Da sala de aula para as cavernas e as matas do vale do rio Betari

6_11_2013
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Por Vera Barreira

Mais uma vez, a turma dos 7ºs anos foi ao Petar (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira), localizado no sul do estado de São Paulo (a aproximadamente trezentos quilômetros da capital), próximo às cidades de Apiaí e Iporanga. O Petar abriga um importante complexo subterrâneo (cavernas) composto por rios, cachoeiras, estalactites e estalagmites, com curiosas e inusitadas formações, que se destacam pela sua composição geológica. É também uma das poucas regiões do Brasil que conservam, em seu estado natural, grande porção da mata atlântica.

Este Trabalho de Campo, além de permitir um tratamento contextualizado das disciplinas envolvidas, constitui-se também numa experiência valiosa para nossos alunos, que têm a oportunidade de conhecer e interagir com um espaço tão contrastante com a realidade urbana em que vivem cotidianamente. Dentro das cavernas encontramos um mundo totalmente diferente! Um lugar silencioso, de uma escuridão profunda, ornamentado por espeleotemas lindíssimos e habitado por criaturas interessantíssimas! Nas cavernas fazemos alguns blecautes: apagam-se as lanternas, fazemos silêncio e tentamos sentir o que é habitar aquele local. Este ano, alguns grupos privilegiados puderam perceber a acústica das cavernas, ouvindo nossa aluna Nina Quintanilha cantar uma música com sua voz especial. Do lado de fora, caminhamos ao lado do rio Betari, numa paisagem verde exuberante, atravessamos o rio com nossos sapatos numa água gelada muito bem-vinda para refrescar a caminhada de quase uma hora para alcançarmos a caverna Água Suja.

Além das atividades nas cavernas e trilhas da região, visitamos o quilombo de Ivaporunduva para uma conversa com o representante da comunidade que nos contou a história da comunidade, seus hábitos e sua luta para manter a terra e a comunidade dentro do Parque. Os alunos chegaram preparados com algumas perguntas para fazer e participaram de um bate-papo muito interessante, conhecendo uma forma de organização comunitária muito diferente do que se vive nas grandes cidades.

Os alunos, de modo geral, ficaram encantados com tudo o que viram, e cada um, a seu modo, aproveitou e se divertiu enquanto aprendia com os guias e professores que nos acompanharam. Vejam abaixo como foi a viagem pelos olhos de um aluno e de uma aluna do 7º ano de 2013:

“A viagem ao Petar correspondeu às minhas expectativas, pois tanto meu irmão quanto minha irmã mais velha falavam muito bem dessa viagem. Eu acho que consegui aproveitá-la ao máximo, tanto na diversão com meus amigos quanto nos estudos — principalmente as novas descobertas feitas lá.

Para isso, as caminhadas que fizemos dentro da mata foram a melhor parte, pois gosto bastante da natureza, de caminhar e me sinto bem respirando o ar puro do vale do Ribeira.

No meu modo de ver, o único aspecto negativo foi a pouca liberdade para achados e descobertas que tivemos dentro das cavernas, trilhas e chalé.

Eu aprendi muito nos nossos estudos sobre o palmito Jussara (planta típica da região). Eu achei muito legal aprender sua história, sua forma de reprodução e até seu formato, já que é impossível ver esse tipo de planta em São Paulo.

O palmito Jussara sempre foi uma planta típica do vale do Ribeira, era a base do comércio dos moradores da região. No entanto, quando foi criada a zona de preservação, foi proibida a venda do Jussara. Esse tipo de palmito se reproduz na maioria das vezes pelas fezes dos animais que a ingerem (70% dos animais da mata). Eu aprendi isso com o Silney, um guia local da região.” Gabriel Gianini, 7º ano.

“Antes de eu ir para o Petar, eu imaginava uma viagem com muito estudo (quero dizer, só estudo!) e pouca diversão. Depois da viagem, percebi que estava enganada. Eu aprendi muito na viagem, mas de um jeito divertido e com experiências que vou guardar por toda a minha vida.

As coisas de que mais gostei foram os passeios para as cavernas, principalmente a Água Suja e a Morro Preto, por causa da beleza e da boa preservação. Outra coisa que gostei foi poder ter ficado com meus amigos, principalmente no quarto. Acho muito legal nós podermos escolher nossos próprios quartos, pois algumas escolas escolhem os quartos pelas crianças.

O que eu não gostei foi ter chovido (o que não é culpa de ninguém), mas o que mais me incomodou foi andar muito. Ninguém vai morrer subindo uma trilha, mas tem pessoas (como eu) que não têm condições físicas!!

Eu aprendi muitas coisas na viagem, mas o que eu mais gostei de aprender foi sobre a adaptação do bagre cego e sobre a formação dos espeleotemas.

No final, gostei muito da viagem, e espero que a do ano que vem também seja assim!” Julia Oliveira K. L. Ferreira, 7º ano.

As ciências no vaivém das ondas

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Por Ana Cristina Almeida e Divino Marroquini

A viagem do 2º ano do Ensino Médio a São Sebastião e Ilhabela nos levou a quatro dias de intenso trabalho em campo. Parece pouco tempo, mas a variedade de experimentos e vivências que tivemos foi incrível. Aproximar adolescentes do trabalho de investigação em Ciências Naturais é um desafio, mas o tema é tão instigante que o tempo passou voando, e queríamos ficar mais.

O trabalho de campo no litoral é a peça-chave do Projeto Integrado desta série, que conjuga conhecimentos de diversas disciplinas e áreas, tais como a Biologia, a Física, a Química, a Geografia, a Sociologia, a Matemática e a Língua Portuguesa. Neste Projeto, os alunos estudam, ampliam e aplicam tais conhecimentos, com a finalidade de mapear uma região litorânea, partindo das características naturais e humanas deste litoral, quanto ao risco de sofrer um derramamento de petróleo e quanto ao grau de sensibilidade frente às consequências deste acidente. Um mapa semelhante, denominado Carta SAO (Carta de Sensibilidade ao Óleo), é um registro produzido e efetivamente utilizado por órgãos públicos e empresas privadas envolvidas em atividades marinhas, portuárias, petroleiras e ambientais, pois indica as prioridades nas ações de proteção e limpeza de regiões que podem ser atingidas por manchas de petróleo. As alunas Helena Manásia e Júlia Leite (2º A) consideram que: “A viagem possibilitou estudar a Ciência, que tanto vemos em sala de aula, de forma prática (…). Em um primeiro momento, a proposta nos pareceu semelhante às aulas cotidianas, no entanto ela se revelou muito interessante e importante para compreender uma questão muito problemática.”.

Distribuídos em três grupos, os alunos se alternaram nas atividades de coleta e tratamento de dados. Várias das técnicas de coleta usadas em campo foram simuladas e exercitadas na escola antes mesmo da viagem, possibilitando aos alunos maior autonomia nas situações de trabalho real. No campo, um grupo visitava as praias, onde tomava amostras de areia, media a inclinação do solo, a altura e frequência das ondas e o teor de coliformes fecais na água; outro grupo, em embarcação, registrava dados da corrente marinha, direção e velocidade do vento, temperatura, densidade e salinidade da água em diferentes profundidades, além de coletar amostras de água para análise química posterior; o terceiro grupo levantava dados sobre a biodiversidade da região, seja no trabalho de observação e medidas da fauna e flora em manguezais, seja na classificação e medidas de organismos coletados em uma pesca. Nos dois dias seguintes, os grupos de alunos fizeram um revezamento nas atividades, de forma que todos realizassem os procedimentos, porém cada vez em locais diferentes, propiciando um conjunto de dados mais amplo. Sobre essa rotina de trabalho, o aluno Bernardo Ballardin (2º A) nos diz que: “Ouvindo relatos de alunos que fizeram a viagem no ano anterior, concluí que esse novo revezamento foi muito importante para expandir as aprendizagens que a viagem proporcionou para todas as áreas que estavam presentes.”.

O trabalho não se restringiu a tomadas de dados nas praias ou no mar, pois entender a complexa cadeia de consequências dos impactos dos derrames de petróleo requer que os alunos se aproximem de aspectos humanos, tal como a relação homem-natureza presente na exploração da pesca, do turismo e do extrativismo ou as relações sociais de conflito e negociação que as diversas atividades implicam. Além de conhecer o comportamento da natureza e suas maiores fragilidades, em caso de acidente, a carta SAO quer avaliar e indicar as prioridades de ação. Por isso, saber o que pode acontecer com as pessoas que moram nesses lugares se torna fundamental. Nesse intuito, foram promovidas entrevistas e debates com representantes da Secretaria de Turismo, da Secretaria do Meio Ambiente, do Instituto Ilhabela Sustentável, da Colônia de Pesca Z-14 e do Porto de São Sebastião. Fomos, ainda, ouvir moradores, comerciantes, pescadores, turistas e depreender daí a percepção dos riscos e o grau de mobilização social em casos de acidentes. Não por acaso, André Baffini (2º B) afirma que: “As inúmeras atividades propostas aos grupos, junto à liberdade que foi concedida aos alunos, tornaram essa viagem muito interessante e marcante, apesar de muito intensa.”.

Nas etapas de fechamento do trabalho, depois dos estudos mais técnicos envolvidos na redação do relatório de campo e da elaboração das cartas geográficas, os alunos encenarão um debate simulando uma reunião de todos os representantes locais que foram entrevistados durante o trabalho, frente a um acidente. Perceber como a vida de cada um pode ser impactada, qual é a melhor ação para mitigar os efeitos, quanto tempo a região impactada necessita para se recuperar… Estas são perguntas que queremos ver debatidas.

Essa região que conhecemos e visitamos com tanta frequência merece toda a nossa atenção, e conhecer a sua fragilidade nos coloca em um papel muito importante, o papel de questionar as ações tomadas ou ajudar a reforçar as atitudes que mobilizam a população. Matheus Mazzocato (2º B) avalia que: “A proposta de expansão do universo escolar propicia a familiarização ao método de trabalho do campo científico, mas, sobretudo, amplia as fronteiras da sala de aula, possibilitando ao aluno uma formação cívica, atenta e respeitosa quanto às questões socioambientais que permeiam o mundo atual”.

De uma janela do Morro da Conceição, que quadros…

Por Fermín Damirdjian

Nas próximas semanas será exposto, na área comum da escola, um ensaio fotográfico elaborado pelos alunos do 1º ano do Ensino Médio de 2013, a partir da viagem de campo para o Rio de Janeiro em maio de 2013. A articulação entre os elementos da vida urbana que conformam o espaço geográfico e sua abordagem literária dá as bases para o olhar dos alunos, concretizado por suas fotografias feitas em campo.

“Uma das coisas mais importantes da ficção brasileira é a possibilidade de ‘dar voz’, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor de sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. Isso é possível quando o escritor, como João Antônio, sabe expressar a intimidade, a essência daqueles que a sociedade marginaliza, pois ele faz com que existam, acima de sua triste realidade”.
CANDIDO, Antonio. Na noite enxovalhada.

Assis casas

Além de aspectos relacionados à apropriação do espaço urbano, somam-se ao trabalho de campo do Rio de Janeiro as leituras do volume Sete vezes rua, de João Antônio, e de Clara dos Anjos, de Lima Barreto. Estas obras permitem o enriquecimento de um olhar sobre a vida urbana em uma metrópole que ostenta desde grandes eventos de ampla repercussão midiática até obras literárias que surgem como representações populares da vida cotidiana nesse mosaico urbano.

O volume Sete vezes rua, de João Antônio, reúne textos em que se pode observar um grau maior ou menor de literalidade. Alguns se configuram como contos; outros estão mais próximos do jornalismo literário. De todo modo, estão presentes diferentes pontos de vista sobre a cidade e sobre a vida urbana. São vozes que emergem do subúrbio, das ruas, de um Rio de Janeiro que não está nos cartões postais.

A leitura de Clara dos Anjos e a reflexão sobre o subúrbio carioca no contexto do século XIX, ali retratado, permitiram aos alunos do 1º ano do Ensino Médio uma análise rica da relação das personagens com o espaço, bem como o olhar delas para a dinâmica da cidade e para pensar sobre o que suas vozes expressam sobre a relação com o espaço urbano.

Miguel menino

O ensaio fotográfico que compõe a exposição foi realizado no Morro da Conceição, bem como a seleção das passagens da obra de João Antônio atribuídas a cada foto. Tudo isso foi produzido em conjunto pelos alunos do 1º ano do Ensino Médio.

Foto

Estalactites, estalagmites, opiliões, grilos albinos… Os encantos das cavernas!

Por Vera Barreira e Celina Martins, com comentários de alunos do 7º ano.

O Trabalho de Campo do 7º ano acontece no PETAR, na região do Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Nessa oportunidade, os alunos desenvolvem estudos relacionados às áreas de Ciências Naturais e CHG. Mas, para eles, acima de tudo, passam por uma divertida aventura na escuridão e no silêncio das cavernas.

“As visitas às cavernas foram ótimas, pois foi muito fácil de aprender e muito mais legal, sem contar com a beleza das cavernas. Era realmente incrível pensar que, em uma das cavernas, pessoas moraram há 8000 anos, e que, há milhares de anos atrás, uma ‘goteira’ com calcita formou um espeleotema gigantesco.” Jerônimo F. Ramos, 7º ano.

Os Trabalhos de Campo são planejados com o objetivo de viabilizar experiências de estudos mais próximas da realidade e favorecer a integração do grupo. São utilizados procedimentos próprios das disciplinas envolvidas, como a coleta e a análise de dados de campo, a observação de fenômenos no local em que ocorrem e os procedimentos de investigação. Dessa forma, busca-se atender à necessidade dos alunos de vivenciar atividades diferenciadas das oferecidas no espaço da escola e de interagir mais intensamente.

“Aprender lá é melhor, mais divertido, sem falar que nós vemos as paisagens, os objetos, as pessoas; nós não vemos apenas imagens nas apostilas. Achei demais a viagem. Pretendo voltar ao PETAR.” Manoel T. Bacal, 7º ano.

Localizado no sul do Estado de São Paulo (a aproximadamente 300 km da capital), próximo às cidades de Apiaí e Iporanga, o PETAR abriga um importante complexo subterrâneo (cavernas) composto por rios, cachoeiras, estalactites e estalagmites, com curiosas e inusitadas formações, que se destacam pela sua composição geológica. É também uma das poucas regiões do Brasil que conservam, em seu estado natural, grande porção da Mata Atlântica.

“Eu acho que os monitores da Quíron eram muito legais, pois eles explicavam bem sobre as cavernas e sobre a mata. Eles sabiam ensinar muito bem sobre o PETAR. Os monitores não ficavam muito no nosso pé, e isso era bom.” Matheus Eger, 7º ano.

Este Trabalho de Campo, além de permitir um tratamento contextualizado das disciplinas envolvidas, constitui-se também numa experiência valiosa para nossos alunos, que têm a oportunidade de conhecer e interagir com um espaço tão contrastante com a realidade urbana em que vivem cotidianamente. Dentro das cavernas, encontramos um mundo totalmente diferente! Um lugar silencioso, de uma escuridão profunda, ornamentado por espeleotemas lindíssimos e habitado por criaturas interessantíssimas! Nas cavernas fazemos alguns blecautes: apagam-se as lanternas, fazemos silêncio e tentamos sentir o que é habitar aquele local. Do lado de fora, caminhamos ao lado do rio Betari, numa paisagem verde exuberante, atravessamos o rio com nossos sapatos numa água gelada muito bem-vinda para refrescar a caminhada de quase uma hora para alcançarmos a Caverna Água Suja.

“Os monitores eram bons, mas, se uma folha caísse no chão, teria explicação!” Leticia Pedroso, 7º ano.

Além das atividades nas cavernas e trilhas da região, os alunos realizam uma entrevista coletiva com representantes da comunidade de Ivaporunduva, remanescente de um quilombo local. Os alunos foram preparados com algumas perguntas para fazer e participaram de um bate-papo muito interessante, conhecendo uma forma de organização comunitária muito diferente do que se vive nas grandes cidades.

“No primeiro dia fomos para a RPPN, onde tivemos uma entrevista com Ditão, o líder de um dos quilombos. Foi muito interessante ter contato com um povo mais solidário e unido, pois eram fugitivos.” Laura Izuno, 7º ano.

Por isso tudo, a viagem é uma grande aventura! Os meninos e meninas se sujam, são picados por mosquitos, entram nos rios, veem animais nunca vistos antes, plantam mudas de palmito, voltam com uma mala cheia de roupas enlameadas!

“Surtamos um pouco no começo, com a lagartixa e a perereca que estavam no nosso quarto (…). Foi muito bom aprender lá, pois o ambiente é mais natural e diferente da costumeira sala de aula.” Mariana Luize, 7º ano.

“O lanche que comemos no passeio poderia ser melhor. Poderiam trocar o suco e o sanduiche de ricota.” Caio M. Arruda, 7º ano.

Os lugares onde nos hospedamos e visitamos são simples, limpos e agradáveis, mas sem luxos, e isso é importante, é bom. Há aspectos educacionais muito interessantes que são desenvolvidos ou reforçados ao fazermos isso. É uma oportunidade importante para o trabalho com respeito à diversidade cultural e econômica, entre muitas outras coisas.

“Na pousada ficamos frustrados, pois encontramos muitos sapos, mas não esperávamos por luxo, pois este não era o objetivo da viagem.” Antonio Pedro Ayd, 7º ano.

Cuidamos, sim, da segurança. Temos vários adultos por grupos, equipamentos imprescindíveis como capacetes e lanternas, mas, ao mesmo tempo, é possível que se arranhem, levem alguns tombos, que deem cabeçadas em estalactites. São eventos comuns numa aventura como essa.

“Os monitores eram bem educados, acompanhavam a gente, indicando onde e como seguir o caminho. Eles contavam historias e nos ensinaram coisas sobre os animais das matas e das cavernas.” Alexandre M. Cardoso, 7º ano.

Para as crianças, uma hora numa caverna, andando por pouco mais de 800 metros, se transformam em horas e horas de aventuras por túneis infinitos… Elas vivem a viagem de forma intensa e, de certa forma, até exagerada e trazem isso na volta. Isso faz parte, e é um último suspiro do mundo de fantasias que elas carregam da infância. É bonito que vivam a viagem desta maneira.

“O maior problema era, depois de passar cinco horas em uma caverna, ter que subir uma montanha enorme a pé para voltar à pousada. Eu acho que, nas próximas viagens, deviam ter mais entradas nas cavernas, que almoçássemos em outro lugar no primeiro dia e que pudéssemos ficar lá mais tempo.” João Pedro V. B. Jabor, 7º ano.

Consideramos importante que nossos alunos tenham a chance de visitar lugares tão ricos em biodiversidade como a Mata Atlântica e tão surpreendentes como as cavernas do Petar, mas consideramos ainda mais especial que eles sejam tocados pelo maravilhamento com a vida natural, tanto em sua exuberância quanto pelo esforço de sobrevivência em ambientes inóspitos. Esperamos, assim, que, ao crescerem, nossos alunos possam contribuir para que nossa biodiversidade seja valorizada e preservada.

“Achei muito legal ter ido à piscina natural do PETAR. Pudemos brincar e descansar um pouco, nadando em água de rio, coisa que muita gente nunca fez.” Heloísa Salles C., 7º ano.

Trabalho de Campo – Rio de Janeiro 2012


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Por Maíra Fabiano Tambelli – aluna do 1º ano do Ensino Médio

Quando se fala sobre viajar e conhecer o Rio de Janeiro, a primeira coisa que nos vem à cabeça é: ou subir até o Cristo Redentor, ou andar no bondinho do Pão de Açúcar, ou ir passear pelas praias de Copacabana. Mas, diferentemente do que estamos acostumados, esses não são os focos do trabalho de campo do 1° ano do Ensino Médio.

Ao sairmos de São Paulo e irmos para a “Cidade Maravilhosa”, antes de sermos turistas, nós somos em primeiro lugar, estudantes. Logo, para nos aprofundarmos em pequenos detalhes da cidade, acabamos conhecendo o Rio não-óbvio. Ao invés de visitarmos seus belíssimos pontos turísticos, fomos a ocupações e conjuntos habitacionais para conhecer um pouco sobre lutas por moradia que lá acontecem. Além disso, realizamos derivas e atividades no centro do Rio (um local que é o coração e o início da cidade) que apesar de já ser muito bonito, está passando por reformas que têm como objetivo a requalificação da área. Ou seja, abrimos os nossos olhos para os pontos negativos que também existem no Rio de Janeiro, que sempre são escondidos e pouco falados, mas com certeza, sem deixarmos de lado toda a beleza que essa cidade tem de sobra.

Todas essas visitas a esses lugares inusitados do Rio foram excepcionalmente importantes para nos ajudar nos cursos de Filosofia e Geografia. Ao caminharmos no centro da cidade, por exemplo, além de conhecermos este belo e importante local da cidade, pudemos colocar em prática um conteúdo que aprendemos nas aulas de Filosofia: a deriva.

Já em Geografia, no curso deste trimestre, nós aprendemos sobre o “Direto à cidade” e a visita aos conjuntos habitacionais e às ocupações serviu para nós termos conhecimento sobre como as lutas por moradia acontecem no Rio. Além disso, a visita ao centro da cidade e à Barra da Tijuca nos possibilitou ver de perto as grandes reformas que estão ocorrendo no Rio, principalmente, por conta dos grandes eventos esportivos (um dos temas do curso de Geografia do 2° trimestre).

Logo, eu pude concluir que essa viagem foi riquíssima não só por que aprendemos conteúdos geográficos e filosóficos, mas também por que pudemos ver de perto um Rio de Janeiro que poucos turistas conhecem.

Os 1ºs anos EM conhecem de perto a questão da moradia nas grandes cidades.

Fotos de Isabela, 1º ano C

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Por Fermín Damirdjian – Orientador Educacional

Durante a Semana de Atividades Diversificadas, os 1ºs anos incrementaram seus estudos acerca do tema “Cidades”, o qual permeia todas as ciências humanas ao longo desse ano letivo. Foram realizadas saídas para visitar uma ocupação em um edifício público (ex-INPS) na rua Martins Fontes, vazio há mais de 30 anos, e o Casarão do Brás, um local que foi construído ao longo de 2 anos sob a forma de um mutirão. São dois momentos diferentes de movimentos de moradia: um ainda incipiente, pressionando os órgãos públicos para olharem para um edifício que pode vir a ser habitado mediante financiamento popular, e outro já consolidado como moradia.

A dificuldade em preservar (ou instaurar) o direito à moradia nas grandes cidades é um dos aspectos que não pode ficar de fora ao olharmos para os desafios a serem vencidos pelos conglomerados urbanos de qualquer nação.

Abaixo, depoimentos de alguns dos alunos que visitaram os locais.

Diego Cianelli

Com a SAD foi possível ver muito melhor como é organizada uma ocupação, eu imaginava algo muito mais desorganizado, sem muitas regras e sem uma capacidade pré-definida de moradores. Meu pensamento mudou, vi que existem muitas regras e a família precisa ter certo cuidado para viver lá, precisa cuidar e respeitar o jeito com é formado o lugar, desde as pessoas até as próprias regras.

Teresa Lanna

Acredito que os trabalhos de campo me trouxeram outra visão de pessoas sem moradia quando apropriam-se de um edifício. Essa apropriação não existiria se as condições de moradia não fossem ruins. Acredito que o que eles fazem é um reflexo da sociedade em que vivemos. O que eles fazem é não ficar parados em péssimas condições de moradia, mas sim lutar por seus direitos e tentar mudar essa horrível realidade.

Ana Clara Naletto

Eu sempre soube das dificuldades de moradia no Brasil, em que algumas pessoas possuem imóveis caros e em lugares com boa infraestrutura, enquanto outras possuem imóveis longe de seus empregos, com infraestrutura horrível e até pessoas que não possuem imóveis. No caso, eu pude me aproximar mais da realidade das pessoas , ver como eles se organizam dentro das ocupações e ter uma opinião mais concreta sobre os movimentos sem julgá-los, além de que pude ver a diferença física e funcional entre ocupações e moradias. A respeito da minha compreensão com a cidade, a visita à ocupação/moradia me deu uma ampla visão sobre o quão absurdo é as pessoas lutarem por uma coisa que é delas, pelos seus direitos, e ver a que ponto chega um país que não consegue pertencer e “atender” a todos.

Fernanda Tsukada

Os trabalhos de campo permitiram que nós pudéssemos ver de perto e entender melhor o que viemos discutindo em sala. Com as visitas e conversas, nós pudemos ver e pensar nessas situações por um diferente ponto de vista, uma vez que conhecemos o ponto de vista daqueles que vivem isso.

Isadora Lacerda

Com a ida à ocupação, aprendi muita coisa, coisas que nem sabia que existia no Brasil e de como a política só foi feita para o capital.

Maíra Tambelli

Os trabalhos de campo contribuíram para o nosso estudo pois exemplificou fatos sobre a produção e não apropriação da cidade, onde as pessoas não se apropriaram do maior direito delas, que é a moradia. Pude ter um conhecimento maior sobre a vida e o sofrimento de muitas pessoas.

Mariana Lourenzetto

Os trabalhos de campo contribuíram para a minha compreensão sobre a questão de moradia na cidade, pois até então já tínhamos falado muito sobre esse assunto em aula, porém ver na prática tudo o que estudamos é muito mais esclarecedor. Com as atividades, eu vi que em uma única ocupação podem se reunir vários movimentos diferentes, descobri que há dois tipos de ocupações (acampamento e moradia), coisas que eu não sabia.

Trabalho de campo: aprendizagem além dos muros da escola.

9ºs anos no Vale do Ribeira

Por Angela de Crescenzo

A realização de situações de ensino e aprendizagem fora dos muros da escola é uma antiga preocupação da Escola da Vila. As saídas para que os alunos conheçam e interajam com a cidade, parques, museus, locais históricos, bibliotecas, fazem parte e, de certa forma, complementam as atividades regulares que acontecem na escola. Geralmente, estão relacionadas à aprendizagem de conteúdos de áreas específicas, mas também são espaços que promovem aprendizagens relativas à formação do aluno enquanto estudante e como cidadão.

No Fundamental 1, os acampamentos e o dia do acampante têm como principal objetivo o fortalecimento do vínculo entre os alunos e deles com os professores. Em algumas séries esse convívio é incrementado pelo uso da língua inglesa, gerando assim uma maior exposição ao idioma com todas as vantagens que sabemos que esse contato traz.

No Fundamental 2 e no Ensino Médio, o trabalho de campo agrega às questões de sociabilidade/interação aspectos específicos de estudo relacionados à algumas disciplinas. Levar os alunos a campo – numa viagem de três dias (ou mesmo numa visita ao centro da cidade de SP) – é uma estratégia metodológica que utilizamos para que os alunos possam realizar estudos mais próximos da realidade, bem como desenvolver o “olhar” e o “fazer” de alguns procedimentos de pesquisador, próprios de cada disciplina. Os trabalhos de campo não se resumem, em nenhuma hipótese, à atividades recreativas!

Todo trabalho de campo pressupõe uma intensa preparação anterior com os alunos, que se dá através de aulas, leituras, levantamento de questões que serão pesquisadas, planejamento de ações, etc.

Na última semana de março, os 9ºs anos saíram a campo rumo ao Vale do Ribeira, em uma viagem que envolveu as disciplinas de Geografia e Ciências Naturais. Observar a arquitetura e os contrastes de Iguape, que foi uma importante cidade do estado de SP;  ouvir e conversar com o líder da comunidade quilombola, Chico Mandira; compreender como as famílias se  organizam para o manejo das ostras, saber como surgiu a cooperostra; conhecer o banco de engorda de ostras, forma que a comunidade desenvolveu, junto com pesquisadores de universidades, para sobreviver na época do defeso; conhecer um pouco do trabalho da associação de pescadores  artesanais; caminhar na mata atlântica na Ilha do Cardoso; conhecer o manguezal; são algumas das atividades realizadas cujo sentido jamais poderia ser obtido através de filmes, livros e aulas expositivas. É claro que, além de tudo, tem também um convívio com os colegas, diferente do que ocorre na escola e a diversão é garantida!

Depois de três dias de intenso trabalho em campo, é o momento de retornar, reunir e sistematizar os registros e as informações, com o objetivo de organizar os conhecimentos aprendidos “in loco”, trocar informações com os grupos, retomar as questões iniciais, disparadoras das pesquisas e tentar respondê-las com outro tipo de vivência e conhecimento sobre a realidade estudada.

Do ponto de vista metodológico, há uma distinção importante entre “ver o local” e “vivenciar o local”. É esta segunda dimensão a que buscamos promover quando propomos uma saída a campo com os alunos, favorecer o  relacionamento com o ambiente e com a comunidade.

Por isso, temos clareza que os conhecimentos construídos não podem ser totalmente controlados, muitas aprendizagens ocorrem além das planejadas. Um exemplo dessa imprevisibilidade, são as aprendizagens que aconteceram durante o contato dos alunos com as pessoas da comunidade quilombola. A entrevista e a conversa com o líder Chico Mandira foi antes planejada com cuidado em sala de aula, mas a riqueza do contato humano superou o planejamento.

Como colocaram os participantes da mesa de debate sobre o tema “Trabalho de Campo” no simpósio interno da Escola da Vila de 2008, criamos uma situação de aprendizagem que tinha como objetivo colocar determinadas pessoas em contato com determinadas coisas, esperando que desse contato surjam aprendizagens significativas.

Isso sem dúvida ocorreu com nosso grupo!

Uma experiência inesquecível

 

O atual 2º ano do Ensino Médio realizou, entre os dias 16 e 19 de novembro, a viagem anual aos assentamentos e acampamentos do MST em dois municípios do interior de São Paulo. Vale a pena assistir ao filme deste trabalho e conferir os depoimentos de alguns alunos, a seguir.

 

Matheus Genaro

Em poucos momentos da nossa vida escolar temos a oportunidade de ampliar nosso estudo com um trabalho de campo. Neste sentido, a viagem a Itapetininga e Itapeva, visitando os assentamentos do MST e conhecendo sua estrutura agrícola, foi uma experiência única para observarmos de perto a Geografia Agrária que tanto estudamos este trimestre: esta é a justificativa racional.

Porém, em poucos momentos de nossa vida (e limito-me a dizer “vida”, neste caso) temos a oportunidade de passar por uma experiência transformadora. O choque temporal que vivenciamos com a dinâmica do campo; o contato com pessoas que, embora na pobreza, nos ofereciam tudo o que tinham e o sorriso no rosto de quem tinha histórias para contar, mas que nunca foram ouvidas, abrem nossos olhos para um mundo muito maior do que aquele em que vivemos. Não se trata de aderir à militância, erguer a bandeira e gritar por um país mais justo (por mais que isto se faça necessário muitas das vezes), mas de reconhecer na sociedade os problemas que, em distância, no conforto de nosso sofá e televisão, apenas “ouvimos falar”. É na justificativa emocional que encontramos o verdadeiro valor deste trabalho de campo.

Vitor Marques

Sentir o quão maravilhoso toda a infinidade do céu já é o suficiente! Eu ia falar agora que existe um preço impagável em ter sentado em baixo das estrelas e tê-las observado por tanto tempo com vocês, mas agora lembrei que tudo vivido naqueles três dias, assim como eu disse no ônibus, foram impagáveis. Não me dou à tentativa de escrever tudo que senti na viagem, porque sei que nem palavras poderiam fazer este papel. Como eu, após avisar a Mari de que eu realmente iria para o MST, poderia imaginar que eu não aguentaria minhas lágrimas no ônibus de volta, ou que eu teria essa mesma sensação de estranheza a tudo que nos parecia normal antes? Nunca. Agradeço a cada um de vocês, e principalmente ao Fermín, ao César e a Mari, por terem me dado uma experiência realmente única. E como o Fran disse: “O que importa é saber que os cruzeiros não são exclusivos dos mares”!

Ian Aurichio

Quando subi naquele ônibus, às sete horas da manhã, eu não imaginava o quão importante seria aquela partida do motor; a travessia da fronteira do mundo imaginário para o mundo real. Sim, imaginário é uma boa palavra para descrever o mundo em que nós, alunos da Escola da Vila, vivemos. Imaginário no sentido de um mundo protegido, cercados de novas tecnologias, lançamentos do mercado, fofocas sofre a vida dos outros e boatos. Não que isso seja errado, só estamos fazendo o que está resignado para jovens da classe que pertencemos e foi nesse sentido que a viagem ao MST nos tocou. Sempre tivemos uma mínima noção que a nossa vida era cercada de coisas fúteis e que essas coisas fúteis nos embalam de tal forma que esquecemos ou não queremos olhar para o outro, olhar para fora do insul-film e foi o que rolou na viagem: “Olhar para fora do insul-film”.

Esse olhar foi formado de conversas, olhares, reações e arrepios; o ânimo do jovem Daniel nos mostrando as hortaliças e nos ensinando sobre cultivo de vegetais, a felicidade e o encantamento do garoto Lucas, a voz de Dona Rosa na cantoria do hino, a simpatia do Seu António e etc. Tudo isso nos mostrou o quanto nos preocupamos e vivemos por coisas inúteis, nenhuma vontade em nossa vida se compara aos olhos brilhando dos acampados ao falarem sobre a terra que estão prestes a conseguir, nenhum projeto se compara ao Seu Zé falando sobre os planos que tem em mente para sua horta e na criação das suas poucas cabeças de gado.

O “turismo” no mundo real causou tanto repúdio e nojo do mundo em que vivemos que a viagem passou a ser considerada o início de uma luta, uma luta por justiça e por mais igualdade, uma luta ao nosso alcance. Essa luta nos alivia um pouco o peso que carregamos por termos mais dinheiro que a grande maioria da população, pelas vezes que ignoramos o companheiro deitado no chão, pelas frias noites que pensamos quantas pessoas estão com frio nas ruas; percebemos que podemos ser pessoas melhores, podemos ajudar os outros e começar a gritar, chorar e rir por causas maiores do que o desejo de um novo Itouch no Natal.

Gabriela Sakata

Não sei se consigo escrever sobre essa viagem especificamente, pois acho mais fácil falar de todas as vezes que visitei os assentamentos, acampamentos e a escola nacional do MST. Todas as vezes que voltei ao meu mundo limitado e cheio de barreiras tentei espelhar o que tinha vivido com o movimento em minhas ações. Desde trabalhos de escola, leituras pessoais, argumentos dentro e fora de sala de aula. O MST me deu informações que só vendo eu poderia compreender.

Nessa última semana me despedi pela terceira vez de um acampamento que conheci no final de 2010. Com sentimento de tristeza e felicidade à flor da pele. Saber que o acampamento está cada vez mais próximo de sua futura terra… Saber que o Governo não os sustenta do modo que devia… Saber que vou voltar pra casa, pra minha cama, pro meu chuveiro… Pensar que eu podia estar no lugar deles, lutando e sofrendo por não ter o direito a um pedaço de terra no meu próprio país…

Acho que ir com a escola motivou aqueles que nunca tinham entrado em contato com o movimento a pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa…

O que ganhei com essa viagem foi o poder de repensar no real papel do MST. Por mais que seja o maior movimento pela terra no mundo, é antes disso uma ideia, uma ideologia. Quando pensamos bem nela, refletimos sobre tudo. Sobre a vida no campo, na cidade, no Brasil, nos EUA… Nunca mais seremos os mesmos.

O movimento abre os nossos olhos de classe média pra um mundo que parece estar paralelo ao nosso… Acho que por isso, a viagem deveria ser mais divulgada… Como a viagem de Itacarambi… Não sei. Conheço várias pessoas que teriam aproveitado a viagem, mas esta foi vetada pelos pais que não entenderam seu propósito.

Mariana Queiroz

(Créditos ao César, alguns termos desse texto são dele. São precisos demais, por isso me apropriei deles).

Resumir a experiência da viagem do MST é coisa para poucos e peço perdão, desde já, por minhas palavras imprecisas e abstratas. No entanto, deparar-nos com vidas tão distantes – e, ao mesmo tempo, tão próximas – das nossas nos faz pensar sobre a situação das coisas; assim, no geral mesmo. Na situação do mundo. Consequentemente, faz com que pensemos em nós mesmos – na nossa condição, nas nossas angústias e inseguranças, nos nossos medos. Os momentos de introspecção, para mim, foram os mais importantes dessa viagem. Nessas raras (no sentido de preciosas, não de pouco frequentes) ocasiões, senti-me imersa numa atmosfera surreal que, agora, parece permear todas as minhas lembranças desses últimos três dias.

Essa viagem é feita de contradições. A contradição entre o ambiente e o espírito de assentados e, principalmente, acampados; a contradição entre a proximidade e a distância que separam as questões daquelas pessoas e as nossas próprias questões, internas; a contradição entre a conquista do solo e a persistência de problemas que estão para além de cinco alqueires de terra. O ritmo do campo dita o ritmo do trabalho e a brusca brecha na nossa realidade urbana e corrida é sentida violentamente por nossos corpos e mentes. O grupo, diante de situações excepcionais, se uniu de modo impressionante – a cumplicidade entre alunos (e professores) atingiu níveis inimagináveis.

“Despertemos essa pátria adormecida”, cantaram os assentados do Carlos Lamarca na ocasião de nossa despedida. Fomos despertados para uma realidade que gera revolta, indignação e indagações das mais diversas, essencial para julgarmo-nos conhecedores de muito, muito pouco. A luta pela terra é a vida de muitos e deveria ser vista, de perto, por todos; no entanto, acredito que a obrigatoriedade da viagem acabaria com a sua beleza, que se origina justamente na disposição dos alunos em conhecer e entender o movimento por vontade própria, por desejo, por sede de justiça ou por pura curiosidade.

Voltar é difícil. Ao nos depararmos com o meio urbano, sentimos mais do que falta do que havíamos vivido; sentimos um peculiar sentimento de não pertencimento, de inadequação. A resistência a estímulos desse ambiente, por um tempo, parece-me inevitável, e, agora, vejo-me nessa necessidade inquietante de me pronunciar a respeito do impronunciável. Hoje, no dia 19 de novembro, um dia após a viagem, acredito estarmos todos suspensos num clima de estranhamento – essa é a maior riqueza de todas. O campo persiste em nós.

Bianca Laurino

Diferentemente de encontrar-me na situação de apenas dar valor após perder algo, sinto que só consegui dar o devido valor que tal coisa merecia após ganhá-la. É assim que me sinto após retornar de um fim de semana tendo contato ao vivo e em cores com o maior movimento social do mundo: o Movimento dos Sem Terra. Somente depois de ganhar a experiência (sim, considero um ganho em minha formação pessoal) de conversar e ver com os meus próprios olhos, sem que ninguém diga por mim o que achar a respeito do movimento, seja a mídia ou os próprios professores, pude perceber a riqueza que este projeto possui. Para quem não participou da viagem, dificilmente entenderá de fato o sentimento que estou tentando por em palavras.

Aqueles que se esforçaram para que a viagem acontecesse, aqueles que foram convencidos a embarcar nela, aqueles que priorizaram a viagem dentre ao extenso número de coisas que tinham para fazer e mesmo aqueles que caíram ali de pára-quedas, sem saber o que aconteceria, tenho certeza que agora estão gratificados e agradecendo por terem ido. Já para aqueles que não foram e por algum motivo queriam ter ido, gostaria que pudessem saber o quanto deveriam estar arrependidos.

É impossível tentar descrever a sensação que, não só cada um individualmente, mas o grupo em si voltou sentindo para São Paulo. Talvez as lágrimas que muitos derramaram – ou tentaram não derramar – no ônibus da volta demonstre de alguma forma o que quero dizer. Talvez não, pois para quem não esteve lá é novamente difícil de explicar. A única coisa que acho importante ficar claro é o valor que a viagem possui para aqueles que dela participaram. Tenho certeza de que a viagem possibilitou que cada um formasse sua própria opinião sobre o MST. Se parasse aí, ela já teria cumprido essencialmente seu objetivo. O fato é que ela foi muito além disto, pois marcou de um jeito inesquecível e singular para cada um.

Concluo agradecendo. Agradeço ao César e ao Fermín, que nos acompanharam na viagem, a todos os professores e orientadores que ajudaram esta a acontecer, à Escola da Vila, que a inclui em seu projeto, ao grupo de alunos que se dedicou e estava em sintonia ao longo da viagem e, agradeço verdadeiramente, ao pessoal do MST, que mais uma vez nos recebeu de braços abertos, nos oferecendo tudo que estava ao seu alcance, principalmente suas histórias de vida, que pacientemente repetem todos os anos para um novo grupo de visitantes.

Rafael Ihara

“Eu sempre me incomodei com o fato de eu ter dinheiro e as outras pessoas não terem”.

Essa frase, do Ian Aurichio, dita quando estávamos na estrada, voltando à correria de São Paulo, expressa exatamente um dos meus maiores conflitos internos. Eu acredito que, muito provavelmente por essa questão mal resolvida dentro de mim, tenho me envolvido, cada vez mais, com os projetos sociais organizados pela Escola da Vila, numa tentativa de criticar com mais fundamento a nossa sociedade e os problemas que nos cercam e, claro, para enxergar o que está além da bolha social na qual a comunidade de alunos está inserida.

Sempre me impressionaram muito as condições precárias de moradia, de educação, da saúde e do lazer dos frequentadores do ECA; as histórias de vida; os sofrimentos enfrentados; os preconceitos sofridos, de tal forma que, ao fim de todos os encontros do Estatuto da Criança e do Adolescente, me despeço chocado, revoltado, com cada vez mais vontade de me mobilizar para, quem sabe, mudar algum ponto no futuro daqueles jovens.

Mas nada, em nenhum momento se compara ao que senti nessa última semana. Leitor, desculpe-me por tão rasas palavras, por tão incompletas definições, mas acredito que as ações da raça humana não podem ser colocadas numa folha de papel.

Bate-me certo arrependimento quando lembro que cogitei a possibilidade de não ir viajar com receio de não conseguir entregar todas as atividades propostas no prazo cedido pelos professores. Depois dessa experiência que vivi, certamente valerá a pena me mobilizar ao máximo a fim de entregar todos os afazeres no até a data combinada. Com a mais absoluta certeza, o convívio com os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra me proporcionou muitos benefícios, me trouxe lições de vida e acrescentou enormemente na minha formação pessoal.

Mais fascinante que as regras da física, que a sistematização da matemática, que a origem da vida discutida em biologia… Tudo isso é mínimo, ignóbil, se comparado ao sentimento humano que está extremamente intrínseco na organização do MST – sentimento humano esse que nos foi apresentado das mais variadas formas, mexendo com nossa estrutura, com nossos princípios, com nossas emoções.

É incrível ver a organização daqueles que já estão assentados em seus terrenos, a felicidade daqueles que já possuem seu pedaço de terra – e ver o sorriso de ter obtido essa glória depois de tanto sofrimento, de tanta injustiça e demora. Mesmo tendo tão pouco, vivendo uma vida tão pacata, consumindo muito pouco, há uma alegria sincera que contagia a todos – inclusive a nós paulistanos. Achamo-nos tão entendidos, estudados, cultos; porém um simples ato de generosidade, companheirismo ou reciprocidade nos comove; os sem-terra que ainda estão acampados nos ofereceram o pouco que tinham: ofereceram-nos café com aquele restinho de pó; receberam-nos em suas casas de lona que nem lugar tinha para que pudéssemos nos sentar; e contaram suas histórias de vida, suas batalhas – suas vitórias. E quando perguntamos sobre a esperança desses acampados alcançarem a terra que está do outro lado da grade, livre, fértil, os olhos deles brilham: é um sinal de esperança, que nunca morre – nem mesmo nos piores momentos.

A viagem foi encerrada da melhor forma possível, com um sorriso puro de uma criança, que foi presentada com uma bola que era do Lucas Teixeira. A partir daí, foi-me colocado um pensamento: o que é isso que eu valorizo na minha vida? O que eu pretendo fazer dela? Vou me mobilizar para fazer algo e mudar a realidade dessas pessoas carentes, que não possuem nem um teto para dormir? Que vida é essa a que eu vivo, cheia de conforto, de mordomias (que antes para mim nem eram mordomias)? Senti-me culpado por, em muitos momentos, ter feito reclamações desnecessárias, fúteis, ignorantes.

Acredito que falte, a todos nós, pensar mais no outro. Ser mais solidário, menos egoísta, menos infeliz… Temos tanto e reclamamos tanto de tudo. Podemos ser ricos financeiramente… Porém aqueles indivíduos, que possuem um espírito incrível de união, de coletividade e solidariedade, guardam dentro de si uma riqueza que é muito maior que qualquer coisa no mundo: o sentimento humano.

Gae Breyton Berrutti

“Fui para a viagem com a firme convicção de que nada poderia me surpreender por já ter estado lá, me senti com alguma vantagem em relação aos outros. Achei que saberia olhar (algo como) friamente e entender o movimento como observadora, nunca me passou pela cabeça que não se fica imune ao sentimento de humanidade. Me eximo de dizer o o quão frequentemente este defeito de falta de humanidade acomete os dirigentes de nosso país para não fazer um texto político, porém, posso dizer com toda certeza que nenhum integrante de nossa viagem esteve impermeável ao engasgo emocional que essas pessoas e sua luta geram. É surpreendente encontrar essa força irreprimível onde se espera encontrar os mais oprimidos. Na outra vez que visitei o acampamento, ao final de uma conversa com a dona Rosa, eu não só cheguei à conclusão como disse para ela que, tendo na minha vida inteira metade da coragem dela eu já seria um Hércules. É com esse tipo de sentimento que se retorna à São Paulo, com um nó de indignação no peito (que eu espero que nunca se desamarre) e com a sensação de levar uma vida vã. Talvez diferente de muita gente eu não sinta essa culpa de ter mais que os outros, eu penso que estar nesta condição privilegiada vai me permitir fazer algo por essas pessoas a mais do que simplesmente “turismo”.

“Para mim, o Petar foi a melhor viagem!”

As fotos da viagem estão no flickr

 

Por Susane Lancman Sarfatti

Os alunos dos 7º anos foram para o PETARParque Estadual Turístico do Alto Ribeira dos dias 19 a 21 de outubro, o que permitiu vivenciar alguns aspectos trabalhados em classe relacionados aos conteúdos das áreas de CHG e CN, além de constituir uma experiência valiosa para integração dos alunos.

Como de costume,  após o trabalho de campo cada aluno escreveu um texto avaliando a viagem. Para contar as aventuras, desventuras e estudos, seguem abaixo alguns trechos retirados dos textos dos alunos.

“Para mim, o PETAR foi a melhor viagem da Escola até agora. O ônibus foi espetacular, tinha filme, monitores animados, conversas engraçadas.”

“Os monitores eram muito legais, sabiam de todas as regras, indicavam os melhores caminhos e explicavam muito bem. Eles falam de um jeito que o conteúdo fica na cabeça”

“Eu ampliei muito a minha aprendizagem, tanto em CN quanto em CHG. Escrevi tudo que aprendi na minha caderneta de campo, mas não nos dias da viagem porque chegávamos cansados e não dava tempo para escrever, então no final de semana completei.”

“O que vi durante a viagem me abriu novas portas de aprendizagem, agora entendo muito melhor o que estamos estudando”

“A palestra com o Ditão foi surpreendente, eu esperava algo mais simples e vi muita complexidade na forma de vida dos quilombolas. Percebi que eles têm uma cultura diferente da nossa, mas que também têm muitas coisas parecidas.”

“O que mais me marcou foram as cavernas. Foi muito interessante perceber como a natureza pode formar tamanha arte, estalactites, colunas , estalagmites maravilhosas!”

“Me diverti e aprendi muito em todas as atividades. Adorei pisar na lama, andar pela Mata Atlântica e entrar nas cavernas. A caverna com espeleotemas mais lindos é a Santana, a mais divertida a Água Suja porque ficamos molhados e a boca de caverna maior é a Morro Preto. Achei muito boa a escolha das cavernas. Eu nunca tinha entrado em uma caverna e quero voltar”

“Os quartos da pousada eram simples, mas tinha tudo que precisávamos. A comida era ótima e adorei ganhar um refrigerante a cada refeição. E o jardim com grama em frente aos quartos era muito bom para rolar”

“Na segunda noite fomos a balada em um espaço do lado da pousada. A escolha das músicas não foi do meu gosto, mas dancei, fiquei na fogueira. Achei que a gente ficaria até de madrugada, mas a balada acabou cedo. Que pena, estava muito bom!”

“Acho que eu aproveitei ao máximo o que vimos, ouvimos e sentimos. Foram experiências muito boas para mim. “

“A viagem me deu a chance de aprender coisas novas e conhecer novos amigos, a minha única reclamação é que a viagem foi muito curta!”

XIII Encontro de Geógrafos da América Latina.

Professor César Simoni na Escola da Vila

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O professor de Geografia do Ensino Médio da Escola da Vila que participou, entre os dias 25 e 29 de julho, do XIII Encontro de Geógrafos da América Latina, na Costa Rica, conta um pouco da experiência que aproximou os universos da escola e da pesquisa.

Escola da Vila – Professor, em sua opinião, qual a importância deste evento? Quem promove e que tipo de profissional participa?

César Simoni O EGAL reúne Geógrafos da América Latina. Isso é importante! Mas, debater os trabalhos com interlocutores qualificados e formados no campo de especialidade da disciplina é o aspecto mais interessante. Nesse tipo de evento, por suas dimensões, a diversidade de pontos de vista teóricos, temáticos e mesmo regionais ajuda a enriquecer a discussão e a reflexão.

EV – Fale um pouco sobre o trabalho que você foi apresentar neste Congresso.

CSA comunicação que eu apresentei nesse encontro nasceu dos estudos para a elaboração do projeto de trabalho de campo do 2º ano do Ensino Médio e ganhou força com o empenho dos alunos, que se envolveram na investigação. Quando a gente foi preparar a participação de Geografia no trabalho de campo de Itacarambi, conhecemos um lugar que não podia ficar de fora. O projeto de irrigação Jaíba, que fica do outro lado do Rio (São Francisco) era perto demais para ser ignorado. Na época, como agora também, eu estava estudando algumas coisas sobre a fronteira móvel da economia e da urbanização no território brasileiro por conta dos meus estudos para o doutorado. As coisas se encaixaram muito bem! A partir daí, a hipótese com a qual trabalharíamos consistia num olhar sobre a região como uma área de expansão da fronteira demográfica e econômica, com importantes repercussões para a economia tradicional da região. Com os alunos, fomos a campo verificar a hipótese. Discutimos sobre os procedimentos, sobre a validade de alguns enunciados hipotéticos, confrontamos dados e levantamos novas hipóteses. Acho que é por isso, quer dizer, por ser um trabalho real de discussão e pesquisa, que ele tem uma dinâmica própria e que não para. Este ano, voltamos a campo com o atual 2º ano e o trabalho avançou, já com novas hipóteses apontadas para o ano que vem. Este ano o tema da consciência do trabalhador dessa área de fronteira foi quem assumiu um lugar de destaque. Isso veio de alguns questionamentos deixados pela turma do ano passado. Espero que o empenho e a empolgação dos alunos com este trabalho continuem.

Daí, então, por isso, por essa dinâmica, o trabalho apresentado na Costa Rica contou, de fato, com muitos dados levantados e reflexões feitas coletivamente com os alunos. O que foi devida e nominalmente registrado. A importância e o ineditismo do que estudávamos não permitia que este trabalho ficasse restrito ao âmbito privado e estritamente escolar. Aí, compartilhei com os alunos a minha intenção de escrever um artigo sobre aquilo que estávamos começando a conhecer e disse que os dados levantados por eles ajudariam. Acho que essa percepção e dinâmica de produção do conhecimento também ajudaram a mobilizar forças. Fomos todos a campo confirmar algumas hipóteses.

EV – Professor, em sua opinião, qual a importância da participação do professor em eventos acadêmicos de sua disciplina?

CS No ensino médio, assim como no fundamental 2, penso eu, a presença dos conteúdos disciplinares fazem maior peso na prática do professor e nos processos de aprendizagem. Isso, tanto do ponto de vista dos temas abordados quanto do ponto de vista de uma lógica interna a cada área ou sub-área do conhecimento – de uma linguagem, mais propriamente. Esse, eu acho, é o primeiro ponto a se destacar.

Mas acho também que a evidência desse primeiro ponto tende a ofuscar outras coisas importantes. A tônica geral que ronda o discurso pedagógico parece ter esquecido que os procedimentos de pesquisa são, antes de tudo, tentativas de compreensão da realidade. Essa realidade, nos termos em que estão postos para a escolaridade básica, não se compreende sem um pensamento disciplinado e sem conceitos, e, assim como a realidade muda, o léxico disciplinar é instável. Logo, nesse sentido, estar “conectado” ao ambiente de produção do conhecimento disciplinar e ao universo da pesquisa significa estar diante de maiores possibilidades de adequação do conteúdo ensinado à forma de manifestação/expressão desse conteúdo, e eu acho que é isso que se entende por conhecimento.

EV – Em que medida este congresso aportou novas contribuições para sua prática docente ou seu percurso profissional?

CSPara ser sincero, fui especificamente a este evento com a preocupação maior de debater um trabalho com as características das quais já falei. Eu queria saber e ouvir a opinião de outros geógrafos sobre a hipótese e o encaminhamento do trabalho apresentado, uma vez em que ele foi construído fora do âmbito acadêmico da Geografia. Evidentemente, pude assistir a muitas outras mesas e debates, mas mantive essa preocupação inicial no centro. Para minha satisfação, pude perceber que o nosso debate escolar é de alto nível – e não falo só para o caso da disciplina de Geografia. Além disso, as perguntas e contribuições específicas que recebi enquanto o trabalho era debatido serviram para apontar para novos caminhos e também para perceber a potência do objeto que temos em mãos.

EV - Nota-se que das carreiras universitárias existentes na área de Ciências Humanas, a Geografia tem sido uma opção bastante frequente entre os alunos da Escola da Vila, a que você atribui este fenômeno?

CS Eu penso que atualmente o mundo e a Geografia vêm passando por mudanças e que isso tem a ver com esse comportamento. Primeiramente, a preocupação ambiental, o destaque dos eventos econômicos globais, os problemas urbanos são temas que chamam atenção de todos. Isso tem o seu papel na medida em que a Geografia tem se dedicado a entender tudo isso. Não estamos mais falando de uma disciplina descritiva e meramente quantitativa, como aquela que muitos ainda têm em mente quando se fala em Geografia. A Geografia mudou e está apta a compreender os fenômenos sociais mais recentes com toda a dinâmica que não se pode separar deles. E os nossos alunos sabem disso! Eu penso que eles fazem essa opção na expectativa de se aproximar de um instrumental teórico e de um debate que os aproxime dessa compreensão.