Formação de educadores de zero a três anos de idade – uma pequena reflexão.

Por Ana Paula Yazbek

Há dez anos venho estudando e trabalhando exclusivamente com a educação de crianças de zero a três anos de idade. Atuo como diretora pedagógica do Espaço da Vila, berçário parceiro da Escola da Vila e como formadora de educadores do Centro de Formação da Escola da Vila. Ao longo desse tempo, ocorreu uma mudança significativa no perfil dos educadores dessa faixa etária e na visão que as instituições de educação infantil têm sobre o trabalho a ser realizado.

Desde o princípio era evidente que os educadores interessados em se especializar no atendimento aos pequenos sentiam a necessidade de um reconhecimento maior por parte de seus colegas e também dos pais e familiares das crianças. A queixa mais frequente era a de que, para muitos, bastava “ter jeito e paciência” com criança pequena para trabalhar com elas. Afinal, não havia muito a fazer além de trocar fraldas, assoar o nariz delas, alimentá-las e colocá-las para dormir!

Certa ocasião, quando participei de uma formação no estado de São Paulo, as educadoras de crianças de zero a três anos queixaram-se da discriminação que as educadoras de crianças maiores faziam, ao perguntar se estavam aprendendo algo novo sobre como trocar fraldas!

Já foi o tempo em que a polarização entre os atendimentos aos cuidados básicos de higiene, saúde e bem-estar e as situações de aprendizagem eram uma questão. Para quem conhece de perto o dia a dia com crianças pequenas é evidente que uma boa interação no momento da troca de fralda é tão importante quanto a qualidade de uma história a ser lida para elas.

O educador de crianças de zero a três anos está cada vez mais seguro de seu papel. Está empenhado em construir uma ação sólida e consistente, que leva em consideração as conquistas genuínas dessa faixa etária, e já não busca uma identificação com a escolaridade de três a cinco anos. As aprendizagens, neste momento, não estão mais focadas exclusivamente nas áreas do conhecimento (língua, matemática, ciências naturais…) e sim nas vivências que potencializam o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da motricidade, da comunicação, das interações sociais e garantam um ambiente seguro que favoreça a conquista da autonomia das crianças.

Para quem acha que somente quando as conquistas das crianças são visíveis — quando fazem representações gráficas figurativas ou quando nomeiam corretamente as cores, os números e as formas – que o trabalho é valorizado, é preferível que optem por uma faixa etária maior. Mas para quem consegue entender a importância de um ambiente acolhedor e estimulador nesses três primeiros anos de vida no desenvolvimento emocional e da personalidade e ver, nas minúcias do dia a dia, a infinidade de conquistas que as crianças fazem, além de garantir uma boa dose de encantamento em seu cotidiano, pode construir uma série de ações interessantes.

É com muito colo, choro, mordidas, chupetas e trocas de fralda que o cotidiano é tomado. E também, com muitos olhares atentos, palavras, gestos, ações, interesses, brincadeiras e, por que não, lambanças!

O educador de crianças de zero a três anos de idade, cada vez mais, constrói sua identidade, a partir da reflexão diária do trabalho que realiza com as crianças e de seus estudos com base nas contribuições teóricas sobre como os pequenos agem, pensam e interagem com o mundo ao seu redor.

12 ideias sobre “Formação de educadores de zero a três anos de idade – uma pequena reflexão.

  1. Que eduquemos as nossas crianças para que elas sim tornem-se os adultos responsáveis e comprometidos com as mudanças que farão a diferença no sistema social amanhã.!

  2. Ana,

    Eu, que desde a origem até o amadurecimento, acompanho de perto este trabalho sério e competente que desenvolve com os pequenos, tenho orgulho de vê-lo tornar-se uma referência na educação de 0 a 3 anos! Parabéns!

  3. Eu, como ex- mae do Espaço da Vila, só tenho a parabenizar a excelência do trabalho sério que vocês realizam com esses pequenos. Uma proposta refletida hoje nas açoes da nossa Manuela! Parabéns!!!

    • Oi Renata
      É sempre muito gostoso receber notícias de nossas crianças. Muitas vezes os educadores desta faixa etária acabam tendo poucas notícias sobre os reflexos de seu trabalho quando as crianças crescem. Obrigada por partilhar conosco as conquistas da Manuela.
      Beijos
      Ana Paula

  4. Ana..seu texto está maravilhoso! Para nós que cuidamos dos tão pequenos sabemos da importância que tem abandonar a fralda, a chupeta, ficar bem sem a presença dos pais e tantas outras coisas. Tenho muito orgulho de ter feito parte da sua equipe e ter aprendido tanto com você!
    um grande beijo..
    Quel

    • Oi Quel,
      Muito obrigada pelo carinho e continue trilhando seu caminho de educadora, se possível mantendo o foco na educação dos pequenos, que é bastante carente de bons profissionais.
      Um beijo,
      Ana

  5. Adorei o texto! Após 10 anos bem sucedidos do Espaço da Vila, vejo neste post o retrato da valorização e a abertura para a “fala” dos profissionais que atuam com esta faixa etária que é tão importante na vida de qualquer pessoa.
    Não há como não se encantar com os pequenos e, com a maneira da Ana olhar, refletir e realizar as ações no trabalho com os bebês e com as crianças pequenas.
    Desejo, cada vez mais, realizações pessoais e profissionais à você.
    Um beijo!

  6. Quero dizer que, apesar de estar iniciando no trabalho com crianças pequenas, pois, já trabalho com Fundamental 1 a alguns anos, tenho a sorte de poder estudar juntamente com pessoas como a Ana Paula, que estão realmente engajadas em entender cada vez mais e “otimizar” (no sentido de ótimo mesmo) e dar um tempo de qualidade para quando os pequenos estão na escola. Saber que posso começar “acertando” mais que errando me dá uma sensação muito boa. De toda forma, é ainda melhor saber que, quem vai sair ganhando são as cças que poderão ter a oportunidade de além de ter bons locais para passar a sua infância, terão acesso à cultura, brincadeiras, músicas, poder correr, pular, se sujar, se molhar, se melecar, brigar, chorar, sorrir, conhecer, aprender, explorar e viver os melhores momentos de sua vida de maneira natural. Hoje foi nosso último dia do curso de formação de rotina de 0 a 3 e quero dizer que estou muito grata e satisfeita com o programa. Forte abraço já com saudades!

    • Sheila,

      Não sei se explicitei toda minha alegria em relação ao trabalho que você apresentou no nosso encontro de sábado. Afinal, muito do que discutimos e partilhamos ao longo deste ano estava refletido nas propostas apresentadas. É muito bom ter notícias de que o direito à primeira infância está garantido em outras escolas e espaços educativos. Parabéns e até breve.

      um beijo,
      Ana Paula

  7. Maravilhoso este texto!Já participei de cursos com vocês que me ajudaram muito.

    A Educação Infantil precisa MUITO de uma valorização social que deve primeiro começar dos profissionais que nela trabalham.

    Sou professora coordenadora em uma escola de 0 a 3 anos e me orgulho do trabalho e dos estudos que fazemos, da valorização que as professoras buscam ao planejarem estimulações que favorecem o desenvolvimento das crianças e o quanto se sentem felizes por isto. Vou compartilhar este texto com elas. Valeu!

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