Otávio, Otávio, Otávio!

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Por Maria da Penha Brant, arte-educadora e mãe de duas alunas da Vila

É estranho que eu estivesse esperando um momento para escrever este texto para vocês e me sentasse aqui para fazê-lo logo após saber de uma tragédia (anunciada a meu ver), que foi o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

No final do ano passado, Sônia Barreira me solicitou a organização da pequena coleção que a Escola da Vila reuniu no transcorrer dos anos, decorrente de parcerias na própria comunidade escolar, de pais de alunos que estudam ou estudaram na Vila ou artistas que aqui trabalham ou trabalharam.

A ideia era que eu pudesse reunir todos os trabalhos, fotografasse e escrevesse um pequeno texto biográfico de cada artista. Dessa forma, poderíamos organizar uma exposição e apresentá-la a todos: alunos, pais, funcionários, profissionais da educação que frequentam o Centro de Formação e outros.

A Escola da Vila tem uma história construída em torno do trabalho encaminhado junto dos alunos, suas famílias e profissionais da educação, e para mim, ex-professora de Arte da escola, mãe de alunas, foi um privilégio também estar junto.

Rosa Iavelberg, Monique Deheinzelin, Yara Carmona foram mulheres fundamentais na reflexão do ensino e aprendizado da Arte, fomentando e fazendo com que cada um de nós, que foi se juntando ao redor delas, nos apaixonássemos e profissionalizássemos, como fizemos. Foi construída uma prática de trabalho em Arte que reverberaria até hoje nesse desejo trazido por Sônia, de reunir essa pequena coleção.

Além de fazer observações do trabalho, por meio de diários de classe ou reuniões de equipe, participar de orientação para o encaminhamento de propostas no ateliê ou fora dele, ter autonomia para criá-las, discutir teorias e apreciar obras, pensávamos nos fundamentos do trabalho, o que se tornaria primordial e fortaleceria a ideia de que era impossível uma escola sem Arte.

Entre esses fundamentos, destaco aqui aquele que faz com que a escola tenha acolhido e exposto esses trabalhos que vemos ao caminhar pelo espaço interno e externo das unidades.

Faz parte do trabalho a convivência com formas diversas de produção artística. Aquela que é realizada pelos alunos, pelos professores e pelos pais, mote para todos estarem perto da arte – a escola é também espaço para acolhê-la e mediá-la.

Otávio Roth é uma surpresa dentro desse conjunto de obras espalhadas pelo espaço da escola. Imagino que as exposições, de um modo geral, em museus e galerias, possam também se dar dessa forma, reunindo, à medida do possível, o que se tem de um artista. Foi o que fizemos aqui.

Com ajuda e muita gentileza da filha de Otávio Roth, ex-aluna da Escola da Vila, Isabel Roth, atual curadora do acervo do artista, conseguimos agrupar um conjunto de objetos que acabaram dando mais vigor ao pouco, mas o que foi possível, para apresentar o artista a todos da comunidade.

A exposição reúne três trabalhos que fazem parte de uma pequena coleção de arte da Escola da Vila. Os livros que a biblioteca dispõe, escritos por Ruth Rocha e ilustrados por Otávio Roth. O primeiro livro escrito no Brasil tratando de pesquisa sobre o papel. Uma pequena entrevista com Isabel Roth. Fotos cedidas pela família. A obra “A Árvore”, projeto que solicita a participação de crianças, fazendo crescer folhinhas desenhadas por elas, até que se complete 1 milhão delas e possam ser projetadas na parte externa do prédio da ONU. E, finalmente, as 30 reproduções do álbum de Direitos Humanos, realizadas em xilogravura também para a ONU, por Otávio Roth.

Em meio às notícias de descaso com a cultura, descobrir Otávio Roth e sua vontade imensa de produzir, pesquisar pelo mundo afora, fazer circular suas ideias e obras, e, ainda, ensinar, diz muito da vontade de ter a arte como parceira diária, imaginando mundos.

2 ideias sobre “Otávio, Otávio, Otávio!

  1. Ivone! Você, mãe do Vicente, quem nos sensibilizou cantando e trazendo ainda mais a arte para o nosso cotidiano, sabe, ao certo, o valor de tudo isso…
    Beijos querida! Penha

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