O Funeral de Okjökull

Por Mateus Moreira e Pablo Candiani, educadores de biologia e ciências naturais na Escola da Vila

Texto desenvolvido com base no Seminário Educação para Sustentabilidade.

A Islândia está promovendo um funeral inédito, o de Okjökull. OK, como era carinhosamente chamada, é a primeira geleira a morrer e a ganhar um funeral naquele país. Triste e preocupante! Mais preocupados ainda ficamos, ou deveríamos ficar, quando lemos a placa que está sendo instalada na rocha onde ficava a geleira, formando um memorial. Nela vemos a seguinte inscrição:

“Uma carta para o futuro”.

OK, foi a primeira geleira do país a morrer. Estima-se que nos próximos 200 anos todas as outras geleiras islandesas – mais de 400 – tenham o mesmo destino. Com esse monumento, reconhecemos que sabemos o que está acontecendo e o que precisa ser feito. Só você – do futuro – saberá se o fizemos.

A preocupação com as alterações ambientais devido às ações antrópicas em nosso planeta não é recente.

Eugene Odum, renomado biólogo com especialização em Ecologia de Sistemas, já em 1983, iniciava seu livro Basic Ecology, reconhecendo que a Ecologia deixava de ser uma área de estudo exclusiva da Biologia, tornando-se cada vez mais uma disciplina integrada, unindo as ciências naturais e as sociais, com um enorme potencial para aplicação nos assuntos humanos, como chamou, uma vez que as situações do mundo real quase sempre incluem um componente de ciência natural e um componente socioeconômico e político. Dessa maneira, precisamos compreender a natureza complexa do tema se esperamos encontrar soluções duradouras para problemas críticos. Assim, a Ecologia, termo cunhado pelo alemão Ernst Haeckel no século XIX, foi reconfigurando-se ao longo das décadas. Da mesma forma, a Sustentabilidade vem tomando novos contornos diante de uma sociedade que cada vez mais compreende o caráter complexo e interdisciplinar das questões que envolvem o nosso planeta.

Em 1972, em Estocolmo (Suécia), a ONU convocou a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, que resultou em um documento com 26 princípios com o objetivo de “inspirar e guiar os povos do mundo para a preservação e a melhoria do ambiente humano”. Esse manifesto estabeleceu as bases para a nova agenda ambiental do Sistema das Nações Unidas. Entre os princípios apresentados, pelo menos 10 estavam diretamente relacionados à preservação do ambiente. Em 2015, após diversos encontros e reformulações do documento, os países tiveram a oportunidade de adotar a nova agenda de desenvolvimento sustentável e chegar a um acordo global sobre a mudança climática, produzindo o documento “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, com 17 objetivos para serem alcançados até 2030, sendo que apenas quatro desses objetivos estão ligados diretamente ao meio natural, evidenciando a importância dos aspectos socioeconômicos na sustentabilidade do nosso planeta, como a erradicação da pobreza, das desigualdades sociais e da fome.

Reconhecendo que há um esforço global em busca de uma sociedade mais sustentável, qual o nosso papel como educadores diante desse panorama?

As práticas educativas ambientalmente sustentáveis apontam para propostas pedagógicas centradas na criticidade dos sujeitos, com vistas à mudança de comportamento e atitudes, ao desenvolvimento da organização social e da participação coletiva. Essa mudança paradigmática implica uma mudança de percepção e de valores, gerando um pensamento complexo, aberto às indeterminações, às mudanças, à diversidade, à possibilidade de construir e reconstruir, em um processo contínuo de novas leituras e interpretações, configurando novas possibilidades de ação (JACOBI, RAUFFLET e ARRUDA, 2011).

Nesse contexto, no primeiro semestre de 2019, foi criado na Escola da Vila o SustentaVila, grupo de discussão sobre o tema, que conta com representantes das três unidades com participação de funcionários da direção, coordenação, orientação, administrativo, professores e alunos, auxiliados por uma consultoria que tem como foco a sustentabilidade. O objetivo é fomentar a discussão e o ensino sobre o tema, recuperar ações já realizadas na Vila e implantar novas, além de consolidar o tema na cultura da Escola a partir de práticas que orientem o trabalho institucional. Inicialmente, foram definidos quatro frentes de atuação: água, energia, resíduos e relações interpessoais.

Com o intuito de tornar esse árduo trabalho perene e ampliar a discussão sobre o tema, as escolas do Grupo Critique realizaram em abril de 2019, em São Paulo, na Escola da Vila e na Escola Viva, o 1º Seminário Educação para Sustentabilidade. Desse encontro, foi elaborado um documento com os Princípios Norteadores da Educação para a Sustentabilidade das escolas do grupo.

Dando continuidade às discussões, representantes das escolas se reuniram novamente em junho de 2019 no Rio de Janeiro (na Escola Parque e no Centro Educacional Viva) no programa de residência que há no Grupo Critique. Os participantes tiveram a oportunidade de conhecer o que já é realizado nessas instituições de ensino, compreender o processo de criar e recriar projetos, aprender com a experiência de outras escolas e ampliar a visão sobre os desafios inerentes ao trabalho com sustentabilidade.

Há muito por fazer para consolidar a educação em sustentabilidade, e fica claro que a escola é um espaço privilegiado para tal. O ambiente escolar é um local propício para promover o debate, construir e compartilhar ações. Também é essencial a boa formação dos profissionais e a mobilização de toda a comunidade escolar. Repensar os currículos e tratar o tema de forma integrada, transversal e interdisciplinar é imprescindível, já que a sustentabilidade se caracteriza por incorporar as dimensões socioeconômica, política, cultural e histórica, não podendo se basear em pautas rígidas e de aplicação universal, e deve considerar as condições e estágios de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica.

Mudar comportamentos e criar uma cultura de sustentabilidade na qual as pessoas de uma escola ou da sociedade estejam engajadas não é simples. De quantos funerais ainda queremos participar? A quais outros iremos assistir? Das florestas tropicais? Das geleiras e do gelo das regiões polares? Das cidades litorâneas? Da ciência de qualidade? Do pensamento crítico? É fundamental que as instituições de ensino zelem pela educação para a sustentabilidade com seriedade e comprometimento.


Referências Bibliográficas

Jacobi, P. R., Raufflet, E., & Arruda, M. P. (2011). Educação para a sustentabilidade nos cursos de Administração: reflexão sobre paradigmas e práticas. Revista de Administração Mackenzie, 12(3), 21-50.

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