Enfoque metodológico construtivista: aspecto essencial da nossa cultura

Escola da Vila

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Por Susane Lancman, coordenadora do Ensino Médio

De forma gradual, sem muita explicação teórica, nossos alunos vão se apropriando da cultura da Escola da Vila. Assim, vocabulário, valores, ações, metodologias vão sendo aprendidos de forma natural. Alunos novos passam rapidamente a usar a palavra parque como sinônimo de recreio, SMA como recuperação. O pedido de um professor para avaliar a postura de estudante é compreendido como um rol de atitudes esperadas por parte do aluno dentro da sala de aula que necessitam de reflexão constante para possíveis ajustes. Levantamento de conhecimento prévio é percebido como parte do processo de aprendizagem.

Aqueles que participam há muitos anos da cultura da Vila nem sempre se dão conta de que suas características estão emaranhadas no nosso a dia a dia. Muitas vezes é o aluno “estrangeiro” que traz em seus relatos a estranheza com a nossa cultura.

“Como o professor de Ciências Naturais quer que eu explique como acontece o dia e a noite no primeiro dia de aula se ele ainda não explicou a matéria?!”, perguntava um aluno novo do 6º ano em meio às lágrimas ao se deparar com a questão norteadora de uma sequência didática.

“Se eu sentar em dupla vai ter cola nas atividades!”, exclamava outro aluno novo do 8º ano como se estivesse explicando o óbvio.

“Eu não entendo para que reescrever tantas vezes o mesmo texto, assim eu nunca fico livre da atividade”, dizia outro aluno.

Cada instituição cria, de forma consciente ou não, sua cultura, e seus participantes vão aprendendo e se identificando com o modo operante. Alguns se dão conta da cultura e se apropriam a cada dia, e para outros esse processo passa despercebido, principalmente para aqueles que estão na Vila há muito tempo e imaginam que aspetos da nossa cultura são inerentes a todas as instituições escolares.

A conscientização e a clareza dos aspectos que compõem a cultura institucional dependem da idade do aluno, da experiência e do conhecimento que tem do projeto pedagógico da escola para que se entenda que a troca da palavra recuperação para SMA não é um detalhe, sentar em dupla não é uma alegoria, criar questões norteadoras é de extrema relevância para a realização de sequências didáticas, ter sucessivas etapas de revisão textual é parte essencial do processo de construção da escrita. Mas, vale dizer que a identidade cultural não é um conjunto de valores fixos e imutáveis, sofre mudanças pelas novas pesquisas pedagógicas e educacionais, pelas novas experiências e conhecimento da equipe de trabalho e pelo grupo de alunos que traz inovações de comportamentos e pensamentos.

Na medida em que essa cultura institucional é incorporada é comum que alguns alunos passem a cobrar que todos, alunos e professores, sigam o modelo vigente. Assim, todos os anos ouvimos na coordenação e orientação dos diferentes segmentos alunos que se mostram indignados por atitudes e procedimento de alunos e professores que não seguem os “padrões”:

“Alguém precisa explicar urgente para fulano que aqui é importante compartilhar ideias!”

“O professor ciclano não socializa as hipóteses dos alunos. Você não acha que ele é de outra caixinha?”

Muitas vezes percebemos que estamos formando pequenos pedagogos que rezam em nossa cartilha. Eles entendem que em nosso enfoque metodológico é preciso que o professor construa situações didáticas em que o aluno chegue a reconstruir o saber socialmente constituído mediante aproximações sucessivas. Para tanto é necessário partir de uma situação-problema, criar formas dos alunos explicitarem seus conhecimentos prévios certos e errados, propor formas de socializarem as hipóteses dos alunos em dupla, em quartetos e no grupão, discutir as hipóteses comparando-as com o saber científico, reformular as hipóteses iniciais, enfim levar em conta oficialmente a construção do saber por parte dos alunos.

A construção de conhecimento pode parecer simples para os que não estão implicados diretamente no processo de ensino, mas há complexidade em todas as etapas. São muitos os desafios: criar a questão norteadora em que os alunos tenham conhecimentos prévios suficientes e ao mesmo tempo lacunas a investigar, organizar as duplas e quartetos com critérios consistentes que levem a avanços na aprendizagem, organizar a socialização das hipóteses, escolher o material e a forma de apresentar o saber socialmente construído, propor atividades que possibilitem aos alunos retomarem suas hipóteses iniciais. E é preciso considerar que a maioria dos professores estudou em escolas em que imperava o modelo de ensino normativo, portanto precisam se formar em outra concepção de ensino e aprendizagem. Esse modelo está centrado no conteúdo, em que a ação do professor é transmitir conceitos, apresentá-los, dar exemplos sobre o que está ensinando, enquanto a função do aluno é, basicamente, escutar as explicações do professor, estar atento e, em seguida, exercitar, aplicar àquilo que aprendeu. A concepção do saber vigente nesse modelo é a de um saber que está pronto e o professor faz a intermediação entre esse saber já elaborado e acabado para os alunos.

Se por um lado os alunos se apropriam da cultura da Escola de forma gradual e natural, por outro lado a modificação da concepção de ensino e aprendizagem de uma lógica centrada no conteúdo para a da construção de conhecimento exige um trabalho contínuo de formação da equipe pedagógica para que todos os profissionais sejam da mesma “caixinha”. Só assim é possível construir um projeto pedagógico consistente e sério em que há unidade em relação à cultura pedagógica.

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