A diversidade extrapola os muros das classes

Escola da Vila

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“Si hay algo semejante en todas las aulas, es precisamente que en todas reinan las diferencias.” Delia Lerner

 Por Angela de Crescenzo e Julia Narvai, Orientação Educacional do Fundamental 2 

Todos temos distintos tempos para aprender, mas a escola, de uma forma geral, quer que todos aprendam ao mesmo tempo, da mesma forma, o mesmo conteúdo. Essa questão é sempre motivo de reflexão na Vila, novas formas de agrupamentos são pensadas e experimentadas e o GEPE – Grupo de Estudos de Produção Escrita surge como mais uma iniciativa nesse sentido.

Um dos temas norteadores de diversas ações institucionais da Vila em 2018 é o atendimento à diversidade. A escola já realizou, este ano, uma série de reuniões pedagógicas dedicadas ao tema, para nossa equipe interna, e também vem atuando na formação de profissionais de outras escolas e na formação da nossa comunidade escolar – como a viagem pedagógica internacional para Buenos Aires e uma reunião de famílias cuja pauta foi a diversidade.

Entre tantas outras ações realizadas, inauguramos no 1o trimestre um projeto piloto para o Fundamental 2 na Unidade Morumbi: o GEPE. Emilia Ferreiro diz que cabe à escola “transformar la diversidad conocida y reconocida en una ventaja pedagógica” e para isso é preciso criatividade, pensar em novas formas de ensinar, de acolher as diferenças existentes. O grupo se reúne uma vez por semana e tem por objetivo favorecer o vínculo positivo dos alunos com as aprendizagens que envolvem leitura e escrita, além de criar mais condições para que se sintam confiantes dentro e fora da sala de aula.

No GEPE, a diversidade é justificativa, método e objetivo. Temos um grupo multisseriado, composto por alunos de 6o a 9o ano, com diferentes trajetórias escolares. Uma das principais estratégias que utilizamos é proporcionar a interação intencional desses alunos, ao constituir um novo grupo, de modo que possam assumir papéis diferentes do que estão acostumados a exercer. Para nós, o mais importante é que os papéis se alternem: queremos que um mesmo aluno possa vivenciar o lugar de quem sabe e de quem aprende, sabemos que quando o aluno está no lugar de quem ensina também aprende muito, pois, ao fazer esse exercício, precisa reorganizar o que sabe e, assim, ensinar o colega.

Outro ponto importante é que estamos constantemente dialogando com as aprendizagens propostas nos cursos regulares de cada série, apesar de não abordar os mesmos conteúdos trabalhados em sala de aula. A partir do repertório criado ao longo de toda a escolaridade dos alunos, da apreciação dos contos escritos pelos alunos de 8os anos de séries anteriores e da proposta de leitura de uma resenha crítica sobre um livro de contos, os alunos foram convidados a produzir livremente um conto. Esse é o depoimento que recebemos de uma aluna do 6o ano que está estudando contos fantásticos em sala de aula e vindo ao GEPE: “Neste trimestre eu amei o tema que a Ju e a Angela propuseram porque fiquei superinteressada e empolgada para escrever meu conto sobre uma menina que não tinha condições financeiras para estudar em uma escola particular. Foi um dos textos que ficou mais longo e mais bem escrito por mim!! Esse foi um projeto muito legal e interessante, porque lemos textos feitos por alunos de anos anteriores, fizemos contos e revisões. Todo esse processo me ajudou a ter novas ideias para escrever meus contos fantásticos em sala de aula. Foi uma boa ideia a escola criar esse projeto!!” F. M. 6o ano

Foi estudando os documentos argentinos e por meio das contribuições da última viagem internacional que encontramos sustentação para desenvolver esse trabalho. Uma publicação do Ministério da Cultura e da Educação da Argentina propunha, já em 1986, que “para dar respuesta a la diversidad cultural y lingüística, no había que atender de manera especial a “los diferentes” sino modificar las actividades escolares para todos los alumnos (…) Esto suponía producir algunos cambios en la organización de la escuela y, sobre todo, suponía crear instancias periódicas en las que se invertían los papeles en relación con el poder lingüístico”. (El fracaso escolar no es una fatalidad).

Do ponto de vista do professor e da escola, quando pensamos em agrupamentos flexíveis também temos que fazer um exercício de propor atividades que atendam a diversas cronologias de aprendizagem, isso supõe construir um novo saber pedagógico.

Outra preocupação é que os alunos que estão trabalhando em pequenos grupos no contraturno (GEPE) levem informações e produções para os demais, pois assim estarão sendo validados como grupo que sabe e está produzindo saber.

Além dessa estratégia, também temos promovido durante os encontros o trabalho com produções escritas que extrapolam os temas discutidos e trabalhados em sala de aula a fim de ampliar o repertório cultural e a reflexão sobre temas do mundo. A discussão e a produção escrita que os alunos fizeram a partir das leituras do texto “Todo mundo cresce igual?”, postado no blog Capitolina, e “Vida perfeita só existe no Facebook”, da revista TPM, foram bastante positivas na nossa avaliação. Trazemos temas que são presentes na vida deles, que fazem parte das reflexões da faixa etária. Um aluno do 8o ano nos deu o seguinte depoimento: “O GEPE é outra oportunidade de melhorar. No GEPE não são abordados apenas os temas estudados dentro da matéria de LPL, como a matéria de LPL no geral. É interessante essa troca de conhecimentos entre alunos de diferentes séries, porque isso ajuda a expandir o conhecimento de cada aluno, já que cada um tem um discernimento diferente sobre a matéria de LPL e pode contribuir para ampliar o aprendizado do próximo. Fizemos uma atividade interessante que consistia em ler um texto e analisar as diferentes interpretações que esse texto propõe sobre a ideia de crescer. Cada um também pôde dar a sua opinião sobre a sua maneira de entender o que é crescer.” R.G. 8o ano

No GEPE a avaliação é constante, por meio da troca entre eles e da nossa observação e análise das produções e da participação dos alunos. Assim, conseguimos dimensionar os avanços nos procedimentos e nas produções. Da mesma forma avaliamos constantemente o próprio projeto para que cumpra cada vez melhor com seus objetivos. Sabemos que aprender não é um processo simples, mas os depoimentos abaixo demonstram entusiasmo com a iniciativa e com algumas das conquistas já observadas por eles.

“O GEPE me ajudou porque, conversando com um colega que já havia passado pela experiência de produzir contos no ano anterior, consegui perceber que eu havia colocado detalhes na história que já haviam sido citados no começo do texto, e achei essa ajuda muito legal.” B. G. 8o ano

“Estou achando muito legal o GEPE!!! Ele está me ajudando muito com escrita de texto e além disso o GEPE é muito legal e divertido” N.M. 6º ano

O GEPE para mim é uma oportunidade de poder melhorar… Apesar de parecer com o SMA, eu acho que é bem diferente, porque lá no SMA costumamos estudar uma matéria que estamos vendo, especificamente a matéria de cada trimestre. Já no GEPE nós vemos temas mais gerais e que não só ajudam temporariamente para uma matéria, mas sim para boa parte delas, visto que há alunos do 6º ao 9º ano juntos estudando um mesmo tema. Por isso acho que o GEPE ajuda bastante com o estudo, seja para o 6º, o 7º, o 8º ou para o 9º.” T.T. 9o ano 


Referências

LERNER, Delia. Enseñar en la diversidad. Conferencia dictada en las Primeras Jornadas de Educación Intercultural de la Provincia de Buenos Aires: “Género, generaciones y etnicidades en los mapas escolares contemporáneos”, 2007.

TERIGI, Flávia. As cronologias de aprendizagem: um conceito para pensar as trajetórias escolares. Conferência realizada em 23 de fevereiro de 2010 na Jornada de abertura do ciclo letivo de 2010 – Ministério de Cultura e Educação – Governo de La Pampa. Tradução: Miruna Kayano Genoino, 2017.

Vilalê – O clube de leitura da Escola da Vila

Escola da Vila

Por Luiza Moraes, professora de LPL do F2 e
Fernanda Passamai Perez, auxiliar da biblioteca da unidade Butantã

A literatura é coisa inesgotável, pela suficiente e simples razão que um só livro já o é. O livro não é uma entidade enclausurada: é uma relação, é o centro de inúmeras relações. Seja ela anterior ou posterior, uma literatura difere de outra, menos pelo texto do que pelo modo como ela é lida.
Roger Chartier¹

Desde 2012, quinzenalmente, durante uma hora, alunos de todas as séries do Fundamental 2 da Escola da Vila se reúnem para compartilhar os desafios e os prazeres da leitura literária nos encontros do Vilalê. Com seus livros em mãos, leem em voz alta, discutem impressões, aprofundam interpretações e entram em contato com a leitura literária tal como acontece em um verdadeiro clube de leitura. Por conseguinte, se deparam com o universo simbólico das narrativas, o qual ressignificam e com o qual dialogam e estabelecem relações de foro íntimo, coletivo, ancestral. Dessa maneira, além do sentimento de pertencimento de uma comunidade leitora, já existente na escola, os integrantes constituem também a identidade do grupo.

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O grupo elege um título para ser lido e discutido durante determinado período e, com a mediação de Fernanda Perez, mediadora de leitura da biblioteca Tatiana Belinky, compartilham momentos preciosos de discussão literária. Nos últimos anos, se aventuraram por Jurassic Park, se emocionaram com Iqbal, desvendaram os mistérios de Agatha Christie com E não sobrou nenhum, entre outros. Agora, estão finalizando a incursão em A guerra dos mundos, de H.G. Wells, clássico da ficção científica.

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Dessa forma, o Vilalê faz parte do projeto de educação literária da Escola da Vila, em que nos empenhamos em formar leitores de literatura que se sintam implicados na leitura e que possam colocar em jogo diferentes formas de fruição e compreensão dos textos com os quais têm contato. Afinal, como aponta Teresa Colomer em Andar entre livros: “(…), falar sobre livros com pessoas que nos rodeiam é o fator que mais se relaciona com a permanência de hábitos de leitura, (…) parece ser uma das dimensões mais efetivas nas atividades de estímulo à leitura”².

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A seguir, o depoimento do aluno Lorenzo Almeida, do 8o ano, sobre a sua experiência no Vilalê:

“Eu acho interessante a ideia do clube do livro aqui na escola, porque eu não só ouço a minha opinião, o que eu entendo sobre o livro, mas eu também ouço o que outras pessoas interpretam. Daí eu posso formar a minha opinião a partir de várias ideias de várias pessoas. Na leitura de “A guerra dos mundos”, achei legal o jeito como os personagens agem. Eu gostei desse narrador personagem, porque ele conta como viu as cenas, então quando ele está com medo, ele vê a cena por um outro ângulo, vê tudo mais depressa, ele fica mais confuso. A dinâmica do grupo é muito boa, porque sempre quando eu acabo um pouco perdido, a gente pode discutir sobre o que acabou de acontecer e falar sobre o livro”.

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O Vilalê acontece com os alunos do Ensino Fundamental 2, às sextas-feiras, no período da tarde.


¹CHARTIER, Roger. Escutar os mortos com os olhos. Revista Humanidades. Estudos avançados 24 (69), 2010. (p.23).

²COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo, Global, 2007.

Ver, viver e ler a cidade, caminho para a cidadania

Escola da Vila
Na escadaria da Sé, de olhos fechados, alunos refletem sobre o que centro diz sobre nós

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Por Tiago Pinto Ferreira, professor de Ciências Humanas do F2

Dia 1º de maio de 2018, São Paulo acordou mais cedo. Era Dia do Trabalho, um dia de luta. Às 2h da manhã, um edifício de 24 andares veio abaixo, no centro da cidade; a luta, virou luto. A imagem do prédio desabando se espalhou rapidamente pelas televisões e pelas redes e ganhou contornos ainda mais dramáticos, por registrar o exato momento em que um morador, prestes a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros, foi engolido pelas chamas e escombros. Ricardo, mais conhecido como Tatuagem, tinha 30 anos, trabalhava como carregador, gostava de plantas, era skatista e foi a primeira vítima fatal da tragédia.

O edifício Wilton Paes de Almeida já havia abrigado a sede da Polícia Federal e desde 2002 pertencia à União. Por estar abandonado, em uma cidade com um déficit habitacional de cerca de 358 mil moradias[1], foi ocupado por um dos vários movimentos sem-teto da cidade e passou a abrigar cerca de 50 famílias de trabalhadores. Somente no centro de São Paulo são 70 prédios ocupados[2] e, na cidade, cerca de 708 edifícios[3] já foram notificados por não estarem cumprindo sua função social, ou seja, não são utilizados para moradia, atividades econômicas, sociais ou culturais, como determina a Constituição Federal.

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Aluno do 8º ano, observando o prédio Wilton Paes de Menezes, dias antes da tragédia

A despeito das dúvidas que envolvem o caso, como a idoneidade dos coordenadores do movimento dessa ocupação e as diferenças entre as estratégias e os valores, que orientam os inúmeros grupos que lutam pelo direito à moradia em São Paulo, a tragédia, como faísca, reacendeu um importante debate em nossa sociedade: por que existem tantos imóveis vazios em uma cidade em que tantos não têm onde morar?

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No transporte público

Dia 6 de abril, um grupo de alunos do Ensino Fundamental II da Escola Vila foi para o centro de São Paulo, com o objetivo de descobrir o que essa região da cidade revela sobre nossa realidade social. Para responder a essa questão, percorremos um roteiro que se iniciou na Praça da República e se encerrou na Sé. Os alunos, divididos em grupos, observaram principalmente os tipos sociais, os prédios, suas funções e arquitetura, os diferentes usos do espaço público, a arte de rua e registraram suas observações em diferentes formatos, como fotos, desenhos e versos. No trajeto, a primeira parada se deu no Largo do Paissandu para observarmos um prédio todo de vidro, que chamava a atenção por estar pichado de cima a baixo e por se tratar de uma das maiores ocupações do movimento sem-teto no centro. “Tem pessoas morando aí?” Em seguida, cruzamos a famosa Galeria do Rock, berço de diversos movimentos culturais, como o punk, o hip-hop, dentre outros. Saindo da galeria, caminhamos em direção ao Theatro Municipal, edifício inspirado na Ópera de Paris e palco principal da Semana de Arte Moderna de 22. No outro lado da rua, um shopping ocupa o antigo prédio da Light, empresa que teve papel central no planejamento urbano de São Paulo.  No Viaduto do Chá, paramos para ouvir a cidade: o som dos carros quase lembra o som do rio… Em frente à Praça do Patriarca, “Praça do Patriarca?”, os alunos avistaram a sede da prefeitura. Na entrada, o brasão da cidade: Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), e em todo o seu entorno, grades e polícia. “Por quê?”

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Theatro Municipal

No muro da Igreja de São Francisco que, junto com o Mosteiro de São Bento e Catedral da Sé, compõe o famoso Triângulo Histórico, marco do princípio da urbanização da cidade, lia-se “Menos cadeia e mais escola”. Próxima estação: Sé. Onde tudo começou, onde tudo termina. “Por que estas pessoas estão aqui?” ou, parafraseando Adoniran Barbosa, “e essa gente aí, como é que faz?”.

Aprender na cidade

Na Carta das Cidades Educadoras, elaborada no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras (1990), reuniram-se “os princípios essenciais ao impulso educador da cidade”. Nos primeiros parágrafos de seu preâmbulo é possível identificar e compreender o papel que a cidade tem ou pode ter no processo de formação de seus cidadãos:

(…) a cidade oferece importantes elementos para uma formação integral: é um sistema complexo e ao mesmo tempo um agente educativo permanente, plural e poliédrico (…) A cidade educadora tem personalidade própria, integrada no país onde se situa é, por consequência, interdependente do território do qual faz parte. (…) O seu objetivo permanente será o de aprender, trocar, partilhar e, por consequência, enriquecer a vida dos seus habitantes.

Para compreender o “avesso do avesso”, é fundamental ler a cidade. Nesse sentido, é essencial criar novas metodologias e propostas didáticas que possibilitem aos alunos acessar espaços, histórias e realidades que muitas vezes não se encontram nos limites da escola.

Em 2018, o Vila Ativa tem como um dos seus principais objetivos ampliar a relação da escola com a cidade, a partir de atividades que possibilitem a compreensão dos diversos alfabetismos urbanos. Entender a cidade como discurso, e compreendê-lo, permite desconstruí-lo, por meio da criação de caminhos de aprendizagem que o confrontem. Por essa razão, o centro, espaço de convergência, de tempos, rios, pessoas e contradições, é lugar privilegiado para uma leitura crítica de São Paulo e do Brasil contemporâneo. Certamente as imagens captadas pelos alunos ganharam outro sentido e dimensão. O prédio que estava lá não está mais, as pessoas que estavam lá não estão mais. De onde vieram? Para onde vão? Qual o papel do Estado nessa tragédia? E o nosso?

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Ver, viver e ler a cidade é, portanto, um objetivo a ser perseguido pela Escola. Trata-se de uma estratégia que certamente enriquece o processo de construção do conhecimento, e que pode contribuir, de maneira decisiva, para a formação de cidadãos atuantes, sensíveis às desigualdades de toda ordem e, por consequência, comprometidos em participar da criação de realidades outras, mais justas, mais humanas.


[1] Fonte: Secretaria Municipal de Habitação.

[2] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

[3] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

Para além do trabalho em sala…

Escola da Vila

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Por Gislaine Carvalho Rasi e Raphael Dias de Castro,
professores de Matemática do F2

O espaço da Oficina de Matemática foi criado com o intuito de oferecer mais uma oportunidade de estudo e atender algumas dificuldades apresentadas pelos alunos do Fundamental 2 na área. É voltado àqueles que demonstram recusa ou demora em iniciar as propostas, não mobilizando, de imediato, os conhecimentos anteriores; aos que desistem rapidamente da resolução de uma situação; aos que solicitam em excesso a ajuda do professor para confirmar o acerto; e também para aqueles que têm dificuldades de perceber os erros que cometem.

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Nas aulas, os alunos vivenciam práticas do fazer matemático, explorando e investigando diferentes situações, participando ativamente e ocupando lugares de quem vai apresentar ou explicar algo para o outro. Resolvem desafios, aplicam a matemática em situações cotidianas, discutem estratégias e resoluções, elaboram sínteses para retomar os conteúdos sobre os que ainda têm dúvidas e conhecem recursos tecnológicos interessantes utilizados na disciplina. No trabalho em grupos, são instigados a comunicar aos colegas o que pensam, visando restaurar o poder linguístico.

Além disso, os alunos da oficina lidam com diferentes práticas de estudo, e situações de autoavaliação, propiciando elementos para sua autorregulação e elaboração de um projeto pessoal.

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No primeiro trimestre de 2018, os alunos investigaram os conceitos de área e perímetro. Primeiramente, tiveram o desafio de estimar as medidas de uma sala de aula utilizando-se de diferentes estratégias, que foram desde a contagem de azulejos no piso até mesmo ao uso de seus pés e palmos como parâmetro. Na aula seguinte, puderam utilizar instrumentos de medida apropriados, como a trena. Por estarem organizados em grupos com membros de diferentes anos, cada um pôde contribuir com seus próprios conhecimentos que fossem úteis para a resolução da tarefa, sendo necessária a cooperação de todos. Além disso, o registro do raciocínio utilizado pelos alunos foi outro aspecto importante do trabalho, pois ao final da atividade cada grupo expôs para os colegas suas estratégias de estimativa e medição, além de analisarem os motivos para as diferenças encontradas e quais métodos foram mais precisos.

Curso: Oficina de Matemática
Quartas-feiras -14h00 às 15h20
Unidade Butantã
Inscrições: Secretaria

Jogos no Parque – momento de interação e criação de novos vínculos no FII

Escola da Vila

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Por Vera Barreira, orientação do Fundamental II

- Do que eu brinco agora?

- Não tenho nada para fazer!

- Ninguém me chama para brincar… 

Muitos de nós já ouvimos frase semelhante dita por alguma criança num dos tantos momentos de tédio e falta de opção que invadem a vida dos pequenos postulantes a adolescentes de 11 e 12 anos, não é?

Na escola, muito embora repleta de amigos e espaço, essa também pode ser uma questão: o que fazer no horário do recreio?

Os alunos do FII se espalham pela escola em atividades variadas: uns jogam bola nas quadras, outros vão para o ping-pong e pebolim, alguns andam ou sentam pelo parque para conversar com amigos, há ainda os que gostam de brincadeiras de correr, como pega-pega ou esconde-esconde.

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Mas há também muitos alunos que ficam meio perdidos nesse horário, quando todos se dispersam em subgrupos interclasses. Muitos deles preferem ficar dentro da sala, onde sempre fica uma turminha e é garantido que você não ficará sozinho, mas não necessariamente interagindo com os outros. Alguns chegam a ficar isolados, se distraem com joguinhos no celular ou ouvindo música.

Pensando nesses alunos que ainda precisam de uma mãozinha na hora da interação, da brincadeira, do bate-papo, pensando em promover novas interações a partir de atividades diferentes das já ofertadas, pensando em uma forma de combater o isolamento de alguns, propusemos aos 7os anos um projeto diferente, em que eles possam ser os organizadores, tomar decisões, sugerir e resolver as questões que aparecerem. Um projeto coletivo.

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Iniciamos na aula de OE uma conversa sobre a importância de sair da classe na hora do recreio, dar uma volta, mudar de ares, ver mais pessoas, ter um tempo de relaxamento fora do ambiente onde estudam a manhã toda. Em seguida, conversamos sobre as atividades da hora do recreio: o que fazem, o que gostariam de fazer, que outras opções gostariam de ter?

Entre o que já fazem e o que gostariam de fazer, os alunos fizeram um levantamento de novas ideias de atividades que poderiam propor nesse horário. Entre as mais citadas, e que eles próprios achavam que seria possível levar adiante como projeto comum, estava a ideia de organizar um espaço para jogar jogos de mesa, como os de baralho e tabuleiro, um lugar para ouvir música e um lugar confortável para sentar e conversar.

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Conversas, ideias, discussões nos levaram a identificar um espaço amplo na escola, com mesas e cadeiras para mais de 30 crianças e com armários para guardar jogos! Um espaço que está livre nos 30 minutos de recreio do FII! Ocupamos com caixinha de som, vários jogos e um grande tapete com almofadas! Os alunos se revezam em trios ou quartetos que ajudam a colocar os jogos nas mesas e depois recolhê-los.

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Estamos há cinco semanas colocando em prática a ideia do JOGOS NO PARQUE, projeto construído e gerenciado pelos próprios alunos do 7º ano. Rapidamente a ideia contaminou outros alunos e passou a fazer parte das opções de muitos estudantes. Há dias em que o espaço está cheio, outros, nem tanto. Num balanço que fizemos com os alunos, a aprovação do lugar foi muito alta, mesmo daqueles que só frequentam uma ou duas vezes por semana.

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“É um lugar legal, você põe música, você fica lá com pessoas, até conheci umas pessoas.” 

“Dá pra conhecer novos amigos trocando figurinhas também, é muito divertido! Dá para trazer o jogo que quiser…” 

“Eu pensei que não tinha muita coisa lá para fazer, aí fui lá pra ver e achei legal!” 

“Eu gostei muito porque é um espaço diferente onde dá para descansar, ficar com os amigos. Eu joguei alguns jogos de lá, e tem outros que eu não joguei ainda, mas eu quero jogar outros dias.” 

“Eu gostei porque tem muitos jogos e todo mundo gosta de algum, então ninguém fica parado lá sem fazer nada.” 

“Eu achei bem legal ter umas almofadas ali no canto, e tem uns jogos que eu nunca tinha visto!” 

“Eu não gosto de ficar pelo parque, prefiro ficar na classe ou na biblioteca, mas achei essa sala de jogos melhor do que ficar na classe!”

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Tudo tem corrido muito bem! O único contratempo que tivemos foi a chegada, ou melhor, a invasão do espaço por uma atividade adorada, mas extremamente barulhenta, já velha conhecida de todos: bater figurinhas! Depois de duas semanas em que tudo ia bem, o espaço virou do avesso com dezenas de crianças animadíssimas falando/gritando todos juntos enquanto batiam figurinhas nas mesas. E os que não estão colecionando, e são muitos, se viram perdidos… A música? Ninguém mais ouvia! Os jogos? Ninguém conseguia jogar! Seguiu-se um debate sobre o que seria daquele espaço se as figurinhas continuassem ali. Muitos alunos, apesar de gostar de figurinhas, estavam convencidos de que não seria possível manter essa atividade ali dentro. A solução foi encontrar outro lugar para as figurinhas, e o espaço voltou a ter a tranquilidade necessária para se ouvir música e ouvir as risadas daqueles que estão se divertindo com os jogos de mesa.

Escola da Vila Escola da Vila

Esta semana, entramos numa fase nova. Os alunos perceberam que, em dias que os 7os anos têm quadra, a frequência diminui. Diante disso, decidiram abrir o espaço para a participação de alunos dos 6os anos. Fizeram o convite nas salas, e aos poucos os alunos estão chegando para conhecer e participar desse novo espaço.

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O espaço está ali e é uma nova opção para aqueles alunos que gostam de ficar na sala de aula na hora do recreio, para os que ficam meio perdidos no espaço do parque, para aqueles que gostam de ficar em grupo, que buscam novas atividades. O mais importante é que esse é um espaço que está facilitando o entrosamento, propiciando a interação entre os alunos, unindo as séries… Um espaço ao que todos são bem-vindos!

Quem nunca ouviu a frase: “Gostava de matemática até começar a estudar álgebra”?

Álgebra na Escola da Vila

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Por Gislaine Rasi, professora de Matemática do Fundamental 2

Relato muito comum entre alguns de nós, adultos. Não é por acaso que esse tema escolar tem sido alvo de inúmeras pesquisas em Educação Matemática. Se por um lado, a perda do sentido matemático e as dificuldades em operar com os símbolos podem provocar um distanciamento do aluno, por outro, um currículo com o foco prioritário no uso de técnicas reforça ainda mais esse quadro.

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Mas o que é álgebra?

Em síntese, álgebra é um campo da matemática que generaliza a aritmética, buscando a partir de regularidades numéricas produzir fórmulas gerais e manipulá-las, tem aplicações no campo da matemática pura e no estudo de outras ciências. Na álgebra são introduzidas as ideias de variáveis, incógnitas e o uso de símbolos.

E como dar sentido à álgebra que “vive” na escola?

Buscando romper com a ideia de que álgebra não tem sentido para além do uso de símbolos e da aplicação de técnicas de resoluções de equações, como é usual no ensino desse conteúdo, organizamos o nosso currículo em um projeto mais amplo de estudo tendo como via de entrada a generalização. Nosso objetivo é fazer com que nossos alunos compreendam a necessidade de se generalizar determinadas situações, criem o seu próprio modelo e pensem sobre os demais.

A ideia de generalização como o coração da atividade matemática no estudo da álgebra recupera em sua origem a compreensão do tratamento do geral e da busca de regularidades na história da civilização, resgatando práticas até então esquecidas.

Nas séries iniciais do Ensino Fundamental 2, o nosso trabalho algébrico se apoia no trabalho aritmético, criando relações entre o conhecimento novo e o antigo. A multiplicação e a divisão continuam sendo objetos de trabalho, agora não mais como ferramentas na resolução de problemas, mas como objetos matemáticos a serem analisados, favorecendo a ampliação dos sentidos dessas operações e do funcionamento das suas propriedades. A discussão de aspectos importantes da relação a x b = c que trata da variação do produto a partir da variação de seus fatores e da relação D= d x q + r, r<d, estabelecida entre os termos da divisão, permite o entendimento dessas fórmulas para a análise e o controle dos resultados. O aluno passa a antecipar um campo de resultados, pensando sobre as relações entre esses termos, sem fazer a operação. Por exemplo, ao resolver esse problema “proponha uma conta de dividir em que o divisor seja 5 e o quociente seja 12. Existe só uma conta? Quantas existem?”, nesse caso, ao estabelecer relações entre o dividendo e o divisor, o aluno encontrará apenas cinco contas, com dividendos 60, 61, 62, 63 e 64 uma vez que o resto não pode exceder o valor do divisor. Esse modo de entrar no trabalho algébrico traz para o universo dos alunos novos tipos de problemas que não estavam presentes nas etapas anteriores, ampliando as possibilidades do trabalho intelectual presente nas aulas.

A resolução de equações é o assunto que tem mais destaque nas séries finais do Ensino Fundamental 2 e privilegia relações entre a aritmética, a geometria e a álgebra, com o tratamento em diferentes representações. Neste estudo, procuramos dar sentido ao uso dessa ferramenta na resolução de problemas matemáticos aproximando o aluno do trabalho com as funções a partir da produção de fórmulas. São discutidas as diferentes formas de representar um mesmo número, as diversas formas de resolver uma equação, o sentido de equivalência representado pelo sinal de igual (=) e de grandezas maior (>) e menor (<), bem como as relações entre as diferentes representações, criando oportunidades para a exploração e aproximação de outras formas de pensar que levam ao mesmo resultado. Optando, assim, por introduzir o estudo das técnicas, vinculadas ao sentido das operações e suas relações. Dominar técnicas é extremamente relevante para seguir aprendendo, mas conhecer o seu sentido também é fundamental para saber quando vale a pena utilizá-las e para dispor de mecanismos para o controle das resoluções.

Dessa maneira, ao longo do Ensino Fundamental 2, oferecemos aos nossos alunos uma variedade de situações que buscam atribuir sentido ao estudo desses novos objetos matemáticos e ao uso das técnicas para suas resoluções, mais do que uma mera memorização de regras, evocando a pesquisadora em didática da matemática Carmen Sessa, entendemos que o trabalho algébrico é:

constituído por um conjunto de práticas que se inscrevem – e se escrevem – em uma determinada linguagem simbólica, com leis de tratamento específico que regem a configuração de um conjunto de técnicas. Todos esses elementos complexos – problemas, objetos, propriedades, linguagem simbólica, leis de transformação das escritas, técnicas de resolução – produzem um emaranhado que configura o trabalho algébrico”.

Por fim, acreditamos que a maior qualidade do nosso trabalho é fazer com que os alunos compreendam a importância do uso da álgebra, enfrentando as suas complexidades, e reconhecendo-a como um importante produto intelectual que expressa uma forma de pensar e de se comunicar, possibilitando as mais diversas aplicações na vida cotidiana e no avanço da ciência.

A oralidade posta em prática: participação de alunos do 8º ano no 3º ICLOC Jovem

Por Juliana Giannini, professora de LPL do F2 

Aconteceu, no dia 7 de outubro, a terceira edição do ICLOC Jovem, congresso organizado pelo Instituto Singularidades que tem como objetivo a divulgação de trabalhos e projetos realizados por alunos do Ensino Fundamental 2, Ensino Médio e graduação. A proposta, segundo o instituto, é valorizar produções que tiveram impacto nos âmbitos da ética, da política e da educação, tanto dentro como fora de sala de aula. 

Escola da Vila
Os alunos Davi Manzini, Tiago Soriano, Maria Fernanda Almeida e Gabriela Fernandes apresentam o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias

Dentre os diversos grupos, das mais variadas instituições de ensino de São Paulo e de outras cidades do Brasil, dois grupos de alunos do 8º ano da Escola da Vila se apresentaram no ICLOC. O primeiro grupo, formado pelos alunos Davi Manzini, Gabriela Fernandes, Maria Fernanda Almeida e Tiago Soriano, apresentou o trabalho “O desastre da publicidade brasileira: o sexismo nas peças publicitárias”, que foi produzido no primeiro trimestre deste ano, nas aulas de Língua Portuguesa e Literatura, como resultado do Projeto Publicidade. Em uma mesa cujo tema central era a reflexão sobre a publicidade e as suas consequências éticas e políticas na formação do sujeito, eles tiveram a oportunidade de dialogar com outros alunos, bem como com outros projetos didáticos e conhecer semelhanças e diferenças nos estudos realizados nas diferentes instituições de ensino. Além disso, a habilidade de conseguir falar em público e organizar um discurso propriamente oral, um dos objetivos de formação no âmbito das práticas de linguagem que faz parte do percurso escolar desde bastante cedo na Escola da Vila, foi colocada em prática, mas dessa vez para um público externo.

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As alunas Yolanda Monaco, Rosa Hellmeister e Alice Vilas Boas apresentam o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”

Diferentemente do primeiro grupo, o segundo, composto pelas alunas Alice Vilas Boas, Lorena Schaeffer, Rosa Hellmeister e Yolanda Monaco, apresentou o trabalho “Reflexões sobre a obra Capitães da Areia”, produzido especialmente para o congresso. Ao longo do primeiro e do segundo trimestres, a leitura e as discussões sobre o romance de Jorge Amado foram frequentes e resultaram na produção de um trabalho escrito, autoral, sobre um dos temas principais que se desenvolvem na obra. Para o congresso, as alunas se reuniram e elaboraram uma apresentação que expôs o percurso do trabalho com o livro, tanto em sala como em casa, tal como introduziu as suas próprias análises e interpretações. Em uma mesa sobre Literatura, a reflexão sobre um dos clássicos da literatura brasileira possibilitou conversas bastante interessantes a respeito das obras contemporâneas e, também, sobre os rumos ou as perspectivas para o ensino da Literatura nas escolas. Novamente, os desafios que envolvem a preparação de um discurso fundamentalmente oral e o intercâmbio com um público externo à escola se colocaram como situações de aprendizagem muito significativas. 

A experiência certamente foi engrandecedora, tanto para os alunos quanto para aqueles que estavam assistindo. Professores, coordenadores, pais e até mesmo colegas tiveram a oportunidade de ver os alunos e as alunas apresentando falas coerentes, bem fundamentadas e envolventes, que, sem dúvida, provocaram reflexões e debates aprofundados sobre esses temas, tão diversos, mas ao mesmo tempo tão importantes para o pensar sobre a escola e a sociedade brasileiras. 

Concurso culinário e experimentação de saladas: dos estudos à ação

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Vencedores do concurso culinário: Caio Marcondes de Barros, Catarina Miranda Almeida, Luiza Gregori Tokita, Sofia Maria Rechi Aguiar, Juliana Ogihara Greco e Lívia Maria Papolo Colombero.

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Por Elaine Occhialini e Celina Moraes

Como anda a alimentação de nossos adolescentes? O estudo de Alimentação e Saúde dos 8ºs anos possibilitou aos alunos fazer uma reflexão sobre seu consumo alimentar perante suas necessidades nutricionais, isto é, se dar conta do que comem e quanto comem e avaliar se o que consomem atende ao que um adolescente necessita em termos nutricionais e energéticos. Os alunos registraram todos os alimentos consumidos, em medidas caseiras, ao longo de uma semana, incluindo os horários de consumo, e depois quantificaram em porções para realizarem comparações a partir de parâmetros dados pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial da Saúde.

Algumas tendências que são observadas na alimentação dos adolescentes brasileiros (como aquelas relatadas na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, PeNSE) também puderam ser constatadas entre muitos de nossos alunos, como o baixo consumo de verduras e legumes, a diminuição no consumo de feijões e leite e um aumento significativo (para nosso público) no consumo de doces, especialmente em versões industrializadas, como bolachas e chocolates.

Aqui cabe uma reflexão sobre a organização do dia alimentar dos nossos alunos. Ao analisar os registros alimentares produzidos, verificamos que muitos não planejam as refeições para atender satisfatoriamente suas atividades e necessidade nutricionais: ainda é frequente que muitos venham para a escola sem café da manhã assim como também destinam pouco tempo para o consumo de uma maior quantidade de alimentos na hora do almoço.

Para ajudá-los a enfrentar as barreiras que cada vez mais corroboram com esse preocupante quadro alimentar, realizamos duas atividades diferenciadas nas quais os alunos puderam vivenciar aspectos mais subjetivos e sensoriais relacionados à alimentação: a experimentação de saladas e o concurso culinário de lanches. O concurso já acontece há alguns anos, cada vez com maior adesão dos alunos, mas a experimentação de saladas foi a novidade da vez.

Como observado nos registros alimentares, legumes e verduras continuam sendo os grupos de alimentos menos consumidos pelos adolescentes. Como são alimentos que oferecem uma quantidade menor de calorias, os adolescentes buscam “matar a fome” com alimentos mais energéticos e de baixo valor nutricional, como chocolates, doces, sucos adoçados e refrigerantes. No entanto, consumir regularmente verduras e legumes é extremamente relevante, visto o fornecimento de fibras, vitaminas e sais minerais proporcionado por esses grupos de alimentos.

A aula de saladas foi desenvolvida para estimular a experimentação de alimentos dessa ampla categoria, com a oferta de alface, rúcula, tomate, cenoura, brócolis e pepino. Nesse dia, os alunos também foram convidados a preparar molhos variados para temperar suas saladas: o clássico de limão, azeite e sal, outro de coalhada seca e hortelã, um de mostarda e mel e outro ainda com shoyu.

O resultado foi surpreendente! A maioria dos alunos mal se continha para começar o ataque gastronômico! Vários alunos experimentaram alimentos que achavam que não gostavam, outros se aventuraram nos diferentes molhos para buscar novos sabores, havia aqueles que incentivaram os colegas a provar suas combinações favoritas… Vamos deixar que nossas alunas Manoela e Lorena apresentem um pouco mais essa experiência:

Percebemos, assim, o quanto é importante manter a experimentação de novos alimentos mesmo para essa faixa etária e evidenciamos como é possível estimular o consumo de verduras e legumes com medidas simples, como a oferta de novos temperos.

O concurso culinário foi também um grande sucesso! Entre tortas, sanduíches e barrinhas de cereais tivemos 23 preparações, resultado do empenho de 45 entusiasmados cozinheiros! Fomos mais uma vez presenteados com muitas gostosuras e animação. Na defesa de seus pratos, relatos dos testes, da busca de receitas, das histórias de família e das preferências individuais. Ao final, o compartilhamento com toda a classe do resultado de seus talentos culinários. Nosso distinto grupo de jurados contou com a participação de alunos de cada turma (vagas disputadíssimas!), professores queridos (mais disputas!) e a presença ilustre do chef Caio Carbognin em algumas das classes. Aproveitamos este espaço para mais uma vez agradecer essa participação tão especial!

É difícil descrever o quanto essa atividade envolve os alunos e contribui para que explicitemos a alimentação como algo complexo, que envolve não apenas a composição nutricional de cada alimento, mas também afeto, memória, técnicas e muito mais. O apoio e o incentivo das famílias são também um ingrediente essencial nesses pratos. Que nossos adolescentes sigam se aventurando na cozinha e buscando uma alimentação saudável, saborosa, compartilhada com amigos e cheia de histórias.

Sobre eventos, celebrações e Brasil

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

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Por Eliane Mingues, formadora dos professores de F1 da Unidade Granja Viana

Ao final de um evento, seja ele qual for e onde for, lá no fundo, nos vem uma sensação boa de dever cumprido, já perceberam? Dever que é quase um aliado da obrigação e muitas vezes tão comum, quando falamos de instituições. Só que, na verdade, quando o evento é mais do que um dia na agenda, essa sensação não é de dever, mas de satisfação – porque tudo deu certo.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E aqui vale um parêntese, o que é dar certo? Como andam nossas métricas de sucesso e perfeição? Com nossos dias corridos e exigências cada vez mais acirradas, estamos conseguindo valorizar o que de fato importa? É nessas horas, no depois, que temos que colocar reparo: o que é perfeito? Perfeito para quem?

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Os eventos, aqui na Escola da Vila, são grandes parceiros dessa minha reflexão. Isso porque eles não são seus, nem meus, nem de ninguém, mas, sim, de cada aluno e de suas emoções e empenhos ali depositados. A partir de cada um é que chega até nós a celebração daquilo que eles fizeram, puderam e conseguiram, numa partilha solidária que só as a crianças sabem prover.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

O “Um Pouquinho de Brasil”, realizado no último sábado na unidade da Granja Viana, foi mais um evento que deu certo. Emocionou quem esteve presente porque pudemos sentir cada depósito de atitude e comprometimento dos alunos com aquele dia. Sua duração, das 10h às 14h30, foi apenas um instante para celebrar com eles uma festa que começou muito, muito antes. No pensamento conjunto entre professores e alunos sobre as oficinas, na preparação de cada trabalho, no empenho de sua preparação e montagem, nos sons e nas formas que queríamos contar a respeito do nosso país, esse tal Brasil que anda atribulado ultimamente, assim como todo o restante do mundo, de certa forma.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

É que, “Um Pouquinho de Brasil”, uma tradição na Vila, é o reconhecimento autêntico do nosso espaço na rica cultura popular brasileira que nunca pode ser abandonada pelo lastro da globalização. A gente sempre celebrou o Brasil por aqui, e construindo esse pensamento com nossas crianças e jovens, preservamos um orgulho que passa pelo reconhecimento do que temos de melhor, mas também de pior, para corajosamente ampliarmos o bem ou contribuirmos verdadeiramente com as mudanças necessárias.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Cada lantejoula costurada no painel da entrada, cada colagem do nosso lambe-lambe comunitário para a fachada da escola, cada família participante, cada som do tambor na apresentação do grupo Tiquequê, cada olhar curioso perante as tecnologias que convivem, e muito bem, com as tradições, cada olho no olho dos nossos alunos, cada qual, cada um, cada ação individual e coletiva dessa festa nos encharca de vida boa, fica na memória e faz jus aos dias que buscamos para o futuro das nossas crianças.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

“Um Pouquinho de Brasil”, aqui na Granja, ainda nos deu a conhecer outras situações especiais de outros projetos desenvolvidos durante o primeiro semestre, e assim pudemos adentrar outros cenários e conhecer os répteis e animais do fundo do mar, o museu da família, que este ano foi todo organizado pelos alunos, e a exposição dos anos 60 e 70, que retratou toda a pesquisa e o estudo sobre esse tão conturbado período da nossa história.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

E depois de sair tão nutrida por tantas e tantas coisas lindas construídas pelos alunos, tudo o que foi possível sentir ali naquele sábado de sol foi: que bom que somos brasileiros. Que bom que decidimos estar juntos. Que bom que escolhemos partilhar esse momento. Que bom que vocês foram lá para ver os alunos da Escola da Vila cuidando do patrimônio do nosso país.

Pouquinho de Brasil - Escola da Vila

Que bom que tudo deu certo. E que bom, sendo assim, ter sido perfeito entre os seus diferentes e os seus iguais.

Dever cumprido! Ou melhor, mais um ano de grande satisfação.

Iqbal e o direito de ser criança

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Por Fernanda de Lima Passamai Perez

Em quase 7 anos de existência, o Vilalê, clube de leitura, leu diversos títulos que despertaram discussões acaloradas e sensibilizaram o grupo, mas nenhum como Iqbal.

Ao se propor o título, havia um desafio para além da linguagem, havia um fato real: o assassinato de uma criança. Iqbal, garoto paquistanês cuja história serve como fio condutor da narrativa, foi entregue pela família ainda muito pequeno para trabalhar como tecelão em uma das inúmeras tapeçarias de seu país, sem qualquer direito. E, diferente das muitas outras crianças que trabalhavam em situação semelhante, Iqbal não deixou de sonhar, não se rendeu ao destino que traçaram para ele.

A saga do garoto franzino e sorridente tornou-se conhecida mundialmente. Ainda que tenha tido sua vida abreviada, Iqbal deixou um legado. Esse legado inspirou desde a construção de escolas no Paquistão, bem como prêmios: Iqbal Masih Award for the Elimination of Child Labor e WORLD’S CHILDRENSPRIZE, entregues àqueles que combatem a escravidão infantil no mundo.

A empatia dos integrantes com esse personagem foi intensa. Embora A história de Iqbal seja uma ficção, ela é baseada em fatos reais, infelizmente. No decorrer da leitura, o grupo foi refletindo e tomando conhecimento de que esse cenário não era exclusividade de um longínquo país asiático. Mesmo aqui no Brasil havia crianças e adolescentes que trabalhavam em condições não favoráveis ao seu desenvolvimento, o que, de certo modo, impede o acesso delas à educação. Iniciou-se então uma série de questionamentos a respeito da falta de direitos dessas crianças, principalmente o direito de SER criança. Foi então que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) apareceu nas discussões. Mas o que é ECA? Por que a elaboração de um estatuto para garantir direitos às crianças? Criança tem direito? E se ela for pobre não pode trabalhar para ajudar a família?

Para responder às inquietações e curiosidades dos integrantes, em nosso último encontro, dia 23 de junho 2017, o Vilalê recebeu a visita de Francisco Bodião¹, mais conhecido como Chicão, orientador educacional do Ensino Médio, profundo conhecedor do ECA e ativista pelo direito à cidadania, principalmente de crianças e adolescentes – grupos bastante vulneráveis e pouco visíveis pela sociedade.

O encontro teve início com relatos dos integrantes sobre o livro e sobre a recepção da leitura por parte do grupo. Em seguida, Chicão relatou de maneira muito emocionante experiências pessoais que serviram para exemplificar a importância do ECA – que completou 27 anos no dia 13 de julho –, e seu significado para o Brasil no início da década de 1990, poucos anos depois da abertura política brasileira e com uma Carta Magna nova. Gradualmente, os presentes foram entendendo a importância de haver leis específicas, que garantam às crianças e aos adolescentes o acesso à educação, cultura e condições especiais de trabalho, com o fim de assegurar oportunidades equânimes para o desenvolvimento desses jovens como cidadãos. Entre as muitas informações que o nosso convidado compartilhou estava a de que, há 17 anos, a biblioteca Tatiana Belinky acolheu o grupo, do qual Chicão ainda faz parte, que criou o Fórum de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Butantã (FoCA), cujas reuniões acontecem mensalmente, e convidou a todos para participar da Semana do ECA – na última semana de setembro.

A história de Iqbal disparou diversas outras questões em relação a direitos para além da criança e do adolescente, a situação dos idosos no Brasil, por exemplo. Como desafio, nosso convidado propôs ao grupo buscar uma leitura que provocasse uma discussão a esse respeito. Desafio aceito!

Para finalizar, Chicão revelou um desejo: “Que a gente tenha cada vez mais dúvidas. Que a gente cada vez mais se pergunte. Que a gente não aceite de primeira qualquer coisa”.

Obrigada, Iqbal! Obrigada, Chicão!


¹Chicão Trabalhou na Pastoral do Menor da Praça da Sé.