O que nos encanta numa escola – que não é a nossa?

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Por Sonia Barreira

A qualidade de um projeto pedagógico não pode ser medida por apenas um de seus aspectos, como instalações físicas, nota do Enem ou número de atividades complementares que oferece.

Escola é um sistema que opera com um conjunto de fatores interdependentes. Por isso, sempre que os jornalistas fazem aquelas matérias para ajudar os pais a escolherem uma escola, os educadores torcem o nariz!

É por isso, também, que, para uma educadora, é difícil identificar exatamente o que tem uma escola quando ela nos encanta! Assim me sinto agora ao enfrentar este texto, cujo propósito é dar a conhecer nossas impressões sobre as primeiras escolas que conhecemos na Califórnia.

Conheci a High Tech High visitando suas dependências, lendo seu site, conversando com seus alunos, diretores, professores e funcionários. Além da visitação de dois dias feita pelo grupo de educadores que está aqui nos Estados Unidos, em excursão organizada pelo Centro de Estudos da Escola da Vila, eu estive por 4 dias consecutivos fazendo uma pequena “residência” em Point Loma.

High Tech High é um conjunto de 11 escolas, independentes, mas iguais em filosofia, abordagem metodológica e propósitos formativos. São três campus cada qual com um conjunto de escolas fundadas nos últimos anos, em função do sucesso do empreendimento. Trata-se de uma escola charter, modalidade de parceria público-privado do setor educacional, que se fortaleceu nos anos 90 nos EUA, e que permite que instituições de direito privado operem com verba pública somada a patrocínios da iniciativa privada, escolas gratuitas com vagas oferecidas por sorteio. Nesse conjunto, há escolas que atendem a alunos de 5 a 18 anos.

Todo nosso grupo ficou encantado com a escola, e sinto-me completamente incapaz de transmitir as razões desse encantamento, porque não há como separar um aspecto do outro, e a lista seria grande.

Destacarei – nos próximos posts - dois aspectos centrais: o uso do espaço relacionado aos valores e princípios pedagógicos, e o resultado do que eles próprios chamam de academic mindset que pudemos observar na fala e nas atitudes dos estudantes.

Por enquanto, um conjunto de fotos para que possam imaginar o que estamos vivendo por aqui.

Duas viagens

16_04_2014

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Por Tiago Lima

No Fundamental 2, todo ano fazemos um trabalho de campo em cada série: uma viagem cujo objetivo é fazer uma investigação fora da escola sobre assuntos que estão sendo tratados em sala de aula, levando os alunos a estabelecer maneiras diferentes de se relacionar com um objeto de estudo, além de propiciar experiências interessantes de autonomia e integração.

Já há algum tempo, temos achado interessante levar, em algumas dessas viagens, além dos professores, dois alunos de Ensino Médio, para cumprirem o papel de monitores. A proposta não é criar simplesmente uma situação de trabalho, para termos mais gente cuidando dos nossos alunos, mas vemos aí também uma oportunidade formativa para os alunos de Ensino Médio. Com a idade adulta se aproximando, a experiência de novos papéis concretiza e estimula esse crescimento.

Temos, portanto, muito prazer em compartilhar nesse espaço algumas reflexões que dois alunos de 1º ano desenvolveram acerca da viagem a Brotas com o 6º ano – realizada nos dias 26 a 28 de março últimos. É possível notar o empenho e a coragem que precisaram para encarar uma situação nova, mas ficamos com a gratificante sensação de que as reflexões empreendidas a partir desta valeram a pena.

Para os alunos mais novos, mais do que cuidadores extras, parece-nos que ganham a oportunidade de entrar em contato com um modelo do que é ser aluno e de que tipo de jovens serão daqui a essa eternidade, não tão distante, que são esses quatro anos que os separam do fim do Fundamental 2.

“Enquanto estive em Brotas, fiquei muito feliz pelo fato de o 6º ano me receber bem. Alguns me olhavam com curiosidade e outros até chegaram a me perguntar quantas vezes eu tinha repetido de ano. A surpresa de descobrir que eu e o Gustavo éramos do 1º EM era grande.
Durante as atividades, várias pessoas vinham me perguntar sobre a matéria e tirar dúvidas, o que me surpreendeu um pouco; eu não imaginava que eles tivessem tamanha ‘confiança’ em um de nós, uma vez que também somos estudantes.
As garotas do meu quarto se relacionaram bastante comigo, tanto que até me confiaram alguns de seus ‘problemas pessoais’, aos quais eu dei conselhos. Fiquei feliz por ter criado uma rápida – porém válida – relação de amizade.
Não consegui me imaginar lá como estive há 4 anos, uma vez que não me lembrava de várias coisas; parecia que tudo havia mudado. Mas, mesmo não me lembrando de como as coisas aconteceram quando eu estava no sexto ano, eu senti muitas saudades daquela época ao ver as crianças se divertindo e agindo exatamente da forma como eu devo ter agido quando estava no 6º ano.
Os vídeos e os simuladores que foram passados me surpreenderam muito. É exatamente a matéria de física que estamos aprendendo agora, e eu ficava me perguntando até onde daquele conteúdo as crianças estavam entendendo, ao mesmo tempo de estar imensamente aliviada, já que esclareceram muitas das minhas dúvidas.
Foi uma experiência muito boa no geral, e ela foi bem diferente de tudo o que eu já tinha vivenciado antes. Por um lado, me sentia um pouco responsável pelas crianças, algo que foi completamente novo para mim. Por outro lado, as ‘ordens’ que os monitores davam às crianças muitas vezes não se aplicavam a nós dois, e inicialmente eu ficava um pouco confusa.
Estávamos em um ambiente diferente e nos relacionando com pessoas com as quais não estávamos acostumadas a conviver, e isso nos propiciou várias experiências novas”.
Beatriz Navarro, 1º A

“Após viajar, como aluno, para Brotas, em 2010, e, em 2014, como monitor, pude perceber como as experiências são distintas.
Assim que soube que havia sido escolhido como monitor, fiquei um pouco aflito, confesso. Nunca havia desempenhado uma função como a que desempenhei na viagem, que seria de auxílio, como quem já passou por esta experiência/fase. Afinal, sou o irmão caçula, e mal sei cuidar de mim mesmo, cuidar dos outros seria um desafio.
Porém, percebi com o decorrer da viagem que eu estava lá muito mais para ajudar/auxiliar os alunos do que cuidando, afinal, são mais novos, mas já possuem cerca de 10-11 anos, não precisam da companhia de alguém mais velho constantemente. Algumas situações em que pude ajudar os alunos foram quando havia uma entrevista e a necessidade de anotar o que o entrevistado dizia, na qual memorizava algumas falas e as repetia para os alunos anotarem, ou em uma brincadeira noturna, em que um aluno estava com medo e o acalmei, dizendo que tudo ia ficar bem, e não passava de brincadeira.
Meu convívio com os alunos foi bom, conversava não só com os meninos do meu quarto, mas também com os outros meninos e meninas em momentos de integração, como na piscina, no futebol, em filas e em caminhadas. Acompanhava-os em todas as atividades propostas, interferindo quando havia uma distração em um momento inadequado ou uma discussão.
Por fim, posso dizer que foi uma experiência muito boa, com a qual eu tive novas vivências, como o convívio com alguns alunos mais novos; afinal, neste momento escolar, estou convivendo mais com os alunos mais velhos. Em comparação a primeira vez que viajei com a escola para Brotas, percebi que as atividades continuam as mesmas, e, desta vez, sem estar lá com o propósito de estudar, observei com mais atenção como a viagem é bem distribuída em momentos de estudo e de lazer, os quais, na minha opinião, são fundamentais para os alunos de sexto ano. Infelizmente, também percebi que, ao longo dos anos, os trabalhos de campo passam a ter cada vez menos esses momentos de lazer, o que me fez ter saudade e querer continuar em Brotas por mais alguns dias.”.
Gustavo Torres, 1º B

“Já que cheguei, acho que tirar meu filho só meia hora mais cedo não atrapalha…” Será mesmo?

14_4_2014

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Por Daniela Munerato

A noção de tempo da criança é muito diferente da do adulto. O tempo para elas é marcado pela rotina, pela continuidade, e é esse conhecimento de rituais, de suas atividades habituais, que as deixa seguras.

Quem já não acompanhou a ansiedade de uma criança por um evento que acontecerá ao final de um ano, como viagens, ou em outros períodos, como aniversários? Isso se revela na fala do pequeno em uma espera que parece não ter fim, a qual traz angústia e inquietação.

Através de suas experiências, a criança observa ciclos como a primeira referência de que o tempo passa.

“Organizar as ações no tempo dá à criança a possibilidade de constituir uma história pessoal, de pensar em passado”, afirma Lino de Macedo, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). “Com isso, ela pode reconhecer seu repertório, sua trajetória como indivíduo, e vai delineando sua identidade. Por mais que inicialmente isso tenha de ser feito com a ajuda de pais e professores.”.

No ambiente escolar, as crianças progressivamente se apropriam da rotina, fato que apoia a aquisição de autonomia, na previsão de condutas e procedimentos importantes para as aprendizagens e o convívio. Sabem, por exemplo, que, no início do período, são recebidas com cantos de escolha, compreendem que esse é o momento de entrar, conversar, com direito ao colo do professor ou a combinados com os amigos do que farão no parque, por exemplo.

Para o adulto, interromper essa rotina, chegar meia hora mais tarde ou pegar a criança mais cedo, é simplesmente um ajuste, um deslize ou uma necessidade de trânsito de uma situação a outra, num olhar prático. Para a criança, porém, a situação que até inicialmente pode gerar ânimo pela novidade que representa, na verdade, revela perdas. Situações eventuais podem acontecer, como precisar sair mais cedo por motivo de doença ou necessidade de uma consulta médica. Nesses contextos, a criança lida com o sentimento da perda pontualmente, mas quando essa perda se torna constante, o sentimento é de estar fora do grupo.

“Estar fora do grupo” se traduz pela perda de uma brincadeira que havia sido combinada, de uma história esperada, de um momento de escolha de jogo ou de notícias que antecipam momentos importantes do dia ou da semana seguinte. Afinal, muito se faz em meia hora!

O olhar do adulto não é o da criança. Mas precisa considerar o olhar desta num movimento de contribuir para que as atividades escolares aconteçam tranquilamente e em seu tempo previsto, como oportunidades importantes na vida de nossos pequenos, que estão em plena construção de vínculos e conceitos.

Espaços educativos que fazem a diferença

Por Sonia Barreira

Todos nós participamos da educação das nossas crianças. A Escola, respondendo às demandas de parte da sociedade por meio de um Projeto Pedagógico, ou seja, de um conjunto de propostas que concretiza um tipo específico de formação. Mas isso não isenta todos os demais − atores sociais de algum tipo de participação num Projeto Educativo mais amplo −, desejado e concretizado muito além dos muros da escola.

Vez por outra temos a oportunidade de observar como diferentes cidades, comunidades, grupos sociais se mobilizam para participar desse projeto educacional.  E nem sempre ficamos felizes em comparação com o que temos por perto.

Em viagem pelo Centro de Estudos da Escola da Vila, me antecipei ao grupo de professores e diretores que viajarão conosco para conhecer uma série de escolas e projetos (sobre os quais falaremos nos próximos dias) e tive uma dessas experiências de dar inveja a nós brasileiros.

Trata-se do The New Children’s Museum da cidade de San Diego, Califórnia. Essa instituição tem como missão “estimular a imaginação, a criatividade, o pensamento crítico das crianças e suas famílias em experiências inventivas com a arte contemporânea!”

Instalado num espaço generoso e agradável no centro da cidade, o museu oferece experiências simples, diversificadas e muito convidativas.

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As crianças podem começar a visita com um pouco de atividade física, explorando uma incrível estrutura bonita e desafiadora.

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Podem passear nos caminhões com diferentes formatos de caçamba, percorrer caminhos desenhados para serem ruas, e podem também parar na “oficina” e explorar o “motor”, trocar peças e tentar entender o funcionamento daquela máquina tão especial.

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Ou, ainda, podem simplesmente desenhar, recortar, pintar livremente na companhia de seus pais e irmãos. Se estiverem sem ideias, há como aprender a fazer umas borboletas num molde simples e engenhoso para compor, depois, um painel colorido. Há um cantinho especial para as crianças deixarem registradas, em pequenos caderninhos, suas memórias desse dia divertido, escrevendo, desenhando ou ambos.

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Além disso, o museu proporciona as experiências mais comuns e divertidas da infância, de modo inusitado e empolgante, como as bolinhas de sabão em plataformas generosas e potentes, e as histórias que podem ser ouvidas num espaço especialmente desenhado para isso, no qual as crianças são convidadas a descansar e ler um livro.

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Os espaços para o “faz de conta” agradam a todos, como a casinha, os blocos para construção, as fantasias, a pia de cozinha gigante, e muitas outras propostas.

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Oferecem oficinas dirigidas, como o “cuidado com as galinhas”, a produção de papel, e a oficina de jardinagem no espaço externo.

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E, como se não bastasse, há os cursos de verão para diferentes idades. Os pais podem alugar o espaço para a realização de festas de aniversário e, se preferirem, durante o passeio, há uma lanchonete muito especial para as refeições.

Mas a exploração das diversas linguagens e áreas não para por aí. Há muitas outras propostas interativas, e o que mais me emocionou foi ver esse pequeno ser explorando o som e o eco.

O Museu tem dois estandes de venda de brinquedos alternativos, bem discretos e com poucas opções. De fato, o consumo não é a tônica desse museu.

Fiquei encantada e quis compartilhar com todos essas ideias fáceis de serem reproduzidas, recriadas, adaptadas. Com certeza, temos propostas de espaços interessantes em nossa cidade, em nosso país, mas elas são poucas e não atendem à demanda.

Bom seria se voltássemos a discutir o potencial da cidade para contribuir com a educação das nossas crianças. Fica o convite à reflexão.

Olá, eu me chamo Scott. Eu sou britânico e vou contar uma história…

9_04_2014

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Por Vicente Régis e Luisa Furman

Com essa frase, um aluno do nosso 3o ano do F1 começou o seu texto para o II Concurso Literário, uma das atividades que constituíram a II edição da Vila Literária, evento que, em 2013, levou mais de 1.300 pessoas da nossa comunidade à Unidade Morumbi para celebrar a literatura e a poesia.

Frases como essas, carregadas de sentido e expectativa, costuram os mais de oitenta textos entregues para esta edição do concurso, que foram agora reunidos em uma publicação virtual para não perdermos os resultados que a criatividade de crianças entre 8 e 11 anos de idade pode alcançar. Tomo a liberdade de transcrever um parágrafo escrito por um aluno do nosso 2o ano do F1:

O bruxo Salbiromago Rago, conhecido como (“Rago”), é bem narigudo. Usa roupa preta e chapéu pontudo roxo. A pele é verde. É tão feio que parece um monstro, tem uma voz que muda de som a cada 4 segundos. Quando criança, os amigos zoavam dele, e ele comeu o melhor amigo e gostou! Comeu o periquito, os pais, a irmã e os amigos. 

Nesta publicação você poderá entender como a Onça-Pintada foi pintada. Vai conhecer Otávio, que mudou para Birilonga para estudar na escola ShooaStanFerger. Poderá conhecer a bruxa Escremilda, ler a história de um ferreiro que afiou a foice da morte, e descobrir a história de dois dragões gêmeos, e muitas outras narrativas ambientadas sobre as propostas de criação literária do concurso.

Vale lembrar que a premiação do concurso, além de kits culturais com livros que nossos pequenos com certeza apreciaram, contou com o Grupo de Teatro do Ensino Médio encenando alguns dos textos escritos pelos alunos. Além de um coral de alunos dos 5os cantando as músicas que serviram de mote para a categoria “História Baseada em uma Canção do Rock”, dos 4os e 5os anos.

É preciso também contar que a II Vila Literária foi um evento que congregou uma série de ações além do concurso literário. Tivemos várias oficinas, intervenções poéticas, homenagem a Tatiana Belinky com um coral formado por alunos dos 2os anos e suas professoras. Recebemos convidados como Paulo Netho, Salatiel Silva, Giba Pedrosa, Paulo Federal, Leandro Medina e Cristiano Meirelles. E, para o encerramento, contamos com a banda Gangorra. Confira as fotos e o vídeo.

A imaginação das crianças é um presente incrível! Poder dar forma a isso, com as ferramentas proporcionadas pela escrita, é uma possibilidade que só tem a contribuir para a formação dos nossos alunos.

Para além da lição de casa

07_07_2014
Desenho de Luana Monteiro, 5º ano B

 

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Por Cláudia Tenório Cavalcanti

 “Mãe, não consigo resolver esse problema de matemática. Olha isso, que absurdo de lição! Impossível resolver.”

Esse e outros comentários semelhantes aparecem quando estamos em casa e acompanhamos a lição de nossos filhos. Basta uma formulação de questão diferente da habitual, uma orientação mais detalhada para que aconteçam reações desse tipo, até mesmo vindas das crianças mais competentes e implicadas com as tarefas da escola.

Recentemente vivi uma dessas situações, em que a lição era para os alunos de 5º ano solucionarem o seguinte problema:

Uma loja deve R$ 60,00 a um fornecedor. Por sua vez, tem R$ 45,00 para receber de seus clientes. Qual o balanço entre o que recebe e as dívidas? 

Enquanto minha filha reclamava com argumentos do tipo: “Como alguém pode perguntar qual o balanço em um problema de matemática? Isso é um absurdo! Não sei resolver! Não sei nada de matemática”, eu me desesperava para explicar a ela o que era pedido usando outras situações semelhantes, com os mesmos dados do problema (60 e 45). Para minha surpresa, a braveza daquele pequeno ser de apenas nove anos de idade extrapolou da professora para a escola, e para minha incompetência como mãe. Para ela, minha explicação mais atrapalhava do que ajudava, e um problema que ela resolveria num piscar de olhos consumiu aproximadamente 45 minutos de nossa manhã. E, o pior, foi o meu sentimento de impotência. Saí da história como se não soubesse resolver o problema e explicá-lo de forma clara e compreensível.

Segui para o trabalho pensando sobre o ocorrido, me afastei da situação e pude olhar para além do problema de matemática e ver a lição de casa como um espaço de convivência, de relação mãe e filha, neste caso. Espaço que me revelou os medos que ela tem de enfrentar o novo. O quanto é difícil para uma pessoa de nove anos lidar com o imprevisto, o que está fora do esperado.

Eu teria ajudado mais minha filha se, desde o início, tivesse conseguido entender o que estava acontecendo para além da lição de casa. Mas embarquei diretamente no problema, como se a tarefa fosse minha. Resolvi o problema mentalmente e, assumindo o papel de sua professora, me pus a ensiná-la.

Depois de, como mãe, ter ajudado a tornar a lição de casa um verdadeiro problema, concluo, o que já sei como orientadora, que o melhor encaminhamento é o que torna a criança responsável por sua tarefa. Pedir que leia o problema, perguntar qual é a dúvida, questionar se a criança já resolveu algo parecido, fazê-la tentar lembrar-se da explicação da professora… e só. Preservar o espaço de convivência da família mostrando a ela que tem muitos recursos para lidar com situações como essa. E, se nada disso adiantar, a lição voltará para a escola resolvida do seu melhor jeito ou com a anotação de dúvidas para que a professora possa olhar para os saberes matemáticos dela. Aos pais, nesse momento, restará a filha com seus medos, receios, desejos, e uma baita vontade de “lutar” contra eles.

A lição de casa não deixará de ser espaço de confronto, mas essas ideias confortam, porque dão a dimensão do quanto cada pai ou mãe pode ajudar no crescimento de seus filhos, e deixar a tarefa de ensinar os conteúdos da escola a cargo de sua professora.

O desafio de comunicar o trabalho que realizamos…


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Por Fernanda Flores e Vania Marincek

Só mesmo estando dentro da sala de aula é que se pode ter noção da riqueza de acontecimentos simultâneos que ali transcorrem. São muitas e diversas as situações de aprendizagem: aquelas que envolvem os conteúdos específicos das áreas de conhecimento, procedimentos, fazeres, aprendizagens que se dão nas próprias situações de convívio, e outras mais. Por isso, é um desafio levar ao conhecimento dos pais o processo de desenvolvimento de seus filhos em suas respectivas turmas.

Com a intenção de promover uma comunicação mais interessante sobre nosso trabalho, criamos um novo canal, um site para cada série, divulgado exclusivamente aos pais de cada turma da Educação Infantil e do Fundamental 1.

E, para deixar um gostinho de quero mais a nossos leitores de blog, compartilhamos um vídeo de apresentação do trabalho de ARTE realizado em nossos 5ºs anos, pela professora Karen Greif Amar.

Se já é de nossa comunidade, aproveite para conhecer mais detalhes no site da turma de seu filho ou filha!

Eu desisto! Não consigo aprender isso! E agora?

Blank Pad of Paper, Eraser and Broken Pencil

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Por Susane Lancman Sarfatti

Toda semana nos deparamos com desabafos, mais ou menos emotivos, por parte dos alunos que nos dizem: “Eu desisto: Matemática não é para mim.”, “Eu não consigo aprender Inglês!”, “Eu não nasci para estudar História…”.

Alguns alunos nos contam isso de forma serena e racional, já outros se mostram desesperados diante do desafio de aprender algo que parece impossível. Como costumamos reagir nessas situações?

Claro que a nossa reação depende muito do interlocutor que temos à nossa frente, de sua idade, do grau de desespero, da série que cursa, de seu momento de vida. Mas, há alguns princípios que norteiam nossa conversa. São eles:

• O ensino e a aprendizagem são ações diferentes: Parece óbvio, mas, na prática, há quem ache que basta alguém ensinar para o outro aprender. Pode haver ensino sem aprendizagem, como pode haver aprendizagem sem ensino. Portanto, é preciso checar se o motivo do desespero está relacionado com o ensino ou com a aprendizagem. Caso seja no ensino, é preciso agir com o professor, discutindo os planos de aula, os conteúdos… Mas, se a questão estiver na aprendizagem, é preciso conversar com o aluno sobre o que significa aprender e analisar a forma em que se dá o processo de aprendizagem daquele aluno em particular, nas diferentes áreas do conhecimento.

• A aprendizagem depende do estabelecimento de relações: Alguns alunos acham que para aprender basta ficar quieto em classe e ouvir bem o que o professor diz: “Eu fico bem quietinho e as coisas não entram na minha cabeça”, dizem alguns. Cá entre nós, a posição de “vaso que recebe flores” não leva à aprendizagem. Para aprender, é necessária a participação ativa do aluno, relacionando o que já sabe sobre determinado assunto a novos conhecimentos.

• Os limites de cada um não são pré-determinados: Como educadores, precisamos ser sempre otimistas e acreditar que a criança ou jovem pode mais. Não se trata de um otimismo cego: é preciso, mesmo diante dos problemas, manter a convicção de que podem avançar, pois não há como ser determinista nesse assunto.

• As dificuldades não têm causa hereditária ou congênita: Reverter a ideia do aluno que acha que sua dificuldade se deve a uma causa hereditária (“meu pai também tem a mesma dificuldade”) ou causa congênita (“desde que nasci sou assim”), o que pode ser chamado “Síndrome da Gabriela”, “Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo sim. Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela…”.

• O estudo é fundamental para aprender: Discutir com os alunos o significado do que é estudar para aprofundar algumas ideias errôneas:

“estudar tem de ser prazeroso”, quando na verdade estudar dói, requer esforço, e o prazer se dá como consequência da aprendizagem.
“estudar é repetir muitas vezes o exercício”, quando sabemos que a repetição sem reflexão não leva à aprendizagem.
“estudar é ficar muito tempo com os livros na mão”, quando pode significar perda de tempo, e não concentração.

É importante que os alunos se responsabilizem pela própria aprendizagem, não deleguem todo o ônus, nem o bônus, aos professores ou pais. Afinal, a aprendizagem depende dos diversos atores: professores, gestores, pais e, é claro, dos alunos. Para nós, educadores, sabemos que nos cabe boa parte desse processo.

Como vocês lidam com o desespero das crianças e dos jovens nos momentos “Eu desisto!”?

Como instigar a perseverança dos alunos na resolução de problemas matemáticos?

Sobre instigar a perseverança na resolução de problemas, individual e coletivamente.

28_03_2014

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Por Gislaine Carvalho Rasi

” O que me incentiva a resolver um problema é vencer um desafio, se sentir um pouco superior a que você acha de sua capacidade.” ( aluno 7º ano)

“ …acho essencial as discussões feitas em sala, pois temos a liberdade de tirarmos nossas dúvidas e vemos muitos jeitos de responder um único problema, podendo escolher o jeito que temos mais facilidade, não se prendendo a uma única opção que muitas vezes a gente não entende.” ( aluno 9º ano)

“ …para ter perseverança para resolver um problema matemático, é saber que você consegue ou, pelo menos, acreditar… O mais importante é não só decorar os processos para resolver o problema, mas também entendê-los e ver lógica por detrás deles, pois assim é mais fácil de lembrar como se faz.” ( aluno 9º ano)

Muitos devem estar se perguntando: como fomentar a perseverança dos alunos na aula de matemática? Como cálculos, fórmulas e teorias… podem desafiar e encantar os alunos?

Poucos de nós, adultos, vivenciamos nas aulas de matemática um trabalho semelhante ao dos matemáticos, o FAZER MATEMÁTICO. O importante, na maioria das vezes, era apenas chegar ao resultado correto mediante o uso de técnicas e fórmulas apresentadas previamente pelo professor.

Sabemos que para os matemáticos a história não é bem assim…

Fazer matemática é mais do que chegar ao resultado correto. É formular problemas, investigar e explorar diferentes possibilidades, criar modelos e planejar percursos, antecipar e estimar resultados, olhar diferentes pontos de vista, lidar com acertos e erros, saber registrar e comunicar o raciocínio para o confronto das ideias.

Preservar o sentido dos saberes nas aulas de matemática, ou seja, possibilitar aos alunos um contato com esse modo de produzir conhecimento sem desvirtuar suas características pressupõe conceber a atividade matemática como uma atividade de produção, e não simplesmente como reprodução de algo elaborado integralmente por outro. Esse é um dos princípios do nosso trabalho.

Mas como essas condições podem favorecer uma mudança de atitude do aluno perante a resolução de um problema? Como podemos tornar o nosso aluno mais perseverante?

Durante uma sequência de estudo, os alunos resolvem vários problemas, sozinhos ou em pares, com diferentes níveis de complexidade. Apresentam estratégias, discutem ideias e são incentivados a ir além do resultado, já que os diferentes percursos para atingi-los também são objeto das discussões.

Tais condições didáticas favorecem, do nosso ponto de vista, o desenvolvimento de uma atitude positiva do aluno diante dos problemas, pois criam e compartilham um repertório de “saberes” individuais e coletivos que podem ser acessados durante a resolução e possibilitam uma interação mais profunda com a situação. Contribuem para uma maior reflexão, um maior debate e uma maior ampliação dos conceitos. Promovem atitudes de confiança e outras colaborativas com os pares. E ajudam o aluno a construir um projeto maior de estudo, rompendo com a ideia de que fazer matemática é para poucos.

Entender a resolução de um problema como uma atividade de produção matemática que demanda perseverança e esforço intelectual recupera na aula o papel dos alunos como produtores.

Respeito aos ritmos e processos diferentes na diversidade de sala de aula.

26_03_2014

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Por Fernanda Flores

Quando temos a oportunidade de debater entre educadores pressupostos do ensino construtivista, o princípio de respeito aos ritmos e processos diferentes na diversidade de sala de aula costuma ser considerado facilmente articulado com a prática quanto menores são as crianças, pois se reconhece que ajustar as intervenções e propostas ao tempo e estilo de cada um é bastante mais possível quando há expectativas de aprendizagem mais abrangentes e menos influenciadas por parâmetros previamente definidos.

Olhando para a Educação Infantil, será que essas considerações não podem gerar uma falsa ideia de que respeitar ritmos significa não intervir, não instigar? Que deixar que cada um tenha seu próprio tempo signifique apartar crianças da experiência que marca estar em grupo, com a demanda de se corresponsabilizar (cada qual à sua maneira) pelo trabalho coletivo? E o papel da escola para que todos se sintam desafiados e possam compartilhar experiências, mesmo que de formas distintas? Assim, escolhi uma cena trivial de crianças de 5 anos que rompem com uma expectativa do grupo para analisar intervenções que respeitam ritmos e processos considerando a possibilidade de todos se comprometerem de alguma maneira com o trabalho comum.

Costumeiramente, ao término do intervalo que denominamos “Parque”, os professores chamam as crianças para organizar os brinquedos uns 5 minutos antes do fim. Os mais crescidos do pedaço (nosso G3 – 5 anos), em sua maioria, têm bastante autonomia nessa situação, não precisam tanto da ajuda dos adultos para iniciar a arrumação e costumam realizá-la de forma prazerosa, mostrando o quanto já são crescidos.

Porém, ano sim e ano também, algumas crianças precisam mais da ajuda de seu professor, pois lhes custa antecipar o término de uma brincadeira e perceber que uma mudança de proposta se aproxima. Nesse caso, o que cabe ao professor: ajudar individualmente toda vez? Deixar cada um chegar à proposta seguinte a seu próprio tempo? Pedir que outros adultos da escola pilotem o tempo dos que se demoram mais? Enfim, questões pertinentes mesmo na simplicidade da situação, pois tratam de provocar-nos a pensar que lugar queremos que ocupem nos grupos todos nossos alunos. Segue uma transcrição de um diálogo de uma turma que teve algumas crianças que não voltaram para a sala a tempo de começar uma roda de história:

Professora: Crianças, o que aconteceu? Vocês viram o quanto demoraram? Grupo 3, os colegas vão nos explicar por que chegaram atrasados para a roda de história…

Crianças (1 e 2): A gente não organizou o parque na hora, ficamos brincando… A gente não viu que acabou.

Professora: Pessoal, o que vocês acham sobre o que aconteceu?

Criança 3: Ruim, eles demoraram muito.

Criança 4: Assim eles não podem mais ouvir a história, já começou um pouquinho.

Professora: Sentem por aqui… Por que será que é ruim quando algumas crianças demoram?

Crianças: Porque perde as coisas… Fica sem saber o que vai fazer.

Professora: É verdade, eles perdem coisas que faremos, mas e para o grupo? O que vocês perderam com o fato deles terem se atrasado?

Criança 3: A gente perdeu a companhia delas…. A roda ficou apertada.

Professora: Pois é, a gente perdeu um bom comentário que a criança 1 poderia ter feito, perdemos as boas ideias que a criança 2 sempre dá nas conversas…

Criança 5: É chato quando os amigos faltam.

Professora: É mesmo, não são só as crianças que ficam de fora que perdem coisa bacanas, o grupo também perde muito. Como a gente pode fazer para que o grupo esteja sempre junto? Para que nenhuma criança mais se atrase e fique de fora de coisas que todos fazemos juntos, como a roda de história?

Criança 5: A gente pode chamar os amigos na hora de organizar…

Criança 6: É, a gente pode lembrar os amigos se eles esquecem…

Professora: Boa ideia, vocês já estão crescidos e não precisam só das professoras para lembrar o que devem fazer… A ideia de chamar os amigos é uma boa proposta… Porque, se uma criança se atrasa, é ruim para todo o grupo…

Criança 6: A gente tem que ficar junto sempre, né?

Criança 7: Senão, cada um vai fazer uma coisa: um vai pra roda, uma para a biblioteca, um para aula de música… E a gente nem se vê…

Criança 1: Eu vou chamar o amigo (referindo-se ao colega 2), ele esquece muito de parar de brincar no parque.

Singelamente, estão a pensar como podem apoiar colegas que se dispersam, que demoram mais, considerando a falta que cada um faz para que as pequenas experiências cotidianas que vivem na escola possam constituí-los como quem considera o valor da presença do outro, pois, mesmo quando o outro age de um jeito próprio, ele é esperado, o grupo é todos.

Ao ajudar uns aos outros, falam para si mesmos dos valores e expectativas que se tem quando se está na escola, aprendendo dentro de um grupo.