Ajudando o Chico!

Em nosso blog hoje, compartilhamos a iniciativa da Madu, ex-aluna da Vila e irmã do Pedro, nosso aluno do Fundamental 2. Ações como essa merecem destaque, pois envolvem a comunidade da escola para além de seus muros em apoio a quem precisa.

Muitas iniciativas solidárias estão surgindo, e essa certamente trará inspiração para outras, em prol da criação de redes de ajuda a quem mais precisa.

Ajudando o Chico!

por Maria Eduarda Lavigne

Estamos passando por um período pelo qual muitos de nós nunca imaginamos passar, um período quando a vida pessoal e a vida em sociedade estão sendo afetadas. Com a epidemia do Corona Vírus (Covid-19), foi recomendado que nós não saíssemos de nossas casas. Os alunos e alunas estudam em casa e muitas pessoas trabalham online também. Há alguns dias, eu vinha pensando nisso e me sentia sensibilizada, por vezes, triste por causa das pessoas que não podem trabalhar de casa e ficar sem o dinheiro do mês, pois passam por muita dificuldade financeira.

Navegando pelo Instagram, vi que o Grêmio Estudantil do Colégio Andrews, minha antiga escola no Rio de Janeiro, tinha aberto uma vaquinha para o pipoqueiro e o vendedor de churros que trabalham na porta da escola. Olhando para a iniciativa deles, me lembrei do Chico.

Como ex-aluna da Escola da Vila, posso contar que Francisco Pamplona, conhecido como Chico, que vende pipoca e doces na frente da escola, sempre foi muito carinhoso com os alunos, sempre muito alegre em trabalhar conosco. Se todos nós nos encontramos em um momento delicado agora, imaginem o Chico, que está sem poder trabalhar.

Compartilhei com minha família minha preocupação e minha mãe me falou sobre um site chamado “Vakinha”, onde se pode arrecadar dinheiro para uma pessoa ou uma causa. Decidimos ligar para o Chico e perguntar o que ele achava dessa ideia. Me emocionou muito a alegria que ele ficou ao contarmos a ideia, a gratidão que ele demonstrou para nós.

Após criarmos uma corrente no WhatsApp, eu e minha família ficamos impressionados com o resultado! Em menos de três dias, já foram arrecadados quase cinco mil reais. É extraordinária a força que as pessoas têm juntas, e é por isso que sinto que precisamos nos unir mais vezes. E a gratidão e a felicidade do Chico não têm valor!

Peço, então, a vocês, que se inspirem na história do Chico e levem isso para suas vidas. Eu agradeço a todos que estão participando e divulgando e agradeço principalmente ao Chico, por ser essa pessoa tão inspiradora e que tem tanto amor pelo que faz.

Manual de convivência na selva do Lar

André Trindade, autor, psicoterapeuta e educador que já veio a Vila muitas e muitas vezes conversar com professores, alunos, alunas e famílias,  gentilmente autorizou a divulgação em nosso blog de um texto muito oportuno sobre o convívio mandatório que estamos vivendo em nossas casas nesse período.

Esperamos que aproveitem a leitura.

Manual de convivência na selva do Lar

Dicas para o convívio entre adultos, bebês, crianças e adolescentes em tempos de reclusão

Por André Trindade 1

A situação de confinamento que estamos vivendo exige inúmeras adaptações e esforços. Proponho aqui alguns caminhos e reflexões.

A organização do tempo

A questão da utilização do tempo atinge todas as famílias. O tempo da escola (pública ou privada) é um tempo cronológico, organizado sequencialmente em rotinas que se repetem. O tempo de casa tende a ser um tempo subjetivo (por mais que os adultos se esforcem para torná-lo objetivo), principalmente quando expandido dessa forma que estamos vivendo. Isso tem um grande impacto na organização psíquica, tanto em nós quanto neles. 

Sugiro que se crie uma tabela de horários em uma cartolina afixada numa parede, ou num quadro negro, à vista de todos. Não adianta escrever em uma caderneta perdida dentro da gaveta. É preciso que todos possam vê-la o tempo todo, pois facilmente nos esquecemos de novos hábitos e regras. A casa deve se transformar em uma espécie de acampamento com a participação de todos.

As refeições

É importante estabelecer os horários das refeições; que se faça ao menos uma refeição em família, que pode ser o jantar, por exemplo. Comer cada um em um momento não é indicado. Comer no quarto ou em frente a uma tela também é contraindicado.

Comer em frente a uma tela é prejudicial à saúde física (mastigação, deglutição, digestão e absorção dos alimentos) e à saúde mental (desfrutar e perceber os sabores, comunicar-se com as pessoas, trocar ideias, olhares, estabelecer cumplicidade em relação ao momento vivido). Essa já é uma regra para a vida normal e ganha ênfase nos tempos de restrição. 

Trabalhos domésticos

Varrer a casa, o quintal, regar plantas, colocar comida para o cachorro, colocar e tirar a mesa, aprender a lavar a louça sem quebrar os pratos (algum há de ser quebrado), arrumar o quarto, preparar um lanche.

A ideia de cooperação é fundamental!

É importante que todos participem (crianças, adultos e adolescentes).

Largar o celular

É preciso que os adultos larguem seus celulares para se comunicarem e interagirem com os filhos. Que silenciem os grupos de WhatsApp. 

É preciso também que crianças e adolescentes desgrudem os olhos das telas. A atitude exemplar do adulto é fundamental. Não funciona a regra: “faça o que eu digo e não faça o que eu faço”. A tabela fixada na parede vai ajudar nos momentos de “desligar-se” dos eletrônicos.

Sobre a arrumação das gavetas

O tempo livre (preso) pode ser um tempo importante para os filhos fazerem uma “limpa” em tudo aquilo que não serve mais: brinquedos, roupas, tralhas em geral. 

– Vai arrumar sua gaveta que eu quero ver depois como ficou, diz o adulto.

Isso não funciona.

Eles vão precisar de ajuda para selecionar os objetos e esse pode se tornar um momento precioso, se encarado simbolicamente como um ritual de transformação, de deixar o que é “velho” para trás e abrir espaço para ser preenchido pelo “novo”.

Nessa seleção deve-se respeitar aquilo que faz sentido para eles e não necessariamente a lógica prática do adulto. Uma criança pode querer guardar uma boneca velha, um coelho de pelúcia que já perdeu as orelhas e o adolescente talvez queira guardar um tênis apertado ou uma blusa em frangalhos. Há uma negociação importante entre a praticidade dos espaços nos armários e prateleiras e os objetos afetivos.

Tempo de presença

Também não adianta esperar das crianças que elas cumpram as propostas sem a ajuda dos adultos:

– Vai se acalmar e volte aqui quando você já estiver equilibrado!

Não funciona.

           – Não tem nada para fazer, diz o filho.

– Vai inventar uma brincadeira e quando acabar conversamos, responde o adulto.

Não funciona. 

A criança e mesmo o adolescente vão precisar da participação inicial do adulto para muitas iniciativas, desde escolher um assunto interessante no YouTube, iniciar uma brincadeira criativa, largar o computador ou se tranquilizar.

Não podemos esquecer que a maioria dessas crianças estavam “terceirizadas” em rotinas nas escolas, nas creches e por agendas completamente preenchidas de atividades extras. Elas não foram preparadas para se autogerirem e para funcionarem sem um constante estímulo externo. 

Será preciso que ganhem autonomia, mas isso não se faz de um dia para o outro.

O tempo dos adultos

Os adultos também precisam de tempos próprios para suas atividades de trabalho, para organizarem-se diante de seus temores, angústias, ansiedades e inseguranças, para os cuidados consigo mesmos e até mesmo para o entretenimento. Sugiro que os “tempos dos adultos” estejam igualmente indicados  na tabela e que os filhos aprendam a não convocar os pais nesses momentos a não ser em casos de urgência.

Muitos adultos manterão suas atividades profissionais desde casa. A criança precisa entender isso.

Mães e pais não são pedagogos de seus filhos e nem devem lhes entreter o tempo todo. Estar com uma criança não significa estar em função dela todo o tempo. Isso pode ser exaustivo e estressar ainda mais a situação.

Brincar eletrônico

O tempo dispendido com os eletrônicos terá que ser submetido a novas regras.  

Há famílias que precisarão flexibilizar o tempo de uso dos eletrônicos. Crianças e adolescentes vão querer jogar mais e se comunicar mais com os amigos virtualmente, e esse se tornou um recurso fundamental nesse momento.  

Porém, para todas as famílias, será fundamental restringir os excessos de uso estabelecendo limites claros. A Organização Mundial de Saúde indica que crianças com menos de dois anos devem ficar longe das telas. Para crianças maiores e adolescentes, o uso dos eletrônicos seria de duas a três horas por dia, incluindo vídeos, filmes, jogos e comunicação nas redes sociais. 

Não podemos esquecer que as atividades pedagógicas ocorrerão virtualmente para muitos alunos. Esse tempo em frente às telas será então ainda mais expandido. 

As redes oferecem uma infinidade de assuntos interessantes a respeito de música, esportes, aventuras; há tutorias diversas, visitas virtuais aos quatro cantos do mundo, séries, etc.

Nas redes há igualmente temas sombrios e perigosos. Essa será uma boa oportunidade de assistir junto com os filhos aos vídeos que tanto os atraem e discutir com eles os diversos conteúdos.

Brincar livre

Brincar livre, longe das telas deve ocupar cerca de duas horas do dia das crianças, divididas entre manhã (1 hora) e tarde (1 hora).

Uma mãe me contou que seu primeiro impulso diante da restrição de circulação foi o de correr para a livraria e para a papelaria para munir seus filhos de atividades manuais e leituras. Correu também até a loja de brinquedos escolhendo alguns itens novos que pudessem entretê-los. Disse-me que sua casa estava bem suprida de alimentos e remédios. 

Mas o que é o brincar livre?

Desenhar, pintar, recortar, colar, montar álbuns de fotos (quem ainda tem fotos impressas?), produzir massinhas (farinha e agua, papel machê), modelar, construir coisas a partir de sucatas, escrever histórias em quadrinhos, montar peças de teatro.

Brincar de faz de conta, com bonecos, com bonecas, fantasiar-se, construir cabanas, reinos e castelos com almofadas, construir bonecos com meias velhas, com palitos de sorvete. Fazer dobraduras com papel. Construir bijuterias com missangas. Aprender a fazer tricô, bordar. Redescobrir velhos jogos e brinquedos e “re-brincar”.

Jogar cartas (uno, baralho), jogos de tabuleiro, xadrez, damas, jogo da velha, forca, stop.

Aprender a cozinhar (com ajuda do adulto).

Adaptações no espaço da casa

É importante que alguns espaços da casa estejam preparados para essa situação emergencial. Se não há um espaço próprio de brincadeiras, proponho que os enfeites delicados, vasos e outros objetos de decoração sejam retirados da sala e guardados em locais seguros até que a vida volte ao normal.

As crianças terão que se adaptar a brincar corporalmente nos espaços internos dos apartamentos (muitas vezes “apertamento”). Uma dica é substituir a bola de futebol ou a de tênis por bexigas infladas com ar ou por bolas muito leves de isopor ou espuma. 

Sorte daquelas crianças que têm um quintal ou um jardim privado em suas casas. Sorte das crianças que têm uma casa para morar.

Possivelmente as áreas de lazer dos edifícios serão fechadas assim como os parques e os clubes e as praias vem sendo. Brinquedos públicos, nem pensar!

Com toda essa restrição, vai haver energia física acumulada e as atividades terão que ser adaptadas. Vale aí o futebol no corredor, o frescobol na lavanderia, o basquete de bolas de papel no lixinho.

Dançar, ouvir música, dançar.

Pular corda, brincar de esconde-esconde, apostar corrida no corredor dos quartos… isso tudo em tempo determinado da tabela, em coordenação com o tempo de todos, para que as atividades agitadas não interfiram nas atividades que exigem concentração.

O tempo da leitura

O tempo da leitura pode estar incluído no brincar livre, pois a leitura deve ter um caráter lúdico. Os temas devem ser escolhidos (com a ajuda do adulto) por cada um. Histórias em quadrinho e livros novos podem ser lidos assim como os velhos, relidos. 

É interessante separar um tempo próprio para a leitura. Fica difícil manter a concentração na leitura enquanto o irmão joga bola freneticamente no corredor.

Convivência entre irmãos e com os amigos

A competição, as rivalidades, as brigas têm fortes chances de serem acirradas pelo tempo de confinamento conjunto. Há também a possibilidade da convivência harmônica, mas essa dependerá da delimitação do espaço e do tempo de cada um.

Normalmente acontece uma disputa pelo melhor televisor, pelo computador ou por algum brinquedo comum a todos. Há um pensamento por parte de muitas famílias de que os filhos precisam aprender a “dividir” as posses e que as escolhas sejam feitas por meio de votações ou por outro tipo de sorteio, nos quais, frequentemente, alguns se sentem injustiçados e ninguém fica de fato feliz.

Acho bom determinar um momento para cada filho: 

Das 16h às 16h45, TV da sala para Maria.

Das 16h45 às 17h30, TV da sala para José.

Das 17h30 às 18h15, TV da sala para Pedro.

A partir das 18h15, dos adultos.

Alternam-se os dias da semana e os horários, mas as escolhas serão sempre determinadas na tabela.

Sobre os amigos, por um bom tempo terão que estar separados do contato presencial. Embora muitas famílias ainda estejam recebendo os amiguinhos dos filhos em casa, essa não é a recomendação.

O tempo do adolescente

Se a adolescência representa o desejo de questionar os padrões familiares estabelecidos, de ir em busca de grupos de semelhantes, de ganhar algum tipo de autonomia em relação aos adultos, voltar para o confinamento na casa, longe dos amigos, pode ser muito mais difícil para eles do que para os menores.

Os enfrentamentos e o oposicionismo devem aumentar nesse período, e o que eu sugiro é que os pais possam ouvir suas opiniões mesmo que pareçam sem sentido ou desproporcionais. Que os convoquem para as conversas dos adultos, discussões dos temas atuais, como as preocupações em relação à economia, à saúde de todos e em especial à dos mais velhos, à solidariedade, à coletividade, enfim, inclui-los nas discussões como “gente grande”.

Os adolescentes devem ser incluídos na tabela de distribuição de tarefas e horários, senão correm o risco de trocar o dia pele noite e passar o dia de pijamas, e isso não é bom para ninguém. É importante também respeitar os tempos em que ficam fechados em seus quartos, isolados do grupo e negociar com eles os períodos de convivência necessários.

O tempo da escola

Há uma grande expectativa para saber como será a escola a distância. Tudo é muito novo para as crianças e para os professores. Além disso cada escola está construindo uma pedagogia própria. Temos que acompanhar o andamento dessas propostas. As crianças têm uma grande capacidade de adaptação e intimidade com as tecnologias da informação. Temo mais pelos professores. 

Sabemos que as escolas públicas não contam com recursos para a educação a distância e provavelmente o período de reclusão será convertido em recesso, sem atividades pedagógicas.

O medo

O medo irá se intensificar à medida em que as mortes forem ocorrendo. Por enquanto, observo a preocupação em relação aos avós e bisavós, mas a tensão pode aumentar, e muito. A TV ligada o dia inteiro com noticiários não ajuda. Conversar com as crianças sobre seus medos e preocupações pode ajudar. 

Jogo e higiene

Um cartaz com as medidas de higiene e precauções pode ser fabricado em conjunto com as crianças e ser fixado junto ao dos horários.

Contato físico é possível?

Para crianças e bebês, o colo, o carinho e o contato físico com o adulto cuidador propiciam trocas de afetos e constituem instrumentos eficazes para aplacar os medos e as angústias dos pequenos. Infelizmente teremos que tomar alguns cuidados nesse sentido.

Estudos recentes sobre a transmissão do coronavírus indicam que a forma mais importante de transmissão se dá diretamente através das mucosas. Quando falamos com alguém sem guardar a devida distância (dois metros e meio), há a chance de trocas de salivas pelo lançamento de gotículas entre uma pessoa e outra. Essa chance aumenta enormemente nos espirros e nas tosses. Essas secreções também podem ser transmitidas por meio de superfícies, porém dentro de casa tem-se maior controle sobre a higienização dos ambientes e dos objetos manipulados.

Por mais difícil que seja, os idosos devem estar isolados do contato com as crianças.

No convívio entre mães, pais e filhos, mesmo não apresentando sintomas e estando devidamente higienizados, não deveríamos falar pertinho um do outro e deveríamos evitar os beijos na face. Ler histórias na hora de dormir pode acontecer com o adulto sentado na ponta da cama, próximo aos pés da criança, e aí pode acontecer uma massagem relaxante nos pés.

Sobre os bebês que estão sendo amamentados por aleitamento materno, o Departamento Científico de Aleitamento Materno (DCAM) da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) se posicionou (13/3/2020) favorável à amamentação em mães portadoras do Covid-19, caso seja o desejo delas. Os principais artigos sobre o tema indicam que os benefícios da amamentação são superiores aos riscos de transmissão do novo vírus, assim como ocorre em diversas outras viroses.

Para todos aqueles com sintomas de gripe, o uso de máscaras é recomendado assim como todas as medidas preventivas acima citadas.

Com a velocidade das informações chegando a todo momento, as adaptações e as sugestões vão se transformando. Por enquanto tratamos daquilo que conseguimos enxergar hoje. Que todos fiquem bem! Cuidem-se! Abraço virtual,

André


E-mail: atrindade.tria@gmail.com

Site: www.andretrindade.net.br

1André Trindade é autor, psicoterapeuta e educador. Atua em consultório e oferece palestras e cursos para pais e educadores. Seu primeiro livro “Gestos de cuidado, gestos de amor” trata do desenvolvimento do bebê ao longo dos três primeiros anos de vida. “Mapas do corpo”, seu segundo livro publicado, segue a mesma linha de orientações e reflexões sobre a infância e a adolescência.

Atividades com as crianças em casa em tempos de coronavírus

Como é bom ter amigos virtuais! Nossa colega argentina Melina Furman nos brindou com esse artigo e gentilmente autorizou sua publicação em nosso blog. Em tempos de coronavírus, podemos experimentar muitas das dicas compartilhadas.  Boa leitura!

Atividades com as crianças em casa em tempos de coronavírus

Por Melina Furman, bióloga da Universidade de Buenos Aires e Dra. em Educação pela Universidade de Columbia, EUA

Artigo publicado no El Baikal em 16/3/2020.

Estamos em tempos de pandemia, que obrigam muitos de nós a ficar em casa porque as aulas estão suspensas, ou porque a família está em quarentena, ou porque decidimos nos “guardar” por alguns dias. É um momento de incerteza, em que a nossa vida cotidiana muda e temos que nos adaptar ao cenário de estarmos todos (inclusive crianças) em casa enquanto esperamos que a onda de contágio passe e, em breve, esperamos, as coisas voltem ao normal.

É aí que surge a pergunta que não quer calar: o que podemos fazer com as crianças em casa? Como aproveitar esse tempo para gerar oportunidades de aprender e compartilhar em família?

Uma ideia que pode nos ajudar a pensar em atividades para fazer com as crianças (especialmente quando não conseguimos pensar em mais nada!) é a das inteligências múltiplas. Nos anos 80, o psicólogo Howard Gardner introduziu um conceito que revolucionou a própria noção de “inteligência”. Ao analisar casos de “gênios” (pessoas com talentos muito exacerbados, como os prodígios musicais, matemáticos ou literários), estudar os efeitos de lesões cerebrais sobre certas capacidades específicas e comparar os registros de desenvolvimento cognitivo de populações em todo o mundo, ele postulou a existência de diferentes tipos de inteligência.

Pensando na educação das crianças, um dos aspectos mais importantes dessa teoria é a possibilidade de conceber a inteligência não como uma “coisa”, mas sim como um repertório, um leque de capacidades que vale a pena nutrir. Assim, Gardner identificou oito inteligências diferentes:

  • Lógico-matemática: é a capacidade de resolver cálculos, problemas abstratos e jogos de estratégia, analisar variáveis, raciocinar de maneira lógica e identificar padrões numéricos;
  • Linguística: implica a capacidade de estabelecer comunicação em diferentes formatos baseado na linguagem verbal: ler, escrever, debater e compreender o que o interlocutor está dizendo;
  • Musical: é a capacidade de interagir com instrumentos ou modos de produzir som em geral e de criar e interpretar música;
  • Cinético-corporal: refere-se à capacidade de usar o próprio corpo para resolver problemas (por exemplo, chutar uma bola em direção ao gol) ou para expressar sentimentos (por exemplo, dançar);
  • Espacial: é a capacidade de entender e pensar sobre o espaço por meio de imagens. Usamos essa inteligência quando nos orientamos ou interpretamos um mapa, quando visualizamos um objeto de diferentes ângulos e quando montamos quebra-cabeças;
  • Naturalista: empregamos esse tipo de inteligência quando observamos a natureza ou os elementos à nossa volta. Gardner especula que esse tipo de inteligência surgiu nos primórdios da humanidade, da necessidade dos caçadores-coletores de identificar padrões e mudanças no ambiente. Trata-se da capacidade de perceber as relações que existem entre várias espécies ou grupos de objetos e pessoas, por meio da identificação de padrões, semelhanças e diferenças, e da elaboração de classificações;
  • Intrapessoal: implica a capacidade de nos conhecermos de maneira profunda, de modo que nos compreendamos e orientemos nosso próprio comportamento. Uma pessoa com alta inteligência intrapessoal tem um modelo de si que lhe permite trabalhar com suas próprias emoções e interagir de maneira positiva com seu entorno. Essa inteligência se relaciona com a capacidade de planejar e alcançar metas relevantes, avaliar pontos fortes e limitações pessoais, controlar os impulsos ou persistir apesar das frustrações; e
  • Interpessoal: envolve a capacidade de ler as emoções dos demais e interagir com outras pessoas de modo produtivo. Está vinculada à habilidade de cooperar com outros, de “colocar-se no lugar do outro”, de interpretar os desejos e as necessidades dos demais e de liderar um grupo.

Muitos especialistas debatem com fervor sobre o número de inteligências diferentes que Gardner identificou. São realmente oito? Existem sobreposições entre elas? Não estamos nos esquecendo de outras inteligências importantes? Existe alguma inteligência mais ampla que se sobrepõe a várias das anteriores?

Quando se trata de encontrar o que fazer com as crianças em casa, e também no meu papel de educadora e de mãe, não faz muita diferença se são oito, onze ou quarenta e três. Neste caso, não estamos trabalhando com a ideia de inteligências sob o ponto de vista da ciência cognitiva. A maior qualidade do conceito de inteligências múltiplas é que ele traz à baila o valor de outros tipos de talentos extremamente relevantes para a vida que sempre foram considerados “menores” sob a perspectiva da tradição acadêmica pura.

A seguir, proponho algumas estratégias para trabalhar as diferentes inteligências em família (que, obviamente, variam de acordo com a idade das crianças), que estão no meu livro “Guía para criar hijos curiosos” (Siglo XXI Editores, ainda sem edição no Brasil). 

  • Lógico-matemática: jogar jogos de mesa que envolvam lógica ou cálculo mental, como dominó, escopa ou xadrez. Medir os objetos da casa de diferentes modos (pesar, medir o comprimento com diversos instrumentos). Resolver desafios matemáticos. Criar e depois decifrar um código secreto. Aprender a programar com plataformas como Scratch Junior ou Lightbot. Fazer cálculos mentais em situações do dia-a-dia (quando pensamos, por exemplo, no que temos e no que nos falta, ou em como repartir o que temos entre várias pessoas). Fazer experimentos para responder perguntas e analisar os resultados;
  • Linguística: inventar histórias curtas entre várias pessoas, como no jogo “cadáver esquisito”. Escrever cartas (ou emails!) para pessoas que vivem longe. Escutar ou ler contos e depois conversar sobre a história. Buscar novas informações na internet ou em livros sobre algo que apareceu na história para continuar explorando o tema. Criar e escrever as instruções de um jogo ou de uma brincadeira. Brincar com letras e palavras em jogos como Scrabble. Escrever uma música, um poema ou um rap sobre algum tema. Escrever as pistas de uma caça ao tesouro para outras pessoas acharem (por exemplo, as crianças escrevem as instruções para os adultos);
  • Musical: inventar músicas, cantar juntos, encontrar os instrumentos “escondidos” em uma música. Gravar-se com o celular cantando e depois escutar. Inventar formas de acompanhar uma música fazendo percussão com o corpo ou com outros objetos. Brincar com ritmos diferentes, tocar um instrumento, criar uma melodia para um poema, musicalizar uma história;
  • Cinético-corporal: dançar, criar coreografias, seguir sequências de movimentos com o corpo. Praticar a motricidade fina com brincadeiras como espetar objetos com palitos. Brincar de mímica;
  • Espacial: construir com blocos ou materiais reciclados. Usar massinha ou argila para esculpir objetos. Representar situações por meio de imagens ou esquemas. Fazer brincadeiras de orientação como “cabra-cega”. Conduzir alguém com os olhos vendados de uma ponta a outra da casa dando-lhe instruções de movimento. Desenhar e ler mapas que levem a um “tesouro” escondido em casa;
  • Naturalista: observar e cuidar de seres vivos (mascotes, plantas). Registrar como crescem ao longo do tempo e criar um diário para anotar os resultados. Coletar elementos da natureza (folhas, bichos, pedras) para desenhá-los ou classificá-los e montar um álbum ou uma coleção. Buscar padrões nos objetos (por exemplo: “o que todos esses insetos têm em comum?”);
  • Intrapessoal: escrever ideias e sentimentos em um diário. Fazer uma cápsula do tempo para as crianças guardarem objetos que são importantes para elas e cartas que elas escreverem para elas mesmas, para voltar a abrir em alguns anos. Tirar fotos de coisas que chamem a atenção e comentar depois. Criar um plano para aprender algo novo. Fazer uma lista das coisas que queremos fazer naquele dia (para aprender a organizar o tempo); e
  • Interpessoal: fazer brincadeiras que exijam colaborar com outros, como corridas de saco e construções em grupo. Conversar sobre como as coisas funcionaram em grupo e por que elas foram bem ou o que se poderia fazer para melhorar as que não saíram tão bem. Ensinar algo que sabemos a outra pessoa (por exemplo, gravando um tutorial em vídeo). Planejar um “acampamento” dentro de casa (por exemplo, armando uma tenda caseira com mantas e cadeiras) e fazer uma lista de coisas que todos queremos levar.

Espero que essa lista anterior os ajude a despertar ideias (e a identificar coisas que vocês já fazem)! Seguramente vocês descobrirão muitas outras atividades que valem a pena compartilhar com os filhos. Nesses anos de trabalho com pais sempre me surpreendo e me maravilho com a criatividade que todas as famílias têm.

Ficar em casa pode nos dar uma oportunidade impensada de nos conectarmos com nossos filhos: passar tempo juntos sem pressa, brincar por brincar e conversar por conversar. Não precisamos desenvolver ideias sofisticadas. Trata-se, nada mais, nada menos, de nos encontrarmos e desfrutarmos mutuamente da nossa companhia.

Cuidar de um para cuidar de todos

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Estamos em meio a uma situação que não víamos há anos, muitos de nossos alunos e alunas nem estavam na escola no ano de 2009, quando vivemos algo parecido com a chegada do vírus H1N1 no Brasil.

Surtos de doenças infectocontagiosas, como a COVID-19, geram especulações e é fácil sentir-se confuso com a onda de notícias e informações desencontradas, enfim, isso costuma trazer insegurança e pode gerar ansiedade. Famílias e equipes nas escolas devem ser cautelosas com as informações que fornecem para não assustar as crianças e jovens ou criar temores desnecessários.

Toda essa movimentação requer calma e a instauração de um clima de entendimento de que essa suspensão na vida da escola, por exemplo, é uma resposta coletiva para um surto que tem uma velocidade de propagação elevada.

É importante que as crianças escutem de nós que é esperado sentir-se com medo. E, nesses momentos, precisamos ocupar um espaço importantíssimo de escuta, acolhimento das dúvidas e receios, com a afirmação segura de que juntos passaremos por esse período.

Assim, para crianças e jovens é importante permitir que conheçam os fatos com explicações claras e francas. É oportuno destacar o papel da ciência nesse momento, ressaltar o quanto os médicos e cientistas estão trabalhando para que tudo seja resolvido e para que logo tenhamos uma vacina que proteja as pessoas.

Evidentemente, a idade das crianças faz muita diferença, e adaptar a fala é algo que precisa ser feito, com paciência para conversar e esclarecer muitas perguntas e assim, fazer com que sintam-se mais seguras e calmas.

No entanto, é nossa responsabilidade limitar a exposição e motivar as conversas em família. Dessa forma, crianças e jovens têm um espaço seguro e aberto para falar sobre notícias, esclarecendo dados e tirando dúvidas.

É muito importante eles ouvirem dos adultos de confiança que estão seguros ficando em suas casas por esse tempo e que é normal estarem preocupados com a situação, pois também nos sensibilizamos com quem não conhecemos. E isso se aprende vivendo esse momento.

Ver os adultos conversando sobre o tema, podendo fazer perguntas para entender por que a mãe está tão preocupada com seus avós, por exemplo, ajuda as crianças a entender seus próprios sentimentos e ensina o valor da empatia e solidariedade.

Como parte das medidas preventivas, é oportuno reforçar os cuidados pessoais, acompanhando e orientando as crianças e jovens a lavar as mãos depois de tossir, espirrar, antes e depois de comer e depois de usar o banheiro. Tratar da etiqueta respiratória, de espirrar nas curvas dos cotovelos e evitar tocar o rosto, posto que o vírus acessa o corpo pela boca, nariz e olhos.

Em relação aos jovens, recomendamos fortemente o podcast da psicóloga Lídia Aratangy, que pode ser ouvido aqui. Em linhas gerais a mensagem central é que se oportunize junto aos adolescentes a reflexão sobre a responsabilidade coletiva com o outro, que cuidar-se nesse momento é um ato de solidariedade para aqueles que compõem grupos de risco e aos que não dispõem do mesmo acesso ao sistema de saúde.

A mensagem vale para nós, leitores deste blog, o momento é de restrição pelo bem comum e assim, aprendemos juntos, coletivamente, que cuidar de cada um é cuidar de todos.

Nosso blog entra em férias!

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Prezados leitores e leitoras,

O Blog da Vila entra em férias, como nossas alunas e alunos, com nossa equipe e com os que aqui deixaram reflexões sobre os mais diversos temas pedagógicos e educacionais ao longo de 2019.

Voltaremos no próximo ano, com muitas novidades nos 40 anos da Escola da Vila!

Desejamos a todos e todas um merecido descanso e um ótimo 2020!

“…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”

Manoel de Barros

Ajude a Vila a ampliar sua diversidade

Por Sonia Barreira, direção geral

Em 7 de dezembro de 2018 apresentamos, neste blog, o Projeto Ampliar, iniciativa que tem como objetivo central a ampliação da diversidade social em nossa escola.

Em nossa análise, uma escola como a nossa, em que se realiza um trabalho pedagógico artesanal, pautado nas inter-relações pessoais e sempre atento à singularidade de cada aluno, o alto custo impossibilita a participação de jovens de famílias de baixa renda. Essa seleção indesejada é também responsável pelo pequeno número de estudantes afrodescendentes, indígenas ou migrantes. Nossa intenção, portanto, foi construir um mecanismo consistente e duradouro, promotor da ampliação das oportunidades escolares, para além de nossa comunidade atual, mais diversa e democrática.

O Projeto Ampliar teve sua primeira etapa ao longo de 2019, com a matrícula de dois jovens que passaram pelo processo seletivo, no qual se procurou identificar a capacidade de aderir a educação formal, a curiosidade e o interesse em estudar e investir em sua formação pessoal.

Este ano para nossa equipe, esta etapa inicial foi uma espécie de projeto piloto, que nos permitiu entender melhor as necessidades que uma integração desse tipo demanda. O financiamento desse projeto foi feito por doadores que entenderam estar oferecendo uma importante oportunidade para esses jovens, e vale destacar que, além do acesso ao curso do Ensino Médio, os jovens bolsistas receberam também: um computador para suas atividades escolares, as refeições na nossa cantina, o apoio de tutores ex-alunos que doaram seus tempos de trabalho para o projeto e toda atenção necessária de nossa equipe de profissionais.

O resultado positivo, de entrosamento e superação dos desafios acadêmicos por parte dos alunos bolsistas, nos encorajou a aumentar o número de vagas para o Projeto no próximo ano. Observamos que, com apoio e diálogo, os jovens desenvolveram novos procedimentos de estudo, estiveram atentos às atividades complementares e se envolveram bastante com as atividades extras que receberam no contraturno com os tutores ex-alunos.

Em 2020, além dos atuais alunos bolsistas que irão para o 2º ano do EM, abriremos mais seis vagas para o primeiro ano do Médio. Esse número pode até aumentar, pois o compromisso da Escola da Vila é aportar no projeto o mesmo valor financeiro que conseguir captar de doações.

No dia 19 de outubro, como resultado da parceria construída com escolas públicas da rede municipal de ensino da região por meio da  Diretoria Regional de Educação do Butantã  – DRE BTT, recebemos em nossa unidade Morumbi 53 alunos interessados em participar do processo seletivo, organizado desta vez pela própria equipe da Vila e com a participação intensa de ex-alunos tutores que desenvolveram as dinâmicas de integração e acolhimento. 

Foram muitos alunos que se dispuseram a perder o sábado em provas para obter uma chance de estudar aqui. Muitos vieram acompanhados por suas famílias.

Importante salientar que valorizamos imensamente as escolas públicas e desenvolvemos mecanismos para contribuir com a qualidade destas escolas sempre que possível. Um exemplo importante é o programa implantado no Centro de Formação de Educadores da Vila, onde elaboramos frequentemente editais para a concessão de bolsas integrais para professores das redes públicas de todo o país. No entanto, entendemos que nosso programa Ampliar se justifica como mais uma forma de contribuir com a formação de alunos críticos e engajados em função do diferencial do projeto pedagógico desenvolvido aqui em nossa escola.

Nosso projeto tem como característica máxima os valores de autonomia intelectual, que visa a formação de alunos que possam ler o mundo de forma crítica e com intuito de gerar mudança no sentido de maior justiça social. O segundo valor da Vila é o conhecimento, pois é ele o instrumento de poder que possibilita as mudanças sociais necessárias. E, por fim, o valor da cooperação como essencial para a educação que praticamos, que implica conceber a diversidade como fator inerente à transformação social.

Para que possamos levar adiante este programa e garantir o acesso anual de 6 a 10 novos alunos de baixa renda, queremos contar com a participação de nossa comunidade. Lançamos um site que coleta contribuições variadas, para todas as possibilidades financeiras. Pedimos apoio para itens como a compra de um livro, as refeições mensais e vamos até o valor da anuidade escolar. Para cada contribuição recebida, nossa instituição se compromete em doar o mesmo valor recebido.

O comitê de famílias, que se reúne sistematicamente com a direção, sugeriu também que, no próximo ano, os eventos e as atividades realizadas na escola possam incluir formas de arrecadação para essa importante iniciativa, e assim o faremos. Se você tiver uma boa ideia de como contribuir para essa arrecadação, não deixe de nos avisar.

Para doar itens do programa, acesse nosso site especialmente criado para isso. Se quiser patrocinar a anuidade escolar, ou indicar uma pessoa ou instituição para participar do patrocínio, escreva diretamente para wanilda@vila.com.br, que nossa embaixadora Wanilda Tieppo entrará em contato com você e irá até o possível patrocinador apresentar nosso projeto.

Ajude a Vila a ampliar sua diversidade, todos sairemos ganhando.

Porque literatura não rima com censura

Escola da Vila

Por Sandra Medrano*

O tema censura nos livros para as crianças tem feito parte de muitas discussões e reflexões nestes últimos tempos. Para abordar a relação literatura e censura, podemos recorrer a Antonio Candido, que escreveu em 1988 um texto que reforça o direito ao acesso a esse bem cultural:

Ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito. (…) A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como talvez não haja equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade.

Assim, se a literatura é um direito, relacioná-la à censura – como temos visto nos últimos tempos – parece indicar que estamos violando, de alguma maneira, esse direito.

Há muitas maneiras de abordar a questão da censura e tentar entender suas motivações. Uma delas é analisar pelo viés da relação entre concepção de criança e concepção de livros para crianças.

Ao analisarmos essas concepções, é possível verificar que elas mudaram ao longo do tempo. Se olharmos para a história, podemos fazer um breve percurso, partindo do século XVIII, quando surge o conceito de criança e de infância. Até esse período, as crianças eram consideradas adultos em miniatura e assim tratadas em todos os aspectos. É possível imaginar que antes desse período, os assuntos a que tinham acesso eram os mesmos que circulavam no mundo dos adultos.

Na outra ponta desse caminho, é possível reconhecer uma distinção total da criança do mundo adulto. Muitas vezes, considerada tão diferente como quando é indicado: “homens, mulheres e crianças” – como se fossem totalmente assexuadas durante esse período. Essas concepções de criança e de infância, impactam a literatura, que parte, portanto, de uma não distinção do seu leitor, adulto ou criança, para outra em que se considera a necessidade de resguardar e educar a criança.

Esta última a escritora argentina Graciela Montes chama de “curral da infância”, pois considera uma criança submetida e protegida, tida como um “cristal puro” e uma “rosa imaculada”, a quem o adulto deve proteger para que não se quebre e que floresça. Essa literatura, segundo a autora, não pode incluir a crueldade, nem a morte, nem a sensualidade, nem a vida real, porque se acredita pertencer ao mundo dos adultos e não ao “mundo infantil”. A realidade retratada nos livros é, assim, despojada de tudo que seja denso, matizado, dramático, contraditório, absurdo, doloroso: de tudo que pode brotar dúvidas e questionamentos.

Podemos acompanhar um exemplo dessa relação entre concepção de criança e literatura ao analisarmos as diferentes versões de Chapeuzinho Vermelho. Zohar Shavit, israelense especialista em literatura, apresenta um estudo em que analisa diferentes versões desse conto ao longo da história.

No século XVII, portanto antes da conceitualização da infância, Charles Perrault registrou esse conto, que não tinha como público específico as crianças. Nessa versão, o conto termina com o Lobo devorando a Chapeuzinho. Tem tom muitas vezes irônico e passagem erótica, como quando Chapeuzinho tira sua roupa e se deita na cama com o Lobo.

Já no século XIX, com os Irmãos Grimm e com o conceito de criança e infância já alterado, a literatura infantil ganha contornos educacionais, para ensinar a essa geração os valores e princípios que eram caros à sociedade da época. E na versão desses autores, é garantido um final feliz, em que a avó e Chapeuzinho Vermelho são salvas, e o Lobo é morto.

Nos dias atuais, temos algumas versões do mesmo conto, em que são alterados aspectos como o conteúdo da cesta que Chapeuzinho Vermelho leva para sua avó. O vinho é trocado por leite, frutas e pote de mel ou geleia, porque acredita-se que as crianças não podem ter contato com bebida alcóolica. Em alguns livros, o Lobo não devora a avó – pois a morte não deve ser assunto de criança, submetida ao “curral da infância”. Ele a coloca no armário e não é morto; sai correndo quando o caçador chega.

Essas diferentes versões mostram como a relação pode ser muito direta, entre a concepção de criança e o que se oferece para sua leitura, chegando a ser identificada como forma de censura, se consideramos, como aponta Graciela Montes, a censura como um mecanismo ideológico de revelação/ocultamento que serve para o adulto domesticar e submeter (ou colonizar) as crianças. Parece muito forte essa ideia, mas corrobora com ela a fala de um escritor peruano chamado Santiago Roncagliolo, que, em entrevista em 2016, disse:

Agora, quando escrevo livros para crianças, não me deixam colocar os maus! Nem bruxas, nem ogros, nem monstros… A culpa é do afã da sociedade por criar uma bolha para os filhos às custas de obrigar os escritores a criar literatura sonsa. E o que ocorre é que o mau desta literatura ‘sonsa’ não é a crítica que recebemos. O mau é que cria leitores sonsos, crianças sem nervos nem reflexos morais.

Infelizmente, essa restrição não é exclusividade do Peru. É também vivida aqui e em outros lugares do mundo. Nesse contexto de censura, restrição ou redução, um aspecto merece especial atenção no Brasil, pois se relaciona ao momento atual de uma importante política pública de ensino da leitura e da literatura na escola: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ** produzida pelo Ministério da Educação, com o objetivo de se tornar um documento orientador dos currículos estaduais e municipais, de redes públicas e privadas, definindo os direitos de aprendizagem dos alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental.

A BNCC teve sua primeira versão publicada em setembro de 2015, depois foi produzida uma segunda versão, divulgada em maio de 2016. A terceira versão, finalizada em abril de 2017, encontra-se no momento no Conselho Nacional de Educação, que deve apresentar seu parecer em dezembro deste ano. Essa versão traz aspectos que precisam ser analisados criticamente, pois impactam diretamente na formação leitora das crianças e no acesso ou nas restrições a que serão submetidas.

Especificamente em relação ao Ensino Fundamental I – 1o ao 5o ano – há uma indicação da separação do ensino da literatura no eixo que denominaram “educação literária”. Tal separação merece atenção, pois pode, ao contrário de garantir um espaço exclusivo e portanto positivo, remeter ao que já vivenciamos quando foi instituída a “Educação Artística” nas escolas, em que as Artes não era objeto de conhecimento. Merece atenção redobrada algumas passagens do documento, em que se afirma:

Nesse eixo [educação literária], e também no eixo Leitura, a escolha dos textos para leitura pelos alunos deve ser criteriosa, para não expô-los a mensagens impróprias ao seu entendimento, consoante determinam os Artigos 78 e 79 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei no 8.069/1990).

Essa indicação parece se preocupar e cuidar do que será oferecido às crianças, mas o trecho “mensagens impróprias para seu entendimento” chama a atenção. Tanto pela subjetividade a que pode remeter a palavra “imprópria” quanto pela definição do que será considerado possível de ser compreendido pela criança (a concepção de criança). Além disso, causa estranheza quando vamos aos conteúdos dos artigos citados:

Art. 78. As revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes deverão ser comercializadas em embalagem lacrada, com a advertência de seu conteúdo.

Parágrafo único. As editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca.

Art. 79. As revistas e publicações destinadas ao público infantojuvenil não poderão conter ilustrações, fotografias, legendas, crônicas ou anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e munições, e deverão respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Em tempos de censura como os que estamos vivendo, a forma de abordar esse tema parece ser bastante arriscado.

Considerando o direito à literatura, e a garantia de acesso e não a restrição, outros artigos poderiam dar sustentação para a formação dos jovens, como nos exemplos a seguir:

Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:

V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

Art. 58. No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura.

Ainda em relação ao ensino da leitura, outro aspecto abordado na BNCC preocupa, pois revela uma possível redução em relação aos textos que os estudantes terão acesso ao longo de sua escolaridade que pode impactar na apropriação das culturas do escrito, caso seja aprovada pelo Conselho Nacional de Educação. Para se ter uma visão da abordagem proposta, a tabela abaixo sintetiza os critérios indicados para seleção e oferta de textos aos alunos nos anos iniciais do ensino fundamental:

A definição de tamanho dos textos – que começam no 1o ano com 200 palavras até chegar ao 5 o ano com 600 palavras – e o nível de textualidade que indicam ser adequados ao longo da escolaridade parecem apontar para material produzido especificamente para fins educativos, e não para que as crianças se aproximem da leitura como prática social e a literatura como produção artística, da cultura escrita. Essa restrição, além de artificializar a língua, restringe as condições de crianças e jovens a fazer parte desse universo como participantes ativos e críticos e produtores de cultura escrita.

E quem mais perde com isso? Infelizmente, quem mais perderá são as crianças que têm menos acesso à cultura escrita fora da escola, e que provavelmente são, em grande parte, as crianças da escola pública. Para essas crianças, será negada a possibilidade de diminuição da desigualdade de oportunidades que têm, na escola pública, seu principal espaço de garantia. As crianças de famílias com mais acesso a esse tipo de cultura provavelmente terão, por outras vias, possibilidades de apropriar-se de práticas sociais de uso da leitura e da escrita.

Entretanto, se retomarmos as notícias recentes de censura aos livros, é possível verificar que, apesar de as crianças de famílias com maior poder aquisitivo – que se encontram em escolas particulares – terem mais contato com as culturas do escrito possivelmente elas também terão, por outros motivos, privação de acesso à literatura.

Com esse cenário tão limitador para todas crianças brasileiras, justifica-se a necessidade de advogarmos intensamente a favor do acesso à literatura de forma irrestrita. Peter Hunt, especialista em literatura infantil, nos faz lembrar que:

Passamos nossa vida – como nossos filhos passarão – constantemente processando, pesando e equilibrando uma gama fenomenal de conhecimento, percepções e sensações. Não podemos ser simplistas a respeito deles e não esperamos que nossos filhos sejam. Deve ser óbvio que o mesmo aconteça em nossas abordagens dos livros para crianças e na relação com eles.

É preciso confiar na capacidade intelectual das crianças, na capacidade de lidarem com as informações e construírem conhecimentos e, principalmente, de lidarem com a literatura. E só com acesso e espaço para a discussão que podemos formar pessoas que pensem, que criem e que, principalmente, façam o mundo progredir. E um dos espaços para fazer isso acontecer é a escola.


Bibliografia de referência:

Antonio Candido, O direito à literatura. Em: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 5a ed, 2001

Graciela Montes, El curral de la infancia. México: Fondo de Cultura Económica, 2001.

Peter Hunt, Crítica, teoria e literatura infantil. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

*Sandra Medrano, mãe da Vila, pedagoga, mestra em Didática pela Universidade de São Paulo e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é coordenadora pedagógica da área de Língua da Comunidade Educativa Cedac e membro da equipe editorial do Instituto Emília/Revista Emília. Seu artigo foi originalmente publicado no Blog das Letrinhas, da Companhia das Letras.

** Os dados referentes à BNCC estavam relacionados à versão em vigor na época da publicação do texto no Blog da Letrinhas. A versão final em vigor não manteve os aspectos destacados.

O Funeral de Okjökull

Por Mateus Moreira e Pablo Candiani, educadores de biologia e ciências naturais na Escola da Vila

Texto desenvolvido com base no Seminário Educação para Sustentabilidade.

A Islândia está promovendo um funeral inédito, o de Okjökull. OK, como era carinhosamente chamada, é a primeira geleira a morrer e a ganhar um funeral naquele país. Triste e preocupante! Mais preocupados ainda ficamos, ou deveríamos ficar, quando lemos a placa que está sendo instalada na rocha onde ficava a geleira, formando um memorial. Nela vemos a seguinte inscrição:

“Uma carta para o futuro”.

OK, foi a primeira geleira do país a morrer. Estima-se que nos próximos 200 anos todas as outras geleiras islandesas – mais de 400 – tenham o mesmo destino. Com esse monumento, reconhecemos que sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito. Só você – do futuro – saberá se o fizemos.

A preocupação com as alterações ambientais devido às ações antrópicas em nosso planeta não é recente.

Eugene Odum, renomado biólogo com especialização em Ecologia de Sistemas, já em 1983, iniciava seu livro Basic Ecology, reconhecendo que a Ecologia deixava de ser uma área de estudo exclusiva da Biologia, tornando-se cada vez mais uma disciplina integrada, unindo as ciências naturais e as sociais, com um enorme potencial para aplicação nos assuntos humanos, como chamou, uma vez que as situações do mundo real quase sempre incluem um componente de ciência natural e um componente socioeconômico e político. Dessa maneira, precisamos compreender a natureza complexa do tema se esperamos encontrar soluções duradouras para problemas críticos. Assim, a Ecologia, termo cunhado pelo alemão Ernst Haeckel no século XIX, foi reconfigurando-se ao longo das décadas. Da mesma forma, a Sustentabilidade vem tomando novos contornos diante de uma sociedade que cada vez mais compreende o caráter complexo e interdisciplinar das questões que envolvem o nosso planeta.

Em 1972, em Estocolmo (Suécia), a ONU convocou a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, que resultou em um documento com 26 princípios com o objetivo de “inspirar e guiar os povos do mundo para a preservação e a melhoria do ambiente humano”. Esse manifesto estabeleceu as bases para a nova agenda ambiental do Sistema das Nações Unidas. Entre os princípios apresentados, pelo menos 10 estavam diretamente relacionados à preservação do ambiente. Em 2015, após diversos encontros e reformulações do documento, os países tiveram a oportunidade de adotar a nova agenda de desenvolvimento sustentável e chegar a um acordo global sobre a mudança climática, produzindo o documento “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, com 17 objetivos para serem alcançados até 2030, sendo que apenas quatro desses objetivos estão ligados diretamente ao meio natural, evidenciando a importância dos aspectos socioeconômicos na sustentabilidade do nosso planeta, como a erradicação da pobreza, das desigualdades sociais e da fome.

Reconhecendo que há um esforço global em busca de uma sociedade mais sustentável, qual o nosso papel como educadores diante desse panorama?

As práticas educativas ambientalmente sustentáveis apontam para propostas pedagógicas centradas na criticidade dos sujeitos, com vistas à mudança de comportamento e atitudes, ao desenvolvimento da organização social e da participação coletiva. Essa mudança paradigmática implica uma mudança de percepção e de valores, gerando um pensamento complexo, aberto às indeterminações, às mudanças, à diversidade, à possibilidade de construir e reconstruir, em um processo contínuo de novas leituras e interpretações, configurando novas possibilidades de ação (JACOBI, RAUFFLET e ARRUDA, 2011).

Nesse contexto, no primeiro semestre de 2019, foi criado na Escola da Vila o SustentaVila, grupo de discussão sobre o tema, que conta com representantes das três unidades com participação de funcionários da direção, coordenação, orientação, administrativo, professores e alunos, auxiliados por uma consultoria que tem como foco a sustentabilidade. O objetivo é fomentar a discussão e o ensino sobre o tema, recuperar ações já realizadas na Vila e implantar novas, além de consolidar o tema na cultura da Escola a partir de práticas que orientem o trabalho institucional. Inicialmente, foram definidos quatro frentes de atuação: água, energia, resíduos e relações interpessoais.

Com o intuito de tornar esse árduo trabalho perene e ampliar a discussão sobre o tema, as escolas do Grupo Critique realizaram em abril de 2019, em São Paulo, na Escola da Vila e na Escola Viva, o 1º Seminário Educação para Sustentabilidade. Desse encontro, foi elaborado um documento com os Princípios Norteadores da Educação para a Sustentabilidade das escolas do grupo.

Dando continuidade às discussões, representantes das escolas se reuniram novamente em junho de 2019 no Rio de Janeiro (na Escola Parque e no Centro Educacional Viva) no programa de residência que há no Grupo Critique. Os participantes tiveram a oportunidade de conhecer o que já é realizado nessas instituições de ensino, compreender o processo de criar e recriar projetos, aprender com a experiência de outras escolas e ampliar a visão sobre os desafios inerentes ao trabalho com sustentabilidade.

Há muito por fazer para consolidar a educação em sustentabilidade, e fica claro que a escola é um espaço privilegiado para tal. O ambiente escolar é um local propício para promover o debate, construir e compartilhar ações. Também é essencial a boa formação dos profissionais e a mobilização de toda a comunidade escolar. Repensar os currículos e tratar o tema de forma integrada, transversal e interdisciplinar é imprescindível, já que a sustentabilidade se caracteriza por incorporar as dimensões socioeconômica, política, cultural e histórica, não podendo se basear em pautas rígidas e de aplicação universal, e deve considerar as condições e estágios de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica.

Mudar comportamentos e criar uma cultura de sustentabilidade na qual as pessoas de uma escola ou da sociedade estejam engajadas não é simples. De quantos funerais ainda queremos participar? A quais outros iremos assistir? Das florestas tropicais? Das geleiras e do gelo das regiões polares? Das cidades litorâneas? Da ciência de qualidade? Do pensamento crítico? É fundamental que as instituições de ensino zelem pela educação para a sustentabilidade com seriedade e comprometimento.


Referências Bibliográficas

Jacobi, P. R., Raufflet, E., & Arruda, M. P. (2011). Educação para a sustentabilidade nos cursos de Administração: reflexão sobre paradigmas e práticas. Revista de Administração Mackenzie, 12(3), 21-50.

Patricia Sadovsky e o ensino da matemática na escola

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

Dando continuidade à divulgação de algumas contribuições vindas das várias ações formativas realizadas com nossa equipe de professores este semestre, recebemos a professora Patricia Sadovsky, doutora em Didática da Matemática pela Universidade de Buenos Aires, para aprofundamento em questões do ensino e da aprendizagem da Matemática em nossa escola. Aproveitamos a oportunidade para entrevistá-la sobre questões que as famílias costumam ter acerca da área.

Apresentamos, em forma de perguntas e respostas, preocupações recorrentes que tocam em pontos como a importância da matemática para a formação mais ampla dos estudantes, o enfrentamento de dificuldades inerentes ao processo de aprendizagem e a questão da tecnologia relacionada a esse campo de conhecimento.

a. Qual é a importância da aprendizagem da matemática, no momento atual, para quem vai seguir uma carreira que não esteja muito vinculada a essa disciplina?

Bom, nós pensamos que a matemática contribui com formas específicas de pensar e produzir conhecimento que estão instaladas na cultura, ainda que muitas vezes estejam ocultas, nos parece muito importante que todos os alunos e alunas, mais além de suas opções futuras, tenham oportunidade de tomar contato com essas formas de pensar. Nesse sentido, o trabalho em matemática não é um trabalho voltado para resultados ou para deter-se especificamente em conceitos isolados, mas sim é um trabalho no qual o assunto do ensino é a atividade matemática ela mesma, é aí que se localiza sua relevância.

b. Quais orientações você daria para as famílias de alunas e alunos que apresentam dificuldade para aprender matemática e se mostram pouco confiantes e desanimados com a disciplina? Devem olhar suas lições e apontar seus erros?

Ter dificuldades não é algo constitutivo dos estudantes, não é algo que faz parte de seu ser, sempre entendemos como um momento e, nesse sentido, apostamos nas trajetórias das alunas e alunos, apostamos em acompanhar suas trajetórias e que possam modificar essa situação de certa distância do trabalho matemático, que se expressa através de dificuldades.

Em princípio, acompanhá-los é valorizar suas ideias, ajudá-los a se envolver e tratar de que expressem o que pensam.

Com relação ao que aparece como erros, sempre preferimos pensá-los como ideias, podem ser ideias errôneas, mas são ideias, e acompanhar as crianças supõe que possam expressar as razões pelas quais colocaram em jogo essas ideias, para que depois possam modificá-las.

c. Como as tecnologias digitais impactaram o ensino da matemática? Como as famílias podem se valer dessas tecnologias para ajudar os filhos a estudar essa disciplina?

Falamos “das tecnologias”, quando na verdade há tecnologias e tecnologias. Na escola e no ensino se constituem sem dúvida como um recurso potencial, no entanto, isso depende de qual sejam as ferramentas que se utilizem e segundo como as utilizemos.

Compreender que a lógica de uso das tecnologias em uma função de ensino e aprendizagem é totalmente distinta da que a que segue no jogo, no entretenimento e no uso cotidiano, essa é uma primeira questão.

Por isso, temos de ajudar os alunos, alunas, crianças e jovens a pôr um ponto ou uma pausa nessa necessidade que coloca a tecnologia de tamanha velocidade, de basear-se unicamente em resultados, sem compreensão de seus funcionamentos internos.

Não sei se diria algo muito específico, mas me parece interessante que as famílias acompanhem crianças e jovens em um uso crítico das tecnologias neste momento, para que possam discernir, que possam separar os usos que são potentes em função de uma construção intelectual, de outros que são legítimos, mas não têm relação alguma com a aprendizagem.

Na próxima semana, dando continuidade a essa série, compartilharemos a conversa de nossos convidados Christian Dunker e Isabelino Siede com a comunidade escolar, no Vila Conversa, aguardem!

Flora Perelman e os desafios da aprendizagem em meios digitais

Por Fernanda Flores

Neste semestre, recebemos pesquisadoras e pesquisadores argentinos que participaram de intensa programação formativa junto de nossa equipe pedagógica. Aproveitando a presença deles na escola, os convidamos a tratar aspectos mais amplos da Educação, com o objetivo de trazer elementos e promover reflexão sobre seus temas de investigação, em um diálogo voltado a famílias, responsáveis e educadores interessados em pensar temas contemporâneos na missão de educar nossas crianças e jovens.

Para começar essa série, divulgamos a entrevista dada por Flora Perelman, doutora em Psicologia e especialista em escrita e alfabetização, que se dedica a investigar como ensinar a ler e produzir em meios digitais.

Seguem os temas abordados:

• Meios digitais, a literatura e o audiovisual.

• Literatura, redes sociais e novos fenômenos.

• Produção textual no computador.

• Compartilhar e conhecer: o papel da família e da escola no uso das tecnologias.

Esperamos que essa divulgação inspire muitas reflexões.