Projeto Zero – quando a pesquisa encontra a sala de aula ou vice-versa

Por Sonia Barreira e equipe da Vila em Boston

Um tour pelas salas do Projeto Zero, em Harvard, realizado com um grupo de educadores evidencia como a pesquisa acadêmica, que busca entender os fenômenos da aprendizagem interessam e nutrem aqueles que vivem a escola. O simpático Daniel Wilson, atual diretor, nos contava a história dessa iniciativa, que tem mais de 50 anos, e em cada corredor nos atualizava sobre as linhas de pesquisa em vigor.

O grupo todo, ainda que avisado que todo o material estava disponível no site, não se continha com as fotos e os registros; todas as linhas de pesquisa nos interessavam: os dilemas sobre o uso da tecnologia na escola, as diversas formas de avaliar, o papel da arte na formação das crianças e jovens, etc., uma após a outra, uma singela apresentação trazia à tona nossas convicções, dúvidas e vontade de aprender mais.

Por isso, foi importante ouvir, logo depois do tour – de Edward Clapp, investigador senior Learning Communitier – que é preciso cuidado quando se toma conhecimento de outras formas de entender ou de promover o desenvolvimento humano, pois, para além das estruturas pedagógicas, há os contextos em que esses processos ocorrem e que devem ser considerados. Em suas palavras:

Nenhuma estrutura pedagógica deve ser aplicada mecanicamente sem algum tipo de “tradução” para seu contexto sociocultural. Deve-se perguntar: essa proposição foi feita por quem e para quem foi desenhada? Mas, neste mundo diverso e complexo, é preciso entender as origens destas estruturas pedagógicas antes de assumi-las sem crítica ou contextualização. Edward Clapp – Learning Communities.

Ainda neste mesmo encontro, Benjamin Mardell, responsável pela linha de pesquisa que investe em tornar a aprendizagem visível – reforçou: o valor da viagem de vocês, neste contexto cultural distinto do brasileiro, é ter novas ideias e inspirações, claro, e isso é bom, mas acima de tudo estar em um ambiente diferente é bom porque os coloca num espelho – cada um pensando e examinando as novas ideias a partir de sua reflexão sobre seus próprios conhecimentos e práticas.

Importante ressalva que tenta evitar que os resultados das pesquisas virem moda e sejam aplicados de forma inconsistente e sem a devida adaptação e ressignificação por parte das equipes das escolas.

Daniel Wilson destacou os motivos pelos quais o PZ continua produzindo pesquisas que interessam aos educadores: “os nossos pesquisadores estão interessados no potencial humano: criatividade, pensamento, aprendizagem, ética. São as capacidades que nos definem como humanos. Uma das razões para o Projeto Zero ter vivido durante mais de 50 anos é porque tem feito perguntas sobre este potencial. E este potencial é perene, por isso as questões são ainda relevantes, apesar da mudança de contexto e da mudança do mundo.”

Ao falar sobre o futuro do PZ, Daniel Wilson prevê: “Um dos tópicos mais importantes para o futuro do Projeto Zero é a questão da Ética. Se há algo de positivo no surgimento de movimentos radicais nas sociedades democráticas é a chamada para nos voltarmos para o entendimento do que significa ser ético ou antiético. Temos de trabalhar com as crianças, os adultos, as comunidades – Já há muito bons trabalhos sendo realizados no mundo.

O grupo de educadores da Vila trocou olhares significativos depois deste destaque, pois a questão da ética e da formação moral de nossos alunos sempre foi uma preocupação central em nosso projeto. Que alívio! Mudamos as maneiras de encaminhar essa formação ao longo dos anos, mas mantivemos a mesma preocupação de quando começamos: escola é muito mais do que conteúdo disciplinar. Por isso concordamos emocionadas com as colocações de Daniel, que encerraram nosso encontro:

“Temos a responsabilidade moral como educadores de relembrar à nossa comunidade que as escolas são mais do que um lugar para se conseguir futuros empregos! Se olharmos a história das escolas, elas foram fundadas com a vocação de formar cidadãos. E agora é a hora mais do que necessária de lembrar isso a nossas comunidades e também mostrar a elas este trabalho.”  

Estamos mais do que nunca com esta convicção e com esta motivação! ______________________________________________________________________________

A equipe que representou a Vila foi composta pelos seguintes profissionais:

Sonia Barreira, Fernanda Flores, Beatriz Mugnani, Juliana Karina, Veronica Bochi e Luisa Furman

4 ideias sobre “Projeto Zero – quando a pesquisa encontra a sala de aula ou vice-versa

  1. Obrigada à toda equipe do Centro de Formação pela viagem. Foi minha primeira e espero que não seja a última. Como o Daniel Wilson reforçou, o mais importante é que a nossa realidade como “especialistas em aprendizagem” seja um reflexo do dia-a-dia que exigimos de nossas crianças: APRENDER TODOS OS DIAS!

    Que tenham mais viagens!

  2. Nossa equipe agradece os comentários, procuramos sempre difundir o que aprendemos e estimular os educadores a irem em busca de alimento para suas práticas reflexivas. Abraços a todos

    Sonia Barreira

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