Uma viagem, um jardim

Por Priscila Maria Sbizera

Segunda-feira, 25 de abril, desembarco em Guarulhos com a cabeça a mil. Não, pelo menos não desta vez, belas paisagens de viagem ocupavam meus pensamentos enquanto caminhava pelo aeroporto e navegava de volta na cidade do caos. Desta vez o que não parava de latejar, como uma dor pulsante que incomoda, era a experiência de imersão nas escolas americanas ao longo de sete dias. A busca pelo novo e incessante conhecimento sendo atendida. As palavras, não só as dos educadores que nos atenderam, mas também as dos alunos em suas apresentações, ecoavam em minha memória.

Se fosse para descrever tudo o que me tocou nessa viagem, esse relato talvez demorasse a ter fim, pois quase como uma história que puxa a outra, haveria sempre muito mais para contar. Por essa razão, escolhi aqui relatar exatamente o que mais permeava as minhas reflexões durante o longo caminho de volta e que, confesso, até agora, quase vinte dias após as visitas, ainda me mobiliza.

Dentre outras escolas, visitamos duas unidades da escola High Tech, uma em Chula Vista e outra em Point Loma, dois lugares muito distintos de San Diego. A proposta pedagógica dessa escola tem como um dos princípios o trabalho por meio de projetos, organizados e encabeçados pelos professores, nos quais o protagonismo dos alunos é assumido como grande essência.

Ao entrarmos em ambas as unidades, após sermos brevemente recebidos pelos profissionais responsáveis, fomos apresentados a grupos de alunos que nos tutoraram. Na primeira unidade, um grupo de alunos do Ensino Médio foi responsável por nos apresentar a escola e nos explicar as diversas facetas do trabalho desenvolvido, bem como nos informar sobre a estrutura da unidade. Já na segunda, quem se ocupou dessa tarefa foi um grupo do Ensino Fundamental II. Soubemos, por exemplo, como as turmas são divididas, os projetos são elaborados, as questões disciplinares são tratadas, os professores são selecionados, e como funciona o sistema de avaliação. A prática de apresentar a escola para visitantes (de quaisquer cantos do mundo!), está tão incorporada pelos alunos, que os mesmos tratam sobre temáticas diversas da escola com muita propriedade, naturalidade e de maneira bastante didática, que quase nos esquecemos de que são, ainda, jovens alunos. Achei lindo de se ver! E eu, que sou professora de Ensino Fundamental I, fiquei ainda mais encantada quando, em um momento de observação livre pela escola, Fernanda e eu entramos em uma classe de 3º ano que estava vazia e fomos surpreendidas, em determinado momento, pela tutoria de três pequenos alunos.

Estávamos observando os registros afixados nas paredes da sala acerca do projeto que estava acontecendo na turma. Vimos muitas anotações, gráficos, histórias e outras produções sobre bichos de jardim. Enquanto íamos costurando o que víamos para entender o que se desenvolvia, professora e alunos entraram na sala. Ela nos cumprimentou e, vendo que estávamos interessadas em compreender o projeto, perguntou quem dos alunos gostaria de apresentá-lo. Praticamente todos os alunos se candidataram e, sem muitos critérios, a professora designou a tarefa para três crianças. Mas eles eram tão pequenos… Enquanto a professora e os colegas seguiram para o parque, com uma desenvoltura ímpar, os três se apresentaram, perguntaram os nossos nomes e nos conduziram até a área externa da escola, de encontro a um lindo jardim. Nele, cada pedacinho era destinado a uma espécie de animal. Havia plantas e objetos específicos para cada bichinho. Vimos até um parquinho de diversões construído com sucatas especialmente para as minhocas! Naquela doce mistura de conhecimento e imaginação, ficaram nítidas as intenções didáticas da professora e, sobretudo, que o planejamento do trabalho e as decisões envolvidas foram sendo tomadas pelas crianças. Elas sabiam explicar muito bem o motivo das coisas, como controlar toda aquela engenharia e o que haviam aprendido fazendo tudo. Mostravam-se donas da situação, falavam com muito orgulho e autonomia, tanto dos problemas como das virtudes que viam no projeto. E eram tão pequenas… E eram tão autoras de tudo aquilo…

Pois bem! É nessa educação que acredito. Talvez seja por isso, especificamente, nessa situação que tanto me mobilizou. Enquanto eu via e ouvia aquelas crianças, mesmo de longe, era como se eu visse e ouvisse os meus alunos. Aos poucos, consegui pensar em quantas coisas os meus alunos (desse e de outros anos) decidiram e assumiram, e em quantas outras eles ainda terão de se decidir e assumir pela escolaridade afora: Para quem vou escrever o meu texto? Onde encontro informações sobre os povos pré-colombianos? Como construo o meu planetário? Como desenvolvo uma campanha pelo consumo consciente da água? Quem pode me ajudar a entender melhor essa estratégia de divisão?

Tomada pelo ofício diário e por todo o embasamento teórico indiscutivelmente necessário, talvez eu tenha (re!)encontrado nessa experiência (tão singela e ao mesmo tempo tão grandiosa!) a beleza daquilo que vivo diariamente e tenha me certificado de que do nosso jeito singular de ser escola, de ser a Escola da Vila, queremos e lutamos para que os nossos alunos sejam os principais atores da aprendizagem, criem e vivam intensamente cada um de seus diferentes, particulares jardins.

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