Descobrindo livros e habilidades leitoras

Amanhã, teremos a quinta edição da Vila Literária, celebração da literatura, da poesia, da metáfora e da arte. Momento de viver experiências artísticas que revelam um pouco mais do que somos, de nosso imaginário. Momento de entrar em contato com artistas que fazem do ato de inventar, escrever e contar histórias, recitar poemas ou criar oficinas seu principal caminho no mundo. Momento de celebração da literatura como linguagem que nos constrói, nos diverte, nos emociona e nos informa.

No espírito deste evento, convidamos a autora Maria Emília López, que gentilmente e em primeira mão, nos cedeu a publicação de um artigo de seu último livro “Un pájaro de aire. La formación de los bibliotecarios y la lectura en la primera infancia” em que nos convida a pensar sobre as funções da literatura na vida cotidiana e o quanto as mediações feita por leitores experientes na relação com esse mundo da ficção são essenciais à capacidade de imaginar.

Descobrindo livros e habilidades leitoras
Os relatos, o tempo, a escuta

Por María Emilia López

Os seres humanos precisam narrar; construir relatos não somente nos permite alinhavar a história da humanidade e nossa própria história pessoal, como também é a possibilidade de enlaçar a vida que nos acontece com a fantasia. Mas para isso é indispensável uma valoração poderosa da imaginação.

A cultura contemporânea pode nos deixar expostos a certo sofrimento quando falamos da fantasia. Se predomina a oposição entre fantasia e realidade, isso significa que realidade é o que existe e fantasia, o que não existe. Gianni Rodari, que sustentou uma postura crítica ante esta perspectiva em inúmeros textos e experiências criativas com crianças, se pergunta: “Por acaso os sonhos não existem? Os sentimentos não existem, porque não têm corpo? De onde a fantasia tiraria materiais para suas construções se não fosse, como realmente faz, dos dados da experiência, já que os únicos dados que entram na mente são aqueles da experiência?” 1Entretanto, na cultura da educação muitas vezes observamos uma forte ruptura entre o imaginário e a realidade; segundo essa perspectiva, existem conhecimentos mais e menos valiosos em função de sua racionalidade ou da possibilidade de serem comprovados. A literatura, e a arte em geral, podem ficar presas nessa falsa dicotomia, e é aí onde a experiência com os livros se empobrece, quando os relatos construídos graças aos frutos da imaginação acabam submetidos a certa lógica da racionalização ou à mera transmissão de informação, mesmo com crianças muito pequenas e em âmbitos não escolares, como nas bibliotecas.

Qual o papel da imaginação na linguagem cotidiana? O que um mediador faz com o texto literário quando tenta levá-lo ao terreno da explicação? O que as crianças recebem da linguagem quando os livros que colocamos à sua disposição são atravessados por imperativos escolarizados, que implicam “tirar o máximo proveito deles” em função de outros aproveitamentos, teoricamente mais vantajosos e úteis para a vida do que a possibilidade de habitar a ficção, de sentir o comichão não verbal do nosso ser? 

A verdade da ficção, a necessidade de imaginar

Diz Marina Colasanti: “E podemos entender que formar leitores não é sacar leitores de  dentro da manga, não é fabricar leitores a partir do nada, mas dar forma e sentido a um leitor que já existe, embrionário, dentro de cada um. E onde se esconde este embrião de leitor, que tantos se mostram incapazes de ver? Para quem sabe olhar, não se esconde. Está contido, a plena luz, em uma das primeiras necessidades do ser humano, a necessidade de narrações.”2

Pensar nos bebês e crianças pequenas que recebemos nas bibliotecas como leitores implica considerar, em primeiro lugar, essa necessidade narrativa como condição do desdobramento da fantasia e da linguagem e, ao mesmo tempo, constitutiva do desenvolvimento. As intervenções e os modos de aproximação aos livros que propusermos serão fundamentais para potencializar ou ofuscar essas construções.

Os livros como enigmas

Em sua veemente crítica àqueles que fazem da imaginação um bem secundário frente à realidade, Rodari afirma: “Existem dois tipos de crianças que leem: as que leem para a escola, porque ler é seu exercício, seu dever, seu trabalho (agradável ou não, tanto faz); e as que leem para si mesmas, por prazer, para satisfazer uma necessidade de informação (o que são as estrelas, como funcionam as torneiras) ou para pôr a imaginação em ação. Para ‘brincar de’: se sentir um órfão perdido na mata, pirata e aventureiro, índio ou caubói, explorador ou chefe de um bando. Para brincar com as palavras. Para nadar no mar das palavras conforme seus caprichos.” 3

Quando começamos a perguntar aos bibliotecários quanto às suas representações sobre a leitura, de modo geral encontramos olhares mais próximos às crianças que leem por dever, para obter informações úteis, para “exercitar” suas capacidades cognitivas. A leitura pela própria leitura — por curiosidade ou necessidade pessoal, pelo prazer que a literatura produz — não aparece em um lugar muito interessante; de modo geral, é secundária em relação ao ensino ou à incorporação de conhecimentos do mundo real (no caso dos mais novos, por exemplo, as cores, os nomes das coisas, os meios de transporte, as ações da vida fática) ou é vista como um mero entretenimento, de importância duvidosa. Iniciemos, então, o trabalho de despir-nos das concepções herdadas sobre a leitura.

Em geral, observamos que o exercício de dedicar tempo para ler e explorar os livros infantis não surge espontaneamente nos bibliotecários ou educadores. Por esse motivo, a maioria dos livros é desconhecida para eles.

Para atender a essas duas grandes questões — as representações prévias sobre a leitura e a escassa exploração dos acervos —, começo propondo uma grande mesa de livros. Dedicamos várias sessões a ler e pesquisar de que se trata esse material, que questionamentos produz, o que fariam com ele. Lemos individualmente e em pequenos grupos. Cada um no seu ritmo, com todas as interrupções que forem necessárias, com todas as pausas. Destaco a diferença entre “folhear” e “ler”. Muitas vezes os adultos apenas folheiam os livros para as crianças, como se não houvesse a necessidade de se aprofundar, como se os livros não oferecessem territórios de indagação, conflitos, desmesuras para as quais é preciso tomar um bom tempo de leitura.

A partir deste trabalho, são postas sobre a mesa as dificuldades, os julgamentos sobre certos livros e sobre as possibilidades ou limitações dos pequenos leitores, também a magia que produzem alguns livros, a alegria, o prazer e a surpresa de se encontrar com relatos e ilustrações inesperadas e maravilhosas. “Nunca imaginei que os livros de primeira infância fossem me fisgar assim”, diz Luis Ernesto Granados, bibliotecário, enquanto tenta sair — com sucesso relativo — do livro “Pinguim”4, porque estávamos por começar a conversa.

Este treinamento do olhar implica o encontro com outros usos da linguagem, além da informação, que nem sempre forma parte das expectativas dos adultos. Torna-se então necessário compartilhar pontos de vista e às vezes questioná-los, porque muitas vezes esses modos de olhar estão tingidos de preconceitos. Teorizamos sobre os livros, a arte, a literatura, a informação, com os materiais em mãos. Nos perguntamos o que significa imaginar a partir da leitura conjunta de “El trapito feliz” (The Happy Rag) 5, de Tony Ross, ou “Onde vivem os monstros” 6 de Maurice Sendak. Surgem especulações a respeito de até onde as crianças são capazes de interpretar uma imagem; ensaiamos leituras possíveis de “Onde está o bolo?” 7 ou de “Tenho medo”8 o livro do colombiano Ivar da Coll. Estes livros que cito são somente alguns pouquíssimos exemplos dos muitos títulos com os quais construímos problematizações. Essa tarefa implica uma série de relações de pensamento entre todos os participantes, leituras em voz alta, hipóteses, discussões e argumentações sobre cada ponto de vista. Então os modos de ver se expandem e os diversos gêneros e estéticas se transformam em tema de análise.

Sobre a variedade do acervo e seus conflitos

As coleções de livros que formam o material para o trabalho com a primeira infância oferecem uma amplitude interessante: livros de contos, de poemas, trava-línguas e charadas, feitiços, livros com música, livros-discos, livros-álbum, livros-álbum sem palavras (escritas), livros com repertório tradicional, livros de autor, livros informativos, científicos, livros-objeto, livros-jogo, livros para todos os gostos.

Entre os livros que provocam mais estranhamento estão aqueles sem palavras escritas, nos quais a ilustração tem um protagonismo especial; livros que muitas vezes deixam os adultos “mudos”, mas que são interessantíssimos para as crianças. “Chigüiro y el lápiz” (Capivara e o lápis)9 e toda a série Chigüiro, por exemplo, livros nos quais Ivar da Coll dá vida a seu personagem com elementos simples, e a brincadeira, o humor, como ingredientes fundamentais. A leitura desses livros deixa alguns desconcertados, a ausência das palavras parece um poço de águas escuras onde se submerge a potência do que vemos, porque é inegável que as ilustrações proporcionam uma grande quantidade de informações; contudo, para o adulto acostumado a se debruçar sobre as palavras, o relato da imagem não é suficiente. Por outro lado, é como se a palavra trouxesse consigo certa “fidelidade” ao sentido, relativizado diante de uma imagem que deve ser interpretada. Talvez esta dificuldade surja da crença em um sentido fechado dos textos, ou da complexidade de pensar que, com ou sem palavras, com ou sem ilustrações, a imaginação do pequeno leitor tem suas derivas próprias, suas fugas, e nunca será capturada por completo em nenhuma palavra, imagem ou sentido.

Existe uma suposição de que as crianças pequenas só conseguem perceber o que se propõe em imagens figurativas, cores plenas, estéticas realistas. É surpreendente observar, se paramos para fazer um seguimento de suas leituras, a quantidade de elementos que eles descobrem antes do adulto em determinadas ilustrações, ou como relacionam elementos aparentemente desconexos para o olhar do pai, mãe, bibliotecário ou professora. Crianças pequenas são naturalmente surrealistas, têm a capacidade de estabelecer lógicas alternativas a partir da liberdade com que circulam suas imagens mentais e associações.

Os mundos paralelos da leitura

Diz Roland Barthes: “Nunca aconteceu, ao ler um livro, de você ir parando constantemente ao longo da leitura, e não por desinteresse, pelo contrário, por causa de uma grande afluência de ideias, excitações, associações? Resumindo, nunca aconteceu de você ler levantando a cabeça?”10

Que interessante se aplicamos esse pensamento às crianças. E os bebês, quantas vezes será que as ressonâncias desses livros que os bebês leem, ou que lemos para eles, os deixam cheios de ideias simultâneas? Quantas vezes eles levantam a cabeça e não percebemos? Ou haverá modos de perceber? Se estamos em uma relação de intimidade e compromisso para com a criança, é provável que notemos mais claramente seus estados de ânimo, seus pensamentos, mesmo sem palavras capazes de transmiti-los, e partindo desse ponto de vista é mais provável deixar fluir o processo próprio de leitura da criança. Quando a intervenção do adulto é estereotipada ou impõe um ritmo ou uma única forma de ler, provavelmente a criança sente uma rejeição do que pensa, percebe ou rememora quando lê ou quando leem para ela.

No começo é o adulto que passa as páginas do livro, mas rapidamente o bebê passará a exercer esse poder por si mesmo. A leitura em voz alta dos textos que acompanham as imagens, apontar as imagens em conjunto com o que se lê, é parte fundamental do processo leitor, que atribui significado à escrita transmitida pela oralidade em relação à imagem. Essa ação também colabora para a discriminação entre leitura e escrita.

Por isso, ao desenhar um projeto de leitura para crianças pequenas, é indispensável pensar na formação dos mediadores de leitura que vão acompanhá-los, sejam professores, pais, bibliotecários, todos nós que, de algum modo, transmitimos nossos próprios modos de ler, arraigados em nossa experiência pessoal.


Este artigo foi extraído do livro “Un pájaro de aire. La formación de los bibliotecarios y la lectura en la primera infancia”. Buenos Aires: Editorial Lugar, 2018.

Tradução de Patricia Moura e Souza


1 RODARI, G. La imaginación en la literatura infantil. Revista Imaginaria, Buenos Aires, n. 125, mar. 2004.

2 Colasanti, M. Fragatas para terras distantes. Rio de Janeiro: Record, 2004.

3 Ibid.

4 DUNBAR, P. Pinguim. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

5 ROSS, T. El trapito feliz. México: Fondo de Cultura Económica, 1999. (A la orilla del viento)

6 SENDAK, M. Onde vivem os monstros. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

7 TJONG-KHING, Thé. ¿Dónde está el pastel? (Onde está o bolo?, não publicado no Brasil). México: Castillo, 2007.

8 DA COLL, I. Tenho medo. São Paulo: Iluminuras, 2015.

9 DA COLL, I. Chigüiro viaja en chiva (Capivara viaja de ônibus, não publicado no Brasil). Bogotá: Ediciones Babel, 2012.

10 BARTHES, R. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

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