Sobre eventos, celebrações e Brasil

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

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Por Eliane Mingues, formadora dos professores de F1 da Unidade Granja Viana

Ao final de um evento, seja ele qual for e onde for, lá no fundo, nos vem uma sensação boa de dever cumprido, já perceberam? Dever que é quase um aliado da obrigação e muitas vezes tão comum, quando falamos de instituições. Só que, na verdade, quando o evento é mais do que um dia na agenda, essa sensação não é de dever, mas de satisfação – porque tudo deu certo.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E aqui vale um parêntese, o que é dar certo? Como andam nossas métricas de sucesso e perfeição? Com nossos dias corridos e exigências cada vez mais acirradas, estamos conseguindo valorizar o que de fato importa? É nessas horas, no depois, que temos que colocar reparo: o que é perfeito? Perfeito para quem?

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Os eventos, aqui na Escola da Vila, são grandes parceiros dessa minha reflexão. Isso porque eles não são seus, nem meus, nem de ninguém, mas, sim, de cada aluno e de suas emoções e empenhos ali depositados. A partir de cada um é que chega até nós a celebração daquilo que eles fizeram, puderam e conseguiram, numa partilha solidária que só as a crianças sabem prover.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

O “Um Pouquinho de Brasil”, realizado no último sábado na unidade da Granja Viana, foi mais um evento que deu certo. Emocionou quem esteve presente porque pudemos sentir cada depósito de atitude e comprometimento dos alunos com aquele dia. Sua duração, das 10h às 14h30, foi apenas um instante para celebrar com eles uma festa que começou muito, muito antes. No pensamento conjunto entre professores e alunos sobre as oficinas, na preparação de cada trabalho, no empenho de sua preparação e montagem, nos sons e nas formas que queríamos contar a respeito do nosso país, esse tal Brasil que anda atribulado ultimamente, assim como todo o restante do mundo, de certa forma.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

É que, “Um Pouquinho de Brasil”, uma tradição na Vila, é o reconhecimento autêntico do nosso espaço na rica cultura popular brasileira que nunca pode ser abandonada pelo lastro da globalização. A gente sempre celebrou o Brasil por aqui, e construindo esse pensamento com nossas crianças e jovens, preservamos um orgulho que passa pelo reconhecimento do que temos de melhor, mas também de pior, para corajosamente ampliarmos o bem ou contribuirmos verdadeiramente com as mudanças necessárias.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Cada lantejoula costurada no painel da entrada, cada colagem do nosso lambe-lambe comunitário para a fachada da escola, cada família participante, cada som do tambor na apresentação do grupo Tiquequê, cada olhar curioso perante as tecnologias que convivem, e muito bem, com as tradições, cada olho no olho dos nossos alunos, cada qual, cada um, cada ação individual e coletiva dessa festa nos encharca de vida boa, fica na memória e faz jus aos dias que buscamos para o futuro das nossas crianças.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

“Um Pouquinho de Brasil”, aqui na Granja, ainda nos deu a conhecer outras situações especiais de outros projetos desenvolvidos durante o primeiro semestre, e assim pudemos adentrar outros cenários e conhecer os répteis e animais do fundo do mar, o museu da família, que este ano foi todo organizado pelos alunos, e a exposição dos anos 60 e 70, que retratou toda a pesquisa e o estudo sobre esse tão conturbado período da nossa história.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E depois de sair tão nutrida por tantas e tantas coisas lindas construídas pelos alunos, tudo o que foi possível sentir ali naquele sábado de sol foi: que bom que somos brasileiros. Que bom que decidimos estar juntos. Que bom que escolhemos partilhar esse momento. Que bom que vocês foram lá para ver os alunos da Escola da Vila cuidando do patrimônio do nosso país.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Que bom que tudo deu certo. E que bom, sendo assim, ter sido perfeito entre os seus diferentes e os seus iguais.

Dever cumprido! Ou melhor, mais um ano de grande satisfação.

E agora? Terei prova de matemática!

Escola da Vila

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A introdução da avaliação por conceito nos 3ºs anos

Por Amanda B. da Costa Leite e Nancy Serrano Rodrigues,
professoras dos 3ºs anos do F1 da unidade Granja Viana

Em nossa escola, o processo de avaliação formal e a comunicação por meio de boletim e conceito se iniciam de modo gradual no Fundamental 1.

Quando os alunos chegam ao 3º ano, além da diversidade de instrumentos que eram avaliados, são inseridas as provas na disciplina de matemática, tornando-se uma prática frequente nas outras disciplinas a partir do 4º ano. 

“Minha primeira prova foi muito preocupante, mas depois descobri que não é para ter medo.

Ela é um instrumento de avaliação que serve para ver o que você já sabe bem e o que ainda não sabe tão bem.

E descobrir isso ajuda a aprender!”*

O desconhecido causa um certo estranhamento e pode gerar medo.

Muitas vezes os pais ficam angustiados por não saberem como lidar com a situação da primeira prova, talvez porque não tenham tido boas experiências em relação a isso. As avaliações que conhecíamos eram classificatórias e seletivas e não se preocupavam com a progressão e o ajuste do aprendizado.

Os estudantes precisam conhecer as formas pelas quais são avaliados para saber o que o professor espera deles.

Nosso projeto de avaliação consiste em levantar dados relacionados às aprendizagens e aos avanços dos alunos e, a partir deles, construir mecanismos de remediação, de modo que o indivíduo tenha acesso ao conhecimento de outra maneira.

“Na primeira prova vocês vão ficar um pouquinho nervosos, mas não precisa ficar, porque se tirarem B, A ou C, tudo bem!

Vai ser sua primeira prova, e vocês vão estudar até conseguir melhorar!”*

Os momentos de orientação de estudo, as grades de correção e a análise dos resultados auxiliam no encontro de como estudar, além de ser um oportuno espaço para dicas e acolhimentos de dúvidas.

Várias rodas de conversa e outras atividades contemplam o significado dos conceitos (A, B, C, D, E), que passam a fazer parte das aulas, como registro do desempenho escolar expresso por meio de letras.

É no 3º ano que os alunos se deparam com conceitos nas atividades, e é normal desejarem a nota máxima. Mais do que almejar um “A” é mostrar para as crianças o que os conceitos sinalizam: quanto já sabem e quanto precisam se regular para melhorar, no sentido de aprender mais e não para classificar-se como melhor.

“Eu descobri que a prova é uma atividade igual a tantas outras que a gente faz!”*

As provas compõem o processo de avaliação, mas não são determinantes para a atribuição dos conceitos, uma vez que temos por referência outras propostas realizadas ao longo do trimestre. 

A prova de antigamente deixa de ser a única ferramenta servida pelo professor e dá espaço a outros instrumentos que, juntos, oferecem dados sobre a aprendizagem dos alunos.

O erro é visto como fonte de informação, tanto para o professor que analisará a produção e conhecerá a situação do seu aluno, quanto para o aluno que precisará compreender seu erro e avançar.

Portanto, se observarmos a avaliação atual como formativa, a serviço do professor e dos alunos, como um instrumento a ser incluído aos tantos já vistos no 2º ano, será que nossos filhos ainda terão medo da prova?


* Todos os comentários entre aspas foram feitos por alunos mais velhos da Vila para os alunos do 3º ano.

Um espaço democrático na literatura

Por Fabiana Saviolo e Merielen Valdevite

O 1º e o 2º ano da unidade Granja Viana participaram, nestes primeiros meses do ano de 2017, de uma tertúlia dialógica, proposta que oferece uma excelente oportunidade para reforçar os três valores essenciais do projeto pedagógico da Escola da Vila: autonomia, conhecimento e cooperação. “Mas o que isso quer dizer?” “Tertúlia? Que nome estranho!” Foram algumas das perguntas que surgiram quando escrevemos “TERTÚLIA” na rotina dessas séries; e que também podem estar passando na cabeça de vocês.

Tertúlia dialógica é um espaço de diálogo que favorece a troca de saberes entre os leitores sem que haja nenhuma distinção de idade, gênero, cultura ou capacidade. Essa maneira de tratar as crianças em tom de igualdade envolve alguns princípios que consideramos importantes: a solidariedade, o respeito e a confiança.

Muitas inquietações surgiram quando nos debruçamos nesse tema. Será que crianças tão pequenas dão conta de participar dessa proposta? Qual livro e qual gênero deveríamos escolher? Quais seriam as nossas intervenções antes, durante e depois? Para que uma tertúlia, de fato, aconteça, é necessário garantir:

• O professor como moderador – alguém que organiza a conversa, garantindo a participação e o respeito pela opinião de todos, criando um espaço de diálogo, em que o desafio para as crianças seja a argumentação. Aqui, o professor não deve fazer intervenções acerca do que é certo ou errado ou trazer aspectos da literatura para serem discutidos, tudo deve fluir a partir das contribuições das próprias crianças.

• A organização do turno da palavra – o moderador inicia a tertúlia perguntando quem gostaria de compartilhar um trecho do livro lido, e a partir das “inscrições” das crianças, organiza a ordem de fala. Dessa maneira, mais uma vez, são garantidos o respeito, a diversidade de argumentos e a participação igualitária.

Escola da VilaEscola da Vila

A organização do espaço já propicia uma interação entre 1ºs e o 2ºs anos há algum tempo: todas as quartas-feiras as salas são abertas para que os cantos sejam feitos coletivamente, e foi justamente nesse espaço, tão conhecido pelos alunos, que iniciamos o trabalho disponibilizando os livros para apreciação.

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A próxima etapa foi a leitura do livro, feita pelas próprias crianças em grupos com alunos do 1º e 2º ano misturados. Assim, um aluno do 2º ano tinha como desafio ler o livro para o seu grupo. Após a leitura, todos juntos deveriam selecionar um trecho ou uma ilustração para compartilhar com os demais.

Como este foi o segundo ano dessa atividade, os alunos que participaram no ano anterior, no caso os de 2º ano, sentiram-se motivados e orgulhosos quando atuaram no papel de leitores.

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Enfim chegou o dia da tertúlia realmente acontecer, e todos puderam comentar os trechos escolhidos, foram muitos comentários acerca das ilustrações: “a música está fazendo a árvore crescer”; “percebi que ele não estava só cavando, ele está fazendo a casa dele”; dos sentimentos despertados pela estória: “eles estão fazendo as pazes através da música”; “as pessoas queriam dormir lá por causa da música”.

Ao final do trabalho, pudemos observar o quanto esses momentos propiciam realmente uma escuta igualitária, acolhendo diferentes pontos de vista, permitindo a expressão de todos. Assim, a interação entre salas e o deslocamento dos alunos para uma posição de protagonistas conferiram significado ao aprendizado da leitura para crianças que estão em plena formação literária, e que continuarão se encantando cada vez mais com esse universo.


Referências:

Aguilar, C. (2008). La tertulia literaria dialógica de LIJ. Otra manera de entender la lectura en la formación de maestros y maestras. Revista de Literatura, 236, 27-35.

Caderno Tertúlias Dialógicas – Instituto Natura.

Flecha, R., García, R., & Gómez, A. (2013).Transferencia de tertulias literarias dialógicas a instituciones penitenciarias. Revista de Educación, 360, 140-161.

Um SMA diferente: o trabalho do 4º e do 5º ano na unidade Granja

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Por Luiza Moreira 

“As crianças mais novas podem aprender coisas comigo e eu com elas.
É uma oportunidade de eu ensinar para os colegas.
E é bom para mim também porque eu aprendo algumas coisas quando estou ajudando.”
Aluna do 5º ano 

O Sistema de Melhoria da Aprendizagem, mais bem conhecido como SMA, é um espaço em que os alunos revisitam os conteúdos de Práticas de Linguagem ou Matemática, de forma a retomarem seus percursos de aprendizagem e avançarem no que não foi possível em um momento anterior. As aulas, que compõem um processo de recuperação paralela, são voltadas para os alunos do 4º e 5º ano.

Na unidade Granja, o SMA é um pouco diferente, pois, além de ter os objetivos colocados acima, ainda conta com a iniciativa de unificar esses espaços interséries, o que tem sido potente para a aprendizagem – é quando abrimos as paredes das salas de aula, dobramos o espaço de trabalho, montamos determinados e diversificados agrupamentos com os alunos de diferentes séries para realizarem as atividades em conjunto. Posto que as situações de aprendizagem são muitas e variam entre aquelas que envolvem os conteúdos específicos das áreas de conhecimento e as relativas às aprendizagens que se dão na própria situação de convívio, a proposta de integrar alunos de séries diferentes atende a esses requisitos.

Com o objetivo de que todos os alunos avancem, tanto aqueles que apresentam alguma dificuldade na compreensão dos conteúdos trabalhados em sala quanto aqueles que desejam saber mais, cabe ao professor pensar em estratégias diversificadas que permitam ao aluno avançar na construção de seus saberes.

Há diversas trocas possíveis entre alunos de diferentes séries. Os mais novos têm a possibilidade de serem tutorados pelos mais velhos, de estarem em contato próximo com a postura de estudante de alunos de uma série posterior. A sua postura curiosa, por sua vez, diante dos saberes em questão, também impulsiona o momento da aprendizagem. Além de que o seu modo de compreender determinado conteúdo pode favorecer o entendimento de alunos mais velhos que têm dúvidas.

Já os mais velhos se beneficiam desse trabalho ao precisarem revisar seus saberes de outro lugar, dessa vez, oficialmente, como mediadores do saber – e, como consequência, acabam por estudarem e se envolverem mais com os conteúdos específicos. Tal lugar em que são colocados também favorece a consolidação da responsabilidade e do compromisso como alunos de 5º ano. Com essa proposta, são beneficiados, por outro lado, os alunos que estão mais inseguros sobre determinados saberes, uma vez que podem revisitar conteúdos e reforçar procedimentos com aqueles que o estão fazendo ainda recentemente.

Segundo as crianças, é vantajoso juntarmos as turmas de 4º e 5º anos porque as crianças mais novas podem aprender comigo e eu com elas. Ou seja, também é uma oportunidade de ensinar aos colegas alguma coisa.

No último SMA Matemática, o tema foi “algoritmo da multiplicação” e as trocas foram diversas. Pudemos observar os mais velhos envolvidos profundamente com o papel de tutores, “responsáveis” pela aprendizagem dos colegas mais novos. Para eles também foi uma importante retomada de procedimentos e um ensejo para a análise de erros recorrentes, além de terem vivenciado a experiência de lidar com alunos no início da compreensão desse conteúdo específico, o que demandou pensar em estratégias para “ajudar sem dar resposta” e um tanto de paciência e cooperação.

Já para as crianças do 4º ano, os alunos do 5º são os mais experientes! São aqueles que já aprenderam tudo o que ainda vamos aprender. Para uma delas, no SMA interséries, eu posso aprender um pouquinho do que vamos aprender ano que vem, e no ano que vem eu vou estar mais esperta!

De forma geral, entendemos que, com essas e outras intervenções, nossos alunos do 4º e do 5º ano nas atividades do SMA interséries vão aprendendo a estudar, aprendendo a aprender e se responsabilizando pela construção do conhecimento.

As mil e uma noites e o dia 8 de março

Escola da Vila

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Por Priscila Demasi

No 5º ano, os alunos leem, de maneira compartilhada, o livro “As mil e uma noites”, traduzido por Ferreira Gullar. Durante a realização dessas leituras, os grupos se deparam com um contexto sociocultural que difere daquele em que estão inseridos, o que muitas vezes causa estranheza e motiva discussões acerca de outras realidades.

Este ano, quando o grupo do 5º B tomou conhecimento do papel que as mulheres ocupam dentro desse contexto literário, mostrou-se sensibilizado, alegando que essas mulheres estavam sendo vítimas de uma sociedade injusta, na qual todas as decisões e poderes se concentravam na figura masculina. Diante disso, foram questionados sobre o que achavam que seria uma sociedade justa, e surgiram descrições das mulheres com as quais convivem em casa.

“Seria justo se as mulheres pudessem trabalhar fora de casa também, porque é assim que acontece lá em casa.”

“Não é certo que só elas cuidem da casa e dos filhos, porque meu pai ajuda mais em casa do que a minha mãe.”

“Lá em casa as tarefas são divididas.”

“Minha mãe trabalha fora de casa mais do que meu pai.”

“Eles cobrem as mulheres, e acho que cada mulher tem o direito de escolher aquilo que quer usar.”

“Meu pai não manda na minha mãe. Ela sai quando quer e veste tudo o que gosta.” 

Diante dessa mobilização dos alunos, surgiu a ideia de criar um paralelo entre “as mulheres de sua vida” – contemporâneas, da cidade de São Paulo – com a realidade da protagonista do livro, Sherazade.

O intuito era que pudessem elaborar quem são essas mulheres com as quais convivem: com o que se identificam, do que gostam, o que fazem e como vivem. Ou seja, conhecer um pouco de sua identidade, ao mesmo tempo em que descobrem outras formas de viver propostas pela literatura dentro de um contexto social distinto do atual. Enfim, sensibilizar o olhar das crianças para os diferentes papéis que as mulheres ocuparam e ocupam na mesma ou em outras sociedades.

Nesse sentido, propusemos uma conversa com as crianças, sobre o “Dia Internacional da Mulher”. Para isso, promovemos um encontro com o “Coletivo Feminista” da escola, formado por alunos do 9º ano. As meninas contaram sobre como o grupo surgiu, sobre a atuação dentro da nossa comunidade escolar e também sobre o que discutem nos encontros que realizam. Além disso, trouxeram informações sobre a relevância do dia 8 de março, questionamentos acerca do papel da mulher na sociedade atual e suas lutas.

Escola da Vila

O encontro mobilizou um forte diálogo entre os alunos dos 5os e 9 os anos e possibilitou o surgimento de questionamentos e reflexões sobre o tema, além de novas possibilidades para pensar as circunstâncias próprias a cada tempo e cada cultura.

Uso da cantina pelas turmas de 1º ano

Escola da Vila

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Por Claudia Tenorio Cavalcanti, Elaine Occhialini e Miruna Kayano 

No início do Fundamental 1, mais precisamente no 1º ano, alunos e alunas começam a ter a possibilidade de fazer uso da cantina escolar, e isso significa que serão convidados a conversar com seus familiares sobre as diferentes formas de compor o lanche que trazem para a escola. Aqueles que já tinham o hábito de participar do preparo da lancheira  poderão contar com um apoio a mais, que se dá pela consulta ao cardápio da cantina, enviado às famílias recentemente. Já as crianças que ainda não tinham esse hábito, são convidadas a passar a ter com regularidade conversas em torno dos alimentos que podem compor um lanche ajustado às suas necessidades nutricionais. A possibilidade de compra na cantina abre espaço para essas conversas em torno do lanche. As crianças podem comprar um complemento para seu lanche na cantina ou seu lanche todo, sob supervisão dos adultos que trabalham na escola. Acreditamos que conversar com os alunos sobre as diferentes composições de lanche pode ser uma tarefa frutífera que contribuirá para que possam fazer escolhas cada vez mais conscientes a respeito da importância de uma boa alimentação.

Para apoiar essa conversa, Elaine, nutricionista da escola, preparou, junto com a cantina, um cardápio que oferece opções pensadas para que nossos pequenos estudantes possam começar a conversar sobre o que seria um lanche balanceado do ponto de vista nutricional. No cardápio encontramos as opções organizadas em três grupos alimentares: construtores, reguladores e energéticos. Sugerimos que o lanche seja composto por um alimento de cada um dos grupos.

cardapio F1Clique na imagem para ampliar.

cardapio_F1Cardápio sem leite e derivadosClique na imagem para ampliar.

Além do apoio na escolha dos lanches, planejamos dias definidos para uso da cantina de modo que cada turma possa ser orientada e acompanhada por sua professora no ato da compra (o pagamento, o troco, o cuidado com o dinheiro serão desafios por um bom tempo).

A partir do segundo ano, mais autônomas, as crianças fazem uso da cantina nos dias combinados com suas famílias. As professoras e a equipe de profissionais da cantina seguem apoiando-as no momento da compra. As escolhas – sob a orientação dos pais, em casa −, são também tema de conversas em sala de aula. Essa série também conta com sugestão de cardápio preparada especialmente para ela.

Os responsáveis pela cantina da escola, juntamente com a Elaine, analisam constantemente os produtos comercializados, buscando favorecer o consumo de alimentos em combinações equilibradas, com a criação de cardápios específicos. Muitos alimentos são produzidos nas cantinas, o que proporciona a redução da oferta de alimentos industrializados. É reduzida, também, a oferta de alimentos ricos em gorduras, açúcares e sal.

Promover uma alimentação saudável no ambiente escolar é o principal objetivo instituído também pelo governo por meio de legislações específicas. Tais legislações enfatizam que as ações necessárias devem ser compartilhadas entre a sociedade, o setor produtivo e o setor público, as famílias e as escolas.

Também possibilitam um deslocamento importante no foco das ações de promoção da alimentação adequada ao indivíduo para o ambiente e devem ser implementadas para favorecer as escolhas.

Recentemente foram divulgadas informações sobre o controle da obesidade e do sobrepeso da população do Japão, por meio de ações de educação em saúde nas escolas, entre outras.

Para tanto, deve ser implementado um conjunto de ações para proteger, apoiar e incentivar a alimentação adequada, pois nenhuma ação sozinha será eficiente para garantir a transformação duradoura das práticas alimentares. As ações de proteção são as mais discutidas atualmente. Estão em trânsito, no âmbito federal, projetos de lei com vistas à regulamentação da comercialização de alimentos nas escolas.

Dia do Acampante: uma situação de convívio fora dos padrões habituais

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Por Eliane Mingues 

“Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leitura, de imaginações. Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.”

Ítalo Calvino¹.

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E parece ser mesmo assim que, de experiência em experiência, vamos nos constituindo e dando forma a cada nova situação vivida, e por isso tudo é sempre tão único: cada ano de trabalho, cada grupo de crianças, cada história, cada vínculo, cada viagem!

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E é nesse cenário que os acampamentos, como atividades extraescolares, podem contribuir para a construção desta dinâmica: cada ano uma situação diferente, cada viagem um grupo diferente, que se junta e se encontra e se conhece mais, embora o lugar possa ser o mesmo e as brincadeiras se repetirem, ainda assim nada será como antes.

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Já nos preparativos para o grande dia começa a viagem dos pequenos e de seus pais: “O que levar na mala? Com quem vou me sentar no ônibus? Que filme vamos assistir na volta? Que músicas vamos escolher para ouvir durante o caminho? Vou poder brincar o dia inteiro?”. Essas são só uma amostra das muitas questões formuladas e compartilhadas nos dias que antecedem o acampamento – esse espaço diferenciado de convívio entre as crianças, e entre elas e os adultos, em que vão experimentar novas propostas, em outro espaço diferente do espaço escolar, e que sem dúvida lhes possibilita construir novos recursos para a sua autonomia.

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Chegar, reconhecer o espaço, entrar no chalé, escolher uma cama, desfazer as malas e arrumar suas coisas já vai evidenciando e mostrando um tanto de animação e cooperação entre todos, que é emocionante presenciar. Ver uns ajudando os outros a organizar seus pertences, a passar o protetor solar e a lembrar que é preciso calçar o chinelo e não esquecer do repelente antes de sair para as aventuras do dia são só alguns exemplos do que é possível observar de pronto. E essa cooperação e esses vínculos só vão se fortalecendo ao longo do dia com as situações de brincadeiras, refeições e paradas para a organização dos próximos eventos, sempre tendo como ponto de encontro o chalé. E é nesses momentos também que temos o privilégio de conhecer mais de perto cada um, com suas preferências, seus costumes e seu jeito de ser e conviver.

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Quando é chegada, enfim, a hora das brincadeiras, aí, então, a diversão chega ao seu ápice: piscina, tirolesa, escorregar na lama, caça ao tesouro, dentre outras propostas, garantem o sucesso do dia e recompensam todo o cansaço, o machucado, os possíveis desentendimentos.

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E assim, tudo, apesar de tão familiar, costuma parecer uma grande novidade nesse dia: o ônibus grande, o caminho mais longo, os colegas de outras classes compartilhando o mesmo espaço, a professora que toma café, almoça e entra junto com eles na brincadeira da piscina, no futebol, no pebolim humano… E é por isso que cada acampamento costuma ser uma delícia, pois todos juntos e misturados damos forma a uma somatória de novas experiências que fazem desse dia um evento sempre singular e especial.

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Estão esperando o quê? Vamos acampar!!!


¹ÍTALO, Calvino. Seis propostas para o próximo milênio, 2a Ed. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

A tecnologia a favor do dinamismo nas aulas de inglês

Por Caroline Milan Brasilio,  Professora de Inglês – Unidade Granja Viana

As crianças estão cada dia mais conectadas. O mundo digital deixou de ser um mundo em paralelo e passou a fazer parte cotidiana da vida dos pequenos. Como podemos, então, tratar isso como uma vantagem nas aulas de inglês, tornando as aulas mais atrativas e dinâmicas, para atender às novas demandas das crianças já imersas no mundo tecnológico?

Palavras do cotidiano tecnológico de nossas crianças (download, share…) são utilizadas em inglês e já foram adotadas por elas e usadas habitualmente. Tutoriais no YouTube, filmes no Netflix, games online – o acesso a produções culturais e linguísticas do mundo todo por meio da internet; toda essa exposição ao idioma já acontece todos os dias, fora do contexto de sala de aula.

Estando nossa sala de aula também conectada com o mundo através da internet, temos então a possibilidade de explorar, de diferentes maneiras, situações de exposição e prática de inglês que tornam nossas aulas mais dinâmicas e interessantes, buscando a expansão do repertório de nossos alunos, por meio de oportunidades de contato com o idioma de formas diferentes no decorrer de seu percurso escolar.

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Nas turmas de 1º ano, a leitura da série Knuffle Bunny é seguida de vídeos, gravados pelo autor e sua filha, personagem principal das histórias, narrando o livro – situação que traz aos alunos o contato com outros falantes de inglês, além do professor. As imagens, antes estáticas do livro, ‘ganham vida’ – a identificação dos alunos com a história é imediata, e o uso do idioma é feito de forma leve e interessante para os pequenos. Além disso, em todas as aulas há contato com canções e parlendas em inglês, pelos canais online como o Super Simple Songs.

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Por meio do projeto Cartoon, presente nos cursos de 2º a 5º ano, nossos alunos assistem a desenhos animados em que o idioma é utilizado em situações cotidianas de comunicação, tendo contato com múltiplos falantes da língua. A partir dessa exposição, nossos alunos são conduzidos a analisar aspectos específicos do idioma, expressar suas opiniões sobre o material assistido em inglês e a produzir questionários que serão respondidos pelos colegas de outras séries. Esse transitar entre turmas também é um momento extremamente enriquecedor para os alunos, que têm a possibilidade de demonstrar seus conhecimentos e praticar com outros alunos que possuem experiências e contato diferentes com o idioma.

O interessante é notar que as propostas partem de situações reais de uso do idioma e possibilitam uma grande amplitude de desafios – aqueles menos experientes seguem modelos e se comunicam usando um repertório construído no projeto. Já aqueles mais experientes têm a oportunidade de explorar novos caminhos, testar seu próprio repertório e ampliá-lo ao entrar em contato com os cartoons autênticos.

A partir do Fundamental II, o dinamismo das aulas é potencializado por meio do uso de tecnologia em novos contextos. Na unidade Granja Viana, o uso de computadores pessoais nas salas de aula do 6º, 7º e 8º ano possibilita o uso e a prática do idioma em plataformas que favorecem o contato dinâmico com o professor e com material disponibilizado no Google Classroom e AVA; o uso de dicionários online, o contato com material genuíno produzido no idioma: diversas formas de exposição e prática de inglês. Por meio da escrita de e-mails para alunos de outros países no 6º ano, com a gravação de vídeos com notícias no 7º ano, na produção de um infográfico sobre a fome no mundo no 8º ano – a tecnologia apresenta aos alunos múltiplas oportunidades de contato e uso do inglês de modo dinâmico e atrativo.

Refletir e atualizar constantemente os recursos utilizados nas aulas de inglês que atendam a esse novo perfil de estudante, que por meio da tecnologia tem contato com uma gama imensa de conteúdo, que busca rápidas respostas e que tem contato com a língua em ambientes para além do contexto de sala de aula se faz necessário para que as aulas sejam sempre atuais e dinâmicas.

Cecilia Bajour na Escola da Vila

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

Você não precisa de um local específico para ler uma história, nem de um livro que buzine, brilhe ou se desdobre em mil objetos. Você não precisa de uma varinha de condão para fazer mágica com as palavras, mas tem que saber como favorecer relações instigantes entre as crianças e as narrativas!

Na quinta-feira passada, tivemos a oportunidade de ouvir por algumas horas uma pesquisadora apaixonante! Já conhecia Cecilia Bajour por meio de textos extremamente belos sobre as pontes construídas pelos autores para aproximar sua obra dos leitores sem criar abismos intransponíveis. Ela fala do que se pode esperar, ocultar, dizer ou silenciar a cada virada de página e das diferentes visões de infância e criança que estão subentendidas na maneira como um livro é concebido!

É difícil traduzir em palavras o que acontece quando temos um livro nas mãos e um grupo de crianças dispostas a pactuar conosco uma grande “viagem” inexplicavelmente particular, na medida em que cada um é capaz de estabelecer suas próprias relações com imagens, palavras, contextos, e ao mesmo tempo coletiva porque, em grupo, podemos nos “alimentar” das ideias uns dos outros.

Vou tentar contar para vocês um pouco dessa relação.

Alguém abre um livro, estabelece-se um silêncio emocionante… Cada criança adentra ao espaço da história com suas próprias “ferramentas”. Diante da mesma narrativa colocamo-nos como coparticipantes e somos autorizados a “ser” quem quisermos, viver por alguns milésimos de segundos a dúvida do que acontecerá na próxima página e, ao encontrar novas dúvidas, somos impulsionados a continuar ativos nessa relação entre livro como material de arte, história, silêncio, incertezas e construção de sentido. Quando os adultos subestimam a capacidade das crianças de “jogar esse jogo”, partem então para “encontros” unilaterais com a leitura, nos quais a palavra é monopolizada e a postura do mediador a mais controladora possível.

A palestra de Cecilia reafirmou nossa crença de que há um caminho de muita confiança entre leitor e receptor. Nesse contexto, as crianças são capazes de criar e inventar. As histórias abrem significados e o grupo os expande cooperativamente. Instauram-se a partir daí respostas provisórias para textos desafiadores com modos de ler igualmente desafiadores.

As histórias não precisam da “tradução” dos adultos ou de simplificações que barateiam a narrativa. Enquanto lemos, as zonas ambíguas vão se construindo, e as crianças entendem onde o texto pretendia se “calar” ou nos interrogar.

Vale prestar atenção na inquietude que o “não saber” suscita e costurar teias múltiplas de interpretação sem fechá-las, deixando que os leitores apresentem suas hipóteses e falem sobre elas.

Termino com um trecho do livro Ouvir nas entrelinhas – O valor da escuta nas práticas de leitura”, da própria Cecilia Bajour:

“… acreditar que os leitores podem lidar com textos que os deixem inquietos ou em estado de interrogação é uma maneira de apostar nas aprendizagens sobre ambiguidade e a polissemia na arte e na vida. Nem todos os silêncios precisam ser preenchidos…”.

Para que possam dialogar com o “silêncio”, faço algumas indicações:

zoom  Zoom, de Istvan Banyai

willy  Willy y Hugo, de Anthony Browne

lobos  Lobos, de Emily Gravett

Sobre a beleza de encontrar-se com quem sabe que os professores pensam, e muito!

Escola da Vila

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Por Miruna Kayano 

Como mestranda do programa “Escrita e alfabetização” da Universidade de La Plata, na Argentina, já tinha tido a oportunidade de ir algumas vezes à cidade argentina refletir e pensar sobre os desafios de uma educação que considera o sujeito aprendiz. Nesse sentido, era enorme a ansiedade em estar presente às Jornadas Internacionais de Escrita e Alfabetização, que comemorava os dez anos do mestrado do qual faço parte. Pois desta vez eu estaria com uma equipe importante da Escola da Vila, além de colegas educadoras de outras instituições.

Cada uma das pessoas participantes dos três dias do evento tem suas próprias visões e sensações do que vivemos ali, fundamentalmente porque havia momentos em que todas assistíamos às palestras − a de Délia Lerner e a de Emília Ferreiro por exemplo −, mas outros, em que cada uma se decidia pela proposta reflexiva que gostaria de integrar. Seja por termos visto eventos diferentes e semelhantes, seja pela bagagem de cada uma, foi encantador acompanhar o quanto “as argentinas”, que tanto já nos fizeram pensar na Escola da Vila e no Centro de Formação, colocam os educadores para pensar e repensar sua prática, seus alunos, suas possibilidades, de um jeito único. É impossível estar na presença delas e seguir pensando sua prática da mesma maneira, e isso é algo que realmente é preciso valorizar.

Assim, retomando a principal colocação do painel de encerramento de Emília Ferreiro “Sobre as dificuldades de admitir que as crianças pensam”, por vezes sabemos também que existe ainda uma dificuldade enorme de admitir que os professores pensam. Que decidem, refletem, tomam decisões! E essas decisões consideram não apenas o resultado final, este que parece ser sempre o mais esperado, mas também o processo, o envolvimento e o crescimento cognitivo, afetivo e emocional da criança. É importante escrever convencionalmente? Sim. Mas é igualmente importante que a criança confie que suas escritas provisórias são válidas? Também. E é nisso que os professores se apoiam, nessa complexidade enorme presente na docência, que considera as potencialidades de quem aprende para pensar, pensar muito, sobre como pode ser a sua sala de aula.

E como mostrar em um evento tão grande, em que se considera que os professores pensam? Claramente, apresentando fundamentações teóricas consistentes, complexas, difíceis até de serem compreendidas em sua totalidade (quem esteve na palestra de Antonio Castorina sabe a que me refiro), sem cair na superficialidade de querer ensinar o professor sobre “como fazer”. Sem querer mostrar o fácil, achando que é só isso que o professor pode entender. E em nenhum momento apresentando receitas prontas. Um claro exemplo disso foi a experiência apresentada por Ana Maria Kaufman sobre seu instrumento de avaliação de escrita para alunos de 4º a 6º anos, no qual ela não só mostrou as atividades em si, mas compartilhou as idas e vindas até alcançar aquele texto a ser pontuado. Indicou o que a fez decidir sobre a forma de inserir ou não determinado aspecto relacionado à acentuação, abriu portas para refletir sobre o que significa entender como a criança pensa.

Este é apenas um exemplo dos muitos que vivemos nesses três dias de evento. Voltamos de lá carregadas de ideias, desejos, propostas e dúvidas, muitas dúvidas também, que certamente nos farão estudar, questionar, aprofundar e seguir pensando sobre a complexidade de ensinar os alunos a ler e a escrever enquanto verdadeiros sujeitos ativos de uma comunidade letrada. Todo educador deveria, em algum momento, ter o privilégio de ouvir educadores e investigadores que respeitam, sim, e muito, como as crianças pensam, mas que essencialmente acreditam, e querem muito, que nós professores pensemos, pensemos sempre, sobre os caminhos tão complexos da aprendizagem de um pequeno grande ser humano.

Seguiremos pensando!