Uma escola no museu!

Por Sonia Barreira e Luisa Furman

Uma escola dentro de um museu a céu aberto surpreende e encanta. Enquanto passeamos entre instalações instigantes de artistas reais, num amplo jardim com árvores imensas e generosas, pudemos conhecer também as instalações de uma Educação Infantil pouco comum.

Lincoln Nursery School, longe de ser uma nova experiência pedagógica, tem sólidas bases num projeto que nasceu há mais de cinquenta anos. Mais recentemente, inspiradas pela experiência educacional de Reggio Emilia, promoveram transformações em seus espaços, na forma de interação com as crianças e na proposta curricular. No entanto, não é isso o que mais impacta os visitantes dessa pequena cooperativa de pais e educadores, e sim o fato de estar instalada no mesmo espaço destinado a um amplo museu de arte contemporânea ao ar livre.

Por essa razão, as crianças convivem diariamente com as obras de arte espalhadas pelo grande espaço verde, com inúmeras árvores frondosas, altas e, nesta época do ano, floridas. Essa convivência íntima e rara permite um conhecimento de cada obra bastante consistente.

Ao contrário das crianças de outras escolas, que são levadas aos museus especificamente para poder ter esse contato, os quais se resumem, na maioria das vezes, a uma experiência  singular e efêmera. Nossa pergunta foi então: e que diferença isso faz para os pequenos?

Constatamos que a partir das várias vivências diárias, as crianças podem conceber a mesma obra de arte de muitas maneiras. Podem observar o efeito que a variação do clima (frio, chuvoso, quente, ensolarado) pode promover. Podem se aproximar delas por um lado ou por outro lado, de perto e de longe, por cima ou por baixo, às vezes até dentro ou fora e com isso constatar detalhes que surpreendem e permitem novas formas de interagir com elas. Podem, por isso, sentir a obra de diversas maneiras e construir certa empatia, preferência ou apego por esta ou aquela peça.

Outro aspecto que o convívio permite é o acompanhamento de diversos processos de manutenção das obras – a depender de suas características, maior compreensão sobre a diversidade de materiais, a fragilidade e, eventualmente, a dependência de certos cuidados. Constatam com facilidade que as peças precisam ser instaladas, que algumas podem mudar de lugar e, principalmente, que são feitas por alguém, por uma pessoa, um artista!

O programa de trabalho dessa pequena escola inclui a conversa e o trabalho conjunto com os artistas expositores, de forma que inúmeras vezes os pequenos estudantes podem entender que a obra é inventada, projetada, estudada e construída. E, dessa maneira, compreender de forma intensiva o processo de produção de arte.

Essas experiências acumuladas desmistificam a arte e são um convite para a criação, para a produção dos alunos, seja em função da experiência reiterada ou de propostas específicas de seus educadores.

A ampla variedade de instalações desse museu instigante enriquece o repertório das crianças e permite e construção progressiva sobre o que é a Arte e para que ela serve.

Por fim, a partir de uma proposta relatada pelos educadores da Lincoln School, compreendemos que aquele rico entorno permitiu também que os pequenos fossem convidados a se colocar no lugar de especialistas, conhecedores do acervo. Um dia, a partir da constatação de diversos problemas com os visitantes do museu, que insistiam em interagir com as obras de forma inadequada, os alunos decidiram fazer uma lista de propostas sugerindo o que e como os visitantes poderiam explorar cada uma delas, sem colocar em risco sua manutenção.

Em vez de simplesmente proibir com cartazes dizendo “não suba nesta escultura” ou  “não toque neste painel“, “não coloque sua criança sentada aqui”, eles preferiram propor  novas experiências tais como: olhe de diversos ângulos; tire uma foto, compare com a outra obra; veja de perto e depois veja novamente de longe, etc. A exploração constante das obras e de seu entorno permitiu a esse grupo de crianças uma visão bastante original de como relacionar-se com as instalações.

Os espaços das escolas fazem parte do estímulo ao conhecimento e à interação com a realidade e os desafios da vida real. Alguns, no entanto, são mais do que isso e se transformam em parte do currículo formativo.

Formar um pequeno acervo de obras de arte no espaço da escola não deixa de ser um estímulo semelhante ao que conhecemos nessa instituição. Na Vila, essa prática já acontece, mas ainda pode ser mais explorada e expandida. Que essa pequena escola nos inspire e estimule!

O lugar da escola e o lugar do sonho

                                                                                              Equipe da Vila em Boston

Quando viajamos com um grupo de educadores de outras escolas para conhecermos tendências e possibilidades novas para o trabalho educacional, vivemos um curto e intenso período de trocas, reflexões e sonhos.

Sonhamos uma escola melhor do que a que realizamos. Sonhamos superar as nossas dificuldades e restrições. Sonhamos formar de maneira mais ampla e consistente nossas crianças e jovens. E acreditamos no sonho porque pensamos que, ao voltar, vamos arregaçar as mangas e rapidamente colocar em prática uma educação mais criativa, mais colaborativa, mais significativa para todos.

Mas lembramos também que os projetos estão em curso, os planejamentos já foram realizados e que a equipe está preparada para a escola real, cotidiana, verdadeira. Lembramos que a escola real tem amarras poderosas nos tempos predefinidos e organizadamente separados de uma em uma hora. Nos processos previamente definidos e articulados entre si: ensina, avalia, comunica; ensina, avalia, comunica; ensina, avalia, comunica! Amarras da seriação já analisada e criticada, mas ainda validada pelos órgãos oficiais e muito presente na representação das famílias. Amarras do contrato profissional definido há muitos e muitos anos, sem atualização nem adaptação às demandas da escola sonhada. Amarras da uniformidade que leva a uma luta diária para atender à diversidade.

Como desatar os nós das amarras e abrir espaço para os sonhos de reorganização curricular que incluam projetos mais arrojados, livres, menos controlados? Como mobilizar todos: famílias, professores e alunos para uma escola mais criativa, menos normativa e mais significativa? 

Mas, entre o sonho e a realidade, há a construção diária de um projeto formativo. Há o meio do caminho: aquela escola que idealizamos e que, ao mesmo tempo em que nos fornece a ilusão utópica, nos garante o rumo, o destino, o traçado de um caminho fértil. 

Nesse caminho encontramos as belezas de um projeto que estimula a curiosidade dos pequenos com as experiências intensas com as coisas da natureza: água, plantas, cores, texturas, frutas, sons, espaços. Um projeto atento às conquistas e à construção das linguagens, das relações, dos sentimentos, das narrativas. Um projeto que valoriza a cultura e incentiva a responsabilidade. Uma equipe que recentemente assumiu com coragem e competência os grupamentos intersséries, tão potentes para as aprendizagens que oferecem aos outros segmentos um modelo a ser seguido! 

Encontramos as escritas espontâneas, o espaço para o erro, as coleções queridas, o sentimento de pertencimento a um grupo. O início da compreensão sobre o espírito da lei, os motivos das regras e as justificativas para ceder. Vemos a valorização da memória e o resgate da história familiar e a descoberta da ciência. Vemos crianças enfrentarem, com disposição, a complexidade dos cálculos, as armadilhas da ortografia e a necessidade de regras para o convívio grupal. Observamos brotar a alegria de participar, com originalidade, de uma grande rede do saber ou de inventar, projetar e construir incríveis seres imaginários.   

Ainda na nossa escola, vemos florescer a capacidade de pensar no outro e  o autoconhecimento; vemos a cooperação genuína tomar seu lugar no trabalho em duplas e em subgrupos. Vemos nossos quase adolescentes aprenderem a debater, argumentar e serem convencidos. A educação digital se expande ainda que tenhamos que lutar para separar os espaços das práticas de estudo em meios digitais do entretenimento superficial e do uso precoce das redes sociais. O envolvimento com as causas coletivas começa a ganhar espaço. A diferenciação entre o público e o privado começa a ser manipulada pelas jovens mentes críticas e autônomas. Um grupo de professores que já descobriu há muito tempo que não basta ensinar os saberes disciplinares, é preciso educar para a autonomia, para a cooperação e para a resolução de problemas.

Depois certamente vemos brotar a cidadania ativa, a consciência moral e os desafios concernentes ao futuro. A capacidade intelectual aumenta a ponto de termos de enfrentar a onipotência juvenil. O futuro adulto, crítico, sensível, autônomo e cooperativo está delineado. Ele nos dá orgulho! Briga por suas ideias, mas sabe ouvir. Valoriza seus pares, mas respeita seus professores. Tem suas contradições, mas as reconhece e procura superá-las.

Viajar com um grupo de educadores de outras escolas, para conhecermos tendências e novas possibilidades, olhando escolas inspiradoras e debatendo seus projetos e espaços, faz com que nos vejamos num espelho invertido, que nos obriga a reconhecer que já realizamos parte do sonho, mas que ainda é possível sonhar mais e ir além!

A Vila viajou para Boston representada por Juliana Karina, Veronica Bochi, Fernanda Flores, Luisa Furman, Beatriz Mugnani, Sonia Barreira e Sandra Durazzo.

Para dar um passo adiante precisamos perder o equilíbrio

Reggio

 

Por Andréa Polo e Juliana Karina

O título deste blog representa a fala de uma criança de três anos idade, que vive e frequenta uma das escolas de infância de Reggio Emilia, cidade ao norte da Itália, onde circula fortemente a ideia da criança competente, participativa, cidadã e detentora de direitos.

A cidade é um encanto! São árvores por todos os lados, praças públicas com espaço garantido para brincadeiras e descanso, construções antiquíssimas e bicicletas que transitam como veículo principal de transporte das crianças a seus “nonnos e nonnas”, que carregam em suas garupas seus “bambinos”.

Reggio

Essa cidade cultiva uma escolha pedagógica em seus mínimos detalhes quando acolhe em seu contexto político decisões que serão tomadas sempre em benefício da educação. Orgulham-se de sua história e contam-nos que pais e mães construíram as paredes das escolas com restos de tijolos e ferros retorcidos de casas bombardeadas durante a II Guerra, e com esses materiais fizeram a forte estrutura que apoia a construção das creches e escolas. Vimos que a maior força de sustentação está no grupo envolvido nos processos de trabalho: a cidade como um todo está plenamente convencida de que depois do sofrimento e da destruição causados pela guerra, só mesmo um esforço coletivo para recompor e dar significado ao que foi duramente retirado de cada família. Essas escolhas, principalmente as do investimento e respeito aos diretos da criança, garantem aos pequenos de hoje uma forte atribuição de sentido para as suas experiências e aprendizagens!

Reggio  Reggio

O que vimos nas escolas de Reggio, e que encanta educadores de todo o mundo, foram pessoas a serviço da comunidade, com o intuito de proporcionar múltiplas experiências às crianças, desde os seus primeiros meses de vida, e a desenvolver significativamente seus múltiplos sentidos. Educadores interessados nas interações, nas emoções, na sensibilidade e, acima de tudo, engajados para que as crianças assumam o controle de suas aprendizagens. Protegem-nas como num processo de construção partilhado, dão o tom a uma rotina que nos deixou maravilhadas. O encantamento também se dá por conta da forma como o respeito dos educadores ao tempo e ao processo de investigação infantil é valorizado. A criança é contemplada em suas falas, observações e buscas, ao mesmo tempo em que suas produções, ações e conquistas são evidenciadas e valorizadas.

Reggio

Em Reggio, o significado do que é exposto vai muito além da visualização dos trabalhos pela comunidade escolar. Por meio de inúmeras e delicadas investigações demonstram o valor e o espaço que o processo experimentado pelas crianças ocupa nesse ambiente.

Foi possível observar, ali, variadas linguagens artísticas e poéticas que falam por si, advindas das diferentes faixas etárias. Sem nenhum tipo de explicação dos educadores, nos vimos imersas num espaço de extrema criação de contextos! Foram dias para procurar caminhos impossíveis, menos óbvios. Em Reggio, pudemos reafirmar nossas convicções de que escutar uma criança não significa apenas ouvi-la, mas reconhecer todas as suas linguagens, e acima de tudo, confiar que ela é capaz de se expressar criativamente.

Reggio

Saímos de lá refletindo sobre as possibilidades que temos para tornar visível a essência da vida na escola! A cada dia, poder dialogar com quem não estava presente no momento − mas faz parte desta comunidade −, e revelar a potencialidade das crianças que observamos diariamente,seja por meio de suas falas, suas produções, seus gestos e ações…

Perdemos nosso equilíbrio, mas nunca nos sentimos tão fortalecidas para continuar cultivando o olhar sensível, atento às conquistas, à apropriação de novos conhecimentos, às curiosidades, às preferências. Um desequilíbrio que nos ajudará a revelar a persistência, o sentimento, o esforço das crianças em suas atividades que, diariamente, realizam na nossa escola.

Viagem a Reggio Emilia: Cem Linguagens da Infância

Reggio

Por Daniela Munerato

Estivemos em Reggio Emilia, na Itália, participando de um grupo de estudos e visitando escolas de Educação infantil, com uma abordagem única criada por um jovem professor após a Segunda Guerra, Loris Malaguzzi, na qual o potencial intelectual, emocional, social e moral de cada criança é cuidadosamente fomentado e orientado, totalmente imerso na cultura da cidade.

A experiência de encontrar crianças em diferentes países é maravilhosa. Nossa observação aguçada evidencia a variedade nas condutas culturais, mas existe uma ideia que prevalece: criança é sempre criança e pode se expressar por diferentes linguagens!

Durante a viagem identificamos essa diversidade nos atos e nas produções das crianças e o desejo dos educadores em deixar claro o objetivo de favorecê-las. Estar atento à criança integralmente no seu desenvolvimento, observando sua individualidade, bem como acompanhando seus processos nos trabalhos em pequenos grupos.

Fala-se muito na escuta da criança, como o respeito a uma fase única e desconstruindo a ideia de um ensino em que o professor ensina e o aluno aprende, mas totalmente fundamentado nas relações, nas interações e no que pertence ao mundo da criança, sem antecipar condutas das crianças mais velhas. Ouvir com tempo, sem pressa, observar, tentar compreender, planejar “provocações que a façam avançar”.

A expressão, o sentimento, o olhar e a compreensão do mundo podem ser expressos por palavras, por meio das conversas, das músicas, da interação e no próprio cotidiano. Mas no mundo infantil a palavra tem um tempo, um tempo para acontecer, para ser elaborada, para ser compreendida. Quantas vezes o corpo fala primeiro, na linguagem do gesto, do carinho, da dança, da brincadeira e da representação. Não é assim que muitas vezes desvendamos nossos pequeninos? E não é este um dos caminhos pelos quais experimentam o desconhecido? O corpo que se move, pesa, equilibra, transforma, tem sombra…

Outra linguagem bastante utilizada e apreciada é a arte, na forma de pintura, de desenho, escultura, construção, realizada individualmente, em parceria ou coletivamente. Por intermédio dela a expressão e o registro de vivências, marcas e exploração de cada um no processo de aprendizagem que mostra um todo. Vale considerar que o planejamento, a gestão e a atuação dos educadores é fundamental. Observamos que variáveis como a luz natural ou artificial, o espaço organizado e o material proposto são importantes para a expressão das linguagens diversas.

O que é habitual passa a ser motivo de investigação e torna-se especial; a natureza é muito valorizada e observada. Como exemplo, cito um campo de margaridas, explorado por crianças de três anos de idade, que sentem a delicadeza das pétalas, observam como as plantas nascem, sua textura, seu volume no espaço em que habitam, e onde podem encontrá-las. O que podem aprender sobre uma planta comum na sua cidade? Como cuidar dela? Como oferecê-la sem arrancá-la? Como ter outros olhos para algo muito visto, mas nunca realmente observado, vivido!

Encontramos em Reggio muito em comum com o nosso trabalho, e muito também para acrescentarmos em nossa proposta. Seguiremos refletindo sempre sobre o nosso segmento para que a criança possa ser cada vez mais vista em sua totalidade, que a gente siga com o desafio de integrar socialmente escola e cidade e, quem sabe, começar pelo nosso bairro!

Experiências educacionais: High Tech High, Califórnia

Por Fermín Damirdjian

Em texto de minha autoria publicado neste blog, em março deste ano, fiz uma reflexão sobre o amplo contexto histórico e político no qual se insere a consolidação e a difusão da escola em seu formato convencional, tal como o conhecemos hoje. Sobre este formato, estou me referindo ao óbvio: a escola como um lugar com corredores que levam, como artérias, a seus órgãos principais, dentro dos quais se desenvolve seu bom funcionamento − as salas de aula, com os alunos todos voltados para uma mesma direção −, sendo o destino de seu olhar e ouvidos o professor que, auxiliado pela lousa, expõe verbalmente os conteúdos a serem aprendidos.

Mais do que qualquer descrição, há uma máxima que ilustra bem a situação: se um médico cirurgião de fins do século XIX adentrasse em uma sala de cirurgia atual não reconheceria o lugar; o mesmo não ocorreria com um professor: ele se sentiria em seu habitat sem maiores dificuldades. Não é uma imprudência afirmar que pouco ou nada mudou na escola desde o início da era contemporânea até os dias de hoje.

Dito isso, dando seguimento ao assunto, que está longe de se esgotar… Não faltam pensadores e experiências competentes ao redor do mundo que valham a pena ser consultadas e visitadas. Essa é uma das atividades promovidas anualmente pelo Centro de Formação da Escola da Vila. Dentre os diversos cursos e atividades de formação para educadores, há uma viagem anual para outros países da Europa, da América do Norte ou da América Latina a fim de conhecer algumas experiências que buscam um formato mais atual para a escola e a educação dos alunos deste século. Os quais diferem, e muito, daqueles garotos de cem anos atrás…

Em abril deste ano o Centro de Formação organizou uma viagem à Califórnia, onde se encontram algumas instituições expoentes de uma nova forma de conceber a escola. Visitamos escolas privadas e públicas, de diversos tamanhos e em diferentes âmbitos urbanos, em regiões centrais, em subúrbios, e em localidades mais distantes. Vou me concentrar na High Tech High Chula Vista, escola pública de modelo charter, localizada em San Diego, enquanto meus colegas estão abordando outras descrições neste mesmo blog.

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Há várias High Tech High na Califórnia. Todas elas gerenciadas segundo o modelo charter, o qual consiste em uma composição entre administração pública e privada. Grosso modo, trata-se de verba pública voltada a gastos estruturais básicos, os quais podem ir desde a construção do prédio até salários dos docentes, passando por custos elementares como energia e materiais essenciais. Por outro lado, há injeções inconstantes de fundos privados e oriundos de fundações destinados a projetos específicos. Isso pode variar, desde algumas centenas de dólares que saem dos bolsos das famílias para um breve trabalho de campo, até um programa de investimento tecnológico com duração de dez anos proveniente da Fundação Bill Gates. Em suma, os nutrientes essenciais são garantidos por fundos públicos, enquanto professores e diretores perseguem fundos específicos, garantindo constantes inovações didáticas.

Citarei um exemplo que permitirá melhor visualização do que foi descrito. The Tiny Home Project foi uma atividade realizada pelos alunos do ninth grade (14 anos) ao longo do ano letivo. A partir da constatação de uma carência urbana pontual, os alunos desenvolveram, com um escritório de arquitetura, projetos de casas de baixo custo a serem habitadas por artistas de San Diego. Em início de carreira, os futuros ocupantes carecem de um lugar para viver e produzir. Por outro lado, identifica-se um determinado bairro da cidade que tenha espaços favoráveis à sua ocupação, pelo êxodo de seus habitantes e abandono de algumas áreas. Os estudantes tomam parte nesse trabalho mediante o mapeamento dos hábitos e necessidades de seus futuros moradores por meio de entrevistas, para logo elaborarem o projeto gráfico, as maquetes e, por fim, a construção efetiva dessas casas. Isso envolve âmbitos de saber que vão das ciências sociais à geometria, passando por cartografia e questões urbanas. O andamento desse trabalho pode ser acompanhando no site Tiny Homes Project.

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Isso foi explicado pelos alunos que nos receberam. Sendo uma referência internacional de um novo modelo educacional, a High Tech High Chula Vista recebe milhares de visitantes todos os anos. A circulação pela escola é realizada com os alunos, que assumem o papel de ambassadors, e o visitante pode observar em detalhes o cotidiano da vida escolar por intermédio deles. Esses alunos têm referenciais importantes de como ouvir e falar com os visitantes, inclusive estrangeiros, mostrando-lhes a escola e seus projetos. Os alunos mais antigos vão treinando os mais novos ao longo do tempo, mantendo uma característica peculiar de apropriação da escola no corpo discente, independentemente de quais alunos compõem o grupo.

Há outros projetos que indicam um forte grau de apropriação do espaço escolar, aliado ao desenvolvimento de várias habilidades. Parte dos brinquedos do playground da ala infantil da escola, por exemplo, foi elaborada pelos alunos mais velhos. Isso envolveu observação de demandas dos alunos pequenos, bem como seus hábitos e carências no espaço físico da escola; invenção dos brinquedos para o parquinho, com respectiva pesquisa de materiais disponíveis no mercado, levantamento de custos e arrecadação de valores, segurança no uso, estética, resistência e manutenção dos materiais foram o trajeto desse trabalho.

A ocorrência de uma tragédia abriu caminho para um outro projeto bastante complexo. O padrasto de um aluno assassinou a este e a sua mãe, e em seguida se suicidou. Para além dos rituais possíveis para elaboração de tamanho impacto na comunidade, alguns professores desenvolveram com seus alunos uma ampla pesquisa sobre a violência na sociedade norte-americana. Além do valor intrínseco a uma pesquisa de cunho social e antropológico em torno de tema tão complexo, produziu-se um documentário e um memorial nos jardins da escola. Um mural com a descrição desse projeto pode ser visto em “How can we reduce the violence on US?”

Nessa instituição, com fortes características de aplicação prática do saber, não faltam salas de aulas e lousa. No entanto, é importante destacar que a disposição das mesas e cadeiras não é uniforme, nem voltada para um mesmo lado, mas em geral dispostas para a formação de grupos. Não faltam, também, mesas nos corredores da escola e nos jardins. Não é mero detalhe o fato de que todas as carteiras têm rodinhas, e muitas das mesas são dobráveis, de modo a abrirem grandes espaços livres em sala sem grande esforço. A disposição física é, de fato, adaptável aos propósitos de cada turma, de cada disciplina, de cada projeto. O objetivo didático é o que prevalece sobre o formato das atividades, e da escola como um todo.

O ingresso dos alunos à instituição é feito por sorteio simples, para uma área da cidade que abrange bairro e distritos muito distantes entre si. São contempladas comunidades muito diferentes, tanto no plano socioeconômico quanto cultural. Os professores têm salários mais baixos que os das escolas públicas convencionais, mas sentem-se mais livres para criar e percebem uma vivência mais autêntica por parte dos alunos no que diz respeito a seu processo de aprendizagem. Foi o que me disse uma professora enquanto fazia um piquenique com os alunos, atividade semanal que lhe permite um contato extraclasse para tratar de assuntos pessoais ou coletivos com o grupo que está a seu cargo. Bem longe da lousa.

Impactos da viagem pedagógica 2016

Por  Sandra Baumel Durazzo 

Visitar escolas em outros contextos é sempre uma experiência transformadora. Como já relatado pela Fernanda Flores, na recente viagem à Califórnia, o grupo teve o privilégio de conhecer projetos educacionais fantásticos. Entre muitos aspectos que os fazem ser merecedores desse adjetivo, destaco três que me chamaram a atenção: o protagonismo dos alunos em seu próprio percurso de aprendizagem, o valor da exposição dos produtos dos projetos e a formação dos professores.

A primeira escola visitada, Brightworks, em San Francisco, nasceu da observação de um engenheiro de software, sem filhos, de que as crianças de hoje são muito “protegidas”. Por protegidas ele entende “sem a possibilidade de experimentar perigos, desafios manuais e intelectuais, porque são mantidas em espaços fechados, constantemente supervisionados por adultos, que não permitem que eles vivenciem situações de rua”. Inicialmente trabalhando com cursos de férias e propostas extracurriculares no formato de oficinas makers, ele decidiu ampliar essa proposta para uma escola. Juntou-se com uma educadora, diretora de escola pública, que estava insatisfeita com as propostas educacionais para seus três filhos, e instalaram uma escola dentro de um galpão que já havia sido uma fábrica de maionese e um estacionamento de táxis. Sem construir salas com paredes, fizeram casas de madeira, no estilo “casa da árvore”, e ali começaram, com 19 alunos, uma proposta que pretende promover experiências ricas para esses estudantes. Hoje, com 64 alunos e crescendo a cada ano, a escola organiza o currículo em grandes temas, que são os mesmos para todos os grupos, e geram diferentes questionamentos e projetos abarcando os conteúdos de todas as áreas. O período (aproximadamente um trimestre) começa com a apresentação do tema e de propostas investigativas colocadas pelos professores, o que leva a desdobramentos liderados pelas perguntas, pesquisas, dúvidas e novas propostas dos alunos. Ao final da primeira fase, são as crianças e os jovens que devem elaborar uma forma de expressar o aprendizado por meio de algum projeto. Esses projetos são submetidos à aprovação dos diretores da escola e, com isso, ganham enorme seriedade tanto do ponto de vista da confecção quanto do rigor acadêmico.

brighthouse

brighthouse

Percebe-se que o aluno toma para si a responsabilidade por aprender. Tanto no início, quando participa e tem voz nas investigações e estudos, quanto no momento de tomar consciência de seu aprendizado e ainda elaborar uma forma de transmiti-lo. Os projetos são depois expostos e muitos deles, como é comum em tantas escolas que visitamos, saem da escola e buscam interlocução na cidade, na comunidade ou no bairro.

O grande desafio para uma proposta como essa, a meu ver, é a formação da equipe de professores. Todos os adultos da escola se envolvem na tarefa de fomentar o aprendizado por meio de experimentação, e isso só pode acontecer se houver intensa atividade formativa nesse sentido. Em todas as escolas que visitamos, os professores são preparados usando estratégias similares àquelas que usarão com os alunos: instâncias de reflexão sobre a prática; discussões abertas buscando não uma verdade única, mas possibilidades de questionamento e aplicação de saberes das disciplinas; vivência na metodologia usada; e muitas revisões de decisões ao longo do caminho, tomadas sempre em equipe.

Outras escolas mostram o protagonismo do aluno de forma diferente. Na Summit, uma rede de escolas públicas, todo o currículo das disciplinas é trabalhado por meio de uma plataforma online. As aulas são virtuais e contam com tudo o que as nossas aulas tradicionais têm: exposições do professor; propostas de pesquisa e discussão a partir de um input dado, como um documentário, um filme, um texto, uma palestra; exercícios de prática e ampliação do conteúdo; etc. Só que cabe ao estudante organizar seu tempo e passar pelas várias “aulas” de cada disciplina. Ele tem que cumprir o programa, mas organiza seus estudos como achar mais adequado. Ao final de cada sequência, ocorre a avaliação, e a próxima etapa só fica disponível se o desempenho for adequado na anterior. Na organização do tempo escolar, há um horário definido para trabalhar na plataforma. Nós chegamos a uma unidade Summit exatamente nesse momento – Personalized Learning Time – e foi impressionante vê-los trabalhando. Em primeiro lugar, há um silêncio enorme na escola. Não se ouve um ruído a não ser vozes muito baixas trocando ideias, ou teclas sendo apertadas. Além disso, eles se comportam exatamente como jovens de qualquer lugar: sentam-se no chão, em duplas, sozinhos, nas mesas, enfim, onde acham que o espaço é adequado para seu estudo. Nesse momento, os professores atuam como orientadores, acompanhando também virtualmente o caminho do aluno e chamando-o para oferecer-lhe ajuda em qualquer coisa de que precise: na organização do tempo, na distribuição de tarefas pelas várias disciplinas, dando apoio em uma matéria ou conteúdo específico que o aluno demonstre não ter aprendido, analisando seus resultados nas avaliações.

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Além desse momento, os alunos participam de projetos que são liderados pelos professores, os quais abarcam os diversos conteúdos aprendidos nessa plataforma, mas são totalmente guiados pela investigação e pela ação dos alunos. Como nas outras escolas, a aprendizagem baseada em projetos está em prática e requer tanto a implicação dos alunos como a preparação dos professores para liderá-la. As paredes são tomadas por produções dos alunos, avisos de apresentações, frases que traduzem conclusões ou indagações sobre os projetos.

O que chama a atenção em todas as escolas que visitamos e na conversa com os alunos é o orgulho que eles têm de suas produções. A relação dos alunos com o produto exposto é real, e é o grande motivador da aprendizagem. Eles não fazem para tirar nota, mas porque o produto existe e será entregue a um destinatário

Visitamos também uma escola na região da Bay Area, a Lighthouse, escola que conta com um Creativity Lab. Lá nós passamos por um workshop que é usado na formação dos professores: Vivenciamos um momento de exploração, usando a ideia de aprendizado centrado em colocar a mão na massa, chamado de making-centered learning. Nós passamos pela mesma experiência que os alunos, percebendo que fazer realmente traz enormes possibilidades de aprender, e que esse aprendizado é totalmente apropriado pelo aprendiz que faz. A aprendizagem é dele, para satisfazer as necessidades e/ou as curiosidades dele! Parece óbvio, mas só vivendo a experiência para saber a dimensão dessa vontade de saber mais que é despertada ao literalmente desmontar um headphone!

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E todas essas escolas contam com resultados excelentes. Seus alunos entram nas faculdades para cursar o que eles chamam de 4-year-college, ou seja, para conseguir uma graduação relevante (major degree). Sua média de aprovação e retenção nas faculdades é muito acima da média do estado e do país (aproximando-se ou alcançando 100% de seus alunos), especialmente em meio à população atendida pelas escolas públicas, que são filhos de imigrantes, latinos em sua maioria, com pouca ou nenhuma história de estudo na família.

É assim que se vence a desigualdade. E só.

Anotações de Viagem

Por Fernanda Flores

Esta semana iniciamos um período de publicações no blog da Vila para compartilhar nossas impressões sobre as experiências pedagógicas, que conhecemos na viagem à Califórnia, realizada há duas semanas.

Foram quatro pessoas representantes da Vila, e com nossas lentes pessoais procuraremos traçar um panorama daquilo que mais nos cativou e mobilizou durante os cinco dias de visitas, nos quais conhecemos cinco projetos pedagógicos arrojados, instigantes e consistentes.

Para começar, apresentamos um sobrevoo pelas escolas visitadas e selecionamos imagens que possam mostrar um pouco do DNA de cada instituição. Já nos próximos textos, destacaremos aspectos que especialmente nos fazem pensar em possíveis diálogos com o nosso projeto pedagógico.

Brightworks

Ficamos impressionados com o senso de grupo e a apropriação do espaço escolar pelos alunos, que organizam os espaços de aprendizagem na medida das necessidades dos projetos, contando com uma oficina de construção que é o coração da escola.

A ideia de escola democrática, na qual as crianças encontram espaço para seus projetos coletivos e individuais há de ser destacada. Como uma escola nova, surgiu de um forte compromisso com a inovação e a criatividade, marcas visíveis em cada detalhe, que pudemos constatar.

Summit Schools

Em parceria com Mark Zuckerberg (fundador do Facebook), as escolas Summit têm um dos mais arrojados projetos de diferenciação de ensino, por meio da PLP (Personalized Learning Plan), uma plataforma de ensino individualizado, que organiza a vida do estudante para que este possa ajustar suas demandas ao projeto coletivo de trabalho em curso, dando ênfase à diferenciação dos processos de aprendizagem quanto ao ritmo e à profundidade. Muitíssimo interessante, e temos de nos debruçar para entender seus usos e possibilidades!

Lighthouse

A ideia de aprendizagem em profundidade e de pôr a mão na massa é muito forte nessa instituição. Fomos recebidos por estudantes em seu último ano, contando de sua experiência, vindos de uma comunidade muito desacreditada social e economicamente, e têm clareza do impacto do projeto da escola em suas trajetórias. Destaca-se a clareza dos valores institucionais e, sobretudo, o diálogo com projetos de autoria tutorados pelos professores.

Evergreen

Essa escola de Educação Infantil se destaca pela qualidade das reflexões da equipe de professores e de sua diretora. Por meio da abordagem “acreditar e duvidar” como guia das conversas com as crianças, trabalham com projetos, onde arte, linguagem e ciência são centrais. O manejo do tempo cotidiano e os registros das crianças são marcas centrais inspiradoras para repensarmos pontos no trabalho com os pequenos.

High Tech High

Passamos três dias visitando, observando e trabalhando com a equipe dessa fantástica escola. Primeiramente, os princípios de trabalho tão evidentes em todos os corredores e nas falas entusiasmadas de professores, alunos e alunas. Grandes ou pequenos, não se cansam de mostrar seus projetos e contar o que estão aprendendo! Mas, além de tudo isso, um projeto consistente, rigoroso, com marcante autoria do professor e dos estudantes. O enfoque metodológico é visível nas várias mostras das produções intelectuais, compartilhadas como processos e produtos de muito investimento pelas turmas, organizadas de múltiplas formas para garantir o princípio da cooperação e da diversidade, centrais também em nosso projeto.

Nos próximos textos exploraremos mais detidamente variáveis comuns a esses projetos, pelo viés de análise que conversa com a experiência de cada um dos viajantes da Vila. Acompanhem!!!

Have you been to California yet? No? So let’s go!!!

Por Sandra Durazzo 

O Centro de Formação da Escola da Vila está preparando as malas para uma viagem pedagógica que promete ser incrível!

Visitaremos escolas com propostas inovadoras com relação ao agrupamento dos alunos, à formação dos professores, ao uso da tecnologia a favor da aprendizagem, e muitas outras soluções criativas para aprimorar o desempenho acadêmico dos alunos.

São propostas que unem a gestão do espaço escolar com a participação ativa da comunidade de pais e professores, para desenvolver projetos pedagógicos que atendam às demandas formativas do século XXI.

E tudo isso no estado mais charmoso dos Estados Unidos, a Califórnia!

Começaremos por San Francisco, onde visitaremos escolas que são modelo de educação, e ficaremos hospedados no fantástico Fisherman’s Wharf!

Passaremos pela elegante Santa Mônica, onde ficaremos um dia inteiro numa escola de educação infantil inspirada na pedagogia Reggio Emilia, da Itália. Quando uma escola ou projeto se tornam referência mundial, como é o caso da pedagógica reggioemiliana, muitas e diferentes escolas buscam concretizar propostas que tenham alguma semelhança com o modelo, mas que atendam às necessidades locais. Entender esse processo é bastante formativo e nos ajuda a aprender com os erros e os acertos de terceiros!

E fecharemos a viagem em San Diego, onde teremos o privilégio de conhecer duas unidades da High Tech High, além de participar de um workshop formativo, especialmente elaborado para o nosso grupo. Nessas escolas, poderemos compreender melhor a organização de uma escola que trabalha prioritariamente através de projetos, e onde o aluno é central em todo o processo de ensino e aprendizagem.

Ainda temos lugares no grupo. Venha dividir conosco essa experiência única!


Leia também sobre a primeira viagem pedagógica para Califórnia, realizada em 2014:

Para fazer uma boa escola você tem de pensar não apenas no que vai ter nela, mas principalmente naquilo que você não vai permitir, de modo algum, que exista nela.

Mentalidade de aprendizagem, academic mindset ou a nossa velha e boa postura de estudante!

O que nos encanta numa escola – que não é a nossa?

O convite à metacognição e a comunicação dos processos e aprendizagens

19_6_2015

Por Daniela Munerato 

[…] Uma turma de segundo ano do Ensino Fundamental 1. As crianças estão em horário de intervalo. Observo cuidadosamente todos os planos da sala vazia que, certamente, terão muito a me dizer sobre os processos de aprendizagem. Paredes tomadas por diferentes produções: fotos, desenhos, mapas conceituais, pequenos post-its cheios de anotações sobre uma pesquisa. Parecem aproveitar cada cantinho do espaço para contar suas histórias.

A partir dessa breve observação, pretendo tecer algumas considerações sobre a comunicação dos processos de aprendizagem no cotidiano escolar, e o que está além delas, um dos aspectos refletidos durante a viagem pedagógica deste ano. Inicio mencionando histórias que contam o cotidiano de um grupo e do que vivem juntos. Uma comunicação coletiva que mostra, também, o aluno em suas participações individuais e que se tornam memórias importantes do percurso do grupo. Os registros podem ser variados e representam instrumentos que recuperam trajetórias concluídas ou em andamento. A partir deles, a construção de conhecimento continua intensa, pois a experiência vivida gera produções sobre as quais podemos observar, dialogar e refletir em favor das aprendizagens.

Observar num tempo que não seja somente o imediato, mas o que distanciado pensamos a respeito do que já vivemos. Além disso, olhar e olhar novamente, percebendo detalhes ou o que não pôde ser visto anteriormente. Dialogar, pois a interação é sempre fundamental para que haja o avanço, a possibilidade de colocar-se no lugar do outro, compreender diferentes pontos de vista, aprofundar-se. Nesse diálogo incluímos alunos da mesma idade ou não, e professores com intervenções importantes que “provoquem” o aluno e o façam pensar. Vale completar que tais ações estão inseridas no planejamento das atividades.

A comunicação acontece para fins diferenciados, e é fundamental, com o objetivo de compartilhar na instituição os acontecimentos entre alunos, salas, séries, funcionários da escola e pais. Na comunicação de um trabalho aparecem princípios importantes da escola que se fazem conhecer pela forma de organização dos saberes ali produzidos.

Neste contexto, o refletir nos remete ao aluno. O que, a partir da experiência, se aprende? Como ter consciência de como está aprendendo, de ferramentas que costuma usar, de desafios ainda a serem transpostos? Este é o conceito de metacognição, pensar sobre como se aprende e seu processo individual. O aluno pode identificar através das propostas das quais participa seus conhecimentos prévios, o que já tinha enquanto recurso cognitivo para conseguir realizar determinada tarefa. Também observa o outro perante suas aprendizagens, pelos comentários e pelas trocas que o fazem ressignificar saberes, com novas formas de pensar. Além disso, é uma boa oportunidade para identificar os desafios e fazer um plano para enfrentá-los.

Por fim, evidencia-se a importância de comunicar as aprendizagens como uma prática que ajuda o aluno a autoavaliar-se, num movimento no qual ele tenha protagonismo sobre a exposição de ideias, consiga participar de sua organização e recuperar o que aprende. E que nós, espectadores, possamos olhar os produtos expostos não somente como meros registros, mas que consigamos entender o que esses recursos representam no percurso de cada criança e do grupo. Fica o convite!

O design de jogos como estratégia de aprendizado, envolvimento e motivação

Por Sônia Barreira e Helena Mendonça

Na última viagem pedagógica a Nova York, uma das atividades programadas foi uma oficina organizada pelo Institute of Play sobre a metodologia de aprendizagem com base no design de jogos (game like learning), aplicada na escola pública, de ensino fundamental 2 e médio, que também tivemos a oportunidade de visitar, Quest2Learn.

Na oficina, pudemos vivenciar as etapas do processo de design de jogos na participação do grupo em alguns desafios propostos. Em um dos casos, tínhamos que modificar um jogo conhecido e observar como esta essa mudança  impactava o sistema de regras e o funcionamento do jogo como um todo. Para observar, era necessário planejar a mudança e testar:  jogar, avaliar se o objetivo foi atingido e se o desafio foi cumprido. Através da criação e da modificação de jogos, pudemos tomar contato com os princípios propostos pela aprendizagem com base no design de jogos, tais como:

• Todos são participantes.
• Aprender é como jogar.
• Tudo está conectado.
• Aprender acontece no fazer.
• Erros são reformulados nas repetições/novas tentativas.
• Feedback é imediato e contínuo.
• O desafio é constante.
Um dos objetivos da oficina era que, ao vivenciarmos o processo de design, pudéssemos pensar no desenho de sequências didáticas a partir dos princípios propostos. Além disso, pensar no professor como um designer da aprendizagem. Essa ideia não se aplica apenas aos jogos que porventura ele possa usar em uma proposta. As demais modalidades organizativas da prática pedagógica (projetos, sequências didáticas, situações de aprendizagem, trabalhos de campo, experimentações) devem ser igualmente desenhadas, antecipando um conjunto extenso de variáveis. O ponto interessante dessa abordagem é a ideia de transformar algumas propostas de ensino em missões a serem enfrentadas, com os desafios, as regras e as parcerias.

Dois dias depois, pudemos ver, na  escola, os princípios aplicados na prática. Na escola Quest2Learn, os objetivos de aprendizagem dos alunos se refletem nas missões recebidas por eles em cada atividade ou proposta dos professores. Essas missões  são divididas em etapas ou desafios intermediários, que implicam uma série de atividades para serem atingidas. Na escola, conhecemos, por exemplo, missões como “Onde o Sr. Pi foi parar?”, que propõe desafios das áreas de matemática e ciências sociais, ou ainda uma missão na qual “um médico é encolhido para entrar no corpo do paciente e descobrir uma doença secreta”. Dessa forma, as áreas de conhecimento são agrupadas em temas e não recebem o nome das disciplinas habituais. Alguns exemplos desses temas: ‘Mundo do Código’, ‘Como as coisas funcionam’ ou ‘Esportes para a mente’. Essas diferenças são apenas o que fica mais visível quando entramos e participamos das aulas. O mais interessante é pensar em como toda a dinâmica que experimentamos na oficina pode ser usada para ações que realmente tragam ganhos à aprendizagem dos alunos.

É importante ressaltar que a construção do conhecimento não é sempre instigante, motivadora e vibrante, como pode ser uma experiência com jogo, muitas vezes ela requer disciplina, repetição, empenho e principalmente persistência. O desafio é conseguir definir a modalidade organizativa da prática que melhor se adequa aos objetivos e conteúdos visados. Se for possível variar sempre, com consistência, sem modismo, saem ganhando os alunos.

A partir da oficina e da visita à escola, vale destacar ainda alguns pontos que pudemos observar a partir do trabalho realizado pelas Instituições. A importância dada à prática em equipe por parte dos professores em seu trabalho docente; a efetiva aplicação de uma abordagem que apresenta aspectos inovadores e que atende a formas de avaliação mais tradicionais; alunos participativos, envolvidos e curiosos e uso de tecnologias de forma integrada e significativa.

Para saber mais:

Made With Play: Game-Based Learning Resources