O outro em nós: cultura e agrupamentos escolares

Por Fermín Damirdjian

Um rifle simples, apoiado no ombro de um rapaz, apontado para um alce. É um dia de sol no Alaska. Boa visibilidade. Neve, cores. As narinas do animal expiram uma névoa breve que um eterno sol poente insiste em iluminar. Para o rapaz, seria apenas apertar o gatilho, mas isso não ocorre. Um movimento acidentado se transfigura por trás de um arbusto, e traduz uma cria que procura a mãe, caminhando com dificuldade na neve fofa. O rifle desce, o rapaz olha decepcionado, mas convicto de suspender a caça que o alimentaria por alguns dias.

Trata-se de uma cena do filme Na natureza selvagem, primorosamente dirigido por Sean Penn (2004, EUA. 147 min). O personagem é representado por Emile Hirsch, em uma performance sensível, que expõe a saga de um jovem que rompe com seus vínculos afetivos e sociais para lançar-se em um caminho longo, somente com a roupa do corpo, pela Dakota do Sul, Arizona e Califórnia, e então rumo ao Alaska, onde procura viver por conta própria. Sua relação com a família é truncada e vazia de sentido. Formou-se no college com notas suficientes para seguir carreira em Harvard, e tem uma polpuda reserva financeira, oriunda de uma família que almejava esse desfecho acadêmico para filho. Ele, no entanto, doa todo seu dinheiro a uma instituição filantrópica e abandona a irmã, os pais e sua cidade. Viaja durante alguns anos até chegar no coração da inóspita província onde pretende seguir sua vida. Esse é seu projeto.

É uma história verídica, reconstruída em um livro escrito pelo jornalista norte-americano Jon Krakauer, que contribuiu para o roteiro do filme. É com a breve sequência de 12 minutos que apresenta sua formatura, seu rompimento com sua identidade civil, e seus primeiros momentos no Alaska que inauguramos “Ensino Médio na Escola da Vila”, no auditório, com todos os alunos do 1o ano. E por que essa escolha? A resposta requer algumas digressões.

As assembleias de classe começam no 2o ano do Fundamental I da Escola da Vila. O espaço para considerar abertamente os conflitos e anseios que conformam o cerne da convivência grupal é um sustentáculo fundamental para o desenvolvimento da linguagem e da percepção dos vínculos, matéria básica da condição humana. A sensibilidade na arte, o exercício cognitivo, a prática de esportes coletivos, as especulações lógico-matemáticas, as construções teóricas estão permeadas, de forma irremediável, pelo desenvolvimento moral. Sendo assim, todo e qualquer âmbito que possibilite a explicitação das diferenças e semelhanças entre as ambições dos diversos indivíduos que dão vida à escola − os alunos − está sempre em destaque ao longo de toda a escolaridade.

Um desses âmbitos são os trabalhos em grupo. É possível dizer que esse formato, fonte de produções exímias dos nossos alunos, é também o berço de conflitos dos mais radicais entre aqueles que produzem e os que “não fazem nada”. Discordamos, no entanto, de que ele seja o caldeirão que cria esse conflito. Ele é, sim, o âmbito onde se tratam as diferenças e também onde se gera um ambiente saudável de convivência. O engano está em acreditar que a criação de um bom ambiente de convivência seja possível sem a reunião dos membros em torno de um assunto a ser desenvolvido, seja ele estritamente acadêmico ou não. Se há tensões nessa convivência, procuramos propiciar práticas que a tornem mais construtiva do que destrutiva, e os trabalhos em grupo são uma instância de processamento dessa convivência.

No caso do Ensino Médio, essa experiência se torna mais exigente − como ocorre com os desafios que surgem a cada segmento − pelo qual o aluno avança. Dentro de cada grupo-classe, os subgrupos de trabalho, no primeiro trimestre, são previamente escolhidos pela orientação da escola, seguindo critérios de heterogeneidade. Tenta-se formar agrupamentos que contemplem um mesmo número de meninos e meninas, distribuir bem os alunos recém-matriculados na escola, e também reunir perfis diferentes. É bom saber que esses perfis não são estanques − ao contrário, os alunos, como qualquer ser em franco desenvolvimento − mudam, e muito.

Pois bem. Além de eles não escolherem os grupos, estes também são fixos, de modo que o mesmo grupo permanecerá ao longo de todo o primeiro trimestre, realizando trabalhos de disciplinas das mais variadas. Isso faz com que o grupo tenha oportunidade de corrigir seu funcionamento, de um trabalho a outro. Ao invés de um aluno preservar a sua forma de se comportar em grupo, ele está exposto ao parecer de seus colegas. Para tanto, a orientação educacional procura abrir espaços de avaliação e de negociação entre os integrantes para que consigam se ajudar.

É curioso observar como a figura do Outro pode ser um problema ou um conforto. Pouco antes do início das aulas, as redes sociais dos nossos alunos debatem intensamente sobre “com quem vou cair”. Uma verdadeira roda da fortuna se reflete nos olhos de cada um enquanto especula sobre perder ou não a sua matilha na estepe africana. Sabemos que o refúgio de um pequeno mamífero se resume à sua manada. E assim se portam os alunos quando entram em sala pela primeira vez. Ocupam as carteiras e alinham-se com quem podem se sentir mais reconfortados. No fundo, na frente, no meio, ao lado; cercado de amigos ou com apenas um colega que, quem sabe, pode compensar o distanciamento daqueles que a providência divina colocou na outra sala, ao fundo, no andar de cima. Longe dele.

A orientação conduz, então, uma discussão que parte do filme. Por que o sujeito não matou o alce? Pelo óbvio motivo de ter se sensibilizado por sua cria que ficaria órfã. Em uma sala falou-se em compaixão. Em outra, de respeito. Também entraram outros elementos, que apontavam para a ambiguidade de um sujeito que procurou se isolar da cultura de modo radical, mas que, ao mesmo tempo, não se entregou às leis da selva para sobreviver, por não poder abandonar a sua humanidade. Se, por um lado, o outro o repelia − nunca mais se teve notícias de Christopher McCandless, o personagem real, até que o jornalista Jon Krakauer rastreou todos os seus passos, do interior dos Estados Unidos até o México, e dali até o Alaska − por outro lado, esse outro estava presente dentro dele em forma nada menos que de cultura. A compaixão é de natureza humana, no fim das contas. E o preço por tê-la, se queremos viver como animais, pode ser determinante. Vale a pena assistir ao filme para entender essa ideia em sua amplitude.

A discussão apontou para os caminhos que serão trilhados por abordagens antropológicas, pelas quais os alunos irão transitar ao longo de todo o primeiro ano, especialmente na disciplina de filosofia.

Em um segundo momento, discorreu-se sobre facilidades e dificuldades dos agrupamentos. Cada um deveria pensar como, com as suas próprias características, poderia contribuir ou prejudicar o grupo e, em função disso, traçar uma meta. Logo, o grupo finalmente se reúne e se reconhece, e todos se apresentam com as suas próprias metas. Por fim, e mais importante, os alunos se debruçam sobre a redação de uma convenção que todos assinam de próprio punho e à qual retornarão sempre que, de um trabalho para outro, for preciso chamar a atenção de seus membros.

Toda essa sequência não se dá como forma de estruturar uma maneira coletiva de vigiar e punir, mas, sim, de ampliar e sofisticar as negociações inevitáveis entre as pessoas que conformam um âmbito coletivo, e das quais o desenvolvimento do conhecimento não pode se furtar a contemplar. Isso não pode ser feito sem um determinado grau de tensão, mas certamente quanto mais preparados estiverem todos, mais frutíferos serão os avanços.

Os desafios morais aumentam na mesma proporção que as exigências acadêmicas. O saber e a moralidade se desenvolvem em um mesmo processo. O cenário em que são cultivados vai determinar os valores que cada um levará dentro de si − seja em ambiente acadêmico, profissional ou longe do outro.

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