Um espaço democrático na literatura

Por Fabiana Saviolo e Merielen Valdevite

O 1º e o 2º ano da unidade Granja Viana participaram, nestes primeiros meses do ano de 2017, de uma tertúlia dialógica, proposta que oferece uma excelente oportunidade para reforçar os três valores essenciais do projeto pedagógico da Escola da Vila: autonomia, conhecimento e cooperação. “Mas o que isso quer dizer?” “Tertúlia? Que nome estranho!” Foram algumas das perguntas que surgiram quando escrevemos “TERTÚLIA” na rotina dessas séries; e que também podem estar passando na cabeça de vocês.

Tertúlia dialógica é um espaço de diálogo que favorece a troca de saberes entre os leitores sem que haja nenhuma distinção de idade, gênero, cultura ou capacidade. Essa maneira de tratar as crianças em tom de igualdade envolve alguns princípios que consideramos importantes: a solidariedade, o respeito e a confiança.

Muitas inquietações surgiram quando nos debruçamos nesse tema. Será que crianças tão pequenas dão conta de participar dessa proposta? Qual livro e qual gênero deveríamos escolher? Quais seriam as nossas intervenções antes, durante e depois? Para que uma tertúlia, de fato, aconteça, é necessário garantir:

• O professor como moderador – alguém que organiza a conversa, garantindo a participação e o respeito pela opinião de todos, criando um espaço de diálogo, em que o desafio para as crianças seja a argumentação. Aqui, o professor não deve fazer intervenções acerca do que é certo ou errado ou trazer aspectos da literatura para serem discutidos, tudo deve fluir a partir das contribuições das próprias crianças.

• A organização do turno da palavra – o moderador inicia a tertúlia perguntando quem gostaria de compartilhar um trecho do livro lido, e a partir das “inscrições” das crianças, organiza a ordem de fala. Dessa maneira, mais uma vez, são garantidos o respeito, a diversidade de argumentos e a participação igualitária.

Escola da VilaEscola da Vila

A organização do espaço já propicia uma interação entre 1ºs e o 2ºs anos há algum tempo: todas as quartas-feiras as salas são abertas para que os cantos sejam feitos coletivamente, e foi justamente nesse espaço, tão conhecido pelos alunos, que iniciamos o trabalho disponibilizando os livros para apreciação.

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A próxima etapa foi a leitura do livro, feita pelas próprias crianças em grupos com alunos do 1º e 2º ano misturados. Assim, um aluno do 2º ano tinha como desafio ler o livro para o seu grupo. Após a leitura, todos juntos deveriam selecionar um trecho ou uma ilustração para compartilhar com os demais.

Como este foi o segundo ano dessa atividade, os alunos que participaram no ano anterior, no caso os de 2º ano, sentiram-se motivados e orgulhosos quando atuaram no papel de leitores.

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Enfim chegou o dia da tertúlia realmente acontecer, e todos puderam comentar os trechos escolhidos, foram muitos comentários acerca das ilustrações: “a música está fazendo a árvore crescer”; “percebi que ele não estava só cavando, ele está fazendo a casa dele”; dos sentimentos despertados pela estória: “eles estão fazendo as pazes através da música”; “as pessoas queriam dormir lá por causa da música”.

Ao final do trabalho, pudemos observar o quanto esses momentos propiciam realmente uma escuta igualitária, acolhendo diferentes pontos de vista, permitindo a expressão de todos. Assim, a interação entre salas e o deslocamento dos alunos para uma posição de protagonistas conferiram significado ao aprendizado da leitura para crianças que estão em plena formação literária, e que continuarão se encantando cada vez mais com esse universo.


Referências:

Aguilar, C. (2008). La tertulia literaria dialógica de LIJ. Otra manera de entender la lectura en la formación de maestros y maestras. Revista de Literatura, 236, 27-35.

Caderno Tertúlias Dialógicas – Instituto Natura.

Flecha, R., García, R., & Gómez, A. (2013).Transferencia de tertulias literarias dialógicas a instituciones penitenciarias. Revista de Educación, 360, 140-161.

Uma ideia sobre “Um espaço democrático na literatura

  1. Fiquei feliz de ver as Tertúlias Dialógicas ganhando novos espaços!
    Só quero comentar um detalhe: uma atividade de conversa sobre um livro lido não pode ser chamada de Tertúlia Dialógica Literária, segundo a concepção fundamentada pelos materiais apontados nas referências, se o livro lido não for um clássico da Literatura Universal.
    No site da Comunidade de Aprendizagem há uma lista de sugestões para Educação Infantil e os demais segmentos.
    Parabenizo a equipe da Escola da Vila pela iniciativa!

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