Deliciosos encontros entre crianças e adultos.

-
Por Paula Tonetto e Dayane Monteiro (Professoras de Grupo 2)
-

No G2, com os pequenos de 4 anos, temos uma unidade de trabalho chamada “Profissões”, por meio da qual  eles têm a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o universo adulto.

Na primeira etapa do trabalho entrevistamos os profissionais que fazem nossa escola acontecer. Observamos fotos de diversas pessoas trabalhando, discutimos o que as crianças sabem sobre elas e depois visitamos esses profissionais em seu local de trabalho (o que se configura uma verdadeira aventura para nossos pequenos, pois conhecem espaços antes não explorados!), listamos o que despertou curiosidade e gostariam de descobrir, e, por fim, realizamos entrevistas com aqueles que atuam mais próximo às crianças.

Outro objetivo que temos nessa etapa, é que as crianças desnaturalizem algumas situações. Por exemplo, elas chegam todos os dias e encontram a nossa sala limpa e organizada, ou então veem sempre o jardim cheio de plantas e bem cuidado, e acabam ficando sem saber ou não se dão conta do trabalho que acontece para que essas coisas estejam desse jeito. Assim, quando começam a receber em classe estes profissionais e os entrevistam, além de conhecê-los no âmbito pessoal, as crianças têm a oportunidade de conhecer suas funções e passam a valorizar ainda mais o trabalho que realizam. Há também um estreitamento de vínculo, mais respeito e uma melhor aceitação das regras de convivência. Colaborar com o trabalho desses profissionais passa a ser mais tranquilo para nossos pequenos. Aliás, é uma graça vê-los cumprimentado o porteiro, o jardineiro, a auxiliar de limpeza, a bibliotecária, chamando estas pessoas pelo nome.

Na segunda etapa, conhecemos a profissão dos pais de nossos alunos. “O que será que meu pai e a minha mãe fazem enquanto eu estou na escola?” A ideia é esclarecer um pouco essa questão. Queremos ampliar o conhecimento de mundo das crianças e, além disso, enriquecer as possibilidades de jogo simbólico (o faz de conta). Mas, acima de tudo, pretendemos passar momentos agradáveis na companhia dos pais de nossos alunos.

Todos os pais são esperados com grande ansiedade! Marcamos no nosso calendário o dia de cada um vir à escola e, literalmente, contamos os dias. Para a criança que recebe o próprio pai ou a própria mãe é um dia tão especial quanto o aniversário! É uma situação onde todos saem ganhando. As crianças passam a conhecer os pais dos colegas e entram em contato com realidades nunca antes imaginadas (imagina que demais conhecer uma mãe que é pesquisadora e trabalha com ratinhos de laboratório ou um pai que é chefe de cozinha, ou, ainda, um engenheiro químico que realiza uma experiência na frente de todo mundo?). Os pais, por sua vez, têm a chance de entrar na sala de aula do filho e conhecer também um pouquinho mais do que acontece no dia-a-dia da escola.

E as relações entre os pais e as crianças não se encerram no dia da visita. É muito gratificante, tanto para nós, professoras, quanto para os pais, poder notar, nas horas de entrada e saída, as crianças reconhecendo os adultos que aparecem para buscar seus filhos, cumprimentando-os e comentando “Lembra quando você veio aqui e mostrou aquela bola grandona e deixou a gente sentar em cima?”, ou “Eu lembro do dia que a gente cozinhou junto, foi muito legal!”.

Tem uma profissão muito cabeluda ou não acha jeito de apresentá-la numa maneira fácil para as crianças? Não tem problema, é possível também apresentar um hobby. Fazemos de (quase) tudo para que não se perca essa chance única de aproximar pais e filhos num ambiente tão importante e próprio da criança como a escola.

O trabalho com as profissões no Grupo 2

Por Daniela Munerato

Imersas no egocentrismo inerente à faixa etária, as crianças pequenas têm como principal referência suas experiências pessoais.

Em relativamente pouco tempo de vida percebem a casa e o aconchego na companhia dos pais e de outros cuidadores como lugares de segurança.

Quando chegam à escola, começam a se relacionar com outras pessoas – adultos e crianças – e também com um novo espaço. Então é chegada a hora de construir uma relação com outras pessoas e aceitar que há regras de convivência neste novo espaço. Aprender a respeitar e também aprender a respeitar-se são novos desafios que passa a enfrentar.

Aos poucos, as crianças começam a observar que cada ambiente possui características que lhe são próprias. Aos seus olhos, por exemplo, o padeiro é aquele que sempre lhe oferece pão de queijo para provar e pertence àquela padaria; da mesma forma que a banca de jornal não poderia existir sem o conhecido “seu José”, e assim por diante.

Portanto, quando chegam à escola as crianças acreditam que todos os funcionários moram neste espaço, por pertencerem a ele, inclusive seus professores. Afinal, como explicar o parque limpo ou a presença da professora quando chegam à sala? Já observaram a cara de decepção das crianças pequenas quando encontram seus professores em outros espaços, como o cinema ou supermercado? E se estiverem acompanhadas então dos filhos e do marido?

Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, sabemos que aos quatro anos de idade as crianças ampliam a capacidade de olhar o outro, observar diferenças, testar limites, imitar condutas até então nunca experimentadas. Diante das mais variadas situações buscam compreender a origem e os princípios a partir dos quais constrói relações: Por quê? Onde? Como? É uma fase considerada de transição. O vocabulário vai se ampliando e é cada vez mais bem empregado. Enfim, assistimos a importantes transformações do ponto de vista cognitivo, social e afetivo.

Em casa, a frase “Vou trabalhar!”, entendida até então como um momento no qual os pais estão ausentes, começa a ser questionada com perguntas do tipo: “Como é o seu trabalho?” “Onde você trabalha?”, “O que você vai fazer?”

A unidade de trabalho “Profissões”, no G2, acontece considerando todo o contexto colocado anteriormente e cumpre vários propósitos. Conhecer a natureza de algumas profissões ajuda na compreensão do universo do trabalho, do mundo adulto. Ajuda a ampliar relações de confiança no ambiente escolar, a atribuir importância ao trabalho realizado cotidianamente pelas pessoas que fazem a escola acontecer. Garante a segurança de que os pais exercem atividades que apreciam, que escolheram e que existem diversas profissões na nossa sociedade.

No início do trabalho o foco são os profissionais da escola. Eles são observados, entrevistados e se tornam muito conhecidos e queridos. Da mesma forma, acontecem posteriormente os encontros com os pais. Quando eles marcam entrevista, as crianças contam os dias para este encontro. Preparam perguntas e ficam muito animadas para ver se confirmarão ou não suas hipóteses sobre o que é ser, por exemplo, psicólogo. Quem diria que uma psicóloga não trabalha com piscinas?

Outro ganho importante que acontece através deste trabalho é a aproximação das crianças com os pais de seus colegas, que passam a ser cumprimentados com enorme desenvoltura, e são surpreendidos com comentários sobre o dia do encontro e novas perguntas sobre a profissão exercida.

Diante das novas aprendizagens sobre o tema, as crianças constroem olhares diferentes sobre a organização social: nem todos os núcleos que reúnem pessoas representam lares, mas podem ser locais de trabalho. Por outro lado, retomam a referência do ambiente familiar para pensar que todos os profissionais que conhecem pertencem a famílias, trabalham e voltam para suas casas. Isso também tranquiliza as crianças. E há ainda os que arriscam pensar o que gostariam de ser quando “forem grandes”.