Investigação científica na Vila segue durante a quarentena

No estudo sobre as estações do ano, alunos e alunas trocaram ideias e formularam hipóteses por meio de fóruns virtuais; construção de um geódromo caseiro possibilitou testes e conclusões.

Na Escola da Vila, as aulas de ciências acontecem a partir de uma perspectiva investigativa, em que a ideia é se aproximar do processo de construção do conhecimento científico. Isso significa que a construção do conhecimento está relacionada à formulação de hipóteses, testes, observação de resultados e organização das informações para se chegar a uma conclusão. Mesmo durante a quarentena, a escola tem conseguido trabalhar assim, como ocorreu no estudo dos 6ºs anos sobre as estações do ano, feito inteiramente a distância.

“Esse tema contempla dois aspectos muito importantes da investigação científica, a elaboração e o teste de hipóteses. Para isso, fizemos um esforço grande para manter as principais propostas, mesmo com os professores distantes fisicamente dos estudantes nesse momento”, diz Ana Carolina de Oliveira Luna, professora de ciências naturais dos 6ºs anos, na unidade Butantã.

Ela explica que, sobre esse assunto, as estações do ano, os alunos costumam ter muitas informações. Eles sabem, por exemplo, que o inverno é frio e mais seco, que o verão é quente e chuvoso, e que quando é inverno no Brasil é verão em países mais ao Norte e vice-versa. “Os estudantes também têm hipóteses para explicar como acontecem as estações do ano, e é comum que as informações que têm e as hipóteses pessoais sejam muitas vezes contraditórias, e eles não se deem conta disso sozinhos.”

O processo de trabalho investigativo, segundo a professora, também prevê oferecer ferramentas para ajudar alunos e alunas a pensarem e a organizarem as ideias para construir o conhecimento. Uma dessas ferramentas são validação e apresentação de novas informações — por exemplo, o fato de existir duas estações no ano simultaneamente, uma no Hemisfério Norte e outra no Hemisfério Sul. Elas vão se contrapor ou colaborar para que uma determinada hipótese se fortaleça ou deixe de fazer sentido.

Outro instrumento importante na trajetória investigativa é a possibilidade dos estudantes interagirem entre si para trocar percepções. Eles discutem em pequenos grupos e depois compartilham impressões com outros colegas. “Durante a quarentena, ao longo de três semanas, usamos o fórum do ambiente virtual de aprendizagem (AVA) para isso. Os grupos discutiram as hipóteses que apareciam e, paralelamente, iam recebendo novas informações e lendo textos para defender ou refutar ideias e refinar a discussão”, relata Ana Carolina.

Para testar as hipóteses que tiveram maior consenso, a proposta era que os alunos e alunas usassem um geódromo, modelo que permite a simulação do movimento de translação da Terra e a observação das consequências desse movimento considerando também a inclinação do eixo de rotação do planeta em torno do Sol. Normalmente, eles utilizam esse instrumento coletivamente no laboratório da escola e também nas aulas. “Em casa, a distância, pensamos na possibilidade de propor a construção de um geódromo, com o material que eles tivessem disponível”, conta a professora.

Ela então explicou a ideia para os estudantes, mostrou como construiu o seu geódromo, e cada um fez o seu usando diferentes materiais. A educadora avalia positivamente a experiência, pois conseguiu manter a proposta investigativa, e os alunos testaram hipóteses e chegaram a explicações que faziam sentido e conseguiram apresentar suas conclusões usando o modelo. 

“A construção do geódromo mobilizou os alunos e alunas e proporcionou um vínculo maior com o estudo a distância. Nos encontros online, eles pegavam o geódromo para demonstrar o que estavam falando, e essa é a principal função do modelo. Considero que os resultados foram muito interessantes e criativos e, de fato, nos possibilitou boas discussões”, finaliza a professora.

1º de abril pode estimular fake news sobre coronavírus. Nesse contexto, Escola da Vila realiza atividades remotas de educação midiática

Alunos do 9º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila estão discutindo papel do jornalismo em meio à pandemia do COVID-19

Muitas notícias falsas relacionadas à pandemia do coronavírus têm circulado nas redes sociais e nos aplicativos de conversa da população mundial. O Dia da Mentira (1º de abril), inclusive, pode reacender a disseminação de fake news a respeito do tema. 

Pensando nesse cenário, a professora de Língua Portuguesa da Escola da Vila, Luiza Moraes, propôs aos seus alunos e alunas do 9º ano do Ensino Fundamental um projeto que pretende discutir e debater o papel do jornalismo no contexto da pandemia de coronavírus. 

“O que está em pauta agora é justamente o papel da imprensa, dos meios de comunicação e das redes sociais na cobertura da pandemia. Por isso, a proposta é que os alunos e alunas leiam artigos de opinião sobre fake news, se informem sobre o coronavírus e debatam entre si”, explica. 

Com a grande quantidade de informações a respeito do coronavírus circulando na internet é preciso ter cautela na disseminação e no consumo das notícias falsas. Por isso, Luiza enxergou nesse contexto a possibilidade de educá-los midiaticamente com um tema atual e relevante. 

“Meus objetivos são que eles vivam isso como leitores, entendendo como podem usar a imprensa para se informar e pensando sobre como a mídia faz a cobertura do tema”, completa a professora.

Ela explica que há muitos anos esse trabalho de educação midiática é feito pela equipe pedagógica da Escola da Vila. Ao longo da trajetória acadêmica, os estudantes do Ensino Fundamental, por exemplo, participam de um projeto de publicidade, analisando peças publicitárias e entendendo sua linguagem de persuasão.

A proposta de educação midiática já é familiar ao corpo estudantil da Vila, mas o cenário de pandemia de 2020 acabou propiciando esse estudo mais aprofundado da cobertura jornalística com base no que os alunos e alunas estão vivendo. Luiza explica que o consumo de informações e notícias confiáveis na internet os ajuda a entender os motivos da quarentena e a situação global atual.

As atividades com a turma estão sendo feitas remotamente, por meio de um ambiente digital. Primeiramente a professora propôs que os alunos selecionassem um vídeo e um podcast com dados confiáveis sobre o Covid-19, resumindo as informações e compartilhando com a turma por meio do sistema online da escola.

Outra atividade que está sendo realizada pelos estudantes é a curadoria de notícias. Todos os dias, eles navegam em sites de notícias da grande imprensa e leem a principal notícia relacionada ao coronavírus naquele momento, fazendo uma base de dados com as informações.

“Neste ano, nosso foco é nas fake news e no papel da imprensa nessa cobertura de crise. O principal objetivo dessa atividade é que os alunos percebam que uma boa argumentação é feita com base em pesquisas científicas, dados coletados e fontes especialistas”, conclui.

Leitura crítica dos meios de comunicação: avanços e parcerias

Entrevista com Vico Iasi para a revista virtual do 7º ano

Por Luiza Moraes, professora de LPL

Em 25 de fevereiro de 1972, dia seguinte ao incêndio do Edifício Andraus, O Estado de S.Paulo estampava como manchete de capa: Fogo causa 15 mortes e pára S. Paulo.  A reportagem, que ocupou toda a primeira página do jornal, trazia uma grande foto em preto e branco do edifício incendiado e um balanço – ainda parcial – da tragédia do dia anterior. No mesmo dia, a capa da Folha de S.Paulo, com uma imagem muito parecida, noticiava: A salvação veio dos céus. Ambos os veículos relatavam aquilo que foi possível apurar entre o meio da tarde, quando começou o incêndio, e o horário de fechamento do jornal.

No ano passado, 46 anos depois, em uma noite de domingo, o Museu Nacional pegou fogo no Rio de Janeiro. Entre as 19h do domingo, momentos depois do início do incêndio, e as 13h da segunda-feira, a tragédia tinha mobilizado mais de 1,6 milhão de tuítes. Além de propagarem o fato em si, as redes sociais foram rapidamente tomadas por diferentes opiniões, posições partidárias e, também, notícias falsas. Ainda que o tema seja mais complexo do que essa comparação possa ilustrar, está claro que a maneira como produzimos e consumimos informação mudou muito nos últimos anos. 

Quem contou essa história e apresentou esses dados aos professores de LPL da Escola da Vila foi a equipe do Instituto Palavra Aberta, responsável pela elaboração do EducaMídia, programa de Educação Midiática criado para capacitar educadores a ensinar crianças e jovens a “ler criticamente e participar de forma ativa do mundo”. Há tempos, a equipe da escola vem pensando sobre a leitura crítica dos meios de comunicação e a importância de construir um currículo sólido em torno desse tema. Em 2017, quando voltamos de uma viagem pedagógica internacional organizada pelo Centro de Formação da Vila para Buenos Aires, trouxemos a certeza de que é preciso formar leitores, escritores, falantes e ouvintes em nosso espaço e tempo, ou seja, é preciso formar cidadãos que dominem as práticas de linguagem da maneira como elas efetivamente circulam socialmente.

Em 2019, como mais um apoio a essa  construção, estabelecemos uma parceria com o programa EducaMídia, nos reunindo algumas vezes com a equipe do Palavra Aberta e com a repórter do Estadão, Renata Cafardo, para pensar o jornalismo contemporâneo. Na verdade, o trabalho deles vai bem além do jornalismo e está bastante alinhado ao que propõe a BNCC no que diz respeito ao campo jornalístico-midiático.  Para o EducaMídia, os objetivos da educação midiática giram em torno de ler criticamente (letramento da informação e análise crítica da mídia), escrever com responsabilidade (autoexpressão e fluência digital) e participar ativamente (cidadania digital e participação cívica). Eles abordam, então, jornalismo e informação, mídias sociais, publicidade e produção midiática.

Na primeira fase dessa parceria, nos focamos nos fazeres do jornalista e nas características do jornalismo contemporâneo para revisitar um antigo projeto da escola: o Projeto Revista, realizado nas aulas de LPL do 7º ano. Olhando para este trabalho, mas inevitavelmente pensando em todo o nosso currículo, discutimos aspectos importantes da circulação contemporânea de informações, como captação e medição de audiência, velocidade e fragmentação das publicações e da leitura, aspecto multimídia dos veículos, que produzem e difundem material em diferentes plataformas, etc. Por exemplo, é notável como um mesmo conteúdo (ou uma mesma apuração) gera uma notícia no jornal digital, uma reportagem maior no jornal impresso, uma comunicação via tuíte, um vídeo publicado no Youtube, um podcast, etc. Cada um desses meios tem um tratamento diferente da linguagem e uma intencionalidade diferente. Refletimos, também, sobre como são distintas uma notícia escrita para ser publicada no dia seguinte no jornal e outra, escrita para ser publicada rapidamente no digital, depois editada, re-editada, linkada a outras etc. Por fim, tematizamos a desinformação, a disseminação de fake news, a importância do jornalismo profissional para a democracia e, acima de tudo, a importância de tornar esses novos problemas conteúdos de ensino-aprendizagem.

Certamente, a educação midiática já faz parte, há tempos, do currículo de LPL da Escola da Vila. Além do Projeto Revista, trabalhamos com booktubers no 6o ano, com publicidade e com vídeo-crítica para redes sociais no 8º ano, com leitura e produção de artigos de opinião no 9º e no 1º ano do Ensino Médio, com produção de podcasts no 2º ano, entre outros. O desafio está, então, em aprimorar estes trabalhos, trazendo a eles, com maior consciência, a complexidade da circulação de informações no mundo contemporâneo. Ao lidarmos com booktubers e com publicidade, precisamos pensar nas interferências de conteúdo patrocinado e influenciadores digitais. Ao produzirmos vídeo-críticas para redes sociais, precisamos pensar em participação responsável e conteúdo viral. Ao refletirmos sobre o espaço para o debate na mídia escrita e produzirmos artigos de opinião, precisamos refletir sobre mecanismos de busca, fake news e  bolha informacional.

Dessa maneira, buscamos formar pessoas que saibam ler criticamente, escrever com responsabilidade, participar ativamente; pretendemos formar sujeitos que dominem as práticas sociais de leitura, escrita, oralidade próprias do nosso tempo. Não há outra maneira, então, a não ser incluir em nossos currículos os problemas contemporâneos enfrentados na leitura e na produção nos meios de comunicação.

Devido às novidades e à velocidade das mudanças que vivemos, as parcerias externas com especialistas em diferentes áreas são essenciais para arejar nosso trabalho, aprofundar nossas reflexões, encampar mudanças e consolidar permanências. A parceria continua durante o próximo ano: vamos nos dedicar a pensar publicidade, produção midiática e redes sociais. Estamos animados pelas próximas inquietações e soluções que virão!


Fontes:

Acervo Estadão

Acervo Folha

Como o incêndio no Museu Nacional foi explorado pelos dois lados do espectro político

EducaMídia

Jovens da Vila pelo Clima

Por Mateus Moreira, professor de Biologia do Ensino Médio

Vocês conhecem a jovem Greta? Assim começou a conversa com os alunos dos 1ºs anos do Ensino Médio sobre a campanha mundial Jovens pelo Clima. Muitos alunos já a conheciam, outros tantos tomaram conhecimento durante o encontro, mas é certo que todos se impressionaram com o que Greta conseguiu fazer (Greta Thunberg juntou-se a milhares de jovens na greve estudantil pelo clima).

Essa provocação do professor nasceu das atividades do Grupo Critique quando conheceu a iniciativa de alunas da Escola Parque que recentemente haviam firmado um coletivo tendo essa temática como centro de suas atuações.

Assim, os jovens da Vila também se impeliram a impactar mais pessoas no que se refere a ações pelo clima e criaram um grupo de discussão. O primeiro encontro foi de levantamento de ideias e ações.

E já no segundo encontro, dia 16 de setembro, as quatro escolas do Grupo Critique: Escola da Vila, Escola Viva/SP; Escola Parque/RJ e Escola Mangabeiras/BH puderam promover uma conversa virtual entre seus alunos mobilizadora pela questão climática planetária.

O propósito da Conference call era trocar experiências, desenvolver ideias e fortalecer os jovens para a ação. Dessa forma, reuniram-se de maneira bastante autônoma, com algum apoio dos professores, mas num roteiro totalmente coordenado por eles mesmos! Aparentemente a iniciativa foi um sucesso e o coletivo da Parque inspirou o surgimento de coletivos das demais instituições. Assim, demos o primeiro passo na formação de uma rede de coletivos das escolas em prol da reflexão sobre o clima do planeta.

Os jovens de cada escola iniciaram o “encontro” se apresentando, com nome, série e escola. Havia alunos do 8º ao 3º ano do EM. Depois, dois jovens de cada escola contaram sobre o trabalho que desenvolvem relacionado ao tema sustentabilidade. Nossos alunos contaram do grupo SustentaVila e as ações que estão sendo feitas e outras tantas ainda em fase de elaboração.

A atenção, o respeito e a seriedade durante toda a conversa foi emocionante. A cada relato foram feitas perguntas, pedidos de esclarecimentos e sugeridas ideias em um clima de muita parceria. Todos concentrados no imenso desafio de pensar o que fazer para gerar maior mobilização em sua instituição acerca das questões climáticas.

Como impactar as diferentes comunidades para a semana de mobilização global pelo clima que ocorre entre os dias 20 e 27 de setembro? Vamos ver como cada escola responderá a essa questão, mas, principalmente, vamos ver como os diferentes grupos de jovens podem se articular e se fortalecer!

Para saber mais, acesse: Greve mundial pelo clima

Literatura e Educação

Por Fernanda Flores, direção pedagógica

A Literatura é espaço de arte, e, como tal, é cultura a ser partilhada, conversada, analisada, sentida. Não imaginemos que sempre com conforto, sem conflitos e discordâncias e muito menos com leniência romântica, como se a diversidade e o contraditório não existissem.

Como defende Antonio Cândido[1], para que uma sociedade seja realmente justa deve-se pressupor, como inalienável, “o respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis.”

Entendendo o papel da escola na formação de crianças e jovens com criticidade, compartilhamos dois excelentes textos que abordam essa preocupação e o caminhar indissociável entre Literatura e Educação:

Publicamos hoje “O que a Educação me ensinou sobre a Literatura e por que ambas andam ameaçadas”, de Natália Zuccala, professora na Escola da Vila de Língua Portuguesa e Literatura, escritora e dramaturga. Publicou seu primeiro livro, “Todo mundo quer ver o morto”, em 2017, pela editora Patuá, e integra o grupo “Escritorxs de quinta”. Esse texto foi originalmente publicado na revista digital Vício Velho.

Na próxima segunda, aguardem o texto “Porque Literatura não rima com censura”, de Sandra Medrano, mãe da Vila, pedagoga, mestra em Didática pela Universidade de São Paulo e especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é coordenadora pedagógica da área de Língua da Comunidade Educativa Cedac e membro da equipe editorial do Instituto Emília/Revista Emília. Seu artigo foi originalmente publicado no Blog das Letrinhas, da Companhia das Letras.


[1] CANDIDO, Antonio. Direitos Humanos e literatura. In: A.C.R. Fester (Org.) Direitos humanos E… Cjp / Ed. Brasiliense, 1989. p. 116 e 117.


O que a educação me ensinou sobre a Literatura e por que ambas andam ameaçadas

Por Natália Zuccala, professora de Língua Portuguesa e Literatura

A ideia de que a literatura penetra, transpira, é porosa, isto é, de que o tecido literário permite e pressupõe uma postura ativa por parte do leitor foi o que eu aprendi de mais concreto como professora em sala de aula. Tenho lá minha formação acadêmica no curso de Letras na Universidade de São Paulo, me instrumentei e me armei durante os longos anos de graduação para poder falar sobre literatura, no entanto, muito do que diz respeito à parcela de vida que há em uma obra de arte compreendi de fato com meus alunos.

Um conceito caro aos educadores, daqueles que se fazem sentir na pele todos os dias entre o quadro negro e a primeira fileira, é a “transposição didática”. O nome dado por Chevallard é muito feliz, pois justamente se trata de uma transposição que os professores devem fazer de um conteúdo ou prática do campo científico/social para a escola, o ensino, o aluno. Existem, no processo da transposição do mundo para a sala de aula, diversas modificações necessárias para que este conteúdo ou prática se adeque ao jogo escolar e, é claro, parte do sentido real acaba se perdendo neste procedimento. A escola é, e deve ser para que ocorra o processo de ensino e aprendizagem, também uma transposição do real, um simulacro, uma virtualidade cheia de regras próprias. Este universo autônomo refrata e reflete o mundo a sua forma, às vezes tornando-o mais leve e transitável, às vezes endurecendo-o.

Dentro deste contexto, o professor tem a responsabilidade de, ao ler um romance, um poema ou uma peça de teatro em seus estudantes, realizar certos movimentos que permitam a eles relacionar-se com este material. Não que devamos afogá-los em diretrizes e certezas, pelo contrário, é necessário promover o encontro entre estes seres humanos e as palavras da forma mais autônoma possível. Afinal, queremos aproximar as práticas escolares das sociais, já que é mesmo uma das mais importantes funções da escola preparar o indivíduo para contribuir com a sociedade na qual está inserido. Para isso, é necessário que o professor se pergunte: como circulam socialmente estas obras? Sob quais circunstâncias? Por que e como lê-las? Que estratégias utilizamos para fazê-lo fora da escola? A partir dessas questões é que educadores e instituições chegam à atividades como escritas de resenha, seminários, debates.

Há alguns anos, parte do meu trabalho consiste em tentar ter sucesso neste movimento de aproximação entre adolescentes de 10 a 15 anos e obras de Italo Calvino, Mia Couto, Amós Oz, Sófocles… Não que a eles estejam de todo distantes estes autores ou obras, muito pelo contrário, cada um deles tem suas próprias experiências de vida, suas referências, suas famílias e é justamente por conta disso que eu vivo aprendendo mais sobre literatura com eles do que jamais pensei que fosse possível. O clichê do professor que aprende com o aluno não é mero malabarismo de humildade retórica, mas um pressuposto da nossa prática. Não acredito que haja bons professores que não estejam dispostos a aprender.

É também um clichê dizer que os jovens-de-hoje-em-dia leem menos dos que o de ontem, dizia-se isso na minha época de escola, diz-se isso hoje. Acontece que, no caso desta geração 2000, não poderiam estar mais enganados os que dizem isso. Eles leem muito, leem até demais: celulares, vídeos, placas, computadores, imagens, sons, a vida deles é toda leitura o tempo inteiro. Claro, talvez eles não leiam o que nós, autores, professores, beletristas consideramos boa literatura. Mas e o que mesmo é que nós temos a ver com isso?

Bem, o esforço por transpor didaticamente as práticas sociais de leitura para a célula sala de aula fez com que eu tivesse de sair deste lugar de quem somente aponta a falta de letramento das gerações para procurar trazer o que é considerado boa literatura, pela tradição e pela sociedade, aos jovens, que não são necessariamente bons leitores. Até porque é esta mesmo uma das minhas responsabilidades principais: formar bons leitores. Bem como é esta uma das responsabilidades principais da escola: aproximar os alunos da tradição. E, no meu começo, para fazer isso, a primeira estratégia que tentei empreender foi explorar a parcela penetrável dos livros.

Uma das grandes professoras que tive no curso de Letras me impressionava muito por conseguir fazer isso a todo tempo. Ela, docente na disciplina de Introdução aos Estudos Clássicos, atualizava com maestria as questões profundas de personagens importantes como Édipo, príncipe coríntio distante mais 2.500 anos da nossa realidade, e os fazia parecer com nossos jovens dilemas de 20 anos. Desde que comecei a lecionar, este segue sendo meu maior norte, tornar palpáveis e reais os conflitos de Gregor Samsa, Bernard Marx, Aquiles, Alice, Zezé, etc.

Não seria surpreendente dizer que talvez essa seja a tarefa mais fácil que tenho, além de ser  a mais prazerosa. Afinal, o material literário é em sua composição permeável, uns mais outros menos, é cheio de aberturas nas quais os alunos podem inserir-se, imagens nas quais espelhar sua subjetividade, signos plurissignificantes que promovem novos olhares para o mundo, espaços onde colocar-se intelectualmente, e não só onde se colocar, mas também muito do que se tirar de lá. De modo que não há grandes estratégias a serem realizadas, a não ser tornar evidentes estas característica que já são próprias da arte .

Lecionar fez com que eu não pudesse nunca mais deixar de perguntar às minhas palavras (e neste momento falo como escritora): é possível penetrar neste tecido literário que eu criei?, ou ele está fechado demais a ponto de não haver brechas para o leitor? As minhas construções (sintáticas, imagéticas, de narrativa) respiram? Sem dúvida seria necessário escrever outro texto que explicasse o que faz com que as grandes obras tenham estas características, também seria preciso falar sobre as estratégias didáticas que ajudam a despertar nos alunos uma postura ativa e perscrutadora. No entanto, com este relato tenho outro objetivo.

Se, por um lado, é sempre necessária uma boa dose de esforço para operar uma transposição didática bem sucedida, por outro, vejo hoje o quanto este esforço movimentou a mim, o quanto modificou a minha postura em relação à literatura. Ensinar devolve vida ao objeto de ensino, uma vida contumaz inclusive, porque as palavras pulsam no rosto, na fala e nos olhos dos alunos, porque vivem somente na medida em que são lidas, interpretadas, compreendidas e incompreendidas, na medida em que há leitores. Assim, ao mesmo tempo que faço a transposição, ela opera em mim também suas transformações. Eu tento aproximar o aluno do objeto e, na medida em que consigo isso, aproximo-me eu também com mais intensidade.

É claro que eu acredito na imensa importância da teoria e da crítica. Bakhtins, Lukácses, Schwartzes são imprescindíveis para o estudo da literatura, foram, e continuam sendo, primordiais para a minha formação. Aliás, são estes e outro grandes teóricos os que me ajudam a ler com meus alunos e construir análises mais complexas. Mas a força que existe em assistir e participar das descobertas literárias de um jovem leitor é inexprimível. Testemunhar um poema ganhando sentido para um grupo que, coletivamente, dá saltos interpretativos e compõe significados através do diálogo, da análise, da crise, da controvérsia, da observação é, além de emocionante, uma experiência muito construtiva para escritores e críticos. Porque as descobertas literárias marcam, modificam, transformam aspectos dos mais essenciais à existência, colocam em cheque nossas perspectivas de mundo ao tocarem no que há de mais estrutural nelas; seja através da identificação ou empatia com os personagens, seja através da dor ou da frustração que experienciamos com as narrativas, seja pelo ineditismo de suas composições: a arte instaura cosmos que se chocam com nossas representações de mundo a partir exatamente daquilo que temos em comum com ela, isto é, nos deixamos penetrar pela literatura na medida em que ela permite ser penetrável e deste intercâmbio não saímos ilesos. Seja como for, facilitar este tipo de experiência ensina sobre a literatura tanto quanto vivê-la como leitor. Bons leitores e bons autores sabem muito bem disto, e é por esse motivo que são tão perigosos.

Em um país como o nosso, nos quais as conquistas na educação ainda não podem ser consideradas sólidas e os seus pilares sofrem censuras, é papel dos educadores reforçar a sua própria importância. Somos fundamentais para formar bons leitores, bons estudantes, seres humanos plenamente capazes de conviver em um mundo letrado, indivíduos que produzam conhecimento, pessoas autônomas acima de tudo, que atuem em sociedade de maneira responsável. Acontece que não há bons professores que não conheçam bem o sentar na carteira. Nós, como todos os outros profissionais, devemos questionar a nossa prática, investigá-la, aprender mais sobre ela sempre, se quisermos melhorar. Não só em sala de aula com os nossos alunos, mas nas Universidades e na pesquisa acadêmica, talvez principalmente aí, pois somente a pesquisa é capaz de democratizar as descobertas feitas no microcosmos da escola, já que tem o poder de difundi-las. Deste modo, quando um governo ataca a pesquisa, o que está sendo atacado, claro, é o acesso ao saber. Se, além disso, o foco deste ataque são as ciências humanas, e dentre elas a literatura, então o que observamos não é só uma entrave ao alcance do conhecimento básico e instrumental, mas a esse tipo de experiência modificadora sobre a qual discorri durante este breve relato, ou seja, à construção de uma leitura complexa do mundo, à empatia, ao olhar crítico, à possibilidade de ressignificar seu contexto social e até mesmo à simples ludicidade. O que se deseja cercear é a possibilidade de construção da própria narrativa.

Nos últimos oito anos, aprendi em sala de aula a observar o pulsar da literatura, o ar que atravessa as palavras. Tenho entendido, nestes tempos, o quanto essas experiências podem censuradas por lideranças autoritárias em tempos de retrocesso. Mas o mais importante é o que ainda hei de ver, o que os últimos gestos dos movimentos estudantis têm deixado evidente: as conquistas na educação, mesmo que tímidas, são profundas e, por mais que se demore a alcançá-las, são perenes.

Pedalar: por que sim?

Prezadas leitoras e leitores,

Destacamos em nosso blog, o texto de Sasha Hart, pai da Vila, entusiasta e “bikeanjo”, que gentilmente aceitou nosso convite de enfatizar o quanto devemos todos nos engajar e aderir a meios de deslocamento ativos e limpos. Com dados muito interessantes, vemos o quanto as bicicletas ganham espaço e importância em nossa cidade.

Contribuindo para essa conscientização, esse sábado teremos nossa esperada Bicicletada dos 7ºs anos, no Parque Villa Lobos! Esperamos que escola e famílias juntas promovam, cada vez mais, a experiência de nos deslocarmos via bike!

Pedalar: por que sim?

Escola da Vila

Por Sasha Hart, hidrogeólogo, pai e Bike Anjo

Bicicleta é coisa de criança, adolescente, adulto e idoso. Todos têm o direito de pedalar, seja para lazer, para melhorar a saúde, como esporte, para fazer entregas ou para sua mobilidade. Na cidade de São Paulo, centenas de milhares de pessoas pedalam diariamente e, seguindo a tendência global, cada vez mais. Por exemplo, a ciclovia da Av. Faria Lima, em poucos anos desde sua instalação, já é uma das mais usadas do mundo[1] [2]. Na Av. Eliseu de Almeida, chama a atenção o fato de que, após a instalação da ciclovia, também cresceu muito a porcentagem de ciclistas crianças e mulheres[3].

Mas… é seguro pedalar em São Paulo? A cidade está desafiadora para todos os tipos de mobilidade, entretanto, é notório que, onde foram instaladas ciclovias ou ciclofaixas, os riscos diminuíram muito (para ciclistas, bem como para pedestres e motoristas). Além dos ciclistas passarem a ter um espaço exclusivo, tipicamente ocorre ali um efeito que os especialistas chamam de Acalmamento de Tráfego (inclusive porque permite um aumento na visibilidade entre pessoas na rua e na calçada). Os dados históricos[4] mostram também que o número de vítimas em todos os modais (menos motociclistas) já apresentava antes uma tendência geral de diminuição (possivelmente relacionado a melhoras na legislação e fiscalização, diminuição de velocidade, entre outros fatores). Outra boa notícia é que a Prefeitura divulgou que pretende até o ano que vem fazer novas ciclovias e ações para melhorar a segurança[5]. Vamos cobrar (inclusive nas iminentes audiências públicas – abertas a todo mundo) para que melhorias ocorram logo, de forma eficiente e também perto de escolas.

Ainda assim, há muito a ser feito (por todos!) para melhorar o trânsito, inclusive sobre o respeito e a educação. Soluções existem[6], mas não pense duas vezes: pedale sempre com capacete e muita atenção, de preferência acompanhado (avalie ficar próximo de outros ciclistas que estejam fazendo o mesmo caminho).

Para quem não sabe pedalar ou tem algum receio, sugiro checar a plataforma Bike Anjo. Ela é uma rede de apoio (gratuita) que foi criada há quase 10 anos em São Paulo. Desde então ela cresceu para 739 cidades (em 34 países) e já ajudou dezenas de milhares de pessoas. Após o cadastro, a plataforma faz a ponte entre quem precisa de ajuda e possíveis voluntários/as (que ensinam a pedalar, fazem companhia no seu percurso, dão recomendações sobre rotas e muito mais). É bem capaz que o, ou a, ciclista more próximo de você.


[1] ecopublic.com

[2] cetsp.com.br

[3]ciclocidade.org.br

[4] cetsp.com.br

[5]vá de bike

[6]bikeelegal.com

Vilalê: descobertas e amigos inesperados

Escola da Vila

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Por Sofia M. Duarte Pedrosa Rechi Aguiar e Tiago Costa Soriano – Formandos do Ensino Fundamental 2

Todos nós já nos sentimos solitários. Não pertencentes. Em dúvida sobre gostos, personalidade, sobre nós mesmos. Às vezes encontramos acolhimento onde menos esperamos, e é isso que o Vilalê representa para muitos de nós. Um lugar onde ninguém lhe julga. Onde até mesmo os mais tímidos têm voz.

Começamos todo ano escolhendo um livro. Esse sempre é sugerido pelo grupo e eleito a partir de uma votação, portanto todos conseguem ser atendidos de alguma forma. Fazemos leitura compartilhada nos encontros de quinze em quinze dias, discutindo o que lemos em casa e no encontro passado. Sempre há diferentes interpretações e observações, deixando a leitura mais rica e com diferentes opiniões sobre os acontecimentos do livro.

Com um grupo diverso e unido, inclusive na questão da idade (que é mais evidente nesta fase da nossa vida), conseguimos, por meio de sorrisos, espantos e lágrimas, finalizar a leitura. Após o final de cada livro, um sentimento de preenchimento inunda nossas mentes e corações. Êxtase dos amantes de bibliotecas.

A escrita e a leitura se mostram libertadoras. No Vilalê, ninguém nos força a nada. Ambiente mais aberto e leve não poderia existir. Sempre mudamos de espaço físico, mas a empolgação pelo próximo capítulo do livro se mantinha a mesma. O Vilalê foi como um veículo de descoberta sobre nós mesmos. Um grupo que acabaria se tornando muito mais amigo do que começou e nos faria aprender muito além do imaginado.


Agora que vou me formar e sair da Vila, este meu último encontro me fez lembrar de como vou sentir falta da experiência de ler livros impressionantes (que guardo com carinho em minha prateleira) em uma roda unida pelo interesse em comum por histórias e, claro, pipoca. Agradeço de coração à Fernanda, que, com todo o seu carisma, media o Vilalê e se esforça para enriquecê-lo de diversas formas (já chegamos até a conversar com uma autora holandesa). Àqueles que estão chegando, saibam que, para quem gosta de ler, o Vilalê só tem vantagens. Adeus e obrigado por tudo!

Vinícius Silva Fernandes Kuhlmann – Formando do Ensino Médio

Alunos da Escola da Vila visitam o maior empreendimento científico da história brasileira

Escola da Vila
Clique na foto para acessar o álbum no Flickr

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Por Alex Brilhante, professor de Ciências Naturais e Física

Apesar dos cortes drásticos de orçamento para a ciência, desde 2015 o Brasil vem construindo o seu mais grandioso projeto científico: o Sirius, um imenso acelerador de elétrons que será uma das melhores máquinas do mundo no gênero, possibilitando a realização de experimentos na fronteira do conhecimento e atraindo pesquisadores internacionais.

Com previsão de entrada em funcionamento já em 2019, o Sirius tem como peça central uma circunferência de mais de 500 metros, onde os elétrons chegam a uma velocidade próxima à da luz. Ao realizarem a curva ao longo da circunferência, os elétrons emitem radiação eletromagnética, ou seja, luz. As particularidades da luz emitida pelo acelerador permitem a observação em escala molecular e atômica de diversos tipos de materiais, de semicondutores a fósseis, o que faz dessa máquina um instrumento versátil e estratégico para pesquisas em áreas tão diversas, que vão de nanotecnologia a biociências.

A construção do Sirius não é uma mera aposta grandiosa, esperando por resultados incertos. Desde 1997 o Brasil já conta um grande acelerador de elétrons, o acelerador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, que talvez seja o nosso empreendimento científico mais bem-sucedido até o momento. Trata-se de um laboratório nacional, ou seja, aberto para pesquisadores de todo o Brasil e do mundo, que já recebeu milhares de pesquisadores ao longo de suas duas décadas de funcionamento. O Sirius é “apenas” um upgrade de mais de 1 bilhão de reais em uma experiência científica de sucesso.

Na semana passada, alunos de nono ano do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio – acompanhados por Regis Neuenschwander, da Divisão de Engenharia do LNLS – tiveram a oportunidade única de observar, de dentro da construção, como funcionará o futuro acelerador de partículas. Assim que a construção terminar, não será mais possível entrar nos meandros do acelerador. Além de visitar a construção da nova máquina, nossos alunos visitaram a máquina que está atualmente em funcionamento e aprenderam como essas máquinas produzem imagens em escalas moleculares e atômicas, além de terem visitado os demais laboratórios que compõem o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas.

Nossa iniciativa, ao mesmo tempo que tem por objetivo aproximar nossos alunos da ciência nacional – mostrando as áreas de pesquisa em que temos uma tradição de produção científica de qualidade para, quem sabe, estimular alguns alunos a enveredarem no mundo instigante da pesquisa científica –, é também o nosso reconhecimento da importância da ciência na construção de uma nação, importância nem sempre divulgada propriamente. Dados de uma pesquisa sobre a percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil, publicada em 2015 pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), nos mostram que apesar da atitude altamente favorável à ciência manifestada pelos brasileiros, apenas 12% dos entrevistados pela pesquisa conseguiu se lembrar de alguma instituição científica brasileira, número bastante pequeno mesmo se comparado a países com uma trajetória científica similar à nossa, como a Argentina, por exemplo, em que 25% dos entrevistados sabiam nomear alguma instituição de pesquisa.

Sabemos que a produção científica é uma atividade cara e, em grande medida, custeada por todos. Se a produção científica nacional não for divulgada adequadamente, nada garante que a sociedade civil veja sentido em seguir apoiando a ciência e os cientistas brasileiros.

A diversidade extrapola os muros das classes

Escola da Vila

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“Si hay algo semejante en todas las aulas, es precisamente que en todas reinan las diferencias.” Delia Lerner

 Por Angela de Crescenzo e Julia Narvai, Orientação Educacional do Fundamental 2 

Todos temos distintos tempos para aprender, mas a escola, de uma forma geral, quer que todos aprendam ao mesmo tempo, da mesma forma, o mesmo conteúdo. Essa questão é sempre motivo de reflexão na Vila, novas formas de agrupamentos são pensadas e experimentadas e o GEPE – Grupo de Estudos de Produção Escrita surge como mais uma iniciativa nesse sentido.

Um dos temas norteadores de diversas ações institucionais da Vila em 2018 é o atendimento à diversidade. A escola já realizou, este ano, uma série de reuniões pedagógicas dedicadas ao tema, para nossa equipe interna, e também vem atuando na formação de profissionais de outras escolas e na formação da nossa comunidade escolar – como a viagem pedagógica internacional para Buenos Aires e uma reunião de famílias cuja pauta foi a diversidade.

Entre tantas outras ações realizadas, inauguramos no 1o trimestre um projeto piloto para o Fundamental 2 na Unidade Morumbi: o GEPE. Emilia Ferreiro diz que cabe à escola “transformar la diversidad conocida y reconocida en una ventaja pedagógica” e para isso é preciso criatividade, pensar em novas formas de ensinar, de acolher as diferenças existentes. O grupo se reúne uma vez por semana e tem por objetivo favorecer o vínculo positivo dos alunos com as aprendizagens que envolvem leitura e escrita, além de criar mais condições para que se sintam confiantes dentro e fora da sala de aula.

No GEPE, a diversidade é justificativa, método e objetivo. Temos um grupo multisseriado, composto por alunos de 6o a 9o ano, com diferentes trajetórias escolares. Uma das principais estratégias que utilizamos é proporcionar a interação intencional desses alunos, ao constituir um novo grupo, de modo que possam assumir papéis diferentes do que estão acostumados a exercer. Para nós, o mais importante é que os papéis se alternem: queremos que um mesmo aluno possa vivenciar o lugar de quem sabe e de quem aprende, sabemos que quando o aluno está no lugar de quem ensina também aprende muito, pois, ao fazer esse exercício, precisa reorganizar o que sabe e, assim, ensinar o colega.

Outro ponto importante é que estamos constantemente dialogando com as aprendizagens propostas nos cursos regulares de cada série, apesar de não abordar os mesmos conteúdos trabalhados em sala de aula. A partir do repertório criado ao longo de toda a escolaridade dos alunos, da apreciação dos contos escritos pelos alunos de 8os anos de séries anteriores e da proposta de leitura de uma resenha crítica sobre um livro de contos, os alunos foram convidados a produzir livremente um conto. Esse é o depoimento que recebemos de uma aluna do 6o ano que está estudando contos fantásticos em sala de aula e vindo ao GEPE: “Neste trimestre eu amei o tema que a Ju e a Angela propuseram porque fiquei superinteressada e empolgada para escrever meu conto sobre uma menina que não tinha condições financeiras para estudar em uma escola particular. Foi um dos textos que ficou mais longo e mais bem escrito por mim!! Esse foi um projeto muito legal e interessante, porque lemos textos feitos por alunos de anos anteriores, fizemos contos e revisões. Todo esse processo me ajudou a ter novas ideias para escrever meus contos fantásticos em sala de aula. Foi uma boa ideia a escola criar esse projeto!!” F. M. 6o ano

Foi estudando os documentos argentinos e por meio das contribuições da última viagem internacional que encontramos sustentação para desenvolver esse trabalho. Uma publicação do Ministério da Cultura e da Educação da Argentina propunha, já em 1986, que “para dar respuesta a la diversidad cultural y lingüística, no había que atender de manera especial a “los diferentes” sino modificar las actividades escolares para todos los alumnos (…) Esto suponía producir algunos cambios en la organización de la escuela y, sobre todo, suponía crear instancias periódicas en las que se invertían los papeles en relación con el poder lingüístico”. (El fracaso escolar no es una fatalidad).

Do ponto de vista do professor e da escola, quando pensamos em agrupamentos flexíveis também temos que fazer um exercício de propor atividades que atendam a diversas cronologias de aprendizagem, isso supõe construir um novo saber pedagógico.

Outra preocupação é que os alunos que estão trabalhando em pequenos grupos no contraturno (GEPE) levem informações e produções para os demais, pois assim estarão sendo validados como grupo que sabe e está produzindo saber.

Além dessa estratégia, também temos promovido durante os encontros o trabalho com produções escritas que extrapolam os temas discutidos e trabalhados em sala de aula a fim de ampliar o repertório cultural e a reflexão sobre temas do mundo. A discussão e a produção escrita que os alunos fizeram a partir das leituras do texto “Todo mundo cresce igual?”, postado no blog Capitolina, e “Vida perfeita só existe no Facebook”, da revista TPM, foram bastante positivas na nossa avaliação. Trazemos temas que são presentes na vida deles, que fazem parte das reflexões da faixa etária. Um aluno do 8o ano nos deu o seguinte depoimento: “O GEPE é outra oportunidade de melhorar. No GEPE não são abordados apenas os temas estudados dentro da matéria de LPL, como a matéria de LPL no geral. É interessante essa troca de conhecimentos entre alunos de diferentes séries, porque isso ajuda a expandir o conhecimento de cada aluno, já que cada um tem um discernimento diferente sobre a matéria de LPL e pode contribuir para ampliar o aprendizado do próximo. Fizemos uma atividade interessante que consistia em ler um texto e analisar as diferentes interpretações que esse texto propõe sobre a ideia de crescer. Cada um também pôde dar a sua opinião sobre a sua maneira de entender o que é crescer.” R.G. 8o ano

No GEPE a avaliação é constante, por meio da troca entre eles e da nossa observação e análise das produções e da participação dos alunos. Assim, conseguimos dimensionar os avanços nos procedimentos e nas produções. Da mesma forma avaliamos constantemente o próprio projeto para que cumpra cada vez melhor com seus objetivos. Sabemos que aprender não é um processo simples, mas os depoimentos abaixo demonstram entusiasmo com a iniciativa e com algumas das conquistas já observadas por eles.

“O GEPE me ajudou porque, conversando com um colega que já havia passado pela experiência de produzir contos no ano anterior, consegui perceber que eu havia colocado detalhes na história que já haviam sido citados no começo do texto, e achei essa ajuda muito legal.” B. G. 8o ano

“Estou achando muito legal o GEPE!!! Ele está me ajudando muito com escrita de texto e além disso o GEPE é muito legal e divertido” N.M. 6º ano

O GEPE para mim é uma oportunidade de poder melhorar… Apesar de parecer com o SMA, eu acho que é bem diferente, porque lá no SMA costumamos estudar uma matéria que estamos vendo, especificamente a matéria de cada trimestre. Já no GEPE nós vemos temas mais gerais e que não só ajudam temporariamente para uma matéria, mas sim para boa parte delas, visto que há alunos do 6º ao 9º ano juntos estudando um mesmo tema. Por isso acho que o GEPE ajuda bastante com o estudo, seja para o 6º, o 7º, o 8º ou para o 9º.” T.T. 9o ano 


Referências

LERNER, Delia. Enseñar en la diversidad. Conferencia dictada en las Primeras Jornadas de Educación Intercultural de la Provincia de Buenos Aires: “Género, generaciones y etnicidades en los mapas escolares contemporáneos”, 2007.

TERIGI, Flávia. As cronologias de aprendizagem: um conceito para pensar as trajetórias escolares. Conferência realizada em 23 de fevereiro de 2010 na Jornada de abertura do ciclo letivo de 2010 – Ministério de Cultura e Educação – Governo de La Pampa. Tradução: Miruna Kayano Genoino, 2017.

Vilalê – O clube de leitura da Escola da Vila

Escola da Vila

Por Luiza Moraes, professora de LPL do F2 e
Fernanda Passamai Perez, auxiliar da biblioteca da unidade Butantã

A literatura é coisa inesgotável, pela suficiente e simples razão que um só livro já o é. O livro não é uma entidade enclausurada: é uma relação, é o centro de inúmeras relações. Seja ela anterior ou posterior, uma literatura difere de outra, menos pelo texto do que pelo modo como ela é lida.
Roger Chartier¹

Desde 2012, quinzenalmente, durante uma hora, alunos de todas as séries do Fundamental 2 da Escola da Vila se reúnem para compartilhar os desafios e os prazeres da leitura literária nos encontros do Vilalê. Com seus livros em mãos, leem em voz alta, discutem impressões, aprofundam interpretações e entram em contato com a leitura literária tal como acontece em um verdadeiro clube de leitura. Por conseguinte, se deparam com o universo simbólico das narrativas, o qual ressignificam e com o qual dialogam e estabelecem relações de foro íntimo, coletivo, ancestral. Dessa maneira, além do sentimento de pertencimento de uma comunidade leitora, já existente na escola, os integrantes constituem também a identidade do grupo.

Escola da Vila

O grupo elege um título para ser lido e discutido durante determinado período e, com a mediação de Fernanda Perez, mediadora de leitura da biblioteca Tatiana Belinky, compartilham momentos preciosos de discussão literária. Nos últimos anos, se aventuraram por Jurassic Park, se emocionaram com Iqbal, desvendaram os mistérios de Agatha Christie com E não sobrou nenhum, entre outros. Agora, estão finalizando a incursão em A guerra dos mundos, de H.G. Wells, clássico da ficção científica.

Escola da Vila

Dessa forma, o Vilalê faz parte do projeto de educação literária da Escola da Vila, em que nos empenhamos em formar leitores de literatura que se sintam implicados na leitura e que possam colocar em jogo diferentes formas de fruição e compreensão dos textos com os quais têm contato. Afinal, como aponta Teresa Colomer em Andar entre livros: “(…), falar sobre livros com pessoas que nos rodeiam é o fator que mais se relaciona com a permanência de hábitos de leitura, (…) parece ser uma das dimensões mais efetivas nas atividades de estímulo à leitura”².

Escola da Vila

A seguir, o depoimento do aluno Lorenzo Almeida, do 8o ano, sobre a sua experiência no Vilalê:

“Eu acho interessante a ideia do clube do livro aqui na escola, porque eu não só ouço a minha opinião, o que eu entendo sobre o livro, mas eu também ouço o que outras pessoas interpretam. Daí eu posso formar a minha opinião a partir de várias ideias de várias pessoas. Na leitura de “A guerra dos mundos”, achei legal o jeito como os personagens agem. Eu gostei desse narrador personagem, porque ele conta como viu as cenas, então quando ele está com medo, ele vê a cena por um outro ângulo, vê tudo mais depressa, ele fica mais confuso. A dinâmica do grupo é muito boa, porque sempre quando eu acabo um pouco perdido, a gente pode discutir sobre o que acabou de acontecer e falar sobre o livro”.

Escola da Vila

O Vilalê acontece com os alunos do Ensino Fundamental 2, às sextas-feiras, no período da tarde.


¹CHARTIER, Roger. Escutar os mortos com os olhos. Revista Humanidades. Estudos avançados 24 (69), 2010. (p.23).

²COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo, Global, 2007.