Nove não são dez

No passado, vivemos situações como a abordada nesse texto que aqui compartilhamos. Essa sempre é uma reflexão tocante e necessária.

4_5_2016

Por Fabiana Ribeiro, no blog PARATODOS

Festa de 8 anos do seu filho. Você resolve chamar todos os meninos da turma para uma festa de pijama. Nove garotos da sala. Todos, não. Todos menos um. Ah, todos-menos-um é quase igual a todos. E você é quase legal.

Mas você não contava com uma coisa. Vazou. Vazou no whatsapp da turma que vai ter uma festa. Poxa, que coisa, você tinha pedido discrição aos pais. Você segue com seus planos até que chega o grande dia. Lá está você, na escola, pra pegar os nove garotos que vão animar a sua noite. Nove garotos que não vão dormir nadica, que vão dar um trabalho do cão, que vão pedir suco de uva, quando só tem tem de caju, que vão querer Nescau, colo, travesseiro, água e televisão na hora do deitar. Que vão sujar o seu carpete de brigadeiro e ainda vão colocar o pé no sofá. É essa turma que entra na van. Do lado direito da fila indiana, lá está aquele menino esquisito que não fala, inerte no seu mundo, fora do contexto. Por sorte, nem viu a turma sair cantando, se distraiu com alguma coisa. “Melhor assim”, você pensa. Mas, você, já dentro do carro, vê a mãe do garoto que ficou pra trás. Não entende porque ela abraça o filho e discretamente chora. Nove não são dez. 

Então, você se pergunta em meio ao caos da van. “Por que mesmo não convidei aquele menino?” E você, claro, se lembra. Porque não se comporta como deveria. Porque ele não fala. Porque ele tem mediador. Porque ele pode babar nos brinquedos do aniversariante. Porque pode roubar o brinde antes do parabéns. Porque ele representa um risco para as demais crianças. Porque ele não brinca com as crianças, não interage com as crianças. Porque ninguém gosta dele. Porque ele tem Down ou autismo ou alguma dessas coisas complicadas. Porque, porque, porque… Você mal sabe o porquê, porque nunca se interessou. Nove não são dez. 

E você, se tiver o mínimo de sensibilidade, se dá conta da besteira que fez. E se arrepende. De não ter ligado para os pais do menino e dividido com eles o seu problema: vou dar uma festa de pijama para o meu filho, como podemos fazer para o seu filho participar? De não ter conversado com a escola para saber a opinião da professora sobre o garoto. De não ter sequer tentado. De ter feito um papelão na frente do seu próprio filho – que convive com o menino todos os dias e sabe, melhor do que você, incluir alguém na brincadeira. De ter cometido uma baita gafe pública, logo você que é cheia de valores morais tão consistentes. Nove não são dez. 

Então, você se pega pensando que, se a moda da exclusão pegar na turma, seu filho pode ser o próximo. Logo ele tão cheio de cachos e de bochechas rosadas, mas com certa intolerância a cumprir regras e combinados. “Coisa dessa geração”, você pondera. Lembra de filmes em que mães imploram para que seus filhos sejam convidados para as festas e garante que faria o mesmo pelo seu rebento. E, com coração apertado, pensa: “Nove não são dez”.   

Você, que era só simpatia quando ia à escola, nos últimos tempos se esconde. Você está com vergonha de encontrar aquela mãe. Tem medo de ela te olhar nos olhos e, apenas com os olhos, te lembrar que nove não são dez.

Nove não são dez, você bem entendeu.

20 ideias sobre “Nove não são dez

    • Eloisa,

      Nossos exemplos e nossa capacidade de repensarmos e refletirmos sobre nossos atos e ações sempre serão exemplos fundamentais para nossos filhos. Obrigada pelo comentário.

  1. Minhas filhas estão na Vila desde o grupo 1. Uma delas hoje está no 3º ano do ensino médio. Ela tem síndrome de Down, passei por esta situação várias vezes…E posso dizer que dói muito, tanto em nós pais, quanto nela quando passou a perceber e comentar estas situações…Ter um filho com qualquer que seja a necessidade diferente dele, nem sempre exite um culpado. Mas exclui-lo, sim! Vale muito a reflexão de nos colocarmos no lugar do outro…Obrigada Fabiana Ribeiro!!

    • Solange,

      Agradecemos seu depoimento. Esse texto, sem dúvida, ilustra e propõe uma reflexão muito valiosa a todos pais e educadores.

  2. Parabéns por compartilhar “Nove não são Dez”, excelente reflexão para todos nós Pais. Somos os exemplos e não os Super Heróis, portanto erramos, e devemos assumir isto junto a eles e sim, às vezes, apreender com os nossos filhos sobre inclusão e participação de todos em tudo. Pois afinal, queremos que eles participem de tudo com todos!!

  3. Fui mãe da Vila. No 9 ano comecaram as festas de 15….um horror. Nem todos eram convidados. Muitas meu filho ficou de fora e dizia…mãe fulano não foi convidado mas conseguiu convite e vai…eu ficava triste de ver um ser querer pertencer de qualquer forma…eu dizia:-se a menina quisesse vc teria o convite. E aquela cara triste me matava. Dava vontade de ligar pros Deuses e pedir uma intervenção….
    Mas foram crescendo e sendo convidado pra quase tudo é aí vc ve que um cidadão se forma assim mesmo, com dor, alegria e tudo mais…mas uma coisa eu sei …nunca fui capaz de não convidar a todos…..pensava no que eu tinha passado ….bj

    • Mônica,

      Agradeço compartilhar sua história, e sim, vamos nos movendo entre as dores e as conquistas de nossos filhos. Esse texto nos ajuda a pensar sobre isso.

  4. Estou adorando os textos postados no blog! Parabéns pelo trabalho. Tenho certeza que os assuntos tratados serão valorizados pela maioria.

  5. É muito bom ler textos como esse e perceber o quanto é importante refletir sobre questões sociais. Tive o imenso prazer de trabalhar na Escola da Vila e acompanhar o trabalho feito com essas crianças tão especiais e sabidas!
    Parabéns pela reflexão. As postagens desse blog me incentivam muito a
    pensar nosso meu trabalho em sala de aula.

  6. Infelizmente , nem todas as famílias param para refletir sobre esse assunto .
    Quando situações como a descrita ocorrem, muitas emoções afloram , portanto, devemos acolher nossas crianças e ajudá las a superar o ” estrago ” feio com doses extras de amor e diálogo.

  7. Caros amigos, como pai de uma criança autista agradeço a publicação da matéria. Já me vi na mesma situação da mãe do garoto da escola algumas vezes, e assim como ela chorei e rezei, rezei para que ele não percebesse, mas senti que bem lá dentro seu coração que ele sentiu e a sua decepção eu senti na alma, uma dor sem fim… hoje rezo para que esta matéria seja lida e ajude para que crianças como meu filho não sejam privadas de um momento como este e as pessoas entendam que apesar de as vezes estarem fora do padrão possuem sentimento, muitas vezes até mais aguçados e sofrem com a incompreensão dos “normais”.

  8. Passamos sempre por esta situação. Ainda acho muito dificil não convidar todo mundo. Meu filho fala: mas mãe , ele nem gosta de futebol! E eu sempre respondo: Não faz mal, vai ver a criança gosta de assistir os amigos, estar presente, comer bolo, sei lá, mas a gente tem que dar a opção dele participar. Na idade atual , eles se combinam , mas continuo incomodada quando vejo que tem gente de fora. Obrigada pelo texto, me emocionei tbem.

  9. super texto!
    Li com os meus filhos um livro chamado “The Invisible Boys” de Trudy Ludwig e juntos aprendemos a importância de olharmos para todos a nossa volta. Ninguém merece ser invisível. O livro oferece uma bela lição para as crianças e provavelmente ajudara muitas mães como eu a nunca ver somente 9 dos 10. Recomendo a leitura.

  10. Sensacional! Me emocionei e relembrei minha história com meu filho!Excluído de uma festa, chorando pois todos iam e ele não,simplesmente porque a mae da criança nao gostava do meu filho ? Por que? Não sei!!!
    Mas ele sentiu a dor de ser excluído e sem saber o porquê! !

  11. Bom dia! Embora os pais peçam sigilo sobre as festas, as crianças de todas as classes comentam a festa, e quem foi convidado ou não e até as desculpas esfarrapadas por não convidar, sempre existe exclusão, tenha a criança deficiência ou não, sempre “vaza” o que farão e ainda tem o desprezo. Ninguém é obrigado a convidar quem não quer, porém não dá para não saber que haverá festa privada, seja de grupo de meninos ou meninas. Um abraço!

  12. Que texto lindo.
    Lendo esse texto ainda temos uma esperança no ser humano que vai ler e se concertar, ajustar as idiotices colocadas na sociedade de não convidar todos de uma classe.
    Parabéns muita esperança nesse texto.
    Emerson

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