Participação em modelos diplomáticos: a experiência na Escola Parque

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Na manhã do dia 21 de abril, meia dúzia de alunos da Escola da Vila terminava seu café da manhã, tomado de forma breve em uma antiga padaria do Leblon, tendo a seguir partido em direção à Escola Parque, localizada não muito longe dali, no bairro da Gávea. Sapatos e ternos atrapalhavam o caminhar dos seis jovens acostumados a roupas largas, chinelos e tênis. Não queriam se atrasar para sua primeira participação em um modelo diplomático que estava começando na Escola Parque, parceira carioca da Vila, evento para o qual tinham sido convidados poucos dias antes.

Uma vez dentro da Parque, passaram a ser reconhecidos por seus pares cariocas. Para além de uns poucos monitores e alguns ex-alunos, não havia ali nenhum outro adulto. A instituição estava ocupada e tomada por alunos engravatados e alunas em tailleur que caminhavam apressados pelos corredores. Ninguém se questionava ou olhava com distanciamento para o que ali ocorria. Todos estavam francamente ocupados com documentos que embasariam suas arguições perante os outros representantes de países dos quatro cantos do mundo em comissões de discussão separadas por temas de interesse internacional.

Nessas discussões, o exercício retórico era impecável. Não se ouviam ali expressões como “tipo…”, “meio que…” nem mesmo “eu acho…”. O rigor no figurino era o mesmo no cumprimento de horários, na linguagem e no papel adotado por cada um ao representar não apenas um país, mas uma figura diplomática do mundo real. A formalidade absoluta ganhava sentido: a argumentação deveria respeitar tempo de apresentação, réplicas, tréplicas e, principalmente e acima de tudo, poder de convencimento, sempre respeitando as determinações da mesa mediadora. Tudo baseado em documentos. A retórica diplomática era o instrumento supremo a ser esgrimido por oito horas diárias ao longo de três dias seguidos para, no fim, mostrar seus resultados em votações que concluiriam tais discussões.

Mas, afinal, do que estamos aqui falando? O que é exatamente um modelo diplomático? Qual o sentido de participar disso? A simulação diplomática, que pode ser, na maioria dos casos, uma réplica de comissões da ONU tratando temas atuais, mas não só, é um evento realizado por instituições de ensino das mais variadas, tanto de Ensino Médio como Universidades. Em muitos casos, a organização é feita por estudantes de Relações Internacionais, e os participantes são alunos do Ensino Médio. Há fóruns que recebem alunos de escolas do Brasil todo. Alguns chegam a muitas centenas de participantes. Outros, a algumas dezenas. O tamanho não tem relação com sua qualidade, em todo caso. Na Escola Parque, é realizado por alguns ex-alunos e os participantes são alunos do Ensino Médio de diversas escolas do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, prioritariamente.

Deixarei, no entanto, que o leitor acompanhe diretamente os relatos de nossos alunos, pois são quem melhor pode descrever a experiência. Com a palavra, a delegação Vila:

Por Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Marina Gregori Tokita e Lorena Caiuby Ferreira França.

Fomos convidadas para ir ao Rio de Janeiro, por três dias, para participar do MODEP – Modelo Diplomático da Escola Parque. Trata-se de um evento formal de simulação da ONU, no qual se formam diferentes comitês para discussão de diferentes tópicos. É organizado por alunos e ex-alunos e reúne aproximadamente 350 estudantes de diferentes escolas e faculdades.

Ingressamos no MODEP já no segundo dia do evento. Achamos que teríamos dificuldade em acompanhar as discussões, entretanto, pela atenção dos organizadores que nos receberam e pela organização da escola, conseguimos acompanhar as discussões proveitosamente.

Primeiramente, fomos apresentados aos temas de discussão. Todos tinham como pauta geral questões de conflito internacional e abrangiam o setor dos direitos humanos. Eram estes: Liga dos Estados Árabes; Conselho de Segurança Histórico; Pacto de Varsóvia; Parlamento Britânico; Conselho Europeu; Comissão para o Status da Mulher; O Novo Conceito Estratégico de Aliança e a Ação na Iugoslávia.

Nos foi sugerido que participássemos ou como ouvintes ou representando uma delegação. Diferentemente de nossos outros colegas, Joaquim Salazar (2º), Michel Sarfatti (1º), Vinícius Sabbag (1º), optamos pela primeira opção, pois assim era possível circular por todos os comitês e ter uma visão mais geral do evento e das discussões.

Todos os comitês, como é de costume da ONU, tinham organização formal e específica, pautada pela mediação de uma Mesa. As diferentes delegações levantavam suas placas quando desejavam se pronunciar, e só poderiam fazê-lo quando recebiam permissão da Mesa.

Especificamente, o comitê do Parlamento Britânico possuía uma organização semelhante aos outros comitês, porém a discussão tinha um caráter mais dinâmico. Logo, pela extensão do evento, este comitê nos atraiu mais e optamos por acompanhá-lo de forma mais presente. O Parlamento Britânico discutia a saída do Reino Unido da União Europeia. Desse modo, articulava-se com o comitê do Conselho Europeu, que reunia todos os países da União Europeia (tirando o Reino Unido), e discutia-se essa mesma questão – porém em diferentes esferas.

Como nos interessamos muito por esse tema, circulamos muito entre esses dois comitês, podendo assim acompanhar os diferentes conflitos, acordos e discussões que eram travados.

Logo que chegamos percebemos o caráter extremamente formal do evento e a imensa preparação da escola para tal, como a circulação de um jornal interno, a distribuição de bolsas e cadernos, um vasto lanche da tarde. Além disso, também pudemos reparar a preparação individual de cada pessoa para o evento. Todos possuíam um domínio muito grande sobre o tema de seu comitê, além de uma capacidade impressionante de debate, improviso e comportamento muito adequados às circunstâncias.

Também, no que se refere à organização do evento, o cronograma era muito extenso; todos os dias havia aproximadamente oito horas de discussão, divididas em sessões. Para nós, especificamente, que estávamos participando como ouvintes, essa extensão tornou o evento um pouco cansativo. Mas pensamos que, se estivéssemos participando das discussões, teríamos uma discussão diferente.

De modo geral, ficamos muito impressionadas com a qualidade das discussões, além dos cuidados dos organizadores com a nossa visita. Conseguimos tirar grande proveito da atividade, nos aprofundando em questões que certamente não adentraríamos em outras situações.

Além disso, a viagem em si foi muito agradável, pois tivemos a oportunidade de nos comunicar com diferentes pessoas e aprender muito.

Agradecemos à Escola Parque pelo convite e esperamos que no futuro seja possível formar uma delegação própria da Escola da Vila.

Agradecemos à Escola da Vila pela oportunidade e esperamos que haja sempre novas situações como essa.

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Por Michel Lancman Sarfatti, Joaquim Pedro Salazar e Vinícius Leoratti Sabbag

Nós, quando chegamos ao MODEP, pensamos que seríamos apenas ouvintes, mas na metade do primeiro dia descobrimos que poderíamos fazer parte do Parlamento Inglês. Assim, aceitando a proposta, Michel virou Caroline Lucas (Green Party), Vinícius virou Hillary Benn (Labour Party) e Joaquim virou Damien Green (Conservative Party). Sendo assim, discutimos com outras 30 pessoas os termos da saída do Reino Unido da União Europeia na perspectiva de um parlamentar inglês. Foi uma atividade nunca antes experienciada por nós. Discutimos questões como imigração, economia e legislação europeia até chegar a um consenso sobre a saída do Reino Unido.

O evento foi dividido em seis comissões, que discutiram assuntos históricos e atuais, sendo todos organizados em um modelo diplomático. Alguns dos temas presentes eram: discussão da OTAN sobre a guerra na Iugoslávia, conselho europeu discutindo Brexit, Organização dos Estados Americanos (OEA) discutindo a guerra na Guatemala, dentre outros.

A organização do evento distribuiu material escolar e didático, além de oferecer orientações a todos os participantes, a fim de criar um ambiente com discussões mais consistentes.

Impressionou-nos o nível de seriedade e profissionalismo dos integrantes, já que o evento até contava com uma equipe da imprensa que produzia matérias jornalísticas e cobria coletivas de imprensa dos políticos e diplomatas, de acordo com a linha editorial de cada publicação; os representantes diplomáticos construíam estratégias para alcançar seus objetivos de acordo com suas ideologias ou de quem representavam.

É um evento que exige muita preparação por parte dos alunos e dos organizadores, e por isso não tivemos uma participação efetiva em sua administração, mas entendemos como funciona o Parlamento Inglês e a posição dos principais integrantes sobre o Brexit.

Assim, o evento foi muito produtivo para nós, pois conseguimos conhecer esse tipo de atividade, e pretendemos ir a outros, como, por exemplo, o fórum FAAP e SPMUN.

Ouça também o podcast onde os alunos relatam suas impressões sobre esta atividade.

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