Impactos da viagem pedagógica 2016

Por  Sandra Baumel Durazzo 

Visitar escolas em outros contextos é sempre uma experiência transformadora. Como já relatado pela Fernanda Flores, na recente viagem à Califórnia, o grupo teve o privilégio de conhecer projetos educacionais fantásticos. Entre muitos aspectos que os fazem ser merecedores desse adjetivo, destaco três que me chamaram a atenção: o protagonismo dos alunos em seu próprio percurso de aprendizagem, o valor da exposição dos produtos dos projetos e a formação dos professores.

A primeira escola visitada, Brightworks, em San Francisco, nasceu da observação de um engenheiro de software, sem filhos, de que as crianças de hoje são muito “protegidas”. Por protegidas ele entende “sem a possibilidade de experimentar perigos, desafios manuais e intelectuais, porque são mantidas em espaços fechados, constantemente supervisionados por adultos, que não permitem que eles vivenciem situações de rua”. Inicialmente trabalhando com cursos de férias e propostas extracurriculares no formato de oficinas makers, ele decidiu ampliar essa proposta para uma escola. Juntou-se com uma educadora, diretora de escola pública, que estava insatisfeita com as propostas educacionais para seus três filhos, e instalaram uma escola dentro de um galpão que já havia sido uma fábrica de maionese e um estacionamento de táxis. Sem construir salas com paredes, fizeram casas de madeira, no estilo “casa da árvore”, e ali começaram, com 19 alunos, uma proposta que pretende promover experiências ricas para esses estudantes. Hoje, com 64 alunos e crescendo a cada ano, a escola organiza o currículo em grandes temas, que são os mesmos para todos os grupos, e geram diferentes questionamentos e projetos abarcando os conteúdos de todas as áreas. O período (aproximadamente um trimestre) começa com a apresentação do tema e de propostas investigativas colocadas pelos professores, o que leva a desdobramentos liderados pelas perguntas, pesquisas, dúvidas e novas propostas dos alunos. Ao final da primeira fase, são as crianças e os jovens que devem elaborar uma forma de expressar o aprendizado por meio de algum projeto. Esses projetos são submetidos à aprovação dos diretores da escola e, com isso, ganham enorme seriedade tanto do ponto de vista da confecção quanto do rigor acadêmico.

brighthouse

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Percebe-se que o aluno toma para si a responsabilidade por aprender. Tanto no início, quando participa e tem voz nas investigações e estudos, quanto no momento de tomar consciência de seu aprendizado e ainda elaborar uma forma de transmiti-lo. Os projetos são depois expostos e muitos deles, como é comum em tantas escolas que visitamos, saem da escola e buscam interlocução na cidade, na comunidade ou no bairro.

O grande desafio para uma proposta como essa, a meu ver, é a formação da equipe de professores. Todos os adultos da escola se envolvem na tarefa de fomentar o aprendizado por meio de experimentação, e isso só pode acontecer se houver intensa atividade formativa nesse sentido. Em todas as escolas que visitamos, os professores são preparados usando estratégias similares àquelas que usarão com os alunos: instâncias de reflexão sobre a prática; discussões abertas buscando não uma verdade única, mas possibilidades de questionamento e aplicação de saberes das disciplinas; vivência na metodologia usada; e muitas revisões de decisões ao longo do caminho, tomadas sempre em equipe.

Outras escolas mostram o protagonismo do aluno de forma diferente. Na Summit, uma rede de escolas públicas, todo o currículo das disciplinas é trabalhado por meio de uma plataforma online. As aulas são virtuais e contam com tudo o que as nossas aulas tradicionais têm: exposições do professor; propostas de pesquisa e discussão a partir de um input dado, como um documentário, um filme, um texto, uma palestra; exercícios de prática e ampliação do conteúdo; etc. Só que cabe ao estudante organizar seu tempo e passar pelas várias “aulas” de cada disciplina. Ele tem que cumprir o programa, mas organiza seus estudos como achar mais adequado. Ao final de cada sequência, ocorre a avaliação, e a próxima etapa só fica disponível se o desempenho for adequado na anterior. Na organização do tempo escolar, há um horário definido para trabalhar na plataforma. Nós chegamos a uma unidade Summit exatamente nesse momento – Personalized Learning Time – e foi impressionante vê-los trabalhando. Em primeiro lugar, há um silêncio enorme na escola. Não se ouve um ruído a não ser vozes muito baixas trocando ideias, ou teclas sendo apertadas. Além disso, eles se comportam exatamente como jovens de qualquer lugar: sentam-se no chão, em duplas, sozinhos, nas mesas, enfim, onde acham que o espaço é adequado para seu estudo. Nesse momento, os professores atuam como orientadores, acompanhando também virtualmente o caminho do aluno e chamando-o para oferecer-lhe ajuda em qualquer coisa de que precise: na organização do tempo, na distribuição de tarefas pelas várias disciplinas, dando apoio em uma matéria ou conteúdo específico que o aluno demonstre não ter aprendido, analisando seus resultados nas avaliações.

Summit_personalized_learning_time

Além desse momento, os alunos participam de projetos que são liderados pelos professores, os quais abarcam os diversos conteúdos aprendidos nessa plataforma, mas são totalmente guiados pela investigação e pela ação dos alunos. Como nas outras escolas, a aprendizagem baseada em projetos está em prática e requer tanto a implicação dos alunos como a preparação dos professores para liderá-la. As paredes são tomadas por produções dos alunos, avisos de apresentações, frases que traduzem conclusões ou indagações sobre os projetos.

O que chama a atenção em todas as escolas que visitamos e na conversa com os alunos é o orgulho que eles têm de suas produções. A relação dos alunos com o produto exposto é real, e é o grande motivador da aprendizagem. Eles não fazem para tirar nota, mas porque o produto existe e será entregue a um destinatário

Visitamos também uma escola na região da Bay Area, a Lighthouse, escola que conta com um Creativity Lab. Lá nós passamos por um workshop que é usado na formação dos professores: Vivenciamos um momento de exploração, usando a ideia de aprendizado centrado em colocar a mão na massa, chamado de making-centered learning. Nós passamos pela mesma experiência que os alunos, percebendo que fazer realmente traz enormes possibilidades de aprender, e que esse aprendizado é totalmente apropriado pelo aprendiz que faz. A aprendizagem é dele, para satisfazer as necessidades e/ou as curiosidades dele! Parece óbvio, mas só vivendo a experiência para saber a dimensão dessa vontade de saber mais que é despertada ao literalmente desmontar um headphone!

Lighthouse_Making-centered-learning

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E todas essas escolas contam com resultados excelentes. Seus alunos entram nas faculdades para cursar o que eles chamam de 4-year-college, ou seja, para conseguir uma graduação relevante (major degree). Sua média de aprovação e retenção nas faculdades é muito acima da média do estado e do país (aproximando-se ou alcançando 100% de seus alunos), especialmente em meio à população atendida pelas escolas públicas, que são filhos de imigrantes, latinos em sua maioria, com pouca ou nenhuma história de estudo na família.

É assim que se vence a desigualdade. E só.

4 ideias sobre “Impactos da viagem pedagógica 2016

  1. Muito bom saber que as escolas da Califórnia estão totalmente voltadas para a aprendizagem por meio de projetos. Cabe a nós educadores que já utilizamos esta metodologia, dar cada vez mais autonomia e protagonismo aos alunos para que de fato a aprendjzagem seja significativa. Obrigada Sandra, por compartilhar conosco esta rica experiência.

  2. Sensacional! Aposto que nessas escolas nenhum aluno é “diagnosticado” como tendo “Déficit de Atenção e Hiperatividade”…
    Claro que os desafios também devem ser muitos (começando pelo de convencer professores com formação “tradicional” a abraçar a ideia…), mas vale a pena, para modificar o modelo comum, que trata crianças e adolescentes como robozinhos sem vontade nem opinião.

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