“Mas TODOS os meus amigos conversam pelo Face…”

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Por Fernanda Flores

Cada vez mais precocemente, acompanhamos crianças de 10 anos que, para além do convívio na escola, interagem frequentemente via skype, messenger, whatsapp, enfim, “batem papo” e trocam experiências para além dos muros da escola mediados por uma interface, por um aparelho eletrônico.

Percebemos que, geralmente, o convívio nesses ambientes, muito diferente do que acontece na escola, raramente conta com a mediação de adultos, e, mais que isso, não está condicionado pelo olhar do outro e por suas reações não verbais.

Observamos que as crianças trazem para o nosso ambiente, em suas falas sobre problemas decorrentes de conversas virtuais, a falsa sensação de que aquilo que escrevem uns para os outros não está submetido às mesmas convenções sociais sob as quais pautamos as relações mediadas pelo “olho no olho” que vivem na escola.

Além disso, muitos são convictos de que suas senhas “pessoais” ou a distância física pertinente à situação protegem-nos de qualquer coisa, seja dos pais saberem sobre o quê conversam e como se tratam, ou de poderem excluir ou ser pouco cuidadosos com algum colega quando conversam em grupos fechados, pois, assim, acham que nunca ninguém descobrirá.

Ora, conhecendo o desenvolvimento moral nessa faixa etária, percebemos o quanto estão a construir recursos e instrumentos para lidar com as consequências das escolhas e das posturas adotadas no silêncio de seus quartos, além da pouca possibilidade dada pela idade, de anteciparem decorrências de algumas de suas ações.

Assim, reforçamos aqui duas ideias para reflexão:

1. Como crianças que são, precisam da supervisão da família, com limites claros quanto aos usos desses ambientes, com franca conversa acerca de direitos e deveres, responsabilidades compartilhadas com os adultos sobre como usam e pautam suas conversas na rede, exclusivamente, com pessoas conhecidas.

2. Família e escola precisam abordar esse tema e suas consequências na vida das crianças. À escola, cabe propor contextos e análises que ajudem a considerar válidos, em qualquer ambiente no qual convivam, os princípios de respeito mútuo e de solidariedade, além de valorizarem o diálogo como principal ferramenta para se esclarecer desentendimentos e diferenças.

Indicamos aqui algumas leituras que podem ser úteis para refletir sobre desafios da educação de filhos e filhas aos 10, 11, 12 anos..:

Limites: três dimensões educacionais. Yves de La Taille. Editora Ática.

Ética Para Meus Pais. Yves de La Taille. Editora Papirus.

Ética Para Meu Filho. Fernando Savatér. Editora Martins Fontes.

Novos Desafios Da Convivência: desatando os nós da trama familiar. Lydia Rosemberg Aratangy. Editora Rideel

“É extremamente triste estar sozinho quando se encontra a beleza.”

Bartolomeu Campos de Queirós, conferência durante o Simpósio do Livro Infantil e Juvenil, Colômbia-Brasil, Bogotá, 7-9/10/2007

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09_05_2014

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Por Aline Evangelista Martins*

A declaração de Bartolomeu Campos de Queirós, título deste post, é um dos motes do trabalho com leitura compartilhada na Escola da Vila. Quem já esteve numa sala de aula repleta de jovens extasiados diante de um poema, um conto ou um trecho de romance sabe o quanto é tocante presenciar o encontro com a beleza e o natural desejo de compartilhar o estranhamento, a emoção, enfim, a experiência estética.

Esse impulso de buscar o outro para falar sobre o que é impactante evidencia-se em muitas outras situações do nosso dia a dia na escola: no burburinho da sala dos professores, não faltam relatos de momentos interessantes das aulas, comentários sobre produções, discussões sobre o que os alunos falaram, o que pensaram, o que fizeram. É difícil estar sozinho quando tantas coisas interessantes acontecem. E é muito bom encontrar os colegas para falar sobre tudo isso. Quem já esteve numa sala dos professores repleta de ideias, análises, inquietações e deslumbramentos sabe do que estou falando…

A busca por alguém com quem dividir o impacto é também muito recorrente nos momentos de correção e de análise da produção dos alunos. É bem rotineiro observar, na biblioteca, na sala dos professores e em outros espaços de trabalho da escola, docentes que rompem o silêncio e a solidão do trabalho avaliativo para comentar com colegas uma frase, um parágrafo, um texto inteiro: “Veja o que esse aluno escreveu!”. “Desculpe, vejo que você está ocupada agora, mas queria só te mostrar essas respostas que foram dadas para a questão 2 da prova!”. Quem já se esmerou em preparar o plano de um curso, elaborar uma prova para avaliar as aprendizagens e, por fim, analisar as respostas dos alunos, sabe o quanto a avaliação pode ser mobilizadora.

Avaliar é, antes de tudo, buscar  informação. Avaliamos porque precisamos nos informar sobre a concretização do planejamento. Para tanto, é essencial  saber como cada um dos nossos alunos pensa, posiciona-se e produz a partir daquilo que aconteceu nas aulas. A análise dessa informação determina os rumos das etapas seguintes, afinal, a partir dela, são feitos os ajustes no plano inicial. Por outro lado, a avaliação dá ao aluno um retorno sobre o seu desempenho em relação às expectativas de aprendizagem e possibilita a autorregulação, ou seja “a capacidade de exercer controle sobre as suas atividades e, em particular, as suas aprendizagens” (Hadji, 2011, p. 45).

Pode parecer estranho começar uma reflexão sobre avaliação comentando o encontro com a beleza. Mas o nosso cotidiano na escola evidencia que as duas esferas estão muito próximas. No momento da avaliação, vemos a concretização do nosso currículo, o resultado das nossas intervenções, a aprendizagem dos nossos alunos, aquilo que eles constroem, por onde caminham, que questões formulam, que dúvidas têm, que erros cometem. Dúvidas, reflexões, perguntas, formulações, erros: tudo isso é construção de conhecimento. Quem já se dedicou à tarefa de avaliar sabe que encontrar nos instrumentos da avaliação a voz daquele que aprende é, sim, muito bonito. Por isso não resistimos ao desejo de compartilhar.


HADJI, Charles. Ajudar os alunos a fazer a autorregulação da sua aprendizagem: por quê? Como? Pinhais: Editora Melo, 2011.

(*) Aline é coordenadora da área de LPL e responsável por vários cursos, presenciais e online,  oferecidos nas programações do Centro de Formação da Escola da Vila, entre os quais “Avaliação da produção escrita: desafios e possibilidades”.

Mentalidade de aprendizagem, academic mindset ou a nossa velha e boa postura de estudante!

Por Sonia Barreira

Uma das ideias mais interessantes que entramos em contato e vimos utilizada nas muitas escolas que visitamos na Califórnia, entre tantas outras, é algo um pouco difícil de ser traduzido para o português:  academic mindset.  Esse conceito já me intrigava antes de sair do Brasil, quando comecei a conhecer o material utilizado na metodologia PBL (Project Based Learning) e Deep Learning.

Foi na High Tech High que tivemos a primeira boa explicação, que nos foi dada por um animado professor de inglês e humanidades, sobre as pesquisas na área educacional que dão suporte a esse princípio pedagógico. Mas, o que mais me ajudou a compreender o conceito foi o contato direto com os alunos em situações variadas de aprendizagem. Tentarei me explicar.

Academic mindset seria, grosso modo, a percepção sobre a capacidade para aprender, que um indivíduo tem de si mesmo, a qual se traduz, se concretiza, numa disposição efetiva para o aprendizado em diferentes situações escolares.

 
Aluna apresenta, para um grupo de professores brasileiros, um projeto desenvolvido nas áreas de Ciências. Neste projeto eles criam super heróis que explicitam conceitos da física e elaboram uma história em quadrinhos para a finalização do trabalho.

Um dos princípios do movimento deep learning orquestrado por várias escolas e organizações educacionais, atualmente, nos Estados Unidos, é levar o aluno a construir essa percepção positiva, ou seja, as atividades e propostas são desenhadas para favorecer o processo de aprendizagem, mas devem ser feitas de tal forma que gerem, além da aprendizagem em si, uma forte disposição para aprender.

Imediatamente relacionei essa ideia geral àquilo que costumamos chamar de disponibilidade para a aprendizagem ou, de modo mais frequente, “a postura de estudante”. Na Vila, sempre nos preocupamos com a construção dessa postura, mas muito mais no sentido de um novo papel social, assumido progressivamente pelo estudante, do que propriamente como uma disposição interna.

 
Alunos de quinto ano explicam o projeto do qual estão participando e discutem qual é o maior desafio que têm para enfrentar neste momento de sua produção. Clareza dos propósitos, identificação do esforço necessário.

O professor nos explicou que essa percepção comporta quatro aspectos, todos fundamentais para o sucesso do aluno na escola – e isso está bastante comprovado em inúmeras pesquisas e estudos que partem da identificação dessas características nos variados grupos de alunos.

A primeira condição é a percepção de fazer parte de uma comunidade de aprendizagem. Mais do que uma obrigação ou uma rotina, o estudante deveria construir um sentido de pertencimento a um grupo cujo propósito comum é aprender. Para tanto, o aluno precisa ter uma ideia bastante clara do que fazem seus pares e por que o fazem. Ele deve conhecer o repertório institucional e saber explicar a razão pela qual são levados a esta ou aquela atividade. Em função disso, a cultura da escola deve ser bastante evidente, sustentada por um discurso compartilhado e reiterado.

A segunda condição é a percepção da capacidade pessoal de enfrentar a tarefa proposta. Isso tem a ver com o tamanho do desafio proposto aos alunos, se frequentemente mais alto do que podem enfrentar, constroem uma relação de distanciamento e superficialidade. Quando propósito e sentido das atividades são compartilhados, o aluno pode entender seu papel no processo e engajar-se de modo efetivo, tomando a responsabilidade da tarefa para si.

A terceira condição relaciona-se com a convicção de que o esforço empreendido nas situações vividas é responsável pelo desenvolvimento de competências. O aluno constrói, ao longo de sua experiência escolar, a percepção de que, quando a tarefa é fácil demais, e ele a realiza sem esforço nenhum, não há avanço ou desenvolvimento de suas capacidades, e que o esforço para aprender faz parte do processo de aprendizagem. Esse aspecto é extremamente reforçado e trabalhado, mas não por meio de ameaças ou competições extremadas; há uma busca pela conscientização do aluno desde cedo.

E, por fim, a última condição é a atribuição de valor ao que se está aprendendo ou construindo. Os alunos se orgulham de seus produtos e projetos, acham que eles têm importância e valor, além de ajudá-los a aprender. Não convivem todo o tempo com a ideia de que devem aprender para usar, num futuro distante. Ao contrário, empenham-se, porque desejam que o produto de seu trabalho seja visto por todos.

 
Alunos do Ensino Médio se apresentam para o grupo de visitantes, contam em que estão trabalhando e, em seguida, monitoram a visita mostrando todas as instalações e explicando com propriedade todos os projetos que estão sendo desenvolvidos em cada turma!

Esses quatro elementos formam o academic mindset e todos eles devem ser trabalhados nas situações escolares, uma vez que são crenças e valores que podem ser construídos e desenvolvidos na vida escolar. O que vimos nas escolas que visitamos na Califórnia foi um conjunto de ações intencionalmente concretizadas, voltadas para a construção desta percepção. A forma de abordagem dos conteúdos, questão norteadora, (need to know/necessidade de saber), a centralidade do aluno no processo de aprendizagem (voz, escolha, pesquisa), e o papel do professor (mediador, mentor, consultor) têm todos um papel importante no favorecimento da construção do mindset. Mas é a cultura escolar, invisível e intangível, que parece contribuir de modo mais efetivo para esta construção.

O tempo da arte

5_05_2014

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Por Karen Greif Amar

Imagine você estar frente a imagens que reproduzam obras de um artista e seu desafio, nesse momento, é organizá-las de forma que apresentem, em ordem cronológica, a trajetória desse mesmo artista mostrando as transformações ocorridas ao longo de seu percurso. O que levaria em conta para realizar essa tarefa?

As hipóteses levantadas pelos alunos na hora em que precisam se posicionar quanto ao desafio lançado não se distanciam de sua experiência desenhista, já que o que possuem de mais concreto para guiá-los nessa tarefa é o próprio percurso enquanto estudante.

 “Eu acho que ele foi do mais fácil e foi indo para o mais difícil, que nem essas pinturas”.

Na fala de um aluno, a hipótese que relata essa trajetória – o artista parte das formas simples, geométricas e mais fáceis de fazer para depois, bem velhinho e muito craque, pintar paisagens cheias de detalhes.  Aqui encontramos em jogo dois processos de percursos diferentes entrando em contato, ambos relacionados com o tempo. O processo cognitivo do aluno que se desenvolve na infância ainda recente na memória, que é utilizado como referência, e o processo criativo do artista, desenvolvido ao longo de seu trabalho. Que estratégias utilizamos na escola para que o aluno disponha de elementos para compreender o próprio tempo e o tempo do outro?

O artista brasileiro Alfredo Volpi tem sua obra como ponto de partida para que alunos do 3º ano investiguem o tempo tendo como eixo norteador a trajetória de um artista. Tenho certeza de que os alunos iniciam assim, um olhar diferenciado e único sobre os percursos pessoais de trabalho em arte – dos artistas e deles mesmos – e esse momento dispara um olhar investigativo que os acompanha ao longo do estudo em arte na escola. Por ter um caminho muito claro em suas diferentes fases, Volpi tem o poder de encantar os alunos dessa série a ponto deles se questionarem sobre os aspectos que permeiam as investigações, as escolhas e as pesquisas de um artista.

Por que ele pintava dessa forma quando já estava bem velhinho? Por que escolheu produzir seu próprio material de trabalho? Por que Volpi começou pintando paisagens e terminou na abstração? Por que pesquisar a trajetória de um artista é importante?

O tempo de um percurso carrega com ele aspectos distintos que são insubstituíveis. Toda e qualquer referência, escolha e ação, diretamente influencia o caminho percorrido por um artista. No caso do Volpi, isso fica muito claro para os alunos na medida em que pesquisam como seu trabalho se transformou. A escolha por usar uma tinta produzida por ele mesmo, a maneira como ele se envolveu com as cores e as formas, tornando-as os elementos principais de sua pesquisa, são aspectos importantes desse estudo.

Através do trabalho, os alunos resgatam o seu próprio percurso desenhista, e, por esse motivo, compreender como Volpi partiu da figuração para a abstração, que é o caminho contrário dos alunos até então em suas produções, é uma surpresa. Mas não é somente nesse momento da escolaridade que se deparam com a possibilidade de refletir sobre a própria produção. Com o intuito de desenvolver um percurso de criação em arte, ao longo da escolaridade são muitos os momentos em que eles desenvolvem um trabalho no ateliê. Nesses momentos. o que está em jogo é a capacidade de investigar e dar forma, utilizando os diferentes materiais da oficina, às próprias ideias, vontades, inquietações, questões pessoais, desejos e curiosidades. Ter e entrar em contato com o seu próprio tempo.

Nesses momentos, é interessante perceber os diferentes interesses dos alunos! Diante de um ateliê coletivo, que ferve com produções tão particulares ocorrendo simultaneamente, é claro que a vontade de misturar materiais, investir em um procedimento de que se gosta muito, experimentar fazer algo que o colega está fazendo, traz uma convivência em harmonia com dúvidas, incertezas e tentativas de algo que não se sabe ainda muito bem o que é.

Chego aqui novamente no aspecto que parece dar forma a todos os outros que envolvem o fazer artístico – o tempo. E com o tempo pode-se ganhar e aprender mais sobre si, sobre o outro, sobre as transformações – na arte, na produção e no que permanece.

Projeto Vila Ativa 2014

30_04_2014

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Por Rogê Carnaval

Entrei para o Vila Ativa, pois tinha interesse em saber como funciona o transporte
público na cidade. Então, decidi participar das discussões e aprofundar meus
conhecimentos sobre esse tema.
Victoria Souza, aluna do 8º ano

Em 2014, o antigo Projeto Social, que há muitos anos vem sendo desenvolvido com os 8ºs e 9ºs anos do Ensino Fundamental 2 foi reformulado, dando origem ao “Projeto Vila Ativa”.

A proposta do “Vila Ativa” é aliar pesquisa e ação. Esse é um grupo que aprofunda o conteúdo do curso de Política e Sociedade (PS), trabalhado e discutido nos 8º e 9º anos: “Democracia”, “O ser político” e o lugar do jovem nesse contextoO tema escolhido para o 1º semestre de 2014 foi transporte público. Para aprofundarmos a investigação do tema, nas nossas reuniões semanais temos lido textos que ajudam nossos estudantes a compreender melhor a questão do financiamento do transporte público urbano nas cidades brasileiras.

Para entrar em contato mais direto e aprofundado com o tema de investigação, fizemos nossa primeira saída a campo, que relatamos a seguir.

No último dia 31 de março, o grupo que tem frequentado assiduamente as reuniões do “Vila Ativa” 2014 estava a postos, pronto para a missão do dia: ir de transporte coletivo até a sede da subprefeitura do Butantã.

Como preparação prévia, na reunião da semana anterior, confrontamos os mapas do Google Maps, com indicações do caminho mais curto entre a unidade Butantã da Escola da Vila e a sede da subprefeitura, com os trajetos indicados pelo site da SPTrans.

A SPTrans nos indicou um percurso que nos levaria da unidade Butantã até o Rio Pequeno, onde deveríamos saltar e apanhar outro ônibus até a sede da subprefeitura, localizada no bairro Peri-Peri. Optamos, no entanto, por outro trajeto, que conhecemos melhor: um ônibus até a estação Butantã do metrô, e outro que seguisse de lá até a subprefeitura, pela av. Eliseu de Almeida.

Contrariando as estatísticas (e as expectativas), atravessamos a av. Corifeu de Azevedo Marques, e um ônibus que nos levaria até nosso primeiro destino estava estacionado, com a rampa de acesso para deficientes acionada, e o motorista estava auxiliando uma cadeirante.

Rapidamente, chegamos ao nosso destino. Saltamos na altura do Supermercado Padrão, na av. Vital Brasil, e caminhamos até a rua Camargo, onde dobramos e seguimos caminhando até o local do ponto de ônibus daqueles coletivos que seguem pela Eliseu de Almeida.

Pedimos que reparassem que entramos em um ônibus menor (micro-ônibus), que não tinha cobrador. Por sinal, era dirigido por uma mulher, o que chamou a atenção do grupo. Detalhe: não esperamos nem 30 segundos pelo ônibus, que estacionou tão logo chegamos ao ponto. Realmente estávamos sortudos naquele dia!

O trajeto pela av. Eliseu de Almeida chamou a atenção do grupo pela rapidez (em menos de 10 minutos estávamos desembarcando próximo ao Makro). E, também, pela péssima condição do asfalto naquela avenida, que propiciou uma viagem desconfortável, excessivamente barulhenta, e com muito balanço.

A caminhada até a sede da subprefeitura não durou mais que 5 minutos.

Esclarecemos que aquele era um espaço em que muitos serviços aos cidadãos estavam à disposição, mas também era o lugar de trabalho de técnicos da Prefeitura, que não necessariamente fazem atendimento ao público. Propusemos um olhar rápido sobre os mapas e fotografias aéreas expostas logo na entrada da subprefeitura.

Em menos de 10 minutos no local, fomos abordados por um funcionário muito simpático, sem nenhuma identificação. Apresentamos a razão de estarmos ali. Ele se interessou pela nossa história, mas disse que estávamos no lugar errado! Se queríamos saber sobre política pública de transporte, deveríamos procurar a SMT (Secretaria Municipal de Transportes). Foi a um computador instalado na praça de atendimento e nos trouxe, anotado em um papel informal, o endereço da SMT: rua Boa Vista, 236.

Parabenizou o grupo pela realização do trabalho, e se despediu. O grupo o abordou novamente: “Mas e aquela plaquinha ‘SPTrans’ ali? Não é de transporte a SPTrans?”. O servidor público disse que sim, mas que ali só se emitia carteira do Bilhete Único Idoso, que garante a gratuidade aos maiores de sessenta anos de idade. Ele nos disse, então, que deveríamos ir até o guichê buscar informações sobre o que se realizava ali.

O grupo foi à fila, esperou a vez e perguntou a outro servidor público ali presente o que se fazia naquele guichê. A informação que nos foi passada pelo primeiro funcionário foi repetida. Perguntamos se ali não se fazia queixa ou sugestão sobre o transporte por ônibus em nosso bairro. “Não”, foi a resposta que obtivemos.

Nesse momento, o grupo pareceu esmorecer um tantinho. Fizemos, então, um convite: vamos conhecer melhor a subprefeitura, já que aqui estamos! Mostramos a sala da Defesa Civil e perguntamos se alguém sabia do que se tratava. Todos do grupo responderam negativamente. Explicamos brevemente. Subimos as escadas à procura de água potável, a fim de amenizar o efeito do forte calor que fazia no dia.

Como eu, Rogê, havia trabalhado na subprefeitura, tinha alguns conhecidos lá que me reconheceram. Foi quando perguntei a um deles se não havia ninguém que pudesse nos auxiliar nessa pesquisa dos alunos.

“Ah, você já foi na sala do ‘Desenvolvimento e Planejamento Urbano’? Procura a Solange!”

Para nossa surpresa, Solange também é mãe de aluno da Escola. Elogiou muito o projeto e a proposta. E recomendou que procurássemos Márcia Gregori, também mãe de aluno da Escola, que acaba de ser eleita para o Conselho Participativo, tendo como foco a discussão sobre mobilidade urbana.

Despedimo-nos das pessoas que nos atenderam muitíssimo bem e iniciamos o percurso de volta. Novamente foi fácil, mas não tanto quanto a ida. O grupo observou que na av. Eliseu de Almeida existem os ônibus intermunicipais, que custam mais. Em menos de 10 minutos apanhamos o ônibus com destino ao metrô. Sem trânsito, mais 10 minutos, e lá estávamos. Caminhamos até o Supermercado Padrão, onde apanhamos o quarto e último coletivo que nos deixou na esquina da avenida Corifeu de Azevedo Marques com a rua Barroso Neto.

Essa experiência será agora relatada pelo grupo aos demais estudantes de 8os e 9os anos, nas aulas semanais de PS.

Em breve, relataremos aqui mesmo, pelo blog, os próximos passos da jornada dos nossos estudantes, que certamente envolverá contatos com especialistas sobre o assunto, em busca de respostas ao tema da mobilidade urbana no nosso município.

Seguem depoimentos de alguns dos estudantes envolvidos no Projeto!

Eu entrei para o grupo do Vila Ativa pois as minhas amigas haviam falado que as
discussões eram interessantes, e porque eu gostaria de me aprofundar no assunto
discutido no grupo: o transporte. Essa discussão é bem atual e estão ocorrendo
diversas mudanças que dizem respeito a ela, então decidi entrar para o grupo e
entender mais sobre como funciona e se organiza o transporte em nossa cidade.
Nina Ayumi, aluna do 8º ano 

Uma das coisas que mais me chamou a atenção no nosso trajeto de ônibus da unidade
Butantã da Escola da Vila até a subprefeitura foi a duração do percurso [...]. E isso me
impressionou muito porque o mesmo trajeto que um trabalhador faz todo dia para chegar ao local de trabalho, de ônibus, levaria a metade do tempo se fosse percorrido por um transporte privado, ou seja, o carro.
Julianna Ochialini, aluna do 8º ano 

O que mais chamou minha atenção na nossa ida à subprefeitura foi o fato de que, quando nós estávamos indo para o ônibus, uma senhora incapacitada de andar, que estava na cadeira de rodas, não teve muitos problemas para subir no veículo, com o auxílio do motorista e de uma “máquina”. Ela subiu e não pagou o preço da passagem, por conta de sua incapacidade, o que eu acho muito importante, pois assim o governo influencia pessoas, mesmo que incapacitadas, a andarem de transporte público.
Luiza Barbosa, aluna do 8º ano

Tem uma criança que incomoda meu filho. O que vocês estão fazendo para “contê-la”?

Boy Playing

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Por Andrea Polo

É muito comum que pais e mães queiram propiciar a seus filhos um ambiente onde jamais sejam submetidos a qualquer tipo de incômodo. No entanto, mais cedo ou mais tarde, estes serão expostos a provocações e a questões impostas por diferentes maneiras de agir e de entender as relações interpessoais.

Se em muitas casas o diálogo sempre prevalece, e isso basta para orientar e organizar a “bagunça”, na casa do vizinho outras estratégias podem ser usadas, e, sem dúvida, as crianças trarão esse conhecimento para o espaço escolar. Muitas vivências encontram-se nesse ambiente educativo, e vale lembrar que tanto uma família quanto a outra escolheram o mesmo projeto pedagógico para seus filhos. Nesta escola, as diferenças são acolhidas, vividas e experimentadas diariamente e, a partir delas, o trabalho acontece de forma concreta.

Frequentemente, ouvimos as seguintes falas de crianças pequenas:

- “Meu pai falou para eu empurrar de volta se alguém me empurrar”.

- “Meu pai disse que se eu bater eu perco a razão e fico igual a quem me bateu”.

- “Minha mãe me disse que eu preciso avisar a professora antes da briga começar”.

- “Minha mãe falou que eu não posso me meter em confusão, de jeito nenhum”.

Em meio a opiniões divergentes e a questões que fazem as crianças pensarem não apenas sobre seu próprio ponto de vista, mas a partir de uma ótica que procura incluir o ponto de vista do outro, e tendo como ponto de partida o princípio do respeito mútuo, planejamos diversas abordagens para nossas ações: encorajar e fortalecer o grupo para tratar dos incômodos como algo que merece dedicação e tempo é uma das ações que favorece e responsabiliza cada criança.

Escolhemos o diálogo para tratar das regras de convivência como ponto de partida para toda e qualquer situação, sobretudo no fórum coletivo. As partes envolvidas têm o direito de falar enquanto os adultos encaminham o conflito demonstrando respeito pelos valores de cada um, demarcando limites claros. Os professores são reconhecidos como pessoas que possuem autoridade moral, capazes de negociações justas. A partir da observação de muitos exemplos de diálogo, em diferentes contextos, as crianças vão se instrumentalizando para atuar com crescente autonomia em situações semelhantes.

Para pensar e agir diante de pressupostos democráticos, é fundamental que o grupo seja o foco principal e ofereça elementos para que o indivíduo manifeste desagrado quando se sentir prejudicado. Dessa forma, os alunos que “incomodaram” atuando de forma inadequada podem perceber as consequências de suas ações atreladas ao conjunto de crianças que se opõem e não isoladamente.

Aprender a lidar com os próprios desejos e frustrações e entender que os desejos dos outros podem ser bem parecidos ou muito diferentes, controlar a própria raiva e saber falar sobre o que está sentindo é também aprender que, diante de uma provocação, a indignação é aceitável, reconhecendo o que não é permitido, como, por exemplo, os atos de agressão.

Despedida

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Por Sonia Barreira

Encerramos nesta quinta-feira pela manhã a viagem para a Califórnia, realizada pelo Centro de Formação da Escola da Vila, com um saldo mais do que positivo.

Nas próximas semanas trataremos de publicar aqui mais alguns textos refletindo sobre um ou outro aspecto da viagem (o próximo, como já anunciei, será sobre um conceito interessante que eles lá nomeiam como academic mindset). Realizaremos, também, reuniões internas para divulgar o que vimos nessas duas semanas, e uma reunião aberta, com o mesmo objetivo − a ser anunciada em breve − da qual poderão participar pais, alunos e colegas de outras escolas. Todos serão mais do que bem-vindos.

Da equipe da Escola da Vila participaram duas diretoras, uma coordenadora de tecnologia educacional, e três professores, um de cada segmento (F1, F2 e EM). Como sempre, a Escola da Vila utiliza as viagens promovidas pelo Centro de Formação para o desenvolvimento profissional de sua equipe, e quem viaja assume três compromissos: fazer uma apresentação a seus colegas de segmento; elaborar um relatório reflexivo; e aplicar algo do que aprendeu em seu trabalho.

Temos a convicção de que nossa equipe fará isso de modo muito especial, pois as escolas que visitamos foram instigantes e aportaram novas e importantes vivências a todos nós. Esse efeito foi geral, em todo o grupo que nos acompanhou, o que nos dá segurança de afirmar que as viagens pedagógicas, quando bem planejadas, favorecem trocas e reflexões, são estratégias de desenvolvimento profissional bastante potentes.

E, para que nossos leitores possam identificar isso no relato de quem participou, apresentamos aqui o link do lindo, sensível e reflexivo depoimento de uma das participantes que, certamente, fala por todos nós. Ela é Adriana Cury Sonnewend, uma das diretoras da Escola Santi, que participa ativamente do ZDP − programa de formação continuada oferecida pelo Centro de Formação.

Adriana fez um relato da programação de quase todos os dias da viagem. Vale a pena a leitura!

Discutir política em casa: “A arte da guerra” no seio da família

Padlock at Gate

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Por Fermín Damirdjian

“Esse portão é o mais perfeito símbolo da ostentação do capitalismo especulativo imobiliário.”

Era uma terça-feira de manhã. A discrepância na idade dos filhos não facilitava a turbulenta saída da família após o café. Enquanto o autor da frase acima estava no primeiro ano do Ensino Médio, a caçula ainda começava o sexto ano do Ensino Fundamental. Naquela semana a família sobrevivia com um carro só, enquanto o outro estava na oficina. Mãe e pai trabalhavam em bairros bem diferentes, e a logística planejada para aquela semana de um só carro não estava funcionando bem. Na terça-feira em questão, eles não podiam sair atrasados. O pai tinha um compromisso ainda mais cedo do que o usual. O mais velho já tinha seus três atrasos na escola. Mais um, seria fatal.

Quando se mudaram para a Granja não havia problema em chegar à Escola da Vila, mas nos últimos cinco anos todos os carros da América Latina pareciam ter se mudado para São Paulo. O café da manhã tinha sido bem longe do agradável. O pai estava com um resfriado que não sarava, e a menina tinha problemas com as amigas na escola. Reunião marcada com a orientação para sexta-feira. O filho mais velho não estava exatamente alterado com essas causas mundanas. Levantar rápido da cama, escovar os dentes, vestir-se e juntar o material da escola não eram prioridades. Apesar dos gritos dos adultos, o mundo podia esperar. Nessa rotina, a fechadura do portão, que clamava por reparos fazia já algumas semanas, não tinha recebido maior atenção do que alguns insultos durante o entrar e sair dessa tão típica família. Naquela terça-feira a fechadura entendeu que era um bom momento para a sua manifestação. Se alguns estavam travando avenidas pela cidade afora, por que ela não podia manifestar seus anseios mecânicos a seus irresponsáveis proprietários? Insensível a esse engarrafamento doméstico, o indignado estudante da família não perdeu a oportunidade de lançar algumas bombas verbais de efeito moral sobre a família. Como denunciar a eles que o portão era um objeto de consumo, que representava o elo entre a mediocridade pequeno-burguesa paulistana e as forças malignas da especulação imobiliária globalizada. Eram 6h27 da manhã.

Relatos desse tipo são pra lá de comuns na sala da orientação educacional do Ensino Médio. Para além da correria diária, a persistência em posições políticas apressadas e radicais são uma constante na lista de confrontos cotidianos entre pais e filhos. Não menos impactante é a orientação dessas posições políticas. Aos olhos dos adultos, são simplistas, ingênuas, imediatistas e – espanto –retrógradas.

Soam frequentemente como importações superficiais de discursos alheios, mas com o fervor de quem estaria convicto deles por décadas. Diante dessa aliança entre ingenuidade e convicção, os pais se assombram, e as reações mais comuns vão desde o simples desdém até broncas veementes cujo objetivo é “endireitar” o filho antes que seja tarde.

O contato com professores que não acreditam na neutralidade do ensino e que procuram transmitir aos alunos um olhar acurado sobre a mídia ao invés de entendê-la como uma inquestionável fonte de informação e pesquisa; as crescentes manifestações de rua no país, com todas as suas variações em dimensão, caráter, natureza, participantes e motivos; a sensibilização para causas que extrapolem apenas o bem-estar próprio são todos fatores que incrementam elementos de ordem subjetiva que se fazem fundamentais para o desenvolvimento do indivíduo: ganhar espaço, encontrar maior alcance das próprias ações, ser autônomo.

Mas autônomo em relação a quem? O parâmetro inicial, sem conseguir fugir aqui de significante obviedade, são os pais. Isso significaria que todos os que querem crescer devem necessariamente confrontar e afrontar os pais, agindo e propondo tudo aquilo que é diametralmente oposto ao que eles sempre quiseram ensinar? Não, não necessariamente.

O que vai ocorrer, sim, é algum grau de tensão, inerente a todo e qualquer processo educativo. Tanto na escola como na família, para ficar nos exemplos mais evidentes, é impossível educar e propor a ampliação do repertório dos jovens sem apresentar-lhes desafios. Esses desafios podem ser de ordem prática, moral, afetiva, intelectual ou, na maioria das vezes, uma mistura disso tudo.  Mas a tensão é a variável que está sempre presente. Pode ocorrer em um grau inevitável a qualquer negociação ou pode se tornar insuportável, levando em casos extremos à situação mais aberrante para qualquer pai ou mãe, que é a sensação de estar perdendo o filho ou a filha.

A discussão política, por vezes, tensiona as relações a níveis bem próximos do insuportável. Seria ingenuidade pensar que se tratam apenas de ideias? De posições que podem ser discutidas durante o almoço de domingo sem impedir que, a partir das 17 horas, pai e filho se sentem no sofá para torcer pelo mesmo time? Ou será que o posicionamento político tem o mesmo caráter de uma filha cuja opinião negativa sobre a saia da mãe nada mais é do que uma forma de agredi-la?

É preciso pensar que sim: parte da motivação na busca por ideias diferentes da família é que justamente há curiosidade para ir além daquilo que os pais propõem. Isso resulta em afirmar com veemência cada uma das novas descobertas. Estas, são expostas como troféus resultantes da exploração própria. São tesouros encontrados fora de casa e devem ser festejados e expostos em praça pública. Ideias políticas são conquistas adquiridas por mérito próprio em mares alheios.

Em alguma medida, essa exploração é fundamental se os pais se propõem a saborear a boa realização do ato de ter filhos: vê-los ganhar autonomia para que desenvolvam seus próprios projetos de vida.

Dependendo do tipo de relação que há entre pais e filhos, no entanto, a exploração de outras posições políticas pode, sim, ser raivosa. Mas se os pais não carregarem essa discussão com altas doses de ansiedade, medo e indignação, pode ser possível que mantenham o desafio ao filho em um âmbito saudável: o de saber sustentar com bons argumentos as suas opiniões perante um adulto.

Provavelmente, a posição de um jovem seja mais raivosa que a desse adulto, pois aquele ainda precisa cavar um espaço que o outro já tem garantido. Não há, a princípio, grandes motivos para que um pai se sinta ameaçado com um filho que propõe ideias tão diferentes das suas, a não ser que queira que ele pense de forma idêntica. Se lhe parecem absurdos seus argumentos, que os confronte, então, com os seus.

Não sejamos ingênuos: o esforço para manter a discussão no âmbito verbal é grande e desgastante. A reação mais óbvia pode ser, sim, a de rir desses argumentos ou de destruí-los, tentando transmitir toda nossa experiência de vida sobre eles. Mas, nesse caso, podemos estar justamente nos esquecendo de algumas passagens importantes da nossa trajetória pessoal. Ninguém vira adulto pisando com precisão cirúrgica em cada uma das pegadas dos pais. Isso só nos levaria a crer que se um filho parece estar se transformando em nós, ele não está se transformando em alguém.

Ou, posto de outra forma: se tudo estiver dando certo, é porque alguma coisa está dando errado.

Ninguém propõe que o caminho é óbvio e simples. Nem para os pais, nem para os filhos. Abrir o portão e sair da casa dos pais não é um ato que se faça sempre com segurança. A agressividade, por vezes, se faz necessária para enfrentar o que há além daquela fechadura enguiçada, que nos protegeu tão bem por tanto tempo mas que, a partir dos quinze, começamos a criticar com inigualável contundência.

Para os pais, haja paciência! Mas para os filhos, é um começo.

“Para fazer uma boa escola você tem de pensar não apenas no que vai ter nela, mas principalmente naquilo que você não vai permitir, de modo algum, que exista nela”

Por Sonia Barreira 

Com essas palavras, Larry Rosenstock, CEO e um dos fundadores da High Tech High (HTH) nos explicou grande parte do que vimos no uso do espaço dessas escolas. Não há sinal de entrada ou entre as aulas, não há chamada por alto-falante, não há uniforme, não há cadeiras individuais. Essas escolhas foram fundamentais para o clima que observamos em todas as unidades dessa rede de escolas “charter”, que visitamos na semana passada.

Os alunos andam livremente e ninguém os interpela para saber o que estão fazendo neste ou naquele canto. Estão trabalhando, certamente! A confiança e a liberdade estão claramente configuradas.

E trabalhar aqui pode adquirir muitos formatos:

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Alunas de oitavos anos organizando uma Feira Cultural que farão no centro de San Diego.

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Alunos de sétimos anos montando uma catapulta movida pelo computador, usando um kit de Arduino.

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Alunas de sextos anos pesquisando sobre a fome no mundo. Elas estão usando os computadores que a escola disponibiliza por turma, no sofá da sala de aula.

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Atendimento individual feito por uma professora no horário de trabalho pessoal da turma de sétimo ano.

Isso é possível porque a escola adota a metodologia de trabalho em projetos (PBL) e os alunos têm perfeitamente claro o que devem fazer, por que, e até quando! O valor dado ao protagonismo do aluno concretiza-se em todos os projetos que observamos.

Cada série é composta por quatro turmas de 26 alunos aproximadamente, que partilham um espaço comum. No entanto, cada duas dessas turmas fazem parte de um mesmo time, com os mesmos professores.

As salas das duas turmas são separadas por uma parede retrátil, que é aberta em muitos momentos dos projetos para que os alunos possam trabalhar juntos. São, portanto, quatro salas de aula, que se transformam em duas quando necessário, com um espaço comum entre elas, usado para guardar mochilas, fazer atividades diferentes, interagir com os colegas. Fechando-se essas salas, dois gabinetes ficam reservados aos professores para planejamento, atendimento individual, estudo. Complexo para descrever, mas excelente para conviver e trabalhar na escola!

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Essa mesma estrutura se repete para todas as séries, em todas as escolas que visitamos. Mas, como disse anteriormente, o espaço não seria nada especial se não houvesse um funcionamento que potencializasse seu uso pedagógico.

Cada turma tem dois professores, um que ministra ciências e matemática, outro responsável por humanidades e língua. Cada dupla, responsável por um time, faz também o trabalho do orientador educacional, ou parte dele, são os chamados “advisors”, que reservam duas aulas semanais de 45 minutos cada para conversar com os alunos sobre sua vida, conflitos, dilemas, ou simplesmente para conviverem. Além disso, os alunos têm uma hora para artes, esportes, teatro.

Salas de aulas, horários e distribuição das tarefas na equipe são três elementos que ajudam a viabilizar e enfatizar o trabalho colaborativo entre os professores e os alunos.

O enfoque metodológico usado por todos é o PBL (aprendizagem baseada em projetos). Trata-se de uma modalidade organizativa da prática que contém pelo menos oito características.

A primeira delas é a necessidade de o projeto abordar conteúdos significativos, não apenas no sentido de serem interessantes para o aluno, mas principalmente relevantes para sua formação; a segunda é que um projeto deve fomentar o desenvolvimento de competências para o século XXI (criatividade, comunicação, colaboração e pensamento crítico); a terceira diz respeito à pesquisa e investigação, que o projeto deve levar os alunos a fazer: estas devem ser aprofundadas e o aluno deve consultar fontes distintas e usar múltiplas linguagens para tal; a quarta característica do PBL é a questão norteadora, que deve ser apresentada no início do projeto e ser suficientemente ampla, aberta e motivadora; a quinta, need to know, essas questões devem ser bem elaboradas para que possam criar a necessidade de saber ou de aprender – que vai garantir que o projeto seja prático (hands on), mas implique conceitos e aprendizagens teóricas; a sexta característica dos projetos dessa natureza é garantir a voz e a escolha por parte dos alunos, ou seja, um protagonismo acentuado deve ser previsto, permitido e incentivado; a sétima, que deve estar presente no projeto, é a garantia de que as atividades promovam revisão e reflexão, de modo que o aluno tenha a vivência do esforço, da construção de saberes e de habilidades; por fim, na oitava, todos os projetos devem garantir uma audiência real, uma apresentação ou exibição dos trabalhos, que seja realizada não apenas para os professores e colegas de turma, mas para convidados, pais, profissionais, outros professores e colegas de outras turmas.

O uso do espaço da High Tech High pode ser entendido apenas no contexto dessa metodologia. Caso contrário, o visitante desatento pode pensar que uns alunos estão estudando, e outros estão, literalmente, reformando a escola.

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Espaço externo preparado para o trabalho em grupos.

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Ateliê de artes da High School (Ensino Médio).

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Projeto de biologia – Alunos de segundo ano do Ensino Médio extraem DNA de frutas.

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Alunos de oitavo ano em discussão na aula de matemática.

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Alunos preparando a parede para expor seus trabalhos.

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Um subgrupo prepara uma apresentação para os pais enquanto os demais alunos estão na sala de aula.

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Alunos sentados no chão, no corredor, lendo um texto em grupo.

 Microsoft Word - Parafazerumaboaescola.docxSala de aula de sexto ano, tarefas variadas, professor invisível.

O que nos encanta numa escola – que não é a nossa?

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Por Sonia Barreira

A qualidade de um projeto pedagógico não pode ser medida por apenas um de seus aspectos, como instalações físicas, nota do Enem ou número de atividades complementares que oferece.

Escola é um sistema que opera com um conjunto de fatores interdependentes. Por isso, sempre que os jornalistas fazem aquelas matérias para ajudar os pais a escolherem uma escola, os educadores torcem o nariz!

É por isso, também, que, para uma educadora, é difícil identificar exatamente o que tem uma escola quando ela nos encanta! Assim me sinto agora ao enfrentar este texto, cujo propósito é dar a conhecer nossas impressões sobre as primeiras escolas que conhecemos na Califórnia.

Conheci a High Tech High visitando suas dependências, lendo seu site, conversando com seus alunos, diretores, professores e funcionários. Além da visitação de dois dias feita pelo grupo de educadores que está aqui nos Estados Unidos, em excursão organizada pelo Centro de Estudos da Escola da Vila, eu estive por 4 dias consecutivos fazendo uma pequena “residência” em Point Loma.

High Tech High é um conjunto de 11 escolas, independentes, mas iguais em filosofia, abordagem metodológica e propósitos formativos. São três campus cada qual com um conjunto de escolas fundadas nos últimos anos, em função do sucesso do empreendimento. Trata-se de uma escola charter, modalidade de parceria público-privado do setor educacional, que se fortaleceu nos anos 90 nos EUA, e que permite que instituições de direito privado operem com verba pública somada a patrocínios da iniciativa privada, escolas gratuitas com vagas oferecidas por sorteio. Nesse conjunto, há escolas que atendem a alunos de 5 a 18 anos.

Todo nosso grupo ficou encantado com a escola, e sinto-me completamente incapaz de transmitir as razões desse encantamento, porque não há como separar um aspecto do outro, e a lista seria grande.

Destacarei – nos próximos posts - dois aspectos centrais: o uso do espaço relacionado aos valores e princípios pedagógicos, e o resultado do que eles próprios chamam de academic mindset que pudemos observar na fala e nas atitudes dos estudantes.

Por enquanto, um conjunto de fotos para que possam imaginar o que estamos vivendo por aqui.