O que muda e o que permanece faz parte de um propósito e, não, de um novo endereço.

200213 ESCOLA DA VILA 130

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Por Sônia Barreira

Nos dois posts anteriores, sobre a Vila na Granja, falamos sobre a nossa vocação de fortalecer novos projetos educacionais com a mesma filosofia de trabalho e a mesma visão pedagógica.  É algo que está na essência da escola, no DNA do projeto pedagógico!

É claro que já poderíamos ter preparado materiais didáticos que facilitassem e organizassem essa expansão.  Por que isso não aconteceu?  Simplesmente porque, no nosso projeto, a autoria, a criação do professor é algo fundamental.  Por isso, investimos tanto na construção de propostas de formação continuada, para que os professores possam avançar e para que possam transformar a Vila.  Não queremos professores reprodutores, queremos professores autônomos e capazes de promover as mudanças necessárias.

A consequência natural é a de que a Vila muda todo ano.  Para os saudosistas, isso pode ser triste, mas para quem vai mais fundo na análise, sabe que não é possível fazer uma escola apenas reproduzindo a tradição.  É preciso inventar novas soluções, propor novos projetos, incrementar as situações de aprendizagem, definir novos textos e livros para serem lidos.  É preciso acompanhar nosso próprio tempo.

Porque estamos abertos a mudanças, temos segurança para reconhecer e manter convicções, mesmo quando elas não agradam a todos, como algumas práticas adotadas pela escola, algumas regras, e também alguns projetos e atividades.

Uma delas, simples, mas polêmica e emblemática, é o trabalho em duplas.  Por que desde a Educação Infantil até o final do Ensino Médio fortalecemos propostas de trabalho em duplas?  Por que nossos alunos sentam em duplas?  Por algumas razões, entre as quais destaco:

- Para aprender a trabalhar com todos os colegas, sejam eles mais ou menos capazes e competentes, sejam eles mais ou menos concentrados, sejam eles mais ou menos fáceis de estabelecer o diálogo e o relacionamento.  O outro, numa escola, é um desafio, não um obstáculo, nem uma bengala.  Da mesma forma, no mundo do trabalho ou no mundo familiar.  A qualidade das relações interpessoais é algo a ser aprendido!

- Para potencializar a aprendizagem, uma vez que entre o eu e o outro constrói-se uma nova possibilidade de compreender desafios, de recrutar informações para resolver problemas e de entender explicações.  Ou seja: aprender em parceria traz novas e surpreendentes condições de aprendizagem.

Mudar e permanecer…  Essas, assim como outras características do nosso trabalho, estarão presentes hoje e amanhã, aqui e ali, na Granja, no Butantã, no Morumbi… em todas as nossas Vilas.

20 anos.

25_11_2013

Por Marcos Mourão (Marcola)

A capoeira na Escola da Vila comemora, em 2013, duas décadas de trabalho como atividade de extensão curricular! Para celebrar esta data, ao longo deste ano realizamos alguns eventos especiais como o Dia do Esporte, a apresentação de capoeira na abertura da Olimpíada da Escola da Vila, o Festival Intercolegial de Capoeira, o encerramento do evento “Um Pouquinho de Brasil” e o 20o Festival de Capoeira, que será realizado no próximo dia 30 de novembro. Gostaríamos, também, de escrever um pequeno texto para compartilhar os principais aspectos de nossa proposta pedagógica com a Capoeira Escolar.

Durante estes vinte anos, trabalhamos com um número representativo de alunos, que certamente aprenderam mais do que um jogo ou esporte. Aprenderam sobre ritmo, ginga, expressão e cultura brasileira; aprenderam também a interagir e a respeitar os limites do corpo e movimento de cada um. Tudo isso embalado por muita música! São conquistas que certamente ficaram guardadas na memória de cada criança que por ali passou, deixando muitas saudades!

As aulas de capoeira na Escola da Vila procuram valorizar a ação corporal das crianças, para explorar e descobrir possibilidades lúdicas com o próprio corpo e movimento. A cultura da capoeira é rica em cantos, ritmos e histórias. Através dela, buscamos desenvolver uma combinação de jogo e arte, com movimentos amplos associados ao universo da capoeira.

O objetivo do nosso trabalho é, sobretudo, possibilitar o reconhecimento do corpo em ação, utilizando a capoeira como instrumento de expressão e comunicação. Ao contrário da concepção tradicionalmente dominante de trabalho no esporte com crianças, nossa proposta não objetiva treinar capoeiristas através de uma aprendizagem mecânica e repetitiva de golpes e ginga. Queremos, sobretudo, propiciar em aula um ambiente interativo, prazeroso, desafiador, imaginativo, no qual a criança construa um percurso único na descoberta dos movimentos de capoeira.

Neste percurso, procuramos oferecer em aula materiais que permitam uma ampla diversidade gestual e que favoreçam uma rica aprendizagem motora. A maior parte deste material é trazida das aulas de Educação Física (cones, estepes, corda, espaguetes de natação, bola, bambolê), mas também utilizamos sucatas (garrafas, barbantes, fitas-crepe) e os próprios instrumentos da capoeira (caxixis, pandeiros).

O resultado deste trabalho é observado nos avanços obtidos pelas crianças no controle do próprio corpo, no ritmo, nas relações de grupo e na espontaneidade dos gestos.

Quero compartilhar a sustentabilidade deste trabalho com os professores João Cunha, Thiago Vieira, Bruno Soares, João Aquino, Emerson Marinheiro e Manoel Ghizzi, que diariamente atuam com nossos alunos!

Devo agradecer às crianças, que se entregaram de corpo e alma à realização das aulas!

Quero agradecer aos pais, por confiarem seus filhos a essa atividade tão querida e festejada pelas crianças desde muito pequenas, possibilitando-as a se aproximarem mais da nossa cultura corporal brasileira!

Esperamos vê-los no dia 30 de novembro, para o nosso 20o Festival!

 

Na Vila, todo mundo sabe o nome de todo mundo. Gostamos dessa ideia… porque apostamos nas pessoas.

DSC_0076Reunião pedagógica semanal da equipe do ensino fundamental

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Por Sônia Barreira

No aniversário de 30 anos da Escola da Vila, falamos sobre como escolhemos o nome da nossa escola, e gostaria de retomar esse tema aqui, a propósito da nova unidade da Granja Viana.

Já naquela época (1980), pensamos que o modelo que planejávamos deveria poder crescer, expandir e influenciar outros grupos educacionais. A primeira ideia foi batizarmos a escola de Núcleo 1.  Assim, naturalmente, viriam os Núcleos 2, 3, 4… Fazia sentido.  Por trás dessa opção podíamos ver o crescimento da filosofia da escola, das escolhas metodológicas. Mas, ao mesmo tempo, algo nos incomodava. Por quê? Porque simplesmente o nome Núcleo era frio.  E gostamos de pensar nossa escola prioritariamente como um lugar intenso, quente, no qual borbulham vivamente as relações interpessoais.  Uma de nós disse: “Por que não, Escola da Vila?”.

Discutimos intensamente, e lembro-me de termos chegado à conclusão que nos inspira até hoje: “Numa Vila, todo mundo se conhece!”. Com esse pensamento poderemos crescer porque estaremos sempre construindo pequenas vilas. Comunidades em que aproveitamos do conhecimento construído historicamente e onde todos os dias somos impactados por novas pessoas: profissionais ou alunos com necessidades específicas.  E, com isso, a comunidade se reinventa a partir das pessoas.

Como você pode ver, mudar não é uma novidade para nós. Nesses 33 anos, desde a inauguração da nossa primeira unidade, e a partir do contato com inúmeras escolas em nosso Centro de Formação, aprendemos que um projeto pedagógico não se multiplica realmente, ele tem de ser reinventado,  reconstruído, com autoria e criação.  É por isso que afirmo que a nossa principal aposta é na formação e na sensibilidade de nossos profissionais.  É isso que nos permite ser quem somos e, ao mesmo tempo, nos permite evoluir. Ser diferente amanhã porque necessidade e desafios surgem a cada dia, impostos por novos conhecimentos e contextos ou pela transformação de nossa sociedade.

Somos movidos por desafios. Nossos profissionais querem crescer e expandir seus próprios horizontes. A consequência é que nossa nova Vila na Granja não será mera reprodução da Vila Butantã, nem da Vila Morumbi, mas terá uma história própria, feita todos os dias por aqueles que lá estarão. Será uma Vila com o nosso jeito de fazer educação: aberta à evolução das metodologias que aproximam alunos do conhecimento, mantendo a essência da nossa filosofia, garantindo nossos valores!

O desafio da Unidade da Granja Viana já faz parte da nossa rotina. Estamos matriculando novos alunos, conhecendo novos pais. Também estamos recebendo alguns alunos e pais que já conhecemos. Tudo nos renova e inspira a fazer mais. Nos vemos pelas Vilas.

2014 chega com a Unidade da Vila na Granja Viana. Como toda novidade, desperta alegrias e dúvidas.

painel

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Por Sônia Barreira

A comunidade da Vila é pequena.  Foi fácil contar pra todo mundo a novidade que tanto nos alegrou. Escrevemos cartas, mandamos e-mails, fizemos posts no face, conversamos nos portões e nas alamedas das nossas unidades. E, nesta semana, fizemos um painel com as fotos do projeto da nova escola com as mensagens que recebemos de apoio e incentivo… Foi a maneira que encontramos para agradecer a todos aqueles que torcem pelo nosso projeto pedagógico e sua expansão.

Mas… uma iniciativa desse tipo desperta também algumas dúvidas. Faz parte… Uma mãe me perguntou, numa reunião de pais, “Por que não (crescer) para o lado da Vila Madalena, de onde vêm tantos alunos?”. Outro pai mostrou certa preocupação em relação a investimentos nas unidades que já existem: “Diminuirão?”, perguntou. Alguém, também, nos questionou sobre o próprio crescimento: “Por que uma escola tem de crescer?”.

Aprendi, com o tempo, que a dúvida de alguns pode representar a dúvida de muitos.  Apesar de ter respondido “ao vivo” aos pais que me abordaram, resolvi dividir, neste blog, algumas respostas e colocações. Não dá para esgotar o tema num único texto. Então, desde já, fica o convite para nos encontrarmos aqui, virtualmente.

A primeira e mais importante razão pela qual fizemos esta opção foi o fato de a oportunidade ter surgido no momento correto. Há algum tempo pensávamos numa iniciativa desse tipo, pois sabemos da maturidade do nosso projeto pedagógico e do comprometimento de nossa equipe. O impedimento era fazer o investimento sem impactar nossas atuais unidades.  Pois bem! Encontramos na escola Bosque a parceira ideal.  O investimento financeiro é baixo (parte das instalações já está pronta, e o terreno do novo prédio é próprio). E nossa parceira compartilha integralmente do projeto pedagógico.  A Vila “viaja” intacta para a Granja.

Vila Madalena X Granja. Além das questões mencionadas, temos um outro ponto importante: temos um conjunto significativo de alunos na Granja, que enfrentam o desafio da (i) mobilidade urbana todos os dias para chegarem às unidades Butantã e Morumbi! Por conta disso, nos sentimos impulsionados para esta região, repleta de pais e mães admiradores do nosso trabalho, certos de que estamos também facilitando o estilo de vida escolhido por eles.

Nos próximos dias, e até o final do ano, publicaremos uma sequência de posts neste blog. A ideia, como disse, é explicitar melhor nossas intenções com esse movimento institucional de crescimento controlado.  Vamos dividir com você as principais ideias com as quais trabalhamos para impulsionar o projeto pedagógico da Escola da Vila.

ACOMPANHE A GENTE. NOS VEMOS AQUI… E PELA VILA.

Depoimentos sobre o Intercâmbio Escola da Vila / Colegio de la Ciudad – 2013

13_11_2013

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Por Fermín Damirdjian

É difícil determinar o momento preciso no qual um aluno de fato entra para o projeto de intercâmbio. Já em junho de 2013, por exemplo, há alunos que procuram a Orientação Educacional e se apresentam decididos a participar do intercâmbio em 2014. Isso significa que, em seu imaginário e expectativas, já há algo que, fazendo jus ao termo “projeto”, se estende sobre o futuro. Alguns deles podem ainda mudar de ideia. Outros podem se ver absorvidos demais pelas exigências escolares, prioridade absoluta como critério para a participação. Pode, eventualmente, ocorrer ainda que faltem vagas nas combinações com as duplas argentinas.

Nessa trajetória, o início do curso de espanhol – que ocorrerá em março ou abril do ano que vem – será certamente um passo importante. Mas, ainda assim, esse grupo ainda demora a se estabilizar. A definição das duplas, por fim, se realiza depois de semanas de especulações entre a Escola da Vila e o Colegio de la Ciudad. E, daí em diante, os bandos argentinos e brasileiros vão ganhando independência em sua aproximação, que ocorre pelos contatos virtuais diários, até se encontrarem de fato, e o grupo seguir seu caminho, sua formação afetiva pelo convívio, pela visita dos argentinos ao Brasil, pela ida dos brasileiros à Argentina.

Os textos a seguir, redigidos por alguns dos participantes desta edição de 2013, contam com vivacidade a construção desse trabalho, considerando tudo aquilo que fez parte de seu imaginário muito antes de vivenciar o intercâmbio, e tudo o que ele deixou como herança.

Boa leitura!

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Ana Clara Naletto

Bernardo Costa Hoyos

Daniel Ferraz

Fernanda Tsukada

Francisco Sanchez Oller Bueno Ximenez

Ligia Rodrigues Spedalletti

Marina Nogueira Pérez

Marina Yazbeck Mourão

Pedro Sanchez de Frias

Sofia Sales Magalhães Motta

Leitura em sala de aula: quando os leitores são… os pais!

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Por Cláudia Nicolau, professora do 2º ano E

Os meses de outubro e novembro têm sido muito especiais para as crianças dos 2ºs anos do Ensino Fundamental. Ao menos duas vezes na semana, os pais têm visitado as salas de aula, com o intuito de ler histórias e poemas para seus filhos e os amigos.

Essas visitas, novidades na série, fazem parte do projeto “Leitura em Voz Alta”, no qual grupos de alunos leem contos de Ricardo Azevedo para colegas de outras turmas. Num momento em que pensam e discutem bastante acerca da postura, entonação de voz, respeito à pontuação e tantos outros elementos de uma boa leitura em voz alta, a presença dos pais traz a todos os alunos modelos leitores diversos, todos muito experientes e cada um com um estilo próprio; alguns comentam as leituras, outros fazem as vozes dos personagens, e os mais tímidos se atêm exclusivamente ao texto.

Sempre maravilhadas, as crianças participam, com risos, admiração, uma pontinha de medo, efeitos sonoros… São momentos únicos, quase mágicos, nos quais a leitura pelo deleite se faz mais do que presente em nossas salas de aula. O brilho nos olhos de todos – especialmente nos olhinhos orgulhosos dos filhos do “leitor da vez” – nos mostra o quanto curtem cada conto, cada poema, cada história compartilhada.

Muitos pais nos contam que escolheram o que leriam junto com seus filhos, tornando essa uma atividade significativa não apenas no contexto da leitura em voz alta, mas também no âmbito da formação de leitores de literatura que comentam acerca das narrativas favoritas, das poesias que mais emocionam, do que fará os amigos rirem… Enfim, mais uma oportunidade para conversar sobre os livros.

Agradecemos às mães e pais de todas as salas dos 2ºs anos, tanto na unidade Butantã quanto na unidade Morumbi, que disponibilizaram um pouquinho do seu tempo para tornar possível essa parceria encantadora, e aguardamos ansiosamente as novas participações! Que esses momentos inesquecíveis tenham sido tão significativos para vocês quanto o são para todos nós, professores e crianças!

Cursos online – O papel da tecnologia educacional: o formador e o aluno online

Por Helena Andrade Mendonça

Em 2013 começamos a enfrentar o enorme desafio de oferecer cursos online como parte das atividades de formação continuada pelo Centro de Formação. A principal motivação se deu por conta dos professores, de São Paulo e também de outros lugares do país, que nos procuravam com dificuldades de participação em nossas ações presenciais.

Nossa experiência com o uso de ambientes virtuais de aprendizagem, nos cursos presenciais e semipresenciais estava apenas no início, e, na velocidade do avanço das tecnologias, começamos a planejar e a explorar esse universo dos cursos online.

Já na definição dos cursos e no início da conversa, um dos temas que chamaram nossa atenção foi o conceito de presença citado por autores de referência no assunto.

Em ambientes online há uma maior possibilidade de ocorrer uma sensação de perda entre os alunos — perda de contato, perda da conexão e, como resultado, uma sensação de isolamento. Consequentemente, deve-se dar atenção ao desenvolvimento intencional da presença. (Palloff e Pratt, 2007)¹

Segundo Tori (2010)² há três diferentes tipos de distância: espacial, temporal e transacional. A espacial diz respeito a distância física entre o aluno e o professor; a temporal está ligada às propostas síncronas — web conferência, chat — e assíncronas — fórum, e-mail; e a transacional é a percepção psicológica de presença ou afastamento, que pode ocorrer tanto virtual quanto presencialmente, e que se dá, sobretudo, pelas interações em meios digitais.

Nosso objetivo, então, passou a ter foco no desenvolvimento da percepção da presença com o uso de recursos digitais, já que a maior parte dos nossos alunos nunca havia frequentado um curso online e, consequentemente, precisaria ser ambientado para explorar um novo espaço para estudar: o virtual.

Dessa forma, as primeiras semanas de curso foram planejadas para uma exploração mais técnica dos recursos e ferramentas que seriam utilizados, mas principalmente para que todos os participantes “chegassem”, ocupassem seus lugares e tomassem um café ou um chá conosco, no ambiente que seria usado por seis ou sete semanas.

Nossa experiência, nessas semanas iniciais, foi intensa. Usamos fóruns, chat, telefone e Skype, dando suporte, fazendo contato e tentando estabelecer uma sensação de presença com muitos dos mais de 180 participantes dos cursos online do mês de setembro. Como alguns contatos eram feitos por Skype, houve situações em que recebemos o sinal de vídeo de professores que estavam em sala de aula, assim como pudemos entrar em locais — para nós, que estamos em São Paulo –, tão distantes como uma escola rural do estado do Tocantins.

Tem sido um trabalho árduo e de muito aprendizado, que não seria viável sem as tecnologias e sem a sensação de presença que elas podem proporcionar. Agradecemos aos alunos, professores, técnicos, funcionários e a todos os envolvidos em mais este desafio.


¹ Palloff, R., Pratt K.. O Instrutor Online, estratégias para a excelência profissional. Ed. Penso, 2007.

² Tori, R.. A presença das tecnologias interativas na educação.Revista de Computação e Tecnologia  v. 2, n. 1, 2010. Disponível em  http://revistas.pucsp.br/index.php/ReCET/article/view/3850

Da sala de aula para as cavernas e as matas do vale do rio Betari

6_11_2013
Clique na foto para acessar o álbum no flickr

Por Vera Barreira

Mais uma vez, a turma dos 7ºs anos foi ao Petar (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira), localizado no sul do estado de São Paulo (a aproximadamente trezentos quilômetros da capital), próximo às cidades de Apiaí e Iporanga. O Petar abriga um importante complexo subterrâneo (cavernas) composto por rios, cachoeiras, estalactites e estalagmites, com curiosas e inusitadas formações, que se destacam pela sua composição geológica. É também uma das poucas regiões do Brasil que conservam, em seu estado natural, grande porção da mata atlântica.

Este Trabalho de Campo, além de permitir um tratamento contextualizado das disciplinas envolvidas, constitui-se também numa experiência valiosa para nossos alunos, que têm a oportunidade de conhecer e interagir com um espaço tão contrastante com a realidade urbana em que vivem cotidianamente. Dentro das cavernas encontramos um mundo totalmente diferente! Um lugar silencioso, de uma escuridão profunda, ornamentado por espeleotemas lindíssimos e habitado por criaturas interessantíssimas! Nas cavernas fazemos alguns blecautes: apagam-se as lanternas, fazemos silêncio e tentamos sentir o que é habitar aquele local. Este ano, alguns grupos privilegiados puderam perceber a acústica das cavernas, ouvindo nossa aluna Nina Quintanilha cantar uma música com sua voz especial. Do lado de fora, caminhamos ao lado do rio Betari, numa paisagem verde exuberante, atravessamos o rio com nossos sapatos numa água gelada muito bem-vinda para refrescar a caminhada de quase uma hora para alcançarmos a caverna Água Suja.

Além das atividades nas cavernas e trilhas da região, visitamos o quilombo de Ivaporunduva para uma conversa com o representante da comunidade que nos contou a história da comunidade, seus hábitos e sua luta para manter a terra e a comunidade dentro do Parque. Os alunos chegaram preparados com algumas perguntas para fazer e participaram de um bate-papo muito interessante, conhecendo uma forma de organização comunitária muito diferente do que se vive nas grandes cidades.

Os alunos, de modo geral, ficaram encantados com tudo o que viram, e cada um, a seu modo, aproveitou e se divertiu enquanto aprendia com os guias e professores que nos acompanharam. Vejam abaixo como foi a viagem pelos olhos de um aluno e de uma aluna do 7º ano de 2013:

“A viagem ao Petar correspondeu às minhas expectativas, pois tanto meu irmão quanto minha irmã mais velha falavam muito bem dessa viagem. Eu acho que consegui aproveitá-la ao máximo, tanto na diversão com meus amigos quanto nos estudos — principalmente as novas descobertas feitas lá.

Para isso, as caminhadas que fizemos dentro da mata foram a melhor parte, pois gosto bastante da natureza, de caminhar e me sinto bem respirando o ar puro do vale do Ribeira.

No meu modo de ver, o único aspecto negativo foi a pouca liberdade para achados e descobertas que tivemos dentro das cavernas, trilhas e chalé.

Eu aprendi muito nos nossos estudos sobre o palmito Jussara (planta típica da região). Eu achei muito legal aprender sua história, sua forma de reprodução e até seu formato, já que é impossível ver esse tipo de planta em São Paulo.

O palmito Jussara sempre foi uma planta típica do vale do Ribeira, era a base do comércio dos moradores da região. No entanto, quando foi criada a zona de preservação, foi proibida a venda do Jussara. Esse tipo de palmito se reproduz na maioria das vezes pelas fezes dos animais que a ingerem (70% dos animais da mata). Eu aprendi isso com o Silney, um guia local da região.” Gabriel Gianini, 7º ano.

“Antes de eu ir para o Petar, eu imaginava uma viagem com muito estudo (quero dizer, só estudo!) e pouca diversão. Depois da viagem, percebi que estava enganada. Eu aprendi muito na viagem, mas de um jeito divertido e com experiências que vou guardar por toda a minha vida.

As coisas de que mais gostei foram os passeios para as cavernas, principalmente a Água Suja e a Morro Preto, por causa da beleza e da boa preservação. Outra coisa que gostei foi poder ter ficado com meus amigos, principalmente no quarto. Acho muito legal nós podermos escolher nossos próprios quartos, pois algumas escolas escolhem os quartos pelas crianças.

O que eu não gostei foi ter chovido (o que não é culpa de ninguém), mas o que mais me incomodou foi andar muito. Ninguém vai morrer subindo uma trilha, mas tem pessoas (como eu) que não têm condições físicas!!

Eu aprendi muitas coisas na viagem, mas o que eu mais gostei de aprender foi sobre a adaptação do bagre cego e sobre a formação dos espeleotemas.

No final, gostei muito da viagem, e espero que a do ano que vem também seja assim!” Julia Oliveira K. L. Ferreira, 7º ano.

As Tic e o curso de língua inglesa: uma parceria potente e construtora

Por Diana Pessoa e Maria India Bonduki

O uso da tecnologia é latente para todos na nossa sociedade, inundada pela presença de computadores, notebooks, tablets, smartphones e etc. Mas e a sala de aula? Como fica nesse cenário? Como a escola pode se utilizar dessas ferramentas para potencializar as aprendizagens?

Essas e outras perguntas têm fomentado importantes discussões na nossa comunidade escolar. Discutem-se meios que possibilitem que as TIC (Tecnologias da informação e comunicação) deem suporte ao compartilhamento de ideias e atividades, auxiliando, então, na construção de conhecimento de forma mais colaborativa. Buscam-se maneiras que permitam um maior protagonismo dos alunos.

Inserido nesse contexto institucional, o curso de inglês do Fundamental 1 tem buscado cada vez mais ampliar o uso dessas tecnologias dentro e fora da sala de aula. O maior desafio é utilizar estas plataformas de modo a maximizar a experiência com a língua e buscar formas de contato que não sejam meros substitutos das “mídias tradicionais” (caderno, lousa, livro, etc.). Porém, ao mesmo tempo em que a tarefa parece desafiadora, ela se mostra muito potente para a criação de situações de comunicação real em língua inglesa.

Passaremos, agora, a descrever alguns projetos que, utilizando plataformas e ambientes virtuais, potencializam e potencializaram a comunicação e as aprendizagens em língua inglesa no Fundamental 1.

Nos 4º anos, ao longo do 2º trimestre, os alunos usaram a plataforma virtual Google Sites para escrever e compartilhar seus Self-portraits: um texto no qual eles tinham a tarefa de se descreverem, contando um pouco mais sobre sua família, suas preferências e seus gostos. Esse texto foi compartilhado com os colegas de outras turmas, que puderam ler e comentar. Ao interagir com colegas de outras turmas, as crianças tiveram a oportunidade de viver uma situação comunicativa mais próxima do real, já que tiveram que buscar a melhor maneira de se fazer entender e puderam trocar informações, fazer comentários, tudo isso utilizando a língua inglesa. Ademais, percebemos um grande envolvimento de crianças que se expõem menos na sala de aula e principalmente em discussões coletivas. Sentindo-se mais à vontade, puderam expor suas ideias e fazer seus comentários.

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Alunos concentrados, escrevendo seus Self-portraits.

No terceiro trimestre, no Projeto British Rock, os alunos dos 4ºs anos se deparam com lições de casa no ambiente virtual de aprendizado (AVA) da escola. Muitas dessas atividades exigem que assistam a videoclipes selecionados pela equipe e deixem comentários baseados em modelos, também disponíveis nesse ambiente. Além de conhecerem importantes artistas, momentos e fatos culturais, as crianças podem trocar ideias, comentar, sugerir outros sites e músicas, expor suas opiniões, de modo que não só se transpassam os muros da escola, já que essa tarefa é feita em casa, mas também se rompem as barreiras entre as turmas, considerando que todos os alunos de todos os 4ºs anos dialogam e compartilham de um mesmo espaço e canal de comunicação.

Outro momento importante do projeto British Rock e garantido pelo uso da tecnologia é a utilização de tablets em sala para fazer pesquisas sobre importantes ícones do Rock, como Elvis Presley e The Beatles. Nessas atividades, as crianças têm acesso a websites oficiais desses artistas e podem ler textos originais (sem a interferência de adaptações), ouvir músicas, ver vídeos e ainda observar fotos interessantes, possibilitando qualidade e autonomia no ato da pesquisa.

Os tablets e os ambientes virtuais ainda foram usados para auxiliar o desenvolvimento da compreensão e produção oral. Uma das atividades mais desafiadoras, assim como divertida, aconteceu em meados do 3º trimestre, quando as crianças foram estimuladas a escutar músicas da época (Rock ‘n’ Roll britânico dos anos 1960) e tentar transcrevê-las. As canções foram disponibilizadas no AVA. Assim, as crianças poderiam escutá-las e se desafiar novamente quantas vezes quisessem, de forma bastante autônoma, em casa.

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Crianças ouvem e transcrevem músicas, numa situação de muita concentração e trabalho colaborativo.

O 5º ano teve uma oportunidade bastante rica de interação. No 2º trimestre, eles criaram páginas com folhetos virtuais de locais de importância turística do Brasil, após uma rica pesquisa. Estas páginas serão compartilhadas com alunos de uma escola parceira no Canadá. Por isso, ao elaborar o site, os alunos tiveram que se preocupar com a qualidade das informações, com os objetivos de um texto informativo e de um site destinado a turistas, com as características dos seus destinatários, com a organização das informações e com o uso de estruturas e vocabulário pertinentes a esse tipo de texto.

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5º ano elaborando o site, com muito cuidado com os detalhes.

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Tela de apresentação do site elaborado pelo 5º ano.

Observamos que a existência de um destinatário real despertou uma motivação genuína, tanto nos alunos dos 4ºs anos como nos alunos dos 5ºs anos. E sabemos que esse é o ingrediente fundamental para o processo de construção de conhecimento.

Desse modo, vemos que o uso desses recursos tecnológicos auxiliou no engajamento dos alunos tanto no momento de trabalho com tecnologia quanto em outros momentos, como discussões coletivas, jogos, pesquisas e entrevistas em sala de aula, proporcionando autonomia e um maior protagonismo na construção do conhecimento.

Últimos dias para ver William Kentridge na Pinacoteca!

Por Maria da Penha Brant – mãe de aluna, ex-professora e sempre colaboradora da Escola da Vila

Fortuna é o título dado à mostra de William Kentridge, em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo, de terça a domingos, das 10h às 18h. Uma oportunidade única para professores e seus alunos, para toda a família, para todos nós!

Concebida especialmente para o Brasil, com obras criadas entre 1989 e 2012, a exposição propõe o olhar para uma vasta produção, com 184 gravuras, 38 desenhos, 35 filmes e animações, 21 esculturas e duas vídeo instalações.  Entretanto, segundo Lilian Tone, responsável pela curadoria, o excesso aqui surge para examinar o processo artístico de Kentridge, tema fundamental na conversa sobre sua produção.

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Em palestra ministrada na ocasião da abertura da mostra, o artista sul-africano explora os significados de Fortuna, montada como um grande estúdio, um espaço onde as imagens migram de um projeto para o outro, de uma mídia para outra. Ao utilizar a palavra “estúdio”, Kentrigde parece sugerir que examinemos seu espaço de trabalho de forma aberta.

Isso quer dizer, em suas palavras, “algo que começa com uma pequena imagem e pode, então, espalhar a ideia para um desenho maior daquela mesma imagem, a qual pode tornar-se parte de uma escultura, que pode então, ser utilizada no teatro.”

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Félix in exile

O espectador (incluindo as crianças), será levado, no decorrer do contato com sua obra, a compreender como o pensamento plástico, vai tomando forma, encontrando-se com um, nas palavras do artista, “tipo de fúria das coisas diferentes, sendo instável e passível de ser modificado quanto à forma, de mídia a mídia.”

Nas mãos de William Kentridge essa “fúria das coisas diferentes”, que se dá no estúdio, espaçoso e cheio de possibilidades tecnológicas, se torna lírica.

Fortuna parece ser um poema visual.

Seria excessivo dizer que ela nos leva para muito além desse grande estúdio?