Acampamento de férias: um convite à aventura

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Por Washington Nunes, coordenador de esportes

Existem algumas ações desenvolvidas pelo Setor de Esportes que tiveram, ao longo da história, duas origens bem interessantes.

A primeira tem a ver com a criação de uma atividade que os professores do setor, a coordenação e a direção julgam ser importante para o desenvolvimento das crianças. Isso aconteceu com a implantação da Capoeira, da Oficina Lúdico-motora e Esportiva, do Tênis, da Oficina de Esportes, da Escalada e de todos os treinamentos das diferentes modalidades: Basquetebol, Futsal, Handebol e Voleibol.

A segunda surge de uma demanda apresentada pelas famílias. Nesse caso, alguns pais nos procuram ou nos mandam sugestões e, a partir daí, verificamos como viabilizar sua implantação. Foi o caso da Escolinha de Futsal, que foi criada a partir de várias solicitações de pais.

E, no meio dessas duas, houve a criação de uma que envolveu sugestões de alunos, professores e pais: o Acampamento Esportivo de Férias.

Para alguns alunos, a ideia de continuar a praticar sua modalidade favorita em meio ao período de férias seria muito legal.

Já para os pais que não conseguem conciliar as férias do trabalho com as férias escolares dos filhos, o acampamento tem a capacidade de aliar recreação e aprendizagem, pois os filhos podem participar de diferentes atividades, estar em um local que oferece conforto, segurança e o acompanhamento de professores da Vila.

E, por último, os professores viram nessa atividade uma ótima alternativa de conhecer os alunos em um ambiente mais informal e dar continuidade a ações de práticas corporais e esportivas.

Um acampamento de férias pode contribuir com o desenvolvimento integral dos participantes, porque, por meio de propostas esportivas, recreativas, culturais, de jogos e brincadeiras, surge “um convite à aventura” de conhecer pessoas, conviver, integrar, ter papel dentro de um grupo social, ter liberdade e autonomia com um toque especial para a segurança e em contato com a natureza.

Por tudo isso, acredito muito na força que o acampamento tem para o desenvolvimento dos alunos.

Ao viajarem sem os pais, as crianças e os jovens aprendem a cumprir obrigações consigo, com os colegas de quarto, com os monitores e com as regras do acampamento.

“Viajar sozinhos” oferece às crianças e aos jovens poderem vivenciar e resolver situações-problemas, fazer escolhas longe da supervisão dos pais e cuidar e se responsabilizar pelos seus pertences. Isso desenvolve a autonomia, pois surge a necessidade de tomar decisões, acatar novas regras e combinados e gerenciar novas responsabilidades.

Para os pais pode ser também um aprendizado, pois terão que conviver com a separação momentânea, com a ideia de que o filho não precisa mais dele (o que nunca vai acontecer) e perceber um comportamento mais independente por parte da criança.

O Setor de Esportes realizará em julho a nona edição do acampamento.

Que bom que conseguimos, ao longo de tantos anos, dar continuidade às ideias dos que auxiliaram em sua construção.

Um abraço, e para os que vão embarcar conosco, até julho!

Festa Junina da unidade Granja Viana. Um evento feito por todos e para todos

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana
Clique na foto para acessar o álbum da festa no Flickr da Vila

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Por Vania Marincek, diretora da unidade Granja Viana

No sábado deste fim de semana, aconteceu a Festa Junina da unidade Granja Viana, e foi um sucesso. Muita animação, muita dança, muita alegria!

Quem esteve na festa pôde ver o cuidado com que a escola foi preparada para o evento, mas nem todos sabem que, para que isso acontecesse, houve trabalho de muita gente, e não só de quem trabalha na Vila.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Desde o planejamento e a concepção feitos pela equipe do setor cultural, passando pela decoração, confeccionada por todos da equipe administrativa, a organização do espaço e montagem da decoração pela equipe de manutenção e limpeza, até a confecção das prendas das barracas, elaboradas pelos alunos e professores de cada turma.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Esse tem sido o tom de nossas festas desde o primeiro ano da Vila na Granja. No primeiro ano tudo era novo, alunos, pais, funcionários e professores, todos estavam chegando e se conhecendo. Era o início de uma nova comunidade que começava a se constituir em cada ação com as crianças, em cada encontro com as famílias, e a festa junina cumpriu um papel importante nesse processo por ser uma festa com a participação de todos, com o foco na diversão e no aprendizado das crianças.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa com a qual todos se comprometeram, a começar pelas prendas que foram feitas pelos próprios alunos. O resultado foi lindo, as crianças se divertiram a valer nas barracas e valorizaram as prendas que ganhavam nas brincadeiras, tinham orgulho por terem feito cada uma delas. Era algo feito por eles e para eles.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Com a evidência do sucesso de nossa festa, no ano seguinte criamos as oficinas para pais, uma forma dos pais participarem de maneira mais efetiva. Oficinas semanais, no mês que antecede os festejos, em que as famílias podem participar ajudando na confecção das prendas e dos adereços que serão usados na decoração do evento.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Cada um participa como e quando pode. Algumas oficinas contam com um número grande de participantes, outras com uma menor participação, mas o que é unanimidade no depoimento de quem já participou é o prazer em produzir algo para as crianças e sentir-se mais próximo dos filhos e da interlocução com outros pais.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

A festa deste ano foi a nossa 4ª festa junina, e vimos nossa opção por fazê-la com a cooperação de todos reforçada em muitos momentos. Nos depoimentos dos alunos em sala, que contam que guardaram com carinho as prendas recebidas em outros anos, no envolvimento deles na produção das lembranças, desde os pequeninos do 1º ano até os mais velhos do F2; na participação não só dos pais nas oficinas, mas também de avós que vieram e ajudaram muito e, por fim, no clima contagiante do dia da festa.

Festa Junina Escola da Vila Granja Viana

Uma festa feita por todos e para todos os que convivem juntos no espaço da Escola!

Um pouquinho da SAD em filme

Por Susane Lancman

A expressão popular “uma imagem vale mais do que mil palavras” pode ser comprovada no filme que foi feito na primeira SAD de 2017 pelo Daniel Mattos, cinegrafista oficial da Escola da Vila.

De qualquer forma, vou tentar explicar com palavras um pouquinho da SAD e dessa em especial.

A tradicional Semana de Atividades Diversificadas (SAD) se constituiu num espaço muito rico e potente do ponto de vista pedagógico, uma vez que nos permitiu reorganizar o tempo e o espaço escolar para atividades que talvez não tivessem condições de serem realizadas no dia a dia normal da escola. Por exemplo, é na SAD que podemos programar saídas a campo, assistir e debater filmes sem sermos interrompidos em função do horário das aulas, criar atividades interséries com focos em interesses variados.

As atividades são preparadas com antecedência e discutidas por todo o corpo docente, sempre procurando que elas tenham caráter formativo e/ou estejam relacionadas com o currículo. Assim, cada uma das atividades das aulas regulares ou da SAD são planejadas, executadas e avaliadas tendo como parâmetro os objetivos mais amplos da educação e os específicos das disciplinas.

Nos últimos tempos, muitos alunos pediram à coordenação espaço na organização das atividades da SAD. Tal reivindicação foi acolhida com muito entusiasmo, uma vez que é um indicador do que entendemos como autonomia dos estudantes e porque aparecem atividades que atendem às demandas que os afligem não apenas como estudantes, mas como sujeitos de direitos e cidadãos. As atividades propostas pelos estudantes – organizados ou não no grêmio – passaram, então, a fazer parte da SAD e também fora dela. Como exemplos dessas organizações, podemos citar o Coletivo Feminista, o Cineclube, assim também como o Grêmio Estudantil. Todos esses agrupamentos dos estudantes são estimulados e acolhidos dentro da escola, desde que não extrapolem os acordos estabelecidos entre a instituição e os alunos.

É fácil entender que os alunos de alguma forma queiram discutir assuntos que estão permeando o cenário político brasileiro, como a greve geral. Além de trazerem seus interesses extraescolares com atividades relacionadas a música, arte, dança, literatura, ciências…

Na primeira SAD deste ano, em que a filmagem possibilita vivenciar um pouquinho do que de fato aconteceu, uma das atividades foi a Banda da SAD conduzida por três alunos do 3º ano, Cao L. Bergo, Luis Felipe F. Grupioni e João Pedro V. B. Jabour. O desafio era tocar diferentes instrumentos de percussão, cordas, sopro e teclado com alunos de diferentes classes com diferentes competências musicais. Outra atividade foi conduzida por uma aluna do 3º ano, Luara Macari Nogueira, que deu uma aula de dança tendo como foco refletir “O corpo afro-brasileiro na expressão mitológica de Oyá”. Já o aluno Antonio Pedro Ayd Zellmeister tinha como objetivo compartilhar seu conhecimento sobre arte Bauhaus e o trabalho do artista Hélio Oiticica e a partir dessas referências desenvolver uma intervenção no espaço escolar. O grupo dos alunos do Grêmio proporcionou uma explanação sobre as greves no Brasil e explicaram as reivindicações da greve geral de abril deste ano. Já o Coletivo Feminista organizou uma discussão sobre a cultura do estupro. Essas foram as atividades coordenadas pelos alunos, planejadas com muito comprometimento e conduzidas com muita seriedade. Houve também atividades conduzidas pelos professores relacionadas com os conteúdos da sala de aula, como as de oceanografia para os 2ºs anos, saídas e discussões  sobre moradia na cidade de São Paulo para os 1ºs anos, filmes e saídas relacionados às disciplinas de História e Geografia para os 3ºs anos. Outro rol de atividades foi conduzido por convidados, como os professores de universidades públicas, e por ex-alunos que conversaram com alunos dos 2os e 3ºs anos sobre a escolha da carreira acadêmica.

A segunda SAD acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de junho, tendo como tema central o preconceito racial, assunto que é muitas vezes velado em nossa sociedade brasileira, em que prevalece um discurso que vivemos em uma democracia racial. Mais uma vez o tema foi trazido por um grupo de alunos pertencentes ao Coletivo Preto, movimento criado recentemente, que visa discutir questões raciais. Acolhemos a ideia com muito entusiasmo por acreditarmos na relevância do tema. Vale dizer que a escolha do tema central da SAD não exclui a possibilidade de haver outras atividades que não se relacionam diretamente com a temática. Afinal, nossa intenção é que a diversidade de protagonistas, as atividades, os espaços e tempos contribuam na formação integral de nossos alunos.

Somos possíveis agentes de transformação… Lançamento da campanha VILACOLHE 2017

Por Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio

Durante os anos na Escola da Vila, em especial durante os três últimos, nós, Giulia Zanetti e Vitória Vaz, alunas do 2º ano do Ensino Médio, passamos a olhar para o mundo de uma forma diferente. A partir das aulas de Política e Sociedade, do diálogo em casa e das atividades que são propostas na Escola, nós nos visualizamos como possíveis agentes de transformação, assim buscamos realizar uma ação real.

No ano de 2016, entre os muitos temas que nos impactaram, fomos tocadas pela situação dos moradores de rua da cidade de São Paulo. Vimos que o frio intenso precariza ainda mais a situação dessas pessoas, que são, muitas vezes, deixadas de lado pela conjuntura social. Esse assunto acabou por nos mobilizar. Assim, em junho do mesmo ano, quando o frio atingia seu auge, iniciamos a Campanha do Agasalho com o objetivo de arrecadar roupas de inverno. Para tanto, pedimos auxílio da nossa coordenadora Susane e do orientador Chicão, que nos indicou um local para onde poderíamos levar os casacos e outras peças de roupa, enquanto as meias seriam enviadas para a Puket, que realizou uma movimentação em que essas peças seriam transformadas em cobertores.

Primeiramente passamos nas salas dos alunos do Ensino Médio avisando que estaríamos dando segmento a tal atividade. Na mesma semana, após conversarmos com a equipe do Fundamental 2, fomos às salas do Fundamental 2, onde fomos recebidas com grande entusiasmo por parte dos alunos. Assim, começamos a arrecadação de fato.

Efetuamos uma divulgação nas redes sociais para implicar mais pessoas e para que todas pudessem se sentir agentes de transformação.

Deixamos duas caixas na frente da famosa sala da Chacur, por onde todos os alunos passam, para que assim aumentasse a visibilidade do projeto.

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Logo notamos uma grande mobilização dos alunos, e vimos que ambas as caixas iam sendo enchidas progressivamente. Assim, no final de junho de 2016, ambas as caixas colocadas por nós estavam cheias graças a um projeto bastante colaborativo e bem recebido.

No início das férias escolares, enviamos as meias para a Puket e levamos os casacos para o grupo Filhos para Filhos. Nesse mesmo dia, auxiliamos na separação de roupas e na montagem de marmitas que seriam distribuídas para moradores de rua da região. Assim, vivemos nossa segunda ação real de transformação.

A experiência foi tão gratificante que, no final das férias, voltamos a esse local para realizar algumas atividades com crianças carentes. Cada uma delas era especial, tinha um sorriso único, um olhar único, elas pareciam estar valorizando os momentos que passamos junto delas.

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Ficamos encantadas com essas crianças!

Aos poucos fomos chamando para participar do projeto outras amigas muito queridas, como Beatriz Conishi, Nina Quintanilha e Manuela Moura, alunas secundaristas que também se envolveram com o projeto.

Voltamos outras vezes, como, por exemplo, no Dia das Crianças, em que foi realizado um evento no Parque da Chácara do Jóquei próximo à Unidade Morumbi, e lá passamos o dia às voltas com brincadeira infantis. Mais uma vez ficamos encantadas pela atitude dos nossos pequenos e pequenas.

As experiências que tivemos tanto no trabalho feito com a arrecadação de casacos como com as crianças foram extremamente prazerosas, e apesar de terem sido pequenas ações sentimos a diferença em nós mesmas.

Pensando em tudo isso, quando o frio deu os primeiros sinais este ano, sentimos que estava na hora de realizar novamente a Campanha do Agasalho. Desta vez, mais organizadas, criamos a CAMPANHA VILACOLHE. Temos como meta mínima este ano arrecadar aproximadamente 120 casacos e 70 meias. As caixas estarão nas três unidades e todos os alunos podem participar com doações.

Acreditamos na importância de ações voluntárias como forma de melhorar nossa sociedade, possibilitando, inclusive, unir nossa comunidade escolar. A mudança pode ser pequena diante da dimensão de tantos problemas que precisam mudar fora da Escola, mas, como agentes transformadores, precisamos fazer alguma diferença, mesmo que pequena.

Gostaríamos de agradecer a nossos professores, orientadores e colegas por terem recebido tão bem a nossa proposta, tanto no ano de 2016 como neste ano. Contamos com a colaboração de todos!

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A força da formação cidadã indissociável do processo de formação do leitor, escritor, ouvinte e falante.

Por Vania Marincek, diretora da unidade Granja Viana.

Na década de 1980, bem no início de nosso trabalho, conhecemos as investigações de Emilia Ferreiro, relativas à alfabetização. Conhecer o que as crianças pensam sobre nosso sistema de escrita nos trouxe referência para apoiar nossos alunos na construção desse novo conhecimento. Mas suas pesquisas nos ensinaram mais do que isso. Aprendemos não só com ela, mas também com outros investigadores que seguem sua linha de investigação, a buscarmos os melhores encaminhamentos didáticos em sala de aula para favorecer o aprendizado de nossos alunos, e essas referências norteiam o nosso trabalho até os dias de hoje.

Ainda em 1980, a equipe de professores da Vila participou pela primeira vez de um seminário de alfabetização e de práticas de linguagem em Buenos Aires, e de lá para cá inúmeras foram as vezes em que buscamos referências didáticas com esse grupo de pesquisadores, seja em viagens a Buenos Aires para “beber da fonte”, ou em cursos e supervisões organizados pelo nosso Centro de Formação. Com eles aprendemos sobre Didática da Matemática, Didática das Ciências Sociais, Didática das Ciências Naturais, Didática da Língua, sempre de forma aprofundada e reflexiva, pois se trata de um grupo com forte preocupação em buscar a melhor forma de organizar as situações em sala de aula para garantir as aprendizagens.

A partir de 2002, o Centro de Formação da Escola da Vila tem organizado viagens anuais nomeadas Viagens Pedagógicas, que visam conhecer novas experiências escolares e novas formas de trabalho didático. Já aconteceram viagens para a Espanha, para os EUA, Canadá, México, Itália e Argentina, e, nesse caso, mais de uma vez, já que há sempre novas pesquisas que apoiam novas ações didáticas, o que muito interessa à escola.

Escola da Vila

A viagem deste ano foi novamente para Buenos Aires para conhecer as investigações sobre a implementação dos meios digitais na escola, com as pesquisadoras Flora Perelman e Vanina Estévez.

Além das aulas nas quais o grupo era convidado a conhecer distintas experiências com o uso de tecnologia e a refletir sobre elas à luz de um marco teórico, houve também uma visita a uma escola, o Instituto Platerillo, em que as conversas com professores e alunos trouxeram novos elementos para a reflexão do grupo.

Escola da Vila

Ao longo de 5 dias foram abordados trabalhos que traziam experiências de inclusão de projetos digitais na educação básica, de formação de professores a distância, de leitura crítica de notícias, de produção de mídias na escola e de videogames para o ensino.

Todas as experiências apresentadas estavam situadas em um marco de referência que define como principal objetivo do trabalho formar leitores, ouvintes, falantes e escritores em nosso tempo e espaço.

Para quem acompanha o trabalho desse grupo de investigação, essa não é uma ideia nova, mas no curso ganhou força ao longo dos dias, com as apresentações dos projetos e das sequências didáticas.

Havia uma preocupação com a formação cidadã expressa nos encaminhamentos relatados. Como exemplo, cito a apresentação de um trabalho de leitura midiática de notícias em que fica evidente que a reflexão proposta vai além da compreensão das notícias e de sua estrutura. Propõe-se uma reflexão sobre os distintos meios que constroem a informação nos dias de hoje, sobre a complexidade do mundo midiático em que tudo o que circula é parte de uma construção, sobre não haver um único ponto de vista, mas inúmeros e distintos.

A preocupação com a formação de indivíduos autônomos, capazes de entender o mundo que os cerca, e aptos a tomar decisões, esteve presente em todas as situações apresentadas e trouxe elementos que reforçam nossa opção por formar para a autonomia, um dos valores da Escola da Vila.

“Qual é a lógica por trás de…?” – Revelações sobre o trabalho com meios digitais

Por Cristina Maher, professora de Filosofia do Ensino Médio
Luiza Moraes, professora de LPL do F2
Ricardo Buzzo, professor de Ciências Humanas do F2

Já há algum tempo, a equipe de professores da Escola da Vila vem se debruçando sobre o desafio de pensar o lugar e os sentidos do trabalho com meios digitais na escola. Quando viajamos para a Argentina para integrar a Jornada Implementación de Los Medios Digitales en Educación Básica, levávamos na bagagem algumas certezas, entre elas a de que o trabalho com meios digitais não deve ser tomado como um fim em si mesmo. Muitos foram os momentos, ao longo daquela intensa semana de estudos, em que fomos levados a questionar algumas de nossas convicções. Esse questionamento não resultou na desqualificação de nosso ponto de partida, mas certamente nos obrigou a voltar a examiná-lo.

Se continuamos partindo do pressuposto de que os meios digitais são ferramentas para a aprendizagem de outros conteúdos, agora também temos clareza de que eles são conteúdo em si, na medida em que trabalhamos com a formação de práticas de linguagem atrelada à formação cidadã. O que está em jogo é a formação de sujeitos capazes de exercer práticas sociais de interpretação e de produção que passam pelos meios digitais. Não se trataria, dessa forma, nem de conhecer os meios digitais simplesmente porque eles potencializam a aprendizagem de outros conteúdos e muito menos de ensiná-los apenas como técnicas que precisam ser dominadas. Ao contrário, ensinam-se meios porque eles contribuem para a aprendizagem de outros conteúdos e também porque isso é essencial para formarmos leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo. Ou seja, se queremos alfabetizar nossos alunos para que leiam criticamente os discursos que circulam em nossa sociedade, não há outra maneira que não incluir em nossos currículos os meios digitais.

Além de nos ajudar a repensar os objetivos do trabalho, a jornada de estudos organizada por Flora Perelman e Vanina Esteves nos levou a descobrir novas respostas para uma pergunta que nos acompanhava desde o Brasil: de que maneira os meios digitais podem tornar mais significativo aquilo que queremos que os alunos aprendam? Entre as descobertas da viagem pedagógica, encontra-se uma constatação que surpreende justamente por sua aparente simplicidade: os meios digitais podem ajudar a tornar visíveis “processos” que eram invisíveis aos olhos dos estudantes. A potencialidade dessa constatação encontra-se em alguns dos marcos epistemológicos que sustentam o trabalho investigativo comandado por Perelman e Esteves.

Se o trabalho com meios digitais tem como sentido a formação de leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo, ele parte do princípio de que as crianças e os adolescentes são sujeitos sociais que significam o mundo, transformando-o desde suas possibilidades interpretativas e de suas práticas sociais. Ao tirar os estudantes do papel de consumidores passivos dos meios digitais e ao colocá-los no papel de produtores, a escola os ajuda a entender as lógicas envolvidas nos processos de produção desses meios, levando-os a se tornar, por fim, usuários mais críticos. Nessa perspectiva, os meios digitais são tomados como objetos que correspondem a sistemas culturais, históricos, econômicos situados, que não apenas representam o mundo, mas que podem também transformá-lo.

Foi a partir desses marcos epistemológicos que constatamos nossa “simples” descoberta: tornar visíveis processos antes invisíveis parece ser o ponto de partida para a elaboração de propostas de ensino/aprendizagem com meios digitais. Flora Perelman, Vanina Esteves e outros professores e pesquisadores convidados nos apresentaram algumas sequências didáticas que explicitam esse princípio.

O desenho de uma sequência sobre notícias, por exemplo, parte das representações infantis sobre a produção jornalística e torna visível a elaboração desses textos como construção (e a partir daí é possível assisti-las não mais como representação fiel da realidade).

Como são produzidas as notícias_

Em um trabalho com o corretor ortográfico de editores de texto, propõe-se um uso analítico e reflexivo da ferramenta que permite ao aluno, além de colocar em jogo os seus conhecimentos sobre ortografia, perceber a língua como construção política. Ao apresentar aos estudantes mapas interativos, problematiza-se o processo colaborativo de produção de um mapa, ajudando-os a perceber a diversidade de forças e de interesses que formam o espaço e as representações sobre ele.

Open Street Maps

A produção de crônicas fotográficas coloca o aluno diante do desafio de construção de uma narrativa visual e, a partir do olhar sensível, interpretativo e reflexivo, ajuda-o a perceber o “acontecimento” como uma construção. A experiência de jogar determinado videogame foi transformada em situação didática, na medida em que o professor propõe orientações precisas e perguntas certeiras com a finalidade de levar o aluno a pensar em problemas sociais a partir de uma lógica de multicausalidade e de interesses de diferentes atores.

viedogame

Enfim, processos antes invisíveis para os alunos podem se tornar visíveis com a desconstrução, análise e, por vezes, produção dos meios digitais. A questão “qual é a lógica por trás da produção de notícias, do corretor ortográfico, dos mapas interativos, etc.?” acompanha todas as elaborações das sequências mencionadas. Essa trajetória resulta, intenta-se, na formação de usuários mais críticos dos meios digitais, de sujeitos que dominam as práticas sociais de leitura, escrita, oralidade, próprias de nosso tempo. Dessa forma, não temos mais meros receptores de notícias, ou não se vê mais a fotografia como janela da realidade, mas domina-se a lógica de construção dos discursos que circulam ao nosso redor. Não somos dominados pelas mídias digitais, mas as dominamos.

Assim, ao defender a implementação dos meios digitais na escola, não falamos em adotar uma postura de inovação pela inovação, ingenuamente celebrando as tecnologias. Não assumimos, também, que basta vestir os mesmos conteúdos em novas roupas – digitais. O uso significativo, que acontece a favor da aprendizagem do aluno, depende do saber pedagógico e do planejamento de situações didáticas ajustadas aos objetivos de aprendizagem – percebendo quais são os novos objetivos de aprendizagem que devem ser colocados diante das novas práticas sociais, e quais permanecem. Isso sempre com o intuito de contribuir com a formação de leitores críticos, escritores, falantes e ouvintes nos âmbitos da formação cidadã, da formação literária e da formação do estudante.

Os alunos estão na rede! E a escola, o que tem a ver com isso?

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Por Larissa Aliberti e Priscila Demasi, professoras de Fundamental 1

Seguem youtubers – e há os que criam seus próprios canais e colecionam seguidores, criam grupos no WhatsApp, fazem buscas no Google, conhecem a “Siri”, acompanham séries, sabem dos últimos lançamentos em jogos online, constroem cidades no Minecraft, postam fotos no Instagram, fazem vídeos no Snapchat, acham o Facebook ultrapassado, ouvem música pelo Spotify… Nossos alunos são usuários de tecnologia, interessam-se por ela, são atingidos pelos seus mecanismos em diferentes âmbitos da vida social e da percepção de mundo. Numa dada realidade social, este é um fato: os meios digitais pularam os muros para dentro da escola! E nós, o que fazemos com isso?

Não se trata da vida fora da escola? Já não cuidamos de tantas coisas? São tantos conteúdos, tantas demandas, tantos planejamentos, tantas ideias, tantas provas a corrigir, tantos cadernos na nossa mesa… É preciso estabelecer prioridades! Mas não podemos ignorar o fato de que os meios digitais integram a nossa cultura e que nossos alunos são afetados por eles. A cultura contemporânea é midiática, formada por meios massivos de comunicação e tecnologia. Somos atores sociais imersos nesse caldo, que é atravessado por interesses de diferentes âmbitos: educacionais, sociais, políticos, culturais, entre tantos outros.

Olhar atentamente para esses aspectos e considerá-los na nossa ação educativa é partir do pressuposto de que nossa tarefa vai além dos currículos preestabelecidos para os contextos escolares, trata-se de atuar visando contribuir com uma formação cidadã das crianças e dos jovens que circulam nas escolas.

Nesse sentido, parece importante conhecer os usos que os alunos fazem dos meios digitais e elaborar propostas que tenham como objetivo aproximar-se de uma leitura crítica dos mesmos.

Saber o uso que os alunos fazem dos meios digitais? Para quê?!

“Como você não conhece?!”, a frase citada com olhos arregalados e entonação de espanto foi dita por alguns alunos de dez anos em uma situação em que comentavam sobre youtubers que seguiam. É para eles tão natural circular entre esses canais que o “não saber” gera estranhamento. Por caminhos variados, mas tendo como braço-forte o grande alcance e a força de se tornar parte da rotina, as redes sociais, os aplicativos, entre outros tantos aparatos, chegam sem pedir licença e fazem morada no cotidiano das crianças.

Como professoras, ouvimos os comentários que fazem em conversas informais, ficamos sabendo – e não é raro termos que intervir – em conflitos relacionados às redes sociais, como divulgação de fotos pessoais ou compartilhamento de senhas. Uma geração de links, senhas, abas, redes e conexões que chegam diariamente às escolas e com as quais damos de cara sem saber muito bem o que se passa, mas com a certeza de que esses meios digitais são parte do que vai constituindo essas crianças e jovens.

Com o intuito de conhecer um pouco mais sobre os meios digitais de que nossos alunos fazem uso, propusemos a duas turmas de 5ºs anos uma brincadeira ao estilo de um “Stop”. A proposta havia sido realizada com o grupo de educadores que participou da Viagem Pedagógica da Vila durante aula com Débora Nakache e Gabriela Rubinovich, em que trataram de propostas e experiências acerca do trabalho em escolas com a produção e leitura de meios audiovisuais.

Na brincadeira, deveriam entrevistar o maior número possível de colegas sobre quais meios costumam usar, dentre eles: onde ouvem música, o que assistem na TV, como se comunicam com os colegas a distância, se seguem algum youtuber, qual rede social mais usam, etc. Para as crianças, um momento de diversão; para nós, um bom quadro revelador dessa relação e uso dos meios.

Ao ler as respostas, tivemos a comprovação de nossas percepções sobre o grande uso desses meios na vida cotidiana das crianças. Em uma das turmas de 25 alunos, por exemplo, 19 seguem algum canal do YouTube, 13 utilizam WhatsApp, apenas 1 não acompanha uma série. Considerar essa realidade parece-nos um elemento importante se optamos por um trabalho que vise uma formação cidadã mais abrangente.

Ampliar potencialidades de saber mais sobre um tempo, sobre um espaço e sobre uma forma de conceber a sociedade e seus sujeitos é papel da escola, e não se pode desconsiderar que em nosso tempo e espaço os meios digitais são uma realidade. Se sabemos melhor como pensam os alunos, que ferramentas usam, que leituras – na maior parte das vezes ingênuas – fazem desses usos, podemos escolher caminhos e ajustar intervenções visando criticidade.

Mas afinal, o que cabe à escola?

As crianças usam os meios digitais de maneira intuitiva porque fazem esse manejo cotidianamente. Mas, no contexto escolar, é com a mediação do professor que pode haver reflexões mais intencionais sobre eles, possibilitando construir e desconstruir sentidos do que é observado e vivido.

“Os meios constituem uma dimensão fundamental de nossa experiência contemporânea. Estão em todas as partes, são cotidianos e permanentes. Não podemos fugir da presença deles e de suas representações. Dependemos deles para nos informar, para o prazer, para usar o tempo livre, para conforto e segurança. Estão com intensidade em nossa vida cotidiana.” (R. Silverstone)

Um ensino que considera o aluno como sujeito atuante, reflexivo, de um determinado espaço e tempo dinâmicos precisa oferecer situações nas quais ele possa olhar para os meios digitais como fruto de uma construção social e que, assim sendo, não são neutros ou isentos de intencionalidades, ao contrário, são resultados de escolhas, de recortes, de interpretações, assim como os livros, os filmes. O que determinará o caminho a trilhar e as propostas a serem construídas diante dessa nova realidade posta está muito mais relacionado à escolha do tipo de aluno que queremos ajudar a formar e a forma como enxergarmos nossas crianças do que o tipo de ferramenta ou tecnologia que serão usadas.

Para NAKACHE, os professores “deveriam ensinar-lhes [aos alunos] a orientar-se em um mundo contemporâneo, ensinar-lhes aquilo que a tecnologia por si só não pode ensinar e que um indivíduo isolado não pode construir”.(NAKACHE, 2003).

Todos os sites do mundo aparecem em uma pesquisa no Google? Você já reparou nas propagandas que aparecem no Youtube? Por que os programas de TV têm determinados cenários e trilhas sonoras, o que provocariam em quem assiste se as escolhas fossem outras? São muitas as possíveis perguntas que podem ser feitas dentro de um projeto de trabalho que procure promover o exercício de práticas sociais de interpretação e produção em meios digitais para que possam ampliar estratégias de entendimento de seus modos de funcionamento, suas lógicas de produção e circulação.

Os meios digitais na escola podem ser conteúdo e recurso de ensino, desde que as ferramentas escolhidas não ocupem o centro do trabalho, mas que estejam a serviço de resolver problemas postos tendo como grande objetivo a formação de alunos críticos que gradativamente passem a perceber que esses meios são produtos que geram determinados sentidos e significados para, dessa forma, desnaturalizá-los.

Finalizando, entendemos que compete à escola encarar a formação do usuário de tecnologias e converter seus usos em ricos processos de aprendizagem.


Referência Bibliográfica
NAKACHE, Debora; MUNDO, Daniel. Las transformaciones tecnológicas: de la TV a Internet. La continuidad en el discurso educativo. In: Estudios sobre comunicación, educación y cultura: Una mirada a las relaciones recientes en la Argentina. CARLI, Sandra (org), 2003. 

Reflexões sobre a Viagem Pedagógica a Buenos Aires

Como divulgado em nossas redes sociais, mês passado estivemos em jornada de estudos com grupo de profissionais da Escola da Vila na cidade de Buenos Aires.  A partir do primoroso trabalho organizado pelas investigadoras Flora Perelman e Vanina Estevez, nos debruçamos sobre a temática da Implementação de meios digitais no ensino básico.

A equipe participante retornou com muitas reflexões sobre os mais diferentes aspectos abordados durante essa imersão e hoje, damos início a um conjunto de posts com o objetivo de compartilhar parte daquilo que mais nos marcou dessa jornada tão instigante!

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LAS PAREJAS PEDAGÓGICAS – VISITA AO INSTITUTO PLATERILLO

Por Irene Antunes e Miruna Kayano, orientadoras do F1 

Uma das atividades mais esperadas da Viagem Internacional 2017 a Buenos Aires era a visita ao Instituto Platerillo, escola de educação primária argentina com 25 anos de história, que conta há muitos anos com a parceria e assessoria de Flora Perelman e Vanina Estévez, coordenadoras de nossa viagem, no que diz respeito ao trabalho com tecnologia. Estávamos diante da possibilidade de conhecer melhor um trabalho de referência na introdução de meios digitais na educação básica: qual a estrutura da escola para oferecer uma potente inserção tecnológica? O que veríamos? Que recursos seriam apresentados? Como os professores trabalham com as tecnologias? Essas eram apenas algumas das muitas perguntas que nos acompanharam.

Após estarmos uma manhã inteira com a diretora fundadora, a diretora pedagógica e algumas professoras e alunos, pudemos, de alguma maneira, reformular muitas dessas perguntas. Vimos que a estrutura em si do Instituto Platerillo, por exemplo, não oferece um computador por aluno, ou mesmo uma lousa digital em cada sala de aula; mas, sim, possuem a tão conhecida sala de informática, e fazem dela um espaço de especiais parcerias. E foram elas que nos fizeram repensar grande parte das nossas perguntas. As parcerias pedagógicas.

Pareja pedagógica. Essas foram as palavras mais ouvidas ao longo da nossa manhã. A professora de sala regular junto com a professora da sala de informática formando uma dupla pedagógica. Ambas atuando desde o planejamento até o desenvolvimento e avaliação das atividades e projetos para que tenham sentido e sejam construídos pelos alunos enquanto aprendem. A força do trabalho com a informática, como chamam as TICs naquela escola tão singular na sua simplicidade aliada ao aprofundamento de seus projetos, está no compartilhamento das experiências, na possibilidade de enriquecimento e revisão dos projetos. A inserção das tecnologias, como nos foi ressaltado, nunca deve acontecer ao final do trabalho e jamais como envoltório de um produto final, mas sempre como um meio para favorecer uma maior aprendizagem pelos alunos. Por isso, é fundamental ter sempre em conta os objetivos de ensino: o que estão aprendendo os alunos? O que o uso da tecnologia irá favorecer? Como? Que novos saberes estarão em jogo? Se essas questões não estão postas, se as respostas estão obscuras, o uso da tecnologia precisa ser revisado; se um complexo e sofisticado recurso agrega apenas beleza ao produto final, mas possibilita pouca aprendizagem e manipulação pelos alunos, é de pouca utilidade.

Essa reflexão só é possível se temos acesso a conhecimentos específicos de informática, e por isso o trabalho com os meios digitais implica a necessidade de uma parceria com um professor especialista, um facilitador digital. Pautados nessa certeza, os projetos e o uso da tecnologia no Instituto Platerillo são discutidos, planejados e analisados na parceria pedagógica, junto, é claro, com os alunos. A potência do trabalho não está na estrutura nem nos recursos oferecidos, mas na clareza e constante revisão dos objetivos de ensino e dos processos de aprendizagem pelas parcerias de trabalho.

E agora? Terei prova de matemática!

Escola da Vila

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A introdução da avaliação por conceito nos 3ºs anos

Por Amanda B. da Costa Leite e Nancy Serrano Rodrigues,
professoras dos 3ºs anos do F1 da unidade Granja Viana

Em nossa escola, o processo de avaliação formal e a comunicação por meio de boletim e conceito se iniciam de modo gradual no Fundamental 1.

Quando os alunos chegam ao 3º ano, além da diversidade de instrumentos que eram avaliados, são inseridas as provas na disciplina de matemática, tornando-se uma prática frequente nas outras disciplinas a partir do 4º ano. 

“Minha primeira prova foi muito preocupante, mas depois descobri que não é para ter medo.

Ela é um instrumento de avaliação que serve para ver o que você já sabe bem e o que ainda não sabe tão bem.

E descobrir isso ajuda a aprender!”*

O desconhecido causa um certo estranhamento e pode gerar medo.

Muitas vezes os pais ficam angustiados por não saberem como lidar com a situação da primeira prova, talvez porque não tenham tido boas experiências em relação a isso. As avaliações que conhecíamos eram classificatórias e seletivas e não se preocupavam com a progressão e o ajuste do aprendizado.

Os estudantes precisam conhecer as formas pelas quais são avaliados para saber o que o professor espera deles.

Nosso projeto de avaliação consiste em levantar dados relacionados às aprendizagens e aos avanços dos alunos e, a partir deles, construir mecanismos de remediação, de modo que o indivíduo tenha acesso ao conhecimento de outra maneira.

“Na primeira prova vocês vão ficar um pouquinho nervosos, mas não precisa ficar, porque se tirarem B, A ou C, tudo bem!

Vai ser sua primeira prova, e vocês vão estudar até conseguir melhorar!”*

Os momentos de orientação de estudo, as grades de correção e a análise dos resultados auxiliam no encontro de como estudar, além de ser um oportuno espaço para dicas e acolhimentos de dúvidas.

Várias rodas de conversa e outras atividades contemplam o significado dos conceitos (A, B, C, D, E), que passam a fazer parte das aulas, como registro do desempenho escolar expresso por meio de letras.

É no 3º ano que os alunos se deparam com conceitos nas atividades, e é normal desejarem a nota máxima. Mais do que almejar um “A” é mostrar para as crianças o que os conceitos sinalizam: quanto já sabem e quanto precisam se regular para melhorar, no sentido de aprender mais e não para classificar-se como melhor.

“Eu descobri que a prova é uma atividade igual a tantas outras que a gente faz!”*

As provas compõem o processo de avaliação, mas não são determinantes para a atribuição dos conceitos, uma vez que temos por referência outras propostas realizadas ao longo do trimestre. 

A prova de antigamente deixa de ser a única ferramenta servida pelo professor e dá espaço a outros instrumentos que, juntos, oferecem dados sobre a aprendizagem dos alunos.

O erro é visto como fonte de informação, tanto para o professor que analisará a produção e conhecerá a situação do seu aluno, quanto para o aluno que precisará compreender seu erro e avançar.

Portanto, se observarmos a avaliação atual como formativa, a serviço do professor e dos alunos, como um instrumento a ser incluído aos tantos já vistos no 2º ano, será que nossos filhos ainda terão medo da prova?


* Todos os comentários entre aspas foram feitos por alunos mais velhos da Vila para os alunos do 3º ano.

Participação em modelos diplomáticos: a experiência na Escola Parque

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian 

Na manhã do dia 21 de abril, meia dúzia de alunos da Escola da Vila terminava seu café da manhã, tomado de forma breve em uma antiga padaria do Leblon, tendo a seguir partido em direção à Escola Parque, localizada não muito longe dali, no bairro da Gávea. Sapatos e ternos atrapalhavam o caminhar dos seis jovens acostumados a roupas largas, chinelos e tênis. Não queriam se atrasar para sua primeira participação em um modelo diplomático que estava começando na Escola Parque, parceira carioca da Vila, evento para o qual tinham sido convidados poucos dias antes.

Uma vez dentro da Parque, passaram a ser reconhecidos por seus pares cariocas. Para além de uns poucos monitores e alguns ex-alunos, não havia ali nenhum outro adulto. A instituição estava ocupada e tomada por alunos engravatados e alunas em tailleur que caminhavam apressados pelos corredores. Ninguém se questionava ou olhava com distanciamento para o que ali ocorria. Todos estavam francamente ocupados com documentos que embasariam suas arguições perante os outros representantes de países dos quatro cantos do mundo em comissões de discussão separadas por temas de interesse internacional.

Nessas discussões, o exercício retórico era impecável. Não se ouviam ali expressões como “tipo…”, “meio que…” nem mesmo “eu acho…”. O rigor no figurino era o mesmo no cumprimento de horários, na linguagem e no papel adotado por cada um ao representar não apenas um país, mas uma figura diplomática do mundo real. A formalidade absoluta ganhava sentido: a argumentação deveria respeitar tempo de apresentação, réplicas, tréplicas e, principalmente e acima de tudo, poder de convencimento, sempre respeitando as determinações da mesa mediadora. Tudo baseado em documentos. A retórica diplomática era o instrumento supremo a ser esgrimido por oito horas diárias ao longo de três dias seguidos para, no fim, mostrar seus resultados em votações que concluiriam tais discussões.

Mas, afinal, do que estamos aqui falando? O que é exatamente um modelo diplomático? Qual o sentido de participar disso? A simulação diplomática, que pode ser, na maioria dos casos, uma réplica de comissões da ONU tratando temas atuais, mas não só, é um evento realizado por instituições de ensino das mais variadas, tanto de Ensino Médio como Universidades. Em muitos casos, a organização é feita por estudantes de Relações Internacionais, e os participantes são alunos do Ensino Médio. Há fóruns que recebem alunos de escolas do Brasil todo. Alguns chegam a muitas centenas de participantes. Outros, a algumas dezenas. O tamanho não tem relação com sua qualidade, em todo caso. Na Escola Parque, é realizado por alguns ex-alunos e os participantes são alunos do Ensino Médio de diversas escolas do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, prioritariamente.

Deixarei, no entanto, que o leitor acompanhe diretamente os relatos de nossos alunos, pois são quem melhor pode descrever a experiência. Com a palavra, a delegação Vila:

Por Antonia Vilas Boas Cardoso de Oliveira, Marina Gregori Tokita e Lorena Caiuby Ferreira França.

Fomos convidadas para ir ao Rio de Janeiro, por três dias, para participar do MODEP – Modelo Diplomático da Escola Parque. Trata-se de um evento formal de simulação da ONU, no qual se formam diferentes comitês para discussão de diferentes tópicos. É organizado por alunos e ex-alunos e reúne aproximadamente 350 estudantes de diferentes escolas e faculdades.

Ingressamos no MODEP já no segundo dia do evento. Achamos que teríamos dificuldade em acompanhar as discussões, entretanto, pela atenção dos organizadores que nos receberam e pela organização da escola, conseguimos acompanhar as discussões proveitosamente.

Primeiramente, fomos apresentados aos temas de discussão. Todos tinham como pauta geral questões de conflito internacional e abrangiam o setor dos direitos humanos. Eram estes: Liga dos Estados Árabes; Conselho de Segurança Histórico; Pacto de Varsóvia; Parlamento Britânico; Conselho Europeu; Comissão para o Status da Mulher; O Novo Conceito Estratégico de Aliança e a Ação na Iugoslávia.

Nos foi sugerido que participássemos ou como ouvintes ou representando uma delegação. Diferentemente de nossos outros colegas, Joaquim Salazar (2º), Michel Sarfatti (1º), Vinícius Sabbag (1º), optamos pela primeira opção, pois assim era possível circular por todos os comitês e ter uma visão mais geral do evento e das discussões.

Todos os comitês, como é de costume da ONU, tinham organização formal e específica, pautada pela mediação de uma Mesa. As diferentes delegações levantavam suas placas quando desejavam se pronunciar, e só poderiam fazê-lo quando recebiam permissão da Mesa.

Especificamente, o comitê do Parlamento Britânico possuía uma organização semelhante aos outros comitês, porém a discussão tinha um caráter mais dinâmico. Logo, pela extensão do evento, este comitê nos atraiu mais e optamos por acompanhá-lo de forma mais presente. O Parlamento Britânico discutia a saída do Reino Unido da União Europeia. Desse modo, articulava-se com o comitê do Conselho Europeu, que reunia todos os países da União Europeia (tirando o Reino Unido), e discutia-se essa mesma questão – porém em diferentes esferas.

Como nos interessamos muito por esse tema, circulamos muito entre esses dois comitês, podendo assim acompanhar os diferentes conflitos, acordos e discussões que eram travados.

Logo que chegamos percebemos o caráter extremamente formal do evento e a imensa preparação da escola para tal, como a circulação de um jornal interno, a distribuição de bolsas e cadernos, um vasto lanche da tarde. Além disso, também pudemos reparar a preparação individual de cada pessoa para o evento. Todos possuíam um domínio muito grande sobre o tema de seu comitê, além de uma capacidade impressionante de debate, improviso e comportamento muito adequados às circunstâncias.

Também, no que se refere à organização do evento, o cronograma era muito extenso; todos os dias havia aproximadamente oito horas de discussão, divididas em sessões. Para nós, especificamente, que estávamos participando como ouvintes, essa extensão tornou o evento um pouco cansativo. Mas pensamos que, se estivéssemos participando das discussões, teríamos uma discussão diferente.

De modo geral, ficamos muito impressionadas com a qualidade das discussões, além dos cuidados dos organizadores com a nossa visita. Conseguimos tirar grande proveito da atividade, nos aprofundando em questões que certamente não adentraríamos em outras situações.

Além disso, a viagem em si foi muito agradável, pois tivemos a oportunidade de nos comunicar com diferentes pessoas e aprender muito.

Agradecemos à Escola Parque pelo convite e esperamos que no futuro seja possível formar uma delegação própria da Escola da Vila.

Agradecemos à Escola da Vila pela oportunidade e esperamos que haja sempre novas situações como essa.

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Por Michel Lancman Sarfatti, Joaquim Pedro Salazar e Vinícius Leoratti Sabbag

Nós, quando chegamos ao MODEP, pensamos que seríamos apenas ouvintes, mas na metade do primeiro dia descobrimos que poderíamos fazer parte do Parlamento Inglês. Assim, aceitando a proposta, Michel virou Caroline Lucas (Green Party), Vinícius virou Hillary Benn (Labour Party) e Joaquim virou Damien Green (Conservative Party). Sendo assim, discutimos com outras 30 pessoas os termos da saída do Reino Unido da União Europeia na perspectiva de um parlamentar inglês. Foi uma atividade nunca antes experienciada por nós. Discutimos questões como imigração, economia e legislação europeia até chegar a um consenso sobre a saída do Reino Unido.

O evento foi dividido em seis comissões, que discutiram assuntos históricos e atuais, sendo todos organizados em um modelo diplomático. Alguns dos temas presentes eram: discussão da OTAN sobre a guerra na Iugoslávia, conselho europeu discutindo Brexit, Organização dos Estados Americanos (OEA) discutindo a guerra na Guatemala, dentre outros.

A organização do evento distribuiu material escolar e didático, além de oferecer orientações a todos os participantes, a fim de criar um ambiente com discussões mais consistentes.

Impressionou-nos o nível de seriedade e profissionalismo dos integrantes, já que o evento até contava com uma equipe da imprensa que produzia matérias jornalísticas e cobria coletivas de imprensa dos políticos e diplomatas, de acordo com a linha editorial de cada publicação; os representantes diplomáticos construíam estratégias para alcançar seus objetivos de acordo com suas ideologias ou de quem representavam.

É um evento que exige muita preparação por parte dos alunos e dos organizadores, e por isso não tivemos uma participação efetiva em sua administração, mas entendemos como funciona o Parlamento Inglês e a posição dos principais integrantes sobre o Brexit.

Assim, o evento foi muito produtivo para nós, pois conseguimos conhecer esse tipo de atividade, e pretendemos ir a outros, como, por exemplo, o fórum FAAP e SPMUN.

Ouça também o podcast onde os alunos relatam suas impressões sobre esta atividade.