Jovens da Vila pelo Clima

Por Mateus Moreira, professor de Biologia do Ensino Médio

Vocês conhecem a jovem Greta? Assim começou a conversa com os alunos dos 1ºs anos do Ensino Médio sobre a campanha mundial Jovens pelo Clima. Muitos alunos já a conheciam, outros tantos tomaram conhecimento durante o encontro, mas é certo que todos se impressionaram com o que Greta conseguiu fazer (Greta Thunberg juntou-se a milhares de jovens na greve estudantil pelo clima).

Essa provocação do professor nasceu das atividades do Grupo Critique quando conheceu a iniciativa de alunas da Escola Parque que recentemente haviam firmado um coletivo tendo essa temática como centro de suas atuações.

Assim, os jovens da Vila também se impeliram a impactar mais pessoas no que se refere a ações pelo clima e criaram um grupo de discussão. O primeiro encontro foi de levantamento de ideias e ações.

E já no segundo encontro, dia 16 de setembro, as quatro escolas do Grupo Critique: Escola da Vila, Escola Viva/SP; Escola Parque/RJ e Escola Mangabeiras/BH puderam promover uma conversa virtual entre seus alunos mobilizadora pela questão climática planetária.

O propósito da Conference call era trocar experiências, desenvolver ideias e fortalecer os jovens para a ação. Dessa forma, reuniram-se de maneira bastante autônoma, com algum apoio dos professores, mas num roteiro totalmente coordenado por eles mesmos! Aparentemente a iniciativa foi um sucesso e o coletivo da Parque inspirou o surgimento de coletivos das demais instituições. Assim, demos o primeiro passo na formação de uma rede de coletivos das escolas em prol da reflexão sobre o clima do planeta.

Os jovens de cada escola iniciaram o “encontro” se apresentando, com nome, série e escola. Havia alunos do 8º ao 3º ano do EM. Depois, dois jovens de cada escola contaram sobre o trabalho que desenvolvem relacionado ao tema sustentabilidade. Nossos alunos contaram do grupo SustentaVila e as ações que estão sendo feitas e outras tantas ainda em fase de elaboração.

A atenção, o respeito e a seriedade durante toda a conversa foi emocionante. A cada relato foram feitas perguntas, pedidos de esclarecimentos e sugeridas ideias em um clima de muita parceria. Todos concentrados no imenso desafio de pensar o que fazer para gerar maior mobilização em sua instituição acerca das questões climáticas.

Como impactar as diferentes comunidades para a semana de mobilização global pelo clima que ocorre entre os dias 20 e 27 de setembro? Vamos ver como cada escola responderá a essa questão, mas, principalmente, vamos ver como os diferentes grupos de jovens podem se articular e se fortalecer!

Para saber mais, acesse: Greve mundial pelo clima

Por que divulgar universidades no exterior para alunos do Ensino Médio?

Por Susane Lancman, diretora do Ensino Médio

A resposta é simples: para ampliar caminhos.

Almejamos formar pessoas que trilhem jornadas significativas no mundo, o que significa oferecer de forma consistente uma formação geral para o exercício pleno da cidadania, uma formação acadêmica de qualidade e a oportunidade de prosseguimento dos estudos em universidades de acordo com os desejos dos alunos. Pois, considerando o aluno como singular e pleno e as jornadas complexas e multifacetadas, é preciso ampliar caminhos para que os alunos possam fazer suas escolhas.

Temos no Brasil ótimas universidades e apresentamos muitas possibilidades para os nossos alunos. Assim, convidamos professores de universidades públicas e particulares a contarem sobre os diferentes trabalhos desenvolvidos nos espaços universitários, convidamos ex-alunos a contarem sobre suas experiências nas universidades, incentivamos que os alunos assistam a aulas em diferentes faculdades e apresentamos vídeos de alunos que estudam fora de São Paulo, como das ex-alunas Ligia Spedaletti e Ana Clara Xavier, que estudam na Unicamp.

Da mesma forma, ampliamos os conhecimentos dos alunos em relação a universidades no exterior. Assim, convidamos universidades do Canadá, dos EUA e de Portugal a visitarem a Escola da Vila para conversarem com nossos alunos. Nessas oportunidades, os alunos compreendem como é o processo seletivo, quais são os desafios de morar fora do Brasil, custos, cursos. Enfim, adentram um mundo muitas vezes pouco conhecido. Caso queira conhecer um pouco do processo de admissão da nossa ex-aluna Olivia Porto, leia o e-mail que ela me enviou.

Em reuniões de familiares do EM, já trouxemos algumas vezes especialistas em estudo no exterior para apresentarem o processo para ser aceito em diferentes universidades, e o mesmo fazemos com os alunos. Afinal, até pouco tempo atrás, estudar fora do Brasil era uma possibilidade muito remota, mas nos dias de hoje tem se tornado mais factível e alvo de desejo de nossos alunos. Se quiser ouvir o depoimento do nosso ex-aluno Pedro Pizzotti, que estuda em Portugal, veja o vídeo que ele gravou.

Dessa forma, neste ano, dia 3 de setembro à tarde, faremos pela primeira vez na Escola da Vila um simulado do SAT (Scholastic Aptitude Test – Teste de Aptidão Escolar) para aqueles alunos que desejam conhecer o exame mais comum de admissão para graduação nas universidades estadunidenses. Ele é composto por três áreas: Math (matemática), Critical Reading (linguagem e interpretação de textos) e Writing (escrita). Vale dizer que os professores de Matemática e Inglês analisaram os exames e disseram que os alunos dos 1os, 2os ou 3os anos têm conhecimento suficiente para realizar o teste.

Sem dúvida, a finalização da escolaridade obrigatória traz muitos desafios, sendo um deles responder à pergunta que permeia quase toda a existência: o que você vai ser quando crescer. Essa pergunta exige fazer escolhas, abandonar outras, e tudo isso é motivo de ansiedade e exige muito conhecimento para a tomada de decisão. Para tanto é preciso apresentar caminhos e problematizá-los, e é o que fazemos ao longo do Ensino Médio.

As mídias, o ócio, os jovens

Por Fermín Damirdjian, Orientador Educacional do Ensino Médio

“É estranho. Eu tenho a sensação de que vamos fazendo amizades do mesmo jeito que vamos assistindo a séries. Vamos liquidando um episódio atrás do outro, até que termina a temporada. Começamos outra temporada, assistimos aos novos episódios; acaba a série, começamos outra. E assim vai. Passam os personagens, as histórias, mas esquecemos de tudo. Nada fica.”

Essas palavras foram proferidas na sala da orientação educacional, algumas semanas atrás, por uma aluna do Ensino Médio. Desanimadoras, sim, e pensaremos sobre a sua negatividade, mas com o devido cuidado para não vaticinar diagnósticos definitivos sobre as gerações atuais. Nada mais tentador para os adultos do que reconstruir o seu passado para torná-lo glorioso, identificando corrosões nos hábitos contemporâneos.

Feita essa importante ressalva, avancemos em nossas observações cotidianas. A motivação deste texto se diversifica em muitos fatores, e é possível que a tentativa de uma generalização pereça pelo caminho. Em todo caso, podemos afirmar que há certa fluidez no ar, nos dias atuais. É como se os espaços entre as pessoas estivessem bastante preenchidos com ruídos. É como se a fragmentação das informações que desfilam aos nossos olhos através das telinhas que nos interrompem o caminhar para respondermos uma mensagem, a tentação de mandar um texto em um breve farol vermelho, ou de ler uma notícia de política ou sobre a mecânica do meu carro, uma receita de lasanha ou o horário do dentista ou da reunião de famílias na escola, como se tudo isso circulasse entre as pessoas e o mundo como moscas e mosquitos. Pixels voadores. Notícias, imagens engraçadas, tragédias políticas, mensagens saudosas, tudo junto e misturado. De que cor fica o mundo quando se misturam todas as cores? O branco das frequências de luz ou o cinza da mistura química?

Em um belo – e breve – documentário chamado Quanto tempo o tempo tem (Adriana Dutra, 2014, 74 min), dentre o depoimento de alguns historiadores, antropólogos, físicos e filósofos, alguns me chamaram bastante a atenção. Um deles diz que por centenas de milhares de anos o homo sapiens percebeu o tempo por meio de sinais diretos da natureza: as estações do ano, os ciclos lunares, o dia e a noite, fluxos de água, cheias e vazantes e outros sinais naturais. É possível que na Grécia Antiga a clepsidra tenha se prestado a medir o tempo do uso da fala no âmbito jurídico, com o intuito de igualar as oportunidades de argumentação dos lados em questão. O tipo de coisa que se esvaiu durante os séculos seguintes, até retornar com força arrasadora na era industrial. Daí veio um aparelho importantíssimo, chamado relógio. Isso me fez pensar o quão apropriada é a primeiríssima imagem do filme “Tempos modernos“: um relógio. A segunda imagem: as ovelhas. A terceira: os operários. Sendo assim, temos que há algo como duzentos anos, com o rapidíssimo advento da vida urbana, o tempo foi racionalizado ao máximo, trocando aquelas medidas amplas fornecidas pelos ciclos naturais por horas, minutos e segundos.

Duzentos anos, diante do tempo de ocupação do homo sapiens sobre a Terra, é uma brevidade estúpida. Algo que seria, realmente, insignificante. Porém, dentro dessa avassaladora cultura moderna, uma nova revolução ocorreu. As mídias digitais, em sua maioria transformadas em um aparelhinho de bolso, aceleraram ainda mais esse tempo, já de ciclos naturais. Nos últimos dez anos, os celulares deixaram de ser telefones e se tornaram um aparelho quase inexplicável, que rompe barreiras de tempo e mistura as novidades da vida política do seu país, os resultados do seu time e o seu neto que mora na Bélgica comendo beterraba cozida amassada.

Que efeito isso pode ter na subjetividade das pessoas?

Essa é uma pergunta capciosa. Ela pressupõe que conseguiríamos identificar as consequências específicas desses fatores em meio ao caldo de transformações culturais da nossa era, e isso não é possível, pois as transformações não acompanham apenas o passo acelerado da tecnologia digital, mas de transformações profundas no papel do homem e da mulher, do Estado, da igreja e da religião, da propriedade, do nascimento da escola moderna, dos meios de transporte que se desenvolveram e permitiram a maior circulação de pessoas e de mercadorias e um sem-número de outras transformações que agem em conjunto e em desordenada consonância desde as revoluções do século XVIII. Para obtermos um olhar mais amplo e qualificado sobre isso, devemos nos debruçar sobre ensaios e livros de autores mais qualificados.

Podemos, no entanto, olhar humildemente para nosso cotidiano e para a convivência com nossos jovens e pensar o que temos. Antes de mais nada, voltaremos à aguçada observação da aluna que proferiu as palavras citadas no início deste texto. É bem verdade que há grande fragilidade para encarar frustrações inevitáveis nas relações interpessoais, como também é frequente uma falta de brilho nos olhos diante de novidades, livros e experiências de uma geração que tem a impressão de ter tudo a seu alcance. Os infinitos canais de TV, o entretenimento na palma da mão para encarar uma viagem de ônibus na cidade ou de carro com a família, bem como para burlar a espera na sala do dentista, todos esses recursos que subtraem as habilidades humanas de se autoentreter com divagações ou com conversas constituem uma vasta anestesia para encarar a vida e os problemas existenciais.

Isso significa que há uma uniformidade entre todos os jovens? Que todos estão permanentemente alienados? De forma alguma. Convivemos com profusão de ideias políticas, bandas de música e avidez por encontros presenciais promovidos pelos jovens da escola. Há alguns anos, um grupo de meninas promove um encontro prévio ao início das aulas, em forma de piquenique, no último fim de semana das férias de verão, como forma de receber as alunas mais novas que chegam ao Ensino Médio. Isso ocorre em um parque e não tem absolutamente nenhuma promoção nem ação realizada pelos educadores da Escola da Vila. É só um exemplo de algo extremamente simples e valioso: um encontro despido de qualquer parafernália tecnológica nem institucional, de própria iniciativa das alunas. O tipo de prazer que supre a milenar necessidade de encontrar pessoas.

O que sim notamos é que os jovens que passam por esta época e que parecem sobreviver bem a ela são aqueles que têm vínculos diversificados com o mundo, os quais passam pelas mais variadas formas de cultura. A literatura, o cinema, a música, as artes plásticas, as viagens, os esportes, as ações sociais, as discussões políticas são instrumentos fundamentais para interpretar o mundo à nossa volta. Os jovens com os quais convivemos e que percebemos que não incluem as drogas, os games e o Netflix no topo de suas prioridades parecem ter aqueles elementos como pontos de apoio e de vínculos com seu entorno. Eles permitem ir além de oscilar entre a anestesia do Instagram e a pressão por escolher uma carreira acadêmica – não podemos nem devemos passar incólumes por nenhum desses fatores, mas eles não podem ganhar exclusividade no repertório cotidiano. Isso é muito pouco para dar algum sentido à vida, ainda que este seja provisório e incerto, mas deve ser rico o suficiente para preencher o espírito inquieto que assola qualquer ser humano. Somos seres incompletos por natureza. Podemos não preencher nosso ser em nossa plenitude, mas podemos entretê-lo com coisas bastante consistentes e, quem sabe, transformadoras.

A família cumpre um papel importantíssimo nesse processo. Os encontros e a vida familiar são tão importantes quanto o que ela pode promover de atividades esportivas e culturais desde a infância. Na adolescência haverá portas fechadas, cara de tédio e indisposição para as ofertas dos adultos, mas se houve um terreno prévio, alguma coisa foi plantada. E, ainda assim, será preciso insistir para marcar a rotina com algumas dessas atividades, principalmente no fim de semana. É determinante nutrir o jovem com algo mais do que a internet oferece. Quando se diz que “essa geração tem tudo ao alcance da mão”, isso não é verdade. O Google não faz ninguém sair pra andar de bicicleta ou ir jogar bola com amigos. Os aplicativos funcionam pela simples lógica de fazer o usuário estender ao máximo o seu tempo de uso. 

A tecnologia digital não é o problema em si, evidentemente. Além de serem instrumentos extremamente úteis, o ócio e a distensão são fundamentais e sempre existiram. É preciso, isso sim, falar por meio dos nossos hábitos que as distrações podem ser variadas e que devem incluir o convívio pessoal, a cultura, as atividades físicas, a exposição ao ar livre. Isso por um lado. Por outro, não cair na armadilha de pensar que eles, os jovens, é que são assim. Eles não inventaram os pixels. E eles são fruto daquilo que lhes oferecemos ou do que lhes subtraímos. De nada serve proferir esses discursos com uma mão no volante e outra no celular.

Democracia, um valor inegociável

Com uma sociedade cindida, sem ideias novas e elegendo jovens políticos, teremos um país mais democrático?

Escola da Vila
Tabata Amaral na Escola da Vila

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Por Susane Lancman, direção do Ensino Médio

No blog de fevereiro, um dos textos tinha como título “Sustentabilidade, um valor inegociável: sem canudinhos, com segunda-feira sem carne e andando de bicicleta, salvaremos o planeta?”. A intenção era divulgar a palestra do professor Edson Grandisoli feita para os alunos do Ensino Médio sobre sustentabilidade, além de gerar na comunidade Vila mais reflexões sobre o assunto tão sério e complexo. Muitas ações têm sido pensadas, inclusive foi criado o grupo SustentaVila com professores e alunos, para que nossa comunidade seja mais sustentável.

Outro assunto extremamente caro para trabalharmos no espaço escolar é o conceito de democracia, mais um valor inegociável. No ano passado, realizamos algumas ações, como as atividades da Mostra de Trabalhos do Ensino Médio, que versava sobre essa temática, e neste ano já fizemos algumas ações para dar continuidade. Assim, objetivamos ampliar o conhecimento dos alunos em relação ao conceito de democracia de modo a qualificar o discurso e aprimorar as atitudes de nossa comunidade a fim de nos tornarmos uma escola cada vez mais democrática.

Iniciamos o ano com as equipes de professores relacionando em seus currículos os vínculos com o conceito de democracia e planejando atividades que poderiam gerar mais discussão e ação entre os alunos. Em uma sociedade cindida em que as nuances entre esquerda e direita parecem não existir, em que as caricaturas proliferam e o diálogo é interrompido, é preciso achar um ponto em que seja possível haver escuta, assim pensamos que a chave poderia ser o trabalho mais profundo com o conceito de democracia.

Uma feliz coincidência foi a possibilidade de a deputada federal Tabata Amaral estar em uma aula aberta com todo o Ensino Médio. Independentemente de partido, estamos em busca de apresentar ideias novas e dar esperança aos nossos alunos com relação à possibilidade de construir um país mais justo e sustentável. Temos percebido um sentimento de ceticismo por parte de muitos jovens (e de nós adultos), o que é temeroso, já que é da juventude que costuma sair a mola propulsora para a mudança. Assim, temos a intenção de oferecer atividades, como palestras com políticos, que vão ao encontro desse sentimento, não para criar um falso ou vazio otimismo, mas para que nossos jovens percebam que podem ser parte da solução dos problemas.

Para “aquecer” os alunos para o encontro com a deputada e sabendo que seu foco é educação, apresentamos em algumas classes gráficos relacionados ao processo de escolarização no Brasil, redução do analfabetismo e resultados do PISA. Em outras classes, o foco foi na compreensão do funcionamento da Câmara de Deputados com a utilização de vídeos feitos pelos ex-alunos do 3o ano depois do trabalho de campo de Brasília. A partir disso, os alunos criaram questões para a convidada, foram algumas:

1) Relacionadas ao Movimento Mapa Educação:

a) Quais são os critérios usados pelo movimento para a definição de “educação de qualidade”? Qual é o “cidadão” que esse projeto busca formar?

b) Que boas propostas de melhoria da educação foram mapeadas pelas pesquisas realizadas pelo Movimento Mapa Educação? Na avaliação de Tabata, por onde é preciso começar para que haja uma transformação efetiva no cenário educacional brasileiro?

c) Como estudantes de escolas particulares podem atuar na construção de um projeto de educação pública para o Brasil?

2) Relacionadas à atuação e aos posicionamentos de Tabata Amaral como deputada federal no contexto do atual governo federal:

a) Como ela enxerga a afirmação do ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, de que a “universidade não é para todos”? Como deputada, como atuará em relação à visão de educação expressa nessa fala?

b) Como ela enxerga o Programa Escola sem Partido? Como deputada federal, como pretende atuar em relação às propostas defendidas pelo programa?

c) Como ela enxerga os valores de “meritocracia” e “equidade”? Na sua visão, qual é o lugar que esses valores devem ocupar nas políticas educacionais brasileiras?

O encontro gerou muitas discussões, que repercutem até hoje na sala de aula e fora dela, muitos pensamentos sobre os desafios e conquistas para que nosso jovem país seja de fato cada vez mais democrático.

Vale também ressaltar que desde o início do ano temos um mural no Ensino Médio com materiais relacionados com a temática “democracia”, inclusive com o preâmbulo da Constituição de 1988, que foi trabalhado no ano passado com os alunos, bem como o índice de toda a Constituição para que se tenha ideia da sua abrangência. Além disso, o Grêmio tem ampliado a sua atuação, tentando se fortalecer com o grupo de alunos e está organizando para a 1a SAD (Semana de Atividades Diversificadas) uma sessão de cinema do filme Eleições, de direção de Alice Riff. Enfim, há muito que fazer dentro e fora dos muros da Escola, pois queremos que a nossa garotada seja cada vez mais interessada em política para que possamos construir o país que almejamos. Então, continuaremos caminhando no sentido de formar alunos que percebam a democracia como um valor inegociável, para que se percebam como agentes de mudança com ideias inovadoras em um espaço de escuta e diálogo.

Sustentabilidade, um valor inegociável

Escola da VilaEscola da Vila

Sem canudinhos, com segunda-feira sem carne e andando de bicicleta, salvaremos o planeta?

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Quando era pequena não me lembro de qualquer preocupação planetária, no máximo perdi algumas noites pensando se o Alien, o oitavo passageiro, poderia de fato existir, por outro lado tinha o E.T. que amenizava a insônia… Um passado não tão distante e bem mais leve, quando comparado ao presente em que crianças e jovens percebem que o planeta corre perigo real.

A finitude dos recursos naturais, a poluição do ar, o aumento da temperatura, os desastres naturais… enfim, é premente que algo seja feito. Problemas enormes, desafios gigantescos e soluções que podem parecer ridículas: abolir canudinhos, segunda-feira sem carne, andar de bicicleta. Afinal sabemos que os vilões estão longe de ser o canudinho, a produção do metano pelas vacas e o gás carbônico de carros. Assim, reduzir a complexidade para ações corriqueiras pode parecer patético.

No dia 15 de fevereiro, o professor Edson Grandisoli fez a palestra de abertura do ano do Ensino Médio sobre sustentabilidade, assunto difícil por várias razões: escutamos e vemos em demasia as mazelas no planeta e nos sentimos impotentes diante de tamanha problemática. O professor apresentou formas de reduzir o problema com ações simples e inúmeros exemplos de chamar a atenção para o assunto, contudo gerou um incômodo em muitos de nossos alunos. Explico: seria de se supor que jovens se sentissem aliviados ao perceberem que podem impactar positivamente o planeta, contudo nossos alunos sabem que essas ações simples não modificam a forma de funcionamento em nossa economia, que exige aumentar cada vez mais o consumo, então as ações para “cuidar do planeta” parecem simples alegorias.

Sem dúvida há uma incompatibilidade entre o nosso sistema econômico, que exige um alto nível de produção e consumo, e a preservação ambiental, mas será que é possível ter uma política de consumo sustentável? Será que é possível lidar com os limites ecológicos, uma economia capitalista e promover a justiça social?

No início da palestra, o professor pediu que disséssemos a palavra que nos vem à mente quando pensamos em sustentabilidade, e a palavra mais dita foi MEIO AMBIENTE. No final da palestra, fez a mesma questão e o resultado foi a palavra VALOR. Creio que era esse o grande objetivo do encontro, nossos alunos pensarem na sustentabilidade como um valor inegociável, portanto se impactarem para pensar em formas de agir mais sustentáveis. Isso significa que é preciso ter ações relacionadas ao macrossistema em que sejam modificadas tanto a estrutura de produção de forma que as necessidades das pessoas sejam supridas usando o mínimo de recursos, quanto em nossa esfera pessoal e comunitária com ações aparentemente “alegóricas”.

A temática permeará o ano letivo da Escola da Vila com várias ações voltadas a pensarmos de forma mais sustentável, agirmos de forma mais sustentável e sermos mais sustentáveis.

#SustentaVila

A experiência de produzir e estrear uma peça

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Por Gabriel Rosa e Dora Novais do 3o EM, alunos do Grupo de Teatro e do Núcleo de Produção Cultural da Vila

Este ano passou muito rápido, e nós do Núcleo de Produção e do Grupo de Teatro, com certeza, aproveitamos cada minuto. Apesar de todo o caos no país, 2018 foi um ano incrível e trouxe um vasto leque de projetos. O maior de todos, sem dúvida, foi a adaptação coletiva da obra de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, nomeada de “Relatos Cegos”. O grupo todo escolheu e aceitou encarar esse grande desafio que é transformar uma narrativa criada na linguagem literária para a linguagem teatral. Assim, cada integrante do grupo ficou responsável por adaptar uma parte do livro, fizemos diversos cortes e muitas descrições que não cabiam dentro da linguagem do teatro ficaram de fora. Compusemos uma trilha sonora original e levamos pro palco, da nossa maneira, a história desses personagens que enfrentam tantos conflitos ao tentar organizar uma pequena sociedade sem regras.

Muitos integrantes, além de fazer parte do Grupo de Teatro, também fazem parte do Núcleo de Produção Cultural. Para quem ainda não conhece: o Núcleo é um grupo formado por alunos que têm como intuito auxiliar em produções e projetos culturais da escola, como a peça “Relatos Cegos”. Assim, além de atuar, muitos alunos tiveram também a engrandecedora experiência de trabalhar com a produção. Pensamos, assim, nos figurinos e todos os adereços que compunham o cenário. Além disso, o Núcleo foi responsável por levar o Grupo de Teatro para diversos festivais de teatro estudantil, no interior e São Paulo. Para isso, nós tivemos que arrecadar dinheiro para levar a nossa peça para esses festivais e para investir em outros projetos culturais destinados para a comunidade escolar. Fizemos o nosso próprio Sarau, nosso Brechó, fizemos vendas de doce na escola e até criamos produtos próprios do Núcleo, como sacolas e camisetas, para vender. Participamos da Festa Junina, da organização do Festival de Poesia e apresentamos um pequeno trecho da peça no evento. Tudo isso feito pelos próprios alunos, com as arrecadações revertidas para todos os outros alunos que compõem a comunidade vilana. Nós não iríamos conseguir sem a ajuda e o grande apoio da Luiza Zaidan, que, além de dirigir a peça, nos orienta no Núcleo.

A principal característica do teatro, em nossa opinião, é o trabalho em grupo, algo que a Escola da Vila presa em seu currículo e que, com certeza, nos ajudou a realizar todos os nossos projetos. A participação e o apoio da comunidade escolar e de cada funcionário da escola foram essenciais para a realização de cada projeto. Uma das mais lindas experiências que vivemos, sem dúvida, foi a oficina com as bailarinas cegas da Associação Fernanda Bianchini. Esse encontro não só fez diferença na construção de personagens da peça, mas fez diferença também para a nossa formação como seres humanos.

Tivemos diversas vitórias durante este ano. Construímos uma peça do zero, uma peça que foi capaz de tocar o público, convidando-o a refletir sobre o mundo em que vivemos. Reservamos um teatro para nossas apresentações e tivemos o orgulho de pagar o aluguel com nossa primeira bilheteria. Para os integrantes do grupo que estão no 3o ano, infelizmente, foi o último ano de teatro, mas foi uma experiência com muitas risadas e união. Nós, integrantes do Grupo de Teatro, somos mais do que colegas, nós conseguimos construir uma grande amizade.

Que 2019 também seja um ano maravilhoso, como foi este.

Vilalê: descobertas e amigos inesperados

Escola da Vila

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Por Sofia M. Duarte Pedrosa Rechi Aguiar e Tiago Costa Soriano – Formandos do Ensino Fundamental 2

Todos nós já nos sentimos solitários. Não pertencentes. Em dúvida sobre gostos, personalidade, sobre nós mesmos. Às vezes encontramos acolhimento onde menos esperamos, e é isso que o Vilalê representa para muitos de nós. Um lugar onde ninguém lhe julga. Onde até mesmo os mais tímidos têm voz.

Começamos todo ano escolhendo um livro. Esse sempre é sugerido pelo grupo e eleito a partir de uma votação, portanto todos conseguem ser atendidos de alguma forma. Fazemos leitura compartilhada nos encontros de quinze em quinze dias, discutindo o que lemos em casa e no encontro passado. Sempre há diferentes interpretações e observações, deixando a leitura mais rica e com diferentes opiniões sobre os acontecimentos do livro.

Com um grupo diverso e unido, inclusive na questão da idade (que é mais evidente nesta fase da nossa vida), conseguimos, por meio de sorrisos, espantos e lágrimas, finalizar a leitura. Após o final de cada livro, um sentimento de preenchimento inunda nossas mentes e corações. Êxtase dos amantes de bibliotecas.

A escrita e a leitura se mostram libertadoras. No Vilalê, ninguém nos força a nada. Ambiente mais aberto e leve não poderia existir. Sempre mudamos de espaço físico, mas a empolgação pelo próximo capítulo do livro se mantinha a mesma. O Vilalê foi como um veículo de descoberta sobre nós mesmos. Um grupo que acabaria se tornando muito mais amigo do que começou e nos faria aprender muito além do imaginado.


Agora que vou me formar e sair da Vila, este meu último encontro me fez lembrar de como vou sentir falta da experiência de ler livros impressionantes (que guardo com carinho em minha prateleira) em uma roda unida pelo interesse em comum por histórias e, claro, pipoca. Agradeço de coração à Fernanda, que, com todo o seu carisma, media o Vilalê e se esforça para enriquecê-lo de diversas formas (já chegamos até a conversar com uma autora holandesa). Àqueles que estão chegando, saibam que, para quem gosta de ler, o Vilalê só tem vantagens. Adeus e obrigado por tudo!

Vinícius Silva Fernandes Kuhlmann – Formando do Ensino Médio

Alunos da Escola da Vila visitam o maior empreendimento científico da história brasileira

Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no Flickr

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Por Alex Brilhante, professor de Ciências Naturais e Física

Apesar dos cortes drásticos de orçamento para a ciência, desde 2015 o Brasil vem construindo o seu mais grandioso projeto científico: o Sirius, um imenso acelerador de elétrons que será uma das melhores máquinas do mundo no gênero, possibilitando a realização de experimentos na fronteira do conhecimento e atraindo pesquisadores internacionais.

Com previsão de entrada em funcionamento já em 2019, o Sirius tem como peça central uma circunferência de mais de 500 metros, onde os elétrons chegam a uma velocidade próxima à da luz. Ao realizarem a curva ao longo da circunferência, os elétrons emitem radiação eletromagnética, ou seja, luz. As particularidades da luz emitida pelo acelerador permitem a observação em escala molecular e atômica de diversos tipos de materiais, de semicondutores a fósseis, o que faz dessa máquina um instrumento versátil e estratégico para pesquisas em áreas tão diversas, que vão de nanotecnologia a biociências.

A construção do Sirius não é uma mera aposta grandiosa, esperando por resultados incertos. Desde 1997 o Brasil já conta um grande acelerador de elétrons, o acelerador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, que talvez seja o nosso empreendimento científico mais bem-sucedido até o momento. Trata-se de um laboratório nacional, ou seja, aberto para pesquisadores de todo o Brasil e do mundo, que já recebeu milhares de pesquisadores ao longo de suas duas décadas de funcionamento. O Sirius é “apenas” um upgrade de mais de 1 bilhão de reais em uma experiência científica de sucesso.

Na semana passada, alunos de nono ano do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio – acompanhados por Regis Neuenschwander, da Divisão de Engenharia do LNLS – tiveram a oportunidade única de observar, de dentro da construção, como funcionará o futuro acelerador de partículas. Assim que a construção terminar, não será mais possível entrar nos meandros do acelerador. Além de visitar a construção da nova máquina, nossos alunos visitaram a máquina que está atualmente em funcionamento e aprenderam como essas máquinas produzem imagens em escalas moleculares e atômicas, além de terem visitado os demais laboratórios que compõem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas.

Nossa iniciativa, ao mesmo tempo que tem por objetivo aproximar nossos alunos da ciência nacional – mostrando as áreas de pesquisa em que temos uma tradição de produção científica de qualidade para, quem sabe, estimular alguns alunos a enveredarem no mundo instigante da pesquisa científica –, é também o nosso reconhecimento da importância da ciência na construção de uma nação, importância nem sempre divulgada propriamente. Dados de uma pesquisa sobre a percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil, publicada em 2015 pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), nos mostram que apesar da atitude altamente favorável à ciência manifestada pelos brasileiros, apenas 12% dos entrevistados pela pesquisa conseguiu se lembrar de alguma instituição científica brasileira, número bastante pequeno mesmo se comparado a países com uma trajetória científica similar à nossa, como a Argentina, por exemplo, em que 25% dos entrevistados sabiam nomear alguma instituição de pesquisa.

Sabemos que a produção científica é uma atividade cara e, em grande medida, custeada por todos. Se a produção científica nacional não for divulgada adequadamente, nada garante que a sociedade civil veja sentido em seguir apoiando a ciência e os cientistas brasileiros.

Educar em tempos de cisão

Escola da Vila

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Por Fermín Damirdjian, orientador educacional do Ensino Médio

A cada ano, um grupo de alunos da Vila viaja à Argentina e permanece em convivência com outros alunos de uma escola parceira, não sem antes estudar ao longo do ano as características sociais, históricas, culturais e políticas daquele país. Em grande parte das vezes, nossos alunos investigam, intrigados, as origens da grande cisão que parte o país em dois, de acordo com a orientação política de cada setor, comunidade, família ou indivíduo. Voltam sem uma resposta, mas com a dúvida mais consistente, e conseguindo pensar mais a esse respeito. Se há um país neste continente que entenda de viver cindido, esse país é a Argentina.

Neste ano, porém, algo foi diferente. Estávamos lá durante as eleições de primeiro turno no Brasil. Já na segunda-feira, os olhares que nossos alunos receberam pelos colegas da escola hermana eram de permanente assombração, quase um fascínio. Já estavam ao tanto que um candidato da extrema direita estava pleiteando a presidência do vizinho gigante e admirado. Admiração oriunda de suas praias, de sua música e de seu futebol, mas também por uma trajetória política e econômica um tanto invejável, a julgar especialmente por sua estabilidade. Em comparação à Argentina, as crises brasileiras são verdadeiras marolinhas inevitáveis ao mundo globalizado.  Assemelham-se mais a corrosões lentas e persistentes, com alguns momentos de rearranjo, do que às explosões sociais e econômicas que caracterizam a história argentina. Isso, é claro, visto a distância e com certa idealização.

Ocorre que, de uns anos para cá, com uma presidente deposta e um ex-presidente preso, os argentinos também começaram a tecer opiniões e a encontrar um terreno fértil para tomar partido a respeito dos protagonistas da disputa política no vizinho gigante. O ápice disso foi a configuração da eleição presidencial atual. Por isso o espanto e o fascínio, quase uma inveja, de como seria possível o alcance de uma conjuntura tão dramaticamente polarizada.

Se a “Macrise” argentina deixava os peronistas confirmando a desgraça já prevista que recairia sobre o país sob o comando de Mauricio Macri, para os partidários do atual presidente tudo é resultado da governante anterior, a quem se referem com apelidos depreciativos e machistas. O Brasil, porém, conseguiu superar com um golaço de fora da área essa disputa sobre a qual os argentinos certamente viam assegurada sua hegemonia desde o advento do peronismo, nos anos 50, e acirrada por intermitentes ditaduras que tentaram anulá-la, mediante métodos repressivos de dar inveja aos nazistas.

Nossos alunos, então, na segunda-feira, 8 de outubro de 2018, eram uma pérola circulando pelo Colegio de la Ciudad. E nada melhor do que convidá-los para uma roda de conversa durante a tarde, para que explicassem aos argentinos com quais jogadores, técnico e estratégia estavam conseguindo tamanha goleada.

Foi necessária uma lousa para que os representantes vilanos explicassem, com a devida parcimônia e atenção didática, como se compunha a situação em campo. A lousa, é claro, foi dividida em dois, a fim de esclarecer as características de cada protagonista. Em cada setor, um breve histórico do candidato, seus vínculos, sua história. O relato tinha sido ensaiado algumas horas antes. Afinal, é preciso municiar-se de informações mais precisas. Quando se está dentro de uma situação, toma-se como pressuposto uma série de saberes que, muitas vezes, são apenas percepções subentendidas, e antes de transmiti-las é preciso checá-las. Essa é a grande riqueza de formular um relato. Mais ainda em terra estrangeira. E mais ainda se seu público já é bem informado, como era o caso.

Intuitivamente, nossos alunos trouxeram à tona algumas bases teóricas que fazem parte de seu repertório escolar. Os quatro princípios da construção de um mito salvador, personificadas em um líder, formulados por Lená Medeiros em seu ensaio “A sacralização do profano[1]“, são exemplo disso.

A discussão se desenvolveu bem, com o idioma de cada um dos nossos sendo posto à prova, na mesma medida que sua capacidade de análise. Descrever e analisar são duas propostas diferentes, que podem se diferenciar, mas nunca se descolar cirurgicamente uma da outra. É um baita exercício. Como esse jogo pode se dar para todos nós? E para adolescentes? E para as crianças?

Muitos depoimentos poderiam surgir aqui, assim como muitas análises. E poucas respostas. O que sabemos é que a atual conjuntura é marcante. Lembro-me, quando criança, de um clima tenso e escuro, na Argentina dos anos 70. Adultos sisudos, o ar denso, palavras proibidas, uma população visivelmente aterrorizada. Em espaço público, não se falava. Era tenso, portanto, andar com crianças. Em um trem lotado, certa vez, meu irmão, um permanente tagarela, perguntou em altíssimo volume: “Mamá, Videla es bueno??”. Responder que sim ou que não era ganhar inimigos imediatos. Minha mãe enfiou um alfajor na boca do pirralho e saímos do trem na primeira estação que apareceu. Não havia outras respostas possíveis.

O que podemos oferecer nos dias de hoje? A situação torna-se difícil, pois as bases políticas expostas consideram pontos que, para muitos de nós, são intocáveis. Seja pelo que já foi visto em governos anteriores, seja pelo que os partidos que buscam estrear no poder executivo propõem. Como combater o que cada um entende como essencial ao país? Seria avançando sobre tudo aquilo que possa ameaçá-los, ou mostrando resistência? Propor a discussão ou fechar trincheiras? Se essas possibilidades já geram muita controvérsia entre os adultos, é preciso mostrar algum caminho para crianças, adolescentes, jovens. Não esperamos estar todos alinhados dentro disso. Pode-se estar do mesmo lado político, inclusive, mas discordar profundamente entre famílias, escolas, educadores, sobre que postura adotar e como orientar.

Em todo caso, é preciso criar espaços para pensar. Ler, discutir – e muito. O âmbito comum permite a elaboração. Assumir uma posição e ficar sozinho com ela, na atual conjuntura, seria o pior dos mundos. Sendo assim, se é possível conversar sobre isso na mesa do jantar, nas assembleias em sala de aula, no recreio, no parque, onde for, tanto melhor.

O maniqueísmo é uma ferramenta útil que brota com facilidade em momentos de crise, e crianças e adolescentes têm forte tendência a dividir o mundo em dois, ou em poucos aspectos. Em época de eleição, todo candidato assume que o melhor lado é o dele, e promove essa ideia. Sendo assim: quando os agentes políticos configuram uma situação de maniqueísmo antagônico, como oferecer a crianças e adolescentes uma compreensão do mundo que se dê pela via do pensamento, da ponderação, da análise? Não queremos parar na próxima estação com um chocolate na boca. Sugestões são bem-vindas.


[1] Publicado em “História e Religião”. Lana Lage de Gama Lima et al. Rio de Janeiro, FAPERJ: Mauad. 2002.

Precisamos falar sobre isso

Uma pequena reflexão sobre um difícil tema

Por Susane Lancman, coordenação do Ensino Médio

Como nos posicionar diante de tragédias públicas envolvendo jovens?

Esse foi o convite que recebemos das mais variadas formas e dos mais variados sujeitos: alunos do Ensino Médio adentrando a sala da coordenação pedagógica e da orientação educacional com interesse legítimo de conversar, pais preocupados ligando e enviando e-mail, professores em todos os espaços da Escola discutindo o contexto social e escolar, amigos e conhecidos em restaurante e supermercado querendo obter informações que explicassem a relação entre jovens e suicídio.

Por infeliz coincidência, já dada a seriedade e gravidade das notícias, eu estava lendo um livro cujo título antecipa o peso do enredo: “O pai da menina morta”. O autor, Tiago Ferro, inicia a escrita do livro logo após sua filha ter morrido, e com uma linguagem arrojada e uma forma textual pouco convencional nos faz conhecer a dor dilacerante de perder uma filha. Sua escrita é visceral. Quase podemos sentir a dor aguda em nossas vísceras. Quase vemos as lágrimas e o sangue escorrendo pelas páginas.

“Você deixou sua filha morrer. Que espécie de pai você é? Como ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!” Assim, escreve Ferro em um dos questionamentos do protagonista da história. A culpa pela morte da filha está presente no decorrer do texto, mas mais do que isso há a tentativa inócua de compreender a logicidade do fato. A morte não tem lógica. Menos ainda a morte de uma filha. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada por um vírus. Menos ainda a morte de uma filha de 8 anos causada pelo vírus da gripe. Não há lógica.

O suicídio sofre do mesmo mal, sua ilogicidade. Há uma dificuldade extrema de ser compreendido, ainda mais quando se trata de jovens. Mais ainda quando se trata de jovens de classe social alta. Mais ainda quando se trata de jovens com boas famílias, boas viagens, boas escolas, bons amigos. Podemos inferir que eram jovens com boas vidas. Mas, uma boa vida não pressupõe uma vida sem agruras, tristezas, amargor, dissabor, angústia, vicissitudes, fragilidades, desequilíbrios. Se há algo democrático, como sinônimo de igualitário, nesta vida, é o sofrimento psíquico. Esse não diferencia os humanos em classe social, etnia ou credo, é universal, podendo atingir qualquer um, basta ser humano e estar vivo.

No livro, o protagonista faz listas infindáveis durante toda a narrativa tentando colocar ordem no caos. Lista de medos. Lista de títulos. Lista do que fazer. Lista do que não fazer. Lista de tratamentos. Lista de dúvidas bobas. Além disso, o protagonista busca o significado das palavras, também com a intenção de domar o caos. Significado da palavra céu. Significado da palavra cérebro. Significado da palavra miocardite. Significado da palavra clube. Mas não há lista e significado que deem conta da morte.

Como responder às demandas de posicionamento diante das tragédias?

Não há prescrição. Não há manual. Não há bula. Mas há sujeitos impactados, comovidos, sensíveis. Sujeitos capazes de analisar contextos complexos e não reduzir a dor à pressão escolar, nem à separação de pais, nem à decepção amorosa ou briga entre amigos. Sujeitos capazes de escutar. Sujeitos que sabem a importância da palavra.

Tiago Ferro buscou ajuda com Drummond, Gilberto Gil e Eric Clapton. Ele procurou seus pares que também perderam filhos. Na Escola nossa tentativa é que alunos, pais e professores sintam que têm pares, que as vozes apareçam em nossa comunidade.

Escola da Vila

No dia 5 de maio, na Folha de São Paulo, a personagem da cartunista Fabiane Langona ilustra a tentativa de fingir a felicidade, inclusive utilizando álcool. Fingir para quem? Quanto tempo de fingimento? É preciso sempre mostrar que está feliz, as redes sociais que o digam, o que é muito penoso. Sem dúvida esse pode ser um investimento muito perigoso. Talvez seja essa uma das grandes infelicidades: a necessidade de se mostrar feliz o tempo todo.

Tentar aplacar a dor com fingimentos e álcool pode ser muito danoso. A tristeza precisa aparecer na escola, no clube, nas casas, ainda mais entre os jovens que estão em processo de construção identitária. Mas não é de hoje que a tristeza e a depressão devem ser escondidas, já foi até considerado pecado grave, afinal isso demonstrava subestimação ao poder Divino que possibilitou a vida, inclusive em cemitérios judaicos era costume colocar os suicidas nas margens do cemitério por terem desprezado a vida, não mereciam a centralidade.

Escola da Vila

No mesmo dia, também no jornal Folha de São Paulo, o cartunista Caco Galhardo ilustrou o desabafo de Lili com a sua sensação de “afundamento”, e seu par parece não levá-la muito a sério, afirmando ser uma simples impressão, imaginação, um equívoco.

Tiago Ferro sabia que o que sentia não era “impressão”, talvez tenha escrito o livro como forma de ajustar a vida depois da ausência da filha, de conviver com a perda, de encontrar um novo sentido para vida. Ele precisou escrever. Nós precisamos falar sobre dor, precisamos falar sobre morte. Precisamos levar essas dores a sério. Uma gripe pode levar à miocardite. Uma tristeza à depressão. O álcool à impulsividade. A ideia não é alardear, apavorar, pelo contrário, é cuidar de nossa saúde psíquica em uma sociedade adoecida.