O pior pesadelo

Escola da Vila

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Por Fernanda Flores, direção geral

Sempre quando atentados acontecem em escolas, precisamos de um tempo para refletir sobre suas muitas significações.

Este ano temos tido muitas notícias e cenas de grandes tragédias. Cenas de construções e automóveis sendo arrastados pela lama, pelas chuvas na nossa cidade, onde vivemos e onde enfrentamos dias de grandes enchentes. “Temos notícias, desde o início do ano, de muitas perdas. Perdas de toda sorte: de vidas, de bens materiais e imateriais e também da tranquilidade e da segurança.”

Não há palavras para expressar a tristeza e a indignação que a violência representa no caso do tiroteio ocorrido ontem na cidade de Suzano, na escola estadual Raul Brasil, região metropolitana de São Paulo.

Poucos eventos têm tamanho impacto em casa para crianças e famílias como um tiroteio em escola. Quando as crianças assistem a um evento como esse na televisão ou em flashes de notícias na Web, é natural que se preocupem com a própria escola e com a própria segurança, especialmente se a violência ocorreu em uma cidade vizinha.

O impacto nos adultos é imenso, e, sensibilizados, buscamos explicações, queremos entender o que vem acontecendo em nossa sociedade, para que tamanha brutalidade ocorra em espaços institucionalmente organizados para a aprendizagem, o convívio e a formação das novas gerações.

“Como ficam nossas crianças diante de tantas notícias e imagens que mobilizam profundamente os adultos? Os adultos ficam alarmados, abalados, e é compreensível que queiram se inteirar dos acontecimentos, mas é preciso saber em que momento fazê-lo e de que maneira e como lidar com as crianças, que são experts em detectar clima de tensão no ar e ouvir, mesmo que não pareçam atentas, as conversas entre os adultos, os comentários frequentes sobre os eventos. E como se não bastasse isso, elas ainda têm de lidar com os próprios medos, os muitos medos que sentem e que são inerentes ao seu processo de desenvolvimento. De modo que a pergunta que fica é: como podemos salvaguardar a integridade emocional de nossas crianças?

Nestes tempos de grande tensão e tristeza, precisamos, em primeiro lugar, poupá-las de cenas chocantes e dos noticiários em geral. Depois, precisamos permitir que nos façam perguntas, que falem de seus medos, para que possamos tranquilizá-las, transmitir a elas a segurança que necessitam. Cabe a nós, ainda, a tarefa de tentar controlar nossas próprias emoções. E um bom jeito de fazer isso é demonstrando nosso carinho e interesse por elas, dizendo de nossos esforços – nossos e dos demais adultos envolvidos nos cuidados e na educação delas – para protegê-las. Outra atitude importante é ressaltar as ações de solidariedade nos lugares onde tragédias aconteceram e reiterar que sempre haverá gente trabalhando para minimizar a tristeza e o sofrimento das pessoas envolvidas.”

De qualquer forma, alguns sempre chegam à escola contando o que viram e ouviram. Além de ouvi-los, nos preocupamos em acolher e acalmar, dando espaço às manifestações, trazendo a escuta e o diálogo como meio de conforto que permite o seguimento da vida na escola, enquanto os adultos se ocupam em compreender novos fenômenos e como enfrentá-los.

Já para nossos jovens, que frequentemente vivem período de certa instabilidade, insegurança e com as emoções à flor da pele, tragédias como essa provocam grande impacto, mesmo quando não se expressam tão facilmente sobre o assunto. Assim, também se faz necessário contar com adultos interessados e disponíveis para escutar, dando tempo e espaço para que falem e possam contar com a maturidade dos que admiram e convivem para lidar com a incompreensão perante os fatos.

Soma-se ainda, nessa etapa da vida, a necessidade de abordar outras facetas da situação, na dupla perspectiva de formar e informar, garantido espaços com pares, professores e orientação para conversar sobre o impacto da tragédia nas pessoas e a sua perplexidade.

Em tempos nos quais a escola tem sido alvo de muitos questionamentos e desconfianças, entendemos que compete a ela, como organização social e socializadora, se manifestar a respeito desses temas, enfrentar perguntas difíceis e renovar o compromisso na formação ética para o valor à vida, ao respeito mútuo e à solidariedade.


Inspirado no Blog de março de 2011, de Dayse Gonçalves “As crianças e as cenas de TV em tempos de grandes tragédias”.

3 ideias sobre “O pior pesadelo

  1. Em meio a tantas notícias de impacto e que abalou nossa sociedade nesse começo de semestre, e agora com a situação em Suzano na grande São Paulo,, fica claro os problemas sociais que estamos enfrentado desde sempre.Minha dúvida é, como trabalhar essa situação nas escolas, como planejar um trabalho envolvendo escola, família e comunidade?, lógico não isentando o estado, mas no meio educacional fazendo sua parte.

    • Olá Marcos,

      Obrigada pela leitura e imagino que você seja colega da área. Entendemos ser importante estabelecer coletivamente uma pauta de trabalho com as equipes da escola que trate temáticas atuais, e que, adequando às etapas da escolaridade, proponha ações de trabalho, de conversa, mesas redondas, enfim, na qual possa reunir as preocupações das famílias e educadores em diálogos sobre pontos de atenção e desafios que são vividos na escola, considerando sempre as especificidades locais.
      A escola tem assembleias? Escuta e propõe situações de protagonismo aos jovens? Como mobiliza a comunidade a pensar seus desafios?

      São muitas as possibilidades de abrir espaço para se pensar o mundo e os desafios que precisamos lidar. Escola deve ser espaço democrático para a prática da cidadania.

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