Ambiente favorável ao ensino e à aprendizagem – refletindo sobre ele para garanti-lo em sala de aula

educacao infantil

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Por Vania Marincek

No último final de semana aconteceu a primeira jornada do programa ZDP 2016, um conjunto de ações formativas realizado pelo Centro de Formação da Escola da Vila. Neste ano, o tema escolhido foi o da construção de um ambiente favorável ao ensino e à aprendizagem, tema bastante desafiador para todo educador, especialmente pelas rápidas e profundas transformações da sociedade atual.

O que define um ambiente favorável à aprendizagem e que aspectos contribuem para concretizá-lo, do ponto de vista da concepção construtivista de ensino e aprendizagem? Para além da disponibilidade do professor, há estratégias que podem contribuir para a criação desse ambiente? Essas foram as questões que nortearam as discussões nessa primeira jornada.

Pesquisas diversas têm demonstrado que um ambiente sociomoral cooperativo e/ou democrático na escola, no qual as relações sociais são marcadas por respeito mútuo, confiança e diálogo, contribui não só para que os indivíduos se desenvolvam moralmente, como, também, predispõe à aprendizagem acadêmica e social.

O desafio de constituir esse ambiente favorável dentro da escola, certamente foi o que impulsionou a participação de um grande número de educadores no evento.

A jornada presencial teve início na sexta-feira, contando com a participação de 41 orientadores e coordenadores vindos de escolas de São Paulo e de vários outros lugares do Brasil, e prosseguiu no sábado com uma programação que incluiu também a participação de professores, quase que triplicando o número de participantes.

Para contribuir com a construção de respostas para essa inquietação pedagógica e educacional, iniciamos a manhã do sábado com uma palestra com as professoras Susana Menin[1] e Carolina Marques,[2] que buscaram caracterizar a chamada “crise de valores” da contemporaneidade e versaram sobre as possibilidades da escola para garantir as aprendizagens com sentido e a educação baseada em valores.

Todas as contribuições trazidas por elas foram valiosas, mas vale destacar a parte final da palestra, quando, depois de caracterizar a sociedade atual, as professoras apresentaram alguns aspectos chaves que devem ser retomados para que se construa, na escola, uma cultura dos sentidos e de ensino de valores.

Ter a verdade como valor; valorizar a memória, preservando as tradições culturais, trazendo às crianças heróis que servem de bons modelos; apresentar aos alunos o conhecimento com sentido, despertando seu interesse e ampliando seus horizontes; cuidar das crianças, respeitando a infância, e, por fim, trazer, para dentro da escola, os valores para que as crianças se aproximem deles e possam construir seus próprios valores tendo boas referências.

O grupo de trabalho foi coordenado por Fernanda Flores e por mim, e foi organizado nas atividades seguintes de forma a garantir a retomada das contribuições apresentadas na palestra, através de debate e de análise de situações da prática em que os participantes, organizados em grupos por segmento, puderam aprender, reorganizar o que já sabiam e ressignificar importantes aspectos para ampliar essa compreensão, o que contribui para a criação de um ambiente favorável à aprendizagem em sala de aula e na escola, imersos em uma reflexão sobre a ação cotidiana que certamente irá colaborar para transformações das práticas de cada um.

Com certeza, com a continuidade das discussões nas próximas três jornadas que acontecerão ao longo deste ano, os participantes, tanto dos eventos presenciais quanto das jornadas online, terão muitos elementos para repensar sua prática e ampliar os recursos para a construção de um ambiente favorável ao ensino e à aprendizagem.


[1]Maria Suzana De Stefano Menin

Pós-graduada em Psicologia pela Faculdade Objetivo, em 1977; mestre e doutora em Psicologia do Escolar (favor conferir) pelo Instituto de Psicologia da USP (1985 e 1993); tem dois pós-doutorados em Psicologia Social realizados na École des Hautes Études en Sciences Sociales no Laboratório de Psicologia Social da Maison des Sciences de L’Homme, Paris, França (1996 e 2004). É livre-docente e professora-titular em Psicologia da Educação pela Unesp (2000 e 2007).

[2]Carolina de Aragão Escher Marques

Possui graduação e licenciatura plena em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2002), mestrado em Psicologia Escolar pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2004), doutorado em Educação, na área de Psicologia Educacional, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e “doutorado sanduíche” na Harvard Graduate School of Education (2014). Possui, ainda, formação em Orientação Profissional pelo Instituto do Ser/SP (2010) e especialização em Relações Interpessoais na Escola pela Universidade de Franca (2012).

ZDP – Interação e Aprendizagem

Por Daniela Munerato e Claudia Cavalcanti

Em qualquer encontro, com qualquer tema, a interação é fundamental para que ocorra a aprendizagem. Nos encontros da ZDP — Zona de Desenvolvimento Profissional –, acreditamos que esse tema está sempre presente sob dois aspectos: do grupo que participa do encontro (coordenadores, orientadores e professores), como processo de formação profissional de cada um e, sob outro olhar, como os professores podem atuar para favorecer as interações de seus alunos. Estamos falando da construção social do conhecimento.

Os encontros da programação ZDP 2013 reúnem participantes de muitas escolas, vindos de diferentes localidades do Brasil, e abrangem desde o segmento da Educação Infantil até o Ensino Médio. Nos dias 16 e 17 de março, iniciamos a jornada deste ano que representa a continuidade de temas relacionados à didática do ensino de Ciências Naturais. Desta vez, refletimos sobre a leitura de textos em Ciências Naturais. Tema bastante instigante!

Algumas propostas para a reflexão dos temas de estudo foram planejadas com diferentes estratégias, a depender do nosso objetivo de formadoras: ora com todo o grupo, ora em grupos menores de trabalho, e a cada organização escolhida com diferentes interações. É interessante pensar que não basta ler nem ouvir, mas tentar compreender, responder às questões, estabelecer relações com a prática, ampliar um pouco nosso conhecimento sobre esta área.

Observamos que as trocas entre os grupos menores são muito interessantes. Além de os participantes se conhecerem, exprimem diferentes tipos de abordagens e práticas, retomam todos os conhecimentos prévios e modificados nos encontros anteriores, com base em suas experiências e leituras, promovendo novos canais de comunicação.

É interessante pensarmos que, ao partilharmos a elaboração com outros sujeitos, ocorrem conflitos sociocognitivos, que não são mais apenas intraindividuais como os que se produzem nos diferentes esquemas de um mesmo sujeito, ou num esquema do sujeito e os dados proporcionados pelo objeto (Inhelder; Bovet; Sinclair, 1974) mas que se colocam entre sujeitos diferentes que realizaram centralizações ou ações opostas, que têm pontos de vista contraditórios sobre o tema em discussão.¹

Ao utilizar recursos das TIC (Tecnologias da Informação), para abordar o tema da leitura, abrimos espaço para que os participantes pudessem compartilhar informações utilizando fórum e wiki, e, ao mesmo tempo, vivenciassem propostas didáticas aprendendo a lidar com tais recursos, muitas vezes, novos também para os docentes. Esse contato abriu espaço para variadas formas de interação, pela possibilidade de unir num só tempo e lugar a construção e a organização do conhecimento.

Em nosso encontro circularam inúmeras informações sobre leitura em ciências, uso das novas ferramentas, como cada um trabalha em sua escola, de que maneira interpretávamos ou analisávamos um texto. A formação é densa e intensa, porém, sem perder de vista o tempo da aprendizagem de cada participante, que tem a oportunidade de retomar os assuntos estudados, acessar todos os textos, fóruns e recursos que utilizamos e alcançar novos graus de interação com as informações que circularam no encontro. Até mesmo a interação entre os participantes pode se estender e romper a barreira da distância; para isso, basta contarmos com a participação de todos no fórum.

Nesse contexto interativo e reflexivo, aguardamos o próximo encontro. Até lá utilizaremos os e-mails e os recursos dos ambientes virtuais de aprendizagem para tarefas entre as jornadas. Que esse intervalo continue sendo um tempo de muitas reflexões. Nos vemos em maio!


¹Ferreiro, Emília; Oliveira, Marta Kohl de; Castorina, José Antonio. Piaget, Vygotsky: novas contribuições para o debate. São Paulo: Ática, 1990.

Supervisão Empresarial: o que isso tem a ver com escola?



Por Ana Luiza Martinez do Amaral – diretora administrativo-financeira da Escola da Vila e do Centro de Formação, e formadora de gestores e/ou mantenedores institucionais

Em 2011 demos início à Supervisão Empresarial, ação que surgiu das demandas das próprias Escolas que integram o Programa ZDP, por sentirem falta de um espaço de discussão de temas relacionados à Gestão Empresarial no contexto escolar, o que significa ter um olhar para a escola como empresa, pensar em como gerir os recursos em favor de um projeto pedagógico.

Existem muitos livros sobre administração de empresas, mas em sua maioria os exemplos e suas aplicações são mais focados em indústrias; os que trazem alguns exemplos de serviços ainda estão distantes da realidade das escolas. Nosso exercício como gestores escolares é o de adequar os conhecimentos decorrentes de teorias de administração para a organização ESCOLA, considerando sua natureza, sua especificidade e, que lhe reserva um lugar tão peculiar.

Nos quatro encontros realizados ao longo do ano pudemos refletir sobre vários aspectos relativos à administração de empresas e como se refletem na Escola, como podemos aplicá-los neste âmbito.  Os temas discutidos foram: Crescimento Empresarial, Orçamento e Fixação de Preços e, por fim, Gestão de Processos. Tivemos palestrantes convidados pela própria expertise, que muito dinamizaram nossos trabalhos: Fernando Barão, da Corus Consultoria, Otto Nogami, economista e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), e o professor Silvio A. Laban Neto, coordenador do MBA do Insper. As exposições realizadas puderam enriquecer as discussões realizadas entre as várias escolas presentes, representadas por seus gestores e/ou mantenedores institucionais.

Outro aspecto importante a destacar é a importância da troca de informações entre as escolas, uma vez que essa troca costuma ser frequente em se tratando de assuntos pedagógicos, mas quando o assunto é financeiro ou administrativo isso normalmente não acontece. Reconhecer que outras instituições enfrentam os mesmos problemas, conhecer soluções encontradas, saber como estão se estruturando para o próximo ano fortalece a ideia de rede – meta maior do programa ZDP. Além disso, considerar a importância da imagem, da valorização de diferenciais institucionais, de riscos relativos à perda de mercado, da tomada de decisões atrelada a índices de aumento ou configurações de novos cenários econômicos foram sempre temas exclusivos “das empresas”. A escola estava fora disso. Hoje, sabemos que um dos grandes desafios enfrentados pelos gestores e/ou mantenedores não é o de reconhecer que faz parte de uma organização humana e complexa como a escola, mas assegurar que a atuação na área administrativo-financeira seja coerente com os princípios que regem o projeto educativo, ou seja, não pode estar dissociada dele. Isso significa que, a cada dia que passa, é urgente a necessidade de nos aproximarmos dessas discussões, dominar informações, gerir melhor os processos na busca de uma empresa mais eficiente, mais produtiva, mais competente, o que só é possível por meio de atualização, discussão e reflexão – práticas desenvolvidas em nossos encontros e que terão continuidade em 2012.

Diretor escolar: qual é o seu desafio?

Por Sônia Barreira – Diretora pedagógica do Fundamental II e do Ensino Médio, e formadora de diretores

Filha, neta e sobrinha de diretores de escola, eu só tinha uma certeza na adolescência: não queria ter a mesma sina familiar! Diretora de escola era, para mim, alguém que só tinha problemas a enfrentar.

Minha trajetória na Escola da Vila foi da sala de aula para a direção. Nestes 31 anos, fui professora de educação infantil, de Fundamental I, orientadora e coordenadora. Há vinte anos, estou na direção e pude, com a colaboração de meus pares, compreender a função de gestora escolar de modo muito distinto daquele que vislumbrei em minha juventude.

O gestor enfrenta problemas, certamente. Mas eles são, em sua maioria, desafios instigantes, que nascem diariamente do pulsar de uma instituição dinâmica e complexa, cuja missão central é linda e apaixonante: a formação das novas gerações.

Nesses anos intensos de aprendizagem, a Escola da Vila construiu um projeto pedagógico consistente que é referência para inúmeras escolas e educadores de todo o país. Todos sabem que, anualmente, recebemos em nosso Centro de Formação grande número de profissionais da educação que nos procuram para conhecer o trabalho que aqui concretizamos.

Nos últimos seis anos, por meio do Centro de Formação, passamos a oferecer aos gestores escolares um espaço para estudo e troca de experiências: a Assessoria em Gestão Escolar. Desde então, tenho tido a honra de partilhar com colegas diretores de instituições variadas a experiência que acumulamos na Vila.

Desta forma, abordamos temas diversos, desde o papel do gestor, o desafio de garantir a inovação, a necessidade de aprimorar a área de comunicação institucional, a gestão do trabalho com as famílias, e mais recentemente a área de recursos humanos. Em quatro encontros anuais, procuramos sempre garantir a presença de especialistas no tema, aproximando a escola dos conhecimentos acumulados por gestores de outras organizações.

Mas, independentemente do tema, o desafio maior para todos os participantes, sejam eles diretores de pequenas ou de grandes escolas de São Paulo, Recife ou Porto Alegre, é não perder de vista que o diretor escolar não é um gestor de problemas. Sua tarefa central é a de fortalecer o trabalho pedagógico de sua instituição e, para tanto, é preciso ter liderança, pensamento estratégico e conhecimento.

O grupo de diretores que nos acompanha cresce a cada ano. Por meio de trocas, debates e estudos, estamos construindo também uma rede de relacionamentos profissionais, diminuindo, assim, o isolamento que o diretor habitualmente enfrenta em seu local de trabalho, com poucos colegas ou nenhum na mesma função.

No próximo ano, o grupo de gestores escolheu como tema o trabalho com as novas tecnologias da informação e da comunicação, outro desafio inevitável a todas as escolas. As pautas dos encontros envolverão, portanto, as condições institucionais, que precisam estar asseguradas pelo gestor para a utilização das tecnologias em suas escolas na dinamização tanto dos processos de ensino/ aprendizagem quanto no projeto formativo interno. Até lá!

Uma viagem no conhecimento.

Por Lucinha Magalhães – Coordenadora Pedagógica do Centro de Formação da Escola da Vila

Decidimos antecipar a volta ao blog e, como é sexta-feira, é com muito prazer que nós, do Centro de Formação, somos responsáveis por reinaugurar este espaço.

As férias são fundamentais porque, em tempo certo, rompem com a rotina habitual, favorecendo um desligamento necessário e progressivo de preocupações e decisões que caracterizam o cotidiano do professor. Além disso, as férias nos brindam com oportunidades únicas, e que nos são muito caras, o que traz um sabor todo especial a esse período: as viagens a diferentes lugares, as leituras de livros de literatura (que muitas vezes, ao longo do semestre, acabam sendo preteridas pela exigência da leitura profissional), a apreciação de filmes, peças teatrais, shows e exposições, os encontros com amigos e a convivência mais intensa com a família. Não raramente, muitos de nós, mesmo nesses momentos, acabamos tendo novas ideias, vislumbramos perspectivas até então não consideradas no trabalho que realizamos com nossos alunos.

Porém, com a mesma consciência que temos da necessidade desse merecido descanso, como professores somos mobilizados a buscar conhecimento. Há quem considere isso uma loucura, mas o ofício de ensinar exige preparo para a volta ao trabalho. Não somente organizar materiais, mas conhecimento! É por essa razão que as férias pedem também trocas com outros educadores que, distanciados da sala de aula, podem refletir e discutir sobre temas que são importantes para a atuação profissional. O descanso e o estudo atuam como verdadeiras fontes de nutrição, como aliados e “aquecem-nos” progressivamente, ritualizando, assim, o ingresso em um novo semestre, o reinício do trabalho pedagógico.

Nesta semana, nossos professores e os de todo o Brasil participam da programação de férias. Cerca de 455 participantes estiveram e/ou estão até sábado na Escola da Vila e é inegável que constituem uma bela comunidade de aprendizagem. Pelo fato de os cursos estarem em andamento, o post da próxima sexta-feira, dia 5 de agosto, pretende compartilhar mais informações com vocês, leitores, dando continuidade a este tema.

Hoje, apresentamos o texto “Uma viagem no conhecimento” produzido por Maria Marta Borges Bergamaschi e Mirian José da Costa Clemente sobre a Viagem Pedagógica Internacional a Lisboa. Ambas atuam no Colégio Juscelino Kubitschek, localizado em Brasília, e parceiro da Escola da Vila por meio do Programa ZDP. E, como o texto chegou quando já estávamos de férias, é que o publicamos agora, valorizando a viagem como preciosa fonte de informação. Esperamos que apreciem!

UMA VIAGEM NO CONHECIMENTO

Por Marta Bergamaschi e Mirian Clemente

  • Universidade de Lisboa Universidade de Lisboa
  • Vasco da Gama Vasco da Gama
  • Parque das Nações Parque das Nações
  • Agrupamento Vialonga Agrupamento Vialonga
  • Rui Canário e Beatriz Bettencourt Rui Canário e Beatriz Bettencourt
  • Ana Maria Brederode Ana Maria Brederode
  • Mesa redonda no Forum Português Mesa redonda no Forum Português
  • Grupo no Conselho Nacional de Educação Grupo no Conselho Nacional de Educação
  • Clube do Fado Clube do Fado
  • Tejo Tejo
  • Castelo dos Mouros Castelo dos Mouros

Em 28 de abril deste ano, partimos para Lisboa com a expectativa de enriquecer nossos conhecimentos e saberes no campo da Gestão Escolar e Formação de Professores. Conhecer outra cultura e nos divertirmos não estavam fora de cogitação.  Nada se diferenciou do que esperávamos. As aprendizagens foram “férteis” e Lisboa nos acolheu com a “leveza” desejada pela Escola da Vila. Como chegamos num fim de semana, fomos presenteadas com belos passeios por Lisboa e seus arredores. Quanta beleza, diversão e conhecimento cultural in loco.

 Na segunda-feira, logo pela manhã, iniciamos nossos trabalhos pelo Conselho Nacional de Educação. Conhecemos um pouco da estrutura organizacional e ação interventora daquele órgão nos rumos da educação portuguesa. Esse encontro aguçou nossa vontade de conhecer melhor o CNE de nosso país.

Continuando a programação, foi com encantamento que ouvimos o palestrante dr. Rui Canário sobre “os desafios da formação dos professores na Europa”. O tempo voava em sincronia com as ideias que nos transportavam para as experiências pessoais. Rui Canário falava da exigência de formarmos professores altamente qualificados e altamente politizados. Estes deverão ser capazes de estabelecer conexões entre teoria e prática numa dimensão reflexiva. Assim chegaremos ao docente que instiga a curiosidade, que sabe ouvir, inovar, e transformar.

Para o grande educador português, “o professor não ensina aquilo que sabe, mas aquilo que é”.  Daí a importância da boa formação. Alinha-se a tudo isso a escola do futuro, onde se desenvolve o gosto pelo ato intelectual de aprender, onde estudantes e professores passam de agentes a autores e ainda reconhecem o verdadeiro valor da aprendizagem: ler e intervir no mundo.

O cardápio de conhecimentos não parou por aí. Saboreamos os saberes dos mais diversos, com Maria Emília Brederode (Divisão Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular) e revista Noesis, com João Barroso, professor catedrático da Universidade de Lisboa, seguido por Ana Maria Bittencourt, doutora em Ciências da Educação e presidente do CNE.  Terminamos o cardápio do dia com o reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa. Foi um breve encontro, mas providencial, pois, neste momento, foi possível ir além da sala de aula e ter em mente o professor recém-graduado enfrentando os primeiros desafios de sua carreira. E que desafios! Geralmente essa experiência se dá na região periférica dos grandes centros urbanos.  Nóvoa comparou médicos e professores recém-formados: os primeiros são supervisionados por colegas experientes até poderem iniciar no caminho profissional, para o professor, ao contrário, poucas horas de estágio são suficientes, é lastimável, mas real.

Adormecemos repletas de interrogações e, no dia seguinte, iniciamos uma viagem pelas escolas portuguesas. A primeira a ser conhecida foi o Agrupamento Escolar Vialonga. Nesse espaço, presenciamos o cuidado com a inclusão, o incentivo dado à leitura, e a competência dos gestores desse agrupamento.

Seguimos para o Agrupamento Eça de Queirós, onde destacamos a organização dos espaços culturais bem como o trabalho incentivador da boa convivência entre estudantes. Jovens de séries mais avançadas, tutelados pelo professor de filosofia, assumem o papel de mediadores de conflitos entre os mais novos, principalmente nos intervalos. Pareceu-nos um trabalho bem interessante, e com possibilidade de sucesso. Desse mesmo agrupamento, visitamos também a escola integrada de primeiro ciclo Vasco da Gama, e conhecemos seus diferentes espaços: ateliê, bibliotecas, salas de aulas e pátios. Tudo muito bem organizado para atender aos estudantes com cuidado e precisão.

Depois de visitarmos duas escolas particulares que primavam pelo cuidado e suntuosidade do local, encerramos nossas atividades intelectuais no Fórum Português de Administração e Educação. Neste espaço, participamos de palestras e mesa-redonda convergindo num precioso momento com a dra. Beatriz Bittencourt. O tema foi: “Escolas que aprendem, da escola burocrática à escola aprendente”.

Que avaliação podemos fazer dessa viagem? Rui Canário cita, na página 14 de seu livro O que é a escola – um olhar sociológico, o seguinte pensamento de Claud Bernard: “A ideia é a semente”. Trouxemos muitas sementes, agora nos resta agregá-las ao nosso canteiro de conhecimentos. Depois, regar e cuidar de todas elas, para que se potencializem em inovações qualificadas para os gestores, para os docentes e estudantes.

14 brasileiras em Lisboa.


Por Vera Barreira e Angela de Crescenzo

Voltamos de Portugal! E estamos aqui para lhe informar, caro leitor, um pouco sobre o que vimos lá. Como já noticiou nossa colega Zelia Cavalcanti, no post de 5 de abril deste blog, essa foi mais uma viagem pedagógica internacional organizada pelo Centro de Formação da  Escola da Vila para discutirmos e aprendermos mais sobre os Desafios Atuais da Gestão Educacional.

O grupo que embarcou para Lisboa era composto por catorze pessoas que representavam escolas brasileiras participantes do programa ZDP do Centro de Formação: Colégio Juscelino Kubitschek, de Brasilia; Espaço Educar, de Maceió; Interamérica, de Goiânia; Umbrella  e CEI  Aurora, ambas de Curitiba; e as escolas Beit Yaacov, Castello Branco e Projeto Vida, todas de São Paulo, com mais três orientadoras e a coordenadora pedagógica do Centro de Formação da Escola da Vila.

No primeiro dia oficial dos  trabalhos em Portugal, fomos recebidos por membros do Conselho Nacional de Educação (CNE), na sede do órgão. Ali ouvimos  alguns membros do Conselho e do Instituto de Educação.

O professor Rui Canário falou sobre “Os desafios da formação de professores na Europa”. Entre outras coisas, contou que hoje o mestrado é exigido a todos os professores do Ensino Básico e que têm se debatido para superar o paradoxo do controle institucional versus autonomia do professor.

Em seguida, conhecemos Maria Emilia Brederode Santos, membro do CNE e diretora da revista Noesis, uma publicação muito interessante voltada aos professores. Maria Emilia tem seu trabalho focado nos espaços não formais da formação dos professores. A revista é um exemplo disso.

Depois, foi a vez de o professor João Barroso, também membro do CNE, nos falar sobre “A direção das escolas e as políticas educativas”, com foco na nova organização das escolas de Portugal, os agrupamentos, na formação do diretor e nos espaços de formação continuada nas escolas públicas.

Por último, conversamos com a presidente do Conselho Nacional de Educação, doutora Ana Maria Bettencourt. O CNE é um órgão independente, de consulta sobre a política educativa, que combina participação e representação social, com representantes de diversas associações (pais, alunos, professores, politécnicos, escolas secundárias etc) e seu presidente é eleito no parlamento, pelos deputados. A doutora Ana Maria nos contou sobre as ações mais recentes do Conselho, e alguns de seus últimos pareceres sobre formação continuada, reprovação escolar, escola inclusiva, resultados de Portugal no Pisa (Programa Internacional de Avaliação dos Alunos), entre outros, e destacou a importância de a escola se inserir nessas questões, não encarando-as  como problemas para a escola, mas, sim, vendo a escola como parte do problema.

Depois de todas essas conversas, demos um passeio até a Universidade de Lisboa, onde fomos recebidos pelo seu reitor, professor Antonio Nóvoa.

Nóvoa nos apresentou a preocupação da Universidade com a formação dos professores iniciantes e fez um paralelo muito interessante com a formação dos médicos. Médico recém- formado passa por um período de residência, no qual ele atende aos casos simples e acompanha um profissional experiente atendendo aos casos mais difíceis. Quanto mais experiente um médico, mais ele vai assumindo casos mais complexos. Na formação do professor a situação é inversa. Um professor recém-formado é enviado a escolas mais distantes, de periferia, para atender aos alunos com pouco vínculo com as letras e com o conhecimento, que representam grande desafio para o professor ensinar. Quanto mais experiente o professor, mais ele consegue vagas em escolas do centro da cidade, cujos alunos têm grande vinculo com estudo e conhecimento, que aprendem quase por si sós.

Em dois dias diferentes, visitamos escolas públicas de Portugal pertencentes a dois diferentes agrupamentos. Agrupamento de escolas é uma unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída por estabelecimentos de educação pré-escolar e escolas de um ou mais níveis e ciclos de ensino.

O agrupamento Escolar Vialonga é um TEIP (Território Educacional de Intervenção Prioritária), marcado por uma direção e uma equipe de profissionais comprometida com o avanço de alunos com dificuldades de aprendizagem e com questões de inserção social. Também fomos ao Agrupamento de Escolas Eça de Queirós, no Parque das Nações.

Visitamos as salas de aula, vimos projetos variados em que os alunos são protagonistas, conversamos com professores e com a direção de cada um dos agrupamentos. Vimos salas de Educação Infantil, de primeiro e segundo ciclos.  Na escola secundária, equivalente ao nosso Ensino Médio, vimos muitos jovens por lá, alguns na biblioteca,  um grande grupo no auditório assistindo a uma peça de teatro em inglês, alguns conversando com seus colegas pelos corredores nas áreas livres. Em muitas salas que entramos vimos professores atendendo aos alunos individualmente ou em pequenos grupos para ajudá-los a resolver dúvidas ou apoiá-los nos estudos.

O trabalho foi finalizado num encontro com membros do Fórum Português de Administração Educacional, com sede na Escola Superior de Educação de Lisboa. Assistimos a duas palestras e a uma mesa-redonda, todas centradas nas escolas e nos territórios educativos de Portugal, nos dilemas da avaliação institucional e nos desafios da gestão escolar. A primeira, foi com o professor João Pinhal, vice-presidente do Fórum PAE, que nos falou sobre “As escolas e os Territórios Educativos”;  Beatriz Betencourt, presidente do Fórum PAE, nos falou sobre “Escolas que aprendem, da escola burocrática à comunidade aprendente”, e finalmente assistimos a uma mesa-redonda sobre o tema “Desafios da gestão escolar”  com Ana Patrícia Almeida, Lucília Ramos e Luis Leandro Dinis.

Essas conferências, articuladas com as visitas às escolas, trouxeram muitas contribuições a cada um de nós. Há, com certeza, um terreno fértil e potente para possíveis parcerias entre o Fórum Português de Administração Escolar e o Centro de Formação da Escola da vila no desenvolvimento de ações formativas.

Mas… nem só de trabalho se vive em Lisboa! O grupo de brasileiras também se divertiu muito na terrinha! Fomos visitar Sintra e o lindo Parque Palácio Pena, onde comemos o famoso doce “travesseiro” de Sintra. Também visitamos o santuário de Fátima, Nazaré, Batalha e a pequena e bela cidade de Óbidos. Em Lisboa, caminhamos ao longo do Tejo, passeamos no simpático bairro do Chiado, comemos bacalhau e saboreamos os deliciosos vinhos portugueses! Outro ponto alto dos passeios foi a visita ao Castelo de São Jorge, de onde pudemos avistar toda a encantadora cidade de Lisboa.