As datas comemorativas dentro do calendário escolar

Escola da Vila

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Por Andrea Polo

… Mas aqui não se comemora o Dia das Mães? Talvez a Páscoa? Ah, pelo menos um dia especial para as crianças em outubro? E o Natal?…

Já tive várias conversas com famílias que ficam curiosas quando descobrem que nosso calendário não está a serviço das datas comemorativas. Não “usamos” o dia 19 de abril para falar do índio nem 7 de setembro como marco para tratar da independência do Brasil. Vale retomar um pouco da história da educação para saber como a ideia de ensinar por meio das datas adentra ao espaço escolar.

As datas comemorativas passaram a fazer parte do currículo de várias escolas brasileiras em meados dos anos 60, diante de um estado ditatorial, com o intuito de ensinar “deveres cívicos”. As tomadas de decisão e as escolhas não vinham de quem entendia de educação, mas da “necessidade” daquele momento de formar superficialmente sujeitos que reconhecessem alguns “personagens” importantes para a história nacional. As concepções de aluno crítico e professor reflexivo não combinavam com o calendário escolar que teimava em colocar orelhas de coelho e ornamentos indígenas ao mesmo tempo na mesma criança. Talvez essa imagem hoje nos traga certo desconforto, mas não é raro nos depararmos com escolas que trazem resquícios dessa concepção na qual cada data é marcada por festas e “atividades específicas” que nada têm a ver com conteúdos relevantes para a formação de sujeitos implicados desde sempre em seus processos de aprendizagem.

Nossa escola segue o calendário de feriados nacionais, entretanto, eles não norteiam nosso planejamento nem são base para tratarmos de maneira significativa e profunda de assuntos que não merecem apenas um dia em pauta, mas muitas e variadas ações para que sejam compreendidos como construções históricas e desdobramentos de ações humanas, com discussões que abarcam distintos pontos de vista e não apenas uma data específica. Dentro da escola temos muitas oportunidades para fazer valer a força de uma dança secular brasileira ou uma manifestação folclórica regional, e não pretendemos de forma alguma aprisioná-las num calendário.

Para comemorar algo dentro da escola é fundamental refletir sobre a relevância disso dentro das vivências das crianças.

Se a escola é laica e sua comunidade compreende pessoas com diversas crenças ou nenhuma, não caberia pensar nas comemorações religiosas porque dessa forma romperíamos com o princípio que desvincula a educação da religião.

Ao pensar numa festa para o Dia das Mães, por exemplo, a escola desconsideraria as diferentes possibilidades de configurações parentais. Talvez uma criança com dois pais naquele momento pensasse que há um tipo de família da qual ela não faz parte, e na realidade e escola deveria fazer com que todos se sentissem acolhidos, seja qual for a família que se tenha.

Não queremos oferecer às crianças informações recortadas de uma cultura estereotipada, implícita no cocar do índio, nas orelhas do coelho ou na espada de um suposto mártir.

20 ideias sobre “As datas comemorativas dentro do calendário escolar

  1. excelente iniciativa!!
    Parabéns ,com essa e outras situações que levam a escola da Vila por um caminho diferente das outras escolas.

  2. Excelente e necessária discussão!
    Como introdução ao tema foi um ótimo artigo, mas acho que a autora ainda poderia aprofundar um pouco mais a discussão, trazendo outras contribuições.
    Vou compartilhar com o grupo de professoras.
    Abraços!

    • Olá, Maria!
      Continuarei o assunto em um novo post sobre a relação das crianças com as datas comemorativas e o exagero de presentes!
      Forte abraço

  3. Andréa, como sempre seus textos são claros e super bem escritos! Muito bom! Parabéns!
    Concordo com esse posicionamento e acho bastante coerente com a proposta pedagógica da escola.
    Só sinto um descompasso quando do outro lado – nós, familiares (super me incluo nisso) – mantemos as comemorações para presentear os professores, tanto na Páscoa quanto no Dia dos Professores, por exemplo.
    Acho natural que as crianças e familiares queiram presenteá-los como forma de representar seu carinho e agradecimento pela dedicação, mas sinto um descompasso…
    Será que deveríamos fazer um movimento envolvendo as famílias para que esse tipo de relação tb deixasse de existir?

  4. Como sempre, excelente texto! Vou compartilhá-lo com muitas famílias e educadores. A Vila sempre coerente com seu projeto pedagógico e espero que isso continue assim!!! Obrigada, Andrea querida!!! Bj

  5. Como é bom acertar na escolha da educação escolar de nossos filhos! Como em outros comentários ao texto, receosa de deixar de testemunhar posições tão claras da Vila nos anos por vir.

    • Obrigada, Paula!
      Continuaremos compartilhando nosso posicionamento e contamos com a participação das famílias para validá-lo!
      Forte abraço

  6. Essa é a escola que escolhi pra minha filha! Muito bom o texto! Contribui para o entendimento da proposta pedagógica daqueles que desconhecem e possibilita a reflexão.

  7. Olá, Érika
    Agradeço pelo comentário.
    Vamos continuar escrevendo sobre assuntos importantes para a compreensão de nossa proposta pedagógica!
    Forte abraço

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