Falar é fácil, escrever é que são elas – ou a escrita como instrumento formativo

Centro de Formação da Vila

Por Claudia Aratangy, direção do Centro de Formação

Para um professor, é simples falar sobre sua prática: relatar uma atividade, comentar sobre a participação ou sobre as dificuldades dos alunos; explicar como pensou esta ou aquela intervenção.

Faz parte do cotidiano compartilhar os acontecimentos de sala de aula com os pares, discuti-los com o orientador ou apresentá-los aos pais. São situações mais ou menos formais, que podem ter momentos de maior ou menor tensão, mas, se comparados ao esforço empenhado na produção de um texto sobre a mesma sala de aula, a conversa é outra. A escrita nos compromete. Coloca-nos vinculados a ideias, posições, convicções. Uma escrita publicada nos torna responsáveis por aquilo que escrevemos.

“Conversa de professor”, nossa revista eletrônica, traz em seu título a alusão à língua falada, pois se espera que seus leitores sintam-se à vontade com a leitura, como se estivessem numa sala de professores, presenciando um bate-papo sobre questões didático-pedagógicas.

Um texto bem escrito dá a ilusão de que foi feito sem esforço. Ledo engano.

Produzir um texto leve, porém consistente, sobre a prática, que traga reflexões que partem do chão da escola, mas que dialoguem com princípios e teorias pedagógicas, e, sobretudo, que revelem as inquietações, as dúvidas e os avanços do próprio escritor professor… ah, isso é tarefa árdua.

A “Conversa” nasce no Simpósio Interno – momento em que a equipe da Escola da Vila se encontra para, na forma de um minicongresso, compartilhar conhecimentos. Os educadores se preparam por meses para esse evento e, para dar profundidade e embasamento às suas exposições, têm de escrever um artigo.

Sofre-se. O rigor da escrita – por mais que não se exija uma escrita estritamente acadêmica – obriga à escolha cuidadosa das palavras, à organização coerente do discurso, ao alinhamento das ideias e dos argumentos. A busca é por uma combinação de leveza com consistência, de informal com seriedade, de prática com teoria.

Ao se deparar com a sistematização, o professor-autor precisa ir muito além do mero relato. Sei mesmo sobre o tema que escolhi? Estou atualizado? Minha atuação é coerente com o que estudo e acredito? As questões que escolhi investigar interessam a outros educadores? Essas e outras indagações obrigam-no a ir e vir ao texto e a olhar a sua prática sob novos ângulos. Somado a isso, há também o desafio posto em toda situação em que se produz um texto que será publicado – dialogar com o leitor, colocar-se em seu lugar, convidá-lo a compartilhar consigo as inquietações e descobertas, despertar sua curiosidade para que siga até o fim e sinta que a leitura contribuiu, de alguma forma, para avançar em suas próprias reflexões.

É um processo intenso, muitas vezes doloroso, mas, como costumam ser os processos de aprendizagem, nos tornam melhores. Neste caso, melhores profissionais.

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