Jovens da Vila pelo Clima

Por Mateus Moreira, professor de Biologia do Ensino Médio

Vocês conhecem a jovem Greta? Assim começou a conversa com os alunos dos 1ºs anos do Ensino Médio sobre a campanha mundial Jovens pelo Clima. Muitos alunos já a conheciam, outros tantos tomaram conhecimento durante o encontro, mas é certo que todos se impressionaram com o que Greta conseguiu fazer (Greta Thunberg juntou-se a milhares de jovens na greve estudantil pelo clima).

Essa provocação do professor nasceu das atividades do Grupo Critique quando conheceu a iniciativa de alunas da Escola Parque que recentemente haviam firmado um coletivo tendo essa temática como centro de suas atuações.

Assim, os jovens da Vila também se impeliram a impactar mais pessoas no que se refere a ações pelo clima e criaram um grupo de discussão. O primeiro encontro foi de levantamento de ideias e ações.

E já no segundo encontro, dia 16 de setembro, as quatro escolas do Grupo Critique: Escola da Vila, Escola Viva/SP; Escola Parque/RJ e Escola Mangabeiras/BH puderam promover uma conversa virtual entre seus alunos mobilizadora pela questão climática planetária.

O propósito da Conference call era trocar experiências, desenvolver ideias e fortalecer os jovens para a ação. Dessa forma, reuniram-se de maneira bastante autônoma, com algum apoio dos professores, mas num roteiro totalmente coordenado por eles mesmos! Aparentemente a iniciativa foi um sucesso e o coletivo da Parque inspirou o surgimento de coletivos das demais instituições. Assim, demos o primeiro passo na formação de uma rede de coletivos das escolas em prol da reflexão sobre o clima do planeta.

Os jovens de cada escola iniciaram o “encontro” se apresentando, com nome, série e escola. Havia alunos do 8º ao 3º ano do EM. Depois, dois jovens de cada escola contaram sobre o trabalho que desenvolvem relacionado ao tema sustentabilidade. Nossos alunos contaram do grupo SustentaVila e as ações que estão sendo feitas e outras tantas ainda em fase de elaboração.

A atenção, o respeito e a seriedade durante toda a conversa foi emocionante. A cada relato foram feitas perguntas, pedidos de esclarecimentos e sugeridas ideias em um clima de muita parceria. Todos concentrados no imenso desafio de pensar o que fazer para gerar maior mobilização em sua instituição acerca das questões climáticas.

Como impactar as diferentes comunidades para a semana de mobilização global pelo clima que ocorre entre os dias 20 e 27 de setembro? Vamos ver como cada escola responderá a essa questão, mas, principalmente, vamos ver como os diferentes grupos de jovens podem se articular e se fortalecer!

Para saber mais, acesse: Greve mundial pelo clima

Literatura e Educação

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

A Literatura é espaço de arte, e, como tal, é cultura a ser partilhada, conversada, analisada, sentida. Não imaginemos que sempre com conforto, sem conflitos e discordâncias e muito menos com leniência romântica, como se a diversidade e o contraditório não existissem.

Como defende Antonio Cândido[1], para que uma sociedade seja realmente justa deve-se pressupor, como inalienável, “o respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis.”

Entendendo o papel da escola na formação de crianças e jovens com criticidade, compartilhamos dois excelentes textos que abordam essa preocupação e o caminhar indissociável entre Literatura e Educação:

Publicamos hoje “O que a Educação me ensinou sobre a Literatura e por que ambas andam ameaçadas”, de Natália Zuccala, professora na Escola da Vila de Língua Portuguesa e Literatura, escritora e dramaturga. Publicou seu primeiro livro, “Todo mundo quer ver o morto”, em 2017, pela editora Patuá, e integra o grupo “Escritorxs de quinta”. Esse texto foi originalmente publicado na revista digital Vício Velho.

Na próxima segunda, aguardem o texto “Porque Literatura não rima com censura”, de Sandra Medrano, mãe da Vila, pedagoga, mestra em Didática pela Universidade de São Paulo e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é coordenadora pedagógica da área de Língua da Comunidade Educativa Cedac e membro da equipe editorial do Instituto Emília/Revista Emília. Seu artigo foi originalmente publicado no Blog das Letrinhas, da Companhia das Letras.


[1] CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989. p. 116 e 117.


O que a educação me ensinou sobre a Literatura e por que ambas andam ameaçadas

Por Natália Zuccala, professora de Língua Portuguesa e Literatura

A ideia de que a literatura penetra, transpira, é porosa, isto é, de que o tecido literário permite e pressupõe uma postura ativa por parte do leitor foi o que eu aprendi de mais concreto como professora em sala de aula. Tenho lá minha formação acadêmica no curso de Letras na Universidade de São Paulo, me instrumentei e me armei durante os longos anos de graduação para poder falar sobre literatura, no entanto, muito do que diz respeito à parcela de vida que há em uma obra de arte compreendi de fato com meus alunos.

Um conceito caro aos educadores, daqueles que se fazem sentir na pele todos os dias entre o quadro negro e a primeira fileira, é a “transposição didática”. O nome dado por Chevallard é muito feliz, pois justamente se trata de uma transposição que os professores devem fazer de um conteúdo ou prática do campo científico/social para a escola, o ensino, o aluno. Existem, no processo da transposição do mundo para a sala de aula, diversas modificações necessárias para que este conteúdo ou prática se adeque ao jogo escolar e, é claro, parte do sentido real acaba se perdendo neste procedimento. A escola é, e deve ser para que ocorra o processo de ensino e aprendizagem, também uma transposição do real, um simulacro, uma virtualidade cheia de regras próprias. Este universo autônomo refrata e reflete o mundo a sua forma, às vezes tornando-o mais leve e transitável, às vezes endurecendo-o.

Dentro deste contexto, o professor tem a responsabilidade de, ao ler um romance, um poema ou uma peça de teatro em seus estudantes, realizar certos movimentos que permitam a eles relacionar-se com este material. Não que devamos afogá-los em diretrizes e certezas, pelo contrário, é necessário promover o encontro entre estes seres humanos e as palavras da forma mais autônoma possível. Afinal, queremos aproximar as práticas escolares das sociais, já que é mesmo uma das mais importantes funções da escola preparar o indivíduo para contribuir com a sociedade na qual está inserido. Para isso, é necessário que o professor se pergunte: como circulam socialmente estas obras? Sob quais circunstâncias? Por que e como lê-las? Que estratégias utilizamos para fazê-lo fora da escola? A partir dessas questões é que educadores e instituições chegam à atividades como escritas de resenha, seminários, debates.

Há alguns anos, parte do meu trabalho consiste em tentar ter sucesso neste movimento de aproximação entre adolescentes de 10 a 15 anos e obras de Italo Calvino, Mia Couto, Amós Oz, Sófocles… Não que a eles estejam de todo distantes estes autores ou obras, muito pelo contrário, cada um deles tem suas próprias experiências de vida, suas referências, suas famílias e é justamente por conta disso que eu vivo aprendendo mais sobre literatura com eles do que jamais pensei que fosse possível. O clichê do professor que aprende com o aluno não é mero malabarismo de humildade retórica, mas um pressuposto da nossa prática. Não acredito que haja bons professores que não estejam dispostos a aprender.

É também um clichê dizer que os jovens-de-hoje-em-dia leem menos dos que o de ontem, dizia-se isso na minha época de escola, diz-se isso hoje. Acontece que, no caso desta geração 2000, não poderiam estar mais enganados os que dizem isso. Eles leem muito, leem até demais: celulares, vídeos, placas, computadores, imagens, sons, a vida deles é toda leitura o tempo inteiro. Claro, talvez eles não leiam o que nós, autores, professores, beletristas consideramos boa literatura. Mas e o que mesmo é que nós temos a ver com isso?

Bem, o esforço por transpor didaticamente as práticas sociais de leitura para a célula sala de aula fez com que eu tivesse de sair deste lugar de quem somente aponta a falta de letramento das gerações para procurar trazer o que é considerado boa literatura, pela tradição e pela sociedade, aos jovens, que não são necessariamente bons leitores. Até porque é esta mesmo uma das minhas responsabilidades principais: formar bons leitores. Bem como é esta uma das responsabilidades principais da escola: aproximar os alunos da tradição. E, no meu começo, para fazer isso, a primeira estratégia que tentei empreender foi explorar a parcela penetrável dos livros.

Uma das grandes professoras que tive no curso de Letras me impressionava muito por conseguir fazer isso a todo tempo. Ela, docente na disciplina de Introdução aos Estudos Clássicos, atualizava com maestria as questões profundas de personagens importantes como Édipo, príncipe coríntio distante mais 2.500 anos da nossa realidade, e os fazia parecer com nossos jovens dilemas de 20 anos. Desde que comecei a lecionar, este segue sendo meu maior norte, tornar palpáveis e reais os conflitos de Gregor Samsa, Bernard Marx, Aquiles, Alice, Zezé, etc.

Não seria surpreendente dizer que talvez essa seja a tarefa mais fácil que tenho, além de ser  a mais prazerosa. Afinal, o material literário é em sua composição permeável, uns mais outros menos, é cheio de aberturas nas quais os alunos podem inserir-se, imagens nas quais espelhar sua subjetividade, signos plurissignificantes que promovem novos olhares para o mundo, espaços onde colocar-se intelectualmente, e não só onde se colocar, mas também muito do que se tirar de lá. De modo que não há grandes estratégias a serem realizadas, a não ser tornar evidentes estas característica que já são próprias da arte .

Lecionar fez com que eu não pudesse nunca mais deixar de perguntar às minhas palavras (e neste momento falo como escritora): é possível penetrar neste tecido literário que eu criei?, ou ele está fechado demais a ponto de não haver brechas para o leitor? As minhas construções (sintáticas, imagéticas, de narrativa) respiram? Sem dúvida seria necessário escrever outro texto que explicasse o que faz com que as grandes obras tenham estas características, também seria preciso falar sobre as estratégias didáticas que ajudam a despertar nos alunos uma postura ativa e perscrutadora. No entanto, com este relato tenho outro objetivo.

Se, por um lado, é sempre necessária uma boa dose de esforço para operar uma transposição didática bem sucedida, por outro, vejo hoje o quanto este esforço movimentou a mim, o quanto modificou a minha postura em relação à literatura. Ensinar devolve vida ao objeto de ensino, uma vida contumaz inclusive, porque as palavras pulsam no rosto, na fala e nos olhos dos alunos, porque vivem somente na medida em que são lidas, interpretadas, compreendidas e incompreendidas, na medida em que há leitores. Assim, ao mesmo tempo que faço a transposição, ela opera em mim também suas transformações. Eu tento aproximar o aluno do objeto e, na medida em que consigo isso, aproximo-me eu também com mais intensidade.

É claro que eu acredito na imensa importância da teoria e da crítica. Bakhtins, Lukácses, Schwartzes são imprescindíveis para o estudo da literatura, foram, e continuam sendo, primordiais para a minha formação. Aliás, são estes e outro grandes teóricos os que me ajudam a ler com meus alunos e construir análises mais complexas. Mas a força que existe em assistir e participar das descobertas literárias de um jovem leitor é inexprimível. Testemunhar um poema ganhando sentido para um grupo que, coletivamente, dá saltos interpretativos e compõe significados através do diálogo, da análise, da crise, da controvérsia, da observação é, além de emocionante, uma experiência muito construtiva para escritores e críticos. Porque as descobertas literárias marcam, modificam, transformam aspectos dos mais essenciais à existência, colocam em cheque nossas perspectivas de mundo ao tocarem no que há de mais estrutural nelas; seja através da identificação ou empatia com os personagens, seja através da dor ou da frustração que experienciamos com as narrativas, seja pelo ineditismo de suas composições: a arte instaura cosmos que se chocam com nossas representações de mundo a partir exatamente daquilo que temos em comum com ela, isto é, nos deixamos penetrar pela literatura na medida em que ela permite ser penetrável e deste intercâmbio não saímos ilesos. Seja como for, facilitar este tipo de experiência ensina sobre a literatura tanto quanto vivê-la como leitor. Bons leitores e bons autores sabem muito bem disto, e é por esse motivo que são tão perigosos.

Em um país como o nosso, nos quais as conquistas na educação ainda não podem ser consideradas sólidas e os seus pilares sofrem censuras, é papel dos educadores reforçar a sua própria importância. Somos fundamentais para formar bons leitores, bons estudantes, seres humanos plenamente capazes de conviver em um mundo letrado, indivíduos que produzam conhecimento, pessoas autônomas acima de tudo, que atuem em sociedade de maneira responsável. Acontece que não há bons professores que não conheçam bem o sentar na carteira. Nós, como todos os outros profissionais, devemos questionar a nossa prática, investigá-la, aprender mais sobre ela sempre, se quisermos melhorar. Não só em sala de aula com os nossos alunos, mas nas Universidades e na pesquisa acadêmica, talvez principalmente aí, pois somente a pesquisa é capaz de democratizar as descobertas feitas no microcosmos da escola, já que tem o poder de difundi-las. Deste modo, quando um governo ataca a pesquisa, o que está sendo atacado, claro, é o acesso ao saber. Se, além disso, o foco deste ataque são as ciências humanas, e dentre elas a literatura, então o que observamos não é só uma entrave ao alcance do conhecimento básico e instrumental, mas a esse tipo de experiência modificadora sobre a qual discorri durante este breve relato, ou seja, à construção de uma leitura complexa do mundo, à empatia, ao olhar crítico, à possibilidade de ressignificar seu contexto social e até mesmo à simples ludicidade. O que se deseja cercear é a possibilidade de construção da própria narrativa.

Nos últimos oito anos, aprendi em sala de aula a observar o pulsar da literatura, o ar que atravessa as palavras. Tenho entendido, nestes tempos, o quanto essas experiências podem censuradas por lideranças autoritárias em tempos de retrocesso. Mas o mais importante é o que ainda hei de ver, o que os últimos gestos dos movimentos estudantis têm deixado evidente: as conquistas na educação, mesmo que tímidas, são profundas e, por mais que se demore a alcançá-las, são perenes.

Pedalar: por que sim?

Prezadas leitoras e leitores,

Destacamos em nosso blog, o texto de Sasha Hart, pai da Vila, entusiasta e “bikeanjo”, que gentilmente aceitou nosso convite de enfatizar o quanto devemos todos nos engajar e aderir a meios de deslocamento ativos e limpos. Com dados muito interessantes, vemos o quanto as bicicletas ganham espaço e importância em nossa cidade.

Contribuindo para essa conscientização, esse sábado teremos nossa esperada Bicicletada dos 7ºs anos, no Parque Villa Lobos! Esperamos que escola e famílias juntas promovam, cada vez mais, a experiência de nos deslocarmos via bike!

Pedalar: por que sim?

Escola da Vila

Por Sasha Hart, hidrogeólogo, pai e Bike Anjo

Bicicleta é coisa de criança, adolescente, adulto e idoso. Todos têm o direito de pedalar, seja para lazer, para melhorar a saúde, como esporte, para fazer entregas ou para sua mobilidade. Na cidade de São Paulo, centenas de milhares de pessoas pedalam diariamente e, seguindo a tendência global, cada vez mais. Por exemplo, a ciclovia da Av. Faria Lima, em poucos anos desde sua instalação, já é uma das mais usadas do mundo[1] [2]. Na Av. Eliseu de Almeida, chama a atenção o fato de que, após a instalação da ciclovia, também cresceu muito a porcentagem de ciclistas crianças e mulheres[3].

Mas… é seguro pedalar em São Paulo? A cidade está desafiadora para todos os tipos de mobilidade, entretanto, é notório que, onde foram instaladas ciclovias ou ciclofaixas, os riscos diminuíram muito (para ciclistas, bem como para pedestres e motoristas). Além dos ciclistas passarem a ter um espaço exclusivo, tipicamente ocorre ali um efeito que os especialistas chamam de Acalmamento de Tráfego (inclusive porque permite um aumento na visibilidade entre pessoas na rua e na calçada). Os dados históricos[4] mostram também que o número de vítimas em todos os modais (menos motociclistas) já apresentava antes uma tendência geral de diminuição (possivelmente relacionado a melhoras na legislação e fiscalização, diminuição de velocidade, entre outros fatores). Outra boa notícia é que a Prefeitura divulgou que pretende até o ano que vem fazer novas ciclovias e ações para melhorar a segurança[5]. Vamos cobrar (inclusive nas iminentes audiências públicas – abertas a todo mundo) para que melhorias ocorram logo, de forma eficiente e também perto de escolas.

Ainda assim, há muito a ser feito (por todos!) para melhorar o trânsito, inclusive sobre o respeito e a educação. Soluções existem[6], mas não pense duas vezes: pedale sempre com capacete e muita atenção, de preferência acompanhado (avalie ficar próximo de outros ciclistas que estejam fazendo o mesmo caminho).

Para quem não sabe pedalar ou tem algum receio, sugiro checar a plataforma Bike Anjo. Ela é uma rede de apoio (gratuita) que foi criada há quase 10 anos em São Paulo. Desde então ela cresceu para 739 cidades (em 34 países) e já ajudou dezenas de milhares de pessoas. Após o cadastro, a plataforma faz a ponte entre quem precisa de ajuda e possíveis voluntários/as (que ensinam a pedalar, fazem companhia no seu percurso, dão recomendações sobre rotas e muito mais). É bem capaz que o, ou a, ciclista more próximo de você.


[1] ecopublic.com

[2] cetsp.com.br

[3]ciclocidade.org.br

[4] cetsp.com.br

[5]vá de bike

[6]bikeelegal.com

Vilalê: descobertas e amigos inesperados

Escola da Vila

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Por Sofia M. Duarte Pedrosa Rechi Aguiar e Tiago Costa Soriano – Formandos do Ensino Fundamental 2

Todos nós já nos sentimos solitários. Não pertencentes. Em dúvida sobre gostos, personalidade, sobre nós mesmos. Às vezes encontramos acolhimento onde menos esperamos, e é isso que o Vilalê representa para muitos de nós. Um lugar onde ninguém lhe julga. Onde até mesmo os mais tímidos têm voz.

Começamos todo ano escolhendo um livro. Esse sempre é sugerido pelo grupo e eleito a partir de uma votação, portanto todos conseguem ser atendidos de alguma forma. Fazemos leitura compartilhada nos encontros de quinze em quinze dias, discutindo o que lemos em casa e no encontro passado. Sempre há diferentes interpretações e observações, deixando a leitura mais rica e com diferentes opiniões sobre os acontecimentos do livro.

Com um grupo diverso e unido, inclusive na questão da idade (que é mais evidente nesta fase da nossa vida), conseguimos, por meio de sorrisos, espantos e lágrimas, finalizar a leitura. Após o final de cada livro, um sentimento de preenchimento inunda nossas mentes e corações. Êxtase dos amantes de bibliotecas.

A escrita e a leitura se mostram libertadoras. No Vilalê, ninguém nos força a nada. Ambiente mais aberto e leve não poderia existir. Sempre mudamos de espaço físico, mas a empolgação pelo próximo capítulo do livro se mantinha a mesma. O Vilalê foi como um veículo de descoberta sobre nós mesmos. Um grupo que acabaria se tornando muito mais amigo do que começou e nos faria aprender muito além do imaginado.


Agora que vou me formar e sair da Vila, este meu último encontro me fez lembrar de como vou sentir falta da experiência de ler livros impressionantes (que guardo com carinho em minha prateleira) em uma roda unida pelo interesse em comum por histórias e, claro, pipoca. Agradeço de coração à Fernanda, que, com todo o seu carisma, media o Vilalê e se esforça para enriquecê-lo de diversas formas (já chegamos até a conversar com uma autora holandesa). Àqueles que estão chegando, saibam que, para quem gosta de ler, o Vilalê só tem vantagens. Adeus e obrigado por tudo!

Vinícius Silva Fernandes Kuhlmann – Formando do Ensino Médio

Alunos da Escola da Vila visitam o maior empreendimento científico da história brasileira

Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no Flickr

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Por Alex Brilhante, professor de Ciências Naturais e Física

Apesar dos cortes drásticos de orçamento para a ciência, desde 2015 o Brasil vem construindo o seu mais grandioso projeto científico: o Sirius, um imenso acelerador de elétrons que será uma das melhores máquinas do mundo no gênero, possibilitando a realização de experimentos na fronteira do conhecimento e atraindo pesquisadores internacionais.

Com previsão de entrada em funcionamento já em 2019, o Sirius tem como peça central uma circunferência de mais de 500 metros, onde os elétrons chegam a uma velocidade próxima à da luz. Ao realizarem a curva ao longo da circunferência, os elétrons emitem radiação eletromagnética, ou seja, luz. As particularidades da luz emitida pelo acelerador permitem a observação em escala molecular e atômica de diversos tipos de materiais, de semicondutores a fósseis, o que faz dessa máquina um instrumento versátil e estratégico para pesquisas em áreas tão diversas, que vão de nanotecnologia a biociências.

A construção do Sirius não é uma mera aposta grandiosa, esperando por resultados incertos. Desde 1997 o Brasil já conta um grande acelerador de elétrons, o acelerador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, que talvez seja o nosso empreendimento científico mais bem-sucedido até o momento. Trata-se de um laboratório nacional, ou seja, aberto para pesquisadores de todo o Brasil e do mundo, que já recebeu milhares de pesquisadores ao longo de suas duas décadas de funcionamento. O Sirius é “apenas” um upgrade de mais de 1 bilhão de reais em uma experiência científica de sucesso.

Na semana passada, alunos de nono ano do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio – acompanhados por Regis Neuenschwander, da Divisão de Engenharia do LNLS – tiveram a oportunidade única de observar, de dentro da construção, como funcionará o futuro acelerador de partículas. Assim que a construção terminar, não será mais possível entrar nos meandros do acelerador. Além de visitar a construção da nova máquina, nossos alunos visitaram a máquina que está atualmente em funcionamento e aprenderam como essas máquinas produzem imagens em escalas moleculares e atômicas, além de terem visitado os demais laboratórios que compõem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas.

Nossa iniciativa, ao mesmo tempo que tem por objetivo aproximar nossos alunos da ciência nacional – mostrando as áreas de pesquisa em que temos uma tradição de produção científica de qualidade para, quem sabe, estimular alguns alunos a enveredarem no mundo instigante da pesquisa científica –, é também o nosso reconhecimento da importância da ciência na construção de uma nação, importância nem sempre divulgada propriamente. Dados de uma pesquisa sobre a percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil, publicada em 2015 pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), nos mostram que apesar da atitude altamente favorável à ciência manifestada pelos brasileiros, apenas 12% dos entrevistados pela pesquisa conseguiu se lembrar de alguma instituição científica brasileira, número bastante pequeno mesmo se comparado a países com uma trajetória científica similar à nossa, como a Argentina, por exemplo, em que 25% dos entrevistados sabiam nomear alguma instituição de pesquisa.

Sabemos que a produção científica é uma atividade cara e, em grande medida, custeada por todos. Se a produção científica nacional não for divulgada adequadamente, nada garante que a sociedade civil veja sentido em seguir apoiando a ciência e os cientistas brasileiros.

A diversidade extrapola os muros das classes

Escola da Vila

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“Si hay algo semejante en todas las aulas, es precisamente que en todas reinan las diferencias.” Delia Lerner

 Por Angela de Crescenzo e Julia Narvai, Orientação Educacional do Fundamental 2 

Todos temos distintos tempos para aprender, mas a escola, de uma forma geral, quer que todos aprendam ao mesmo tempo, da mesma forma, o mesmo conteúdo. Essa questão é sempre motivo de reflexão na Vila, novas formas de agrupamentos são pensadas e experimentadas e o GEPE – Grupo de Estudos de Produção Escrita surge como mais uma iniciativa nesse sentido.

Um dos temas norteadores de diversas ações institucionais da Vila em 2018 é o atendimento à diversidade. A escola já realizou, este ano, uma série de reuniões pedagógicas dedicadas ao tema, para nossa equipe interna, e também vem atuando na formação de profissionais de outras escolas e na formação da nossa comunidade escolar – como a viagem pedagógica internacional para Buenos Aires e uma reunião de famílias cuja pauta foi a diversidade.

Entre tantas outras ações realizadas, inauguramos no 1o trimestre um projeto piloto para o Fundamental 2 na Unidade Morumbi: o GEPE. Emilia Ferreiro diz que cabe à escola “transformar la diversidad conocida y reconocida en una ventaja pedagógica” e para isso é preciso criatividade, pensar em novas formas de ensinar, de acolher as diferenças existentes. O grupo se reúne uma vez por semana e tem por objetivo favorecer o vínculo positivo dos alunos com as aprendizagens que envolvem leitura e escrita, além de criar mais condições para que se sintam confiantes dentro e fora da sala de aula.

No GEPE, a diversidade é justificativa, método e objetivo. Temos um grupo multisseriado, composto por alunos de 6o a 9o ano, com diferentes trajetórias escolares. Uma das principais estratégias que utilizamos é proporcionar a interação intencional desses alunos, ao constituir um novo grupo, de modo que possam assumir papéis diferentes do que estão acostumados a exercer. Para nós, o mais importante é que os papéis se alternem: queremos que um mesmo aluno possa vivenciar o lugar de quem sabe e de quem aprende, sabemos que quando o aluno está no lugar de quem ensina também aprende muito, pois, ao fazer esse exercício, precisa reorganizar o que sabe e, assim, ensinar o colega.

Outro ponto importante é que estamos constantemente dialogando com as aprendizagens propostas nos cursos regulares de cada série, apesar de não abordar os mesmos conteúdos trabalhados em sala de aula. A partir do repertório criado ao longo de toda a escolaridade dos alunos, da apreciação dos contos escritos pelos alunos de 8os anos de séries anteriores e da proposta de leitura de uma resenha crítica sobre um livro de contos, os alunos foram convidados a produzir livremente um conto. Esse é o depoimento que recebemos de uma aluna do 6o ano que está estudando contos fantásticos em sala de aula e vindo ao GEPE: “Neste trimestre eu amei o tema que a Ju e a Angela propuseram porque fiquei superinteressada e empolgada para escrever meu conto sobre uma menina que não tinha condições financeiras para estudar em uma escola particular. Foi um dos textos que ficou mais longo e mais bem escrito por mim!! Esse foi um projeto muito legal e interessante, porque lemos textos feitos por alunos de anos anteriores, fizemos contos e revisões. Todo esse processo me ajudou a ter novas ideias para escrever meus contos fantásticos em sala de aula. Foi uma boa ideia a escola criar esse projeto!!” F. M. 6o ano

Foi estudando os documentos argentinos e por meio das contribuições da última viagem internacional que encontramos sustentação para desenvolver esse trabalho. Uma publicação do Ministério da Cultura e da Educação da Argentina propunha, já em 1986, que “para dar respuesta a la diversidad cultural y lingüística, no había que atender de manera especial a “los diferentes” sino modificar las actividades escolares para todos los alumnos (…) Esto suponía producir algunos cambios en la organización de la escuela y, sobre todo, suponía crear instancias periódicas en las que se invertían los papeles en relación con el poder lingüístico”. (El fracaso escolar no es una fatalidad).

Do ponto de vista do professor e da escola, quando pensamos em agrupamentos flexíveis também temos que fazer um exercício de propor atividades que atendam a diversas cronologias de aprendizagem, isso supõe construir um novo saber pedagógico.

Outra preocupação é que os alunos que estão trabalhando em pequenos grupos no contraturno (GEPE) levem informações e produções para os demais, pois assim estarão sendo validados como grupo que sabe e está produzindo saber.

Além dessa estratégia, também temos promovido durante os encontros o trabalho com produções escritas que extrapolam os temas discutidos e trabalhados em sala de aula a fim de ampliar o repertório cultural e a reflexão sobre temas do mundo. A discussão e a produção escrita que os alunos fizeram a partir das leituras do texto “Todo mundo cresce igual?”, postado no blog Capitolina, e “Vida perfeita só existe no Facebook”, da revista TPM, foram bastante positivas na nossa avaliação. Trazemos temas que são presentes na vida deles, que fazem parte das reflexões da faixa etária. Um aluno do 8o ano nos deu o seguinte depoimento: “O GEPE é outra oportunidade de melhorar. No GEPE não são abordados apenas os temas estudados dentro da matéria de LPL, como a matéria de LPL no geral. É interessante essa troca de conhecimentos entre alunos de diferentes séries, porque isso ajuda a expandir o conhecimento de cada aluno, já que cada um tem um discernimento diferente sobre a matéria de LPL e pode contribuir para ampliar o aprendizado do próximo. Fizemos uma atividade interessante que consistia em ler um texto e analisar as diferentes interpretações que esse texto propõe sobre a ideia de crescer. Cada um também pôde dar a sua opinião sobre a sua maneira de entender o que é crescer.” R.G. 8o ano

No GEPE a avaliação é constante, por meio da troca entre eles e da nossa observação e análise das produções e da participação dos alunos. Assim, conseguimos dimensionar os avanços nos procedimentos e nas produções. Da mesma forma avaliamos constantemente o próprio projeto para que cumpra cada vez melhor com seus objetivos. Sabemos que aprender não é um processo simples, mas os depoimentos abaixo demonstram entusiasmo com a iniciativa e com algumas das conquistas já observadas por eles.

“O GEPE me ajudou porque, conversando com um colega que já havia passado pela experiência de produzir contos no ano anterior, consegui perceber que eu havia colocado detalhes na história que já haviam sido citados no começo do texto, e achei essa ajuda muito legal.” B. G. 8o ano

“Estou achando muito legal o GEPE!!! Ele está me ajudando muito com escrita de texto e além disso o GEPE é muito legal e divertido” N.M. 6º ano

O GEPE para mim é uma oportunidade de poder melhorar… Apesar de parecer com o SMA, eu acho que é bem diferente, porque lá no SMA costumamos estudar uma matéria que estamos vendo, especificamente a matéria de cada trimestre. Já no GEPE nós vemos temas mais gerais e que não só ajudam temporariamente para uma matéria, mas sim para boa parte delas, visto que há alunos do 6º ao 9º ano juntos estudando um mesmo tema. Por isso acho que o GEPE ajuda bastante com o estudo, seja para o 6º, o 7º, o 8º ou para o 9º.” T.T. 9o ano 


Referências

LERNER, Delia. Enseñar en la diversidad. Conferencia dictada en las Primeras Jornadas de Educación Intercultural de la Provincia de Buenos Aires: “Género, generaciones y etnicidades en los mapas escolares contemporáneos”, 2007.

TERIGI, Flávia. As cronologias de aprendizagem: um conceito para pensar as trajetórias escolares. Conferência realizada em 23 de fevereiro de 2010 na Jornada de abertura do ciclo letivo de 2010 – Ministério de Cultura e Educação – Governo de La Pampa. Tradução: Miruna Kayano Genoino, 2017.

Vilalê – O clube de leitura da Escola da Vila

Escola da Vila

Por Luiza Moraes, professora de LPL do F2 e
Fernanda Passamai Perez, auxiliar da biblioteca da unidade Butantã

A literatura é coisa inesgotável, pela suficiente e simples razão que um só livro já o é. O livro não é uma entidade enclausurada: é uma relação, é o centro de inúmeras relações. Seja ela anterior ou posterior, uma literatura difere de outra, menos pelo texto do que pelo modo como ela é lida.
Roger Chartier¹

Desde 2012, quinzenalmente, durante uma hora, alunos de todas as séries do Fundamental 2 da Escola da Vila se reúnem para compartilhar os desafios e os prazeres da leitura literária nos encontros do Vilalê. Com seus livros em mãos, leem em voz alta, discutem impressões, aprofundam interpretações e entram em contato com a leitura literária tal como acontece em um verdadeiro clube de leitura. Por conseguinte, se deparam com o universo simbólico das narrativas, o qual ressignificam e com o qual dialogam e estabelecem relações de foro íntimo, coletivo, ancestral. Dessa maneira, além do sentimento de pertencimento de uma comunidade leitora, já existente na escola, os integrantes constituem também a identidade do grupo.

Escola da Vila

O grupo elege um título para ser lido e discutido durante determinado período e, com a mediação de Fernanda Perez, mediadora de leitura da biblioteca Tatiana Belinky, compartilham momentos preciosos de discussão literária. Nos últimos anos, se aventuraram por Jurassic Park, se emocionaram com Iqbal, desvendaram os mistérios de Agatha Christie com E não sobrou nenhum, entre outros. Agora, estão finalizando a incursão em A guerra dos mundos, de H.G. Wells, clássico da ficção científica.

Escola da Vila

Dessa forma, o Vilalê faz parte do projeto de educação literária da Escola da Vila, em que nos empenhamos em formar leitores de literatura que se sintam implicados na leitura e que possam colocar em jogo diferentes formas de fruição e compreensão dos textos com os quais têm contato. Afinal, como aponta Teresa Colomer em Andar entre livros: “(…), falar sobre livros com pessoas que nos rodeiam é o fator que mais se relaciona com a permanência de hábitos de leitura, (…) parece ser uma das dimensões mais efetivas nas atividades de estímulo à leitura”².

Escola da Vila

A seguir, o depoimento do aluno Lorenzo Almeida, do 8o ano, sobre a sua experiência no Vilalê:

“Eu acho interessante a ideia do clube do livro aqui na escola, porque eu não só ouço a minha opinião, o que eu entendo sobre o livro, mas eu também ouço o que outras pessoas interpretam. Daí eu posso formar a minha opinião a partir de várias ideias de várias pessoas. Na leitura de “A guerra dos mundos”, achei legal o jeito como os personagens agem. Eu gostei desse narrador personagem, porque ele conta como viu as cenas, então quando ele está com medo, ele vê a cena por um outro ângulo, vê tudo mais depressa, ele fica mais confuso. A dinâmica do grupo é muito boa, porque sempre quando eu acabo um pouco perdido, a gente pode discutir sobre o que acabou de acontecer e falar sobre o livro”.

Escola da Vila

O Vilalê acontece com os alunos do Ensino Fundamental 2, às sextas-feiras, no período da tarde.


¹CHARTIER, Roger. Escutar os mortos com os olhos. Revista Humanidades. Estudos avançados 24 (69), 2010. (p.23).

²COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo, Global, 2007.

Ver, viver e ler a cidade, caminho para a cidadania

Escola da Vila
Na escadaria da Sé, de olhos fechados, alunos refletem sobre o que centro diz sobre nós

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Por Tiago Pinto Ferreira, professor de Ciências Humanas do F2

Dia 1º de maio de 2018, São Paulo acordou mais cedo. Era Dia do Trabalho, um dia de luta. Às 2h da manhã, um edifício de 24 andares veio abaixo, no centro da cidade; a luta, virou luto. A imagem do prédio desabando se espalhou rapidamente pelas televisões e pelas redes e ganhou contornos ainda mais dramáticos, por registrar o exato momento em que um morador, prestes a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros, foi engolido pelas chamas e escombros. Ricardo, mais conhecido como Tatuagem, tinha 30 anos, trabalhava como carregador, gostava de plantas, era skatista e foi a primeira vítima fatal da tragédia.

O edifício Wilton Paes de Almeida já havia abrigado a sede da Polícia Federal e desde 2002 pertencia à União. Por estar abandonado, em uma cidade com um déficit habitacional de cerca de 358 mil moradias[1], foi ocupado por um dos vários movimentos sem-teto da cidade e passou a abrigar cerca de 50 famílias de trabalhadores. Somente no centro de São Paulo são 70 prédios ocupados[2] e, na cidade, cerca de 708 edifícios[3] já foram notificados por não estarem cumprindo sua função social, ou seja, não são utilizados para moradia, atividades econômicas, sociais ou culturais, como determina a Constituição Federal.

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Aluno do 8º ano, observando o prédio Wilton Paes de Menezes, dias antes da tragédia

A despeito das dúvidas que envolvem o caso, como a idoneidade dos coordenadores do movimento dessa ocupação e as diferenças entre as estratégias e os valores, que orientam os inúmeros grupos que lutam pelo direito à moradia em São Paulo, a tragédia, como faísca, reacendeu um importante debate em nossa sociedade: por que existem tantos imóveis vazios em uma cidade em que tantos não têm onde morar?

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No transporte público

Dia 6 de abril, um grupo de alunos do Ensino Fundamental II da Escola Vila foi para o centro de São Paulo, com o objetivo de descobrir o que essa região da cidade revela sobre nossa realidade social. Para responder a essa questão, percorremos um roteiro que se iniciou na Praça da República e se encerrou na Sé. Os alunos, divididos em grupos, observaram principalmente os tipos sociais, os prédios, suas funções e arquitetura, os diferentes usos do espaço público, a arte de rua e registraram suas observações em diferentes formatos, como fotos, desenhos e versos. No trajeto, a primeira parada se deu no Largo do Paissandu para observarmos um prédio todo de vidro, que chamava a atenção por estar pichado de cima a baixo e por se tratar de uma das maiores ocupações do movimento sem-teto no centro. “Tem pessoas morando aí?” Em seguida, cruzamos a famosa Galeria do Rock, berço de diversos movimentos culturais, como o punk, o hip-hop, dentre outros. Saindo da galeria, caminhamos em direção ao Theatro Municipal, edifício inspirado na Ópera de Paris e palco principal da Semana de Arte Moderna de 22. No outro lado da rua, um shopping ocupa o antigo prédio da Light, empresa que teve papel central no planejamento urbano de São Paulo.  No Viaduto do Chá, paramos para ouvir a cidade: o som dos carros quase lembra o som do rio… Em frente à Praça do Patriarca, “Praça do Patriarca?”, os alunos avistaram a sede da prefeitura. Na entrada, o brasão da cidade: Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), e em todo o seu entorno, grades e polícia. “Por quê?”

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Theatro Municipal

No muro da Igreja de São Francisco que, junto com o Mosteiro de São Bento e Catedral da Sé, compõe o famoso Triângulo Histórico, marco do princípio da urbanização da cidade, lia-se “Menos cadeia e mais escola”. Próxima estação: Sé. Onde tudo começou, onde tudo termina. “Por que estas pessoas estão aqui?” ou, parafraseando Adoniran Barbosa, “e essa gente aí, como é que faz?”.

Aprender na cidade

Na Carta das Cidades Educadoras, elaborada no 1º Congresso Internacional das Cidades Educadoras (1990), reuniram-se “os princípios essenciais ao impulso educador da cidade”. Nos primeiros parágrafos de seu preâmbulo é possível identificar e compreender o papel que a cidade tem ou pode ter no processo de formação de seus cidadãos:

(…) a cidade oferece importantes elementos para uma formação integral: é um sistema complexo e ao mesmo tempo um agente educativo permanente, plural e poliédrico (…) A cidade educadora tem personalidade própria, integrada no país onde se situa é, por consequência, interdependente do território do qual faz parte. (…) O seu objetivo permanente será o de aprender, trocar, partilhar e, por consequência, enriquecer a vida dos seus habitantes.

Para compreender o “avesso do avesso”, é fundamental ler a cidade. Nesse sentido, é essencial criar novas metodologias e propostas didáticas que possibilitem aos alunos acessar espaços, histórias e realidades que muitas vezes não se encontram nos limites da escola.

Em 2018, o Vila Ativa tem como um dos seus principais objetivos ampliar a relação da escola com a cidade, a partir de atividades que possibilitem a compreensão dos diversos alfabetismos urbanos. Entender a cidade como discurso, e compreendê-lo, permite desconstruí-lo, por meio da criação de caminhos de aprendizagem que o confrontem. Por essa razão, o centro, espaço de convergência, de tempos, rios, pessoas e contradições, é lugar privilegiado para uma leitura crítica de São Paulo e do Brasil contemporâneo. Certamente as imagens captadas pelos alunos ganharam outro sentido e dimensão. O prédio que estava lá não está mais, as pessoas que estavam lá não estão mais. De onde vieram? Para onde vão? Qual o papel do Estado nessa tragédia? E o nosso?

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Ver, viver e ler a cidade é, portanto, um objetivo a ser perseguido pela Escola. Trata-se de uma estratégia que certamente enriquece o processo de construção do conhecimento, e que pode contribuir, de maneira decisiva, para a formação de cidadãos atuantes, sensíveis às desigualdades de toda ordem e, por consequência, comprometidos em participar da criação de realidades outras, mais justas, mais humanas.


[1] Fonte: Secretaria Municipal de Habitação.

[2] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

[3] Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.

Para além do trabalho em sala…

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Por Gislaine Carvalho Rasi e Raphael Dias de Castro,
professores de Matemática do F2

O espaço da Oficina de Matemática foi criado com o intuito de oferecer mais uma oportunidade de estudo e atender algumas dificuldades apresentadas pelos alunos do Fundamental 2 na área. É voltado àqueles que demonstram recusa ou demora em iniciar as propostas, não mobilizando, de imediato, os conhecimentos anteriores; aos que desistem rapidamente da resolução de uma situação; aos que solicitam em excesso a ajuda do professor para confirmar o acerto; e também para aqueles que têm dificuldades de perceber os erros que cometem.

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Nas aulas, os alunos vivenciam práticas do fazer matemático, explorando e investigando diferentes situações, participando ativamente e ocupando lugares de quem vai apresentar ou explicar algo para o outro. Resolvem desafios, aplicam a matemática em situações cotidianas, discutem estratégias e resoluções, elaboram sínteses para retomar os conteúdos sobre os que ainda têm dúvidas e conhecem recursos tecnológicos interessantes utilizados na disciplina. No trabalho em grupos, são instigados a comunicar aos colegas o que pensam, visando restaurar o poder linguístico.

Além disso, os alunos da oficina lidam com diferentes práticas de estudo, e situações de autoavaliação, propiciando elementos para sua autorregulação e elaboração de um projeto pessoal.

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No primeiro trimestre de 2018, os alunos investigaram os conceitos de área e perímetro. Primeiramente, tiveram o desafio de estimar as medidas de uma sala de aula utilizando-se de diferentes estratégias, que foram desde a contagem de azulejos no piso até mesmo ao uso de seus pés e palmos como parâmetro. Na aula seguinte, puderam utilizar instrumentos de medida apropriados, como a trena. Por estarem organizados em grupos com membros de diferentes anos, cada um pôde contribuir com seus próprios conhecimentos que fossem úteis para a resolução da tarefa, sendo necessária a cooperação de todos. Além disso, o registro do raciocínio utilizado pelos alunos foi outro aspecto importante do trabalho, pois ao final da atividade cada grupo expôs para os colegas suas estratégias de estimativa e medição, além de analisarem os motivos para as diferenças encontradas e quais métodos foram mais precisos.

Curso: Oficina de Matemática
Quartas-feiras -14h00 às 15h20
Unidade Butantã
Inscrições: Secretaria

Jogos no Parque – momento de interação e criação de novos vínculos no FII

Escola da Vila

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Por Vera Barreira, orientação do Fundamental II

– Do que eu brinco agora?

– Não tenho nada para fazer!

– Ninguém me chama para brincar… 

Muitos de nós já ouvimos frase semelhante dita por alguma criança num dos tantos momentos de tédio e falta de opção que invadem a vida dos pequenos postulantes a adolescentes de 11 e 12 anos, não é?

Na escola, muito embora repleta de amigos e espaço, essa também pode ser uma questão: o que fazer no horário do recreio?

Os alunos do FII se espalham pela escola em atividades variadas: uns jogam bola nas quadras, outros vão para o ping-pong e pebolim, alguns andam ou sentam pelo parque para conversar com amigos, há ainda os que gostam de brincadeiras de correr, como pega-pega ou esconde-esconde.

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Mas há também muitos alunos que ficam meio perdidos nesse horário, quando todos se dispersam em subgrupos interclasses. Muitos deles preferem ficar dentro da sala, onde sempre fica uma turminha e é garantido que você não ficará sozinho, mas não necessariamente interagindo com os outros. Alguns chegam a ficar isolados, se distraem com joguinhos no celular ou ouvindo música.

Pensando nesses alunos que ainda precisam de uma mãozinha na hora da interação, da brincadeira, do bate-papo, pensando em promover novas interações a partir de atividades diferentes das já ofertadas, pensando em uma forma de combater o isolamento de alguns, propusemos aos 7os anos um projeto diferente, em que eles possam ser os organizadores, tomar decisões, sugerir e resolver as questões que aparecerem. Um projeto coletivo.

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Iniciamos na aula de OE uma conversa sobre a importância de sair da classe na hora do recreio, dar uma volta, mudar de ares, ver mais pessoas, ter um tempo de relaxamento fora do ambiente onde estudam a manhã toda. Em seguida, conversamos sobre as atividades da hora do recreio: o que fazem, o que gostariam de fazer, que outras opções gostariam de ter?

Entre o que já fazem e o que gostariam de fazer, os alunos fizeram um levantamento de novas ideias de atividades que poderiam propor nesse horário. Entre as mais citadas, e que eles próprios achavam que seria possível levar adiante como projeto comum, estava a ideia de organizar um espaço para jogar jogos de mesa, como os de baralho e tabuleiro, um lugar para ouvir música e um lugar confortável para sentar e conversar.

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Conversas, ideias, discussões nos levaram a identificar um espaço amplo na escola, com mesas e cadeiras para mais de 30 crianças e com armários para guardar jogos! Um espaço que está livre nos 30 minutos de recreio do FII! Ocupamos com caixinha de som, vários jogos e um grande tapete com almofadas! Os alunos se revezam em trios ou quartetos que ajudam a colocar os jogos nas mesas e depois recolhê-los.

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Estamos há cinco semanas colocando em prática a ideia do JOGOS NO PARQUE, projeto construído e gerenciado pelos próprios alunos do 7º ano. Rapidamente a ideia contaminou outros alunos e passou a fazer parte das opções de muitos estudantes. Há dias em que o espaço está cheio, outros, nem tanto. Num balanço que fizemos com os alunos, a aprovação do lugar foi muito alta, mesmo daqueles que só frequentam uma ou duas vezes por semana.

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“É um lugar legal, você põe música, você fica lá com pessoas, até conheci umas pessoas.” 

“Dá pra conhecer novos amigos trocando figurinhas também, é muito divertido! Dá para trazer o jogo que quiser…” 

“Eu pensei que não tinha muita coisa lá para fazer, aí fui lá pra ver e achei legal!” 

“Eu gostei muito porque é um espaço diferente onde dá para descansar, ficar com os amigos. Eu joguei alguns jogos de lá, e tem outros que eu não joguei ainda, mas eu quero jogar outros dias.” 

“Eu gostei porque tem muitos jogos e todo mundo gosta de algum, então ninguém fica parado lá sem fazer nada.” 

“Eu achei bem legal ter umas almofadas ali no canto, e tem uns jogos que eu nunca tinha visto!” 

“Eu não gosto de ficar pelo parque, prefiro ficar na classe ou na biblioteca, mas achei essa sala de jogos melhor do que ficar na classe!”

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Tudo tem corrido muito bem! O único contratempo que tivemos foi a chegada, ou melhor, a invasão do espaço por uma atividade adorada, mas extremamente barulhenta, já velha conhecida de todos: bater figurinhas! Depois de duas semanas em que tudo ia bem, o espaço virou do avesso com dezenas de crianças animadíssimas falando/gritando todos juntos enquanto batiam figurinhas nas mesas. E os que não estão colecionando, e são muitos, se viram perdidos… A música? Ninguém mais ouvia! Os jogos? Ninguém conseguia jogar! Seguiu-se um debate sobre o que seria daquele espaço se as figurinhas continuassem ali. Muitos alunos, apesar de gostar de figurinhas, estavam convencidos de que não seria possível manter essa atividade ali dentro. A solução foi encontrar outro lugar para as figurinhas, e o espaço voltou a ter a tranquilidade necessária para se ouvir música e ouvir as risadas daqueles que estão se divertindo com os jogos de mesa.

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Esta semana, entramos numa fase nova. Os alunos perceberam que, em dias que os 7os anos têm quadra, a frequência diminui. Diante disso, decidiram abrir o espaço para a participação de alunos dos 6os anos. Fizeram o convite nas salas, e aos poucos os alunos estão chegando para conhecer e participar desse novo espaço.

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O espaço está ali e é uma nova opção para aqueles alunos que gostam de ficar na sala de aula na hora do recreio, para os que ficam meio perdidos no espaço do parque, para aqueles que gostam de ficar em grupo, que buscam novas atividades. O mais importante é que esse é um espaço que está facilitando o entrosamento, propiciando a interação entre os alunos, unindo as séries… Um espaço ao que todos são bem-vindos!