Experiências educacionais: High Tech High, Califórnia

Por Fermín Damirdjian

Em texto de minha autoria publicado neste blog, em março deste ano, fiz uma reflexão sobre o amplo contexto histórico e político no qual se insere a consolidação e a difusão da escola em seu formato convencional, tal como o conhecemos hoje. Sobre este formato, estou me referindo ao óbvio: a escola como um lugar com corredores que levam, como artérias, a seus órgãos principais, dentro dos quais se desenvolve seu bom funcionamento − as salas de aula, com os alunos todos voltados para uma mesma direção −, sendo o destino de seu olhar e ouvidos o professor que, auxiliado pela lousa, expõe verbalmente os conteúdos a serem aprendidos.

Mais do que qualquer descrição, há uma máxima que ilustra bem a situação: se um médico cirurgião de fins do século XIX adentrasse em uma sala de cirurgia atual não reconheceria o lugar; o mesmo não ocorreria com um professor: ele se sentiria em seu habitat sem maiores dificuldades. Não é uma imprudência afirmar que pouco ou nada mudou na escola desde o início da era contemporânea até os dias de hoje.

Dito isso, dando seguimento ao assunto, que está longe de se esgotar… Não faltam pensadores e experiências competentes ao redor do mundo que valham a pena ser consultadas e visitadas. Essa é uma das atividades promovidas anualmente pelo Centro de Formação da Escola da Vila. Dentre os diversos cursos e atividades de formação para educadores, há uma viagem anual para outros países da Europa, da América do Norte ou da América Latina a fim de conhecer algumas experiências que buscam um formato mais atual para a escola e a educação dos alunos deste século. Os quais diferem, e muito, daqueles garotos de cem anos atrás…

Em abril deste ano o Centro de Formação organizou uma viagem à Califórnia, onde se encontram algumas instituições expoentes de uma nova forma de conceber a escola. Visitamos escolas privadas e públicas, de diversos tamanhos e em diferentes âmbitos urbanos, em regiões centrais, em subúrbios, e em localidades mais distantes. Vou me concentrar na High Tech High Chula Vista, escola pública de modelo charter, localizada em San Diego, enquanto meus colegas estão abordando outras descrições neste mesmo blog.

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Há várias High Tech High na Califórnia. Todas elas gerenciadas segundo o modelo charter, o qual consiste em uma composição entre administração pública e privada. Grosso modo, trata-se de verba pública voltada a gastos estruturais básicos, os quais podem ir desde a construção do prédio até salários dos docentes, passando por custos elementares como energia e materiais essenciais. Por outro lado, há injeções inconstantes de fundos privados e oriundos de fundações destinados a projetos específicos. Isso pode variar, desde algumas centenas de dólares que saem dos bolsos das famílias para um breve trabalho de campo, até um programa de investimento tecnológico com duração de dez anos proveniente da Fundação Bill Gates. Em suma, os nutrientes essenciais são garantidos por fundos públicos, enquanto professores e diretores perseguem fundos específicos, garantindo constantes inovações didáticas.

Citarei um exemplo que permitirá melhor visualização do que foi descrito. The Tiny Home Project foi uma atividade realizada pelos alunos do ninth grade (14 anos) ao longo do ano letivo. A partir da constatação de uma carência urbana pontual, os alunos desenvolveram, com um escritório de arquitetura, projetos de casas de baixo custo a serem habitadas por artistas de San Diego. Em início de carreira, os futuros ocupantes carecem de um lugar para viver e produzir. Por outro lado, identifica-se um determinado bairro da cidade que tenha espaços favoráveis à sua ocupação, pelo êxodo de seus habitantes e abandono de algumas áreas. Os estudantes tomam parte nesse trabalho mediante o mapeamento dos hábitos e necessidades de seus futuros moradores por meio de entrevistas, para logo elaborarem o projeto gráfico, as maquetes e, por fim, a construção efetiva dessas casas. Isso envolve âmbitos de saber que vão das ciências sociais à geometria, passando por cartografia e questões urbanas. O andamento desse trabalho pode ser acompanhando no site Tiny Homes Project.

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Isso foi explicado pelos alunos que nos receberam. Sendo uma referência internacional de um novo modelo educacional, a High Tech High Chula Vista recebe milhares de visitantes todos os anos. A circulação pela escola é realizada com os alunos, que assumem o papel de ambassadors, e o visitante pode observar em detalhes o cotidiano da vida escolar por intermédio deles. Esses alunos têm referenciais importantes de como ouvir e falar com os visitantes, inclusive estrangeiros, mostrando-lhes a escola e seus projetos. Os alunos mais antigos vão treinando os mais novos ao longo do tempo, mantendo uma característica peculiar de apropriação da escola no corpo discente, independentemente de quais alunos compõem o grupo.

Há outros projetos que indicam um forte grau de apropriação do espaço escolar, aliado ao desenvolvimento de várias habilidades. Parte dos brinquedos do playground da ala infantil da escola, por exemplo, foi elaborada pelos alunos mais velhos. Isso envolveu observação de demandas dos alunos pequenos, bem como seus hábitos e carências no espaço físico da escola; invenção dos brinquedos para o parquinho, com respectiva pesquisa de materiais disponíveis no mercado, levantamento de custos e arrecadação de valores, segurança no uso, estética, resistência e manutenção dos materiais foram o trajeto desse trabalho.

A ocorrência de uma tragédia abriu caminho para um outro projeto bastante complexo. O padrasto de um aluno assassinou a este e a sua mãe, e em seguida se suicidou. Para além dos rituais possíveis para elaboração de tamanho impacto na comunidade, alguns professores desenvolveram com seus alunos uma ampla pesquisa sobre a violência na sociedade norte-americana. Além do valor intrínseco a uma pesquisa de cunho social e antropológico em torno de tema tão complexo, produziu-se um documentário e um memorial nos jardins da escola. Um mural com a descrição desse projeto pode ser visto em “How can we reduce the violence on US?”

Nessa instituição, com fortes características de aplicação prática do saber, não faltam salas de aulas e lousa. No entanto, é importante destacar que a disposição das mesas e cadeiras não é uniforme, nem voltada para um mesmo lado, mas em geral dispostas para a formação de grupos. Não faltam, também, mesas nos corredores da escola e nos jardins. Não é mero detalhe o fato de que todas as carteiras têm rodinhas, e muitas das mesas são dobráveis, de modo a abrirem grandes espaços livres em sala sem grande esforço. A disposição física é, de fato, adaptável aos propósitos de cada turma, de cada disciplina, de cada projeto. O objetivo didático é o que prevalece sobre o formato das atividades, e da escola como um todo.

O ingresso dos alunos à instituição é feito por sorteio simples, para uma área da cidade que abrange bairro e distritos muito distantes entre si. São contempladas comunidades muito diferentes, tanto no plano socioeconômico quanto cultural. Os professores têm salários mais baixos que os das escolas públicas convencionais, mas sentem-se mais livres para criar e percebem uma vivência mais autêntica por parte dos alunos no que diz respeito a seu processo de aprendizagem. Foi o que me disse uma professora enquanto fazia um piquenique com os alunos, atividade semanal que lhe permite um contato extraclasse para tratar de assuntos pessoais ou coletivos com o grupo que está a seu cargo. Bem longe da lousa.

7 ideias sobre “Experiências educacionais: High Tech High, Califórnia

    • Obrigado pela leitura, Sandra! Acho que, juntos, vamos descrevendo através destes textos a forte experiencia educacional que vivemos lá, certo? Foi um grupo muito competente. Um grande abraço!

  1. Oi, Fermin.Obrigada pela descrição e pelo esforço de todos na Escola da Vila de aproximar esta realidade educacional da nossa. A divulgação de ideias efetivadas e do pensamento que há por trás dessas práticas ajuda a pensar em soluções locais. O sentimento quando leio seu texto é misto: que bacana, que bom pensar assim e quão longe estão estes modelos da realidade brasileira. Abs.

  2. Prezada Ana Paula, de fato, o sentimento é bem ambivalente. Acho que precisa prevalecer o espírito de persistência e de inovação em nosso cotidiano, como educadores e cidadãos. Não tem outro jeito. Obrigado pela leitura! Um abraço…

  3. Fermín, Bom dia! Se queremos construir um mundo melhor precisamos ir ajustando o que não funciona e aperfeiçoando o que já existe. As escolas são formadoras de especializações e as crianças precisam destas vivências em ambientes externos a sala de aula para terem uma visão de como a sociedade se move, é importante que as escolas tenham esta visão prática e que gerem pesquisas. Que bom que vocês continuam buscando o conhecimento da modernização do aprendizado e que possam aplicar estas experiências aqui. Um abraço!

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