O trânsito no cotidiano da Escola

Escola da Vila

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Reedição de texto de Vania Marincek de abril/2013

Quem passa na frente da escola no início da manhã, no horário de almoço ou no final da tarde, não imagina a quantidade de cuidados e de ações que são necessários para que os alunos entrem e saiam da escola em segurança. São muitos aspectos a serem considerados, desde a decisão por portões diferentes para quem entra e para quem sai, a fim de garantir o fluxo e a segurança dos alunos, até a organização do espaço da rua, para que as famílias possam buscar e deixar seus filhos com rapidez.

Todo início de ano, equacionamos um conjunto de variáveis, para obter um funcionamento ajustado e eficiente, revendo os procedimentos já estabelecidos e fazendo os ajustes que consideramos necessários para que o funcionamento nesses horários aconteça da melhor forma possível.

Sistematicamente, acionamos os órgãos responsáveis pelo gerenciamento do trânsito em nossa cidade, para solicitar a revisão do plano que melhor atenda à mobilidade nas regiões ao redor da escola e nem sempre o que consideramos bom para nossa comunidade pode ser viabilizado.

Sabemos que alguns aspectos dessa organização dependem de leis e regras de funcionamento de trânsito externos a nossas decisões. Assim, para o bom funcionamento da proposta de organização da escola é fundamental a participação responsável de toda a comunidade. Parar em filas duplas, estacionar em garagens e desconsiderar as solicitações dos funcionários da escola são exemplos de atitudes que comprometem o funcionamento da estrutura montada, gerando um verdadeiro caos nas ruas da escola e seus arredores.

Muito mais grave do que a desorganização gerada na rotina por aqueles que desconsideram as regras é o que se comunica aos nossos filhos e filhas com essas atitudes. As crianças, os adolescentes e os jovens se constituem por meio da observação e da reprodução dos modelos que presenciam. Dificilmente pensarão no coletivo, se seguirem presenciando cenas em que a vontade individual se sobrepõe ao bem-estar da comunidade. Essa é uma reflexão importante, que todos os que se ocupam de educar deveriam compartilhar. Nilton Bonder, em artigo na Folha de São Paulo, faz uma análise do papel de quem conduz um carro. “Quem conduz um automóvel é uma consciência”, diz ele.

O debate, a discussão e o diálogo sobre essas atitudes são sempre fomentados por nós, porque são importantes para que possamos ajudar todos a tomar consciência dessa situação. No entanto, é preciso lembrar que a escola, como instituição, tem seus limites de tempo e pessoas e deve priorizar, sempre, a educação de seus alunos, contando com a comunidade de responsáveis fazendo a sua parte.

Direito à infância e definições acerca do ingresso no Fundamental

Escola da Vila.

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Por Fernanda Flores, direção pedagógica

A maior parte das escolas organiza suas turmas a partir de uma cronologia etária, com séries organizadas pelo agrupamento de crianças que nasceram num mesmo ano. Para que isso seja feito com coerência pelo sistema de ensino, existe a definição de um marco organizador, denominado corte etário.

Contrário à definição federal, o Conselho Estadual de Educação de São Paulo definiu esse corte em 30 de junho. Assim, quem completa 6 anos até essa data deve estar matriculado no F1 e quem completa 6 anos depois compõe o grupo anterior, como “os mais velhos” da turma final da Educação Infantil.

Há doze anos, a definição de uma data para o corte etário de ingresso ao Fundamental gera inúmeras discussões nas mais distintas esferas e se sustentam desacordos entre a definição federal (que determina corte em 30 de março) e as estaduais (que variam de março a dezembro).

Esse cabo de guerra vem da ampliação, em 2006, do Fundamental para nove anos de escolaridade, o que implicou a transição das crianças aos 6 anos (de nosso Grupo 4 à época para o 1º ano), instaurando a necessidade de uma definição federal acerca da regra de ingresso à nova série.

Apesar dos esforços de muitas instituições para que essa transição não implicasse o fim da atenção ao desenvolvimento das capacidades de expressão em diversas linguagens próprias da etapa infantil, vimos com muita crítica o equívoco de tão precocemente colocar crianças pequenas mais tempo sentadas em lições sem fim, no mais das vezes mecânicas e padronizadas, com pouco ou nenhum tempo dedicado ao brincar, ao corpo e à arte, entre outras experiências essenciais que defendemos sustentar nas séries iniciais do Fundamental.

Por detrás dessas definições, está em jogo um tema imensamente importante, que é a duração que o país define para a infância por meio da permanência das crianças nas escolas de Educação Infantil.

Vemos famílias que querem adiantar ou adiar o ingresso de seus filhos e filhas no F1, vemos escolas com recomendações para que alunos permaneçam mais um ano na Educação Infantil, ou eventualmente sigam de forma antecipada para o 1º ano. Todos, cada um a seu modo, buscam definir em que momento parece ser mais adequado a uma criança singular ingressar numa nova fase de sua escolaridade.

Aqui na Vila, entendemos a importância da etapa inicial da escolaridade como insubstituível, experiência inicial de constituição do sujeito no coletivo que precisa de tempo, espaço, profissionais especializados e processos de transição muito bem articulados como parte da passagem para o 1º ano do Fundamental 1. Não vemos como uma criança que recém completou 5 anos tenha que ter seu processo acelerado, bem como sabemos e defendemos que há de se ter uma margem maior de atuação das escolas em relação às decisões de transição entre segmentos, ainda mais nessa etapa tão inicial da vida escolar.

Finalmente, na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu validar a deliberação do Conselho Nacional de Educação (CNE) ao manter a norma de que é necessário cumprir 6 anos até dia 31 de março para ingresso no Fundamental 1.

Decisão sumamente importante para a Educação em geral, perante a inúmeras pesquisas e estudos que demonstram os ganhos de aprendizagem, saúde e bem-estar geral de longo prazo quando as ações educacionais na primeira infância ocorrem em espaços especialmente desenvolvidos para tal, com profissionais que se formam para atuar em relação às demandas próprias do período de desenvolvimento infantil.

O que essa definição implica para a Escola da Vila?

Entendemos que o próximo passo deva ser uma nova rodada de discussões acerca dessa decisão pelos Conselhos Estaduais de Educação e contamos com a revisão da decisão em nosso estado.

De imediato, não há mudanças para quem já está matriculado no Fundamental. E também para quem ingressará no 1º ano em 2019, a deliberação vigente no estado de São Paulo está mantida.

Acompanharemos as discussões, defendendo que a decisão do CNE seja adotada pela rede pública e particular e que se defina um prazo para as escolas se adequarem sem que haja prejuízo para as crianças e suas famílias.

Para entender o que foi votado no STF sobre o corte etário para acesso ao Fundamental1. Breve histórico de 2006 a 2018: 

Escola da Vila

Havendo outras informações relevantes, compartilharemos com nossa comunidade. 


Matérias recentes:

Idade mínima para entrada no fundamental pressionará a pré-escola

Entenda o que muda com decisão sobre idade para pré-escola e fundamental

Sobre uma partida inesperada, ignorância e educação

Escola da Vila

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Por Gabriel Castanho Sanches de Oliveira, ex-aluno da Vila

Durante esta semana, recebi com enorme pesar uma triste notícia. Que me tocou profundamente. A perda de uma das mais queridas professoras com quem tive o privilégio de aprender sobre tantas coisas. Inez Cerullo deixará em mim muitas reflexões e aprendizados, além de saudade. Agradeço sempre por ter tido a oportunidade de, ainda em vida, ter feito a ela uma singela homenagem.

A matemática, matéria que lecionava minha querida e já saudosa Inez, sempre foi um campo difícil para mim. Extremamente difícil. Ao longo de anos, apesar da boa vontade e insistência de outros grandes professores que tive, as dificuldades se multiplicavam. Proporcionalmente, aumentava também meu desinteresse. Isso me custou algumas férias fazendo reforço, horas e horas de aulas particulares e, no final das contas, uma repetência.

Até que cheguei ao colegial simplesmente ignorando a matemática. Ignorava a ponto de ser para mim uma imensidão escura, que eu não fazia o mínimo esforço para enxergar. Havia me tornado um perfeito ignorante.

Foi então que conheci Inez. O começo não foi fácil, o bloqueio que eu havia desenvolvido em relação à matemática era robusto. Além disso, eu não era um aluno exemplar do ponto de vista comportamental. Mas, de maneira sutil e natural, fui percebendo por qual caminho aquela mulher forte e doce me direcionava cautelosamente.

Meus amigos da época do colegial são testemunhas de que em determinado momento, já no terceiro ano, eu realizava todas as provas bimestrais sentado ao lado da mesa dela, virado de frente para eles. Era incrível. Algo totalmente diferente do que eu já tinha visto ou vivido. Alguns até questionavam o motivo, inclusive eu.

O que ninguém sabia é que tínhamos um acordo velado. O combinado era de que eu seria o exemplo para os outros colegas. Sentar ao lado da professora nos momentos de avaliação não era um privilégio, muito pelo contrário, poderia ser inclusive motivo de vergonha. No entanto, a representação daquilo era de que ela estaria do meu lado para encarar o desafio, desde que eu estivesse do lado dela e disposto a encarar a dificuldade. Foi uma parceria. Se o aluno com maior dificuldade estava disposto a encarar o desafio, quem poderia não estar? Se aquele que poderia arruinar as aulas estava ao lado da professora, quem não estaria? Se o aluno com maior dificuldade iria passar de ano e se formar, quem não iria? E assim sucedeu.

No dia da cerimônia de entrega do diploma, uma cena da qual jamais me esquecerei. Outro grande e saudoso mestre, Pedro Ravelli, professor de história, estava com o canudo na mão para fazer a entrega enquanto eu subia ao palco. Fazia todo sentido e eu me sentiria honrado, dado meu fascínio pela matéria e o professor em questão… Eis que Inez, de maneira surpreendente e bem-humorada, tomou-lhe o canudo e disse que faria questão de entregá-lo a mim. Pronto. Eu voltava a enxergar o mundo da matemática outra vez.

Fica o questionamento: seria a matemática ciência exata ou humana? E o que representaria um professor/mestre/educador, senão aquele que joga a luz de sua sabedoria sobre o aluno/discípulo e o ensina a encontrar o caminho para a própria luz?

Como eu gostaria que cada jovem estudante no Brasil tivesse a oportunidade de aprender matemática com a Inez, ou história com o Pedro…

E então me peguei refletindo esta semana. Que o Brasil é um dos países que menos investem em educação no mundo é claro e cristalino. Que nosso país tem um grande déficit educacional também. E então ganha força o discurso da ignorância. Ora, é exatamente o mundo da matemática que eu não conseguia enxergar. A escuridão, mesmo para quem não consegue enxergar, está lá. Mas não é vista. Com a ignorância é a mesma coisa. Discursos medíocres, rasos, contraditórios, segregadores, oportunistas acabam por refletir essa escuridão. Refletem a tal ignorância. Refletem também a canalhice daqueles que reconhecem a escuridão e somam-se a ela.

Mas render-se a escuridão? Jamais.

Onde há escuridão, haverá luz.

E que minha querida professora siga seu caminho iluminado. Assim como meu querido professor.

Desse plano seremos iluminados por eles, e encontraremos o caminho para não seguir na escuridão.

Vila indica: Vamos ao teatro?

Escola da Vila

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Por Carolina Castro, mãe e ex-aluna da Vila

Há 7 anos me tornei mãe e passei a assistir a peças de teatro infantil, algo de que eu sempre tive certo preconceito.

Com o passar desses anos, que coincidiram com anos de crescimento em quantidade e qualidade das produções teatrais para crianças, ao menos em São Paulo, fui descobrindo o quanto as idas ao teatro com elas ainda bem pequenas foram estimulantes e enriquecedoras para todos nós.

Atualmente percebo que meus filhos são capazes de ficar atentos e em silêncio durante os espetáculos, sem dúvida, porque foram acostumados e ensinados na prática a curtir esse clima escuro e de mistério desde cedo.

Mary e os Monstros Marinhos é uma das peças infantis mais bonitas que vi nesses últimos anos.

Nela, as moças da Companhia Delas de Teatro nos contam a história de Mary Anning, uma paleontóloga inglesa que viveu no século 18 e achou o primeiro fóssil de ictiossauro ainda criança, aos 12 anos de idade.

Recomendo essa peça não só pela beleza da história de vida dessa mulher, que colocava já há tanto tempo questões muito importantes sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas também pela maneira encantadora com que a peça narra essa história: a iluminação e os objetos de cena são mágicos, o figurino de uma elegância sem igual e a atuação das atrizes é impecável.

No dia em que assisti à estreia pude também observar muitas crianças dispersas, falando alto, com dificuldade em lidar com o clima que só o teatro nos traz. Acredito que todas elas estejam preparadas para ouvir uma bela história bem contada, mas se houver algum conselho que minha experiência possa trazer a pais e mães é que levem seus filhos ao teatro desde cedo (quando a indicação etária da peça é livre) e permitam que, com o apoio de vocês nos momentos em que não entendam a história ou cansem das cenas menos apelativas sonora e visualmente, eles vivenciem essa experiência. Mesmo que vocês achem que eles ainda não estão preparados.

Vamos ao teatro?


Serviço:
Direção: Rhena de Faria
Dramaturgia: Cecília Magalhães, Julia Ianina, Thaís Medeiros e Rhena de Faria
Elenco: Cecília Magalhães, Julia Ianina e Thaís Medeiros
Produção geral: Companhia Delas de Teatro
Duração: 60 minutos
Local: SESC POMPÉIA
Quando: de 30/6 a 29/7, às 12h (devido aos jogos da Copa alguns horários poderão ser alterados)
Para mais informações, confira os horários no site do SESC. 

Ver, viver e ler a cidade, caminho para a cidadania

Escola da Vila
Na escadaria da Sé, de olhos fechados, alunos refletem sobre o que centro diz sobre nós

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Por Tiago Pinto Ferreira, professor de Ciências Humanas do F2

Dia 1º de maio de 2018, São Paulo acordou mais cedo. Era Dia do Trabalho, um dia de luta. Às 2h da manhã, um edifício de 24 andares veio abaixo, no centro da cidade; a luta, virou luto. A imagem do prédio desabando se espalhou rapidamente pelas televisões e pelas redes e ganhou contornos ainda mais dramáticos, por registrar o exato momento em que um morador, prestes a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros, foi engolido pelas chamas e escombros. Ricardo, mais conhecido como Tatuagem, tinha 30 anos, trabalhava como carregador, gostava de plantas, era skatista e foi a primeira vítima fatal da tragédia.

O edifício Wilton Paes de Almeida já havia abrigado a sede da Polícia Federal e desde 2002 pertencia à União. Por estar abandonado, em uma cidade com um déficit habitacional de cerca de 358 mil moradias[1], foi ocupado por um dos vários movimentos sem-teto da cidade e passou a abrigar cerca de 50 famílias de trabalhadores. Somente no centro de São Paulo são 70 prédios ocupados[2] e, na cidade, cerca de 708 edifícios[3] já foram notificados por não estarem cumprindo sua função social, ou seja, não são utilizados para moradia, atividades econômicas, sociais ou culturais, como determina a Constituição Federal.

Escola da Vila
Aluno do 8º ano, observando o prédio Wilton Paes de Menezes, dias antes da tragédia

A despeito das dúvidas que envolvem o caso, como a idoneidade dos coordenadores do movimento dessa ocupação e as diferenças entre as estratégias e os valores, que orientam os inúmeros grupos que lutam pelo direito à moradia em São Paulo, a tragédia, como faísca, reacendeu um importante debate em nossa sociedade: por que existem tantos imóveis vazios em uma cidade em que tantos não têm onde morar?

Escola da Vila
No transporte público

Dia 6 de abril, um grupo de alunos do Ensino Fundamental II da Escola Vila foi para o centro de São Paulo, com o objetivo de descobrir o que essa região da cidade revela sobre nossa realidade social. Para responder a essa questão, percorremos um roteiro que se iniciou na Praça da República e se encerrou na Sé. Os alunos, divididos em grupos, observaram principalmente os tipos sociais, os prédios, suas funções e arquitetura, os diferentes usos do espaço público, a arte de rua e registraram suas observações em diferentes formatos, como fotos, desenhos e versos. No trajeto, a primeira parada se deu no Largo do Paissandu para observarmos um prédio todo de vidro, que chamava a atenção por estar pichado de cima a baixo e por se tratar de uma das maiores ocupações do movimento sem-teto no centro. “Tem pessoas morando aí?” Em seguida, cruzamos a famosa Galeria do Rock, berço de diversos movimentos culturais, como o punk, o hip-hop, dentre outros. Saindo da galeria, caminhamos em direção ao Theatro Municipal, edifício inspirado na Ópera de Paris e palco principal da Semana de Arte Moderna de 22. No outro lado da rua, um shopping ocupa o antigo prédio da Light, empresa que teve papel central no planejamento urbano de São Paulo.  No Viaduto do Chá, paramos para ouvir a cidade: o som dos carros quase lembra o som do rio… Em frente à Praça do Patriarca, “Praça do Patriarca?”, os alunos avistaram a sede da prefeitura. Na entrada, o brasão da cidade: Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), e em todo o seu entorno, grades e polícia. “Por quê?”

Escola da Vila
Theatro Municipal

No muro da Igreja de São Francisco que, junto com o Mosteiro de São Bento e Catedral da Sé, compõe o famoso Triângulo Histórico, marco do princípio da urbanização da cidade, lia-se “Menos cadeia e mais escola”. Próxima estação: Sé. Onde tudo começou, onde tudo termina. “Por que estas pessoas estão aqui?” ou, parafraseando Adoniran Barbosa, “e essa gente aí, como é que faz?”.

Aprender na cidade

Na Carta das Cidades Educadoras, elaborada no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras (1990), reuniram-se “os princípios essenciais ao impulso educador da cidade”. Nos primeiros parágrafos de seu preâmbulo é possível identificar e compreender o papel que a cidade tem ou pode ter no processo de formação de seus cidadãos:

(…) a cidade oferece importantes elementos para uma formação integral: é um sistema complexo e ao mesmo tempo um agente educativo permanente, plural e poliédrico (…) A cidade educadora tem personalidade própria, integrada no país onde se situa é, por consequência, interdependente do território do qual faz parte. (…) O seu objetivo permanente será o de aprender, trocar, partilhar e, por consequência, enriquecer a vida dos seus habitantes.

Para compreender o “avesso do avesso”, é fundamental ler a cidade. Nesse sentido, é essencial criar novas metodologias e propostas didáticas que possibilitem aos alunos acessar espaços, histórias e realidades que muitas vezes não se encontram nos limites da escola.

Em 2018, o Vila Ativa tem como um dos seus principais objetivos ampliar a relação da escola com a cidade, a partir de atividades que possibilitem a compreensão dos diversos alfabetismos urbanos. Entender a cidade como discurso, e compreendê-lo, permite desconstruí-lo, por meio da criação de caminhos de aprendizagem que o confrontem. Por essa razão, o centro, espaço de convergência, de tempos, rios, pessoas e contradições, é lugar privilegiado para uma leitura crítica de São Paulo e do Brasil contemporâneo. Certamente as imagens captadas pelos alunos ganharam outro sentido e dimensão. O prédio que estava lá não está mais, as pessoas que estavam lá não estão mais. De onde vieram? Para onde vão? Qual o papel do Estado nessa tragédia? E o nosso?

Escola da Vila

Ver, viver e ler a cidade é, portanto, um objetivo a ser perseguido pela Escola. Trata-se de uma estratégia que certamente enriquece o processo de construção do conhecimento, e que pode contribuir, de maneira decisiva, para a formação de cidadãos atuantes, sensíveis às desigualdades de toda ordem e, por consequência, comprometidos em participar da criação de realidades outras, mais justas, mais humanas.


[1] Fonte: Secretaria Municipal de Habitação.

[2] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

[3] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

Fotografia é arte ou é ciência?

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Por Mauritz Gregorio de Vries, professor de Química do Ensino Médio

No Grupo de Investigações Científicas (GIC) investigamos fenômenos e técnicas diversas. Nos últimos anos construímos sistemas de captação de água e desenvolvemos um tratamento para torná-la potável, investigamos diversas características do solo e construímos técnicas para remediá-lo (construção de composteira e correção de pH), desenvolvemos pilhas rústicas, decompusemos a água para aproveitar o gás hidrogênio e o gás oxigênio, fizemos diversas reações químicas para obter diferentes gases e, assim, analisarmos o crescimento de plantas em diferentes atmosferas, entre muitas e muitas outras experiências.

De forma geral, a cada ano começamos o trabalho com um projeto coletivo, no qual todos os alunos estão envolvidos com o mesmo problema. Com o tempo, a partir da maior familiaridade com o laboratório, visitas a feiras de ciências e experiências com o controle de variáveis, os projetos individuais serão planejados e desenvolvidos. E, de modo gradual, o papel de construir perguntas, decidir quais materiais são necessários, planejar e replanejar o percurso investigativo e analisar os resultados é, cada vez mais, assumido pelos alunos com autonomia.

O nosso projeto coletivo de 2018 é o de fotografia, conhecimentos e aparatos. Construímos câmaras escuras e projetores e, a partir da análise desses resultados e estudos, estudamos o mecanismo da visão humana. Na sequência, fizemos nossos “pinholes” – latas metálicas com um pequeno orifício – e no seu interior colocamos um pedaço de papel fotossensível. Fizemos fotos com diferentes tempos de exposição do papel à luz e também tomamos o cuidado de medir o nível de luminosidade para calibrar as nossas câmeras. Assim, conseguimos materializar as imagens num pedaço de papel! Para revelar a imagem negativa, fizemos o nosso próprio revelador, interruptor e fixador! No momento, estamos realizando ajustes, melhorando a câmera que fizemos e testando diferentes reveladores. Para terminar, nos envolveremos ainda no desafio de fabricar o nosso próprio papel fotossensível. Imaginem a materialização de uma imagem inteiramente feita à mão?! Ao colocar a mão na massa, registrar, pesquisar, replanejar, discutir, nos envolvemos no problema de modo mais integral, de modo que nem sempre somos capazes de distinguir em nossa prática o que é técnica, o que é arte ou o que é ciência!

Minha experiência no comitê de famílias da Vila 

Escola da Vila

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Por Renato Salgado, pai de dois alunos da Vila e profissional de comunicação e design, em que lida frequentemente com desafios sobre como comunicar valores institucionais para círculos de interlocutores e acredita que isso é o que a Vila vem precisando ultimamente.

Agora que a maré “mais ou menos” acalmou, queria compartilhar com vocês algumas reflexões.

Em 2017, quando veio a público a compra da Escola da Vila pelo Grupo Bahema, a “comunidade Vila” (alunos, pais, professores e colaboradores) se sentiu meio “traída”, pelo que considerou uma dupla falta: foi vendida para um grupo de investimento (que, neste meio, é facilmente lido como um agente que prioriza resultado financeiro, mesmo em detrimento/flexibilização de valores) e, veladamente, um sentimento de indignação por “não termos nem sequer sido consultados! Viemos a saber disso pelos jornais, como fato consumado”.

A legitimidade desses dois sentimentos me causou um desejo de entender mais a fundo esse processo, como um resultado de uma cultura instaurada. Sempre acredito que os processos coletivos são complexos por misturarem leituras racionais com componentes emotivos…

Eu, como pai de dois filhos na Vila, percebi, em meio àquele fuzuê, uma qualidade muito grande: se a comunidade se sentiu traída, é porque antes se sentira incluída. E isso era porque a Escola da Vila soube criar, ao longo de seus 38 anos, um sentimento de pertencimento que sua comunidade aprovava, praticava e valorizava.

Ora, esse sentido de apropriação pelos interlocutores ao redor de uma Marca é o que, hoje em dia, as empresas e instituições mais almejam e zelam. A Vila tinha isso de sobra e “estava jogando fora junto com a água da bacia”.

Com isso, senti que o maior problema que a Escola da Vila enfrentava não era um problema de perda de princípios (era cedo para dizer isso), mas, sim, um imenso problema de comunicação. A escola não soube reconhecer que criara, ao longo de décadas, um espaço no qual a comunidade se sentia “dona” da escola e, consequentemente, não podia ter tomado essa decisão tão profunda sem envolver essa comunidade. Ou seja, a escola não soube comunicar sua transformação.

Esse é um processo de posicionamento institucional no qual eu navego algumas vezes com meus clientes no meu exercício profissional e senti, à época, um desejo de ajudar a clarear essa nuvem (também para sentir se a continuidade da educação dos meus filhos na Vila estaria preservada. Eu, pessoalmente, não via – necessariamente – como ruim a venda, mas compartilhava com outras famílias a sensação de que “só o tempo diria”).

Sincrônico a isso vi em algumas famílias, por motivos parecidos, o mesmo desejo e disponibilidade. E, finalmente, somou-se a isso a abertura da Vila para acolher esse grupo que culminou com um chamado às famílias para a formação do que veio a ser o Comitê.

Fizemos, desde agosto de 2017, três reuniões. Pouco, mas já o suficiente para gerar profundas reflexões e semear mudanças, como a que conto a seguir.

Já no primeiro encontro eu coloquei essa minha abordagem do problema. Percebi uma escuta atenta e quase aliviada da diretoria da escola e da Bahema, pois de certa forma foi reconhecido um aspecto que até então era difuso e incompreensível. Minha leitura é que eles – por causa do tombo – estavam fazendo uma enormidade de medidas de recuperação da confiabilidade e não estavam priorizando comunicar essas ações. Eu considerava isso tão fundamental quanto fazê-las: só assim a comunidade se reconheceria novamente como tal.

Sugeri que eles procurassem alguma ajuda (uma consultoria) para recuperarem seus valores institucionais e encontrassem vias de comunicá-los de maneira compreensível para sua comunidade.

Surpreendi-me com a rápida adesão à minha ideia, bem como a outras de outros participantes do comitê. Com isso, está sendo realizado um trabalho que, em breve, resultará em um afinamento do modo da Vila se comunicar com seus interlocutores (alunos, professores, famílias, colaboradores, pares, concorrentes, governos, sociedade).

Na última reunião do comitê das famílias da Vila, dia 7/5/18, sentimos que seria muito enriquecedor para este espaço de reflexão e busca de estreitamento da relação da Vila com sua comunidade, que ele fosse mais representativo (hoje somos 12 participantes das três unidades).

Com isso, vimos convidar familiares interessados em participar desse exercício de reflexão (sobre os interesses e conflitos que sentimos, como pessoas desta comunidade) para integrar o comitê.

Os interessados podem nos contatar pelo e-mail: familiasvila@gmail.com A ideia é marcarmos um primeiro encontro de apresentação do que vimos vivendo desde o início e de estabelecimento de estratégias de continuidade contando com a visão ampliada que mais olhares certamente construirão.

Acho que isto é o que a Vila é: nós.

Um abraço a todos.

Precisamos falar sobre isso

Uma pequena reflexão sobre um difícil tema

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Como nos posicionar diante de tragédias públicas envolvendo jovens?

Esse foi o convite que recebemos das mais variadas formas e dos mais variados sujeitos: alunos do Ensino Médio adentrando a sala da coordenação pedagógica e da orientação educacional com interesse legítimo de conversar, pais preocupados ligando e enviando e-mail, professores em todos os espaços da Escola discutindo o contexto social e escolar, amigos e conhecidos em restaurante e supermercado querendo obter informações que explicassem a relação entre jovens e suicídio.

Por infeliz coincidência, já dada a seriedade e gravidade das notícias, eu estava lendo um livro cujo título antecipa o peso do enredo: “O pai da menina morta”. O autor, Tiago Ferro, inicia a escrita do livro logo após sua filha ter morrido, e com uma linguagem arrojada e uma forma textual pouco convencional nos faz conhecer a dor dilacerante de perder uma filha. Sua escrita é visceral. Quase podemos sentir a dor aguda em nossas vísceras. Quase vemos as lágrimas e o sangue escorrendo pelas páginas.

“Você deixou sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!” Assim, escreve Ferro em um dos questionamentos do protagonista da história. A culpa pela morte da filha está presente no decorrer do texto, mas mais do que isso há a tentativa inócua de compreender a logicidade do fato. A morte não tem lógica. Menos ainda a morte de uma filha. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada por um vírus. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada pelo vírus da gripe. Não há lógica.

O suicídio sofre do mesmo mal, sua ilogicidade. Há uma dificuldade extrema de ser compreendido, ainda mais quando se trata de jovens. Mais ainda quando se trata de jovens de classe social alta. Mais ainda quando se trata de jovens com boas famílias, boas viagens, boas escolas, bons amigos. Podemos inferir que eram jovens com boas vidas. Mas, uma boa vida não pressupõe uma vida sem agruras, tristezas, amargor, dissabor, angústia, vicissitudes, fragilidades, desequilíbrios. Se há algo democrático, como sinônimo de igualitário, nesta vida, é o sofrimento psíquico. Esse não diferencia os humanos em classe social, etnia ou credo, é universal, podendo atingir qualquer um, basta ser humano e estar vivo.

No livro, o protagonista faz listas infindáveis durante toda a narrativa tentando colocar ordem no caos. Lista de medos. Lista de títulos. Lista do que fazer. Lista do que não fazer. Lista de tratamentos. Lista de dúvidas bobas. Além disso, o protagonista busca o significado das palavras, também com a intenção de domar o caos. Significado da palavra céu. Significado da palavra cérebro. Significado da palavra miocardite. Significado da palavra clube. Mas não há lista e significado que deem conta da morte.

Como responder às demandas de posicionamento diante das tragédias?

Não há prescrição. Não há manual. Não há bula. Mas há sujeitos impactados, comovidos, sensíveis. Sujeitos capazes de analisar contextos complexos e não reduzir a dor à pressão escolar, nem à separação de pais, nem à decepção amorosa ou briga entre amigos. Sujeitos capazes de escutar. Sujeitos que sabem a importância da palavra.

Tiago Ferro buscou ajuda com Drummond, Gilberto Gil e Eric Clapton. Ele procurou seus pares que também perderam filhos. Na Escola nossa tentativa é que alunos, pais e professores sintam que têm pares, que as vozes apareçam em nossa comunidade.

Escola da Vila

No dia 5 de maio, na Folha de São Paulo, a personagem da cartunista Fabiane Langona ilustra a tentativa de fingir a felicidade, inclusive utilizando álcool. Fingir para quem? Quanto tempo de fingimento? É preciso sempre mostrar que está feliz, as redes sociais que o digam, o que é muito penoso. Sem dúvida esse pode ser um investimento muito perigoso. Talvez seja essa uma das grandes infelicidades: a necessidade de se mostrar feliz o tempo todo.

Tentar aplacar a dor com fingimentos e álcool pode ser muito danoso. A tristeza precisa aparecer na escola, no clube, nas casas, ainda mais entre os jovens que estão em processo de construção identitária. Mas não é de hoje que a tristeza e a depressão devem ser escondidas, já foi até considerado pecado grave, afinal isso demonstrava subestimação ao poder Divino que possibilitou a vida, inclusive em cemitérios judaicos era costume colocar os suicidas nas margens do cemitério por terem desprezado a vida, não mereciam a centralidade.

Escola da Vila

No mesmo dia, também no jornal Folha de São Paulo, o cartunista Caco Galhardo ilustrou o desabafo de Lili com a sua sensação de “afundamento”, e seu par parece não levá-la muito a sério, afirmando ser uma simples impressão, imaginação, um equívoco.

Tiago Ferro sabia que o que sentia não era “impressão”, talvez tenha escrito o livro como forma de ajustar a vida depois da ausência da filha, de conviver com a perda, de encontrar um novo sentido para vida. Ele precisou escrever. Nós precisamos falar sobre dor, precisamos falar sobre morte. Precisamos levar essas dores a sério. Uma gripe pode levar à miocardite. Uma tristeza à depressão. O álcool à impulsividade. A ideia não é alardear, apavorar, pelo contrário, é cuidar de nossa saúde psíquica em uma sociedade adoecida.

Saber quando não intervir: uma competência profissional

Escola da Vila

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Por Sonia Barreira, direção geral

Não é tarefa fácil explicar como ensinamos aqui na Vila, mas, às vezes, um de nós tem uma inspiração e descreve uma cena emblemática que fala muito sobre as decisões que um professor tem de tomar no dia a dia para que os alunos aprendam.

“Vejamos uma cena escolar típica: crianças de 6 anos, reunidas em grupos de 4, cuja proposta em sala de aula é a explicação de um problema matemático. As crianças disputam a palavra entre si. A tensão é alimentada duplamente, tanto porque é preciso ganhar espaço para se expressar como ao mesmo tempo deduzir o problema em questão. Pior ainda quando uma colega coloca argumentos pertinentes. Isso pode ajudar, por um lado, pois, com as contribuições do outro, uma aluna consegue reafirmar a sua incipiente teoria, mas também pode dificultar, na medida em que ela pode se ver perdendo a batalha intelectual travada em plena manhã de um dia letivo. A professora não tem pressa em formalizar a resposta correta. As alunas se envolvem, procuram palavras, por vezes desanimam e desistem, e em seguida voltam a encarar o problema com entusiasmo renovado quando uma solução despenca do córtex pré-frontal para a ponta da língua. E alguns ainda têm a desvantagem do aparelho ortodôntico, que atravanca as palavras e limita o desempenho em campo.” (Fermín Damirdjian, Ensinar à distância ou aprender na convivência? 3/4/2018) 

A ideia aqui era apenas mostrar como a troca entre os alunos é fecunda e possibilita a aprendizagem. No entanto, grifamos uma afirmação que pode ter passado despercebida: a atuação, ou melhor dizendo, a “não atuação” do professor. E por que isso merece destaque?

Porque no contexto dinâmico e imprevisível da sala de aula, o professor só pode “não se apressar em formalizar a resposta correta” se ele sabe da importância fundamental da interação entre pares. E para acreditar nisso a ponto de suspender temporariamente aquilo que usualmente parece ser a ação principal do docente – dar a explicação correta – é preciso compreender como se processa a aprendizagem.

É preciso instaurar o problema para as crianças. A suspensão temporária da explicação deve gerar boas perguntas para engajar aqueles que estão à margem da discussão. É necessário também ressaltar algumas hipóteses, retomar algumas certezas, construir outros desafios. Outro ingrediente é a construção da confiança e do respeito – é preciso coragem e incentivo para arriscar apresentar em voz alta uma solução que nasceu dentro de cada um.

Enquanto aprendem a enfrentar um problema matemático, são obrigados a ouvir o colega tentando convencê-lo a explicar por que concorda ou não. Para isso é necessário ser claro, falar num tom amistoso, trazer o outro para sua ideia. Também é preciso reconhecer quando o outro parece ter razão, e isso é reflexão. É isso o que chamamos de cooperação. No contexto da aprendizagem, cooperar não é ajudar e sim operar com o outro, pensar e agir considerando as ideias e a transformação em ideias novas, a partir desse embate o que cada um sabe e o que, juntos, podem aprender.

Assim, ao optarmos por ensinar matemática dessa maneira e não de outra, não estamos escolhendo apenas a melhor forma de adquirir conceitos matemáticos, que afinal são os conhecimentos em jogo, estamos também educando para o diálogo, para a vida coletiva. Estamos escolhendo a melhor forma de ensinar e de educar, em simultâneo.

Esta é a força do nosso projeto pedagógico.

Jogos no Parque – momento de interação e criação de novos vínculos no FII

Escola da Vila

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Por Vera Barreira, orientação do Fundamental II

- Do que eu brinco agora?

- Não tenho nada para fazer!

- Ninguém me chama para brincar… 

Muitos de nós já ouvimos frase semelhante dita por alguma criança num dos tantos momentos de tédio e falta de opção que invadem a vida dos pequenos postulantes a adolescentes de 11 e 12 anos, não é?

Na escola, muito embora repleta de amigos e espaço, essa também pode ser uma questão: o que fazer no horário do recreio?

Os alunos do FII se espalham pela escola em atividades variadas: uns jogam bola nas quadras, outros vão para o ping-pong e pebolim, alguns andam ou sentam pelo parque para conversar com amigos, há ainda os que gostam de brincadeiras de correr, como pega-pega ou esconde-esconde.

Escola da Vila

Mas há também muitos alunos que ficam meio perdidos nesse horário, quando todos se dispersam em subgrupos interclasses. Muitos deles preferem ficar dentro da sala, onde sempre fica uma turminha e é garantido que você não ficará sozinho, mas não necessariamente interagindo com os outros. Alguns chegam a ficar isolados, se distraem com joguinhos no celular ou ouvindo música.

Pensando nesses alunos que ainda precisam de uma mãozinha na hora da interação, da brincadeira, do bate-papo, pensando em promover novas interações a partir de atividades diferentes das já ofertadas, pensando em uma forma de combater o isolamento de alguns, propusemos aos 7os anos um projeto diferente, em que eles possam ser os organizadores, tomar decisões, sugerir e resolver as questões que aparecerem. Um projeto coletivo.

Escola da Vila

Iniciamos na aula de OE uma conversa sobre a importância de sair da classe na hora do recreio, dar uma volta, mudar de ares, ver mais pessoas, ter um tempo de relaxamento fora do ambiente onde estudam a manhã toda. Em seguida, conversamos sobre as atividades da hora do recreio: o que fazem, o que gostariam de fazer, que outras opções gostariam de ter?

Entre o que já fazem e o que gostariam de fazer, os alunos fizeram um levantamento de novas ideias de atividades que poderiam propor nesse horário. Entre as mais citadas, e que eles próprios achavam que seria possível levar adiante como projeto comum, estava a ideia de organizar um espaço para jogar jogos de mesa, como os de baralho e tabuleiro, um lugar para ouvir música e um lugar confortável para sentar e conversar.

Escola da Vila

Conversas, ideias, discussões nos levaram a identificar um espaço amplo na escola, com mesas e cadeiras para mais de 30 crianças e com armários para guardar jogos! Um espaço que está livre nos 30 minutos de recreio do FII! Ocupamos com caixinha de som, vários jogos e um grande tapete com almofadas! Os alunos se revezam em trios ou quartetos que ajudam a colocar os jogos nas mesas e depois recolhê-los.

Escola da Vila

Estamos há cinco semanas colocando em prática a ideia do JOGOS NO PARQUE, projeto construído e gerenciado pelos próprios alunos do 7º ano. Rapidamente a ideia contaminou outros alunos e passou a fazer parte das opções de muitos estudantes. Há dias em que o espaço está cheio, outros, nem tanto. Num balanço que fizemos com os alunos, a aprovação do lugar foi muito alta, mesmo daqueles que só frequentam uma ou duas vezes por semana.

Escola da Vila

“É um lugar legal, você põe música, você fica lá com pessoas, até conheci umas pessoas.” 

“Dá pra conhecer novos amigos trocando figurinhas também, é muito divertido! Dá para trazer o jogo que quiser…” 

“Eu pensei que não tinha muita coisa lá para fazer, aí fui lá pra ver e achei legal!” 

“Eu gostei muito porque é um espaço diferente onde dá para descansar, ficar com os amigos. Eu joguei alguns jogos de lá, e tem outros que eu não joguei ainda, mas eu quero jogar outros dias.” 

“Eu gostei porque tem muitos jogos e todo mundo gosta de algum, então ninguém fica parado lá sem fazer nada.” 

“Eu achei bem legal ter umas almofadas ali no canto, e tem uns jogos que eu nunca tinha visto!” 

“Eu não gosto de ficar pelo parque, prefiro ficar na classe ou na biblioteca, mas achei essa sala de jogos melhor do que ficar na classe!”

Escola da Vila

Tudo tem corrido muito bem! O único contratempo que tivemos foi a chegada, ou melhor, a invasão do espaço por uma atividade adorada, mas extremamente barulhenta, já velha conhecida de todos: bater figurinhas! Depois de duas semanas em que tudo ia bem, o espaço virou do avesso com dezenas de crianças animadíssimas falando/gritando todos juntos enquanto batiam figurinhas nas mesas. E os que não estão colecionando, e são muitos, se viram perdidos… A música? Ninguém mais ouvia! Os jogos? Ninguém conseguia jogar! Seguiu-se um debate sobre o que seria daquele espaço se as figurinhas continuassem ali. Muitos alunos, apesar de gostar de figurinhas, estavam convencidos de que não seria possível manter essa atividade ali dentro. A solução foi encontrar outro lugar para as figurinhas, e o espaço voltou a ter a tranquilidade necessária para se ouvir música e ouvir as risadas daqueles que estão se divertindo com os jogos de mesa.

Escola da Vila Escola da Vila

Esta semana, entramos numa fase nova. Os alunos perceberam que, em dias que os 7os anos têm quadra, a frequência diminui. Diante disso, decidiram abrir o espaço para a participação de alunos dos 6os anos. Fizeram o convite nas salas, e aos poucos os alunos estão chegando para conhecer e participar desse novo espaço.

Escola da Vila

O espaço está ali e é uma nova opção para aqueles alunos que gostam de ficar na sala de aula na hora do recreio, para os que ficam meio perdidos no espaço do parque, para aqueles que gostam de ficar em grupo, que buscam novas atividades. O mais importante é que esse é um espaço que está facilitando o entrosamento, propiciando a interação entre os alunos, unindo as séries… Um espaço ao que todos são bem-vindos!