As mil e uma noites e o dia 8 de março

Escola da Vila

-

Por Priscila Demasi

No 5º ano, os alunos leem, de maneira compartilhada, o livro “As mil e uma noites”, traduzido por Ferreira Gullar. Durante a realização dessas leituras, os grupos se deparam com um contexto sociocultural que difere daquele em que estão inseridos, o que muitas vezes causa estranheza e motiva discussões acerca de outras realidades.

Este ano, quando o grupo do 5º B tomou conhecimento do papel que as mulheres ocupam dentro desse contexto literário, mostrou-se sensibilizado, alegando que essas mulheres estavam sendo vítimas de uma sociedade injusta, na qual todas as decisões e poderes se concentravam na figura masculina. Diante disso, foram questionados sobre o que achavam que seria uma sociedade justa, e surgiram descrições das mulheres com as quais convivem em casa.

“Seria justo se as mulheres pudessem trabalhar fora de casa também, porque é assim que acontece lá em casa.”

“Não é certo que só elas cuidem da casa e dos filhos, porque meu pai ajuda mais em casa do que a minha mãe.”

“Lá em casa as tarefas são divididas.”

“Minha mãe trabalha fora de casa mais do que meu pai.”

“Eles cobrem as mulheres, e acho que cada mulher tem o direito de escolher aquilo que quer usar.”

“Meu pai não manda na minha mãe. Ela sai quando quer e veste tudo o que gosta.” 

Diante dessa mobilização dos alunos, surgiu a ideia de criar um paralelo entre “as mulheres de sua vida” – contemporâneas, da cidade de São Paulo – com a realidade da protagonista do livro, Sherazade.

O intuito era que pudessem elaborar quem são essas mulheres com as quais convivem: com o que se identificam, do que gostam, o que fazem e como vivem. Ou seja, conhecer um pouco de sua identidade, ao mesmo tempo em que descobrem outras formas de viver propostas pela literatura dentro de um contexto social distinto do atual. Enfim, sensibilizar o olhar das crianças para os diferentes papéis que as mulheres ocuparam e ocupam na mesma ou em outras sociedades.

Nesse sentido, propusemos uma conversa com as crianças, sobre o “Dia Internacional da Mulher”. Para isso, promovemos um encontro com o “Coletivo Feminista” da escola, formado por alunos do 9º ano. As meninas contaram sobre como o grupo surgiu, sobre a atuação dentro da nossa comunidade escolar e também sobre o que discutem nos encontros que realizam. Além disso, trouxeram informações sobre a relevância do dia 8 de março, questionamentos acerca do papel da mulher na sociedade atual e suas lutas.

Escola da Vila

O encontro mobilizou um forte diálogo entre os alunos dos 5os e 9 os anos e possibilitou o surgimento de questionamentos e reflexões sobre o tema, além de novas possibilidades para pensar as circunstâncias próprias a cada tempo e cada cultura.

Oficinas de Matemática: encontros para além do tempo regular de sala de aula

Por Renata Akemi

Diante de um novo problema matemático, o que o aluno faz? Procura a solução com base em conhecimentos anteriores? Ou… tenta um pouco, mas logo desiste? Acredita que pode resolver o problema ou julga estar fora de seu alcance?

Nas aulas de matemática queremos que os alunos se lancem à resolução dos problemas propostos, estabeleçam relações, investiguem, discutam suas respostas com os colegas, argumentem, e se considerem capazes de produzir conhecimento matemático. Buscamos estratégias para incluir todos os alunos nesse fazer, com ações individuais e coletivas na sala de aula ou no processo de recuperação paralelo. Além disso, no contraturno, a escola oferece a Oficina de Matemática aos alunos do Ensino Fundamental 2.

Essas oficinas são organizadas com o objetivo de favorecer um vínculo positivo do aluno com a disciplina de matemática, retomar os conteúdos das séries anteriores, que ainda não foram construídos com segurança, e oferecer mais uma oportunidade de resolver dúvidas sobre os conteúdos vistos em aula.

Visando ao fortalecimento desse vínculo, promovemos atividades em que os alunos possam participar ativamente do fazer matemático e ocupem o lugar de quem vai apresentar ou explicar algo para o outro, tais como:

- resolver desafios, discutir estratégias e resoluções, produzir um cartaz para o mural da sala de aulas e, depois, inteirar-se das respostas dos colegas e analisá-las;

- ajudar alunos de séries anteriores a retomarem conteúdos;

- conhecer recursos tecnológicos interessantes para a disciplina e depois apresentar para a própria sala e atuar como monitor;

- produzir problemas que integrem orientações de estudo para as provas regulares e que serão usados por toda a sala;

- elaborar sínteses sobre os conteúdos estudados e compartilhar com os colegas esse material de estudo.

Para finalizar as atividades em 2016, os alunos da oficina de matemática produziram e atuaram como monitores de uma sala com desafios e jogos elaborados. Nossa “Sala (ma)temática” foi organizada para os alunos do 5º ano da escola.

Os alunos do Fundamental 1 participaram de um jogo de tabuleiro com perguntas sobre operações matemáticas, frações e números decimais, e pensaram em alguns desafios que consistiam na apresentação de contas incorretas que teriam de ser corrigidas com a movimentação de apenas um palito.

Ao pensar nas possibilidades de jogos e desafios para alunos menores, os alunos da oficina precisam refletir sobre os conteúdos que esses alunos já sabem, como articulá-los, quais perguntas os pequenos podem fazer e quais podem ser feitas a eles, como as respostas serão colocadas, entre outros. Além da oportunidade de os alunos da oficina ocuparem o papel do saber, de quem vai explicar, esse tipo de atividade ajuda a fortalecer os próprios mecanismos de autoavaliação, pois ao pensar em como o outro pode aprender, os alunos maiores criam ferramentas para pensar no próprio processo de aprendizagem.

As atividades que repercutem na própria sala ou em outra sala de aulas são bastante enriquecedoras para todos os envolvidos, e muito potentes para ajudar os alunos que apresentam dificuldades em matemática. Sabemos que para vincular o aluno positivamente à matemática são necessárias ações de diversas naturezas, e acreditamos que a atuação conjunta dos professores regulares e das oficinas, assim como as atividades que integram os alunos da escola constituem um caminho favorável para tal.

A tecnologia a favor do dinamismo nas aulas de inglês

Por Caroline Milan Brasilio,  Professora de Inglês – Unidade Granja Viana

As crianças estão cada dia mais conectadas. O mundo digital deixou de ser um mundo em paralelo e passou a fazer parte cotidiana da vida dos pequenos. Como podemos, então, tratar isso como uma vantagem nas aulas de inglês, tornando as aulas mais atrativas e dinâmicas, para atender às novas demandas das crianças já imersas no mundo tecnológico?

Palavras do cotidiano tecnológico de nossas crianças (download, share…) são utilizadas em inglês e já foram adotadas por elas e usadas habitualmente. Tutoriais no YouTube, filmes no Netflix, games online – o acesso a produções culturais e linguísticas do mundo todo por meio da internet; toda essa exposição ao idioma já acontece todos os dias, fora do contexto de sala de aula.

Estando nossa sala de aula também conectada com o mundo através da internet, temos então a possibilidade de explorar, de diferentes maneiras, situações de exposição e prática de inglês que tornam nossas aulas mais dinâmicas e interessantes, buscando a expansão do repertório de nossos alunos, por meio de oportunidades de contato com o idioma de formas diferentes no decorrer de seu percurso escolar.

Escola da Vila

Nas turmas de 1º ano, a leitura da série Knuffle Bunny é seguida de vídeos, gravados pelo autor e sua filha, personagem principal das histórias, narrando o livro – situação que traz aos alunos o contato com outros falantes de inglês, além do professor. As imagens, antes estáticas do livro, ‘ganham vida’ – a identificação dos alunos com a história é imediata, e o uso do idioma é feito de forma leve e interessante para os pequenos. Além disso, em todas as aulas há contato com canções e parlendas em inglês, pelos canais online como o Super Simple Songs.

Escola da Vila

Por meio do projeto Cartoon, presente nos cursos de 2º a 5º ano, nossos alunos assistem a desenhos animados em que o idioma é utilizado em situações cotidianas de comunicação, tendo contato com múltiplos falantes da língua. A partir dessa exposição, nossos alunos são conduzidos a analisar aspectos específicos do idioma, expressar suas opiniões sobre o material assistido em inglês e a produzir questionários que serão respondidos pelos colegas de outras séries. Esse transitar entre turmas também é um momento extremamente enriquecedor para os alunos, que têm a possibilidade de demonstrar seus conhecimentos e praticar com outros alunos que possuem experiências e contato diferentes com o idioma.

O interessante é notar que as propostas partem de situações reais de uso do idioma e possibilitam uma grande amplitude de desafios – aqueles menos experientes seguem modelos e se comunicam usando um repertório construído no projeto. Já aqueles mais experientes têm a oportunidade de explorar novos caminhos, testar seu próprio repertório e ampliá-lo ao entrar em contato com os cartoons autênticos.

A partir do Fundamental II, o dinamismo das aulas é potencializado por meio do uso de tecnologia em novos contextos. Na unidade Granja Viana, o uso de computadores pessoais nas salas de aula do 6º, 7º e 8º ano possibilita o uso e a prática do idioma em plataformas que favorecem o contato dinâmico com o professor e com material disponibilizado no Google Classroom e AVA; o uso de dicionários online, o contato com material genuíno produzido no idioma: diversas formas de exposição e prática de inglês. Por meio da escrita de e-mails para alunos de outros países no 6º ano, com a gravação de vídeos com notícias no 7º ano, na produção de um infográfico sobre a fome no mundo no 8º ano – a tecnologia apresenta aos alunos múltiplas oportunidades de contato e uso do inglês de modo dinâmico e atrativo.

Refletir e atualizar constantemente os recursos utilizados nas aulas de inglês que atendam a esse novo perfil de estudante, que por meio da tecnologia tem contato com uma gama imensa de conteúdo, que busca rápidas respostas e que tem contato com a língua em ambientes para além do contexto de sala de aula se faz necessário para que as aulas sejam sempre atuais e dinâmicas.

A configuração das salas e o trabalho interidades: a experiência das aulas de tutoria no F2 da Granja.

Por Ana Vitiritti 

Sempre que pensamos nas sequências didáticas de ensino, nós, professores, elencamos conteúdos conceituais, pensamos em atividades que possam promover a discussão na classe, temas que sejam ao mesmo tempo interessantes e estimulantes, garantindo a manutenção da aula, e que possam potencializar a aprendizagem. Mas não é só baseada em conteúdos que deverá estar a atenção do professor. Os agrupamentos produtivos e a ambientação da sala de aula contribuem para o alcance dos nossos objetivos.

Quando, premeditadamente, o professor define como será a organização da turma, sob a orientação adequada, os alunos poderão trocar nas duplas, nos trios, quartetos ou em um grupo grande de discussão. Essas trocas poderão criar um ambiente favorável à criação de hipóteses, à resolução de problemas, à necessidade de argumentação diante de um novo ponto de vista, possibilitando que os alunos coloquem em cheque suas ideias e administrem a sua própria aprendizagem.

Um aluno mais velho, por exemplo, poderá assumir um papel de mediador da discussão, poderá centralizar o registro do que foi discutido, poderá servir de exemplo para alunos mais novos. Por outro lado, um aluno mais novo, curioso e criativo poderá questionar as escolhas dos outros colegas procurando os porquês conceituais que ainda desconhece.

Nesse sentido, na Unidade da Granja temos desenvolvido agrupamentos de todos os alunos do F2 nas aulas de tutoria. Temos alunos do 6o ano, recém-chegados do F1, alunos do 7o ano, já acostumados às trocas de professores e procedimentos básicos trabalhados em sala, e alunos do 8o ano, que, com a própria diferença de idade, já possuem um grau de abstração e argumentação distinto dos menores.

Nas aulas, temos um grande tema de fundo das nossas discussões: a Mídia Digital. Estamos imersos em um mundo tecnológico, e os alunos acordam cercados pelas tecnologias digitais, vão para a escola com seus computadores e tablets, realizam as atividades também usando essas tecnologias e, quando ainda há tempo, não perdem nenhum segundo para conversar com seus amigos no snapchat ou twitter. Tema interessante e que desperta curiosidade sobre como foram os avanços nos últimos tempos. Como saímos da escrita nas paredes da caverna com corantes naturais à base de terra e chegamos a sinais de telefonia celular que, imediatamente, identificam as informações, reconhecem o local que o usuário está e, se bobear, já indicam o restaurante mais próximo?

Para a discussão desse tema, cada professor pinçou um aspecto que relaciona o tema à sua disciplina específica e às necessidades procedimentais que observa no grupo de alunos do F2 de maneira geral. Em Ciências Naturais, a necessidade de trabalhar o gênero descritivo e a escrita organizada, que representa passo a passo o que foi pensado, o que foi discutido e que retoma as ideias de causa e efeito. Em Língua Portuguesa, a necessidade de trabalhar a leitura e a interpretação de textos com um grau de aprofundamento distinto da superficialidade. Em Ciências Humanas, a necessidade de trabalhar as respostas completas, coerentes com o que foi pedido, a necessidade da interpretação de gráficos, tabelas, infográficos e esquemas. E, em Matemática, a necessidade de criar textos argumentativos que representem a resolução pretendida para a solução de problemas complexos, que envolvam cálculos simples e as regularidades da multiplicação.

Após a definição do tema, os alunos do F2 foram divididos nos grupos de trabalho mesclados e escolhidos de acordo com as necessidades pretendidas pelos professores. Em seguida, as estratégias dos professores foram criadas para atentar ao tema, atender aos objetivos específicos, levando em consideração as competências dos grupos interidades.

Diferentemente do que ocorre nos agrupamentos gerais com alunos de idades distintas, aqui eles foram selecionados com competências e habilidades muito semelhantes para que a proposta do professor pudesse ser desafiante para todos e para que no grupo exista uma ordem horizontal e eles tomem as decisões e apresentem soluções com a mesma propriedade, independentemente da série.

Essa escolha intencional teve como objetivo colocar o grupo de alunos em um mesmo lugar em relação à aprendizagem, mesmo sabendo das diferentes competências inerentes às idades. Segundo Vygotsky, a aprendizagem só se consuma quando intermediada pelo outro, e se esse outro é muito competente em relação ao o que sei, como saberei se sei ou se apenas reproduzo aquilo que é do outro? Se o outro é muito competente e eu ainda não, será que me espelho ou apenas me escondo? Se somos iguais, como faremos para resolver algo que não é de conhecimento de nenhum de nós?

As aulas começaram agora em fevereiro, e não temos ainda muitas notícias. Vamos esperar as próximas duas semanas, quando os primeiros módulos de atividades tiverem acabado para contar mais um pouco da nossa experiência com agrupamentos produtivos interidades nas aulas de tutoria da Granja. Mas algo já sabemos: o tema é interessante, e os grupos interidades trabalhando com um objetivo único no projeto poderão aprender com as diferenças e deverão saber ouvir e se posicionar de maneira clara e coerente diante de alunos que não são, necessariamente, de seu convívio diário, o que já é um ganho enorme.

Conversa entre alunos de diferentes séries e unidades: a temática do feminismo

Escola da Vila

-

Por Joana Sampaio Primo

Todas as instituições (re)produzem a sociedade na qual estão inseridas; nas escolas não é diferente. Todavia, as instituições de ensino têm uma particularidade que as fortalece, a saber, o papel de transmitir para quem está sendo formado os princípios e conhecimentos acumulados num dado período histórico. Assim, se por um lado a escola reproduz padrões e valores sociais, por outro ela é um campo de permanente produção e reflexão, já que ensinar e aprender são ações construídas cotidianamente.

O feminismo – como bem abordado em post recente deste Blog – tem ressurgido com força nos últimos 5 anos, movimento que chega às escolas pela organização e reflexão de seus agentes, alunos e professores. Reconhecidamente um tema que trata das relações cotidianas, refletir sobre essa temática significa pensar o lugar de (re)produção dos homens e mulheres em nossa sociedade e, especificamente, nas escolas.

No final do ano passado, resolvemos introduzir no espaço das aulas de Orientação Educacional, da Unidade Granja, reflexões sobre o lugar da mulher em nossa sociedade. Num primeiro momento, pode parecer um assunto precoce para estudantes de 6º e 7º anos, porém vivenciávamos situações nas quais percebíamos que as alunas e os alunos (re)produziam determinados comportamentos sem refletirem sobre suas determinações.

Fizemos uma sequência de discussões com a turma. Eles se envolviam nas atividades, mas agiam como se não houvesse nenhuma relação com eles nem com suas atitudes. Instigadas por essas participações, planejamos outras estratégias.

Resgatamos um encaminhamento que faz parte de nossa prática na Escola da Vila, isto é, alunas e alunos ocuparem o papel de transmissores do conhecimento, pois concebemos que o exercício de comunicar um saber implica uma nova maneira de compreendê-lo. Trata-se, também, de uma estratégia na qual os estudantes podem ocupar outra posição em relação aos colegas e ao conhecimento, modificando o lugar de quem vai ensinar e de quem está sendo ensinado. Apostamos, portanto, que escutar um colega de idade próxima reconfigura as possibilidades de transmissão e de compreensão, aproximando alunas e alunos do que está sendo discutido.

Orientadas por esses princípios, propusemos, no final do ano passado, uma conversa entre duas alunas e um aluno do Coletivo Feminista do Fundamental II e os estudantes de 6º e 7º anos da Granja. A conversa com pessoas de outras Unidades e idades era uma forma de aproximá-los da temática e de valorizar o Coletivo que foi criado por iniciativa própria dos alunos.

Com a mediação da Orientação das unidades, combinamos com o Coletivo um dia para virem. Eles se prepararam, compartilharam um plano de aula especificando o que gostariam de discutir com os alunos da Granja, estavam animados! Por aqui, antecipamos com nossos estudantes o dia da conversa e quem viria discutir feminismo com eles, ficaram ansiosos! Na última tarde de segunda-feira do F2 antes das férias, fizemos uma grande roda de conversa e nada melhor do que acompanharmos o que aconteceu pelo relato de algumas alunas que quiseram compartilhar a experiência que viveram.

Sofia Lebrão Ferreira
Quando começamos a conversar sobre feminismo na aula de OE, fiquei um pouco sem graça e sem entender o porquê daquilo e sua importância na sociedade, porque esse assunto não é do nosso dia a dia e costume. Depois da conversa com os alunos das outras unidades, percebi que era muito mais que uma aula qualquer de OE sobre esse tema. Percebi que o feminismo é algo muito grande, e aprendi muito, acho que todos aprenderam, porque antes eram só risadas e brincadeiras sem graça, depois todos começaram a levar muito a sério e entender. E esse, eu acho, foi o ponto forte dessa conversa com os alunos, o fato de que tudo ficou mais claro, debaixo do nosso nariz, todos os dias, o tempo todo, mas não percebíamos nem sabíamos o que era. Muitos nem sabiam o significado da palavra feminismo, eu era uma dessas pessoas, mas todos nós ficamos conscientes sobre esse assunto tão comum atualmente.

Carolina Bonfiglioli Lopes
Para mim, a diferença entre escutar a temática do feminismo sendo abordada na aula de OE e na conversa com as alunas e os alunos na Unidade Butantã foi que nas aulas de OE o clima era muito tenso e sério, mas com os alunos era mais informal, e havia as atividades sobre pensar no que você brincou quando era criança, que roupas usou, e eu achei isso bem legal porque nós poderíamos pensar nas divisões que “temos” que seguir.

O que eu achei mais importante na conversa com os alunos e as alunas foi que muitas coisas foram esclarecidas e que nós pudemos ver diferentes pontos de vista (das outras unidades).

Alice Novis Rossi
O coletivo feminista de 2016 envolveu um grande processo de aprendizagem. Não só para as alunas que eram pouco familiarizadas com o assunto, mas também para as que, como a maioria do oitavo e do nono ano, já sabiam um pouco sobre o assunto.

(…)

À medida que o coletivo foi avançando, as pessoas estavam ficando mais engajadas e com um conhecimento maior sobre o assunto, chegamos aos poucos a temas mais complexos, como representatividade da mulher na cultura pop, a mulher como objeto nas publicidades, vertentes do feminismo, etc.

(…)

Resumindo, foi possível notar uma mudança no comportamento e na visão de todas as pessoas que participaram do coletivo ao longo do segundo semestre. As discussões envolveram um processo de aprendizado incrível, e promoveram um ambiente confortável para que as pessoas expressassem sua opinião (embora algumas pessoas ainda estejam em posição de ouvintes). O coletivo trouxe com ele exatamente a sensação de coletividade, uma ideia de estarmos juntas fazendo uma coisa importante para mudar o espaço escolar que também é nosso.

O coletivo feminista no Fundamental 2 e a libertação feminina

Escola da Vila-

Alguns saldos importantes do ano de 2016

 

Por Manuela Lima, aluna do 9º B (2016) 

O espaço moral cedido pela escola para nós, alunas do nono ano, organizarmos um coletivo feminista semanal, no intuito de conscientizar xs menores sobre, principalmente, igualdade e identidade de gênero, tem trazido à tona muitas questões majoritariamente a respeito dos direitos da mulher no papel, e sua diferença para a sociedade em si. É justamente esse tipo de reflexão que buscamos nxs alunxs participantes do coletivo para que elxs possam levar o conhecimento para fora da sala de aula, fora da escola.

Muitas meninas já vieram falar conosco sobre a importância do coletivo no processo de amadurecimento pelo qual elas estão passando, e sempre ressaltando o fator empoderamento. Elas corrigem comentários preconceituosos em geral, e isso está cada vez mais evidentemente presente no cotidiano do sétimo ano, por exemplo, e sem o coletivo isso talvez não estivesse tão marcado. Isso porque já discutimos a revelação do machismo desde as piadas (onde ele aparece sempre muito banalizado) até nas peças publicitárias, passando pela definição de xingamento e de ver o “ser mulher” como algo pejorativo, machismo nas músicas, esse tipo de coisa.

Tomamos muito cuidado, também, para não tratar de temas de forma extremamente radical sem apresentar dois pontos de vista, por causa dxs menores, que são facilmente influenciadxs pela nossa opinião. Assim, o coletivo passa a acrescentar muito na vida das participantes, de um jeito incrível.

Participam dos encontros meninos e meninas de todo F2. Entendemos a importância da participação de todos, uma vez que nossos objetivos são: 1) promover a sororidade dentro e fora da escola, podendo assim ajudar muitas meninas a se fortalecerem e se empoderarem; e 2) expandir nossos conhecimentos sobre a causa por meio de debates, rodas de conversa, discussões de acontecimentos, textos, vídeos, notícias etc. Assim, nada melhor do que promover um espaço aberto, que possibilite que todos adquiram maior conhecimento, consciência e a possibilidade de refletir (e transformar) relações que ocorrem no próprio cotidiano. Está dando certo! Percebemos que eles têm sido cada vez mais respeitosos e cuidadosos com algumas falas ao fazerem referências, “brincadeiras” com as meninas.

O coletivo esse ano foi espaço de libertação expressiva. Desabafos, acolhimentos, tudo de melhor. Posso dizer em nome de todo o nono ano que sou eternamente grata por poder passar as tardes de sexta-feira com tanta gente maravilhosa e que tem se empoderado cada vez mais, e levado questões e reflexões para a vida.

XI Festival de Poesia. Tempo, espera e silêncio

Festival de Poesia da Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no Flickr

A missanga, todos a veem.
Ninguém nota o fio que,
em colar vistoso,
vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta:
um fio de silêncio costurando o tempo

Mia Couto

Por Vicente Domingues Régis 

O que faz com que mais de mil pessoas se encontrem e destinem grandes porções de seu escasso tempo à poesia, uma prática tão antiga e tão distante dos atuais traços da sociedade contemporânea, marcada pela velocidade, pela voracidade e pelo consumo? Qual força sobrepuja o desejo quase incontrolável, que nos direciona diariamente para a frente das telas de nossos dispositivos eletrônicos, fazendo com que direcionemos nossa atenção para uma, duas ou três pessoas que declamam lentamente textos de Mel Duarte, Mário de Andrade, Mayakovsky ou Wislawa Szymborska? Por que insistimos em nos sentar na grama, em silêncio, durante tanto tempo, envolvidos pelas vozes daqueles que ousam derramar íntimos sentimentos em um antigo coreto, embalados pelos maxixes, choros e marchinhas de compositores como Anacleto de Medeiros, nascido há cento e cinquenta anos?

Como resposta a estas questões, nos reunimos no sábado, dia 29 de outubro, em frente ao coreto do Parque da Chácara do Jóquei para a realização do XI Festival de Poesia: “A poesia na rua, a rua na poesia”. Foram seis horas intensas de declamação, música, performance, oficinas, exposições de trabalhos, e encontros. Seis horas de protagonismo dos jovens que frequentam nossa escola, das suas famílias, de seus professores, e dos demais membros da nossa comunidade.

O espaço para a realização desse evento foi gentilmente cedido pela administração do parque, mediante a contrapartida de esgotamento da fossa de um dos banheiros e pintura do coreto e da área externa do redondel, realizados pela escola. Tivemos um público estimado de 1.200 pessoas durante o evento, que contou com o concurso de poesia falada, no qual foram declamados poemas de Vinicius de Moraes, Ana Cristina Cézar e Solano Trindade, entres muitos outros autores, e mais uma série de ações. Dentre estas, destacam-se as oficinas de criação de pôsteres, origami, criação de proposta de arte visual baseada em poema, o show dos Batutas do Coreto em homenagem a Anacleto de Medeiros, compositor carioca de importância fundamental para música brasileira, e, ainda, as apresentações dos grupos de teatro do Fundamental 2 e do Ensino Médio. Como encerramento do evento, alunos do Ensino Médio criaram uma performance relacionando o conto Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, com as canções Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos − que ganhou letra de Ferreira Gullar e Terceira Margem do Rio − canção homônima do conhecido conto de Guimarães criada por Milton Nascimento e Caetano Veloso. Tudo isso aberto ao público que frequenta o parque.

Vale ainda lembrar que os mais de 150 poemas inscritos no concurso de poesia escrita, assim como as oitenta inscrições para o concurso de poesia falada são, em grande parte, ecos de uma proposta pedagógica que valoriza a sensibilidade, a subjetividade e o diálogo. Reverberam de uma proposta pautada na autonomia e na cooperação, como pode-se observar no belíssimo e fundamental trabalho dos mestres de cerimônia: Carlos Navas, Daniel Innecco, Gustavo Torres, Gabriel Sampaio, Mariana Assef, Sabrina Cardoso e Yuri Carvalho − que se organizaram para tocar o evento e precisaram de pouquíssimo auxílio do setor cultural e dos demais profissionais da escola envolvidos na organização do festival.

Certamente, são muitos os motivos que concorrem para que destinemos tanta energia e tempo num festival como este. Entretanto, são estes de natureza tão subjetiva, singela e variada que não cabem ser resumidos aqui. Vale concluir: sentimos a necessidade do encontro em torno do fio que vem sendo tecido em silêncio pelos poetas há tanto tempo.

Aproveitamos o momento para parabenizar mais uma vez os vencedores dos concursos de poesia escrita e falada:

Poesia Falada

Categoria A

1o lugar: Bento Sipahi Pires Gonçalves dos Santos.

2o lugar: Alice Rossi, Lola Aguiar, Dora Mariani, Sofia Camargo.

3o lugar: Majoí Sotero Costa.

Menções honrosas: Frederico Kipnis e Luis Fernando Souza Dória.

Categoria B

1o lugar: Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Cecilia Neves Nannini, Marina Gregori Tokita, Manuela Arruda Pinto Lima, Paola Franceschini Giovanolli.

2o lugar: Lorena Polo.

3o lugar: Giulia Guarrera Zanetti.

Menção honrosa: Helena Veliago Costa e Laura Santanda.

Menção honrosa: Sofia de Carvalho Galvão e Fernanda Contarelli Lima

Categoria C

1o lugar: Median Aurea Trigo Grotti Vidal Costa.

2o lugar: Juliana Giannini, Luiza Moraes e Clarice Barreira.

3o lugar: Paula Lisboa e Teresa Lisboa.

Menção honrosa: Noam Rafael Kramer.

Poesia escrita

Categoria A

1o lugar: João Pedro Sequeira Rocha, “Infinito”.

2º lugar: Benny Sadka, “Marola”.

3º lugar: Bruno França, “Amor aleatório”.

Menções honrosas:

Nicolas Fernandes, “Negritude”.

Anne Hirata, “O tempo”.

Categoria B

1º lugar: Beatriz Bannwart Novaes, “sem título”.

2º lugar: Catarina Simonetti de Mattos, “Epinaufraga”.

3º lugar: Lua Bonduki de Sousa, “cena estática”.

Menções honrosas:

Bruna Duarte Savietto Frati.

Júlia Menezes, “A menina de cá”.

Projetos de 6º e de 7º ano: mais leitores e mais leitura para os textos de nossos alunos

Escola da Vila

-

-

Por: Aline Evangelista, Erica Santos, Fabiana Carneiro, Luiza Moraes
e Natalia Zuccala

Diante da situação de produzir um texto, somos sempre guiados por perguntas centrais, que determinam toda a tomada de decisão: o que preciso escrever? Com que finalidade? Para que destinatário? Essas questões delineiam os parâmetros da situação comunicativa e orientam o processo de composição.

Em geral, a tarefa é difícil, mesmo para adultos experientes. Não raro, quando temos de escrever, consultamos materiais, buscamos modelos para tomar como referência, pedimos a outros leitores que opinem sobre a clareza, o tom, o grau de formalidade etc. Não há dúvida de que se trata de uma tarefa complexa, que nos impõe uma série de desafios. Sendo assim, fica  evidente que, se a escola pretende conservar, tanto quanto possível, a complexidade e as características das práticas sociais de leitura e de escrita, é preciso assumir que os projetos didáticos criados para esse fim exigem tempo e investimento: a preparação, a realização e a avaliação demandam muitas etapas, muitas idas e vindas, até que se tenha em mãos um material pronto para ser publicado.

Esse esforço se justifica por diversas razões, dentre as quais destacamos as seguintes:

- a redução da dicotomia entre leitura e escrita – nos projetos, os alunos escrevem para ler melhor e leem para escrever melhor;

- o sentido da atividade, uma vez que o produto final vislumbrado (um livro, uma apresentação, um blog, um site, uma revista etc.) possibilita a construção de horizontes de expectativas e cria boas condições para que o aluno tenha consciência sobre os objetivos de aprendizagem;

- os modelos analisados oferecem parâmetros claros, que ajudam a construção compartilhada dos critérios de avaliação;

- a oportunidade de trabalhar com textos desafiadores, cuja produção requer investimento e promove avanços consideráveis na competência escritora.

- o prazer de ver os textos produzidos circulando, sendo lidos, discutidos, comentados e apreciados.

É sobre a última das razões citadas acima que queremos conversar hoje. Alguns dos produtos finais dos nossos projetos estão prontos para serem compartilhados com a comunidade escolar:

- o site de literatura fantástica, produzido pelo 6º ano

- a Re-vista , produzida pelo 7º ano.

O fato de as publicações serem virtuais amplia a possibilidade de circulação desses textos, o que nos anima bastante. Afinal, é gratificante saber que o fruto de tanto empenho pode ser compartilhado com muitos leitores. Cada um dos textos publicados nos sites e na revista traz consigo uma longa história de planejamento, produção de muitas versões, discussão, revisão e reelaboração. Ao longo desse processo, os alunos aprendem muito sobre os gêneros estudados, sobre os procedimentos do escritor e sobre a língua. Todas essas aprendizagens são fundamentais e centrais no nosso projeto pedagógico.

Acrescentamos, ainda, um aspecto que, no nosso entendimento, precisa estar sempre bem presente quando se pensa no ensino de língua portuguesa na escola: ao ver seus textos circulando e sendo lidos, não apenas pelo professor, mas por uma variedade de leitores, os alunos tomam consciência de que são capazes de “dizer por escrito, colocar a própria palavra por escrito e, por meio dessa aprendizagem, compreender melhor a estrutura, a força elocutória e a beleza dos textos que outros produziram”¹.

Assim formamos leitores e escritores: cidadãos que circulam com tranquilidade e segurança pela cultura letrada, com a certeza de que, pela palavra, podem participar ativamente da sociedade de que fazem parte.

É com muito orgulho que apresentamos aqui o resultado de um trabalho árduo e cuidadoso, levado a cabo pelos alunos de 6o e de 7o ano.

Re-vista: um novo olhar para o mundo 

Literatura Fantástica

Boa leitura!

PS –  Entre novembro  e dezembro serão lançadas as publicações impressas: o livro de contos do 8º ano e o livro de poemas do 9º ano. Aguardem!


¹ FERREIRO, Emilia. “Sobre as não previstas, porém lamentáveis consequências de pensar apenas na leitura e esquecer a escrita quando se pretende formar o leitor”. São Paulo: Centro de Formação da Escola da Vila, 2010.

Parte desse texto foi publicada em:
MARTINS, Aline Evangelista. “Avaliação da produção escrita: desafios e possibilidades”. Artigo produzido para o Simpósio Interno da Escola da Vila, no ano de 2012.


Reedição de texto publicado dia 23 de outubro de 2013

Fazer artístico na matemática: criações de alunos do 7º ano em software de geometria dinâmica

-Escola da Vila

-

Por Kalil Hussein Charanek

Com o intuito de inserir a tecnologia em nossa prática pedagógica, os alunos dos 7os anos estudam uma sequência de geometria inteiramente realizada no software de geometria dinâmica GeoGebra. O uso dessa potente ferramenta exige que os alunos realizem construções geométricas virtuais, como se estivessem com papel, lápis e instrumentos geométricos em mãos. Entre as várias vantagens do uso do aplicativo em sala de aula estão:

• Ressignificar o estudo dos conceitos de reta, segmento de reta, círculo, circunferência, ponto médio, paralelismo, perpendicularismo, polígonos, além de explorar funções ainda não abordadas em aula, como a reflexão, elipse etc.

• Reforçar a necessidade da utilização das propriedades geométricas das figuras na hora da construção, já que é possível, no GeoGebra, movimentá-las para verificar se as propriedades se mantém ou se as construções se desfazem com a movimentação. Se as figuras não são construídas a partir das propriedades geométricas, como paralelismo, perpendicularidade, circunferência como o lugar geométrico que dista o mesmo de um ponto central, etc,  ao serem movimentadas, as figuras se desmancham. Essa é uma das potências dessa ferramenta tecnológica, que permite trabalhar com o conteúdo matemático desejado e possibilita que os alunos tenham um feedback da própria ferramenta em relação ao domínio do conteúdo estudado.

• Trabalhar com a criatividade dos alunos e sua capacidade de explorar e inovar quando se trata de ferramentas tecnológicas.

Assista ao vídeo, com as criações em geometria dinâmica feitas pelos alunos dos 7os anos da unidade Morumbi, durante as três últimas semanas de agosto, além de alguns depoimentos que explicam um pouco mais sobre o funcionamento desse software. Ao explicar como realizaram a figura e seus movimentos, é preciso que os alunos evoquem os conteúdos matemáticos estudados de forma relacionada e com sentido, além de favorecer o uso de vocabulário específico e adequado em um contexto que lhe dá significado.

O coletivo e o conhecimento

Escola da Vila

-

Por Clarice Gil Barreira Camargo

Pois o que é próprio do homem não é tanto o
mero aprender, mas o aprender com outros
homens, ou ser ensinado por eles.
(Fernando Savater, O valor de educar, p. 39)

Historicamente, a escola, como instituição de ensino coletivo, surge da demanda social de educar um grande número de pessoas de uma só vez.

Em nossa visão, a maior vantagem de nos reunirmos em grupos não está relacionada à praticidade ou produtividade, mas a um aspecto determinante para a aprendizagem humana, e que Savater está ressaltando no trecho acima: a possibilidade de interagir com o outro e assim aprender mais e melhor.

Uma das mais importantes finalidades da educação não é apenas promover a aprendizagem de certos conteúdos, mas garantir que os alunos dominem os meios necessários para continuar seus processos de aprendizagem por toda a vida. Para isso, é essencial que esses alunos desenvolvam as competências necessárias para estudar e, por isso, diariamente, se reúnem com os colegas de classe para ler, discutir, pesquisar, resolver problemas, entre outros, a partir da orientação e supervisão de um adulto, o professor.

Porém, se o objetivo é desenvolver a autonomia no processo de aprendizagem, é necessário que saibam estudar também sem uma tutela externa, tomando decisões a respeito de seus próprios caminhos, de forma consciente e produtiva.

Essa autonomia não se produz como um mero efeito da passagem de tempo na escola, ela deve ser desenvolvida por meio de um trabalho pedagógico intencional, e aqui chegamos ao assunto principal deste texto. São muitas as propostas que fazemos ao longo da escolaridade para favorecer o desenvolvimento da autonomia nos mais diversos âmbitos, em especial no que diz respeito ao estudo. Como uma das propostas deste ano, para os alunos do 8o ano, organizamos grupos de estudos na semana de provas trimestrais. Elegemos duas matérias e convidamos os alunos para se reunirem na escola e estudarem com os colegas, duas tardes da semana.

Qual é o objetivo desse grupo?

Os alunos se inscrevem com o objetivo de estudar para a prova trimestral que se aproxima, mas como quase todas as situações de ensino/aprendizagem desenvolvidas na escola, o nosso objetivo vai um pouco além. Queremos, assim como eles, promover um momento de estudo que colabore para a aprendizagem de um conteúdo, mas também que o próprio estudo seja um conteúdo. Queremos que nossos alunos aprendam a estudar.

E como funcionam os grupos de estudo?

Se estamos tratando o estudo como conteúdo e objetivamos desenvolver a autonomia dos alunos, é importante que esse espaço seja essencialmente gerido por eles. A qualidade do estudo, dessa forma, depende da qualidade da preparação e da organização deles. Por essa razão, não é possível participar do grupo sem trazer o material completo, sem antecipar parte do trabalho identificando suas dúvidas, preparando resumos, realizando a OE entregue pelo professor etc. Não há, ali, um adulto que vai ensinar a matéria, fazer uma revisão ou oferecer novos materiais. A equipe de orientação os acompanha e apoia em caso de necessidade, mas são os próprios alunos que gerem seu estudo.

No início do encontro levantamos temas que podem ser escolhidos como foco. Cada um avalia sua própria necessidade e se inscreve no grupo de um dos temas. Os grupos devem planejar como vão desenvolver o estudo e desenvolvê-lo.

E o resultado?

Ninguém melhor do que os próprios alunos para nos dizerem quais as vantagens e desvantagens dessa proposta. E aqui vale ressaltar: nos interessa saber o que eles pensam, porque nos interessa que eles reflitam sobre as experiências. Além de aproveitar ou não desses momentos de estudo, queremos que eles saibam analisar se aproveitaram ou não, o porquê, e queremos que eles possam, inclusive, decidir se o estudo em grupo funciona para eles ou não.

Como vantagem mais evidente do trabalho coletivo, os alunos identificam a possibilidade de tirar dúvidas com os colegas e compartilhar conhecimentos. Mas, além disso, os alunos percebem, por exemplo, que estar com o outro contribui para maior tomada de consciência a respeito de seu próprio saber. Você já se viu na situação de saber algo e quando lhe pedem para explicar a coisa se complica? Ter um interlocutor contribui para descobrirmos o quanto estamos preparados para falar, expor, discutir, analisar um assunto, coisa que o estudo sozinho não permite.

Por outro lado, estudar em grupo pode ser desafiador, em especial para alunos mais novos, porque estão entre amigos, e muitas vezes se dispersam. Desenvolver autocontrole em relação a isso, conseguir manter o foco, ser capaz de dirigir um grupo para que funcione bem são habilidades importantes de se desenvolver, e isso só é possível tentando e errando.

Veja abaixo alguns depoimentos dos participantes:

Ganhando maior experiência e autonomia, nossa expectativa é a de que os alunos passem a se programar para estudar em grupo, independentemente desse espaço. Que possam se reunir na casa de alguém, na biblioteca da escola ou mesmo por Skype, como já fazem muitos dos alunos de 9o ano. E que nesse processo eles aprendam muito sobre ciências naturais, matemática, língua portuguesa, geografia ou história, mas aprendam muito também sobre aprender.