Adaptados? Crianças e familiares nas idas e vindas do processo de adaptação

Por Andréa Polo, Coordenação da Educação Infantil

Para falar sobre adaptação, aguçamos todos os nossos sentidos, especialmente aqueles que nos fazem ver o que não é explícito, ouvir o que não é dito e tocar no que, até então, para alguns, era território exclusivo da família. Esse período é marcado por muitas situações que são previstas para a equipe de professoras e professores, mas que, para a maioria das famílias, apresentam-se do mais improvável ao mais surpreendente em frações de segundos:

Passados os primeiros meses, compartilhamos algumas experiências:

– Nossa! Ela estava tão bem, agora fica agarrada desse jeito!

– Não acredito! Não chorou na adaptação e agora que já conhece todo mundo chega à escola e começa a chorar?

– Fico insegura quando o deixo na escola e não encontro a professora…

– A professora estava atendendo outra criança e nem deu atenção pra ela…

– Só vou ficar escondida aqui um pouco para saber se ele ficou bem!

– Tenho que olhar para a adaptação do meu filho, um dia de cada vez, pode ser que amanhã as coisas mudem, pode ser que amanhã ele esteja mais firme ou volte a chorar…

Todos os comentários foram partilhados na escola durante os meses de fevereiro e março, quando as famílias estão imersas no processo de “entrega”, cada uma com seus questionamentos, dúvidas, choros e toda a sorte de sentimentos ambíguos provocados pelas manifestações de seus filhotes.

Com o passar dos dias, os vínculos afetivos entre as crianças e seus professores se concretizam, assim como as famílias também passam a identificar e a compreender alguns princípios que regem determinadas ações dos educadores. As dúvidas abrem caminho para observar as novas relações estabelecidas pelas crianças. O que era uma grande preocupação ou uma incerteza passa a residir num território mais seguro e confiável.

A entrada na escola ou a mudança de instituição representam múltiplos desafios vividos nos campos emocional, social ou acadêmico. Quantos sentimentos que as crianças não sabem e nem podem nomear, mas que são de extrema importância neste percurso de desenvolvimento! Para passar pelo período de adaptação das filhas e dos filhos e construir uma boa parceria com a nova equipe de professores, é importante:

– Saber que num dia a criança chega sorridente e no outro pode desabar num choro enorme – as reações ao novo variam muito, e os pequeninos precisam da garantia de que os adultos estão firmes e seguros no propósito de mantê-los na escola.

– Entender que a tranquilidade dos familiares é um fator necessário para que as crianças se aproximem de outros adultos, com os quais estão começando a estabelecer vínculos, e que, portanto, ainda ficam titubeantes diante deles, especialmente se os responsáveis por elas titubearem também.

– Deixar claro para as crianças que todos os combinados estabelecidos com seus professores serão cumpridos – hora de buscá-las, locais de espera, objetos guardados.

– Não oferecer nenhum tipo de recompensa (presentes), nem fazer alguma troca para que a criança deixe de chorar ou deseje ficar na escola – mesmo com todas as dificuldades que existem no período de adaptação é necessário que esse tempo seja vivido, chorado e comemorado como meio de compreender as demandas infantis e os avanços nas relações com pessoas diferentes daquelas já tão conhecidas.

– Conversar com outras famílias que já passaram por essa etapa da escolaridade dos filhos, porque a experiência ajuda a ponderar e a fazer previsões.

– Buscar apoio com a equipe da escola (coordenação, orientação e docentes) que explicitam algumas decisões e orientam certas práticas para favorecer diálogos nos momentos de maior fragilidade das crianças.

Assim, completando nosso segundo mês na escola, observamos novos encontros, acolhimentos e experiências. A maior parte das crianças já navega muito bem por aqui, apropriadas das pessoas, dos espaços e de todas as possibilidades, representando as trajetórias singulares de integração na Escola da Vila.

A alfabetização de nossos tempos

ler-não-é-decifrar_400px

.

Por Miruna Kayano, coordenação do Fundamental 1

Depois de quase um ano de trabalho intenso e conversas constantes em um grupo no qual a alfabetização é um dos focos de investimento, a professora organiza uma roda com todas as crianças e distribui algumas folhas que, para surpresa da classe, não estão em branco.

Alguém já escreveu aqui!“, uma das crianças comenta.

Tem nome, espera, é o meu!“, outra observa.

Pessoal, esta folha foi feita por vocês no começo do ano. Será que lembram? Vocês tinham que escrever uma lista dos cinco animais de que mais gostavam. Se não lembrarem eu posso ajudar vocês. Será que mudou alguma coisa na escrita que está aí no papel?“.

A turma toda se agita, começa a conversar, e uma verdadeira investigação se instaura na sala de aula. “Eu acho que aqui eu escrevi CACHORRO, mas eu não sabia que tinha o H no CHO…“, “Eu aqui escrevi MACACO, mas eu coloquei só o A, mas eu sei pelo nome da MARCELA que é o M e o A!“. “Nossa, eu escrevia muito estranho!!!!!“.

Colocar crianças no início de sua formação leitora e escritora diante de uma proposta que lhes ajude a tomar consciência de seu percurso de aprendizagem antes de chegarem a escrever de forma convencional faz parte de uma concepção que considera a alfabetização como algo que vai muito além de uma mera ação de decifrar um código, desvendar fonemas ou combinar sílabas. Esta e muitas outras propostas partem de uma ideia na qual todo processo de aprendizagem é resultado de um processo ativo e consciente do sujeito que aprende, e que, quanto mais consciente dos desafios, dos caminhos, das idas e vindas até aprenderem algo, mais poderão utilizar as novas habilidades construídas para estabelecer as aprendizagens subsequentes.

É possível alfabetizar “mostrando” sons, fonemas, sílabas isoladamente? Sim, é possível. É o mesmo que alfabetizar considerando as hipóteses das crianças, dialogando com suas ideias, mesmo que distantes provisoriamente da escrita convencional? Não, não é o mesmo. Porque ainda que, ao final, a escrita da palavra MACACO seja a mesma, ou seja, possível de ser lida por todos, o que a criança pode fazer com esta palavra, para além de escrevê-la por pedido de outro, dependerá inteiramente do percurso trilhado dentro e fora da escola.

Assim, alfabetizar não é considerar as crianças como sujeitos totalmente carentes de conhecimento sobre o alfabeto, os sons, as letras. Não é deixá-los esperando autorização de outros para escrever, não é dizer que só podem escrever palavras com estas ou aquelas sílabas que já conhecem. Alfabetizar é incentivá-los a analisar escritas, a pensar sobre estes registros com seus colegas, a olhar palavras com letras semelhantes, a tentar entender como as mesmas se organizam. É convocá-los a escrever, escrever, escrever, muito, e ler, ler, ler muito também, mesmo que de forma diferente daquela que nós adultos alfabetizados conseguimos entender.

Um processo de alfabetização que vai além de oferecer sons e sílabas considera que é essencial que as crianças saibam consultar todos os tipos de portadores escritos: listas, rótulos, tabelas, bilhetes, palavras, para que localizem a informação que desejam. Esta consulta tem o suporte constante e planejado do professor, mas não como alguém que possui exclusivamente o saber, mas como alguém que acompanha e desafia a encontrar mais e novas fontes de conhecimento, porque confia na potencialidade de cada um. O professor alfabetizador não é alguém que entrega informação, mas alguém que ajuda as crianças a estabelecerem relações, profundas, entre o que sabem, e o que o entorno lhes apresenta, para assim poderem tomar sua posição sobre como escrever.

Todo sujeito escritor precisará tomar uma posição. Se deseja escrever com estas ou aquelas palavras. Se usará tal pontuação. Se vai citar este exemplo ou deixará uma descrição. Se vai realizar perguntas ou registrar respostas. O sujeito alfabetizado é este, não o que reproduz algo que alguém lhe mostrou, mas um escritor que analisa todo o processo no qual está imerso e decide, de posse de inúmeras informações, quais utilizará para escrever o que deseja.

Assim, pensamos que alfabetizar é considerar não apenas as crianças de agora, mas também os sujeitos leitores e escritores que serão no futuro. Alfabetizar significa valorizar não só a escrita final convencional, mas tudo o que foi feito no percurso até que fosse alcançada. Porque tomando consciência do processo é que esses sujeitos podem reutilizar as habilidades construídas para outras situações e desafios a que a cultura letrada os convocará. Confiar em que podem investigar, buscar, que podem produzir mesmo sem ter certeza, pois o conhecimento pode ser ampliado por meio dos muitos recursos que existem à disposição. Uma verdadeira alfabetização sabe que não se trata de ter a informação, mas de saber de que forma utilizar toda a informação para aquilo que se deseja.


Artigo escrito para o Grupo Critique, e publicado em seu BLOG, em 21 de março.

Esta é a alfabetização de nossos tempos.

“Livros são para sempre”: O Centenário de Tatiana Belinky

Escola da Vila
Tatiana Belinky na biblioteca que leva seu nome, na unidade Butantã.

Por Fernanda de Lima Passamai Perez, mediadora de leitura e assistente de biblioteca

“Por que a criança não gosta de estudar?”
Na hora eu respondi: a criança não quer estudar, ela gosta de aprender. Estudar vem depois. A criança estuda o tempo todo: o ambiente, a vida, o mundo, ela estuda sem saber, mas o que a criança gosta mesmo é de aprender. Livro não é castigo, não é tarefa, não é chateação.
É uma delícia quando você o descobre.
Tatiana Belinky[1]

Há quase seis anos atrás, em 16/6/2013, leitores de todo Brasil se despediam da escritora Tatiana Belinky, que estava com 94 anos à época. Apesar da despedida, suas obras não deixaram e não deixam a melancolia tomar conta de seus leitores. Ao contrário, apesar da aparência frágil no fim da vida, essa senhora de opiniões contundentes e provocativas sempre demonstrou muita paixão pela vida, pelas histórias e não se deixava abater facilmente.

Vinda de São Petersburgo, na Rússia, passando por Riga, na Letônia, Tatiana chegou ao Brasil aos 10 anos. O primeiro texto em português que chegou às suas mãos foi Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato, autor que conheceu pessoalmente e cujas obras a encantavam, tanto é que, já adulta, em parceria com o marido Júlio Gouveia, roteirizou para a televisão a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo, que Lobato não chegou a ver. Ao todo, foram 360 programas, ao vivo![2]

Tatiana, que falava russo, alemão e letão – idiomas aprendidos nos tempos em que morou em Riga, onde as placas de rua traziam informações nos três idiomas – traduziu várias obras escritas originalmente nesses idiomas para o português, como O Caso do Bolinho[3], um conto tradicional bastante conhecido e querido da criançada.

O Limerique[4] também era marca registrada da autora, que adorava brincar com as palavras. Inspirada pelo poeta Edward Lewis, que desenvolveu o Limerique a partir de um estilo de verso típico da cidade de Limerick, na Irlanda, Tatiana trouxe diversos temas para além do universo infantil nesse estilo bem peculiar de poesia, pois para ela “a criança pode ler o que quiser” (2012).

Para nós da Escola da Vila, e principalmente da Biblioteca Tatiana Belinky na unidade Butantã, manter viva a memória de nossa patronesse é fundamental. Diariamente somos inspirados por sua imagem (para quem não sabe, temos uma foto dela ao lado da porta de entrada) e seu legado, buscando desenvolver atividades que divirtam os leitores, mas que também estimulem seu desejo de investigar, de aprender e de compartilhar seus saberes.

Logo, como não poderia deixar de ser, o Centenário de nascimento de Tatiana Belinky tem que ser comemorado! Sim, 100 anos! E mais de 50 anos deles dedicados à literatura, ao teatro e a seus leitores.

Por isso, a partir de hoje, começaremos uma série de homenagens à autora nas três bibliotecas de nossas unidades, por meio da leitura de suas histórias, exposição de seus livros (muitos deles autobiográficos) e um Muralique — sim, ela também inspirou o nome de batismo de nosso mural — com informações e curiosidade sobre a autora.

Aguardamos toda a comunidade da Vila para uma visita!

Morrer é só despedida.
Não vale ficar nervoso.
Porém não curtir a vida,
Não viver… é horroroso![5]


[1] Em Livros são amigos para sempre. Entrevista a Marcos Beltramin. Cidade Nova, mar/2012, n. 3 (p. 23-25) disponível em:

[2]Em TV sem VT e outros momentos Tatiana Belinky descreve como foi produzir programas ao vivo, sem cortes diante de situações inesperadas. Tatiana Belinky. TV sem VT e outros momentos. São Paulo: Paulinas, 1997.

[3]Tatiana Belinky. O Caso do Bolinho. São Paulo: Moderna, 1990.

[4] Segundo a autora, “É uma fórmula de verso com cinco linhas: as duas primeiras formam rima entre si. A terceira e a quarta também rimam entre elas. A última linha rima com as duas primeiras”.

[5]Tatiana Belinky. O segredo é não ter medo; ilustração de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34, 2008.

O pior pesadelo

Escola da Vila

.

Por Fernanda Flores, direção geral

Sempre quando atentados acontecem em escolas, precisamos de um tempo para refletir sobre suas muitas significações.

Este ano temos tido muitas notícias e cenas de grandes tragédias. Cenas de construções e automóveis sendo arrastados pela lama, pelas chuvas na nossa cidade, onde vivemos e onde enfrentamos dias de grandes enchentes. “Temos notícias, desde o início do ano, de muitas perdas. Perdas de toda sorte: de vidas, de bens materiais e imateriais e também da tranquilidade e da segurança.”

Não há palavras para expressar a tristeza e a indignação que a violência representa no caso do tiroteio ocorrido ontem na cidade de Suzano, na escola estadual Raul Brasil, região metropolitana de São Paulo.

Poucos eventos têm tamanho impacto em casa para crianças e famílias como um tiroteio em escola. Quando as crianças assistem a um evento como esse na televisão ou em flashes de notícias na Web, é natural que se preocupem com a própria escola e com a própria segurança, especialmente se a violência ocorreu em uma cidade vizinha.

O impacto nos adultos é imenso, e, sensibilizados, buscamos explicações, queremos entender o que vem acontecendo em nossa sociedade, para que tamanha brutalidade ocorra em espaços institucionalmente organizados para a aprendizagem, o convívio e a formação das novas gerações.

“Como ficam nossas crianças diante de tantas notícias e imagens que mobilizam profundamente os adultos? Os adultos ficam alarmados, abalados, e é compreensível que queiram se inteirar dos acontecimentos, mas é preciso saber em que momento fazê-lo e de que maneira e como lidar com as crianças, que são experts em detectar clima de tensão no ar e ouvir, mesmo que não pareçam atentas, as conversas entre os adultos, os comentários frequentes sobre os eventos. E como se não bastasse isso, elas ainda têm de lidar com os próprios medos, os muitos medos que sentem e que são inerentes ao seu processo de desenvolvimento. De modo que a pergunta que fica é: como podemos salvaguardar a integridade emocional de nossas crianças?

Nestes tempos de grande tensão e tristeza, precisamos, em primeiro lugar, poupá-las de cenas chocantes e dos noticiários em geral. Depois, precisamos permitir que nos façam perguntas, que falem de seus medos, para que possamos tranquilizá-las, transmitir a elas a segurança que necessitam. Cabe a nós, ainda, a tarefa de tentar controlar nossas próprias emoções. E um bom jeito de fazer isso é demonstrando nosso carinho e interesse por elas, dizendo de nossos esforços – nossos e dos demais adultos envolvidos nos cuidados e na educação delas – para protegê-las. Outra atitude importante é ressaltar as ações de solidariedade nos lugares onde tragédias aconteceram e reiterar que sempre haverá gente trabalhando para minimizar a tristeza e o sofrimento das pessoas envolvidas.”

De qualquer forma, alguns sempre chegam à escola contando o que viram e ouviram. Além de ouvi-los, nos preocupamos em acolher e acalmar, dando espaço às manifestações, trazendo a escuta e o diálogo como meio de conforto que permite o seguimento da vida na escola, enquanto os adultos se ocupam em compreender novos fenômenos e como enfrentá-los.

Já para nossos jovens, que frequentemente vivem período de certa instabilidade, insegurança e com as emoções à flor da pele, tragédias como essa provocam grande impacto, mesmo quando não se expressam tão facilmente sobre o assunto. Assim, também se faz necessário contar com adultos interessados e disponíveis para escutar, dando tempo e espaço para que falem e possam contar com a maturidade dos que admiram e convivem para lidar com a incompreensão perante os fatos.

Soma-se ainda, nessa etapa da vida, a necessidade de abordar outras facetas da situação, na dupla perspectiva de formar e informar, garantido espaços com pares, professores e orientação para conversar sobre o impacto da tragédia nas pessoas e a sua perplexidade.

Em tempos nos quais a escola tem sido alvo de muitos questionamentos e desconfianças, entendemos que compete a ela, como organização social e socializadora, se manifestar a respeito desses temas, enfrentar perguntas difíceis e renovar o compromisso na formação ética para o valor à vida, ao respeito mútuo e à solidariedade.


Inspirado no Blog de março de 2011, de Dayse Gonçalves “As crianças e as cenas de TV em tempos de grandes tragédias”.

Por que educar em casa?

Escola da Vila

Por Fernanda Flores, direção geral

Para quem vive a escola como ambiente educacional plural, onde se assume um compromisso ético de promoção de cultura e de acesso ao conhecimento científico, o fenômeno conhecido como “homeschooling“, ou educação domiciliar, traz muitas inquietações, dúvidas e perplexidade perante os dados divulgados na mídia a respeito de tal opção, sobretudo, considerando as razões que têm recebido maior destaque, alheias ao recente julgamento realizado no final do ano de 2018, no qual o STF reiterou que a prática é ilegal em nosso país.

O tema é complexo e permite uma série de abordagens, assim, convidamos nossos leitores e leitoras a conhecerem o artigo de Bruna Werneck Canabrava, publicado no Jornal do Brasil, em 22 de fevereiro, gentilmente cedido pela autora para divulgação em nosso blog. A visão expressa representa o que pensamos sobre esse tema.

Por que educar em casa?

Das 35 metas para os primeiros 100 dias de governo Bolsonaro, quatro dizem respeito à educação, sendo apenas uma estabelecida pelo MEC (referente à alfabetização). A medida que tem recebido mais destaque na mídia e nas redes sociais é aquela estabelecida pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: a regulamentação do ensino domiciliar, que vem sendo chamado pelo termo em inglês home schooling. Essa pauta já foi objeto de análise pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro do ano passado, com decisão contrária. A maioria dos ministros alegou justamente a falta de regulamentação, mas dois deles – Fux e Lewandowski – foram além, numa interpretação que indica a inconstitucionalidade da modalidade educacional.

O ensino domiciliar é uma pauta histórica de grupos religiosos e é publicamente representada pela Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED). Segundo o site da instituição, “a Educação Domiciliar ocorre quando os pais assumem por completo o controle do processo global de educação dos filhos, ou seja, além do ensino de valores, hábitos, costumes e crenças, se responsabilizam também pelo chamado saber acadêmico que, normalmente, ficaria a cargo da escola.” O site afirma ainda que “a ANED não se posiciona contra a escola, mas a favor da prioridade dos pais no direito de escolher o gênero de instrução a ser ministrado aos seus filhos” e descreve como perfil dos pais que optam por educar fora da escola aqueles “que decidem assumir a total responsabilidade por essa formação”. [grifos nossos]

Esse desejo por parte dos pais de controlar a totalidade da experiência educacional de seus filhos é bastante suspeito, a partir de uma concepção de educação em que o contato com diferentes visões de mundo é não apenas desejável, mas essencial para o desenvolvimento da tolerância e para a construção do tecido social. Nessa perspectiva, a escola é um espaço de interface entre o mundo privado da família e da igreja e o mundo público da sociedade como um todo.

Enquanto a ANED levanta a bandeira do direito de escolha dos pais, nossa preocupação é resguardar o direito dos filhos menores de idade. Separamos, então, em três grandes categorias os motivos, segundo a ANED, pelos quais famílias optam pelo ensino domiciliar: (1) melhor qualidade acadêmica; (2) preservação de valores e crenças religiosas; (3) preocupação com a segurança física dos filhos, alegando casos de bullying e acesso a drogas. Fazemos, agora, um convite à reflexão sobre cada um deles à luz da legislação já existente e dados da realidade brasileira.

Quanto à formação acadêmica: se é necessário que os profissionais sejam formados em determinados cursos – regulados e avaliados pelo MEC – para serem contratados como professores numa escola, porque seriam pais mais competentes para desempenhar tal função? Vale lembrar que, segundo o IBGE, apenas 15% da população brasileira tem ensino superior. Já entre professores na ativa, o número é invertido. Apenas 15% não tem, a maioria deles atuando na educação infantil e muitos já estão cursando a graduação.

Quanto à preservação de valores morais e crenças religiosas, isso já é um direito garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 16. Quais seriam os valores e crenças que estariam sendo desrespeitados pelas escolas e que justificariam a subtração dos estudantes desses espaços? Cabe pontuar que por trás de tal discurso, demasiadas vezes reside a perpetuação de preconceitos, que o conjunto da sociedade já decidiu que não devem ser perpetuados, inclusive com tipificação criminal.

O mesmo artigo do ECA garante também o direito à liberdade de opinião e expressão, assim como a de ir e vir e a de buscar refúgio, auxílio e orientação. Esses pontos são importantes para abordarmos a terceira categoria de motivos. Se por um lado, os pais temem pela segurança de seus filhos na escola, por outro, sabe-se que no Brasil, a maior parte das violências sofridas por crianças, sejam elas físicas, psicológicas ou sexuais, se dão no ambiente doméstico. Frequentemente, a escola é o único espaço de contato da criança com adultos que não têm uma relação com os pais e que podem protegê-la e denunciar os maus tratos a autoridades. Além disso, admitindo-se que existem, sim, problemas de drogas e bullying no ambiente escolar, a remoção permanente da possível vítima de forma que ela perca a sua liberdade de frequentar o espaço e convívio com colegas, me parece uma solução ruim e ainda deixa as outras crianças expostas ao mesmo tipo de violência, sem resolver o problema.

Por fim, chama atenção que uma medida que visa favorecer 5 mil famílias (de acordo com o site da ANED) tenha tamanha primazia num país com mais de 40 milhões de crianças precisando ser educadas. Mesmo que ensino domiciliar fosse solução para uma melhor educação conteudista, qual é o risco em termos de saúde física e mental a que vamos expor essas crianças? Que garantias teremos de que sua liberdade e dignidade serão respeitadas? A Constituição Federal, no artigo 205, designa a educação como “direito de todos e dever do Estado e da família”. Não podemos prescindir dessa responsabilidade dupla pelo bem-estar da criança e ambos os responsáveis devem atuar de forma conjunta, não antagônica. Precisamos de políticas universais, que estruturem boas escolas, em condições adequadas para que todos os professores possam ensinar e alunos aprender.


Bruna Werneck Canabrava é servidora da Fundação Cecierj e mestranda em Ciência Política na UFF.

Sustentabilidade, um valor inegociável

Escola da VilaEscola da Vila

Sem canudinhos, com segunda-feira sem carne e andando de bicicleta, salvaremos o planeta?

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Quando era pequena não me lembro de qualquer preocupação planetária, no máximo perdi algumas noites pensando se o Alien, o oitavo passageiro, poderia de fato existir, por outro lado tinha o E.T. que amenizava a insônia… Um passado não tão distante e bem mais leve, quando comparado ao presente em que crianças e jovens percebem que o planeta corre perigo real.

A finitude dos recursos naturais, a poluição do ar, o aumento da temperatura, os desastres naturais… enfim, é premente que algo seja feito. Problemas enormes, desafios gigantescos e soluções que podem parecer ridículas: abolir canudinhos, segunda-feira sem carne, andar de bicicleta. Afinal sabemos que os vilões estão longe de ser o canudinho, a produção do metano pelas vacas e o gás carbônico de carros. Assim, reduzir a complexidade para ações corriqueiras pode parecer patético.

No dia 15 de fevereiro, o professor Edson Grandisoli fez a palestra de abertura do ano do Ensino Médio sobre sustentabilidade, assunto difícil por várias razões: escutamos e vemos em demasia as mazelas no planeta e nos sentimos impotentes diante de tamanha problemática. O professor apresentou formas de reduzir o problema com ações simples e inúmeros exemplos de chamar a atenção para o assunto, contudo gerou um incômodo em muitos de nossos alunos. Explico: seria de se supor que jovens se sentissem aliviados ao perceberem que podem impactar positivamente o planeta, contudo nossos alunos sabem que essas ações simples não modificam a forma de funcionamento em nossa economia, que exige aumentar cada vez mais o consumo, então as ações para “cuidar do planeta” parecem simples alegorias.

Sem dúvida há uma incompatibilidade entre o nosso sistema econômico, que exige um alto nível de produção e consumo, e a preservação ambiental, mas será que é possível ter uma política de consumo sustentável? Será que é possível lidar com os limites ecológicos, uma economia capitalista e promover a justiça social?

No início da palestra, o professor pediu que disséssemos a palavra que nos vem à mente quando pensamos em sustentabilidade, e a palavra mais dita foi MEIO AMBIENTE. No final da palestra, fez a mesma questão e o resultado foi a palavra VALOR. Creio que era esse o grande objetivo do encontro, nossos alunos pensarem na sustentabilidade como um valor inegociável, portanto se impactarem para pensar em formas de agir mais sustentáveis. Isso significa que é preciso ter ações relacionadas ao macrossistema em que sejam modificadas tanto a estrutura de produção de forma que as necessidades das pessoas sejam supridas usando o mínimo de recursos, quanto em nossa esfera pessoal e comunitária com ações aparentemente “alegóricas”.

A temática permeará o ano letivo da Escola da Vila com várias ações voltadas a pensarmos de forma mais sustentável, agirmos de forma mais sustentável e sermos mais sustentáveis.

#SustentaVila

Quando as crianças brincam de academia 

Escola da Vila

.

Por Marcos Mourão, professor de Educação Física

Ao ler o título da matéria “Quando as crianças brincam de academia”, publicada no Estadão, lembrei imediatamente de uma cena que vi recentemente na Educação Infantil da Escola da Vila. Algumas crianças, comandadas por um menino, seguiam as ordens de exercícios típicos de uma aula de ginástica: polichinelos, abdominais, flexões e saltos. E faziam tudo isso com muita seriedade. Aos poucos, algumas delas foram se desinteressando, até que a brincadeira acabou. Ao ler o conteúdo da matéria do Estadão, percebi que se tratava da procura de famílias que ainda não colocaram os filhos em escolas ou que não têm opções de lazer onde moram, por espaços com a proposta de desenvolver habilidades motoras e sociais das crianças pequenas, por meio de circuitos, danças e brincadeiras.

Pensando sobre o assunto da matéria e do que vi acontecer com as crianças da Educação Infantil da Escola da Vila, inevitavelmente surgiram algumas ideias sobre o brincar, a infância e o papel do adulto.

A primeira delas sobre a diferença de brincar nas duas situações. As crianças que estavam brincando de ginástica escolheram a brincadeira, certamente influenciadas pelo menino que comandava os exercícios, trazidos de outro contexto, diferente do da escola. Essa é uma característica essencial para uma brincadeira de qualidade, ou seja, trazer para o presente algo exterior a ele, para que a criança entenda melhor do que se trata aquilo que está procurando entender. Quando a criança vai à academia, ela não tem essa possibilidade, pois não escolhe a brincadeira. Ela apenas a executa.

Outro aspecto importante na brincadeira da ginástica é o brincar livre, sem a presença do adulto. Quando crianças brincam somente entre elas, as escolhas, as ideias e as decisões têm que ser tomadas sem a hierarquia que a figura do adulto impõe. E isso obriga a criança inevitavelmente a enfrentar conflitos, escutar, falar e negociar. A criança na academia não tem essa opção. Ela apenas realiza a atividade gerenciada pelo adulto.

O último ponto, que chama mais atenção em relação às diferenças de contexto, é em relação à infância. Para as crianças, inventa-se a infância quando decide-se deixá-la brincar, ir à escola, ser criança. Atualmente as crianças ficam cada vez mais sobrecarregadas de atividades, com aulas especializadas de todos os tipos, assumindo responsabilidades e horários rígidos toda a semana. E numa sociedade que não reconhece a infância como um período único, diferente da vida adulta, tende a misturá-la e integra-la à academia e ao fitness.

A experiência de produzir e estrear uma peça

.

Por Gabriel Rosa e Dora Novais do 3o EM, alunos do Grupo de Teatro e do Núcleo de Produção Cultural da Vila

Este ano passou muito rápido, e nós do Núcleo de Produção e do Grupo de Teatro, com certeza, aproveitamos cada minuto. Apesar de todo o caos no país, 2018 foi um ano incrível e trouxe um vasto leque de projetos. O maior de todos, sem dúvida, foi a adaptação coletiva da obra de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, nomeada de “Relatos Cegos”. O grupo todo escolheu e aceitou encarar esse grande desafio que é transformar uma narrativa criada na linguagem literária para a linguagem teatral. Assim, cada integrante do grupo ficou responsável por adaptar uma parte do livro, fizemos diversos cortes e muitas descrições que não cabiam dentro da linguagem do teatro ficaram de fora. Compusemos uma trilha sonora original e levamos pro palco, da nossa maneira, a história desses personagens que enfrentam tantos conflitos ao tentar organizar uma pequena sociedade sem regras.

Muitos integrantes, além de fazer parte do Grupo de Teatro, também fazem parte do Núcleo de Produção Cultural. Para quem ainda não conhece: o Núcleo é um grupo formado por alunos que têm como intuito auxiliar em produções e projetos culturais da escola, como a peça “Relatos Cegos”. Assim, além de atuar, muitos alunos tiveram também a engrandecedora experiência de trabalhar com a produção. Pensamos, assim, nos figurinos e todos os adereços que compunham o cenário. Além disso, o Núcleo foi responsável por levar o Grupo de Teatro para diversos festivais de teatro estudantil, no interior e São Paulo. Para isso, nós tivemos que arrecadar dinheiro para levar a nossa peça para esses festivais e para investir em outros projetos culturais destinados para a comunidade escolar. Fizemos o nosso próprio Sarau, nosso Brechó, fizemos vendas de doce na escola e até criamos produtos próprios do Núcleo, como sacolas e camisetas, para vender. Participamos da Festa Junina, da organização do Festival de Poesia e apresentamos um pequeno trecho da peça no evento. Tudo isso feito pelos próprios alunos, com as arrecadações revertidas para todos os outros alunos que compõem a comunidade vilana. Nós não iríamos conseguir sem a ajuda e o grande apoio da Luiza Zaidan, que, além de dirigir a peça, nos orienta no Núcleo.

A principal característica do teatro, em nossa opinião, é o trabalho em grupo, algo que a Escola da Vila presa em seu currículo e que, com certeza, nos ajudou a realizar todos os nossos projetos. A participação e o apoio da comunidade escolar e de cada funcionário da escola foram essenciais para a realização de cada projeto. Uma das mais lindas experiências que vivemos, sem dúvida, foi a oficina com as bailarinas cegas da Associação Fernanda Bianchini. Esse encontro não só fez diferença na construção de personagens da peça, mas fez diferença também para a nossa formação como seres humanos.

Tivemos diversas vitórias durante este ano. Construímos uma peça do zero, uma peça que foi capaz de tocar o público, convidando-o a refletir sobre o mundo em que vivemos. Reservamos um teatro para nossas apresentações e tivemos o orgulho de pagar o aluguel com nossa primeira bilheteria. Para os integrantes do grupo que estão no 3o ano, infelizmente, foi o último ano de teatro, mas foi uma experiência com muitas risadas e união. Nós, integrantes do Grupo de Teatro, somos mais do que colegas, nós conseguimos construir uma grande amizade.

Que 2019 também seja um ano maravilhoso, como foi este.

Vilalê: descobertas e amigos inesperados

Escola da Vila

.

Por Sofia M. Duarte Pedrosa Rechi Aguiar e Tiago Costa Soriano – Formandos do Ensino Fundamental 2

Todos nós já nos sentimos solitários. Não pertencentes. Em dúvida sobre gostos, personalidade, sobre nós mesmos. Às vezes encontramos acolhimento onde menos esperamos, e é isso que o Vilalê representa para muitos de nós. Um lugar onde ninguém lhe julga. Onde até mesmo os mais tímidos têm voz.

Começamos todo ano escolhendo um livro. Esse sempre é sugerido pelo grupo e eleito a partir de uma votação, portanto todos conseguem ser atendidos de alguma forma. Fazemos leitura compartilhada nos encontros de quinze em quinze dias, discutindo o que lemos em casa e no encontro passado. Sempre há diferentes interpretações e observações, deixando a leitura mais rica e com diferentes opiniões sobre os acontecimentos do livro.

Com um grupo diverso e unido, inclusive na questão da idade (que é mais evidente nesta fase da nossa vida), conseguimos, por meio de sorrisos, espantos e lágrimas, finalizar a leitura. Após o final de cada livro, um sentimento de preenchimento inunda nossas mentes e corações. Êxtase dos amantes de bibliotecas.

A escrita e a leitura se mostram libertadoras. No Vilalê, ninguém nos força a nada. Ambiente mais aberto e leve não poderia existir. Sempre mudamos de espaço físico, mas a empolgação pelo próximo capítulo do livro se mantinha a mesma. O Vilalê foi como um veículo de descoberta sobre nós mesmos. Um grupo que acabaria se tornando muito mais amigo do que começou e nos faria aprender muito além do imaginado.


Agora que vou me formar e sair da Vila, este meu último encontro me fez lembrar de como vou sentir falta da experiência de ler livros impressionantes (que guardo com carinho em minha prateleira) em uma roda unida pelo interesse em comum por histórias e, claro, pipoca. Agradeço de coração à Fernanda, que, com todo o seu carisma, media o Vilalê e se esforça para enriquecê-lo de diversas formas (já chegamos até a conversar com uma autora holandesa). Àqueles que estão chegando, saibam que, para quem gosta de ler, o Vilalê só tem vantagens. Adeus e obrigado por tudo!

Vinícius Silva Fernandes Kuhlmann – Formando do Ensino Médio

Para ampliar a diversidade em nossa escola

Escola da Vila

.

Por Sonia Barreira, direção geral

Fazemos parte de uma comunidade que valoriza a educação, tem sensibilidade social e entende que deve agir para diminuir as desigualdades. Ao longo de nossa história institucional, assumimos compromisso com o atendimento à diversidade, construindo importante repertório pedagógico para o trabalho com as diferenças. Do mesmo modo, desde sempre, procuramos exigir o máximo possível de cada aluno sem praticar processos seletivos severos que excluem aqueles com menor potencial de aprendizagens acadêmicas ou com questões de aprendizagem em alguns campos específicos.

Mas sabemos que esse tipo de trabalho pedagógico, artesanal, bastante pautado nas inter-relações pessoais e sempre atento à singularidade de cada aluno, torna o projeto pedagógico caro e o valor da anuidade escolar impossibilita que alunos oriundos de famílias de baixa renda se matriculem em nossa escola. A única exceção são os filhos dos funcionários, que recebem bolsa integral, garantida em lei.

Esse corte financeiro acentuado tem como consequência a formação de um grupo de estudantes mais homogêneo do ponto de vista social e financeiro, limitando as trocas e relações mais democráticas no processo educacional. Essa seleção indesejada é também responsável pelo pequeno número de estudantes afrodescendentes, indígenas ou migrantes.

Com a finalidade de diminuir essa discrepância e com a intenção de promover uma educação de excelência para alguns alunos de baixa renda e forte adesão aos processos escolares, decidimos implementar um projeto de cotas sociais na Escola da Vila, o qual estamos denominando Projeto Ampliar.

Importante destacar que esse projeto conta com forte adesão da equipe pedagógica, que se dispõe a atuar no atendimento à diversidade com todos os recursos que a instituição construiu ao longo de seus quase 40 anos de atividade pedagógica.

Nossa intenção é que esse projeto amplie o número de alunos de baixa renda e envolva toda a comunidade escolar no apoio a este processo inclusivo. Além da busca por patrocinadores individuais ou empresariais, vamos colocar em ação alguns mecanismos que viabilizem o apoio de toda a nossa comunidade, como ingressos solidários, arrecadação de fundos, etc.

Temos certeza de que esse projeto vai impulsionar a democratização do ambiente escolar, permitindo que todos os alunos possam conviver com diferentes classes sociais e distintos repertórios de vida.

Para o ano de 2019, teremos alguns estudantes nesse programa iniciando seus estudos no Ensino Médio e o apoio de cinco financiadores pessoa física. O processo de seleção dos alunos contou com apoio da ONG Edukai que promove Olimpíadas em escolas públicas, com cuidadoso preparo dos alunos e das famílias selecionadas, incluindo visitação domiciliar, entrevistas e produção dos alunos.

O Projeto Ampliar está começando, mas quer crescer e envolver toda a nossa comunidade. Esperamos contar com seu apoio!