“Livros são para sempre”: O Centenário de Tatiana Belinky

Escola da Vila
Tatiana Belinky na biblioteca que leva seu nome, na unidade Butantã.

Por Fernanda de Lima Passamai Perez, mediadora de leitura e assistente de biblioteca

“Por que a criança não gosta de estudar?”
Na hora eu respondi: a criança não quer estudar, ela gosta de aprender. Estudar vem depois. A criança estuda o tempo todo: o ambiente, a vida, o mundo, ela estuda sem saber, mas o que a criança gosta mesmo é de aprender. Livro não é castigo, não é tarefa, não é chateação.
É uma delícia quando você o descobre.
Tatiana Belinky[1]

Há quase seis anos atrás, em 16/6/2013, leitores de todo Brasil se despediam da escritora Tatiana Belinky, que estava com 94 anos à época. Apesar da despedida, suas obras não deixaram e não deixam a melancolia tomar conta de seus leitores. Ao contrário, apesar da aparência frágil no fim da vida, essa senhora de opiniões contundentes e provocativas sempre demonstrou muita paixão pela vida, pelas histórias e não se deixava abater facilmente.

Vinda de São Petersburgo, na Rússia, passando por Riga, na Letônia, Tatiana chegou ao Brasil aos 10 anos. O primeiro texto em português que chegou às suas mãos foi Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato, autor que conheceu pessoalmente e cujas obras a encantavam, tanto é que, já adulta, em parceria com o marido Júlio Gouveia, roteirizou para a televisão a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo, que Lobato não chegou a ver. Ao todo, foram 360 programas, ao vivo![2]

Tatiana, que falava russo, alemão e letão – idiomas aprendidos nos tempos em que morou em Riga, onde as placas de rua traziam informações nos três idiomas – traduziu várias obras escritas originalmente nesses idiomas para o português, como O Caso do Bolinho[3], um conto tradicional bastante conhecido e querido da criançada.

O Limerique[4] também era marca registrada da autora, que adorava brincar com as palavras. Inspirada pelo poeta Edward Lewis, que desenvolveu o Limerique a partir de um estilo de verso típico da cidade de Limerick, na Irlanda, Tatiana trouxe diversos temas para além do universo infantil nesse estilo bem peculiar de poesia, pois para ela “a criança pode ler o que quiser” (2012).

Para nós da Escola da Vila, e principalmente da Biblioteca Tatiana Belinky na unidade Butantã, manter viva a memória de nossa patronesse é fundamental. Diariamente somos inspirados por sua imagem (para quem não sabe, temos uma foto dela ao lado da porta de entrada) e seu legado, buscando desenvolver atividades que divirtam os leitores, mas que também estimulem seu desejo de investigar, de aprender e de compartilhar seus saberes.

Logo, como não poderia deixar de ser, o Centenário de nascimento de Tatiana Belinky tem que ser comemorado! Sim, 100 anos! E mais de 50 anos deles dedicados à literatura, ao teatro e a seus leitores.

Por isso, a partir de hoje, começaremos uma série de homenagens à autora nas três bibliotecas de nossas unidades, por meio da leitura de suas histórias, exposição de seus livros (muitos deles autobiográficos) e um Muralique — sim, ela também inspirou o nome de batismo de nosso mural — com informações e curiosidade sobre a autora.

Aguardamos toda a comunidade da Vila para uma visita!

Morrer é só despedida.
Não vale ficar nervoso.
Porém não curtir a vida,
Não viver… é horroroso![5]


[1] Em Livros são amigos para sempre. Entrevista a Marcos Beltramin. Cidade Nova, mar/2012, n. 3 (p. 23-25) disponível em:

[2]Em TV sem VT e outros momentos Tatiana Belinky descreve como foi produzir programas ao vivo, sem cortes diante de situações inesperadas. Tatiana Belinky. TV sem VT e outros momentos. São Paulo: Paulinas, 1997.

[3]Tatiana Belinky. O Caso do Bolinho. São Paulo: Moderna, 1990.

[4] Segundo a autora, “É uma fórmula de verso com cinco linhas: as duas primeiras formam rima entre si. A terceira e a quarta também rimam entre elas. A última linha rima com as duas primeiras”.

[5]Tatiana Belinky. O segredo é não ter medo; ilustração de Guto Lacaz. São Paulo: Editora 34, 2008.

Homenagem a Tatiana Belinky

Tatiana Belinky, Yara Carmona, Mara Dias e Heloísa Prieto na inauguração da "Biblioteca Tatiana Belinky".

Tatiana Belinky, Yara Carmona, Mara Dias e Heloísa Prieto na inauguração da “Biblioteca Tatiana Belinky”.

Por Aline Evangelista Martins

“Brincar com palavras

Eu gosto e consigo

Mas acho melhor

Que elas brinquem comigo”

 

Neste final de semana, despedimo-nos de Tatiana Belinky. Para a comunidade da Escola da Vila, essa é uma ocasião especial, de muito respeito e de doces recordações: a inauguração da biblioteca, as visitas sempre afetuosas aos nossos alunos, a leitura de seus livros, o nome da biblioteca da unidade Butantã…

Nesse momento de despedida, voltamos nossas atenções para as afinidades entre essa grande escritora e a nossa escola. Por que nos identificamos tanto com ela? O que sempre a deixou tão perto de nós?

Tatiana Belinky sempre ressaltou, em suas entrevistas, a relação de prazer e encantamento com as palavras, com as histórias e com a possibilidade de contá-las. Esse parece ser um de seus grandes ensinamentos à nossa comunidade. Afinal, é isso o que esperamos que seja vivido por nossos alunos a cada roda de biblioteca, a cada sessão de leitura, a cada troca de indicações de livros.

Outra lição importante da patronesse de nossa biblioteca é a valorização da diversidade. Seja por suas raízes russas e judaicas, seja pela imersão desde muito jovem na cultura brasileira, seja pelo intenso trabalho como tradutora, Tatiana Belinky contou e recontou lindamente belas histórias, que tanto colocam os jovens leitores em contato com paisagens distantes, quanto com a riqueza daquilo que está bem perto deles.

Outro aspecto que sempre se destacou em Tatiana Belinky, e que inspira cada dia de trabalho com a formação do leitor na Escola da Vila, é o respeito pela inteligência das crianças e a constante preocupação em nunca subestimá-las. Em suas entrevistas, ela sempre ressaltava a importância de darmos atenção às perguntas infantis, bem como estimulava os pequenos a serem curiosos e a não aceitarem respostas bobas.

Essas são apenas algumas, dentre as muitas lições que aprendemos com essa grande mestra. Neste momento de homenagens e despedidas, reafirmamos o desejo de que cada leitor que entre na biblioteca Tatiana Belinky encontre lá uma atmosfera muito inspirada em nossa querida patronesse: leveza, bom humor, admiração pelas palavras e pelas histórias de todos os povos, em todos os tempos.