Have you been to California yet? No? So let’s go!!!

Por Sandra Durazzo 

O Centro de Formação da Escola da Vila está preparando as malas para uma viagem pedagógica que promete ser incrível!

Visitaremos escolas com propostas inovadoras com relação ao agrupamento dos alunos, à formação dos professores, ao uso da tecnologia a favor da aprendizagem, e muitas outras soluções criativas para aprimorar o desempenho acadêmico dos alunos.

São propostas que unem a gestão do espaço escolar com a participação ativa da comunidade de pais e professores, para desenvolver projetos pedagógicos que atendam às demandas formativas do século XXI.

E tudo isso no estado mais charmoso dos Estados Unidos, a Califórnia!

Começaremos por San Francisco, onde visitaremos escolas que são modelo de educação, e ficaremos hospedados no fantástico Fisherman’s Wharf!

Passaremos pela elegante Santa Mônica, onde ficaremos um dia inteiro numa escola de educação infantil inspirada na pedagogia Reggio Emilia, da Itália. Quando uma escola ou projeto se tornam referência mundial, como é o caso da pedagógica reggioemiliana, muitas e diferentes escolas buscam concretizar propostas que tenham alguma semelhança com o modelo, mas que atendam às necessidades locais. Entender esse processo é bastante formativo e nos ajuda a aprender com os erros e os acertos de terceiros!

E fecharemos a viagem em San Diego, onde teremos o privilégio de conhecer duas unidades da High Tech High, além de participar de um workshop formativo, especialmente elaborado para o nosso grupo. Nessas escolas, poderemos compreender melhor a organização de uma escola que trabalha prioritariamente através de projetos, e onde o aluno é central em todo o processo de ensino e aprendizagem.

Ainda temos lugares no grupo. Venha dividir conosco essa experiência única!


Leia também sobre a primeira viagem pedagógica para Califórnia, realizada em 2014:

Para fazer uma boa escola você tem de pensar não apenas no que vai ter nela, mas principalmente naquilo que você não vai permitir, de modo algum, que exista nela.

Mentalidade de aprendizagem, academic mindset ou a nossa velha e boa postura de estudante!

O que nos encanta numa escola – que não é a nossa?

Ambientes que comunicam

Por Marisa Szpigel – Zá

Visualidade: vista, miragem, aspecto cambiante (do dicionário Michaelis). A visualidade dos espaços de todas as escolas pelas quais passamos durante nossa jornada em Nova York comunicavam significados. A visualidade não se apresentava apenas pelas exposições e pelos murais repletos de trabalhos realizados por crianças e jovens, mas também, e principalmente, pelo agir dos estudantes e professores nos espaços. Ambientes coletivos de trabalho, que muito se distanciavam do referente de uniformização e homogeneidade sem surpresas que normalmente estão relacionados ao ambiente escolar. Cada uma das escolas que pudemos conhecer oferecia lugares convidativos e que sugerem familiaridade, eles nos mostravam que foram construídos  ao longo do tempo pelos protagonistas  dos processos ali implicados, de modo a revelar singularidades e  construção coletiva simultaneamente.

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3Na escola Quest to learn todas as propostas são apresentadas aos alunos no formato de games. Observamos que os alunos utilizam os ambientes virtuais e reais  de acordo com a atividade. Não há uma sala  de aula por série, mas os alunos circulam pelas salas e cada professor tem sua sala. Os murais, repletos de produções de todos tipo comunicam os processos de produção. Além disso, chamou atenção o fato dos professores terem um espaço de trabalho (como mostra a primeira imagem) dentro da sala.

Assim como ocorre nos ambientes virtuais que se constituem por redes complexas e carregadas de informações, nessas escolas salas, corredores, bibliotecas e ateliês também se apresentavam como redes complexas, com poucos (ou nenhum) espaços vazios. Mais do que salas de aula e ateliês, os ambientes nos davam ares de laboratórios, onde a experiência e a investigação, os processos e as aprendizagens, são transparentes.

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Como gabinetes de curiosidade, objetos, comentários, reflexões, sistematizações, mapas  conceituais, fotografias, materiais e muitos trabalhos de arte  invadiam os ambientes dentro e fora das salas de  aula da Blue School.

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A cena está mais para gabinete de curiosidades e museu de tudo do que para museus especializados e separados por disciplinas e áreas. Está mais para museu-laboratório do que para museu-vitrine. E, novamente, vale frisar, assim como nas redes, a multiplicidade e a polifonia estavam sempre presentes nos ambientes por onde passávamos e eles nos tornavam imersos nos processos.

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Pode-se concluir que os ambientes reais reproduzem a complexidade dos ambientes virtuais, no entanto, o fazem em sua concretude, pois materializam os conteúdos presentes na vida de nossas crianças e jovens, que desde muito cedo estão em contato com os ambientes virtuais. O que ocorre é que os estudantes transitam com familiaridade na multiplicidade sem perigo de dispersões, estão habituados a perceber diversos estímulos simultâneos e abertos para experiências novas de contato e descobertas sensoriais que talvez, na contemporaneidade, só possam ser conhecidas no ambiente escolar.

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Na escola em que fomos visitar e conhecer mais de perto as propostas de Reggio Emília, materiais de todo tipo, desde os mais industrializados até os mais naturais são investigados pelos alunos em ambientes organizados pelos professores.  Os registros feitos pelas crianças durante o processo de produção são expostos nas paredes e  em murais.

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A visualidade dá visibilidade às transformações do mundo. Se as tecnologias digitais afetam as formas de perceber e compreender o mundo, isso implica em inventar novos modos de agir nele. Não se trata de substituir a argila por computadores. Vimos nos corredores que caixotes de madeira e carrinhos de tablets podem coexistir. O que mudou foi o modo de pensar, e cabe a nós, educadores, refletir sobre os diálogos possíveis. Como a tecnologia está (ou deveria estar) conciliada com a produção artesanal e o contato com as diferentes qualidades de matérias e materiais? Neste contexto, a arte apresenta-se como campo que potencializa entrelaces.

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Na Bank Street a arte invade todos os ambientes: salas de aula, corredores, biblioteca e ateliê. Durante as propostas os alunos trabalham autonomamente dentro da sala e pelos corredores. Os professores também, tanto os que estão ministrando as aulas quanto outro que estão realizando seus estudos e planejamentos, tornando transparente também o fazer docente.

O convite à metacognição e a comunicação dos processos e aprendizagens

19_6_2015

Por Daniela Munerato 

[…] Uma turma de segundo ano do Ensino Fundamental 1. As crianças estão em horário de intervalo. Observo cuidadosamente todos os planos da sala vazia que, certamente, terão muito a me dizer sobre os processos de aprendizagem. Paredes tomadas por diferentes produções: fotos, desenhos, mapas conceituais, pequenos post-its cheios de anotações sobre uma pesquisa. Parecem aproveitar cada cantinho do espaço para contar suas histórias.

A partir dessa breve observação, pretendo tecer algumas considerações sobre a comunicação dos processos de aprendizagem no cotidiano escolar, e o que está além delas, um dos aspectos refletidos durante a viagem pedagógica deste ano. Inicio mencionando histórias que contam o cotidiano de um grupo e do que vivem juntos. Uma comunicação coletiva que mostra, também, o aluno em suas participações individuais e que se tornam memórias importantes do percurso do grupo. Os registros podem ser variados e representam instrumentos que recuperam trajetórias concluídas ou em andamento. A partir deles, a construção de conhecimento continua intensa, pois a experiência vivida gera produções sobre as quais podemos observar, dialogar e refletir em favor das aprendizagens.

Observar num tempo que não seja somente o imediato, mas o que distanciado pensamos a respeito do que já vivemos. Além disso, olhar e olhar novamente, percebendo detalhes ou o que não pôde ser visto anteriormente. Dialogar, pois a interação é sempre fundamental para que haja o avanço, a possibilidade de colocar-se no lugar do outro, compreender diferentes pontos de vista, aprofundar-se. Nesse diálogo incluímos alunos da mesma idade ou não, e professores com intervenções importantes que “provoquem” o aluno e o façam pensar. Vale completar que tais ações estão inseridas no planejamento das atividades.

A comunicação acontece para fins diferenciados, e é fundamental, com o objetivo de compartilhar na instituição os acontecimentos entre alunos, salas, séries, funcionários da escola e pais. Na comunicação de um trabalho aparecem princípios importantes da escola que se fazem conhecer pela forma de organização dos saberes ali produzidos.

Neste contexto, o refletir nos remete ao aluno. O que, a partir da experiência, se aprende? Como ter consciência de como está aprendendo, de ferramentas que costuma usar, de desafios ainda a serem transpostos? Este é o conceito de metacognição, pensar sobre como se aprende e seu processo individual. O aluno pode identificar através das propostas das quais participa seus conhecimentos prévios, o que já tinha enquanto recurso cognitivo para conseguir realizar determinada tarefa. Também observa o outro perante suas aprendizagens, pelos comentários e pelas trocas que o fazem ressignificar saberes, com novas formas de pensar. Além disso, é uma boa oportunidade para identificar os desafios e fazer um plano para enfrentá-los.

Por fim, evidencia-se a importância de comunicar as aprendizagens como uma prática que ajuda o aluno a autoavaliar-se, num movimento no qual ele tenha protagonismo sobre a exposição de ideias, consiga participar de sua organização e recuperar o que aprende. E que nós, espectadores, possamos olhar os produtos expostos não somente como meros registros, mas que consigamos entender o que esses recursos representam no percurso de cada criança e do grupo. Fica o convite!

#35anosescoladavila

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Por Márcia R. F. Nielsen

Minha história de formação se encontra entrelaçada ao Centro de Formação da Escola da Vila. Em 1985 eu era estudante de Pedagogia e já buscava inovação no caminho entre o aprender e o ensinar. Passaram-se 30 anos, e depois de tanto tempo não me recordo ao certo se foi uma colega de trabalho, ou uma professora da PUC-SP, onde eu estudava, que me indicou meu primeiro curso na Escola da Vila.

A Escola da Vila era num local muito arborizado e silencioso. A escola era composta por casinhas e um grande parque entre as árvores e chão batido, que depois da chuva exalava um aroma de mato molhado e barro fresco. Meu primeiro curso foi na primavera de 1985, entre novembro e dezembro. O curso acontecia uma vez por semana à noite, em uma sala pequena, situada numa das casinhas em frente ao parque e à uma grande árvore que ainda se encontra lá. Éramos poucas pessoas, acho que umas oito, e entre elas a Sônia Barreira e a Zélia Cavalcanti.

Nas noites de curso, nós desvendávamos, em outro idioma, as descobertas recentes de Emília Ferrero, lendo numa cópia xerocada da Psicogênese, esta ainda em espanhol, pois não havia publicação disponível no Brasil. Uma das professoras que conhecia bem o idioma traduzia cada parágrafo que analisávamos, palavra a palavra.

Hoje, depois de 30 anos de formação com a Escola da Vila, posso dizer que cresci com o Centro de Formação e aprendo a cada curso que posso presenciar. Obrigada aos profissionais do Centro de Formação que fazem do meu dia-a-dia uma constante reflexão e estudo.


Se você também tem uma história com a Vila, mande para nós pelo email 35anos@vila.com.br

O design de jogos como estratégia de aprendizado, envolvimento e motivação

Por Sônia Barreira e Helena Mendonça

Na última viagem pedagógica a Nova York, uma das atividades programadas foi uma oficina organizada pelo Institute of Play sobre a metodologia de aprendizagem com base no design de jogos (game like learning), aplicada na escola pública, de ensino fundamental 2 e médio, que também tivemos a oportunidade de visitar, Quest2Learn.

Na oficina, pudemos vivenciar as etapas do processo de design de jogos na participação do grupo em alguns desafios propostos. Em um dos casos, tínhamos que modificar um jogo conhecido e observar como esta essa mudança  impactava o sistema de regras e o funcionamento do jogo como um todo. Para observar, era necessário planejar a mudança e testar:  jogar, avaliar se o objetivo foi atingido e se o desafio foi cumprido. Através da criação e da modificação de jogos, pudemos tomar contato com os princípios propostos pela aprendizagem com base no design de jogos, tais como:

• Todos são participantes.
• Aprender é como jogar.
• Tudo está conectado.
• Aprender acontece no fazer.
• Erros são reformulados nas repetições/novas tentativas.
• Feedback é imediato e contínuo.
• O desafio é constante.
Um dos objetivos da oficina era que, ao vivenciarmos o processo de design, pudéssemos pensar no desenho de sequências didáticas a partir dos princípios propostos. Além disso, pensar no professor como um designer da aprendizagem. Essa ideia não se aplica apenas aos jogos que porventura ele possa usar em uma proposta. As demais modalidades organizativas da prática pedagógica (projetos, sequências didáticas, situações de aprendizagem, trabalhos de campo, experimentações) devem ser igualmente desenhadas, antecipando um conjunto extenso de variáveis. O ponto interessante dessa abordagem é a ideia de transformar algumas propostas de ensino em missões a serem enfrentadas, com os desafios, as regras e as parcerias.

Dois dias depois, pudemos ver, na  escola, os princípios aplicados na prática. Na escola Quest2Learn, os objetivos de aprendizagem dos alunos se refletem nas missões recebidas por eles em cada atividade ou proposta dos professores. Essas missões  são divididas em etapas ou desafios intermediários, que implicam uma série de atividades para serem atingidas. Na escola, conhecemos, por exemplo, missões como “Onde o Sr. Pi foi parar?”, que propõe desafios das áreas de matemática e ciências sociais, ou ainda uma missão na qual “um médico é encolhido para entrar no corpo do paciente e descobrir uma doença secreta”. Dessa forma, as áreas de conhecimento são agrupadas em temas e não recebem o nome das disciplinas habituais. Alguns exemplos desses temas: ‘Mundo do Código’, ‘Como as coisas funcionam’ ou ‘Esportes para a mente’. Essas diferenças são apenas o que fica mais visível quando entramos e participamos das aulas. O mais interessante é pensar em como toda a dinâmica que experimentamos na oficina pode ser usada para ações que realmente tragam ganhos à aprendizagem dos alunos.

É importante ressaltar que a construção do conhecimento não é sempre instigante, motivadora e vibrante, como pode ser uma experiência com jogo, muitas vezes ela requer disciplina, repetição, empenho e principalmente persistência. O desafio é conseguir definir a modalidade organizativa da prática que melhor se adequa aos objetivos e conteúdos visados. Se for possível variar sempre, com consistência, sem modismo, saem ganhando os alunos.

A partir da oficina e da visita à escola, vale destacar ainda alguns pontos que pudemos observar a partir do trabalho realizado pelas Instituições. A importância dada à prática em equipe por parte dos professores em seu trabalho docente; a efetiva aplicação de uma abordagem que apresenta aspectos inovadores e que atende a formas de avaliação mais tradicionais; alunos participativos, envolvidos e curiosos e uso de tecnologias de forma integrada e significativa.

Para saber mais:

Made With Play: Game-Based Learning Resources

Uma comunidade de aprendizagem em Nova Iorque

Por Sônia Barreira

No mês de abril, estivemos durante dez dias em Nova Iorque com um grupo de 30 educadores vindos de diversos lugares do país, representando escolas muito diversas em tamanho, origem e projeto.

Da mesma maneira, nossa programação contemplou atividades com diferentes finalidades, o que fez da viagem uma experiência fecunda de aprendizagens variadas, algumas diretamente transferidas em forma de propostas para nossas escolas, outras de lenta digestão, assimiladas no plano de desenvolvimento pessoal, mas que certamente, mais cedo ou mais tarde, far-se-ão notar no contexto profissional.

O ponto alto das nossas viagens é sempre o entrosamento do grupo, as trocas e as amizades que surgem desta convivência intensa. Em nossas práticas, procuramos realizar atividades que permitam expandir os conhecimentos de todos para além das questões estritamente educacionais.

Para melhor contextualizar as visitas às escolas, por exemplo, solicitamos à Aline Evangelista, educadora que trabalhou na Escola da Vila por muitos anos e que vive atualmente em Washington, uma pequena palestra introdutória sobre o contexto educacional americano e as políticas governamentais dos últimos anos, o que nos ajudou muito para compreendermos melhor o que vimos a seguir. Com a mesma intenção, em uma grande roda de conversa, procuramos alinhavar as impressões pessoais, destacar as principais questões conceituais e indicar pontos de aprofundamento posteriores.

Porém, a novidade desta Viagem Pedagógica foi a chance que tivemos de ampliar nossa relação pessoal com a Arte.

A arte contemporânea, entre o estranhamento e a compreensão

Ao visitarmos dois grandes espaços que em sua coleção abrigam obras de artistas importantes para se compreender as transformações ocorridas na Arte, o grupo se viu diante de questões fundamentais que estão presentes também na prática pedagógica. Rupturas com o suporte tradicional na pintura, eliminação do pedestal tradicional na escultura, uso de materiais não convencionais na produção artística, sentir o corpo presente e o espaço ser incorporado na concepção da obra, foram alguns dos princípios abordados e presenciados ao longo das visitas que fizeram parte da viagem.

No MoMA, Museu de Arte Moderna, obras de Picasso, Braque, Matisse, Pollock, Brancusi, foram ponto de partida para as reflexões acerca das provocações que as vanguardas trouxeram para a produção artística, e consequentemente, seu impacto direto nas aulas de arte. Nesta atividade, o grupo foi presenteado com belas e competentes monitorias das nossas professoras de arte que compuseram a delegação da Escola da Vila, Karen Greif Amar, Zá Szpigel e Luisa Furman. Nossos agradecimentos ao trabalho sensível e consistente que realizaram, ajudando-nos a compreender melhor o que veríamos no dia seguinte.

No Dia: Beacon, museu de arte contemporânea, que apresenta uma coleção de obras de artistas como Louise Bourgeois, Walter de Maria, Sol LeWitt, Fred Sandback, Richard Serra, entre outros. A questão principal que permeou as conversas e ampliou as reflexões foi o estranhamento causado pelas propostas que a arte contemporânea nos traz, tanto em relação à arte quanto na prática pedagógica, quando insere questões como o espaço, o tempo, o cotidiano, a vida. Compreender de que forma esses aspectos foram modificando a produção em arte contextualiza e consequentemente provoca pensar a arte em algo vivo, que acompanha o tempo em que está inserida, reduzindo o estranhamento e ampliando as possibilidades de diálogo com o mundo.

Nas próximas semanas, trataremos de publicar outras reflexões provocadas pela viagem, tais como:

– A tecnologia aliada às atividades manuais e a experimentação de materiais diversos;

– Os jogos como estratégias de aprendizado envolvimento e motivação;

– As construções, propostas de engenho e reflexão sobre o espaço;

– O convite à metacognição e à comunicação dos processos e aprendizagens.

Avaliar para ensinar a aprender

30_03_2015

A professora Alicia Camilloni em palestra de abertura do programa ZDP 2015.

Por Zélia Cavalcanti

No início deste mês, mais precisamente no texto Ano a ano… de grão em grão, eu dizia que em 2015, entre outras coisas, voltaríamos a discutir Avaliação com as escolas associadas ao Programa ZDP.

Agora, iniciada essa programação, retorno ao tema para dizer que essa escolha − derivada da percepção de que havia nas escolas parceiras, assim como na Escola da Vila, a necessidade de retomar e aprofundar a reflexão sobre esse tema central aos processos de ensino aprendizagem −, se mostrou bastante adequada.

O número expressivo de educadores inscritos para as jornadas ZDP 2015 evidencia que eles sabem das transformações ocorridas na gestão dos conteúdos, no tempo e nos espaços de aprendizagem escolar nas últimas décadas. Incluem, necessariamente, um olhar mais cuidadoso e reflexivo sobre os procedimentos e instrumentos que vêm utilizando para analisar, qualificar e comunicar os processos de construção de conhecimento vividos pelos alunos, para eles e suas famílias.

Por isso, nos organizamos para incluir na programação do ano autores reconhecidos no mundo acadêmico por suas inestimáveis contribuições à construção de boas respostas para essa inquietação pedagógica.

A professora Alicia Camilloni – professora titular emérita da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires − atendeu ao nosso chamado e aceitou vir a São Paulo, em duas datas, para palestras na comunidade ZDP e para encontros com a equipe da Escola da Vila.

Foi ela que, na palestra do dia 14 de março, primeiro enriqueceu nossa reflexão ao “nos avisar” de que a avaliação influencia mais a aprendizagem do que o próprio ensino, pois a forma como se é avaliado determina a forma como se estuda, o tempo dedicado ao estudo e o compromisso que assumimos com essa atividade.

Em função desse ponto de vista, a professora Alicia considera fundamental que ensino e avaliação aconteçam como tarefas realizadas em conjunto, com o objetivo de melhorar a aprendizagem e qualificar o aprendido. Segunda ela, quando essa integração acontece, a avaliação deixa de ser vivida pelo aluno como instrumento de qualificação e comparação, separada do processo de ensino, e abre caminhos para que possa ser percebida como um conjunto de procedimentos que lhe oferece suporte e lhe permite ampliar sua capacidade de aprender, ao mesmo tempo em que aprende sobre suas formas pessoais de construir conhecimento.

Assim, com essas ideias, afinadas com o que vimos aprendendo da leitura dos escritos de Charles Hadji − ele também convidado para uma das jornadas do ano −, as equipes das 38 escolas participantes do ZDP 2015 iniciaram a revisão das bases teóricas e metodológicas utilizadas até então, o que permitirá uma análise das propostas e instrumentos de avaliação que têm utilizado.

Temos a certeza de que, com a continuidade das discussões em São Paulo e no Ambiente Virtual de Aprendizagem, durante as três jornadas que ainda ocorrerão este ano, os 150 profissionais inscritos (63 nas jornadas presenciais e 87 nas jornadas online) construirão boas condições para contribuir com o desenho de um conjunto de propostas de Avaliação que atualize, para esse conteúdo pedagógico, o projeto de suas escolas.

Ano a ano… de grão em grão

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Por Zélia Cavalcanti

A cada início de ano, recebemos notícias, muitas derivadas de avaliações públicas, sobre a precariedade da educação escolar oferecida à grande maioria de crianças e jovens brasileiros: currículos antiquados, professores mal formados e desatualizados, gestão do espaço e do tempo escolares nos moldes da primeira metade do século XX.

Se há algumas décadas reclamava-se de que a norma eram professores mal formados para ensinar os conteúdos curriculares fundamentais para a educação básica, hoje a isso se soma a incapacidade para administrar situações de ensino adequadas aos parâmetros de aprendizagem contemporâneos. Isso porque, nos dias atuais, é impossível pensar em qualidade escolar sem que haja a integração das formas de aprender decorrentes da revolução digital, e, principalmente, de situações de ensino estruturadas a partir do reconhecimento do valor das interações e do papel da diversidade interna a cada grupo-classe, para a qualidade do trabalho realizado com os alunos. Sem saber ser professor de acordo com essas exigências, um profissional se torna, sem exageros, incapaz de formar pessoas para viverem e trabalharem nas décadas que se aproximam.

O fosso entre as exigências de formação para os cidadãos do séc. XXI e as situações de ensino-aprendizagem levadas a cabo pelos professores atualmente em classe tenderá a se aprofundar muito enquanto o foco das políticas públicas nacionais não recair sobre um programa permanente de formação e atualização desses profissionais; ou seja, um projeto nacional que se mantenha, tenha continuidade, a despeito do partido político que esteja no poder.

Dados os limites que a realidade tem imposto a essa necessidade, nós, do Centro de Formação da Escola da Vila, temos, ano após ano, buscado atualizar a oferta de ações de formação do professor, de forma a atender aos diferentes aspectos que a atividade docente necessita integrar.

Nesse movimento, agora, em 2015, além de voltar a discutir Avaliação, um tema cada vez mais atual no Programa ZDP, e oferecer os cursos de curta, média e longa duração nas modalidades presencial, semipresencial e online já desenvolvidos anualmente em torno de diversos conteúdos, estamos propondo a retomada de temas centrais do construtivismo escolar, em ações presenciais dirigidas preferencialmente ao professor especialista de Ensino Fundamental 2 e Médio (nossos e de outras instituições), que necessitem conhecer ou ampliar o conhecimento sobre aspectos teóricos e metodológicos dessa concepção de ensino e aprendizagem. Concepção que, de nosso ponto de vista, oferece instrumentos fundamentais para o trabalho que os professores necessitam realizar frente às demandas sociais atuais.

Felizmente, não temos estado sozinhos nessa “batalha”. Junto conosco, outros educadores e instituições vêm, de diferentes formas, trabalhando para que as escolas brasileiras possam ter, cada vez mais, melhores professores. Esperamos que o ano recém iniciado seja frutífero nesse sentido.

Fim do último ato

12_12_2015

Por Andrea Luize e Zélia Cavalcanti 

No início da próxima semana chegarão às nossas mãos as monografias com as quais as alunas das últimas turmas de Pós-Graduação lato sensu, do Centro de Formação, encerram seus percursos de especialização.

Idealizados, planejados, e credenciados por quatro anos pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), os cursos de especialização em Alfabetização e especialização em Educação Infantil receberam 18 turmas, entre 2010 e 2014, distribuídas nos períodos noturno (às segundas e quartas-feiras), e diurno (aos sábados).

A especialização em Alfabetização foi a que recebeu maior número de matrículas: 70% do total. Foi também a que teve maior índice de finalizações, com 75%, enquanto em Educação Infantil foram 54%. Isso porque, do total de alunos, alguns, mesmo finalizando o conjunto de disciplinas curriculares, não chegaram a entregar o trabalho final, e outros, por diferentes motivos, precisaram abandonar o curso. Nesse sentido, mesmo  que cada desistência, trancamento de matrícula ou incompletude do trabalho final  tenha causado sentimentos de frustração nas equipes docente e administrativa, envolvidas com os cursos, o fato de a maioria ter finalizado o processo de especialização com o depósito de uma monografia e de vários desses trabalhos se mostrarem com qualidade, não só para aprovação com boas notas, mas também para servirem de base para futuras publicações ou projetos de mestrado, produziu em todos uma sensação de dever cumprido.

Por isso, nesse momento de finalização dessa proposta em que estivemos envolvidos nos últimos seis anos, não podemos deixar de agradecer a todos os que dela participaram: docentes que assumiram as aulas das disciplinas curriculares, leitores avaliadores de monografias, professores convidados para palestras sobre conteúdos complementares, funcionários de secretaria e atendimento, setores de editoração, manutenção, portaria e segurança. Todos eles, em suas respectivas tarefas, deram sua inestimável contribuição a esse projeto que agora se encerra, dada a impossibilidade de responder às exigências atuais do CNE que, a partir de 2011, passou a limitar o credenciamento de cursos de pós-graduação lato sensu a instituições que também oferecem graduação.

Nosso agradecimento carinhoso, também, a todos os alunos que ingressaram nesses cursos, tendo ou não concluído suas especializações, pois sem eles esse projeto não ganharia vida.

E, parabéns, a todos os Especialistas em Alfabetização ou Especialistas em Educação Infantil, formados ao longo desses quatro anos, para os quais esperamos ter contribuído com seus percursos profissionais.

Arte para os pequeninos do Espaço da Vila

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Por Ana Paula Yazbek, Angélica Dienni e Heloísa Trigo

A arte para as crianças pequenas é ação. Nesse sentido, aproxima-se muito de outra linguagem própria da infância: o brincar. Por isso, quando pensamos em atividades com arte para bebês e crianças pequenas, entre zero e três anos de idade, com as quais trabalhamos, sabemos que ações tais como explorar, conhecer, tocar, sentir, cheirar, experimentar e até mesmo morder devem ser consideradas no momento do planejamento das propostas. Desta forma, o  educador é levado a organizar situações dessa natureza. Criamos boas condições para que  as crianças se aproximem dos diversos elementos que, culturalmente, são meios, suporte e materiais e, assim, possam descobrir tantas outras possibilidades para a expressão da linguagem artística. Promovendo brincadeiras com o próprio corpo, o espaço, o tempo, por meio da exploração a que esse espaço convida, propiciamos a descoberta de novas ações com o corpo.

O produto final não é o objetivo principal, já que nessa faixa etária o percurso, as sensações, as vivências que acontecem em cada espaço e tempo são primordiais. No entanto, acompanhamos ao longo do crescimento das crianças ações cada vez mais intencionais em produzir marcas, nos desenhos, nas pinturas, nas colagens, nas modelagens por meio de movimentos mais refinados e habilidosos.

Sempre envolvidas com a reflexão de como colaborar para que as experiências das crianças sejam ricas em significado, e permitam apropriarem-se de seus movimentos, explorar, descobrir novas formas de linguagem, de comunicar-se, de conhecer-se, buscamos atualização constante.

As experiências de vivenciar exercícios e de poder estar em contato com diferentes produções de artistas, que ocorreram nos encontros do ZDP 2014, coordenados pelas professoras Karen e Zá, favoreceram um diálogo com os referenciais teóricos que permeiam nosso trabalho como educadoras, propiciaram vivências práticas muito enriquecedoras e contribuíram para a criação de novas propostas na construção de um olhar mais apurado para as ações das crianças.

Poder experimentar, sentir, produzir, pensar, se sujar, ocupar diferentes espaços e, ao mesmo tempo, conhecer artistas, buscar novos olhares para as obras apresentadas foram fundamentais para o incentivo à pesquisa de novas maneiras de se pensar e fazer arte com as crianças.

No último encontro do ano, por exemplo, tivemos uma experiência na qual pudemos vivenciar sensações de descoberta e nos aproximar das linguagens artísticas, redescobrindo nossos próprios movimentos.

A partir de um exercício chamado “O Polvo”, cada participante pôde aproximar-se do próprio corpo e do corpo do outro, e muitos sentidos foram estimulados a interagir, a conectar-se. Por meio do tempo e do espaço, fomos convidadas a construir um novo corpo coletivo, além da experiência individual de construção.

Essa proposta inspirou vivências aqui no Espaço da Vila. Marcinha, educadora da turma dos bebês entre quatro meses e um ano de idade, por exemplo, transformou uma de nossas salas em um universo de luz e sombra, com a projeção da textura de um tecido sobre o retroprojetor. Nesse espaço, os bebês, cada um com sua forma de locomover-se, em seu momento particular de descoberta do próprio corpo, teve os sentidos aguçados a entrar em ação e, o que vimos, foram olhares encantados, gestos de exploração, interação e criação de linguagem… O brincar, o movimento e a arte como linguagem de todos e de cada um, naquele espaço e tempo, que não se repetirão, mas que alimentarão muitos outros espaços e tempos.

Depois das jornadas formativas que vivenciamos, os elementos que aqui no Espaço da Vila sempre estiveram presentes − galhos, folhas, sementes e flores que caem das árvores do parque − começaram a ganhar, nas mãos das crianças, outros significados, formas e aparências, construções efêmeras e muito criativas!

Nas propostas de desenho, um ambiente mais silencioso e menos diretivo está presente. Com isso, podemos ver os olhares atentos das crianças aos seus gestos e às suas impressões nos diferentes suportes. Nesse momento também é possível sermos cúmplices de algumas brincadeiras, entre elas, das conversas sobre suas ações e as escolhas dos materiais. E isso é algo incrivelmente rico.

Enfim, com esse curso ganhamos maior repertório para valorizar ações genuínas das crianças pequenas em arte tais como: balançar, rasgar, amassar, aglutinar, trocar, colocar na boca, observar, tentar fazer igual, fazer barulhinhos… E, quando vemos que mãozinhas tão pequenas estão ligadas ao movimento do corpo e conectadas aos olhares atentos e que desta conexão surgem as transformações dos materiais e outra maneira de expressão, acreditamos ainda mais na arte como elemento fundamental na educação.

E, por tudo isso, agradecemos muito às professoras Karen e Zá.