Os sentidos de uma Escola de Educação Infantil

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Nossa turma de crianças mais novas completa seu segundo ano de vida agora em 2018. Nasceram num mundo digital e conectado, no qual a informação circula massivamente, onde há desafios gigantescos para a humanidade: ecologia e clima estão na agenda, é imperativo tanto a busca pela diminuição das desigualdades culturais e socioeconômicas quanto o aprendizado de viver na diferença e entendê-la como aquilo que nos constitui. Enfim, um mundo da agilidade, das transformações e, porque não, das incertezas.

De que espaço educacional precisam esses pequenos? Quais experiências devem compor seu ambiente para que vivam plenamente as múltiplas possibilidades e potências em seu desenvolvimento? Para que construam projetos de vida singulares e consistentes, quais situações são emblemáticas em sua formação?

Aprender não significa mais o acúmulo de informações e o domínio de ferramentas para seu manejo, mas sim o que fazemos com todo esse acesso, como pensamos, como nos relacionamos e atuamos criativamente frente aos desafios que nos são apresentados cotidianamente.

Em artigo recente, a filósofa da Educação Carla Boto[1] faz uma análise muito aguçada acerca da escola contemporânea e das muitas críticas e questionamentos que tem recebido por parte de inúmeros setores da vida social. Aponta como, tão facilmente, considera-se a instituição obsoleta, diz-se que ela não foi capaz de acompanhar os tempos, que a velocidade das informações na sociedade digital tornou a escola desatualizada. Há claramente uma crise nas imagens pelas quais a escola é representada e isso não acontece somente no Brasil.

Assim, não à toa, vivemos movimentos de repensar a escola, seus propósitos, alcances, sua organização, objetivos, tempos e espaços. Para todos os segmentos da educação básica, do Infantil ao Médio, são inúmeras as discussões ao redor do mundo sobre competências para este século, novos currículos, formação e valorização do professor, processos de avaliação, entre tantos outros.

Nesse cenário, compete aos profissionais que vivem a escola diariamente reafirmar as dimensões, os sentidos e o valor inegável da escola na formação das novas gerações. E, neste post, trataremos de seu início… Lá onde tudo começa: a etapa da educação infantil.

Segundo Ana Malajovich[2], a produção científica atual apresenta a nós, educadores, um estranho paradoxo. Por um lado, reconhecemos nas crianças, desde muito pequenas, maiores capacidades que não imaginávamos há algumas décadas e, como produto do avanço científico sobre essa etapa da vida humana, comprovou-se o peso decisivo que o ambiente sociocultural assume no início do desenvolvimento humano.

No entanto, por outro lado, vemos correntes que pretendem afastar das crianças os direitos básicos à aprendizagem como experiência social e socializadora, o que inclui o direito ao convívio com outros, mediado por profissionais formados, em condições e ambientes favoráveis ao seu pleno desenvolvimento afetivo, relacional, cultural, dentre outras dimensões.

Se a escola de educação infantil é vista como espaço diminuto, tempos gastos em atividades super dirigidas, preenchimento de folhas, protocolos pré-determinados a serem seguidos, vivência de relações nas quais há a imposição de condutas pelo adulto, temos óculos extremamente distorcidos, ultrapassados e que urgentemente precisam de NOVAS LENTES para olhar o que excelentes escolas e espaços de educação infantil estão promovendo em nosso país.

Se, na curvatura da vara, passamos a ter movimentos defendendo que o mais adequado e contemporâneo para a infância é a “não-escola”, precisamos repensar urgentemente quais oportunidades oferecemos às crianças pequenas para desenvolverem suas linguagens e suas potências e, claro, quais condições são inegociáveis para uma experiência plena na primeira infância.

Um projeto educativo responsável garante às crianças a oportunidade de conhecer, de confrontar e criar, de interagir com seus pares e com adultos especialmente formados para essa mediação, de experimentar e de brincar, de ter acesso ao mundo e à cultura acumulada pela humanidade, expressando-se por meio de diferentes linguagens.

Mas qual a razão de propiciar tudo isso às crianças quando pequenas? Não basta poderem brincar do que desejam, a qualquer tempo, como e quando queiram?

Há sentidos múltiplos em jogo, e selecionamos alguns pontos centrais, ao nosso ver, para responder às perguntas iniciais: para que efetivamente uma criança viva uma experiência inicial potente e criativa de relação com o aprender, entendemos ser essencial priorizar que cada criança possa:

Ser única e ser entre outras. O eixo da interação e da percepção do eu a partir do outro é essencial à constituição de qualquer indivíduo. É um aprendizado ter uma escuta atenta ao outro, entender que a ideia do outro pode ser muito legal e, deixar de fazer uma coisa de imediato para ouvir uma oferta que está sendo proposta por outrem é situação que requer a mediação de adultos profissionais. Por que é tão importante se entender como um entre outros? Para além da constituição da identidade, os sentimentos advindos de perceber-se como parte de um coletivo, de ter um grupo de pertencimento e, assim, ter o primeiro afastamento da família nuclear, são experiências humanas cruciais da primeira infância.

A construção de laços de confiança e amizade, a expressão de sentimentos, a vivência de situações desafiadoras e conflituosas, de alguma angústia, num espaço de acolhimento e de mediação adulta qualificada, trazem para a criança benefícios indeléveis.

Criar, assumindo riscos. Arriscar-se em brincadeiras, em construções, em narrar uma história a outros, cantar, contar, modelar, dançar, escrever… Falhar, tentar novamente e ser encorajado para isso. Reconhecer-se nos olhos de outros, especialmente de professores e pares, e sentir a confiança em suas capacidades de realização. Lidar com o erro de forma saudável e processual e, sobretudo, ver suas iniciativas na solução de situações problema valorizadas é o que alimenta o pensamento criativo e a coragem de se expressar. Para isso, é necessário intencionalidade nas provocações planejadas pela equipe de profissionais que entende cada criança e sabe como ajustar bons desafios à diversidade que o ambiente escolar representa.

Investigar e ampliar seus horizontes. A curiosidade não se alimenta por si só, ela pode e deve ser instigada. Entendemos que a ampliação dos olhares da criança para o mundo por meio de situações que trazem a cultura do conhecimento nos mais diversos meios é, sim, responsabilidade do ambiente escolar. A investigação é a força motriz das transformações e ter experiências desde a simples observação de fenômenos, de conversar sobre as coisas, os animais, as plantas, aquilo que vemos, que não vemos, enfim, é propiciado em ambientes ativos e exuberantes em possibilidades de exploração e conversação sobre ideias e descobertas.

São muitas as necessidades da infância e, certamente uma reflexão crucial é o quanto o espaço escolar e seus profissionais são essenciais ao sucesso desse imenso desafio de educar em parceria com as famílias.

No entanto, compreender o valor do profissional que atende a todas essas condições é premissa. A formação que esse educador precisa consolidar é especializada. Não basta gostar de crianças, não basta ter jeito, é necessário estudo contínuo, compreensão das etapas de desenvolvimento que compõem a jornada de aprendizado dos indivíduos nos seus primeiros anos de vida, além de muita reflexão sobre a prática.

Mas tratar da relevância central da formação profissional para os educadores de Educação Infantil é assunto para continuarmos num próximo post, aguardem!


[1] Carla Boto, “Homeschooling”: a prática de educar em casa. 16/3/2018

[2] Ana Malajovich, Jogar ou  Aprender: as duas caras da mesma moeda? 15/9/2012

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