes mudam a história de uma partida, de um campeonato, ainda mais em jogos mata-mata. Por muito pouco, por muitos quases, fazemos isso ou aquilo, somos uma coisa ou outra, ganhamos ou perdemos. “Viver é um descuido prosseguido” (Guimarães Rosa).

“Instantes fugazes” – Folha de São Paulo. 30/08/2015

Apesar de tanto estudo e experiência, tanto seu time como o de seu adversário surpreendem o técnico com pequenos acasos e acidentes que alteram dramaticamente o que tinha sido previsto. Para muito além de grandes esquemas táticos, os pequenos elementos que permeiam a ação nos 90 minutos são as faíscas de riqueza e tensão que caracterizam e encantam em qualquer esporte.

A ação educativa não é diferente. Não faltam especialistas de toda ordem que estudam à exaustão e opinam sobre as variáveis que compõem a situação sobre a qual discorremos. Psicólogos, psiquiatras, professores, pedagogos, neurologistas, fonoaudiólogos, psicopedagogos e as respectivas especialidades de cada um desses âmbitos de conhecimento, para não citar mais, têm, muitas vezes, opiniões assertivas sobre como proceder. E, é claro, estão os pais, que não são menos sábios do que todos esses. Ao contrário, muitas vezes há um saber que não está em prancheta alguma, em livro algum, e que se manifesta em lances quase imperceptíveis no convívio cotidiano.

O psicólogo Júlio Groppa Aquino, justamente, procura se apresentar mais como um especulador do que como um especialista, e costuma atentar em suas apresentações e estudos para aquilo que há de improvisado no gesto educativo, e que talvez seja o principal momento de calor no ato de educar. Há reações e contrarreações entre alunos e professores, ou entre filhos e pais, que muitas vezes são frequentemente mais efetivas que ações pensadas previamente. Momentos compartilhados que apresentam o mundo em seu potencial criador, frustrante ou realizante. Isso não ocorre sem a surpresa não apenas da criança ou do jovem, mas também de pais e educadores que, sem deixar de se surpreenderem, conseguem, quase que por acidente ou de forma intuitiva, absorver inquietações e dar-lhes contorno. Mas isso não ocorre sem sair da previsibilidade do conforto.

Na atual conjuntura social e política, o mínimo que podemos esperar são reações juvenis que apresentem perguntas contundentes e propostas incisivas, denunciando o que eles encontram de disfuncional nas estruturas institucionais que aí estão, construídas supostamente para viabilizar a devida participação popular na vida pública. Reagir de modo a fazer um jogo raso e truncado não resolve nem permite a criação de novos caminhos. E esperar comportamentos previsíveis, por outro lado, seria ingenuidade.

Precisamos ter não necessariamente respostas, mas disposição para viver no acidente, na surpresa, oferecendo aos jovens contraposições firmes que estimulem não a ausência de criação, mas sim diálogos consistentes. Há valores tais como conhecimento, colaboração e autonomia que devem estar garantidos – e, para mérito desta escola, das famílias e dos próprios jovens, podemos afirmar que tais valores estão bastante presentes. Para além disso, esperar que esses jovens respondam de modo inquestionável um roteiro meticuloso previamente elaborado por pais e educadores seria não apenas ingenuidade, mas também um sinal de que alguma coisa está saindo errada em nosso projeto de formar sujeitos pensantes.

Programa Scholas Cidadania reúne jovens para discutir a solução de problemas da comunidade onde vivem

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Por Francisco Eduardo Bodião

Desde segunda-feira, um grupo de alunos da Escola da Vila participa de um encontro entre escolas públicas e particulares – Scholas Cidadania. Esse é um programa desenvolvido pela Fundação Scholas Occurrents, criada pelo papa Francisco enquanto era bispo na Argentina, e que agora está sendo desenvolvido em vários países da América Latina. Pela primeira vez no Brasil, o programa conta com o apoio do Instituto Olga Kos e da Prefeitura de São Paulo.

O objetivo dessa atividade, no CEU Cidade Dutra, em Interlagos, até a próxima sexta-feira, é aproximar adolescentes e escolas da cidade, de bairros e de realidades distintas. Os estudantes vão discutir problemas comuns das regiões em que moram ou estudam, valorizando a cultura do encontro por meio do compromisso de participação cidadã a favor do bem comum, com ênfase, também, ao pluralismo social, cultural e religioso, em uma cidade tão diversa como a nossa.

As atividades são intensas. Os adolescentes, em sua maioria de 1ºs e 2ºs anos do Ensino Médio das escolas participantes, escolheram temas de pesquisa e debate semanas antes de a atividade começar, e durante esses dias estão seguindo uma metodologia de trabalho que começou com a identificação de hipóteses, a elaboração de instrumentos de coleta de dados e entrevistas. Sairão a campo para entrevistar especialistas e população. Produzirão documentos e propostas com a intenção de impactar a reflexão de autoridades e sugerir a criação de políticas públicas para as demandas pesquisadas e debatidas.

Nossos alunos estão experimentando dias de muito trabalho e convivência, que também são muito especiais nos momentos de “recreio” e descontração.

Amigos, colegas, conhecidos, populares: reflexões sobre categorias transitórias da adolescência

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian

A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.
Platão

Yo diría que el amor no puede prescindir de la amistad. Si el amor prescinde de la amistad es una forma de locura. Una especie de frenesí, un error, en suma.
Jorge Luis Borges

E sei que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior?
Caetano Veloso

Seria necessário um compêndio de citações para nos aproximarmos de alguma definição sobre a amizade. Não é exatamente o que se pretende aqui. Ocorre, no entanto, que, em plena adolescência, garotos e garotas parecem se perguntar sobre esse tema tanto quanto poetas e escritores dos mais diversos lugares e momentos históricos. Em uma escola, costumamos dizer aos alunos que há amigos com os quais podemos contar para nos divertir, e outros com os quais podemos trabalhar e estudar em sala de aula. Eles nos olham como se os adultos nada soubessem a respeito da amizade. Como posso estabelecer categorias do tipo “trabalhar” e “estudar” quando penso na minha vida afetiva? Adolescentes podem não ter a perspectiva de tempo que ganhamos com o passar dos anos, mas não lhes falta consistência aos questionamentos que nos apresentam na sala da orientação educacional.

Os elos encontrados entre adolescentes são de uma força sem precedentes. Vemos amigos que não se desgrudam; uma necessidade infinda de estar fisicamente próximos, em sala de aula, na volta da escola, no fim de semana. Por outro lado, estão aqueles marcados por não terem companhias com essa força (garotos e garotas que não são influentes no grupo). E todas as variações existem em um mosaico social que nunca termina de se definir.

É comum ouvirmos uma menina “superpopular” nos dizer que sabe que está sempre rodeada de gente, mas que descobre não ter nenhum amigo ou amiga de verdade. Um conflito se apossa de um sujeito; que, ainda assim, se nega a abandonar seu papel nessa nau de loucos que parece ser uma turma de amigos nessa faixa etária.

O fato é que há certas coisas na adolescência que, embora possam ir se acomodando no lodo mnemônico algumas décadas depois, certamente deram as bases para estruturar nossas relações humanas ao longo da vida. As experiências da adolescência podem não ser todas determinantes, mas certamente dão os rumos do barco por muito tempo.

Entre os 15 e os 18 anos, ao longo do Ensino Médio, os grupos se reacomodam na mesma velocidade das transformações físicas e emocionais dos alunos. Muitos deles apresentam um personagem a cada ano, e com ele muda seu entorno social mais próximo. Preferências estéticas, sexuais, musicais, ideológicas, podem acontecer, ao mesmo tempo em que transitam por um mosaico de conformações grupais variadas.

Ocorre que, em torno de todos eles, há adultos olhando, muitas vezes com um certo ar de preocupação. Essa circulação entre os vínculos sociais ilustra também outras indefinições da faixa etária, que normalmente incomodam os pais, tendo como “carro-chefe” a escolha profissional com a “instituição-alvo”, já bem clara e escolhida. Com a mesma necessidade de saber “o que você vai prestar?”, os pais também se questionam quando é que o filho ou a filha vai se definir como sujeito. A que grupo vai pertencer? Por quanto tempo vai negar os estudos? Quando vai optar entre a banda e a carreira universitária? Quando vai pensar em algo além de futebol? Vai sempre andar com a turma que apronta no fim de semana? Ou ainda: por que ele nunca sai no sábado à noite? Ela está aflita demais com o vestibular? Ele está numa fase difícil ou é tímido mesmo? Ele é do tipo que tem poucos amigos ou se sente fracassado por não pertencer a uma turma mais numerosa e barulhenta?

Não podemos, porém, esquecermo-nos de que essa tortuosa trajetória é mais que necessária para estabelecer identidades duradouras. É uma experimentação que dá vida às escolhas pessoais, ao tipo de indivíduo que se forma a partir do contato com tão variados ambientes.

Pode parecer um trânsito superficial, por ser, muitas vezes, tão veloz, mas se esperamos alguma consistência no caráter, ou em escolhas pessoais, é preciso tempo de maturação. Não raro os pais se preocupam, com total legitimidade, com seus filhos, por estarem estes tão indefinidos. Mas também é preciso reconhecer que nós, adultos, também parecemos um tanto imediatistas, por querermos que um indivíduo configure um caráter tão sólido e com sentimentos tão profundos em tão pouco tempo.


Reedição de post publicado em agosto de 2012.