Jornadas que contam muito

Por Sonia Barreira, direção geral

Convidamos nossos ex-alunos a voltarem para um encontro na escola, rever os amigos, relembrar desta paisagem que foi cenário diário de pelo menos 3 anos de suas vidas, rever professores e responder a duas perguntas para todos nós: o que aconteceu depois que você saiu da Vila e o que a Vila teve a ver com isso?

Eles vão chegando meio sem graça, com o apoio de um amigo, ou sozinhos, e quando percebem que foram reconhecidos por aqueles antigos adultos, hoje um pouco mais envelhecidos, a tensão some e o sorrisão de criança volta a iluminar seus rostos. A cada dois anos este cerimonial simples, mas intenso se repete

Nossa Regina Chacur, ex-professora de Matemática e atual assistente de coordenação do Ensino Médio, prepara com carinho e atenção esse reencontro, busca as fotos, convoca a todos, faz parceria com a nossa produção, estimula os ex-professores a participarem, enfim, ela é a alma do encontro!

Os abraços são verdadeiros, pois representam o elo com aquele momento tão importante para todos nós que é a adolescência. Fomos testemunhas daquelas vidas, daqueles corpos, fizemos parte das suas histórias de vida, deixamos marcas e fomos marcados por eles! Estávamos lá, portanto, foi verdade!

Neste ano, recebemos duas turmas queridas, a de 2008 e a de 2009. Seus relatos compuseram um cenário bastante comum nestes encontros: a variedade de trajetórias, a riqueza das experiências e as dificuldades das decisões. Para nós, que fazemos isso todo ano, é engraçado ver as turmas recuperarem certos mitos interessantes: a Vila nunca se preocupou muito com vestibular (no entanto nenhum deles deixou de fazer cursos em faculdades de muito prestígio, muitos deles com mestrado, doutorado e alguns inclusive com pós doc!!!), a Vila sempre foi mais dá área de humanas (embora no grupo houvesse médicos, farmacêuticos, biólogos, agrônomos e engenheiros).

Advogados, publicitários, educadores, gente disposta a deixar confortáveis oportunidades para atuar no serviço público, empresários preocupados com o bem-estar de seus funcionários, gente querendo fazer a diferença, gente bacana, gente que dá um orgulho danado.

Em seus relatos, a retomada de experiências que foram importantes, sob o olhar atento e emocionado de professores protagonistas deste processo formativo. Profissionais que igualmente relatavam o quanto a Vila foi relevante em suas vidas profissionais.

Nós, adultos desde aquela época, ressignificamos nossa profissão nestes momentos, retomamos nossas convicções e saboreamos os resultados sempre tão distantes no dia a dia da escola.

Nos reconhecemos nas palavras de uma ex-aluna, que postou esse texto após o encontro. (Nos reconhecemos, mesmo havendo algum exagero de sua visão afetiva, e reproduzimos aqui, porque sabemos que ela é porta-voz de grande parte daquele grupo). Com vocês, Clarisse Almeida, irmã de Francisco Almeida e de Rafael Nogueira aluno do nosso atual 2º ano do EM.

10 anos de formada na Escola da Vila. Dez, rapá. Uma década que me fui da escola que me forjou. Que me criou. E que nunca se foi de mim. Pioneira no ensino construtivista no Brasil, a Vila trabalha pela produção autônoma e participativa do conhecimento de forma coletiva por um projeto pedagógico de diálogo, cooperação e transformação social em comunidades democráticas. Lá, aprendíamos em grupos enquanto dividíamos mesas em salas que partilhávamos no meio de pequenas florestas com saguis. Além do currículo, tínhamos aulas de política e história da arte em semiarenas, capoeira, coletivos, projetos sociais em periferias e aldeias indígenas, olimpíadas de esportes, vilada cultural com música, festivais de poesia, bibliotecas de acervos infinitos, laboratórios de ciência avançada e acesso à tecnologia até pra produções audiovisuais nossas. O nosso grêmio chamava Ágora. Recuperação chamava Sistema de Melhoria de Aprendizagem. Novos alunos tinham cicerones. Pra tomada de decisões em sala, éramos inquietados a formar assembleias. Foi lá que aprendi a ler desde Karl Marx até Adam Smith. E a entender nossos modos de produção. Foi lá que aprendi a debater e ir a campo. Com inteligência e sem exotização. Foi lá que aprendi que o conflito é inerente à realidade. A entender o dissenso. A desigualdade. E como batalhar pra mudá-la. Com a escola, aos 15 anos, viajamos ao Rio, onde entrevistamos uma líder de uma organização não governamental de prostitutas em um cortiço. Estudando o abismo entre favelas e coberturas, trabalhamos à deriva entre as noções de autonomia e coletividade. Com a escola, aos 16 anos, dormimos em um assentamento e visitamos um acampamento do Movimento dos Sem Terra no interior de São Paulo, nos reunindo com os trabalhadores em grupos de discussão sobre reforma agrária, concentração fundiária e educação de base. Com a escola, aos 17 anos, fomos a Brasília procurar entender o poder, nossa Capital Federal e nosso sistema político construído com sangue de candangos, ouvindo moradores de cidades-satélites, observando a arquitetura e ministros, conversando com deputados e senadores, visitando salões, plenários e corredores do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. Naturalmente, a vida foi nos levando pra ventos um bocado distintos. E ontem nos reencontramos. Até hoje, meu grupo de melhores amigos é de lá. Já há 25 anos. Nesse encontro, se misturam professores, músicos, biólogos, administradores, publicitários, juristas, psicólogos, engenheiros, veterinários, ecólogos, arquitetos, economistas, atores, médicos, produtores, fotógrafos, farmacêuticos e outros mais. Eu, no entremeio migrante entre ser uma poeta frustrada que virou burocrata e quer ser professora, entre ser advogada, pesquisadora, gestora pública e educadora popular, com formação híbrida em Direito, Ciência Política e Filosofia, e ainda querendo entrar pra História Econômica, entendo o porquê nunca consegui ser uma coisa só. Na Vila, somos no plural e no singular a um só tempo. Os saberes não podem ser departamentalizados. Nós não podemos ser atomizados. Ou divisionados. Somos todos um corpo. Um todo orgânico. Dez anos depois, uns se veem mais e outros menos, uns têm menos afinidade outros mais, uns brigam mais e outros menos, mas pra além do amor, pra além de afetos e desafetos, sei o que nos é comum. E não abrimos mão. Conhecimento é emancipatório. É libertador. E crítica é arma. E sensibilidade também. Obrigada a meus pais, meu dueto baiano desterrado de luta e ternura, que batalharam a vida toda pra me dar a melhor educação não só dentro, mas fora de casa. Fafá e Péri me ensinaram que somos fortuitas exceções de uma dolorosa regra. E jamais me esquecerei da onde eu venho. Obrigada, tua, minha e nossa Escola da Vila. Eu só te queria não só pra poucos, mas pra todos.”

Completando, no próximo ano, 40 anos de vida, a Vila vem se esforçando para formar gente que construa jornadas significativas porque sabemos que, para o mundo, isso conta muito!

Uma ideia sobre “Jornadas que contam muito

  1. Que depoimento emocionante! É isso, orgulho de fazer parte dessa história. Eu que escolhi a Escola da Vila para educar meus filhos, e depois tive o privilégio de fazer parte da equipe de professores que formam seres humanos como a Clarisse. Sorte gente! Que vocês multipliquem as suas certezas por esse mundão!

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