A Hora do Recreio: ensaios para a autonomia no Fundamental II

27_6_2016

Por Natalia Barros Contarelli 

Para ilustrar: “Os meninos acham que são os donos da quadra”

É visível para aqueles que acompanham de perto o cotidiano escolar como, por mais que os grupos se renovem, há algumas questões que se repetem, ano após ano. Esse ano, por exemplo, os 6ºs anos da unidade Butantã vivenciaram (e seguem vivenciando) a difícil tarefa de organizar o uso das quadras na hora do recreio. De saída, vale colocar que, assim como nas experiências das turmas anteriores, essa não foi uma demanda definida pelo grupo por mero acaso, mas praticamente se impôs a eles diante dos conflitos que surgiram.

Algumas meninas desejavam usar a quadra durante o parque, mas não se sentiam bem-vindas pelo grupo de meninos que a utilizava, invariavelmente, para jogar futebol. Queixas individuais chegavam à orientação educacional, que sempre tentava, conversando, fortalecer essas meninas para que conseguissem expor seus incômodos e negociar com seus pares. Sem sucesso. Os meninos ofereciam outro ponto de vista, em que se diziam abertos a ‘recebê-las’ nos jogos (ainda que o futebol fosse inegociável), mas que, nas ocasiões em que elas toparam, ficaram paradas, sem participar.

Era visível para a orientação educacional que esse incômodo era compartilhado por muito mais alunos do que os que se manifestavam (não só meninas), além de que essa questão ia além da simples organização burocrática do uso da quadra: uma oportunidade e tanto para refletir sobre o uso do espaço coletivo, os papéis assumidos por cada aluno nas relações dentro da escola, etc.

Desafio posto, iniciou-se o período de discussões sobre o tema, aproveitando o espaço das aulas de orientação educacional e das assembleias para que incômodos, relatos e propostas pudessem, alguns pela primeira vez, ser compartilhados. Um processo cansativo para alguns, aliviante para outros, com surpresas para todos. Criado um clima de respeito e diálogo, alguns meninos (daqueles que jogavam futebol todo recreio) criaram coragem para contar para os seus colegas que também gostariam de jogar outros jogos. Alguns alunos falaram abertamente sobre o medo dos outros zombarem deles por não jogarem tão bem, outros se viram diante da necessidade de colocar suas vontades em segundo plano, em prol do coletivo.

As propostas foram muitas, as discordâncias também. Ideias foram votadas, considerações feitas. Eis que os alunos chegaram a uma solução: um calendário de jogos e um pacto de que iriam ser mais atentos e cuidadosos com os colegas durante as partidas. Dois meses se passaram e, após algumas ponderações, concluíram que o calendário não estava dando certo. Novas ideias, novas considerações. E é aqui que estamos.

A hora do recreio: considerações

A hora do recreio é um momento cheio de peculiaridades, já que é nela que se expressam conexões e conflitos que não necessariamente têm espaço durante os momentos de estudo: as descobertas de interesses em comum, os desentendimentos entre amigos, a exploração dos diversos espaços da escola, as brigas no futebol, a troca entre alunos de idades diferentes, os comentários desagradáveis sobre um colega da turma, entre muitos outros; nela também se explicitam os diferentes agrupamentos dos alunos e, com eles, surgem tanto sentimentos de pertencimento quanto de solidão. São justamente essas características que tornam a hora do recreio um momento tão rico no processo de formação dos alunos e um campo fértil para a atuação da orientação educacional.

Assim como todas as propostas vivenciadas pelos alunos no cotidiano escolar, ainda que seja um período sem atividades direcionadas, a hora do recreio também é pensada considerando o projeto da escola e os valores que permeiam todo o nosso trabalho. De cara, é possível afirmar com convicção que esses 30 minutos de tempo livre entre as aulas apresentam, em alguma medida, desafios a todos os alunos da comunidade escolar – desafios, esses, que variam de acordo com a faixa etária dos alunos, com particularidades das turmas e, por que não, sob influência das transformações constantes em como se estabelecem as relações em nossa sociedade.

A questão da escolha, por exemplo, é algo que se evidencia de forma singular na hora do recreio. Isso porque há, durante as aulas, uma série de momentos em que os alunos se veem diante da nem sempre opcional necessidade de escolher: escolher qual será o foco dado à revisão de um texto, como registrarão as aulas, qual será a disciplina à qual dedicarão mais tempo nos estudos para as provas; na hora do recreio, entretanto, as escolhas assumem um caráter específico na medida em que não há, para além das regras básicas de convivência da escola, uma determinação prévia e externa do que deve ser feito por cada um. É, portanto, um momento em que os desejos podem se expressar de forma mais livre e, junto a eles, os medos e as inquietações.

Surgem, então, pensamentos como: “Porque ele quer ficar conversando com essas pessoas ao invés de passar o parque comigo?”; “Só porque ele é mais velho, eu tenho que sair da mesa de pebolim para ele jogar?”; “Se eu passar o parque conversando com uma menina, os meus amigos vão achar que eu gosto dela?”; “Será que se eu contar para um adulto o que eu vi meu colega fazendo, todo mundo vai ficar bravo comigo?”; e assim segue… Diante dessas circunstâncias, deixar que os alunos ajam autonomamente, interferir diretamente ou indiretamente, são escolhas complexas e que demandam reflexão constante da equipe de orientação educacional.

Talvez, daqui a dois meses, os alunos dos 6ºs anos cheguem novamente à conclusão de que precisam remodelar a organização das quadras. O que é claro para nós e, na medida do possível, vai se revelando para os próprios alunos, é que o ganho real de toda essa história está no processo, que nos permite atuar junto a eles à luz dos valores que acreditamos serem essenciais em sua formação: o conhecimento, a cooperação e a autonomia, e que lhes permite encontrar palavras e ensaiar formas de se colocar diante do grupo ao mesmo tempo em que constroem algo juntos.

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