Critique em um instante

Por Claudia Aratangy, direção do Centro de Formação da Vila

De grandes grupos jornalísticos como Folha, Estadão e Globo a profissionais liberais e autônomos, versando sobre assuntos que vão do noticiário político a previsões astrológicas, passando por futebol, feminismo, humor e até investimentos e finanças – os podcasts estão bombando. Definitivamente, 2019 é o ano do podcast no Brasil – pesquisa recente mostra que o consumo de podcasts cresceu 67% em um ano.

Alguns definem essa nova moda com um velho conhecido – o rádio – só que agora com a diferença de ser à la carte, pois você escuta onde e quando quiser.

E o áudio ainda leva vantagem sobre os textos escritos e sobre os vídeos: como você não precisa dos olhos, enquanto ouve, pode dirigir, andar ou se ocupar de outros afazeres sem se atrapalhar ou correr o risco de se machucar.

Em julho deste ano, nós, do Centro de Formação da Vila, quando começamos a conceber nosso canal, notamos que não havia nada do gênero na área de educação.  Encontramos sim, um áudio aqui, outro ali, mas nada que pudesse ser chamado de “canal”.

De modo que nos apressamos para ser os primeiros. Lançamos no início – vale dizer, antes que a Folha e o Estadão o fizessem.

O intuito do nosso Critique em um instante é trazer temas para reflexão. Não queremos nos limitar a temas ou projetos de sala de aula ou da escola. Buscamos nos posicionar em relação a assuntos que afetam a educação de modo direto ou indireto. Assim, convidamos educadores e outros especialistas a gravar suas análises a partir de notícias, vídeos, filmes, artigos científicos, pesquisas, reportagens, prêmios ou eventos. Em um instante – que pode ir de 3 a 8 minutos – nosso convidado desenvolve a arte de discernir, apresentando o conteúdo e se posicionando diante dele, buscando apresentar um ângulo novo para velhas questões ou resgatar antigos princípios para analisar novas questões.

Desde que começamos, já foram 30 áudios tratando das implicações da inteligência artificial, papel do professor, questões de gênero na escola, diversidade e práticas inclusivas, jovens e juventudes, sustentabilidade, formação de professores, entre muitos outros. Buscamos diversificar os sotaques convidando educadores da Escola da Vila, da Escola Parque, Escola Viva e da Balão/Mangabeiras e, agora, também da Apoio – assim como reforçar o time com especialistas de outras áreas de conhecimento.

Acreditamos que o posicionamento crítico, a argumentação pautada em princípios e o conhecimento de causa colaboram para fomentar o debate de ideias tão necessário ao convívio democrático.

Assim, convidamos a todos a acompanhar nossas publicações, comentá-las e divulgá-las. Estamos no blog do Centro de Formação e também nas plataformas Deezer, Spotify, SoundCloud, Radio Public, Breaker, Google Podcast  e Apple Podcast.

O que aprendemos de nossa própria língua ao pensar em línguas de outros povos?

Por Miruna Kayano Genoino

O dia a dia dentro de uma escola é muito intenso. Crianças, professoras, famílias, colegas, reuniões, orientações, aulas, debates, mais aulas, conversas, orientações, e nosso mundo cheio de detalhes e de idas e vindas com a intensidade que só quem vive dentro de uma escola pode chegar a entender. Esse pequeno mundo que se torna todo nosso mundo durante muitas horas na semana pode ser bastante difícil de se afastar durante alguns dias e por isso é preciso muita organização, parceria e discussão para participar em um congresso como o CONLES – Congresso Latino-americano de Leitura e Escrita, que ocorreu de 25 a 27 de setembro em Lima, Peru, e do qual participei em nome da Escola da Vila.

Lembro que no dia anterior à minha ida, ainda cheia de decisões (inclusive familiares) a serem tomadas, recados e trocas com professoras e colegas, planejando minha ausência, cheguei a pensar: “Nossa, será que eu deveria mesmo ter me inscrito?”. Porque o dia a dia é intenso, e ao mesmo tempo é difícil de abandonar. A gente quer estar perto, junto, vivendo e acontecendo dentro desta vida que é a escola. Mas que bom que dentro da Vila existe uma equipe tão firme neste propósito de fazer os profissionais irem além, sabendo que para isso são sim necessários uns dias de afastamento.

O CONLES de 2017, do qual também participei, na Costa Rica, já tinha sido uma experiência muito forte e intensa, responsável por me mergulhar no universo dos contos de fadas que agora ocupa muitos de meus estudos. Mas certamente o CONLES 2019 me marcou de uma forma diferente, para além mesmo da leitura e escrita destas práticas de linguagem que me apaixonam… vou lembrar sempre deste congresso no Peru como o evento de resgate do valor dos povos originários para o que somos hoje, para a língua que falamos hoje e para o que queremos ser.

Já pude contar um pouco no podcast “Critique em um instante” sobre como vivi esta experiência, mas nunca é demais reforçar: que enorme valor que em um congresso sobre leitura e escrita tenhamos, dentre as conferências centrais, duas focadas na questão linguística dos povos originários e o lugar de suas línguas, na sociedade e na escola. Nestes espaços foi possível conhecer a delicada e intensa reflexão sobre o desafio de buscar espaços de análise e aprendizagem do escrito de línguas, como o quéchua, um dos idiomas oficiais do Peru, que basicamente possuem uma materialização por meio de seus povos de origem, baseada na oralidade.

Em uma das conferências, da professora Elena Burga Cabrera, do Peru, ela apontou quatro aspectos fundamentais que representam este desafio:

  1. Considerar diversos cenários sócio e psicolinguísticos das crianças que estão na escola.
  2. Considerar a normalização de cada língua e todos os elementos advindos desta questão.
  3. Elaborar materiais educativos em línguas originárias, além da língua predominante.
  4. Repensar os processos de ensino e aprendizagem da leitura e escrita desde a cultura em um enfoque intercultural.

Assim, a discussão é muito profunda e extensa. Enquanto ainda por vezes se discute a importância ou não de ensinar nome de letras, pudemos ali refletir sobre como a construção em si de um alfabeto, de uma materialidade escrita já constitui uma estabilidade linguística que não necessariamente representa em sua totalidade a língua em sua existência oral. Quanta verdade quando pensamos na peculiaridade de cada prática, de leitura, de escrita, de oralidade e quanta verdade em lembrar que aprender a ler e escrever é mais que aprender uma língua, mas sim as suas práticas!

Em tempos nos quais os povos originários do Brasil estão perdendo muitos de seus direitos e quando tem-se colocado a luta por seu espaço, sua cultura, sua existência como reflexo de posicionamentos partidários, e não como uma luta muito mais ampla que a escolha de posições políticas, participar de um congresso que discutiu de forma tão profunda e consistente o valor do resgate da história de cada língua, de cada povo, e de sua permanência nos dias de hoje, será uma lição que certamente levarei eternamente em meu percurso como educadora.

Esperando ansiosa pelo CONLES 2021! 

Jornadas que contam muito

Por Sonia Barreira, direção geral

Convidamos nossos ex-alunos a voltarem para um encontro na escola, rever os amigos, relembrar desta paisagem que foi cenário diário de pelo menos 3 anos de suas vidas, rever professores e responder a duas perguntas para todos nós: o que aconteceu depois que você saiu da Vila e o que a Vila teve a ver com isso?

Eles vão chegando meio sem graça, com o apoio de um amigo, ou sozinhos, e quando percebem que foram reconhecidos por aqueles antigos adultos, hoje um pouco mais envelhecidos, a tensão some e o sorrisão de criança volta a iluminar seus rostos. A cada dois anos este cerimonial simples, mas intenso se repete

Nossa Regina Chacur, ex-professora de Matemática e atual assistente de coordenação do Ensino Médio, prepara com carinho e atenção esse reencontro, busca as fotos, convoca a todos, faz parceria com a nossa produção, estimula os ex-professores a participarem, enfim, ela é a alma do encontro!

Os abraços são verdadeiros, pois representam o elo com aquele momento tão importante para todos nós que é a adolescência. Fomos testemunhas daquelas vidas, daqueles corpos, fizemos parte das suas histórias de vida, deixamos marcas e fomos marcados por eles! Estávamos lá, portanto, foi verdade!

Neste ano, recebemos duas turmas queridas, a de 2008 e a de 2009. Seus relatos compuseram um cenário bastante comum nestes encontros: a variedade de trajetórias, a riqueza das experiências e as dificuldades das decisões. Para nós, que fazemos isso todo ano, é engraçado ver as turmas recuperarem certos mitos interessantes: a Vila nunca se preocupou muito com vestibular (no entanto nenhum deles deixou de fazer cursos em faculdades de muito prestígio, muitos deles com mestrado, doutorado e alguns inclusive com pós doc!!!), a Vila sempre foi mais dá área de humanas (embora no grupo houvesse médicos, farmacêuticos, biólogos, agrônomos e engenheiros).

Advogados, publicitários, educadores, gente disposta a deixar confortáveis oportunidades para atuar no serviço público, empresários preocupados com o bem-estar de seus funcionários, gente querendo fazer a diferença, gente bacana, gente que dá um orgulho danado.

Em seus relatos, a retomada de experiências que foram importantes, sob o olhar atento e emocionado de professores protagonistas deste processo formativo. Profissionais que igualmente relatavam o quanto a Vila foi relevante em suas vidas profissionais.

Nós, adultos desde aquela época, ressignificamos nossa profissão nestes momentos, retomamos nossas convicções e saboreamos os resultados sempre tão distantes no dia a dia da escola.

Nos reconhecemos nas palavras de uma ex-aluna, que postou esse texto após o encontro. (Nos reconhecemos, mesmo havendo algum exagero de sua visão afetiva, e reproduzimos aqui, porque sabemos que ela é porta-voz de grande parte daquele grupo). Com vocês, Clarisse Almeida, irmã de Francisco Almeida e de Rafael Nogueira aluno do nosso atual 2º ano do EM.

10 anos de formada na Escola da Vila. Dez, rapá. Uma década que me fui da escola que me forjou. Que me criou. E que nunca se foi de mim. Pioneira no ensino construtivista no Brasil, a Vila trabalha pela produção autônoma e participativa do conhecimento de forma coletiva por um projeto pedagógico de diálogo, cooperação e transformação social em comunidades democráticas. Lá, aprendíamos em grupos enquanto dividíamos mesas em salas que partilhávamos no meio de pequenas florestas com saguis. Além do currículo, tínhamos aulas de política e história da arte em semiarenas, capoeira, coletivos, projetos sociais em periferias e aldeias indígenas, olimpíadas de esportes, vilada cultural com música, festivais de poesia, bibliotecas de acervos infinitos, laboratórios de ciência avançada e acesso à tecnologia até pra produções audiovisuais nossas. O nosso grêmio chamava Ágora. Recuperação chamava Sistema de Melhoria de Aprendizagem. Novos alunos tinham cicerones. Pra tomada de decisões em sala, éramos inquietados a formar assembleias. Foi lá que aprendi a ler desde Karl Marx até Adam Smith. E a entender nossos modos de produção. Foi lá que aprendi a debater e ir a campo. Com inteligência e sem exotização. Foi lá que aprendi que o conflito é inerente à realidade. A entender o dissenso. A desigualdade. E como batalhar pra mudá-la. Com a escola, aos 15 anos, viajamos ao Rio, onde entrevistamos uma líder de uma organização não governamental de prostitutas em um cortiço. Estudando o abismo entre favelas e coberturas, trabalhamos à deriva entre as noções de autonomia e coletividade. Com a escola, aos 16 anos, dormimos em um assentamento e visitamos um acampamento do Movimento dos Sem Terra no interior de São Paulo, nos reunindo com os trabalhadores em grupos de discussão sobre reforma agrária, concentração fundiária e educação de base. Com a escola, aos 17 anos, fomos a Brasília procurar entender o poder, nossa Capital Federal e nosso sistema político construído com sangue de candangos, ouvindo moradores de cidades-satélites, observando a arquitetura e ministros, conversando com deputados e senadores, visitando salões, plenários e corredores do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. Naturalmente, a vida foi nos levando pra ventos um bocado distintos. E ontem nos reencontramos. Até hoje, meu grupo de melhores amigos é de lá. Já há 25 anos. Nesse encontro, se misturam professores, músicos, biólogos, administradores, publicitários, juristas, psicólogos, engenheiros, veterinários, ecólogos, arquitetos, economistas, atores, médicos, produtores, fotógrafos, farmacêuticos e outros mais. Eu, no entremeio migrante entre ser uma poeta frustrada que virou burocrata e quer ser professora, entre ser advogada, pesquisadora, gestora pública e educadora popular, com formação híbrida em Direito, Ciência Política e Filosofia, e ainda querendo entrar pra História Econômica, entendo o porquê nunca consegui ser uma coisa só. Na Vila, somos no plural e no singular a um só tempo. Os saberes não podem ser departamentalizados. Nós não podemos ser atomizados. Ou divisionados. Somos todos um corpo. Um todo orgânico. Dez anos depois, uns se veem mais e outros menos, uns têm menos afinidade outros mais, uns brigam mais e outros menos, mas pra além do amor, pra além de afetos e desafetos, sei o que nos é comum. E não abrimos mão. Conhecimento é emancipatório. É libertador. E crítica é arma. E sensibilidade também. Obrigada a meus pais, meu dueto baiano desterrado de luta e ternura, que batalharam a vida toda pra me dar a melhor educação não só dentro, mas fora de casa. Fafá e Péri me ensinaram que somos fortuitas exceções de uma dolorosa regra. E jamais me esquecerei da onde eu venho. Obrigada, tua, minha e nossa Escola da Vila. Eu só te queria não só pra poucos, mas pra todos.”

Completando, no próximo ano, 40 anos de vida, a Vila vem se esforçando para formar gente que construa jornadas significativas porque sabemos que, para o mundo, isso conta muito!

Instrumentos

Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

Ötzi caminhava ofegante pela montanha nevada. O frio era fatal, mas não podia diminuir o ritmo. Ainda assim, seus ferimentos o obrigaram a fazer uma pausa para passar um pouco de ervas curativas em seu punho ferido. Uma vez sentado, não se furtou a comer alguma coisa. Foi sua última refeição, antes de ser assassinado pelas costas. Quando o encontraram morto, ele carregava um verdadeiro arsenal de objetos. Em seu cinto levava uma bolsa de pele que continha três tipos diferentes de elementos cortantes, além de uma grande agulha confeccionada com chifre de veado e madeira. Também carregava consigo uma pequena adaga feita a partir de uma rocha de quartzo, com uma bainha de fibras vegetais, bem como duas pontas de flechas soltas e outras 12 flechas sem ponta feitas de madeira de um arbusto chamado viburnum prunifolium. Viajava, ainda, com uma machadinha de cobre, um arco de madeira, duas pequenas caixas feitas de casca de bétula e mais dois cogumelos secos atravessados por uma fita de couro, que se acredita serem uma para uso medicinal e outra como material combustível para iniciar uma fogueira. Ao todo, carregava objetos feitos de 18 madeiras diferentes. Próximas ao seu corpo, foram encontradas cordas e uma rede que poderia ter servido para caçar passarinhos. Seu vestuário, composto de 5 tipos de peles diferentes, era muito completo e adequado ao frio intenso, e incluía ainda um eficiente calçado impermeável. 

Este indivíduo foi encontrado aproximadamente 5.300 anos após a sua morte. Naquela época a região em que ele deixou suas últimas pegadas estava longe de ser chamada de Alpes de Ötstal, onde hoje é a Suíça, a 3.210 metros de altitude. Encontrado por um casal de caminhantes suíços em 1991, este que foi chamado de Ötzi pela equipe de cientistas que o estudou, trouxe valiosas informações sobre o modo de vida na Idade do Cobre e encontra-se hoje devidamente refrigerado no museu Bolzano, Milão. Com o passar do tempo, as inovações tecnológicas foram permitindo cada vez mais informações sobre esse misterioso personagem. Foi com fotografias “multiespectrais” que se descobriu o dobro de tatuagens que se via a olho nu em 1991, saltando de 30 para 61 as grafias detectadas em sua pele durante os anos seguintes. E foi com avançadas técnicas de imagens infravermelhas que se desvendou o que ele comeu naquela que foi a sua última refeição, além de permitir definir a sua condição de homem de 45 anos que sofria com osteoporose; com Raios X de última geração encontrou-se ainda a ponta de flecha incrustada em seu ombro direito que ocasionou sua morte. Foi descongelado duas vezes para extrair amostras mais precisas de DNA, em 2000 e em 2009, para saber mais sobre sua origem étnica. 

Aqueles que lhe tiraram a vida deixaram-no perecer junto às suas dezenas de objetos, o que sugere uma motivação de vingança ou agressão por motivo que para nós é desconhecido, e para o qual não contamos com nenhuma tecnologia que possa dar mais detalhes sobre a cena ali ocorrida.

Graças a esses atentos caminhantes e às temperaturas baixíssimas às quais Ötzi esteve submetido em seu solitário cochilo de 5.300 anos, é que podemos saber algo sobre as possibilidades de um ser humano daquela época elaborar tantos materiais a ponto de mantê-lo vivo, caçando, caminhando e enfrentando situações tão austeras. Infelizmente para ele, não era o único a dominar instrumentos, e seus inimigos lhe acertaram com eficácia uma flecha com um potente arco, sabe-se lá fabricado por quem. 

É tentador pensar: o que aconteceria se um homem atual de 45 anos, tal como este que escreve, fosse encontrado morto e congelado daqui a 5.300 anos? Examinando meus bolsos, o que os humanos do futuro poderão deduzir é que o celular deveria servir para tudo, ou quase tudo, no início do século XXI. Ele só não me cobriria do frio nem me alimentaria com nutrientes vitais. De resto, sim, seria uma espécie de amuleto, ou objeto sagrado. Mas não mais especulemos sobre o futuro. Aproveitemos que temos entre nós Ötzi, nosso Homem da Idade do Cobre, para pensarmos sobre nosso presente. Quais diferenças podemos encontrar entre os instrumentos que ele carregava consigo, e este aparelho que levamos conosco para todo lugar? 

O bielo-russo Lev Semionovitch Vygotsky, expoente no estudo da natureza humana no século XX e um dos principais fundadores da chamada psicologia histórico-cultural, discorreu longamente sobre a importância crucial dos instrumentos no desenvolvimento da humanidade. Para além de seu óbvio papel utilitário, a miríade de objetos que Ötzi carregava não serviam apenas para combater o frio, a fome ou as desavenças com outros humanos. Os instrumentos são também elementos carregados de significações. Uma espada utilizada por um soldado do império romano no século V a.C. é diferente de uma arma carregada por um cavaleiro templário no século X ou um florete espanhol do século XV. Vygotsky ofereceu amplas bases para afirmar que os instrumentos são formas de agir sobre o mundo que nos rodeia, e o sentido concreto é inseparável do aspecto simbólico que rege essa relação, sendo a linguagem o máximo expoente dessa interpretação e a forma de se relacionar com nosso entorno. 

Em nosso intuito de transformar o mundo, insistimos em reinterpretá-lo a cada nova intervenção que nele fazemos. As projeções de figuras sobre as constelações ilustram bem essa ação. O céu nunca mais foi o mesmo depois da cultura grega, que também se transformou depois dos estudos de Copérnico. Em ambas as situações, o ser humano teve que ressignificar seu lugar no universo. 

Há, porém, um elemento curioso no instrumento sem o qual não podemos sair de casa nos dias de hoje. Vejamos: uma flecha só faz sentido quando disparada sobre um alce, um esquilo, uma árvore, um pássaro ou um humano, como foi o caso do pobre Ötzi. Uma pá tem sua máxima realização quando afunda sobre a terra, e um forno se realiza cada vez que abre a boca, seja para incluir uma lasanha crua, seja para devolvê-la gratinada. Já o celular nos oferece uma imagem estranha: quando vemos alguém utilizando esse aparelho, ele não parece estar agindo sobre o mundo da mesma forma que faz um mecânico com sua chave de fenda ou um médico com seu bisturi, ou ainda a cozinheira com sua colher e a panela. 

Estamos diante de uma lógica diferente. O celular – e isso poderia se estender para as mídias digitais em geral – se realiza a cada minuto que passa sem que o abandonemos. Diferente de uma flecha, ele não está destinado a distanciar-se de nós. Ao contrário, sua razão de ser se define na medida em que estendemos nosso uso com ele. Não é tão diferente do que foi a televisão, para as gerações anteriores. Porém, com a diferença de que a TV não oferecia tantos canais e desdobramentos ao mesmo tempo. A internet faz associações por conta própria. Ela não é passiva. É preciso certo esforço para ler as notícias de hoje, pois no meio do texto podemos aprofundar um aspecto de seu conteúdo, enquanto nas laterais podemos encontrar as passagens aéreas para os destinos que procuramos no dia anterior. 

Na escola, é visível a quantidade de adolescentes que chegam ao Ensino Médio cujo principal repertório de diversão gira em torno dos games. Estes, sofisticados e muito envolventes, absorvem a atenção e desconectam o usuário de seu entorno. Mas isso também pode ocorrer com aplicativos corriqueiros, como WhatsApp ou Instagram. Ou o aplicativo do banco ou o site de compras de quem esperamos uma resposta. Há de tudo ali. E sua lógica de navegação é sempre essa: quanto mais adiarmos o seu abandono, melhor. Isso não apenas porque o tempo é o valor da publicidade, mas porque assim o próprio aparelho se justifica em sua existência. E quanto mais aplicativos utilizarmos, mais celular queremos, com mais tela, mais memória, mais processador e mais armazenamento em nuvem. 

O jornal O Estado de São Paulo, em 14 de outubro último, publicou reportagem acerca de um abrangente estudo da Universidade Federal do Espírito Santo. A pesquisa detectou que um a cada quatro jovens do Brasil tem dependência de internet. É preciso considerar que muitos dos que não têm o diagnóstico de dependência fazem muito uso, reduzindo tempo de leitura, de esportes, ou a simples capacidade de se entediar e, por consequência, observar o mundo ao redor e inventar algo pra fazer, que vai desde procurar um amigo, desenhar, arrumar o quarto, chutar a bola contra a parede ou cozinhar. Diferentemente de um violão ou uma cadeira, as mídias digitais não são objetos inanimados. Elas fazem associações e procuram nos captar com seus próprios recursos. Afinal, tornou-se comum encontrar notebooks com uma fitinha no lugar da câmera. Ora, mas que diabos isso significa? Grande parte da tragédia do personagem David, em “2001, uma odisseia no espaço”, teria sido evitada com uma fita crepe no olho vermelho de HAL9000.

Não se trata aqui de demonizar a tecnologia digital. Com ela é possível, sim, reinterpretar o mundo por meio de filmes, fotografias, escritos, leituras, jogos interessantes, comunicação eficiente e afetiva com pessoas distantes. Por meio dela, ideias são propagadas, crenças são construídas ou destruídas, eleições são ganhas ou perdidas. É claro que ela gera transformações. Mas há alguns fatores preponderantes inerentes a seu uso que extrapolam essas características: ele tem alta tendência a oferecer experiências fragmentadas, e paradoxalmente incita a um uso interminável. 

Pode ser que a minha leitura do mundo esteja equivocada, mas a lógica desse novo instrumento parece ser diferente de tudo o que nos antecedeu. Ao contrário de uma adaga, uma vassoura, uma máquina de escrever ou uma embarcação, os instrumentos digitais são vorazes com seus fantásticos desdobramentos imagéticos, e criam outros mundos fascinantes que nos permitem esquecer muitas agruras da nossa vida cotidiana. É claro que a leitura de um livro, ou das estrelas, ou um filme já fazem isso, mas cada um deles é uma coisa só, e não muitas ao mesmo tempo. 

Seria bonito presenciar uma conversa entre Ötzi e Vygotsky a respeito do hominídeo do século XXI, mas infelizmente não temos, ainda, recursos para tanto. Só nos resta observar o mundo e utilizar nossos instrumentos com certa cautela. Instrumentos que sempre foram meio, e agora parecem ter se transformado em fim. 


Ouça o podcast A dose certa de internet, por Fermín Damirdjian.

Ajude a Vila a ampliar sua diversidade

Por Sonia Barreira, direção geral

Em 7 de dezembro de 2018 apresentamos, neste blog, o Projeto Ampliar, iniciativa que tem como objetivo central a ampliação da diversidade social em nossa escola.

Em nossa análise, uma escola como a nossa, em que se realiza um trabalho pedagógico artesanal, pautado nas inter-relações pessoais e sempre atento à singularidade de cada aluno, o alto custo impossibilita a participação de jovens de famílias de baixa renda. Essa seleção indesejada é também responsável pelo pequeno número de estudantes afrodescendentes, indígenas ou migrantes. Nossa intenção, portanto, foi construir um mecanismo consistente e duradouro, promotor da ampliação das oportunidades escolares, para além de nossa comunidade atual, mais diversa e democrática.

O Projeto Ampliar teve sua primeira etapa ao longo de 2019, com a matrícula de dois jovens que passaram pelo processo seletivo, no qual se procurou identificar a capacidade de aderir a educação formal, a curiosidade e o interesse em estudar e investir em sua formação pessoal.

Este ano para nossa equipe, esta etapa inicial foi uma espécie de projeto piloto, que nos permitiu entender melhor as necessidades que uma integração desse tipo demanda. O financiamento desse projeto foi feito por doadores que entenderam estar oferecendo uma importante oportunidade para esses jovens, e vale destacar que, além do acesso ao curso do Ensino Médio, os jovens bolsistas receberam também: um computador para suas atividades escolares, as refeições na nossa cantina, o apoio de tutores ex-alunos que doaram seus tempos de trabalho para o projeto e toda atenção necessária de nossa equipe de profissionais.

O resultado positivo, de entrosamento e superação dos desafios acadêmicos por parte dos alunos bolsistas, nos encorajou a aumentar o número de vagas para o Projeto no próximo ano. Observamos que, com apoio e diálogo, os jovens desenvolveram novos procedimentos de estudo, estiveram atentos às atividades complementares e se envolveram bastante com as atividades extras que receberam no contraturno com os tutores ex-alunos.

Em 2020, além dos atuais alunos bolsistas que irão para o 2º ano do EM, abriremos mais seis vagas para o primeiro ano do Médio. Esse número pode até aumentar, pois o compromisso da Escola da Vila é aportar no projeto o mesmo valor financeiro que conseguir captar de doações.

No dia 19 de outubro, como resultado da parceria construída com escolas públicas da rede municipal de ensino da região por meio da  Diretoria Regional de Educação do Butantã  – DRE BTT, recebemos em nossa unidade Morumbi 53 alunos interessados em participar do processo seletivo, organizado desta vez pela própria equipe da Vila e com a participação intensa de ex-alunos tutores que desenvolveram as dinâmicas de integração e acolhimento. 

Foram muitos alunos que se dispuseram a perder o sábado em provas para obter uma chance de estudar aqui. Muitos vieram acompanhados por suas famílias.

Importante salientar que valorizamos imensamente as escolas públicas e desenvolvemos mecanismos para contribuir com a qualidade destas escolas sempre que possível. Um exemplo importante é o programa implantado no Centro de Formação de Educadores da Vila, onde elaboramos frequentemente editais para a concessão de bolsas integrais para professores das redes públicas de todo o país. No entanto, entendemos que nosso programa Ampliar se justifica como mais uma forma de contribuir com a formação de alunos críticos e engajados em função do diferencial do projeto pedagógico desenvolvido aqui em nossa escola.

Nosso projeto tem como característica máxima os valores de autonomia intelectual, que visa a formação de alunos que possam ler o mundo de forma crítica e com intuito de gerar mudança no sentido de maior justiça social. O segundo valor da Vila é o conhecimento, pois é ele o instrumento de poder que possibilita as mudanças sociais necessárias. E, por fim, o valor da cooperação como essencial para a educação que praticamos, que implica conceber a diversidade como fator inerente à transformação social.

Para que possamos levar adiante este programa e garantir o acesso anual de 6 a 10 novos alunos de baixa renda, queremos contar com a participação de nossa comunidade. No próximo mês lançaremos um site que vai coletar contribuições variadas, para todas as possibilidades financeiras. Vamos pedir apoio para itens como a compra de um livro, as refeições mensais e vamos até o valor da anuidade escolar. Para cada contribuição recebida, nossa instituição se compromete em doar o mesmo valor recebido.

O comitê de famílias, que se reúne sistematicamente com a direção, sugeriu também que, no próximo ano, os eventos e as atividades realizadas na escola possam incluir formas de arrecadação para essa importante iniciativa, e assim o faremos. Se você tiver uma boa ideia de como contribuir para essa arrecadação, não deixe de nos avisar.

Para doar itens do programa, aguarde nosso site especialmente criado para isso. Se quiser patrocinar a anuidade escolar, ou indicar uma pessoa ou instituição para participar do patrocínio, escreva diretamente para wanilda@vila.com.br, que nossa embaixadora Wanilda Tieppo entrará em contato com você e irá até o possível patrocinador apresentar nosso projeto.

Ajude a Vila a ampliar sua diversidade, todos sairemos ganhando.

Sétima arte nas aulas de Inglês

Por Deborah Secundo de Melo, professora de Inglês e Susane Lancman, diretora do Ensino Médio

A cada ano e a cada trimestre, novos desafios são planejados para que os alunos aprimorem suas habilidades de escrever, ler e  falar na língua inglesa. Dessa forma, aprimoram a leitura interagindo com diferentes tipos de textos, ampliando o vocabulário e melhorando a fluência nas discussões e em outras situações de comunicação.

O curso de Língua Inglesa no 3º ano do Ensino Médio tem como tema geral a leitura crítica e, no segundo trimestre, o objeto de estudo é o CINEMA. O material e as discussões procuram colocar em evidência o Cinema como linguagem e como os espectadores podem ler e analisar a unidade das obras, seus aspectos técnicos e os diálogos estabelecidos com a realidade, de maneira que a relação entre forma e conteúdo seja vista como dialeticamente construída.

Assim, inicia-se o projeto tratando de algumas das diferentes abordagens críticas que podem ser adotadas para analisar um filme. Estudam-se também aspectos da linguagem cinematográfica, com  exercícios de análise conjunta e, então, estudantes, em grupos, escolhem um filme a partir de uma lista previamente selecionada pela professora para fazerem seus próprios exercícios de análise.

Uma vez escolhidos os filmes, cada grupo faz pesquisas sobre seu objeto – procuram informações sobre o contexto de produção, a direção, entrevistas, tentando localizar o que já foi dito sobre cada filme. Então, produzem uma análise textual, que tenta partir de uma tese de interpretação, apoiada por aspectos formais e contextuais. Em seguida, produzem um roteiro para seus próprios filmes de análise e então partem para a produção de seus filmes, que podem tomar formatos diferentes. A exigência comum é que todos os membros do grupo tenham igual participação em todas as etapas.

Não se trata de um curso de Cinema, mas de um curso que se propõe a pensar o Cinema como objeto e, mais do que isso, como escrever e falar criticamente de Cinema em Língua Inglesa – nesse processo, desenvolvem-se de forma extremamente potente as habilidades de leitura, escrita e oralidade. Afinal, filmes, mais do que entretenimento, são recortes que, tomados como objeto de análise, podem nos dizer muito sobre nosso mundo, o que é alvo constante de interesse de nossos jovens alunos.

Assista dois curtas produzidos pelos alunos.

La La Land para aqueles que gostam de musical e de sonhar. Nossos alunos discorrem sobre o filme com boas análises de cenas.
Em 14 minutos, nossos críticos-alunos analisam a obra 12 anos de Escravidão, explicando por que esta obra é digna de ganhar o Oscar.

Brincar, cuidar e aprender: o percurso de construção da autonomia.

Por Andrea Polo, coordenação da Educação Infantil

“Está frio, venha colocar a blusa.”

“Que calor, vamos trocar de roupa.”

“Vou te dar comida na boca para não esfriar.”

“Está na hora de fazer xixi.”

“Caiu? Da próxima vez evite correr.”

Em determinados projetos escolares, as investigações, as dúvidas e as inquietações, tão pulsantes nas crianças pequenas, são respondidas com afirmativas únicas, vindas de adultos preparados para “não deixar que nada aconteça”. Diariamente, uma criança pode ser colocada em inúmeras situações nas quais seus sentidos primordiais sequer precisam ser acionados porque “alguém”, em geral, um adulto, já “entendeu” que precisa se antecipar e “resolver” o problema!

Não estamos falando dos bebês, mas de crianças que já falam ou expressam sensações de frio, calor, fome ou necessidades fisiológicas, mas nem sabem que “podem” sentir! Antes mesmo do calor aparecer, alguém já disse que está quente e já avaliou que todo o grupo deve tirar as blusas!

Se ensinar a pensar é apenas um “projeto” para os mais velhos, quando chegarem ao Ensino Fundamental, a Educação Infantil se tornará esvaziada de significado e tenderá apenas a atender às preocupações dos adultos: deixar os filhos e filhas num espaço onde são supridas as necessidades de cuidado para que possam trabalhar. Só isso não é suficiente para construir um espaço que atenda às necessidades de desenvolvimento da primeira infância.

A Educação Infantil deve cuidar e ensinar a pensar! Simples ações são nosso grande conteúdo de trabalho. Instauramos o problema para que as crianças se sintam instigadas e convocadas realmente a resolvê-los.

Pensar por si é trabalho duro! Não esperamos que nossas crianças de três anos de idade “se tornem” sujeitos que aprendam a fazer perguntas e questionem quando ficarem mais velhas. Ao entrar na escola, no tempo que permanecem conosco, devem ser convidadas diária e intencionalmente a resolver problemas, dos mais diversos, mas que fazem todo sentido nesse momento da vida.

Pensar em como ajudar uma amiga a carregar uma caixa pesada para iniciar uma brincadeira, fazer perguntas sobre o processo de produção de uma receita culinária, guardar os brinquedos que usou e os que não usou garante para as crianças a saída da zona de conforto da casa – lugar de funcionamento mais ou menos estável, com as mesmas pessoas, em geral mais adultos do que iguais, que se colocam à disposição para ajudar, mesmo que essas ajudas se sobreponham às necessidades de aprender por si, errando e tentando muitas vezes.

A escola, com a estabilidade da rotina, desestabiliza no necessário – naquilo que as crianças não podem “controlar”, num ambiente que provoca, tira do lugar intencionalmente.

Se alguém deseja o mesmo brinquedo do colega, deve ponderar, esperar a vez. Tentar consegui-lo é se arriscar e contar com as intervenções de adultos disponíveis para favorecer relações de respeito mútuo até que já tenham construído as “ferramentas” necessárias para balizar suas ações.

Durante toda a Educação Infantil, as crianças são colocadas em situações que as impulsionam a tentar. Não esperamos o “correto”, esperamos o possível e, nesse caso, o possível é compreendido e incentivado por cada educadora que pensa e planeja intervenções variadas não apenas para as sequências e os projetos para ensinar as relações matemáticas, linguísticas ou científicas. Tudo está interligado em forças de trabalho que impactam grandemente nossas escolhas didáticas e metodológicas.

A construção da autonomia revela-se como uma frente de aprendizagem importantíssima: não fazemos “por elas”, fazemos com elas! Esse fazer carregado de curiosas inquietações promove espaços para que algumas respostas e novas dúvidas sejam construídas num processo que credita às crianças autoria de pensamento, em tempos que muitos adultos estão se havendo com as dificuldades de não terem aprendido a pensar por si mesmos.

Nosso currículo não é o índice do livro didático, a BNCC não é o currículo

Por Susane Lancman, diretora do Ensino Médio

Desde que começou a divulgação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), uma pergunta tem sido feita frequentemente: como era organizado o currículo, se não tinha uma base curricular nacional?

Não era perceptível nem questionável para a maioria das pessoas a falta de uma grade curricular para as séries de toda a escolaridade. Quer dizer, não havia uma Base Nacional que determinasse o que ensinar e como ensinar. Todavia era possível perceber uma certa homogeneidade entre a maioria das escolas na escolha curricular, isso porque muitas delas se pautam em três fatores:

  • exames externos, o que significa que os vestibulares de certa forma determinam o que deve ser ensinado;
  • a tradição, o que significa que de geração em geração alguns conteúdos são ensinados e isso se perpetua;
  • índice do livro didático, o que significa que a indústria editorial direciona os conteúdos.

Na Escola da Vila, a escolha curricular sempre se deu em função de dois fatores, uma formação geral consistente e uma formação acadêmica de qualidade. O que não significa que desconsideramos os exames externos, até porque fazemos ações específicas à medida que os alunos vão chegando ao 3o ano do EM, mas sabemos que a preparação para esses exames se relaciona com os dois fatores, isso quer dizer que uma boa formação possibilita uma boa aprovação nos exames, como tem sido com nossos  alunos formandos. Além disso, nossas escolhas curriculares estão pautadas em pesquisas pedagógicas do campo da didática e não simplesmente pela aceitação da tradição. Por fim, o livro didático é um apoio ao trabalho e não o cerne da nossa ação pedagógica.

Afinal, o índice do livro didático é composto pelos conteúdos da disciplina, e o currículo vai muito além dessa listagem de conteúdos conceituais. Há de se considerar em um currículo os conteúdos procedimentais e atitudinais, além de outros conteúdos interdisciplinares e transdisciplinares. O mesmo podemos dizer sobre a BNCC: ela não é o currículo. Assim, continua imprescindível cada escola ter seu projeto pedagógico pautado na pergunta central: que tipo de aluno e cidadão se quer formar?

A ideia não é que as escolas substituam o índice do livro didático pela listagem da BNCC, da mesma forma que a Escola da Vila não substituirá o seu currículo pela BNCC, ela fará parte do nosso currículo. Sem dúvida será preciso muita análise do que é feito em sala de aula para que sejam propostas reformulações, adequações e mudanças, mas é preciso preservar o que nos caracteriza em nossos valores pedagógicos e o que avaliamos que é de muita qualidade para uma formação integral dos alunos.

Vale esclarecer que a legislação que regulamenta o sistema educacional, público ou privado, da educação básica ao ensino superior, é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) promulgada pela primeira vez em 1961 e depois reafirmada em 1996. E nessa lei já estava estabelecido que deveriam ser feitos três documentos: os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) e a BNCC. Os PCNs foram feitos em 1997 e são compostos por diretrizes para cada disciplina visando orientar a elaboração curricular. Já os DCNs são definições sobre princípios, fundamentos e procedimentos que orientam as escolas em vários aspectos da ação pedagógica. Por fim, a BNCC estabelece os conteúdos básicos que devem ser ensinados para todos os alunos, sem deixar de levar em consideração os diversos contextos nos quais estão inseridos. Podemos dizer que os PCNs e as DCNs tinham como foco responder à grande questão de COMO ENSINAR e a BNCC estabelece O QUE ENSINAR.

Há muita discussão sobre a quantidade do que é chamado “conteúdo básico” e até mesmo sobre a escolha dos conteúdos. Mas há aspectos da Base que são avanços para a educação brasileira, tal como considerar o aluno não somente como um ser cognoscente, mas também como um ser social, comunicativo e emocional. 

Isso significa que o aluno deixa de ser só um repositório de conteúdo e passa a ser considerado um sujeito reflexivo, comunicativo e com necessidades. O educador Paulo Freire em seu livro Pedagogia do Oprimido afirma “[…], o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes”.

Na Escola da Vila, nosso foco de estudo em todos os encontros com professores é a busca de compreender como os alunos aprendem, e a partir daí buscar as formas de ensinar, considerando como central no processo de ensino e aprendizagem o aluno. Assim, construímos nosso currículo tendo como base esse sujeito, características de faixa etária, estudos acadêmicos sobre as diferentes etapas do desenvolvimento cognitivo, social e afetivo e o contexto socioeconômico e político. Não há como desconsiderar o entorno em que os alunos estão inseridos, o contexto em que vivem, com suas tragédias, trânsitos, conflitos e descobertas. Pelo contrário, a ideia é apresentar a realidade em sua complexidade e pelos diferentes pontos de vista. Há muito a aprimorar em nosso trabalho, nessa busca incessante de fazer um currículo que tenha SENTIDO para o aluno, gerando aprendizagens significativas.

No Ensino Médio, segmento em que há os maiores desafios para construir uma escola com sentido para os alunos, em função do excesso de conteúdos e características da faixa etária, estamos em uma empreitada nos últimos anos analisando vários aspectos de nossa prática em função da BNCC e de nossas próprias demandas internas. Agora podemos anunciar: o ENSINO MÉDIO DA VILA VAI MUDAR, conservando seus valores e a qualidade do trabalho.

Formandos do Ensino Médio: experiências no mundo do trabalho

Por Susane Lancman, diretora do Ensino Médio e Paula Blanco, auxiliar de orientação do Ensino Médio

Os “começos” geralmente são momentos importantes: início da vida, início de relacionamentos, início escolar. Cada um deles exige cuidados especiais. Da mesma forma é preciso cuidar dos “finais”, como no caso de formandos dos 3os anos do Ensino Médio. Afinal, depois de 12 anos de escolaridade obrigatória, chega o momento do FIM. É preciso acolher as demandas dos alunos relacionadas a essa fase e ajudar a prepará-los para a nova etapa.

O processo de finalização dessa etapa é composto por quatro focos: escolha da carreira acadêmica, preparação para os exames externos, atividades de despedida e organização do evento de colação de grau. Cada um deles é composto por uma série de atividades. Em relação à escolha da carreira acadêmica, uma delas é a proposta de “estágios” de modo que os alunos tenham uma pequena vivência no mundo do trabalho.

Vale dizer que as atividades voltadas para a escolha da carreira acadêmica têm como foco a escolha do curso universitário, mas a vivência no trabalho pode ajudar. Assim, no início do ano listamos todas as famílias do Ensino Médio que podem receber alunos em seus ambientes de trabalho. Em pequenos grupos, de acordo com o interesse dos alunos, são organizadas essas vivências no mundo do trabalho: hospitais, consultórios, empresas públicas, indústrias… Alguns alunos não quiseram participar dos estágios por diferentes razões, já outros solicitaram que tivessem mais experiência, o que esperamos que aconteça com os alunos travando contatos para realizarem outras experiências semelhantes.

Essa vivência é uma grande oportunidade para que os alunos se aproximem da rotina profissional, o que fomenta mais inquietações e dúvidas, mas também apazigua outras; mobiliza mais fantasias e desejos, e também cria outras, além de ampliar seus repertórios de escolha.

São muitos os fatores que influenciam nesse complexo processo, tais como: competências, habilidades, interesses, história de vida, percurso escolar, desenvolvimento social e afetivo com sua gama de subjetividades, e é no cruzamento destes que se dá a escolha. Além disso, é preciso considerar que a mesma variável interfere no processo de forma diferente em cada indivíduo, por essa razão a interação entre os alunos é tão importante, pois permite trocar pontos de vista e vivências. Dessa forma, há discussões acaloradas sobre a importância da aprovação dos pais e amigos nessa escolha, se o reconhecimento social ou status é algo relevante, se o retorno financeiro deve ser ou não um fator a considerar, e mais tantos outros questionamentos que habitam o universo da escolha da carreira universitária. 

Alguns alunos se mostram extremamente inquietos e angustiados nesse processo de escolha, questionam a razão de não terem uma vocação. Se por um lado querem ter a liberdade de escolher, por outro se sentem inseguros, assim a ideia de uma vocação como algo predeterminado poderia trazer um acalanto. Discutimos esse conceito de vocação a fim de que os estudantes percebam que o ser humano é biologicamente indefinido no que diz respeito à vocação, sendo necessária uma busca no mundo interno e análise do mundo externo para se tomar uma decisão sobre a escolha da carreira acadêmica. Sem dúvida, o medo de escolher errado, o medo de não conseguir escolher, o medo de não saber escolher, tudo isso está presente.

As atividades de orientação da escolha da carreira acadêmica (OECA), que inclui estágio, visitas às universidades, conversas com ex-alunos, apresentações de professores universitários, tentam ajudar nessa travessia que inclui sair da Escola da Vila e chegar a uma outra margem que ainda não se sabe exatamente qual é. Para que parte dessas travessias pudessem ser compartilhadas, foi criado um mural real no prédio do Ensino Médio e um mural virtual no Padlet com depoimentos em vídeo e texto.

Caso queira conhecer a experiência de estágio de uma aluna que mudou de ideia do que cursar,  clique aqui e leia seu depoimento

Caso queira conhecer a experiência de alunas que se encantaram pelo estágio, clique aqui.

Caso queira conhecer as experiências de um aluno no serviço de psicologia de um hospital particular e no setor público , clique aqui.

Assista ao depoimento de um aluno que conta de dois estágios que fez na área de geografia.

Assista ao depoimento de uma aluna que conta sobre a experiência no Instituto de Doenças Tropicais.

Fica o convite, a você leitor, para que deixe seu depoimento de parte da sua travessia no que se refere à escolha da carreira universitária.

De faíscas e liberdade

Por Fermín Damirdjian, orientador do Ensino Médio

Situação difícil. Um rapaz de quinze anos tem uma festa na sexta-feira à noite. No dia seguinte, à tarde, iria à Avenida Paulista encontrar alguns amigos da escola antiga, com quem guarda fortes vínculos afetivos desde a primeira infância. Turma boa. Deve chegar em casa à noite, ainda que não tão tarde. No domingo, tem futebol às 10 horas, e o time combinou de depois almoçar na casa de um deles. Já fizeram a vaquinha pró-churrasco. Espetinhos de carne e de linguiça. Um pouco de música. Alguns inclusive tocam violão, pandeiro ou o que se tenha à mão. Logo mais, às 16 horas, acompanhariam a semifinal do Paulista pela TV. Esse é o plano para o fim de semana. E o anterior não teria sido muito diferente. A verdade é que a vida está divertidíssima. Os pais, no entanto, lhe dizem que é “muita coisa”. Não dá pra fazer tudo.

Ao ouvir algo assim, o rapaz não consegue fazer nada, além de lançar uma expressão extremamente interrogativa, que em microssegundos se transforma em exclamativa, e, quase ao mesmo tempo, na mais absoluta indignação. O que, é claro, desperta as diversas regiões do cérebro, mais especificamente o corpo caloso, área responsável pelos impulsos emocionais. Há um esforço de algumas regiões do córtex para preparar a argumentação, munição que pode ser lançada já, ali mesmo, a meio caminho entre o quarto e o banheiro.

A vociferação começa com a pergunta básica, direta e objetiva: “Mas por que não???” “Porque queremos que pare um pouco em casa, não dá pra ser todo final de semana desse jeito”. A resposta vem com autoridade. No entanto, não é difícil perceber que a pergunta ainda não foi respondida a contento. “Mas qual é o problema???” Em uma prova de filosofia, biologia ou história, isso seria algo como “Justifique sua resposta”. “Eu e sua mãe não achamos que dá pra ser assim. É muita coisa. Pode escolher duas dessas coisas, mas não tudo.” O rapaz se ressente. Não entende. Suas notas na escola são boas – o que no mundo adulto seria mais ou menos como estar quites com a Receita Federal. Ele alega que não liga pra bebida ou drogas. É fato, ele nunca chegara alterado em casa. E os pais sabem que ele não se expõe a riscos físicos. Não é de aprontar, não tem obsessão por confrontar autoridades, o rapaz vem crescendo bem, no sentido de não demonstrar amargura ou sofrimento muito além de alterações de humor comuns, mantendo em geral boa disposição em sua rotina. Não é aquela adolescência de manual, em que o cara se tranca no quarto e vai jantar de cara amarrada. Não. Essa visão é um clichê. Embora ela seja frequente, não é o único modelo, e a situação do nosso herói não é uma exceção em meio a muitos amigos e amigas que simplesmente se divertem com o ganho de autonomia.

Esse rapaz aprendeu recentemente a circular pela cidade, pratica esportes, estuda, vai bem na escola, é amável com os avós. Meio cabeça-dura de vez em quando, mas está bem. Está namorando, embora o relacionamento termine e recomece de maneira nebulosa, ao menos para os pais. Mas eles não pretendem acompanhar isso de perto, afinal, ele está criando a sua intimidade e eles entendem que esse é um campo onde só podem entrar quando solicitados. A mãe por vezes tenta algumas incursões, sem muito sucesso. Nada de mais. O cara está ótimo. Então por que diabos ele não pode passar o fim de semana sambando entre um bairro e outro, entre um programa e outro, programas esses permeados de boas amizades, vida afetiva, um pouco de esporte, um pouco de cultura… Fazendo jus à dúvida do réu: qual é exatamente o problema? “Justifique sua resposta.” No rigor escolar, ainda falta aos responsáveis conquistarem o pleno acerto dessa questão. Tentaremos ajudá-los. E, ainda, buscaremos depreender disso uma reflexão a respeito de algo que permeia toda esta situação: a liberdade.

Algumas justificativas para limitar a programação deste adolescente poderiam se basear em riscos ou irresponsabilidade, considerando a obviedade que com frequência esses fatores andam juntos. Andar de madrugada pela cidade pode ser arriscado, bem como usar drogas. Mas esses riscos não parecem existir neste caso, e queremos avançar para além deles, que são elementos concretos e fáceis para justificar a limitação imposta pelos pais. A justificativa é mais sutil e mais complexa.

É inegável que a vida fora de casa está divertidíssima. A quantidade de novidades é infinitamente mais saborosa do que aquilo que se encontra no núcleo familiar. Embora ele não vá jantar de cara amarrada, a cabeça dele está longe, muito longe. Até conversa com a irmã e com os pais, mas vê-se claramente que seu espírito está entregue a um vasto parque de diversões que ele, também, passa a habitar. Os amigos são sua nova família. Só o tempo mostrará que eles vêm e vão, apesar dessa intensidade que parece determinante em sua rede de vínculos. Para ele, as inscrições terão a solidez das pinturas rupestres.

Mas quantas dessas pinturas sobreviveram aos milênios? Os arqueólogos sabem que muitos desses belos vestígios se apagaram, e inclusive essas que se veem guardam em sua composição química pigmentações de materiais diferentes, e de épocas com intervalos de tempo gigantescos – e, portanto, simbologias e culturas diferentes – à medida que foram sendo retocadas. Cada um desses autores, em sua releitura do que ali é retratado, deixou uma mostra de diferenças enormes em sua relação com a natureza. Interpretações teológicas distintas, religiosidades e estágios da evolução humanas com fortes discrepâncias entre os grupos humanos. Mas, é claro: as primeiras inscrições na parede de uma caverna ainda virgem são fundantes, e deram à caverna o marco da passagem da vida humana por ali, onde antes nada disso havia. O primeiro a pintar naquela caverna não vivia a consideração cabal de que sua pintura seria apagada ou talvez modificada com o tempo. Ele vivia o êxtase de sua primeira inscrição, seu primeiro registro no mundo. E constatar esse registro na parede da caverna reflete, também, em seu mundo interno. Seu orgulho de realização e a constatação da potência para modificar seu entorno são marcas tão externas quanto internas. Constituem o indivíduo e a cultura de seu grupo. Como é que as vivências de nosso adolescente não podem ser mais extasiantes que o pão com manteiga, no café da manhã de sua família?

A sua vivência fora de casa – sua capacidade de formar amigos, de ser parte de um time, de pegar ônibus, de dar risada, de entender um filme, de ser abraçado – é claramente formadora e necessária. Pelo resto da vida, ele terá de agir sobre o mundo e transformá-lo, e as vivências da infância e da adolescência imprimem em sua subjetividade o modus operandi necessário para ir avançando a cada etapa que vai se colocando, incessantemente, ao longo da vida.

Ocorre que esse salto, que se dá com especial intensidade na adolescência, também desorganiza. E não falamos aqui da organização ortopédica da semana, e sim da organização interna. O mundo está aí para ser saboreado, mas também para ser interpretado, decodificado, lido. Entender nossas reações emocionais em cada situação é uma tarefa dificílima. Entender o que acontece em um relacionamento amoroso é extremamente complexo. Lidar com obrigações escolares às quais muitas vezes não atribuímos muito sentido exige uma perseverança que não sabemos nem de onde tirar. Por vezes até damos conta de muita coisa aos quinze anos, mas não sabemos por que nem como. Fazer um uso parcimonioso desse novo espaço que se abre, vertiginosamente, à nossa frente, é uma cautela necessária. É preciso certo tempo para decodificar nossas vivências, para não restringir a nossa ação a meras respostas a estímulos. E isso é difícil de transmitir, pois esses estímulos podem ser de natureza saudável. Jogar bola, encontrar amigos, namorar, ir ao cinema… “Qual é o problema??”, pergunta nosso jovem.

Eles não são o problema. A sua intensidade, por vezes, é. A rapidez com que surgem essas oportunidades frequentemente se traduz em uma cara de estafa, em olhares vagos, em distração excessiva. Parar no ambiente conhecido de casa, na rotina familiar é, sim, necessário para deglutir com certo cuidado toda essa novidade. Inclusive porque em algum momento riscos hão de aparecer, sim, mas não quisemos colocá-los aqui em nossa cena hipotética para não resumir tudo à segurança do lar nesse sentido: para fugir de drogas, doenças sexualmente transmissíveis, excessos de videogame e de mídias digitais, et cetera. Eles também podem entrar na conta, mas não faltam adolescentes que não se entregam a algum ou alguns desses fatores de forma exacerbada, e, ainda assim, é preciso certa negociação para dosar essa circulação fascinante pelo mundo.

Qualquer resposta simples é um erro. Com essas colocações, por exemplo, incorremos no risco de transmitir uma mensagem do tipo: “Nada como o resguardo do lar e do seio da família, para protegê-lo do mundo”. Não se trata de operar em nenhum extremo. Trata-se de negociar.

Sim, é dificílimo explicar essa percepção que os pais podem ter ao intuir que há certa indigestão no filho ou na filha, com toda a vida que se abriu fora de casa. Isso nem sempre é palpável. Notas baixas, uma bebedeira ou outros problemas concretos facilitam a justificativa. Mas é preciso ir além disso, pois a vida é, justamente, mais do que prestar contas com notas escolares.

Qual é, assim, a liberdade possível de um adolescente? Ele é hábil fisicamente, pode andar pela cidade, tem vigor físico, articulação verbal, pode fazer uma porção de coisas. A liberdade possível será aquela que surgirá de uma boa negociação. Certa vez eu vi o psicólogo Julio Groppa Aquino dizer que é na tensão, nas faíscas dessa negociação onde se constitui o ato educativo. Concordo plenamente com isso. Os extremos erroneamente se mostram como soluções, mas com a vida aprendemos que disso saem muito mais do que faíscas. Da ausência de ponderações e de autoritarismo vazio surgem incêndios, e os danos são infinitamente mais profundos.


Referências: Café filosófico: “O fogo cruzado da educação contemporânea”, com Julio Groppa Aquino