O que deixamos passar sobre os livros e a leitura no mês de abril

Por Fernanda Passamai Perez

No mês de Abril as manchetes em todo mundo foram tomadas por notícias da Covid-19, doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2. O que não podia deixar de ser, afinal trata-se de uma pandemia que está impactando nosso planeta e todos os seres que nele habitam, em especial a espécie humana.

E, por esse motivo, pouco se falou a respeito das manifestações que celebraram o livro, a leitura, a literatura e a biblioteca. E, cá entre nós, foram muitas, como veremos a seguir.

Já no início do mês, no dia 2 de Abril, é comemorado o aniversário do escritor dinamarquês, conhecido por contos como O Patinho feio e A Pequena Sereia, Hans Christian Andersen (1805 – 1875). Para homenageá-lo, o Conselho Internacional de Literatura para jovens (iBbY) propôs que nessa data comemorássemos o Dia Internacional do Livro Infantil (ICBD, sigla em inglês para Internacional Children’s Book Day) e tem sido assim desde 1967.

A cada ano, um país integrante do iBbY patrocina o evento do Dia Internacional do Livro Infantil, propondo um tema, convidando um autor para redigir uma carta e um ilustrador para criar o pôster.

Em 2020, a Eslovênia foi o patrocinadora do evento. Foram convidados o poeta e escritor Peter Svetina para criar a carta, A Hunger for Words, e o ilustrador Damijan Stepančič para criar o pôster.

O iBby também oferece, a cada dois anos, o Prêmio Hans Christisn Andersen, considerado o Nobel da Literatura Infantil. Na ocasião, um autor e um ilustrador que contribuíram à produção de literatura infantil são premiados. O Brasil tem três autores consagrados pelo iBby: Lygia Bojunga Nunes (1982), Ana Maria Machado (2000) e Roger Mello (2014).

Este ano, as brasileiras Ciça Fittipaldi e a Marina Colasanti estavam entre os concorrentes.

As vencedoras do Prémio Hans Christian Andersen de 2020 foram a estadunidense Jacqueline Woodson, na categoria escritora, e a suíça, Albertine, na categoria ilustradora.

No dia 23 é comemorado o Dia Mundial do Livro, evento criado em 1995 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) para celebrarmos o livro e seus autores e a leitura. Entre os muitos homenageados está o escritor brasileiro Machado de Assis. Na edição de 2020, a agência da ONU para Refugiados (ACNUR) sugeriu doze títulos, entre obras para o público infantil e adulto. Essas obras visam divulgar e contribuir para a compreensão sobre a situação das milhões de pessoas que foram obrigadas a deixar seus países de origem.

Deixo aqui, mais algumas sugestões análogas, disponíveis no mercado brasileiro: Para onde vamos? / Jairo Buitrago (2016); Um outro país para Azzi. / Sarah Garland (2012); A viagem. / Francesca Sanna (2016); A cruzada das crianças. / Bertolt Brecht (2014); Migrar. / José Manuel Mateo (2013); A chegada. / Shaun Tan (2011).

O Cartaz 2020 é da ilustradora e designer portuguesa Mariana Rio.

Falando em mercado brasileiro do livro, também temos uma data especial para celebrar o livro e a literatura infantis: 18 de Abril! Dia Nacional do Livro Infantil. A data, instituída em 2002, foi escolhida para homenagear o nascimento do escritor paulista, considerado pai da Literatura Infantil, Monteiro Lobato (1882-1948).

Entre os títulos de Lobato, recomendo: Negrinha(1920), para os mais velhos; A chave do tamanho(1942), lançado no ano em que o Brasil declara guerra à Alemanha; Reinações de Narizinho, introdução ao universo do Sítio do Picapau Amarelo, originalmente publicado como A Menina do nariz arrebitado (1920). Esse título está completando 100 anos! Acontecimento que merece um post só para ele. Em breve!

Vale lembrar que, desde 2019, a obra completa desse grande e polêmico escritor entrou em domínio público. Agora os leitores têm à disposição edições de variadas editoras para se aventurar.

E por falar me Lobato, ainda que não conste no calendário oficial, não posso deixar de lembrar de uma outra data muito importante: 14 de Abril. Foi nesse dia que, em 1936, era inaugurada a 1ª biblioteca infantil pública da cidade de São Paulo como uma das ações do Departamento de Cultura Municipal dirigido por Mário de Andrade: a Biblioteca Pública Municipal Infanto Juvenil Monteiro Lobato.  Se você não conhece, assim que as medidas de restrição passarem, você tem que conhecer!

E, para fechar o mês de Abril, no último dia 30, aconteceu aqui em São Paulo a primeira reunião da comissão responsável por elaborar o documento que lançará a candidatura da cidade de São Paulo como Capital Mundial do Livro  para 2022. Esse título é designado pela UNESCO e pela IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições de Bibliotecas).

As cidades eleitas têm o compromisso de organizar eventos fomentando a cadeia do livro, leitura, literatura e biblioteca, divulgando a cultura do livro, ampliando seu alcance e proporcionando maior acesso às produções. Kuala Lumpur, capital da Malásia, foi eleita a Capital Mundial do Livro para 2020.

Independente dos prêmios, relembrar os eventos de Abril foi uma forma de demonstrar gratidão àqueles que nos emocionam através das palavras e imagens e que contribuem para dar mais sentido às nossas vidas.

A todos e todas, muito obrigada!

“Vamos conversar sobre o que está acontecendo no planeta?”

Por Paula Lisboa

Sabemos que uma rotina bem estruturada é importante para organizar as crianças internamente, e por isso a família toda se esforça para garantir uma programação semanal bem definida: de segunda à sexta as crianças vão pra escola e o final de semana costuma ser dedicado ao lazer, com passeios, encontros sociais e familiares.

Ilustração de Anna Cunha

Eis que de repente da noite pro dia tudo mudou: a escola fechou, não podemos ver os amigos, nem pensar em ir na casa da vó ou do vô. Não dá pra passear por aí sem usar máscara, nem podemos ir ao cinema ou comer num restaurante. Todos fomos impactados, mas para alguns o impacto pode ser ainda maior, pois a medida simplesmente aparece pronta, sem qualquer participação nos eventos que a precederam. Crianças pequenas, e crianças e adolescentes do espectro autista merecem de nós uma dedicação para que ajudá-los a compreender um pouco o que está se passando.

Com esse intuito, ainda no mês de março foi elaborada uma carta pelo Fórum Mineiro de Educação Infantil da FAE/UFMG e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Infantil e Infâncias – NEPEI, da Faculdade de Educação da UFMG, a Carta às meninas e aos meninos em tempos de Covid-19.

Ilustração de Raquel Matsushita

Ricamente ilustrada por 11 artistas da literatura para a infância, pode-se dizer que o resultado é uma obra de arte. O texto, de autoria de Mônica Correia Baptista, foi inspirado na Carta para los niños y niñas en este momento de crisis, de Carla infanta e Isídora Lobo.

Iniciando a carta com a proposta de “Vamos conversar sobre o que está acontecendo no planeta?” essa pode ser uma ótima leitura para todas as famílias realizarem juntas enquanto estão em casa.

Acesse pelo Instagram: instagram.com/criancasdobrasil
Acesse pelo Issuu: bit.ly/CartaCriançasCovid-19
Baixe o PDF: bit.ly/downloadCartaCrianças

Outras duas produções merecem ser divulgadas nesse momento, focadas especificamente na conscientização e reflexão sobre o autismo (Transtorno do Espectro Autista – TEA), elaboradas pelo Laboratório de Terapia Ocupacional e Saúde Mental.

O primeiro material visa criar uma rede de solidariedade, como parte de um movimento de conscientização do autismo. Traz informações sobre o transtorno e convida à reflexão sobre as particularidades das famílias de crianças e adolescentes com autismo, em meio ao cenário atual. O segundo material é destinado a essas famílias e traz orientações que podem contribuir para o melhor enfrentamento da situação.

É possível acessar ambos os materiais direto na página no Facebook do Laboratório.

E por fim, mas não menos interessante, temos a produção da editora inglesa Nosy Crow, traduzida e também distribuída gratuitamente no Brasil pela editora Brinque-Book, chamada Coronavírus – um livro para crianças.

Em uma produção que juntou especialistas em saúde, profissionais da educação e as divertidas ilustrações de Axel Scheffler, o livro traz explicações simples e diretas a respeito do coronavírus e seu impacto na saúde e no dia a dia de todos nós. As crianças certamente irão reconhecer os traços dos desenhos de Axel Scheffler, ilustrador de livros como O Grúfalo, Macaco Danado, entre outros.

A obra pode ser acessada online ou baixada no computador através do site da editora.

Adeus a Alberto Uderzo

Por Fernanda Passamai Perez

Semana passada, no dia 24 de março, Asterix e seus companheiros da pequena aldeia na Gália Antiga ficaram órfãos. Nós leitores também. Albert Uderzo (1927 – 2020) foi se encontrar com o amigo René Goscinny (1926 – 1977) em outros mundos. O desenhista morreu dormindo em sua casa, em Neuilly-sur-Seine, na região parisiense.

Uderzo teve uma parceria muito produtiva e de longa duração com Goscinny. Ambos nasceram na França, mas só foram se conhecer em 1951, quando Goscinny, que morava em Nova Iorque à época, foi convidado a voltar à Paris como contratado pelo World Press/International Press, agência em que Uderzo trabalhava.

A dupla desenvolveu grande afinidade e amizade, criando vários personagens, entre eles, Oumpah-pah, o pele vermelha (Oumpah-pah le Peau-Rouge), um nativo norte americano da tribo Shavashavah (Sávánás) forte e cheio de virtudes que se torna amigo de um oficial francês, Humberto-da-massa-folhada (Hubert de la Pâte), e que é chamado por Oumpah-pah de Escalpe-duplo devido a sua peruca. A série de Oumpah-pah foram publicadas no jornal Titin[1] entre 1958 e 1962.

As aventuras de Asterix surge em 1959, a partir da criação de uma revista chamada Pilote em parceria com o editor François Clauteaux, quando buscavam um heroi tipicamente francês. Em princípio, O Romance de Renart[2] parecia o mais promissor, mas para nossa sorte, outra editora já estava se inspirando nele. Depois de pesquisarem a fundo a história francesa, fecharam sua criação entre a Gália e os Gauleses[3]. Em em 29 de outubro de 1959, a 1ª edição da Pilote apresenta As Aventuras de Astérix. O sucesso foi instantâneo, de cara são vendidas 300 mil cópias. A dupla, Goscinny como redator e Uderzo como desenhista, trabalharam juntas até a morte de René em 1977. A partir da morte do amigo, Uderzo assume sozinho a publicação de Asterix, criando a ”Les Éditions Albert René”. O personagem criado por eles, Asterix, é um heroi justo, sagaz e perspicaz. A seu lado estão sempre o amigo atrapalhado e esquentado, Obelix, o entregador de obeliscos que na infância caiu no caldeirão da poção que dá superpoderes aos aldeões, e seu cãozinho Ideiafix. Juntos vivem diversas aventuras nas quais enfrentam as guarnições romanas que precisam dominar sua aldeia para que possam declarar a conquista da Gália. Todas as aventuras terminam com uma grande festa com muitos javalis, a comida preferida de Obelix, e bebida. As aventuras de Asterix é uma sátira regada com muito humor e política. Em algumas delas, são retratados também atores e atrizes, além de personagens históricos famosos como Júlio César e Cleópatra.

O meu preferido é O legionário. Asterix e Obelix decidem se alistar na legião romana para resgatar Tragicomix, noivo da belíssima Falbalá, por quem Obelix é apaixonado. Se você não leu, corre, é demais!!! O recruta egípcio que pensa que está em férias é impagável!!!

 

Desde seu lançamento, Asterix já vendeu mais de 380 milhões de cópias em 111 idiomas.

Ah, René Goscinny ainda participou da criação de outro querido personagem ao lado de Jean-Jacques Sempé: O pequeno Nicolau. É, bem, mas essa é uma outra história…

Até a próxima!!!

Para saber mais:

Encyclopeadia Britannica: https://www.britannica.com/biography/Rene-Goscinny

Veja como Uderzo desenhava os personagens de As aventura de Asterix, o gaulês? Basta acessar

https://www.youtube.com/watch?v=AwK4UW0ZSXc

[1]Tintin, inicialmente Le journal de Tintin, foi um periódico belga de histórias em quadrinhos realistas da segunda metade do século XX, também conhecido como Kuifje, na versão neerlandesa. Subtitulado Le journal des jeunes de 7 à 77 ans (O Periódico para os Jovens de 7 a 77 anos), foi uma das principais fontes de criação de quadrinhos do cenário francobelga e […] o título principal, As Aventuras de Tintim. A primeira publicação é de 1946 […].Foi interrompida definitivamente em 1993″.  Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Journal_de_Tintin

[2] “O Romance de Renart (Le Roman de Renart), escrito entre 1170 e 1250, consiste num conjunto de 27 poemas, em versos octossilábicos, reunidos, ao longo do século XIII, de forma incoerente e caótica, que pertencem a vários autores, na maioria anónimos, mas dos quais se destaca Pierre de Saint-Cloud. As personagens destas histórias são animais, sendo a mais importante a raposa (renart, ou renard, isto é, uma raposa), e nelas se parodia as canções de gestas e os romances corteses que enalteciam a sociedade cavaleiresca. Fonte: https://www.infopedia.pt/$romance-de-renart

[3] O termo gauleses designa um conjunto de populações celtas que habitava a Gália (em latimGallia), isto é, o território que corresponde hoje, grosso modo, à França, à Bélgica e à Itália setentrional proto-históricas, provavelmente a partir da Primeira Idade do Ferro (cerca de 800 a.C.). […] Os gauleses foram conquistados por Júlio César, nas Guerras da Gália e durante o período romano foram assimilados em uma cultura galo-romana. Durante a crise do terceiro século (século III), houve um breve Império das Gálias. Com a chegada dos francos, durante o período das migrações (século V), a língua gaulesa foi substituída pelo latim vulgar […]. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gauleses

mapa da Gália no século I a.C.

 

Biblioteca, casa de borboleta

Por Fernanda Passamai Perez

Quem é aluno da unidade Morumbi da Escola da Vila e visitou a biblioteca no último mês sabe que a biblioteca recebeu hóspedes. Quando retornamos do Carnaval estavam lá, lindas e protegidas em seus abrigos: duas crisálidas.

Na semana anterior, notamos um grande número de lagartas circulando pelas escadas, banheiros e biblioteca. Fizemos de tudo para deixá-las no jardim, não teve jeito. O ambiente acolhedor e as histórias contadas e comentadas nas rodas de biblioteca foram irresistíveis essas duas.

Apesar de sabermos tratar-se de crisálidas (ou pupa), um dos quatro estágios da metamorfose (transformação) desses insetos, não sabíamos se eram borboletas ou mariposas. Aos poucos, através das pesquisas nos livros da biblioteca e observações, fomos entendendo um pouco melhor nossas discretas e silenciosas hóspedes. Descobrimos que, independente de ser borboleta ou mariposa, elas já haviam passado pela fase do ovo (1ª fase), quando ficaram todas juntas na planta que ia alimentá-las na próxima fase: lagarta. Nesta fase, as lagartas (2ª fase) saem de seus ovos (eclodem) e correm para se alimentar.

Ah, sabe do que eu lembrei? … da história Uma lagarta muito comilona (A very, very hungry caterpillar), de Eric Carle. 

Lembra, como ela comeu, comeu, comeu até … até encher bastante a barriga e depois teceu seu casulo (3ª fase). Sabe por que elas fazem isso? Porque quando ela sai de seu casulo, ela não come mais nada. Nadinha de nada.

Depois que ela sai do casulo é aquele surpresa…bem, voltando para as hóspedes, para nós seria uma grande surpresa: borboleta ou mariposa? Pois, apesar de todos os esforços de professores, biólogos, alunos e curiosos (eu) ninguém sabia dizer o que sairia daqueles casulos.

Mas duas coisas a gente sabia, a 3ª fase de pupa durava em média 20 dias e já podíamos sugerir nomes para elas. Então, a data prevista para o “parto” ficou estimada para 13 de março, sexta-feira. Fizemos uma urna para receber as sugestões.

Na segunda –feira, dia 16 de março,  observamos que a pupa restante – uma delas desapareceu misteriosamente – estava vazia. Buscamos por todos os cantos da biblioteca. Nada. Só no dia seguinte, avistamos duas lindas borboletas na escada. Ah, vocês deve estar pensando:  mas como sabem que são borboletas?

Porque, agora, fora do casulo, pudemos observar melhor o padrão das suas asas e pesquisar novamente. E, tchan…tchan…tchan… trata-se de borboletas Brassolis astyra, da família das Ninfalídeos/Brassolinae !!!!

A borboleta recém-saída do casulo, abrindo e secando as asa

Agora sim, após sua carinha e belas asas, podemos então escolher uma nome para  ela. O que vocês acham? Abaixo a relação de nomes sugeridos por vocês:

1. ALINE
2. ARIAYL
3. BIA
4. BIRBD
5. BORBOLETA-LETA
6. BUTTERFREE
7. CHICO
8. CLARA
9. CRISEIDA
10. DOUGLAS
11. FERNANDINHA
12. JOUE
13. JUCO
14. LEO
15. LETA
16. LIKA
17. LOLA
18. LOLI
19. LUA
20. LUARA
21. LUCIA
22. LULU
23. LULUBELA
24. MARI
25. MARIA LAURA
26. MARIPOSA
27. MARIPOSA-MARI
28. MAURINHO
29. MEL
30. MOTHER
31. NINA
32. RAFAEL
33. REX
34. RURS
35. SAFIRA
37. SOFIA
38. SOL
39. STEFANO
40. STONS
41. TUTURITU
42. VENOMOTH

Agora é com vocês! Para votar, deixe um comentário, ali no balãozinho.

Até mais!


PARA SABER MAIS:NetNature: Guia de identificação de campo para lepidópteros de São Paulo. Disponível em: https://netnature.wordpress.com/2013/08/13/guia-de-identificacao-de-campo-para-lepidopteros-de-sao-paulo/

Agência de informação Embrapa: Fauna de Lepidópteros do bioma cerrado. Disponível em: https://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia16/AG01/arvore/AG01_81_911200585235.html

Ato Gratuito ou Clarice 100 anos

por Fernanda Passamai Perez

Quando me comunico com crianças é fácil, é maternal.
Quando me comunico com adulto, estou na verdade me comunicando
com o mais secreto de mim mesma.
Com o Adulto é triste e solitário.
A criança tem a fantasia, é solta”.

Esta declaração é da escritora Clarice Lispector ao jornalista Julio Lerner naquela que seria sua última entrevista, gravada para o programa “Panorama” da TV Cultura em 01/02/77. Clarice faleceu em 9 de dezembro do mesmo ano.

Nascida em Chechelnyk, na Ucrânia em 1920, Clarice estaria fazendo 100 anos. Após sua mudança de país com a família, chegou ao Brasil em 1921 e foi naturalizada brasileira. Sua presença na literatura brasileira e mundial se fez presente desde a publicação de seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, em 1944, pela editora A Noite. Neste mesmo ano o romance é laureado com o Prêmio Graça Aranha. Em 1985 sob a Direção de Suzana Amaral, A hora da estrela ganhou as telas do cinema. Para o público infantil, inspirada em seus filhos, criou histórias fantásticas como “A mulher que matou o peixe”; “O mistério do coelho pensante”; “Quase de verdade” e “A vida íntima de Laura”. I-M-P-E-R-D-Í-V-E-I-S!!!! São histórias divertidas com certa dose de drama e provocações. Elas possuem diversos níveis de leitura e agradam tanto aos pequenos quantos aos leitores mais experientes.

Suas obras foram traduzidas para o francês, inglês, alemão e espanhol. Em 2011, o americano Benjamin Moser publicou uma das biografias mais completas a respeito da escritora. De longe a definitiva.

Fato curioso foi sua participação em 1975 no 1º Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, capital da Colômbia, com o texto “Literatura e Magia”. Segundo Clarice sua participação aconteceu devido ao comentário de algum crítico que teria dito que ela não escriva como escritora, que sua palavra e sua ideia ultrapassavam o mundo da escrita de tão encantatória, mágica, cheia de forças ocultas.

Ao visitar o Cairo, no Egito, comenta em carta ao amigo Fernando Sabino sobre seu encontro com a Esfinge: “Não a decifrei, mas ela também não me decifrou”.

Portanto, ao invés de tentar decifrar Clarice, meu convite é para viver sou obra. Com vocês:

Ato gratuito

Muitas vezes, o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem consequências, são imprevisí­veis. O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim – que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço.

Uma tarde dessas, de céu puramente azul e pequenas nuvens branquí­ssimas, estava eu escrevendo à máquina – quando alguma coisa em mim aconteceu. Era o profundo cansaço da luta.

E percebi que estava sedenta. Uma sede de liberdade me acordara. Eu estava simplesmente exausta de morar num apartamento. Estava exausta de tirar idéias de mim mesma. Estava exausta do barulho da máquina de escrever. Então a sede estranha e profunda me apareceu. Eu precisava – precisava com urgência – de um ato de liberdade: do ato que é por si só. Um ato que manifestasse fora de mim o que eu não precisava pagar. Não digo pagar com dinheiro mas sim, de um modo mais amplo, pagar o alto preço que custa viver.

Então minha própria sede guiou-me. Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?”, perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe, “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro.” Não sei por que olhou-me um instante com atenção.

Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortí­ssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de olhos entrefechados de felicidade.

Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver. Saltei do táxi e atravessei os largos portões. A sombra logo me acolheu. Fiquei parada. Lá a vida verde era larga. Eu não via ali nenhuma avareza: tudo se dava por inteiro ao vento, no ar, à vida, tudo se erguia em direção ao céu. E mais: dava também o seu mistério.

O mistério me rodeava. Olhei arbustos frágeis recém-plantados. Olhei uma árvores de tronco nodoso e escuro, tão largo que me seria impossí­vel abraçá-lo. Por dentro dessa madeira de rocha, através de raí­zes pesadas e duras como garras – como é que corria a seiva, essa coisa quase intangí­vel que é a vida? Havia seiva em tudo como há sangue em nosso corpo.

De propósito não vou descrever o que vi: cada pessoa tem que descobrir sozinha. Apenas lembrarei que havia sombras oscilantes, secretas. De passagem falarei de leve na liberdade dos pássaros. E na minha liberdade. Mas é só. O resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raí­zes incógnitas. Eu andava, andava. Às vezes parava. Já me afastara muito do portão de entrada, não o via mais, pois entrara em tantas alamedas. Eu sentia um medo bom – como um estremecimento apenas perceptí­vel de alma – um medo bom de talvez estar perdida e nunca mais, porém nunca mais! achar a porta de saí­da.

Havia naquela alameda um chafariz de onde a água corria sem parar. Era uma cara de pedra e de sua boca jorrava a água. Bebi. Molhei-me toda. Sem me incomodar: esse exagero estava de acordo com a abundância do Jardim.

O chão estava às vezes coberto de bolinhas de ararueira, daquelas que caem em abundância nas calçadas da nossa infância e que pisamos, não sei por que, com enorme prazer. Repeti então o esmagamento das bolinhas e de novo senti o misterioso gosto bom. Estava com um cansaço benfazejo, era hora de voltar, o sol já estava mais fraco.

Voltarei num dia de chuva – só para ver o gotejante jardim submerso

Nota da autora: peço licença para pedir à pessoa que tão bondosamente traduz meus textos em braile para os cegos que não traduza este. Não quero ferir os olhos que não vêem.


Aprendendo a Viver / Clarice Lispector. São Paulo: Rocco, 2004.

Para saber mais:

Aside

Queridos leitores,

Neste momento todos nós precisamos mesmo ficar em casa, mas isso não precisa ser tão ruim. Tem várias coisas boas pra se fazer em casa, e uma das mais gostosas é conhecer muitas e muitas histórias novas! Pensando nisso, vamos reforçar aqui a publicação de sugestões de livros, leitura de histórias, declamação de poesia e também os textos escritos por nossos maravilhosos alunos e alunas. 

Esperamos que vocês gostem!

Equipe da Biblioteca

EM 2019, A ESCOLA COMEMORA 100 ANOS DE TATIANA BELINKY

Fernanda Passamai Perez, bibliotecária da escola, explica sobre a trajetória da patronesse da biblioteca da Unidade Butantã.

por Henrique Neves Gottberg e Vinicius Rezende Groff

Tatiana Belinky é a patronesse da biblioteca da Escola da Vila da Unidade Butantã há 20 anos e neste ano completaria 100 anos de idade.

A escola vai fazer uma comemoração em sua homenagem, e foi a partir da direção da escola e da direção da biblioteca que escolheram fazê-la. A escola vai fazer três homenagens: A primeira será que os estudantes e professores vão assistir um vídeo da cantora Fortuna, que musicou os livros de Tatiana, a outra homenagem que vão fazer é que os estudantes e professores vão ouvir uma história pela própria Tatiana Belinky. E por fim, no dia 11 de maio, na Vila Literária, Tatiana também será homenageada, e vai ser um surpresa para todas as pessoas.

Fernanda já está há muitos anos na biblioteca e sente (sic) com a Tatiana Belinky

Tatiana nasceu na Rússia, em 1919, e com dez anos de idade veio para o Brasil. Começou a ter interesse por literatura, principalmente com as obras do Monteiro Lobato, e nunca mais esqueceu de suas histórias. Até hoje, ela é uma das escritoras mais importantes da literatura infanto-juvenil do Brasil. Esse é um quesito para se tornar patronesse da escola, mas quem escolheu foi a direção.

Um dos livros mais famosos de Tatiana é o “Transplante de Menina”, que fala sobre sua vida, desde da infância até sua vida adulta. Ela escreveu detalhadamente com eram suas memórias e conta como sua infância foi muito difícil.

OS ESQUECIDOS DA BIBLIOTECA

Por Laura El Murr e Raquel Sparrenberger Martin

Em 2019, livros nos fundos das estantes, depois de anos, meses, sem serem retirados por alunos, são destacados em um acervo na biblioteca da Escola da Vila BTT. A bibliotecária, Fernanda de Lima Passamai Perez, encontrou uma forma de destacar esses livros, criando esse acervo  com nome de “Esquecidos” para os estudantes ampliarem seus costumes literários, além de se desafiarem a ler livros fora de sua zona de conforto. Esse acervo se encontra no balcão da biblioteca, com uma placa de identificação do nome do acervo “Os Esquecidos”.

Foi dado o nome de “Os Esquecidos” a  este acervo, onde se encontram títulos antigos ou com temas não atuais, motivos pelos quais os alunos não os retirem com frequência.

Diariamente, Fernanda recebe alunos de diferentes séries, interessados nos vários títulos disponíveis na biblioteca “Tatiana Belinky”. Ao longo dessas rodas regulares, foi percebendo que esses leitores sempre pegavam basicamente os mesmos livros.

Ao procurá-los nas estantes para separar os acervos, ela constatou que havia títulos que estavam há muito tempo sem procura. Fernanda não acha que isso ocorra porque as histórias são ruins, mas sim, porque os alunos desconhecem sua existência, pois geralmente buscam aquilo que lhes são familiar, seja pelo autor, por sua localização na estante e recomendações de amigos.

A proposta foi mostrar para os frequentadores da biblioteca que lá existem livros que podem ser grandes e divertidas descobertas de leitura.

Fernanda também afirma que a leitura  de livros antigos ou lançamentos é muito importante para tornar a vida mais significativa, tendo contato com outras ideias, favorecendo a diversidade das ideias.

Ao entrevistarmos alunos de diferentes séries, percebemos que muitos deles desconhecem o novo  acervo, porém a maioria achou a ideia muito interessante porque é sempre bom conhecer outros livros.

Apesar de muitos aprovarem a ideia, a maioria declarou que não estão muito dispostos a conhecer essa seleção de obras, pois raramente frequentam a biblioteca, e acham que  esses livros foram esquecidos por serem antigos, logo, pouco atraentes.

Uma parte da questão foi resolvida quando Fernanda destacou os livros do acervo. Porém,  cabe a cada aluno, buscar frequentar mais esse espaço, e procurar os títulos.

Entrevista originalmente publicada em 3 de junho de 2019 na Revista do 7º ano, produzida pelos alunos do 7º ano de 2019 da Escola da Vila, em São Paulo.

VILALÊ: UM INCENTIVO PARA A LITERATURA NA VILA

por Lucas Storm e Francisca Gillio

Você gosta de ler os livros da escola? Ou só os que você escolhe? A sua escola estimula a literatura fora da sala de aula? Veja abaixo o caso dos alunos da Escola da Vila, porque é uma escola que tem muita leitura.

O PROJETO:

Na Escola da Vila, desde 2012, existe um clube de leitura chamado VILALÊ. A organizadora deste projeto é a  Fernanda, bibliotecária da unidade Butantã. Mas até 2017, a Fernanda dividia essa organização (do VILALÊ) com uma professora que não está mais na escola. A organizadora do clube de leitura também tem a colaboração da coordenação do Fundamental 2.

As pessoas que podem participar do VILALÊ são alunos do fundamental 2, ou seja, alunos do 6º ao 9º ano. “Essa idade varia, desde os 10 aos 15 anos, com uma competência e experiência leitora diferentes” explica Fernanda.“Eu também participo do clube de leitura, pois eu leio junto com os participantes e medeio o encontro” afirmou Fernanda. Segundo ela, às vezes a troca de informações nas discussões sobre o livro ocorre tanto do mais velho para o mais novo quanto ao mais novo para o mais velho. Outra coisa interessante é que eles não têm uma hierarquia dentro do VILALÊ, ou seja, tanto a coordenadora quantos os leitores sempre tem algo a acrescentar sobre a leitura. Portanto, um dos fatores de que todas as pessoas que participam tem uma importância é esse, do fato de não ter uma hierarquia.

Os alunos sugerem vários títulos que gostariam para ler, depois eles fazem uma votação para ver que livro será lido, a obra que tiver mais votos é a que será lida. Após a escolha do livro, a coordenadora do clube de leitura, Fernanda, consulta a editora, para ver quais são as edições disponíveis daquele título, ver se ele ainda está em circulação para os alunos conseguirem comprar facilmente, depois ela comunica às famílias, para elas adquirirem o título. E após tudo isso, a Fernanda vai fazer um cronograma de leitura, ou seja, ela vai ver, qual é a estrutura, o número de páginas e capítulos, etc. E depois de checar essas coisas, aí sim ela vai fazer o cronograma. Para ver quantos capítulo são possíveis de serem lidos dentro de uma hora (tempo do encontro do VILALÊ a cada quinze dias), às vezes eles deixam um ou dois capítulos para serem lidos em casa (dependendo do tamanho). Quando há capítulos para serem lidos em casa, ocorre uma discussão/retomada sobre eles no próximo encontro.

FERNANDA – COORDENADORA E MEDIADORA DO ENCONTRO

Vale ressaltar que o cronograma muitas vezes consegue ser seguido, mas também não há um rigor, pois se no meio da leitura eles conseguem ver que dá para fazer uma relação com outras obras, leituras, com o momento atual da nossa sociedade, etc. Eles param para fazer uma discussão, por conta disso não há um rigor.

O objetivo do VILALÊ é trocar experiências com outros leitores, poder usufruir de um prazer de ler em grupo”, afirmou Fernanda.

Veja abaixo o gráfico dos alunos da Escola da Vila que participam e que não participam:

OS ALUNOS OPINAM:

Depois, foram feitas algumas entrevistas com alunos que participam e com alguns que não estão mais, com o objetivo de saber o porquê ele saiu e o que ele aprendeu com esse projeto, e saber por que ele/ela entrou e saber quais aspectos que ele mais gosta do VILALÊ (pergunta para alunos que estão ainda).

Segundo o entrevistado Leo Schreus, do 7ºBB, ele saiu porque ele estava ficando sem tempo, pois como ele mora longe da escola, o entrevistado chegava muito tarde em casa e não conseguia fazer a lição de casa. Na opinião dele, o que ele aprendeu com o clube de leitores é que os livros de antigamente geralmente contam como era a vida no passado.

O entrevistado Caio, do 6ºAB, disse que entrou porque ele gosta de ler livros, refletir sobre eles, porque os autores escrevem os trechos que ele acha interessantes. E ele entrou por conta desses fatores, que estão presentes no VILALÊ. Os aspectos que ele mais gosta do clube de leitura são a discussão rica, cheia de pontos de vista, e ele também gosta da pipoca, algo a mais para atrair e deixar mais divertida a leitura.

Depois, foram feitas entrevistas com alunos do 9º ano, para termos o ponto de vista de leitores mais experientes.“Eu entrei porque sempre gostei muito de ler, e por conta das minhas amigas terem entrado eu também entrei”, afirma Isabela do 9ºCB. E a aluna ainda diz: “Os aspectos que eu mais gosto do VILALÊ são a união que todos tem,  a questão de todos serem amigos lá e o fato de eu estar sempre ouvindo opiniões diferentes. E é por isso, que é legal estar lá.” Já Luiz do 9º AB entrou porque ele tinha acabado de entrar na escola e queria fazer o máximo de atividades possíveis, e o fato dele gostar de ler contribui para que ele entrasse. Ele gosta da pipoca, da convivência que é legal e a descoberta de novos interesses. A Anne do 9ºBB explica: “Eu entrei porque o meu irmão já estava e contou para mim como era, e eu achei legal ter um grupinho para ler. Eu gosto do grupo que nós temos, da amizade, e das discussões”.

Todos esses fatos, desde a opinião dos alunos, até a questão do funcionamento do VILALÊ, mostram que é um clube de leitura muito legal para quem gosta de ler e para aqueles que não gostam de ler pode ser um incentivo para desenvolver o gosto pela leitura.

Entrevista originalmente publicada em 29/08/2019 na Revista do 7º ano, produzida pelos alunos do 7º ano de 2019 da Escola da Vila, em São Paulo.

TANTA POESIA

Era ele que erguia casas onde antes só havia chão”, inicia Vinicius de Moraes em seu poema O Operário em Construção. Com poesia erguemos casas, sonhos e manifestos. Erguemos nossas vozes para construir palavras, sejam elas de amor, de afeto, sejam de revolta, de luta. Na voz de Ricardo Aleixo:

quanta poesia
fiz enquanto não fazia
tanta poesia

Sem saber nem perceber, fazemos poesia em nossas vidas. E no mês de outubro teremos um dia inteiro para colocar a poesia em evidência, em todas as suas formas e expressões, no tão aguardado XII Festival de Poesia da Escola da Vila!

Para nos preparar, listamos alguns destaques das aquisições recentes do acervo da Biblioteca. Fiquem à vontade para consultar e se aventurar nesse rico universo!

50 poemas de revolta / vários autores. Companhia das Letras, 2017. 143 p.

Desigualdade social, racismo, machismo, incontáveis modalidades de opressão e intolerância: esses são os temas tratados por 34 poetas brasileiros, clássicos e contemporâneos que denunciam os tempos sombrios em que vivemos.

porto alegre, 2016

(…)
agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos

(Angélica Freitas)

 

 

Destino: poesia – antologia / organização: Italo Moriconi. J. Olympio, 2016. 159 p.

Antologia que reúne os cinco maiores nomes da poesia marginal, escrita nos anos 1970, no Brasil. Uma coletânea de poemas irreverentes, melódicos e contestadores, que já entraram para a história da poesia brasileira.

Lar Doce Lar

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio

(Cacaso)

 

 

 

 

Torquato Neto : melhores poemas / Torquato Neto ; seleção de Cláudio Portella. Global, 2018. 191 p.

Torquato Neto viveu apenas 28 anos, pouco mas suficiente pra deixar sua marca. Foi poeta, jornalista, compositor, agente cultural e defensor das manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o cinema marginal e a poesia concreta.

Soneto da contradição

Faço força em esconder o sentimento
do mundo triste e feio que eu vejo.
Tento esconder de todos o desejo
Que eu não sinto em viver todo o momento
(…)

 

 

Modelos vivos / Ricardo Aleixo. Crisálida, 2010. 155 p.

Ricardo Aleixo é considerado um dos mais inventivos poetas brasileiros contemporâneos. Sua obra é marcada por aspectos da cultura afrobrasileira e pela denúncia ativa do racismo.

Minha linha

Que o dono da fala / nunca / permita que eu saia / da linha / a linha que / quanto mais torta / mais posso dizer / que é a minha (…)

 

 

 

 

Mundo palavreado / Ricardo Aleixo ; ilustrações Silvana Beraldo. Peirópolis, 2013. 113 p.

Re: provérbio

quem nunca comeu farelos
aos porcos se misturando
que atire a primeira
pérola

 

 

 

 

 

 

Pesado demais para a ventania : antologia poética / Ricardo Aleixo. Todavia, 2018. 195 p.

Álbum de família

Meu pai viu Casablanca três vezes (duas no cinema e uma na TV). Meu avô trabalhou na boca da mina. Meu bisavô foi, no mínimo, escravo de confiança.

 

 

 

 

 

 

 

Outros jeitos de usar a boca / Rupi Kaur ; tradução Ana Guadalupe. Planeta, 2017. 208 p.

Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles.

eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

 

 

 

 

Primeiro caderno do alumno de poesia / Oswald de Andrade. Companhia das Letras, 2018. 39 p.

Edição fac-similar do livro lançado originalmente em 1927, considerado por Augusto de Campos como “possivelmente o mais belo livro de poesia de nosso modernismo”.

As quatro gares
Infancia
O camisolão / O jarro / O passarinho / O oceano / A visita na casa que a gente sentava no sofá
Adolescencia
Aquelle amor / Nem me falle
Maturidade
O Sr. e a Sra. Amadeu / Participam a V. Excia. /  O feliz nascimento / De sua filha / Gilberta
Velhice
O netinho jogou os oculos / Na latrina

 

 

A vida não me assusta / poema de Maya Angelou ; pinturas de Jean-Michel Basquiat ; organizado por Sara Jane Boyers ; tradução Anabela Paiva. DarkSide, 2018. 48 p.

Publicado originalmente há 25 anos e até então inédito no Brasil, o livro reúne os talentos da poeta e ativista Maya Angelou e do artista gráfico Jean-Michel Basquiat: dois artistas com histórias de vida sofridas e infâncias problemáticas, mas que nunca se deixaram intimidar. Não importa o obstáculo, você sempre pode encontrar forças para superá-lo.

Sombras dançando nos muros
Sons que brotam do escuro
Nada na vida me assusta
Cachorros bravos rosnando
Fantasmas voando em bando
Nada na vida me assusta

 

 

 

Quadras paulistanas / Fabrício Corsaletti & Andrés Sandoval. Companhia das Letras, 2013.

Neste livro, Corsaletti se propõe a colocar a poesia – em vez da prosa – a serviço da crônica do cotidiano. Ao lado de fascinantes desenhos do artista Andrés Sandoval, temos aqui versos feitos ao calor da hora, a partir de fatos, encontros e imprevistos do dia a dia.

ônibus cheio: desisto
vou a pé, chego atrasado
menos, porém, que os amigos
que decidem ir de carro