Nosso currículo não é o índice do livro didático, a BNCC não é o currículo

Por Susane Lancman, diretora do Ensino Médio

Desde que começou a divulgação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), uma pergunta tem sido feita frequentemente: como era organizado o currículo, se não tinha uma base curricular nacional?

Não era perceptível nem questionável para a maioria das pessoas a falta de uma grade curricular para as séries de toda a escolaridade. Quer dizer, não havia uma Base Nacional que determinasse o que ensinar e como ensinar. Todavia era possível perceber uma certa homogeneidade entre a maioria das escolas na escolha curricular, isso porque muitas delas se pautam em três fatores:

  • exames externos, o que significa que os vestibulares de certa forma determinam o que deve ser ensinado;
  • a tradição, o que significa que de geração em geração alguns conteúdos são ensinados e isso se perpetua;
  • índice do livro didático, o que significa que a indústria editorial direciona os conteúdos.

Na Escola da Vila, a escolha curricular sempre se deu em função de dois fatores, uma formação geral consistente e uma formação acadêmica de qualidade. O que não significa que desconsideramos os exames externos, até porque fazemos ações específicas à medida que os alunos vão chegando ao 3o ano do EM, mas sabemos que a preparação para esses exames se relaciona com os dois fatores, isso quer dizer que uma boa formação possibilita uma boa aprovação nos exames, como tem sido com nossos  alunos formandos. Além disso, nossas escolhas curriculares estão pautadas em pesquisas pedagógicas do campo da didática e não simplesmente pela aceitação da tradição. Por fim, o livro didático é um apoio ao trabalho e não o cerne da nossa ação pedagógica.

Afinal, o índice do livro didático é composto pelos conteúdos da disciplina, e o currículo vai muito além dessa listagem de conteúdos conceituais. Há de se considerar em um currículo os conteúdos procedimentais e atitudinais, além de outros conteúdos interdisciplinares e transdisciplinares. O mesmo podemos dizer sobre a BNCC: ela não é o currículo. Assim, continua imprescindível cada escola ter seu projeto pedagógico pautado na pergunta central: que tipo de aluno e cidadão se quer formar?

A ideia não é que as escolas substituam o índice do livro didático pela listagem da BNCC, da mesma forma que a Escola da Vila não substituirá o seu currículo pela BNCC, ela fará parte do nosso currículo. Sem dúvida será preciso muita análise do que é feito em sala de aula para que sejam propostas reformulações, adequações e mudanças, mas é preciso preservar o que nos caracteriza em nossos valores pedagógicos e o que avaliamos que é de muita qualidade para uma formação integral dos alunos.

Vale esclarecer que a legislação que regulamenta o sistema educacional, público ou privado, da educação básica ao ensino superior, é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) promulgada pela primeira vez em 1961 e depois reafirmada em 1996. E nessa lei já estava estabelecido que deveriam ser feitos três documentos: os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) e a BNCC. Os PCNs foram feitos em 1997 e são compostos por diretrizes para cada disciplina visando orientar a elaboração curricular. Já os DCNs são definições sobre princípios, fundamentos e procedimentos que orientam as escolas em vários aspectos da ação pedagógica. Por fim, a BNCC estabelece os conteúdos básicos que devem ser ensinados para todos os alunos, sem deixar de levar em consideração os diversos contextos nos quais estão inseridos. Podemos dizer que os PCNs e as DCNs tinham como foco responder à grande questão de COMO ENSINAR e a BNCC estabelece O QUE ENSINAR.

Há muita discussão sobre a quantidade do que é chamado “conteúdo básico” e até mesmo sobre a escolha dos conteúdos. Mas há aspectos da Base que são avanços para a educação brasileira, tal como considerar o aluno não somente como um ser cognoscente, mas também como um ser social, comunicativo e emocional. 

Isso significa que o aluno deixa de ser só um repositório de conteúdo e passa a ser considerado um sujeito reflexivo, comunicativo e com necessidades. O educador Paulo Freire em seu livro Pedagogia do Oprimido afirma “[…], o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes”.

Na Escola da Vila, nosso foco de estudo em todos os encontros com professores é a busca de compreender como os alunos aprendem, e a partir daí buscar as formas de ensinar, considerando como central no processo de ensino e aprendizagem o aluno. Assim, construímos nosso currículo tendo como base esse sujeito, características de faixa etária, estudos acadêmicos sobre as diferentes etapas do desenvolvimento cognitivo, social e afetivo e o contexto socioeconômico e político. Não há como desconsiderar o entorno em que os alunos estão inseridos, o contexto em que vivem, com suas tragédias, trânsitos, conflitos e descobertas. Pelo contrário, a ideia é apresentar a realidade em sua complexidade e pelos diferentes pontos de vista. Há muito a aprimorar em nosso trabalho, nessa busca incessante de fazer um currículo que tenha SENTIDO para o aluno, gerando aprendizagens significativas.

No Ensino Médio, segmento em que há os maiores desafios para construir uma escola com sentido para os alunos, em função do excesso de conteúdos e características da faixa etária, estamos em uma empreitada nos últimos anos analisando vários aspectos de nossa prática em função da BNCC e de nossas próprias demandas internas. Agora podemos anunciar: o ENSINO MÉDIO DA VILA VAI MUDAR, conservando seus valores e a qualidade do trabalho.

2 ideias sobre “Nosso currículo não é o índice do livro didático, a BNCC não é o currículo

    • Olá Debora,

      será um prazer explicar as mudanças do EM, tanto o processo que implicou toda a equipe pedagógica, quanto os impactos curriculares para os alunos. Mas, neste espaço do blog não será possível. Assim me coloco a disposição para encontro ao vivo.

      Posso adiantar que organizamos uma carga horária para formação básica e outra para os itinerários formativos. Além disso, o currículo está organizado em torno de enfoques temáticos com estreita relação com grandes questões contemporâneas, de modo que permitam produzir conhecimentos e intervir na realidade por meio de projetos. Esta nova organização não exclui, necessariamente, as disciplinas com seus saberes próprios, mas implica no fortalecimento das relações entre elas.
      Att, Susane

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *