Visitar museus é conteúdo curricular.

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Por Larissa Glebova e Marisa Szpigel

Coleções: para despertar a curiosidade das crianças

A história dos museus corresponde à história das coleções. Antes de serem instituições públicas, os gabinetes de curiosidades eram uma reunião de objetos, e às vezes até animais, escolhidos e selecionados por características que se diferenciavam dos objetos corriqueiros, do cotidiano. As coleções, feitas por pessoas mais abastadas, como reis e nobres na Europa despertavam o interesse, e claro, a curiosidade de muitas pessoas, e algumas vezes, eram abertas para a visitação de convidados, para que mais pessoas pudessem apreciar os achados do colecionador, muitos deles vindos de terras distantes e desconhecidas. Entrar em contato com estes objetos pode ser visto como um modo de se aproximar de lugares inacessíveis, e porque não dizer, conhecer mais intimamente o dono da coleção. A história nos inspirou a pensar sobre como fazer a primeira aproximação de nossos pequenos estudantes com os museus.

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Antes da visita: momento de sensibilização

Visitar o Museu Afro Brasil inaugura formalmente a proposta de incluir visitas a museus e instituições culturais no currículo de arte da Escola da Vila. A ideia é que este contato possa ser significativo e faça sentido, e para isto, antes de visitar o museu, os alunos do primeiro ano conversam sobre o que é uma coleção, conhecem a coleção de brinquedos e objetos de arte popular da professora e iniciam uma coleção de arte popular coletiva, ou seja, cada criança da classe traz para a escola, com todo cuidado, um objeto que considera ser de arte popular, para compor a coleção do grupo.

“O projeto de Arte Popular com os primeiros anos começou através de uma coleção. Iniciei levando para as turmas a minha própria coleção de arte popular, com objetos de várias regiões do Brasil e do mundo feitos de diversos tipos de material. Essa coleção possui artesanato e brinquedos. A coleção é uma forma de organizar e selecionar objetos que integram uma categoria. Assim como uma coleção em museu, é possível a partir dela apreciar mais de perto, percebendo como cada objeto foi feito, seus detalhes e sua história sendo uma forma de observar e registrar.” – relato de Larissa, professora de arte dos primeiros anos

Estes encaminhamentos possibilitam que os estudantes conheçam um pouquinho do Brasil através de uma relação íntima com objetos que foram feitos por artesãos de todo canto de nosso país, e este é um dos objetivos do estudo sobre Arte Popular. Ao mesmo tempo, podem experimentar o papel de colecionadores.

Muitas crianças têm o hábito de colecionar, escolhem e guardam cuidadosamente folhas, pedras e outros objetos, tais como notas e moedas antigas, chaveiros de diferentes épocas. Se atribuir valor é atribuir afeto, ou seja, ser tocado pelos objetos, aproximar-se dos museus por este caminho é uma opção de compreender a instituição pelo afeto.

Visitar o museu antes de levar os alunos é fundamental, pois o museu é muito grande e repleto de possibilidades de percursos. É necessário fazer um recorte que potencialize a relação dos nossos pesquisadores iniciantes com a arte. Planejar estratégias e definir o roteiro são cuidados que podem garantir um melhor aproveitamento da visita.

Na escola, um dia antes da visita, a professora mostrou um catálogo com imagens dos objetos pertencentes à coleção do museu. As crianças puderam reconhecer que muitos dos objetos que faziam parte da coleção delas (os trazidos de casa) eram iguais aos da coleção do museu. Esta identificação é muito importante para construção do vínculo com o objeto e de conhecimento.

A visita ao Museu Afro Brasil aconteceu na primeira semana de maio, e antes da visita conversei com os alunos sobre o que veríamos lá. Diante de um acervo grande, é muito importante que as crianças previamente saibam qual será o foco da visita e durante a visita é possível ampliar as relações com o que é apreciado e o repertório de cada criança. Para isso, observamos diversas imagens de livros com os objetos do acervo.” – relato de Larissa, professora de arte dos primeiros anos

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Durante a visita: o encanto de ser tocado pelos objetos

Ao chegar ao museu, as crianças estavam um tanto quanto sensibilizadas para ver uma coleção de Arte Popular. Compartilhamos com elas o roteiro de visita: uma exposição de brinquedos, objetos que fazem parte do Boi Bumbá e uma coleção de sacis.

Consideramos que falar sobre as regras dentro do museu também é conteúdo. Começamos dizendo que durante toda a visita o sentido que mais usaríamos seria a visão, ou seja, a principal regra é olhar. Depois retomamos que não podem tocar nos objetos, pois se todos fizerem isto, eles podem ir se desgastando. Andar devagar, junto ao grupo, e falar baixo são atitudes esperadas neste local. Mas sabemos que tocar é um modo de conhecer próprio às crianças, e por esta razão, introduzimos o desenho de observação como uma estratégia para olhar.

Reservamos alguns momentos da visita para realizar desenhos de observação, e para isto, planejamos diversas propostas. Criamos pistas para que buscassem entre a profusão de objetos, aqueles que guardavam tais características, por exemplo, para que encontrassem brinquedos de figuras imaginárias, demos a dica “Sou meio bicho, meio gente. Quando você brinca comigo, posso voar, dançar, sonhar”. E para encontrar carrinhos e caminhões feitos de sucata “Já vivi na geladeira, fui para a mesa, e você já até bebeu o que tinha dentro de mim. Depois que esvaziei, achei que ia para o lixo, mas um artesão me pegou, me lavou bem, me transformou em algo que eu nem poderia imaginar. Hoje, quando brincam comigo, eu posso passear por mil lugares. Quem sou eu?”

O mesmo aconteceu quando entregamos para duplas de alunos uma imagem de um detalhe do objeto para que procurassem na exposição onde ele estava localizado. Procurar um entre tantos também mostrou ser uma estratégia eficiente para que nossos pequenos investigadores observassem tudo. Ao encontrar os objetos, realizaram os desenhos, observando detalhes e como foram feitos.

O outro foco de nosssa investigação foi o espaço reservado ao Boi Bumbá que pertence à exposição de longa duração, com alguns bois, indumentárias da festa, fotografias, máscaras e vídeos. “Ao apreciar os bois, relembramos a história do boi, do Pai Francisco e de Catirina que tinha um desejo enorme que comer a língua do boi. Percebemos os detalhes do corpo do boi, todo feito de bordado e miçangas. As crianças fizeram vários registros dessa parte do museu através de desenhos de observação.” – relato de Larissa, professora de arte dos primeiros anos

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Depois da visita: para cultivar o hábito de visitar museus

Após a visita, retomamos com as crianças o que viram em diversos momentos, afinal, a visita ao Museu Afro é uma etapa do projeto importante para trabalhar com a ideia de que o museu é mais uma fonte de investigação dentro dos estudos de arte popular.

A visita ao museu despertou muito o interesse das crianças para a Arte Popular. Como as crianças têm  selecionado objetos de Arte Popular que encontram em casa e os têm trazido regularmente às aulas, as ressonâncias da visita ficam evidentes no cotidiano da aula de arte, em diversas conversas durante a produção as crianças relembram os objetos vistos ou algum procedimento que se assemelha aos objetos apreciados.” – relato de Larissa, professora de arte dos primeiros anos

Os registros realizados durante a visita são um rico instrumento para presentificar a experiência.  Os caderninhos de registro funcionam como apoio para que possam recuperar verbalmente a visita, o que viram, as conversas das quais participaram. A partir desta apreciação, vão escolher um registro para colar no caderno de arte e continuar o desenho complementando com outras imagens que desejam.

Outro aspecto abordado depois da visita é comentar sobre a importância de ter esse museu em nossa cidade, com uma coleção objetos que revela como é vasto o nosso Brasilzão, que podemos ter acesso, conhecer e estudar. Enfatizamos muito o fato de existir um museu que coleciona objetos de nossa cultura.

Só o museu Afro Brasil oferece muitas outras peças lindas para serem vistas, e as crianças podem retornar lá para ver e rever esta riqueza. Estão previstas visitas de todas as séries a  exposições de arte uma vez por ano, mas contamos também com o apoio das famílias no sentido de cultivar o hábito de visitar museus. Fiquem atentos às agendas culturais da cidade.

Por hora, fica a dica: Museu Afro Brasil (Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Alvares Cabral , s/n – portão 10)

4 ideias sobre “Visitar museus é conteúdo curricular.

    • Ariana, nossa proposta é espalhar a vontade de participar da vida cultural. O Museu Afro Brasil tem uma coleção de arte belíssima, além de exposições temporárias muito bem montadas e de qualidade, o que favorece a possibilidade de visitar a instituição frequentemente.

  1. Muito bacana o trabalho desenvolvido e planejado em cada etapa. Com certeza o hábito de visitar museus é construído desde cedo e nossa cidade é muito rica nesse sentido e oferece muitas oportunidades.
    Essas experiências propostas por vocês ajudam a construir uma postura investigativa e, ao mesmo tempo, dão espaço para os canais da sensibilidade que permitem aos pequenos se sentirem tocados pelas obras.
    Parabéns pelo trabalho!
    Carla

    • Carla, ler seu comentário nos incentiva ainda mais a realizar este trabalho de conectar os conteúdos curriculares aos acontecimentos culturais da cidade. A parceria escola – instituição cultural conta também com o apoio das famílias.

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