Ato Gratuito ou Clarice 100 anos

por Fernanda Passamai Perez

Quando me comunico com crianças é fácil, é maternal.
Quando me comunico com adulto, estou na verdade me comunicando
com o mais secreto de mim mesma.
Com o Adulto é triste e solitário.
A criança tem a fantasia, é solta”.

Esta declaração é da escritora Clarice Lispector ao jornalista Julio Lerner naquela que seria sua última entrevista, gravada para o programa “Panorama” da TV Cultura em 01/02/77. Clarice faleceu em 9 de dezembro do mesmo ano.

Nascida em Chechelnyk, na Ucrânia em 1920, Clarice estaria fazendo 100 anos. Após sua mudança de país com a família, chegou ao Brasil em 1921 e foi naturalizada brasileira. Sua presença na literatura brasileira e mundial se fez presente desde a publicação de seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, em 1944, pela editora A Noite. Neste mesmo ano o romance é laureado com o Prêmio Graça Aranha. Em 1985 sob a Direção de Suzana Amaral, A hora da estrela ganhou as telas do cinema. Para o público infantil, inspirada em seus filhos, criou histórias fantásticas como “A mulher que matou o peixe”; “O mistério do coelho pensante”; “Quase de verdade” e “A vida íntima de Laura”. I-M-P-E-R-D-Í-V-E-I-S!!!! São histórias divertidas com certa dose de drama e provocações. Elas possuem diversos níveis de leitura e agradam tanto aos pequenos quantos aos leitores mais experientes.

Suas obras foram traduzidas para o francês, inglês, alemão e espanhol. Em 2011, o americano Benjamin Moser publicou uma das biografias mais completas a respeito da escritora. De longe a definitiva.

Fato curioso foi sua participação em 1975 no 1º Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, capital da Colômbia, com o texto “Literatura e Magia”. Segundo Clarice sua participação aconteceu devido ao comentário de algum crítico que teria dito que ela não escriva como escritora, que sua palavra e sua ideia ultrapassavam o mundo da escrita de tão encantatória, mágica, cheia de forças ocultas.

Ao visitar o Cairo, no Egito, comenta em carta ao amigo Fernando Sabino sobre seu encontro com a Esfinge: “Não a decifrei, mas ela também não me decifrou”.

Portanto, ao invés de tentar decifrar Clarice, meu convite é para viver sou obra. Com vocês:

Ato gratuito

Muitas vezes, o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem consequências, são imprevisí­veis. O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim – que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquí­ssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

Então minha própria sede guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortí­ssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de olhos entrefechados de felicidade.

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossí­vel abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raí­zes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangí­vel que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raí­zes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptí­vel de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saí­da.

Havia naquela alameda um chafariz de onde a água corria sem parar. Era uma cara de pedra e de sua boca jorrava a água. Bebi. Molhei-me toda. Sem me incomodar: esse exagero estava de acordo com a abundância do Jardim.

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de ararueira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.


Aprendendo a Viver / Clarice Lispector. São Paulo: Rocco, 2004.

Para saber mais:

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