O papel da leitura na vida das pessoas

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Por Fernanda Flores, diretora pedagógica da Escola da Vila.

Recentemente, recebemos Marcela Carranza, professora e especialista pela Universidade de Barcelona em Livros e Literatura para crianças, para uma conversa e oficina com professores de nossa escola e de outras, para pensarmos nas relações entre Arte, Brincadeira e Literatura.

Deixou-nos um texto escrito recentemente para provocar reflexões sobre o papel da leitura na vida das pessoas, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Esse texto, em seu original, está publicado pelo Laboratório Emília, que esteve, com o CEDAC, em parceria com nosso Centro de Formação, na promoção de ações formativas que deem suporte a práticas pedagógicas comprometidas com a formação crítica e integral das novas gerações.

Uma janela aberta para A Terra do Nunca
(sobre a literatura de arrebatamento) de Marcela Carranza[1]

El arte, la poesía siempre pensé es la continuación de la infancia por otros medios.
(…) la escritura es eso, como volver a jugar.
En realidad estás jugando
con el lenguaje.
María Negroni

A literatura nos aproxima da infância. É uma maneira de restaurá-la. Quem se deixa levar pela literatura seja como escritor ou como leitor, a distinção não importa aqui, é capaz de restaurar maneiras de pensar próprias das crianças, especialmente das pequenas, e isso, para um mundo todo estruturado e que se quer previsível, é perturbador, desestabilizador, pouco tolerável e no mínimo incômodo, para não dizer, perigoso.

A Terra do Nunca, para onde nos levam as brincadeiras, os livros e também outras experiências culturais, é um país onde há outras possibilidades para o mundo em que vivemos, para a própria vida. É um mundo a construir, um mundo de aventuras e riscos. As garantias que se pressupõem de um mundo seguro se esvaem.

Não deixo de me perguntar por que a escola, em particular, e a sociedade em geral se esmeram com tanto afinco em querer domesticar a literatura: por que custa tanto à maioria dos adultos aceitar a indocilidade, a incontrolabilidade quando se trata de literatura para crianças. Penso que o problema, quem sabe, resida aqui: o imprevisível, o aberto, o não dado, a possibilidade de pensar completamente de outro modo, isso assusta, ainda mais quando se trata de crianças. Mas por quê? Porque elas ainda não assumiram as nossas verdades como únicas e insubstituíveis.

Tudo deve ser útil? A literatura na escola deve ser útil, servir para algo, ter alguma finalidade imediata? Se pensarmos um pouco, quando alguém lê um conto para uma criança pensando que deixa pra ela algum ensinamento, uma mensagem positiva, então não está depositando o devido valor na experiência mesma de ler, de brincar com as palavras, com as imagens, com os sonhos, a imaginação e a fantasia que esse texto pode provocar na criança leitora, mas pensa em algo que está fora dela. E isso não ocorre somente para textos mais tradicionais, que deixam ensinamentos ultrapassados, livros que vergonhosamente seguem vigentes; mas isso ocorre também para livros e leituras produzidas e destinadas a ensinar valores atuais, como a solidariedade, a paz mundial, o cuidado com o meio ambiente, o respeito às diferenças, os direitos feministas, etc. Livros que pretendem guiar passo a passo a transformação do leitor-criança segundo os desígnios do adulto.

“A literatura não é utilitária, tem relação com outras coisas, com uma espécie de busca que se faz por meio da linguagem. A linguagem é um meio e o que faz é uma coisa muito mais sutil. A escrita desmonta as maneiras convencionais de olhar a realidade, desmonta, desconstrói. Então cai por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. E, quando digo autoritário, não me refiro somente ao discurso político, e sim a qualquer discurso, porque todos são políticos, todos são, o discurso íntimo também o é. O discurso que diz “isso é assim”, em definitivo, é autoritário, venha de onde vier”.
María Negroni. 

“Se invisto tempo e esforço na leitura de um conto para uma criança, devo esperar algum resultado.” – pensam muitos adultos.

Há necessidade de um vazio prévio para a criação. E a leitura é criação, não resta dúvida. Um bom texto não nos diz como devemos lê-lo. Podemos dar às crianças materiais para brincar, oferecer-lhes um espaço, quem sabe uma orientação inicial, mas será a criança quem irá brincar, o único protagonista da brincadeira, e fará o que quiser com ela.

Com a leitura, acontece algo parecido. Felizmente, ninguém pode ler pelo outro nem dizer ao outro como se deve ler um texto, nem sequer o próprio autor. No entanto, muitos adultos querem guiar a leitura das crianças, dizendo o que e como devem ler, obrigando a coincidir suas leituras com as da escola. Muitos adultos, muitos professores, entendem a leitura como uma entre tantas formas de acatar a autoridade, ao que a sociedade nos tem tão tristemente acostumado. É o outro que tem a verdade, o outro que conhece a leitura correta do texto, e eu devo reproduzir. Isso está longe do brincar, de criar, de descobrir e de pensar.

A literatura é uma luta contra o dogma, do “certo e indiscutível” que pode se manifestar de formas variadas, uma delas, a mais sutil e talvez eficaz e efetiva, são as formas cristalizadas da linguagem. O dogma da palavra estabelecida. Por isso, brincar com a linguagem, transgredir suas regras, pôr em evidência seus lugares comuns, revelar clichês, como fazem com maestria Caroll, Cortázar, entre outros, é uma passagem para a liberdade.

Segundo María Negroni, ao desmontar as formas convencionais de olhar a realidade, em sua busca por meio da linguagem, a literatura deita por terra qualquer possibilidade de pensamento autoritário. Na linguagem literária falamos de liberdade, porque as palavras se libertam de sua servidão como instrumento de sentido.

Por isso, para permanecerem apegados aos conteúdos, os temas em livros infantis não deixam de ser uma maneira a mais de limitar a linguagem da literatura de seu poder libertador.

Jacques Derrida diz que quando as palavras começam a ficar loucas é quando se conectam com as outras artes:

“Assim quando estou realmente enamorado das palavras, e como alguém encantado pelas palavras, as trato sempre como corpos que contêm sua própria perversidade – sua própria desordem regrada. E quando isso ocorre, a linguagem se abre às artes não verbais. Quando as palavras começam a enlouquecer dessa maneira e deixam de comportar-se respeitando o discurso é quando têm mais relações com as demais artes.”

Viver uma experiência estética que nos permite sermos outros para voltar a pensar e pensar-nos, uma experiência que nos rapta deste mundo, nos distancia do tempo e do espaço, para nos devolver transformados, irreconhecíveis. Se não cremos em fadas, as fadas morrem. E com elas morre uma parte de nós mesmos, aquela que nos conecta com a infância, com nosso modo de estar no mundo durante a infância.

A brincadeira, a arte, a literatura compartilham um mesmo lugar na vida das pessoas, esse lugar da espera, da negociação com o mundo, com seus limites e suas exigências. No espaço da brincadeira, da literatura, diz Graciela Montes, há gratuidades, há liberdade absoluta.


[1] Tradução livre, de versão reduzida pela própria autora. Para ler na íntegra seu texto em espanhol, clique aqui.

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